ISSN 2178-499X
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Quatro perspectivas sobre a diferença sexual

by cien_digital in Cien Digital #23, Hífen

Autor: Steve Johnson Imagem: crystal-glass-on-a-colorful-background https://www.pexels.com/

Autor: Steve Johnson
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Intervenção na 5ªJournnée d´étude de l´Institute psychanalytique de l´Enfant
Daniel Roy

A cada dois anos, o Comitê de iniciativa do Instituto da Criança submete a Jacques-Alain Miller propostas de tema para a próxima Jornada. Em 2021, apenas uma proposta – “A diferença sexual” – foi unânime. J.-A. Miller aprovou e confiou a Marie-Hélène Brousse e a mim, a apresentação. Se o texto de orientação que esperávamos, como de costume, vai nos fazer falta, de minha parte vejo nisso um convite feito a cada um de nós, bem como aos grupos e redes do Campo freudiano, para produzir um saber de peso frente às desordens rápidas da clínica. Essas últimas, especialmente sensíveis no campo da infância, testemunham a deriva ocorrida nos continentes de nossas convicções – os semblantes que nos mantêm – e de nossos hábitos – os gozos que nos convêm –, deriva que produz linhas de falha e zonas de fratura. A diferença sexual é o nome de uma dessas zonas privilegiadas.

O psicanalista, nem guardião do templo nem libertador moral

Entrando no mundo que a precede, cada criança é a primeira a ser confrontada com essa falha; ela vai carregar doravante a marca de origem, inscrita na língua sob os nomes diferentes de “menino” e de “menina”, “homem” e “mulher”. Mas essa zona sexo e gênero tornou-se incerta e objeto de aposta entre correntes antinômicas. Esta aposta está especialmente representada hoje, na mídia e na clínica, pela angústia e pelo discurso das crianças ditas “transgênero”. Elas não se reconhecem no sexo que lhes é atribuído e afirmam muito cedo a convicção de terem nascido em um “corpo ruim” ou em um “falso corpo”. Teremos que aprender com o fato de que essas crianças formulam como primeira demanda uma mudança do nome próprio para um outro, que elas mesmas escolheram. Nos interrogamos sobre essa solicitação endereçada à família, ao corpo social, depois ao jurídico, de lhes fornecer uma identidade sexual que seja estável e nova, introduzindo assim um regime derrogatório à lei comum, que refere a partilha do sexo, bem como o nome e a filiação, ao efeito de um dizer, de uma declaração, da parte de quem se assume responsável pela chegada de um novo ser falante ao mundo.

Esse fato, clinicamente demonstrado, de que um sujeito possa não querer passar por essa via comum nos convida a reconsiderá-la e a interrogar as identificações sexuais. De um lado, elas parecem deduzir-se “naturalmente” da diferença entre os sexos e, de outro, parecem vir em seu apoio, acomodá-la e inscrevê-la no mármore da ordem simbólica. Os psicanalistas são frequentemente interpelados por esta questão, seja como guardiões do templo edípico, seja como propagadores do liberalismo moral mais desenfreado.

Nossa via, no Instituto da Criança e no Campo Freudiano, consiste em confrontar nossa prática, nossa clínica, às pistas abertas por Freud e por Lacan. Estas pistas ainda são atuais? Elas apresentam respostas ainda válidas diante dos impedimentos, dos embaraços e das inquietações encontradas pelas crianças, por seus pais e seus educadores? Propomos quatro perspectivas sobre a “diferença sexual”, extraídas das obras de Freud e de Lacan, nos referindo à leitura de Jacques-Alain Miller, particularmente ao seu texto “Os seis paradigmas do gozo”.

Novo e singular: o sexual faz a diferença!

A primeira perspectiva é aquela indicada por Freud no prefácio aos seus Três ensaios sobre a teoria da sexualidade de 1910. Ele exprime ser “seu ardente desejo que o livro envelheça rapidamente – que o que nele, uma vez, foi novidade, possa tornar-se geralmente aceito e o que nele estiver imperfeito possa ser substituído por algo melhor.” Porém, nos dois prefácios seguintes, em 1914 e 1920, ele constata que esse desejo não foi atendido e que a recepção de sua teoria sexual estava distribuída entre acusações de pansexualismo e resistência assumida a essa parte de sua descoberta. O fator sexual, tal como ele o introduz no discurso universal, é de fato uma novidade que não pode ser “universalmente admitida”. Novo e singular, tal é o caráter do sexual como ele se apresenta no tratamento analítico. A posição que o sujeito, desde a infância, assume em relação a esse elemento de novidade e a esse elemento de singularidade, introduz para ele o germe de sua diferença absoluta. Isso é fundamental no tratamento, mas igualmente no plano da civilização, pois significa que há uma diferença que não tem sua origem em uma segregação, contrariamente a todas as outras diferenças produzidas pelo social.

Isto introduz uma dificuldade particular: nenhum código permite ao sujeito decifrar o que lhe acontece e, portanto, ele não sabe por que aquilo lhe acontece, nem o que quer dizer. Contudo, está a seu cargo. E é diante dessa falha que vão se construir as teorias sexuais infantis e se edificar as diversas identificações da infância. Assim, com Freud, o sexual faz a diferença e essa posição radical confere estilo à ação do psicanalista: preservar essa singularidade, bordejar essa novidade quando ela se torna violenta demais.

O falo: um órgão bem particular

A segunda perspectiva abre-se em 1923, com o texto intitulado “A organização genital infantil” e continua em 1925 com “Algumas consequências psíquicas da diferença anatômica entre os sexos”. O novo ator introduzido é um órgão muito particular, o falo, que nos termos de Freud exerce uma “primazia” sobre a vida sexual infantil para os dois sexos. Ele é particular porque sua eficácia só se sustenta em ser possivelmente perdido. É o que Freud chama de “castração”, e a fase fálica é o momento em que cada uma e cada um é convocado a tomar posição em relação ao valor de uso desse órgão para eles. Um século de psicologia enfraqueceu esse argumento decisivo. É uma área de turbulências na qual entram meninos e menina:

– Os meninos entram com angústia e sob a ameaça, por serem portadores do que deve ser perdido para fundar a diferença. Que valor atribuir, então, ao que eles creem ter? As satisfações pulsionais presentes não vêm desmentir as promessas futuras?

– Para as meninas, como o valor que elas atribuem ao seu “não ter” vai determinar a posição delas? Aceitação tingida de inferioridade e tendendo à renúncia? Ou então abrindo para um uso da falta que vai da espera até a preferência absoluta dada a esta falta? Ou ainda uma posição de revolta que a conduz, como ao menino, a um mundo de ameaça?

Não é por acaso que essa perspectiva culmina com os textos de Freud que tratam da feminilidade e de numerosos textos de suas alunas mulheres, pois ela mostra um ponto de fuga: não ter o que é preciso para aferir a diferença coloca a menina na posição de estar sob o impacto da diferença, sem dispor dos meios para limitá-la em seu próprio corpo. Lacan designará esse momento “a querela do falo”. Não é de surpreender, um só falo para os dois sexos, é guerra garantida! Ela estaria ainda tendo continuidade, de acordo com os jornais e os gender studies…, mas nós devemos acreditar neles?

Diante da prova do desejo do Outro

A terceira perspectiva foi elaborada por Lacan entre 1956 e 1959 nos seus Seminários A relação de objeto, As formações do inconsciente e O desejo e sua interpretação, e em seu texto de 1958 “A significação do falo”, no qual propõe uma solução superior à querela do falo. Ele faz deste último um terceiro termo, que vai ser o eixo em torno do qual pode se operar uma repartição dialética entre homem e mulher. Mas que falo é esse do qual se pode dizer, respondendo a Freud, que os fatos clínicos “demonstram uma relação do sujeito ao falo que se estabelece sem considerar a diferença anatômica entre os sexos”? Este terceiro termo é o falo como significante, significante do desejo do Outro. Segundo Lacan, a posição estrutural inicial da criança é a de querer ser o falo para satisfazer o desejo da mãe, e não que ela queira tê-lo ou que consinta ou não em tê-lo ou não tê-lo. É isso que ele chama de “a prova do desejo do Outro”, a respeito da qual dirá que “a clínica nos mostra que ela é decisiva, não porque o sujeito aprende se ele tem ou não o falo real, mas porque ele aprende que a mãe não o têm”

Essa “prova” se apresenta, portanto, como a via de construção de um objeto inexistente, da presença de uma ausência. O encontro com o “falo da mãe” designa um momento essencial do tratamento da criança, em que se repete na transferência esse enigma do O que ele quer de mim? que será o motor do tratamento. Ele também designa o momento em que “o sujeito descobre que o Outro não sabe”.

Mas se esse falo assume possivelmente toda a responsabilidade do que há de sexual na diferença, e se, para responder “a esse falo, o que a criança tem não vale mais do que o que ela não tem”, então o que ela tem para oferecer? E como fica a pulsão sexual, seus objetos e os acontecimentos do corpo que deixam traços de seu impacto, todas essas coisas que escapam ao Outro e que estão no fundamento da solidão e da diferença?

Como se inscrever no discurso sexual?

A quarta perspectiva toma forma no ensino de Lacan dos anos 1970-1972 – Seminários 18 e 19 – no curso dos quais ele reformula as coordenadas da inscrição de cada ser falante no que ele chama nesta oportunidade de “o discurso sexual”. Todas as perspectivas precedentes estão presentes e, no entanto, nada é igual. O que mudou?

