ISSN 2178-499X

Editorial

Siglia Leão

Mais um Cien-digital está aí, na rede.

Esse número se apresenta justamente no auge de um tempo fervoroso, em que o discurso é comandado pelo racismo e pelo ódio à diferença, em que a palavra está ameaçada de circular livremente. Ou ainda, de um discurso à parte, onde não há palavra, reina a pulsão.

Nesse contexto, como contingência ou interpretação precisa de um momento já anunciado, o tema da VI Manhã de Trabalhos do Cien-Brasil cai muito bem. Seu argumento, que abre esse Cien-digital 22, incide justamente sobre a fala, a singularidade e a diferença; sobre o dizer do sujeito, sobre o ato e a palavra. “Como cada criança e cada jovem pode constituir e sustentar seu lugar frente à intolerância?” é uma das perguntas norteadoras dos trabalhos a serem apresentados no próximo dia 23 de novembro, no Rio de Janeiro.

Chamada para Evento

O que falar quer dizer?

Comissão de coordenação e orientação do CIEN-Brasil: Paola Salinas (Coord. Geral), Mônica Campos Silva, Mônica Hage e Vânia Gomes.

Em 2008 a Manhã de trabalhos do CIEN-Brasil teve como tema “A oferta da palavra hoje: quais as respostas do CIEN?”, indicando uma tendência generalizada no uso da fala como instrumento de transformação e ação. Em uma perspectiva utilitarista aliada à ciência, essa oferta da palavra foi tomada, no mundo, como instrumento de eficácia, buscando uma previsibilidade do sujeito e a produção de respostas pré-concebidas. Como consequência constatava-se que o mal-estar, o enigmático, inerente ao humano, não encontrava um lugar.

Frente a isso o CIEN se posicionava com “A oferta de dispositivos onde a palavra pudesse se tornar, pela forma como é escutada, um instrumento de criação de respostas e de abertura de caminhos inéditos – ou ainda, como indicou Judith Miller, o inconsciente pudesse no mundo contemporâneo, tornar-se audível”. Isto é, que pudesse ter um lugar no discurso.

Hífen

Conversação Internacional do CIEN 2017

Beatriz Udenio e Juan Carlos Indart

Toda conversação tem um começo e um final. E chegamos ao final. Assim como foi reiterado durante o trabalho desta jornada, talvez tenhamos a sorte de sair um pouquinho transformados pelo encontro. Diria que existem sinais de que algo assim irá acontecendo.

As pontuações e perspectivas ficaram ao encargo de nosso assessor de fato, Juan Carlos Indart, que vem nos acompanhando há muito tempo com sua presença e intervenções. Alguém que se refere ao trabalho do CIEN com grande generosidade, citando-o como exemplo da incidência, não só desejável ou possível, mas concreta da psicanálise no mundo contemporâneo.

ENTREvista

ENTREvista com Daniel Roy

por Paola Salinas

Diferentemente do Brasil, na França o Institut de L’Énfant (I.E. – Instituto da Criança) reúne o trabalho das três redes: CIEN, CEREDA e RI3. Gostaríamos que você nos contasse um pouco como se dá a articulação entre essas três redes e quais os pontos de aproximação entre elas. O que pode ser recolhido como uma especificidade do CIEN nesse contexto? Ademais, o que uma rede pode extrair como ensinamento da outra, a saber, o que uma pode ensinar à outra?

LABOR(a)tórios

Quando o diferente
toma a palavra

Bárbara Snizek Ferraz de Campos e Renata Silva de Paula Soares

Se a sala de aula é palco de diferentes impasses, o Laboratório Ciranda de Conversa se norteia pela aposta de que as crianças e adolescentes, ao serem escutados em suas posições de sujeitos, podem inventar saídas próprias e originais para suas questões singulares. Sabemos que acolher a diferença é mais do que uma proposta de inclusão escolar, é dar voz ao estranho no outro e em si próprio…

Juntos, não
misturados

Soraya Alves Pereira

Viver junto e não se perder no Outro, dividir um espaço comum, com regras e tratamentos comuns e não ser afastado de si mesmo, de sua mais íntima diferença. Como “ser junto” sem se misturar uns nos outros, mantendo suas vontades, seus gostos, modos de ser, de sofrer, de estar no mundo?
Desafios diários da vida num abrigo que acolhe crianças e adolescentes que não encontraram na família…

Desejo e Laço no campo da educação

Virgínia Carvalho

A experiência inter-disciplinar e de conversação no campo da educação nos permitiu a criação do Laboratório “Docentes Doentes: deixe-os falar!”. O nome foi destacado da fala de um educador que sintetizou, nos dois termos, o significante de seu mal-estar. Diferente de uma vitimização dos docentes, doentes, a conversação era uma aposta de que, através da circulação da palavra, algo do desejo pudesse ser tocado.