Autor: Brien Scott Imagem: abstract-wave-of-colors https://burst.shopify.com/

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Distribuição e distinção

Lacan parte de uma constatação: “de modo algum precisamos esperar pela fase fálica para distinguir uma menina de um menino; já muito antes eles não são iguais, em absoluto. E aí nos deslumbramos.” Há certamente uma diferença, mas esta não é “sexual”, pois se houvesse diferença sexual, ela estabeleceria com efeito uma relação entre os dois sexos, uma relação de diferença. Essa dita “diferença” responde ao fato real de que “na idade adulta é próprio do destino de seres falantes distribuírem-se entre homens e mulheres”. É uma distribuição, não anatômica, mas de puro semblante: “o que define o homem é sua relação à mulher, e vice-versa”. Enquanto nomeados “homem” ou “mulher”, eles não têm outra existência, que significante. Estes são os semblantes por excelência. E é assim que eles se abordam, como os sites de encontro exploram tão bem.

Fundando-se sobre essa “distribuição” entre homem e mulher, é que meninos e meninas se distinguem e, mais precisamente, que “são distinguidos” no discurso, desde que chegam ao mundo. É isso que faz com que “essa diferença que se impõe como inata é, com efeito, muito natural”, dirá Lacan. O que é gravado como diferença é, em sua essência, uma distinção, como um título de nobreza ou uma citação insuportável: existem as “eminentes mulheres” e os “eminentes homens”. De onde vem, então, que essa distinção de puro semblante adquira para o sujeito valor real de gozo sexual?

Solidariedade dos semblantes 

J.-A. Miller destacou em seu texto “Em direção à adolescência” a expressão de Lacan “a imiscuição do adulto na criança” para destacar “Há uma espécie de antecipação da posição adulta na criança”. Nós a aplicamos aqui a esta distinção menino/menina, que se opera a partir da repartição no andar superior homem/mulher.

Um primeiro aspecto dessa imiscuição é que as identificações sexuais são sempre dependentes de semblantes: tudo o que vai tentar dar consistência a uma identidade sexual, viril ou feminina, se verá inevitavelmente desdobrada na dimensão da mostração ou da mascarada. Eis a dimensão chamada, hoje em dia, de “gênero”.

A outra dimensão, mais fundamental, repousa sobre o fato de que, do lado do adulto, o gozo dito sexual se encontra “solidário de um semblante”. Assim, numa “situação real”, isto é, cada vez que o sujeito é convocado como homem ou mulher, esses semblantes têm uma eficácia real, que se produz como obstáculo entre os dois.

Há uma forte tese de Lacan: no encontro dos corpos sexuados, “o real do gozo sexual enquanto destacado como tal, é o falo”. O falo é aqui o “obstáculo” feito à relação entre os sexos e, portanto, “à bipolaridade sexual”. Ele não é o nome do gozo sexual na relação de um sexo a outro – essa é a promessa da pornografia, que substituiu a fantasia –, mas de preferência o index do gozo sexual enquanto ele se interpõe entre um sexo e o outro. O falo aqui perde seu estatuto de significante da presença do sexual, mas ganha sua função de significado do gozo: é o efeito surpresa do tratamento analítico, segundo Lacan.

A imiscuição do adulto na criança é o fato de a criança ser conduzida para receber uma distinção e a se distinguir menina ou menino em função deste semblante constituído na idade adulta segundo uma outra lógica e outra economia de gozo, distinta daquela que prevalece na infância. Como ela vai levar isso em consideração, se ainda não lhe é pedido para acertar o “preço que terá adquirido, na continuação, a pequena diferença”? Fica estabelecida aqui uma solidariedade de semblante entre as gerações, solidariedade que indica e encobre ao mesmo tempo o real do gozo em jogo e que confere consistência à estrutura familiar, sob suas modalidades tão diversas. A família aparece, assim, tanto como o lugar onde se transmite a falha do sexual, como o lugar em que ela se mascara, sem a mediação do Édipo, mas não sem a castração, aqui castração do gozo.

Nosso acolhimento e nosso trabalho junto às famílias atuais poderão esclarecer sobre o que se elabora neste lugar. Indica-se a constância da dimensão de “religião privada”, que pode fornecer uma consistência a cada uma: ao mesmo tempo, mostração do gozo e ritos que o sacrificam com o propósito de lhe perpetuar a existência. Mas é também a possibilidade ofertada aos homens e às mulheres do século para não se apagar ou se esconder atrás das figuras da paternidade, da maternidade ou da parentalidade. Unicamente isso pode abrir caminho à novas maneiras de ser pai e de ser mãe, standard prévio, o que não acontece sem angustiar aqueles e aquelas que aí se engajam.

A crise do falo

Meninos e meninas são distinguidos a partir de uma escolha de gozo, que determina as posições homem e mulher, e que faz passar por uma repartição significante: é o que Lacan chama de “o erro comum”. Este erro introduz a todo momento na subjetividade uma situação de “crise”, isto é, de escolha. Lacan, nesse ponto, retoma as coordenadas freudianas de fase fálica para extrair a lógica. “A verdade com a qual não há um desses jovens seres falantes que não tenha de se confrontar é que existe quem não tenha falo. É uma dupla intrusão na falta, porque existe quem o tenha, e ainda por cima, essa verdade faltava até então.” O que há de novo deve ser situado na dimensão de acontecimento no campo da verdade: “É que a uma nova verdade não podemos contentar-nos em dar lugar, porque é de assumir nosso lugar nela que se trata. Ela exige que nos mexamos.”

Nessa perspectiva, a dita crise não é cronológica, mas lógica, no sentido de que é sempre atual. Não nos habituamos, não há idade para ela. Esta dupla intrusão da falta é ativada a cada vez que o sujeito tem que tomar lugar em uma “situação real” em que seu desejo e seu gozo estão implicados, em que ele é confrontado com o enigma do desejo do Outro ou com a insistência de sua demanda, com o seu amor ou seu ódio, ou com a presença de seu gozo, que esta situação real o concerne, direta ou indiretamente, por identificação a um terceiro.

A crise da fase fálica pode então ser considerada como uma crise do próprio falo, que no momento em que ele passa a semblante, torna-se instrumento da função castração para o ser falante cada vez que sobressai o ganho de sua identificação sexual, adulto ou criança.

Identificações e sintomas

Uma identificação sexual, quer seja a de “menina” ou a de “menino”, “homem” ou “mulher”, não é sempre uma identificação de crise? Três razões para isso:

– ela é instável, pois projeta o corpo falante no universo dos semblantes, o que não se opera sem perda, uma perda sem garantia, que se nomeia “castração”;

– ela é sempre atual, no sentido de se operar a partir de uma escolha hic et nunc;

ela é sempre sintomática, na medida em que os semblantes convocados fracassam em inscrever o gozo em jogo, gozo sexual sempre em excesso na economia de gozo do corpo próprio; ela destaca a discordância entre os semblantes e o gozo.

Não seria nesse momento de crise que a psicanálise ou o praticante são solicitados por um desses distúrbios da criança que proliferam hoje sob denominações que são a roupagem dos experts? Nós não teríamos que fazer ressoar o valor da inibição, do sintoma ou da angústia para a criança? Estes diversos distúrbios não seriam com efeito respostas e defesas face a este momento de crise, em que se vê abalada a identificação fálica que sustentava até então esta criança? Devemos considerar que esta identificação fálica – sempre disponível no tempo da infância e atualmente privilegiada no seio da família e no discurso corrente – permite realmente a uma criança se manter à distância das questões da identificação sexual? Não deveríamos considerar de preferência a crise do falo como o momento fundamental em que se sintomatiza a vida da criança, em que ela começa a aprender o regime sinthomático de sua inscrição no discurso sexual? “A identificação sexual não consiste em alguém se acreditar homem ou mulher, mas em levar em conta que existem mulheres, para o menino, e que existem homens, para a menina”. Manifestamente há muitas maneiras de levar isso em conta e o fato de que não são de nenhuma forma normatizados.

Eis o novo deal, no qual estão engajados meninos e meninas, doravante mais diretamente confrontados com os embaraços da castração, tais que encarnam para os homens e para as mulheres que vivem no entorno e os acolhem. Esta falha adquire nome na língua que é falada à criança e na qual ela é falada – o nome de “diferença sexual” –, correndo o risco de todos os mal-entendidos e erros. Nós não os denunciamos como sendo ficções, bem ao contrário, e acolhemos como tal as ficções da criança que nos fala, ficções que carregam a marca da diferença absoluta que elas contêm, sempre sexual.

No texto “A criança e o saber”, J.-A. Miller nos apresenta o vetor que guia nossa ação: “Cabe ao Instituto da Criança restituir o lugar do saber da criança, disso que as crianças sabem.” Para os dois próximos anos iremos, portanto, nos informar sobre o que as crianças, meninas ou meninos, sabem da diferença sexual, do que querem ou não saber a respeito, e do que podem ou não podem saber.

 


Texto estabelecido por Hervé Damase e Frédérique Bouvet, relido pelo autor.
Tradução e revisão: Cristina Vidigal, Ana Lydia Santiago e Ana Helena Souza
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O buraco negro da diferença sexual

by cien_digital in Cien Digital #23, Hífen

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Intervenção na 5ªJournnée d´étude de l´Institute psychanalytique de l´Enfant
Marie-Hélène Brousse

Daniel Roy realizou com afinco o ordenamento dos avanços sucessivos, desde Freud até Lacan, sobre este tema “A diferença sexual”. Construiu o quadro tal como ele se desdobra hoje na Orientação lacaniana implementada por Jacques-Alain Miller com a ajuda de uma bússola, o gozo, conceito delicado. Ele o fez introduzindo em sua abordagem as mudanças importantes que tiveram lugar no discurso do mestre e seu avesso, o discurso analítico. Ele nos mostrou como Lacan, tão sensível às mudanças na modernidade, chega a antecipar movimentos no discurso do mestre antes mesmo deles aparecerem, demonstrando com isso a força preditiva da psicanálise quando a clínica se alia à lógica e à topologia. Diante disso, encontrei-me livre para introduzir algumas pistas de pesquisa suplementares para os próximos dois anos.

A diferença: potência do binário

Sexual ou não, pequena ou grande, a diferença é um dos fundamentos da ordem linguística. Ela opera, pois antes de tudo é uma operação de separar e ligar, ao mesmo tempo. Constitui pares que permitem, seja de maneira metonímica, seja metafórica, um ordenamento dos significantes, das palavras, dos conceitos, das imagens, dos sons. Basta ler J.-A. Miller[1] e se dar conta da potência da diferença e, logo, dos binários, para colocar ordem no simbólico. É assim que o laço social opera e todos os negócios humanos podem se reduzir a ele.

O discurso estende, de fato, a operacionalidade da diferença inicialmente à ordem social, à família, mas de forma mais geral a todas as estruturas institucionais: os vivos/os mortos, os ricos/os pobres, os oprimidos/os opressores, os bons/os maus, e, last but not least, os homens/as mulheres.

Mas a diferença é também um modo de satisfação que produz gozo, tanto se afirmando – pois cada falasser goza de sua diferença –, quanto se apagando. É então o gozo da mesmice, aquele do “nós” contra os outros, fraternidade que Lacan mostrou estar no fundamento do racismo[2]. A mesmice está também no fundamento do machismo. Da ordem diferencial, resvala-se para a ordem segregativa. Não há segregação que não se prenda a uma diferença atribuída aos modos de gozo. A diferença, que funda a ordem simbólica e alimenta as satisfações imaginárias, tem efeitos de real.

A diferença sexual, classicamente binária, passa por uma desordem inédita. Um certo número de movimentos de opinião tenta arrancá-la do binário S1 – S2 para pluralizá-la – LGBT – ou apagá-la: recusa do gênero ou exigência do neutro. Uma das tendências da época consiste em privilegiar o ou inclusivo – ou a, ou b, ou os dois – em detrimento do ou excludente – ou a, ou b, mas não os dois. Contudo, “gênero obriga”[3], correlativamente a esses movimentos emancipatórios, se desdobra também, em reação, um movimento conservador que se afirma contra na vida política mundial: Bolsonaro, Trump, a ascensão de religiões e de seitas. Viu-se, na França, esse movimento se manifestar contra o chamado “matrimônio para todos”[4], retornando às representações da diferença sexual tradicionais do patriarcado.

Todo o ensino de Lacan aborda a questão da diferença sexual nos seres falantes, não a partir da natureza, mas da linguagem e do sujeito. Essa mudança radical de ponto de vista diferencia o falo do pênis, logo, o significante do órgão, e culmina no Seminário 20, mais, ainda. Passagem do sujeito ao corpo falante, a diferença cessa de ser organizada pela ordem binária e cede lugar a uma oposição não binária entre o Todo, incluindo todos os seres falantes de qualquer gênero que sejam, e o não-todo, que precisamente não permite mais à diferença binária consistir.

Mas não tão rápido! Partamos da clínica com crianças, que ainda nasce com frequência na estrutura familiar tradicional. D. Roy termina seu texto com esta indicação dada por J.-A. Miller em sua intervenção pronunciada por ocasião da primeira Jornada do Instituto da Criança: “Cabe ao Instituto da Criança restituir o lugar do saber da criança, disso que as crianças sabem”[5]. Oriento-me por essa recomendação, que confere aqui ao genitivo seu sentido revolucionário, seu sentido próprio, e, por consequência, confere ao Instituto da Criança seu poder. Não o que nós – psicanalistas, adultos – sabemos das crianças, mas o que aprendemos da boca das crianças. Eis a revolução psicanalítica operada por Freud com as histéricas. Lacan aplicou essa fórmula da extração do saber pela clínica analítica ao pé da letra, ao longo de toda sua trajetória.

Mutação das estruturas de parentesco ou a segunda morte de Laio

Um analisante relata em sessão o que acabara de lhe acontecer. Em uma manhã de domingo, estando na cama com sua esposa, na intimidade de seu quarto, conversando de maneira descontraída, chega o filho caçula e, colocando-se ao pé da cama, lhe lança: “Você, você vai ter uma surpresa”, e retorna para seu próprio quarto. Volta depois com sua espada de plástico e, sem dizer uma palavra, assenta o golpe mais forte que pode sobre o edredom perto dos genitais de seu pai. Versão moderna do Édipo, fundamento da estrutura psíquica freudiana e da psicanálise. Surpresa de Laio, todavia em análise!

Acrescentemos um outro elemento: no início dos anos 1980, trabalhando com aquelas que ainda não eram chamadas de professoras de escolas, que haviam trazido desenhos de seus alunos da escola materna como documentos de trabalho, elas se questionam observando que “homem” e “mulher” não eram palavras utilizadas pelas crianças da escola materna para designar a diferença dos sexos – hoje diríamos de gêneros –, porque a língua, se prestarmos a devida atenção que ela requer na prática da psicanálise, é o saber não sabido. A diferença que aparecia era entre “pai” e “mãe”: havia os papais e as mamães e não os homens e as mulheres.

Estas duas vinhetas clínicas me levam a considerar que o discurso do mestre mudou. Por um lado, o gênero suplantou o sexo, por outro, como Lacan destaca em várias ocasiões, o pai e o patriarcado sofreram declínio evidente nas sociedades uniforme e globalmente organizadas no presente pela economia capitalista, avassalando o nome ao objeto. No nível jurídico, por exemplo, o direito substituiu “pai” e “mãe” por “pais” e a noção de “parentalidade” modificou a repartição da autoridade na família. Sem esquecer os “direitos da criança”.

A “parentalidade” assim como o matrimônio dito “para todos”, manifesta uma mutação das estruturas de parentesco e, por conseguinte, dos laços familiares. Passamos a um universal que pode se enunciar pela fórmula “para todo pai”, qualquer que seja seu sexo e seu gênero. Que saber novo surge na criança que está confrontada com essas mutações?

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No tempo da ordem de ferro do social, onde se aninha a diferença sexual?

Em 1973, em Televisão, Lacan afirmava que “a ordem familiar só faz traduzir que o Pai não é o genitor e que a Mãe permanece contaminando a mulher para o filhote do homem”[6]. Ainda é o caso? As crianças de 2021 recobrirão ainda o homem com o Pai e a mulher com a Mãe? Como Lacan antecipa no Seminário 21, “Les non dupes errent”, usando “o nó borromeano como um algoritmo”, “a ordem de ferro no social” substituiu a ordem patriarcal familiar[7]. Adeus pai e mãe, saudações parentalidade: a castração foi deslocada. A função fálica está paradoxalmente submetida, do lado das identificações, seja ao órgão – identificação imaginária –, seja ao gênero – novas versões da nomeação, que se tornaram autonomeação. A única coisa que permanece estável é a própria diferença como função engendrada pela linguagem e, portanto, o real da escolha que é a definição mínima da castração.

Resta à criança, que se tornar o fundamento e não mais o efeito da família, escolher seu lugar em uma diferença que se pluralizou. Qual escolher? Como a criança faz essa escolha? Sou um homem? Uma mulher? Um ou uma bi? Um ou uma trans ou um cis? Uma ou um hétero, homo? etc.

Duas observações. A primeira sobre esse ponto de linguagem, pois, finalmente, apenas esta não está submetida à escolha: hoje, a formulação aceita não é mais transexual, mas transgênero. Isso marca que “trans” toca o ser de discurso e não a falta-a-ser, que é a consequência da dominação da linguagem sobre o corpo na medida em que ele fala. Segunda observação: é válida a tese de Lacan segundo a qual as minorias têm a seu cargo as mutações dos modos de gozar dos seres falantes. O termo heterossexualidade surge na língua depois de homossexualidade e o cisgênero depois do transgênero. A criança como um “perverso polimorfo” é, portanto, totalmente designada como inventora.

Os engodos do falo e as satisfações singulares

A partir de então, não cabe utilizar o termo “função fálica”. A diferença sexual, desde Freud, de maneira mais ou menos feliz, foi abordada a partir do termo falo, quando não era simplesmente reduzida à anatomia do macho, isto é, ao pênis. Neste caso, ela repousa sobre uma foraclusão da anatomia da fêmea. Ernest Jones e outros se debateram a partir dessas premissas[8]. Pierre Naveau dedicou um estudo considerável a esse período da teoria analítica[9].

Em seu curso de 2008-2009, intitulado “Coisas de fineza em psicanálise”, J.-A. Miller afina os pontos com rigor[10]. Ele concretiza a expressão de Lacan nos Escritos[11]: “o heteróclito do complexo de castração”, termo que prefere, neste período de seu ensino, ao clássico termo de complexo de Édipo. O falo é um “metassignificante” que reenvia desordenadamente ao “fluido vital”, a um “significante imaginário”, a um “significante simbólico”, um significado, uma significação, um sacrifício, um símbolo, um signo, um órgão, e outras coisas mais. Como assinala J.-A. Miller, “o mundo libidinal que Lacan criou, ele o fez girar em torno de um significante: o falo. Isso foi expressivo para todo mundo. E como! Tão expressivo que esse significante é imaginário”[12]. O falo diz muito para todo mundo e agita os psicanalistas. Do ponto de vista do trabalho clínico, é no melhor dos casos a exploração do princípio do mal-entendido, fundador da palavra, e no pior dos casos um véu de ignorância. É por isso que J.-A. Miller reduz o heteróclito deste metassignificante a um valor: o valor “menos” que faz limite ao gozo e, portanto, torna possível o desejo. Depreende-se claramente a razão pela qual Lacan optou por “complexo de castração” de preferência a “complexo de Édipo”.