“Eles não deviam
estar ali”

Laboratório Infância Errante (CIEN-Rio)

No tempo da inexistência do Outro, quando o declínio do patriarcado promove uma verdadeira queda dos ideais, a ausência de referências deixa o adolescente mais propenso às condutas de risco. É o tempo dos desenganados e da errância, segundo Miller (1996-1997), questão já enunciada por Lacan (1938) desde seu texto sobre os complexos familiares.

O encontro com a criança na instituição: invenção e solidão. 

Cláudia Regina Santa Silva

O laboratório O saber da criança vem traçando sua caminhada na localização de impasses dos profissionais que, trabalhando em algumas instituições, ficam divididos entre o que é apresentado a partir de uma normatização e o que é dar voz ao singular. São instituições como escolas, unidades de saúde mental infanto-juvenil, estabelecimento de acolhimento de crianças e adolescentes, aos quais o laboratório tem acesso.

Mães
em Crise

Juliana Motta, Cristina Marcos. Participantes: Clara Ratton, Beatriz Bissoli, Lucas Anselmo Lopes, Laila Sampaio, Marconi Martins da Costa Guedes, Renata Mendonça, Rhayane Medeiros.

O Laboratório “Mães em Crise” acontece no Instituto Raul Soares – FHEMIG, um hospital manicomial público. A equipe do IRS, ao longo destes anos, sustenta um trabalho a partir do caso a caso, a favor da luta antimanicomial, reescrevendo sua história a cada vez…

O que a recusa à
fala quer dizer?

Giselle Fleury (Laboratório Pipa Avoada. Participantes: Vilma Dias, Jorge Carvalho, Alessandra Caldas, Bruna Montechristo, Camila Macedo, Wagner Erlange e Roberta D’Assunção)

O laboratório Pipa Avoada se dedica à investigação da criança e do adolescente que, no laço social, experienciam a relação com a droga, a violência e a vulnerabilidade social. Qual lugar para a droga na adolescência? Que lugar para o tratamento de adolescentes usuários de drogas?

Contribuições

O que “praticar o CIEN” quer dizer?

Emelice Prado Bagnola

Para ler o efeito da experiência de tratar o encontro com o Real, por meio da participação nas conversações do laboratório, preciso recuperar, de entrada, quando o significante CIEN surge pelo caminho.

Todo o trabalho que temos em uma análise em direção ao Um pressupõe o retorno ao coletivo do nosso mal-estar particular: quer seja este dentro dos assuntos de família ou aquele aplicado a uma comunidade.

Aqui tomo família como o berço das ficções, o espaço onde se constitui o sintoma que na relação entre o eu e o Outro institui a fórmula da fantasia, e do lado coletivo, na estrutura como a de uma cidade, os acontecimentos da vida cotidiana, sua política e sua arte, que entram no jogo e também podem produzir marcas no sujeito, inscrições, que determinam os seus modos de gozo.

Órbita

Que tipo de criança
audiovisual você é?

Jon Russo

O convite para escrever sobre minhas experiências com a produção audiovisual voltada ao público infantil torna-se uma grata oportunidade à reflexão e ao pensar no trajeto profissional trilhado até aqui.
No ano de 2001, junto com outros dois amigos, decidimos criar um estúdio de produção audiovisual, Usinanimada, voltado principalmente a produção de animações e que tivesse como norte a criação autoral, ou seja, a materialização de nossas próprias ideias. No início das atividades do estúdio desenvolvemos todo tipo de material…

FÓRUM RACISMO – Por que existem apenas raças de discurso: desafios para a democracia

Ana Lydia Santiago

A segunda metade do século XX foi palco de grandes mudanças no espírito do capitalismo, que teve como consequência o avanço e a globalização dos mercados. Desde então, a crescente unificação de preferências dos consumidores e de seus padrões de consumo passa a alimentar a intolerância em relação ao diferente e faz aparecer o impossível de suportar, quando as diferenças se precipitam em um espaço único. Em razão dessa conjuntura, ocorrem fenômenos que concretizam o que Jacques Lacan, em 1973, em entrevista a Jacques-Alain Miller, tratada em Televisão, tinha profetizado como a proliferação futura do racismo.

História do CIEN Brasil

Texto de Mônica Hage Pereira

“O CIEN e a sua política: a aposta da conversação é uma aposta sobre o corte?” é um texto produto de trabalho realizado em cartel escrito em 2013. Ao comentar o que traz Lacan, no Ato de Fundação, que “para a execução do trabalho adotaremos o princípio de uma elaboração sustentada num pequeno grupo”, Miller destaca que o cartel é o meio para executar esse trabalho, e não o fim em si mesmo. E foi, então, esse meio que elegemos para iniciar o nosso trabalho, “investigativo”, movidos pelo desejo de saber o que era o CIEN – uma sigla de quatro letras, e “decifrá-las” apenas não era suficiente para iniciar o que avistávamos no horizonte. Era preciso o trabalho de elaboração, partindo do que se apresentava como questão para cada cartelizante, cujo resultado seria o produto de cada um.