Os chamados complexos e o falo em sua definição heteróclita foram e são razão de deslizes e prejulgamentos que intervêm em certas posições antiquadas e mesmo reacionárias da psicanálise freudiana, depois pós-freudiana e até lacaniana. Lacan sempre se absteve de tais deslizes no discurso do mestre, ao contrário de alguns de seus alunos, como Françoise Dolto. Deste modo, ele sempre diferenciou o sujeito do indivíduo e do eu. Ele desumanizou o pai reduzindo-o ao nome – o Nome do Pai – e assimilando-o à função metafórica, e a mãe, reduzindo-a ao desejo. Nunca deixou de lembrar que essa operação, que tocava as bases do simbólico em psicanálise, era uma das razões de sua excomunhão do mundo analítico da época, e a razão pela qual ele nunca retomou o Seminário intitulado “Os Nomes do Pai”, que foi interrompido pela SAMCDA e seu “ar patrimonialista”[13].

Se, como faz J.-A. Miller, reduzimos o falo ao signo menos, a esse valor comum que permite aos corpos falantes entrar no comércio e no intercâmbio, como abordar a diferença sexual, a não ser pela singularidade dos modos de gozar? Em uma época em que o estatuto da criança na família mudou, em que, de produto, ela se tornou fundamento, como a criança aborda a falta, esse “menos”, inevitável, consequência da linguagem sobre o corpo e o laço de discurso? A escolha de seu modo de gozo singular, como a criança fala disso?

Mutante ou híbrido? As teorias sexuais infantis

Duas outras vinhetas clínicas mostram a potência do saber que as crianças inventam.

Uma menina que, desde seus dois anos de idade, havia impressionado seus familiares próximos pelo fato de que, para afirmar sua feminilidade, exigia vestir vários vestidos uns sobre os outros, na lógica de fazer de si mesma o fetiche, e que ganhara de presente de seis anos um pequeno caderno com um cadeado – Diário de uma Princesa –, rentabilidade capitalista do conto de fadas. Um ano ou dois mais tarde, o objeto, abandonado, cai nas mãos de um adulto curioso. Alguns desenhos, mas, escrita em páginas e páginas, a seguinte frase: “O príncipe encantado é um idiota”. Droga! Eu não sabia, mas deveria. É óbvio. Ele serve apenas para acordar a Bela Adormecida. Isso lembra o filme Kill Bill de Tarantino, no qual o nome da heroína é enredado na trilha sonora: estando adormecida em um coma profundo, devido a uma bala alojada na cabeça por um tiro dado pelo homem que ela ama, seus “favores” são negociados pelos cuidadores. Um dia, a bela adormecida acorda subitamente e está na pele dessa versão capitalista do Príncipe encantado, um idiota como apreendi tardiamente. Esses contos, mitos portanto, a quais estruturas reenviam?

No Seminário 18, Lacan começa seu desenvolvimento das fórmulas da sexuação, e, no capítulo VII, que J.-A. Miller intitulou “A parceira desvanecida”, afirma, ao falar de suas trocas, ou melhor, da sua recusa em intercambiar com Simone de Beauvoir o título que ela escolhera – O Segundo sexo –, dizendo que “não há segundo sexo”[14]. Ele define a sexualidade como uma função: “A função que é chamada de sexualidade se define, até onde sabemos alguma coisa sobre ela – e realmente sabemos um pouco, nem que seja por experiência –, pelo fato de os sexos serem dois […]. Não existe segundo sexo, a partir do momento em que entra em funcionamento a linguagem. Ou, para dizer as coisas de outra maneira, no que concerne ao que é chamado de heterossexualidade, o heteros, palavra que serve para dizer “outro” em grego, está na posição de esvaziar-se como ser para a relação sexual. É precisamente esse vazio que ele oferece à fala que eu chamo de lugar do Outro, ou seja, aquele em que se inscrevem os efeitos da referida fala”.[15] Pois então, dois ou não dois? A lei da diferença, que é a lei da articulação S1-S2, ainda é válida?

Esta mesma menina, conversando com seu irmão um dia, lhe atira um saber: “Você sabe, não há apenas meninas e meninos.” O irmão fica surpreso. “Há também as ‘meninasmeninos’ e os ‘meninosmeninas’. Eu sou uma ‘meninamenino.” O irmão responde secamente que para ele estava fora de questão situar-se na classe dos ‘meninosmeninas’. O diálogo se detém aí. Não há relação entre os sexos, mesmo multiplicando as classes e tentando ampliar as categorias. Por quê? Tenho uma ideia. Não é, me parece, em uma reiteração da fórmula A mulher não existe que se deve pesquisar, porque é claro que O homem não existe. Ninguém escapa do fato de que, desde que se começa a falar de diferença sexual, somos conduzidos pelo discurso a falar em termos de universal: “os” homens, “as” mulheres e “os” outros. Em suma, não saímos do universal, que se caracteriza pela verdade mentirosa e pelo sentido, infelizmente o mais comum possível, isto é, dominante. Na e pela linguagem, a sexualidade passa pelos desfiladeiros da palavra e todo locutor se encontra no quadro da sexuação que figura no Seminário mais, ainda do lado das duas fórmulas da sexuação, lado homem: existe um x tal que não phi de x e para todo x, phi de x[16].

Para caracterizar os efeitos da diferença sexual sobre o discurso e a fala, pode-se utilizar o modelo do buraco negro tal como os astrofísicos o definem no quadro da teoria da relatividade. Tudo o que entra no interior do buraco negro – toda a informação, toda a matéria –, é assimilada ao buraco negro, o qual é caracterizado apenas por três elementos: sua massa, sua quantidade de rotação e sua carga elétrica. Todos os objetos que caem nele se tornam inacessíveis. Desde o momento em que se entra no campo da diferença sexual, tudo o que define a singularidade dos modos de gozar e das posições subjetivas torna-se inacessível. O binário homem/mulher neutraliza todas as outras diferenças e torna inacessíveis os corpos falantes na contingência e na não universalidade de sua organização. O lado dito feminino, destacado por Lacan, é uma tentativa de tornar acessível o que não é lado homem, regido pelo regime de uma exceção e de maneira alguma universal. Lado feminino, a diferença sexual torna-se totalmente “assimétrica”[17]. O feminino só é pensável se se exclui toda ideia de complementariedade, de inclusão ou mesmo de contradição.

É certo que a diferença sexual só pode se formular no campo da identificação e da fantasia. Ser classificado por gênero só é possível do lado da lógica do todo e da exceção fálica. “O homem, o macho, o viril […] é uma criação de discurso.”[18]. Acrescentemos, A mulher também é uma criação de discurso, em função de Phi, entendido como medida do valor. A propósito, pode-se generalizar a fórmula A mulher não existe ao Homem. O sexo é o efeito de um dizer. Quais palavras, hoje, as crianças escolhem para dizer de seu pertencimento? Elas têm teorias sexuais novas?

A diferença é (a)sexuada: as diferenças ligadas à contingência

A diferença sexual do lado do gozo está ligada aos objetos mais-de-gozar ou objeto a. O que a diversifica em função da dominância de tal ou qual objeto; dominância cuja origem está ligada às marcas contingentes na história do sujeito, mas que, justamente por ser dominância e fixação, gera uma repetição e, portanto, uma necessidade.

Esses objetos têm um elemento em comum que, desde Freud, a psicanálise cerniu. Eles estão ligados aos orifícios do corpo, à passagem apreendida inicialmente como passagem do interior ao exterior do corpo. Os objetos permitem ao imaginário tornar-se uma superfície com borda.

A consequência disso é que, ligada aos orifícios do corpo próprio, a sexualidade é essencialmente autoerótica, mesmo se esses objetos são colocados no Outro. Pode-se ler a ascensão atual no laço social do discurso que submete a condições cada vez mais estritas o gozo de um corpo por outro corpo, quando, ao mesmo tempo, a interdição ancestral sobre a masturbação desapareceu. A fantasia, motor do autoerotismo, sim, o ato, não. A difusão da pornografia, o império da imagem nas redes sociais, modificam – e se sim, como –, a abordagem feita pelas crianças da sexualidade? Um puritanismo cada vez maior, aliado a uma crueza de imagens cada vez maior e a uma liberação de palavras, levaria a uma modificação da relação do sujeito com sua (a)-sexualidade? As crianças são, hoje, perversas polimorfas ou antes puritanas?

E o amor?

No Seminário XXVI, “A topologia e o tempo”18, Lacan, em 1978, fala da possibilidade de um terceiro sexo, a partir de sua escolha pelo “borromeano generalizado”: “Não há relação sexual, é isso que eu enunciei porque há um Imaginário, um Simbólico e um Real, é isso que eu não ousei dizer. […] O que faz suplência à relação sexual? Que as pessoas fazem amor, há para isso uma explicação: a possibilidade de um terceiro sexo.” Enigmático, Lacan criando dificuldade para si mesmo, retorna a esse tema para afirmar que “esse terceiro sexo não subsiste na presença dos outros dois”, que estes sobressaem do forçamento, da dominação. Ele só depende, portanto, do amor.

O amor zomba da diferença sexual? Ele é, como para o ódio, o lugar do possível onde a diferença sexual cessa de se escrever, onde ela se anula em diferença absoluta? Cessaria ela, no campo do amor, de ser dual, classificatória e, portanto, segregativa? Que podem nos ensinar as crianças sobre o amor como acesso ao terceiro sexo?

Texto estabelecido por Hervé Damase e Frédérique Bouvet, relido pela autora.
Tradução: Nohemí Brown.
Revisão: Ana Lydia Santiago e Ana Helena Souza.

[1] Cf. Miller J.-A., «L’orientation lacanienne», ensino pronunciado no âmbito do Departamento de psicanálise da Universidade Paris VIII, inédito.
[2] Cf. O Seminário, livro 19:…ou pior, Rio de Janeiro, Jorge Zahar ed., 2012, p. 227.
[3] N.T: A expressão faz referência ao proverbio francês “nobreza obriga” [noblesse oblige], que teve origem na 51ª das Máximas e Preceitos do Duc de Lévis (1808), significando que, depois do nobre, por extensão, todo personagem deve se conduzir conforme a sua categoria.
[4] Ver: Du mariage et des psychanalystes, Paris, Navarin/ Le Champ freudien/La règle du jeu, 2011.
[5] Miller J.-A., A criança e o saber, Cien Digital 11, janeiro de 2012, p. 8.
[6] Lacan J., Televisão, Outros escritos, Rio de Janeiro, Jorge Zahar ed., 2003, p. 531.
[7] Lacan J., Le Séminaire, livre XXI: «Les non dupes errent», leçon du 19 mars 1974, inédito.
[8] Jones E., La phase précoce du développement de la sexualité féminine, La phase phallique, Psychanalyse, n 7, 1964.
[9] Naveau P., La querelle du phallus: 1920-1935, tese realizada sob a direção de Jacques-Alain Miller em 1988 no Departamento de psicanálise da Universidade Paris VIII, inédito.
[10] Miller J.-A., Perspectivas dos Escritos e Outros escritos. Entre desejo e gozo. Decima Terceira Lição, 1 de abril de 2009. Jorge Zahar Editores, Rio de Janeiro, 2011.
[11] Lacan J., Subversão do sujeito e dialética do desejo no inconsciente freudiano, Escritos, Rio de Janeiro, Jorge Zahar ed., 1998, p. 835-6.
[12] Miller J.-A., Perspectivas dos Escritos e Outros escritos. Entre desejo e gozo, op. cit.
[13] SAMCDA: sociedade de assistência mútua contra o discurso analítico, cf. Lacan J. “Televisão”, op. cit., p. 518.
[14] Lacan J., O Seminário, livro 19: …ou pior, Rio de Janeiro, Jorge Zahar ed., 2012, p. 93.
[15] Ibid., p. 93.
[16] Lacan J. O Seminário, livro 20: mais, ainda, Rio de Janeiro, Jorge Zahar ed., 1985, p. 70 e seguintes. O universo fálico é sustentado em um elemento que está condenado a não ser submetido à função de castração.
[17] Lacan J., Le Séminaire, livre XII: «Problèmes cruciaux pour la psychanalyse», lição de 16 junho de 1965, inédito.
[18] Lacan J., O Seminário, livro 17: O avesso da psicanálise, Rio de Janeiro, Jorge Zahar ed., 1992, p. 57.
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GOZAÇÕES

by cien_digital in Cien Digital #23, Hífen

Autor: Mr Tt Imagem: https://burst.shopify.com/

Autor: Mr Tt
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Claire Brissom

“O que é o assédio escolar na adolescência?” Tal é o título escolhido para uma conversação pública com os professores do Ensino Fundamental e do Ensino Médio, iniciada em 2018 por um laboratório do CIEN, o Centro Interdisciplinar sobre a Criança. Nós visamos a noção de “assédio escolar”[1], que se tornou há alguns anos o principal instrumento para interpretar a violência da interação entre jovens. Surgido em torno dos anos 2010, este significante ganhou uma adesão incrível até a consagração, em 13 de fevereiro de 2019, de um “direito à escolaridade sem assédio escolar”, votado pela Assembleia Nacional. Este significante é revelador de um contexto político, dedicado a criar vastas categorias para nomear e objetivar o mal-estar social, sem perceber os efeitos auto-realizadores dos dispositivos de prevenção.

A conversação interdisciplinar em torno de situações práticas, discutidas caso a caso, revelou a inconsistência do binário assediador/assediado. Uma situação apresentada por um professor tutor do oitavo ano do Ensino Fundamental nos ensinou muito.

Recém-chegado em uma escola rural, o professor é interpelado por dois irmãos gêmeos que se queixam de serem tratados de “cocô de vaca” e de “bunda suja” por três rapazes da turma. Divertem-se de forma maldosa, verbalmente ou por SMS, com a ligação dos irmãos aos trabalhos da fazenda da família. Num primeiro momento, o professor tenta minimizar a situação, mas inventaram um rap do agricultor cujo refrão é conhecido na turma. As falas dos gêmeos nas aulas desencadeiam imitações sonoras e zombarias dos alunos; no recreio, são recebidos com mugidos. Isso persiste, apesar das reprovações e se intensifica quando os irmãos manifestam desespero.

A diretora convoca os autores das gozações. Virada teatral: quando o mais atrevido dos três é recebido sozinho, desaba e confessa ser ele próprio um alvo, pela sua obesidade e porque ele é, também, filho de agricultor – mas não de criador de gado, ele se apressa para especificar, que é filho de horticultor. Seu pai não trabalha “no rabo das vacas”, eles têm uma televisão, um vídeo game e ele não tem que trabalhar na terra do pai.

Autor: Pawel Czerwinski Imagem: https://burst.shopify.com/

Autor: Pawel Czerwinski
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O professor se lembra de ter “caído da cadeira”, face à resposta desse rapaz. “O que fazemos agora?” – ele se interroga. Como tratar esse assediador assediado. Como abordar esta pequena diferença que ele formula para ser diferenciado dos mais “cocôs de vacas” do que ele? Aliás, o pai do rapaz se aborrece ao saber dos fatos. “Nada disso entre nós, somos gente da terra! Os inimigos não são eles!” – Isto se passa logo após os atentados terroristas de 2015, na França. O ideal paternal de um “nós” solidário do “gente da terra” comparava, manifestadamente e muito de perto, o filho ao estrume. No discurso do rapaz era preciso ressaltar a televisão e o vídeo game para aí se opor e instaurar, entre o criador de gado e o horticultor, uma outra segregação.

A decisão tomada pela instituição foi de não punir. Isso foi antes da lei sobre o assédio. Nós juntamos de um lado este rapaz, o mais implicado nas gozações, com o mais atingido dos dois gêmeos e, de outro, o segundo gêmeo, com os dois outros jovens. A dupla e o trio tiveram que produzir uma apresentação sobre o assédio, a partir de textos da lei vigente. Cada um se encarregou da proposta com seriedade. Os trabalhos, de qualidade, foram aclamados pela direção e o ano terminou sem nenhuma outra situação de assédio, sem outro incidente.

O efeito “cair da cadeira” seria hoje anulado pelo imperativo do protocolo e das punições. Um estágio de sensibilização ao assédio seria prescrito aos três “autores”, com a responsabilização dos pais pelas despesas e as “vítimas” seriam definitivamente identificadas como tais. Aqui, a situação foi tratada pela via de uma interpretação: não pela identificação de uns e de outros com papéis definidos a priori, não pela punição e a vitimização, mas, ao contrário, por um dispositivo que diferenciou “os gêmeos” um do outro, como também os “agressores”, uns dos outros.

Esta maneira de responder talvez tenha constituído, para cada um, uma solução pela contra-violência simbólica, sem reproduzir a lógica da exclusão que nós procurávamos prevenir.

 


Tradução: Analícea Calmon
Revisão: Ana Martha Maia

[1] No Brasil usa-se a expressão americana bullying.
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Argumento para a Jornada Internacional do CIEN novembro de 2013 • “Me inclui fora dessa”

by cien_digital in Cien Digital #14, Hífen

Tradução: Maria Rita Guimarães
A bússola  que cada um inventa.

“Me inclui fora dessa”1 – disse um garoto durante uma conversação na qual ele é perguntado se quer participar de tal proposta. Suas palavras sintetizam de um modo quase paradigmático o ponto central de muitas das experiências do CIEN. Por  um lado, nosso esforço em constatar as respostas de cada criança ou adolescente ao forçamento a uma pseudointegração, disfarçada de pertinência, chamada “etiqueta”. Por outro, a vontade de verificar o grau de sofrimento que, ocasionalmente, seu modo de responder a isso pode lhe causar: inibição, sintoma, angústia, desagregação, alvoroço, imobilidade…

Damos um passo além e nos perguntamos como abrir possibilidades, nos diversos lugares que habitualmente recebem as crianças e os jovens – escola, clube, família, outros, – a que os adultos se mostrem atentos, sensíveis ao discernimento dessas modalidades de recusa, convidando, esperando que se aproximem, cada um a seu modo, para construir sua própria maneira de fazer, aquela com a qual irá nortear sua vida.

Efraim Almeida

Se isso fosse uma tarefa simples não estaríamos em torno do assunto há muito tempo, buscando formas e alianças. Costumamos situar o problema nas condições de vida da época, mas corremos o risco de nos esquecermos de que chegamos a esse estado de coisas graças às “boas intenções” de bem-estar e progresso dos seres falantes que somos. A história da humanidade revela que a vontade de submeter o homem pelo homem vem de longe e toma, hoje em dia, a forma do etiquetado que marca, e quando há uma marca, essa se pode monitorar, classificar-se, multiplicando-se na sua tentativa de que nada escape a seu domínio. Num cenário como esse “o exagero está subvalorizado” – como observa um personagem do filme “The A-Team” (Esquadrão  Classe A). As instituições  que recebem crianças e adolescentes se organizam, em sua maioria, a partir do que se conhece como critérios e normas que apontam para a normalização e classificação do desempenho de todos – crianças e adultos responsáveis. Parecem bradar: vejamos se este exagero pulsional de alguns pode ser compartimentado! Etiquetá-los traz a ingênua ilusão de que assim os dominam. Nada mais longe da realidade: o mundo é o que é, mas tanto Freud como Lacan nos deixaram posições que subvertem essa vontade dominadora. Mas, para isso, é preciso saber observar, ouvir essa subversão à flor da pele. Razão pela qual não é tarefa fácil pois não estamos feitos para querer distinguir o que é particular ao outro. Pelo contrário, é moedacorrente pensá-lo como um sistema de classes, uma tipologia, o que nos impede de ver o mais real do outro.

Esta Jornada do CIEN propõe-se ao exercício de nos esburacar, nossas vendas, nossos protetores de ouvidos, para dar lugar às formas variadas, à “varidade”2, com as quais nos esbarramos cada vez mais.

Como a que elegemos para encabeçar essa jornada,  “Me inclui fora dessa”: um oximoro que tem a virtude de mostrar a estrutura elementar de um uso possível das etiquetas: sirvo-me delas à condição de poder permanecer fora de seu império, de sua influência, de sua sujeição.

Esperamos por vocês na quarta feira, dia 20 de novembro de 2013.
Local: Hotel Panamericano – Hora: de 14 a 19 horas – Buenos Aires
Eixos de estudo e investigação propostos aos integrantes de Laboratórios do CIEN

Como orientação, localizamos os casos em que o afã normativizante e normalizante é evidente:

  • no âmbito científico, no qual proliferam mecanismos de avaliação e classificação incessantes.
  • no mercado, que oferece fabricação de medicamentos, protocolos e instituições especializadas “ao gosto do freguês”.
  • com as políticas de gestão (em vários campos disciplinares, tal como o pedagógico), que multiplicam mecanismos de produção e aplicação de normas e regulações de forma ascendente.

E, os modos de averiguação das respostas das crianças, adolescentes e profissionais envolvidos, como tentativa de incluir-se fora do afã da ciência, da tirania do mercado, de uma política de pura norma. Como exemplo, crianças que dizem que não (como aquele que enuncia “Je ne veux pas”, no filme A infância sob controle), ou aquelas crianças chamadas de perturbadoras (que desorganizam a ordem e estado das coisas).

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1 Comunicação de Celio Garcia, retomando as palavras de um jovem que participava de conversações propostas por um laboratório do CIEN em Belo Horizonte, Brasil.
2 Expressão utilizada por Lacan em seu seminário de 1977 para nomear a verdade variável do sintoma – “a variedade do sintoma”.
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Contribuições: “Me inclui fora dessa”

by cien_digital in Cien Digital #14, Hífen

Cristiana Pittella de Mattos
Primeiras elaborações
a-Notado: “Me inclui fora dessa”

O que me encanta na expressão – “Me inclui fora dessa”- anotada e proposta pelo CIEN1, é que ela, vinda da boca dos adolescentes, revela um desejo fundamental do ser falante.

Yuri Firmeza

A primeira  dimensão  desse desejo revela-se no apelo ao Outro: “me inclui”.

Procura-se, com esse apelo, um lugar no Outro; diferente do que encontramos comumente em algumas práticas ou sintomas dos adolescentes, em que o sujeito visa uma recusa ou mesmo uma ruptura com o Outro.

Embora haja um apelo ao Outro, esse apelo não é o de ser fixado, aprisionado por significações do Outro, pois a segunda dimensão desejante na expressão anotada, é aquela de uma separação: “fora dessa”.

Não se trata de ficar fora do campo do Outro: “Exclua-me dessa”, mas de estar nele – fazer parte –, com algo fora dele: com algo singular.

Como estar nele e fora dele?

Essa fórmula – “me inclui fora dessa” –, revela, portanto, um desejo de inserção colocando em jogo as duas dimensões da constituição do sujeito, a alienação e a separação.

Miller, em seu texto Sobre o desejo de inserção, delimita dois tipos de inserção do sujeito:

  • a primeira como identificação, quer dizer, o sujeito se representa pelo S1. É o que Lacan chamou de Alienação, uma identificação rígida, fixa, que seria como morrer, no sentido hegeliano de que a “palavra mata a coisa”.
  • Por outro lado, há um segundo tipo, que Lacan denominou  Separação, em que há uma nova vida quando vem um S2 – o saber, que faz renascer o sujeito. Nesta operação se desprende do corpo um resto de gozo, cuja produção é o objeto (a). (MILLER, 2008)

A produção  desse resto na operação de separação instaura uma topologia em que podemos conceber uma exclusão interna: ao se constituir como sujeito, esse está diante de uma escolha forçada: perde-se a possibilidade de se ter todo o sentido e todo o ser.

Podemos pensar que “me inclui fora dessa” nos direciona justamente para este ponto de exclusão interna.

Em Matemas II, Miller  demonstra essa exclusão interna com o paradoxo de Russel como matriz da relação do sujeito com a cadeia significante (MILLER, 1988, p. 45).

Para tanto, Miller utiliza a história do barbeiro que barbeia todos aqueles que não barbeiam a si mesmos. Como se barbeia o barbeiro? (MILLER, 1988, p. 35)

  • Se ele é o barbeiro que se barbeia a si mesmo, ele não é o barbeiro que barbeia todos aqueles que não se barbeiam: se ele é, não é.
  • Se ele não é o barbeiro que barbeia a si mesmo, ele é o barbeiro que barbeia todos aqueles que não se barbeiam a si mesmo: se ele não é, ele é.

Essa expressão paradoxal que analisamos também foi, curiosamente, bastante utilizada há tempos – no entanto, com a correta colocação pronominal: “Inclua-me fora disso” –, pelo comediante estadunidense Groucho Marx (1890/1977) o mais criativo dos irmãos Marx.

  • “eu nunca faria parte de um clube que me aceitasse como sócio”;
  • “Vamos descobrir um tesouro naquela casa? – Mas não há nenhuma casa… – Então vamos construí-la!”;
  • “Eu não posso dizer que não discordo com você”…

Verificamos  como há uma “ambiguidade  irresolúvel que está no fundo de toda piada”, nos diz Freud, e como “o humor não é resignado, mas rebelde” (FREUD, 1927) colocando em jogo um descentramento do eu, mas, também dos ideais reguladores da vida social.

Evocamos Groucho Marx e sua capacidade criativa pois nos perguntamos se nessa expressão “me inclui fora dessa” –, se presentifica uma dimensão espirituosa, dimensão do humor e com ele, o trabalho de desidealização do objeto e da sublimação, possibilitando uma certa socialização do gozo e integração ao laço social. (MILLER, 2009)


Bibliografia
MILLER, J.A. Sobre el deseo de inserción, y otros temas – Forumpsy ENTREVISTAS DE ACTUALIDAD, número especial Intervenciones en Barcelona, 7 nov. 2008 (internet).
MILLER, J.A. Matemas I, Manantial,  1988.
MILLER, J.A. A salvação pelos dejetos. Correio 67, EBP.
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1 Essa expressão, já anotada por Celio Garcia em seus encontros com os adolescentes, está por ele trabalhada no texto: Uma política da palavra para os corpos – publicado no CIEN Digital 10, jun. 2011.
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Dentro e Fora

by cien_digital in Cien Digital #14, Hífen

Fernando Prado1
Resumo

O texto a seguir é o resultado de um diálogo entre um matemático e uma psicanalista. Sem nenhuma pretensão de rigor cientifico, o autor estabelece um paralelo entre conceitos da teoria das probabilidades e independência entre indivíduos.

Um dos conceitos mais importantes da teoria das probabilidades é o da independência de eventos. Dizemos que dois eventos são independentes se, dado a informação sobre a ocorrência de um evento, não for possível obter mais informação sobre a ocorrência do outro. Por exemplo, considere o lançamento de duas moedas. Vamos denotar o resultado desse experimento por (xy), sendo o resultado da primeira moeda, e y, o da segunda. Para facilitar a notação, suponha que (xy) = (1, 0) denote o resultado em que a primeira moeda é cara e a segunda, coroa, e assim por diante. Assim, o espaço de todos os resultados possíveis é = {(1, 0); (1, 1); (0, 1); (0, 0)}.

Dado que o resultado da primeira moeda é cara, qual seria a probabilidade de observarmos cara na segunda moeda também? Não é preciso ser um especialista para aceitar que o resultado da primeira moeda não altera nossas avaliações sobre a probabilidade da segunda moeda resultar em cara. Nesse sentido, dizemos que tais eventos são independentes.

Liu Bolin

Curiosamente, o conceito de independência, embora bem diferente e, em certo sentido, até mesmo antagônico ao conceito de disjunção, parece se confundir com o último. Dizemos que dois eventos são disjuntos se a intercessão entre for vazia, isto é, se não existir nenhum resultado em comum a B. Tais eventos também são chamados de mutuamente exclusivos, no sentido de que a ocorrência de um implica a exclusão do outro e vice-versa. No caso do lançamento das duas moedas mencionado acima, os seguintes eventos são disjuntos: = evento em que a primeira e a segunda moeda são caras (= {(1, 1)}), e = evento em que a primeira e a segunda moeda são coroas (= {(0,0)}). De fato, a ocorrência de exclui a ocorrência de B, e vice-versa. Agora, estes eventos não são (em nada) independentes, pois a probabilidade da ocorrência de um, dado a ocorrência do outro, é zero – muito embora a probabilidade incondicional tanto de A, como de seja 1/4.

Um paralelo ao processo de identificação social me parece natural. Esse paralelo sugere que a independência entre grupos sociais não implica disjunção ou auto-exclusão das características que os definem. A independência, ao contrário, pressupõe certa medida de intercessão entre as partes, em que a proporção entre a intercessão e qualquer uma das partes envolvidas é a mesma entre qualquer uma das partes e o todo. No caso do lançamento das duas moedas vemos que o evento em que a primeira moeda é cara, é independente do evento em que a segunda moeda é cara, note a igualdade entre as proporções:

Análise Combinatória

Acima, Card denota o número de elementos do conjunto A; por exemplo, Card {(1, 1); (1, 0)} = 2, pois o conjunto {(1, 1); (1, 0)} é formado de dois elementos: o par (1, 1) e o par (1, 0).

Uma forma de expressar independência numa relação implica, portanto, expressar certa medida de intercessaõ (não vazia) entre as partes envolvidas. Sob esse ponto de vista, um desejo de independência por parte de um adolescente pode ser acompanhado pelo pedido latente de inclusão de apenas uma parte (e não menos que essa parte) de suas características num determinado conjunto de valores, de tal forma que este se sinta independente dos mesmos. Muitas vezes, no entanto, a identificação é com o complemento, isto é, tudo menos o conjunto de valores proposto, correspondendo a um estado de total dependência entre as partes, como AC  (onde  AC  = tudo que não pertence a A). Analisado por esse ponto de vista, o termo empregado por adolescentes “me inclui fora dessa” expressa justamente isso, o melhor “tudo menos isso”.

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1 Fernando Prado é professor do Departamento de Computação e Matemática da Faculdade de Filosofia Ciências e Letras de Ribeirão Preto, Universidade de São Paulo. Atua na área de teoria dos jogos, economia matemática e teoria das probabilidades.
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Nota sobre o empuxo à hiperdisciplina

by cien_digital in Cien Digital #14, Hífen

Hérnan Gustavo Vilar – Buenos Aires

“Se pudesse simular o mais de gozar, isso manteria muita gente entretida.”

Jacques Lacan

O Mestre  “sem cabeça” da Hipermodernidade

Gostaria de compartilhar com vocês uma citação de Michel Foucault que especialmente chama minha atenção: encontra-se na História da sexualidade, vontade de saber, volume I: “… em matéria de ciências sociais, o rei ainda não foi guilhotinado.”

Com mais de trinta anos dessa afirmação, na chamada hipermodernidade, ocorreu-me perguntar a mim mesmo que terá sido da cabeça do soberano.

Efetivamente parece-nos que o rei foi decapitado, mas, surpreendentemente, vemos surgir do corte, como se fosse da Hidra de Lerna1, três cabeças: O Mercado, A Ciência e A Técnica. A coroa foi parar, como uma carapuça, na testa de uma soberana bastante volúvel e desorientada: A Opinião Pública.

Com semelhante  Corte, é oportuno pensar nas características que o ordenamento, por via do direito positivo, passa a ter, em nossos dias, dos discursos imperantes. Uma legalidade baseada em evidência, acumulação de provas que via a digitalização, já não reconhece os limites de espaço e tempo.

A transparência, esta paixão da sociedade contratual, administrada pelos meios massivos de comunicação, torna-se invisível por seu excesso.

Assim a técnica, como política de forclusão da política, apresenta-se a nós, da mão das ciências e do mercado ao saber, como uma mercadoria a mais (Obsolescência  programada2 incluída), no fluxo incessante dos gadgets oferecidos na era do “capitalismo sem fricções”.

O declínio das figuras de autoridade baseadas na experiência e sua substituição por modelos simulados de gestão reproduzível são solidárias das formas mais duras de segregação.

O ordenamento pelo direito dos discursos que se ocupam da Saúde Mental apresenta, nessa época, um traço particular que me interessa destacar: trata-se das “boas práticas standards”, baseadas na evidência calculável, mensurável, previsível, reproduzível.

A produção de provas positivas conduz à proliferação de perícias e peritos: aquilo que se chamou “a inflação das especialidades”, a promoção ilimitada de “saberes especializados”.

Nós que recebemos crianças e adolescentes em nosso consultório (ou em outros âmbitos de trabalho), somos requisitados com frequência a informar à escola, às instancias oficiais, aos tribunais e, ainda, às empresas de medicina pré-pagas e obras sociais, sobre o andamento de nossos tratamentos, com que frequência atendemos aos jovens, etc.

Rosângela Rennó

A subordinação aos protocolos de avaliação, tal como o mapa do Império de que falava Borges, não deixa de ter efeitos no Real.

Cada vez que nos juntamos para conversar com os professores ou com os responsáveis das equipes de orientação escolar, assinam-se atas, contribui-se a engrossar um dossiê que, às vezes, tem a força de um prontuário  policial. Ex–maridos que disputam a guarda dos filhos solicitam perícias sobre as crianças ou as mães. Pais que, “exercendo seus direitos de usuários” dirigem-se a nós exigindo solução para problemas em relação aos filhos sobre os quais não reconhecem pouca ou nenhuma responsabilidade. Dirigem-se ao “douto especialista” como se esse fosse um técnico em eletrodomésticos, cobrando um “conserto garantido”.

Informações são acumuladas, histórias clínicas, diagnóstico multiaxiais, que contribuem para etiquetar esses sujeitos, e, pouco a pouco, empurrá-los a uma adaptação procustiana ou à sua segregação.

Gostaria de compartilhar com vocês uma citação de Michel Foucault que especialmente chama minha atenção: encontra-se na História da sexualidade, vontade de saber, volume I: “… em matéria de ciências sociais, o rei ainda não foi guilhotinado.”

2 – Do assistencialismo ao clientelismo.

“Onde há uma necessidade, nasce um direito.”

Eva Perón

Durante boa parte do século XX, as reivindicações sociais dos setores historicamente mais desfavorecidos,  ainda no seio do chamado mundo capitalista, estiveram orientadas pelo ideal do progresso e bem estar: poderíamos situar nesse contexto uma série de políticas cujo imperativo pode ser formulado do seguinte modo – “Se é necessário, deve ser possível.” Surgiram daí o que podemos chamar de dispositivos assistencialistas, cuja crítica excede os propósitos do presente trabalho. Limitar-me-ei a realçar que na busca de soluções “para todos”, muitas vezes o público avançava sobre o privado (campanhas obrigatórias de vacinação, programas compulsivos de controle de natalidade, barreiras sanitárias, penalização do consumo de substâncias, etc.).

Hans-Peter Feldmann

Com o fim da Guerra  Fria e o predomínio das ideias neoliberais, o paulatino retrocesso do “estado de bem-estar social”, ocorreu a queda dos marcos reguladores, favorecendo, dessa maneira, o desaparecimento das fronteiras entre o público e o privado, à custa do “privatizado.”

Desse modo, muitas das gestões que os agentes do Estado foram abandonando ficaram nas mãos de diferentes fundações, ONGs, ou programas de “Responsabilidade  Social” das empresas, que assim, aliviam sua carga fiscal.

Como muitos desses programas sociais são financiados por organismos multilaterais de crédito e, outras vezes, mediante angariação de fundos, devem garantir o sucesso e a reprodutibilidade de suas ações submetendo-as ao controle de comitês de avaliação, painéis de consenso de peritos e sustentar, por sua vez, políticas de fidelização através de associações de usuários que, muitas vezes, atuam como lobistas perante os poderes públicos.

Frequentemente encontramos na gestão pública diversas áreas que se terceirizaram: as consequências são idênticas.

Essa mudança nos modelos de gestão inverte o paradigma anterior: no mundo globalizado já não se trata de “se é necessário, é possível”. Hoje, o que é possível, deve ser necessário… já que os programas e soluções para todos se regem segundo as leis do mercado e os direitos se transformaram em direitos do consumidor.

Como a satisfação deve ser garantida, se um programa não funciona, ropõe-se outro e outro, como acontece com os planos de telefonia: o destinatário das ofertas que se superpõem, não é mais tomado como aquele de um programa de assistência, mas como cliente de um sistema.

Como bem postula a Teoria Geral dos Sistemas, todo sistema se autorregula: o problema é que essa autorregulação  deixa de fora o contingente, arrasa o particular e, em seu movimento centrífugo, expulsa aquele que não se adapta. Isso vale tanto para os assistidos como para os profissionais envolvidos.

Em uma experiência recente, no sul de Buenos Aires, Beatriz Udenio e eu fomos consultados pelos responsáveis da articulação dos programas nacionais, estaduais e municipais destinados à reinserção social de menores com processos judiciais.

Ana Holck

Em um dos casos em discussão no trabalho – de uma jovem de dezesseis anos- haviam dezoito equipes intervindo. Certamente que, mais além de algum aspecto de anedota, a jovem em questão não deixava de ser um dado estatístico, uma apresentação em Power Point. O caso número 1, uma superposição de etiquetas policiais, judiciais, policiais, sociológicas, morais, etc.

Se bem havíamos sido convocados e apresentados como “experts”, a aposta foi “nos incluir fora” dessa etiqueta, o que nos permitiu abrir uma Conversação.

Ainda que se tratasse de um grupo muito grande e muito diverso de participantes, algo do que chamamos a prática entre vários pôde acontecer, pôde situar que existe o incurável, o ineducável, o ingovernável: produziu certo alívio nas tensões imaginárias e um relançamento do trabalho.

Esburacar-nos, dessa vez usando o oximoro “Me inclui fora dessa”, precipitado de uma rica experiência do CIEN brasileiro, permite-me ilustrar o modo fecundo que, em cada um de nossos encontros, nos deixa “um pouco transformados”.

Gutai

A época empurra-nos a um saber trans, hiperdisciplinar, um saber expert e assegurável, que se pode provar como “a verdade, toda a verdade, e nada mais que a verdade”: os psicanalistas, estamos advertidos de que pela verdade se luta (se dan de a palos), que sempre é não-toda e que o saber é aquilo que cada um pode inventar com seu sintoma.

Diante desta banda de Möebius que une em um sem fim possibilidade e necessidade, o desafio é, a cada vez, dar lugar ao impossível e saber aceder-se à contingência.


Referências Bibliográficas:
Giorgio Agambem: Medios sin Fin. Biblioteca de Filosofía Editora Nacional Madrid, 2002.
Jean Baudrillard. Cultura y simulacro. Barcelona: Kairós, 1978.
Michel Foucault: Historia de la sexualidad 1 – La voluntad de Saber. Ed. Siglo  XXI 19.
FOUCAULT, Michel. História da Sexualidade I: A Vontade de Saber. Rio de Janeiro: Graal, 1993. 77.
Nestor García Canclini: Diferentes, desiguales y desconectados.  Gedisa 1997.
Eric  Laurent: La  vergüenza y el odio de si Freudiana 39 – Paidós, Barcelona 2004.
Jacques Lacan: El Seminario Libro XVII El Reverso del Psicoanálisis. Paidós Buenos Aires 1992.
Mauricio Lazzarato Políticas  del acontecimiento Tinta limón Buenos Aires 2005.
Manzotti, Nicoletti, Udenio y Vilar: Impossible is Nothing – Quo Vadis? CIEN Buenos  Aires 2008.
Jacques Alain Miller: Notas sobre la vergüenza Freudiana 39 – Paidós Barcelona 2004.
Luis Darío Salamone Alcohol, tabaco y otros vicios. Grama, Buenos Aires 2012.
Hernán Vilar: Las ropas nuevas del Amo.  El  Niño 11 Nueva Serie – Buenos Aires 2009.
Slavoj Zizek: A propósito de  Lenin – Política y  subjetividad en  el capitalismo tardío. Atuel/Parusía Buenos Aires 2004.
Tradução: Maria Rita Guimarães
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1 Nota da tradução: Hidra de Lerna é um animal mitológico que possuía muitas cabeças de serpentes venenosas, com alto poder regenerativo (renasciam se fossem cortadas).
2 Nota da tradução:”Obsolescência programada é a decisão do produtor de propositalmente desenvolver, fabricar e distribuir um produto para consumo de forma que se torne obsoleto ou não-funcional especificamente para forçar o consumidor a comprar a nova geração do produto”. Fonte:Wikipédia.
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Resistir à avaliação

by cien_digital in Cien Digital #15, Hífen

Victor Vazquez, “Hommage to Words”, 20072

Mercedes de Francisco1

Um dos signos desta época é a tendência ao cálculo e à avaliação, que leva consigo a proliferação do incalculável. O uso da cifra pela estatística quer nos fazer esquecer que “não a medida,” mas “o medido”, está imerso no registro simbólico numa ordem hierarquizada pelo sentido.

Convido-os a fazerem uma incursão pelos protocolos de atuação de psicólogos condutivistas e pelas investigações neurológicas, para terem a dimensão do que se trata. Lendo somente o que pretendem medir, podemos ter uma ideia da envergadura “totalitária” deste projeto, que parece não ter autores. O que supõe nos transmitir que qualquer coisa que nos ocorra como sujeitos, como humanos, ou melhor, como “trouhumanos”, usando um neologismo lacaniano que condensa trauma, buraco (trou, em francês) e humano, é calculável. De imediato e mais além das singularidades de cada um, inclusive das diferenças psicopatológicas, produz-se um deslocamento e nos convertemos, nós mesmos, em nossos próprios avaliadores. No próprio sujeito e em sua forma de se constituir, essa tendência encontra onde se alojar.

Quem tem sido isento de comparação com o outro semelhante, mesmo sabendo que, dessa comparação, sempre finalizará com um “menos”? Por isso, trata-se de resistir (como é entendido no campo da física), pois se não opomos resistência, a inércia será esta: cada vez mais, homens e mulheres querem controlar suas vidas para que não apareça nada de imprevisto, o que leva a um aumento da angústia, ou, outra possível opção, negar as consequências das ações que realizam, acreditando falsamente estar fora do controle.

Já vemos emergir um “tudo assegurado”; a publicidade das companhias de seguros resulta cada vez melhor ao mostrar as crianças no comercial.

Mark Manders, Bienal de Veneza, 2013

Crianças protegidas que não cairão jamais ao lado daquelas que nos são apresentadas na absoluta precariedade e desamparo. Nosso primeiro mundo, graças às seguradoras, pode dormir tranquilo. Aparentemente vivemos em um mundo pleno de experiências possíveis e novas, as viagens exóticas, as drogas sintéticas, a proliferação pornográfica são um véu cada vez mais espesso que torna opaca a ineliminável contingência.

Trata-se da repetição do novo, o novo caduco e obsoleto. A abundância de objetos de consumo como expressão deste capitalismo em que vivemos não se esgota em si mesma pois o que consegue é introduzir o sujeito em uma espiral de empuxo a uma satisfação que não cessa de se auto-alimentar.

Os objetos não têm importância; isso era na época de Rockefeller. Na época de Bill Gates trata-se de destruir o objeto feito para que surja o novo, e, assim, sucessivamente. Para manter a euforia do consumo são necessárias as drogas sintônicas como são a cocaína, a anfetamina, o Prozac, o Viagra, o Rubifen, et cétera. Euforia que vem acompanhada da “baixa”, a depressão no auge de nossos dias.

É indubitável que os sociólogos que se impuseram a tarefa de ler os signos de nossa época têm clareza de sua patologização. Nos países do excesso, sua população está cada vez mais afetada no terreno da subjetividade, os sujeitos adoecem e seus sintomas são a maneira de resistir a essa tendência. O sujeito não pode trabalhar, está deprimido, angustiado, quando se trata da outra cara do consumo maníaco, leva-o ao ato violento, quando levando ao extremo o controle e a avaliação de si mesmo, surge o estouro.

Vemos, assim, surgir uns sujeitos cada vez mais desorientados, e, por tanto, com mais medo, como nos dizia Freud em seu belo texto O Estranho. Desorientados – frente a que? – frente a este real impossível de dominar, calcular, predizer, tratar pelo simbólico ou pelo imaginário. Nossa desorientação está causada pela eliminação da impossibilidade.

Não se trata de nenhuma falha a ser retificada, não se trata de impotência, não se trata de déficit, de menos valia, mas nos fazem acreditar que sim.

Para Jacques Lacan essa impossibilidade se expressa na impossível fórmula da relação sexual. Não temos um saber fazer que nos oriente nas relações entre homens e mulheres.

Para encontrarmos, a única possibilidade é uma invenção, um “eureka” a partir daí.

Colin Sherrell, NO/ON — Pine, 20103

É por isso que a diferença sexual, isto é, o “ hetero”, é fundamental para avançar nos impasses de nossa civilização.

Para nós, não se trata da questão de gênero, a igualdade de oportunidades não nos faz esquecer a diferença inevitável.

O ser humano é falante, sexuado e mortal. A palavra, a diferença sexual, a morte são inseparáveis de sua condição. Por isso, podemos nos perguntar o que supõe esta tentativa, em aparência “acéfala”, de afastar o humano de sua condição, despojando-o do poder de sua palavra, apagando sua diferença, distanciando-o de sua finitude.

Biólogos de prestígio chegaram a conceber que cientificamente poder-se-ia falar da inexistência da morte.

Cada vez mais, diferentes filósofos, artistas, sociólogos, em diferentes lugares do mundo coincidem com este diagnóstico da época, com esta tendência totalitária e silenciosa no seio mesmo de nossas estáveis democracias.

Essa tendência totalitária apresenta-se agora com uma roupagem intocável. Fala-se de neurocultura, neuroética, neuroideologia e até de neuroarte. É possível que possamos retroceder no tempo até acreditar que as chaves de nossa subjetividade tenham sido localizadas no órgão do cérebro? O que supõe esse “suposto avanço” para a filosofia, a arte, a poesia, a psicanálise, etc, disciplinas que se sustentam na condição humana? Deixando o contexto das disciplinas: o que tal “suposto avanço” supõe para a condição humana mesma? Se as sinapses cerebrais respondessem a tudo: à genética, em resumo, ao organismo, que seria dos homens?! O cinema da ciência-ficção mostra-nos ao que podemos chegar. Por exemplo, Minority Report, de Spielberg, no qual os sujeitos são aprisionados justamente no momento anterior ao cometimento do ato criminoso , eliminando toda possibilidade de eleição e fazendo da determinação um mestre absoluto.

Lucio Fontana, Concetto spaziale, 1968

A mass media e os políticos têm uma cumplicidade com essa suposta “ciência”, que não distingue a direita ou a esquerda, conservadores ou progressistas.Trata-se mais de uma “fé cega”, de uma fé na aparência laica, mas que encontra seu melhor aliado na religião católica.

Lacan nos advertia que a ciência afetaria tanto o real que a religião se consideraria com melhores motivos, ainda, para “apaziguar os corações”(1).

Também Lacan, “detector de incêndio” nos anos cinquenta, vislumbrou o crescimento do individualismo que levaria a irrupção da violência, mostrou o efeito que a ciência teria sobre o real e que seria acompanhado pelo auge da religião. Para o Vaticano é mais difícil aceitar o casamento entre homossexuais que certas investigações científicas.

Cada vez mais encontramo-nos com ensaístas que nos descrevem o que está acontecendo: o trabalho precário e humilhante, os laços amorosos afetados pelo imperativo do novo, do jovem, do caduco; elejo o trabalho e o amor porque eram para Freud dois pilares da vida humana. Mais solidão, mais temor, mais fragilidade. Os sujeitos com menos recursos e com mais precariedade nesta sociedade hiperdesenvolvida. E, principalmente, mais desresponsabilizados de sua própria vida, uma vida medicalizada, na qual o que menos importa é o que sucede ao sujeito, cujo ser se reduz a um organismo.

Aos sujeitos que vivem em países com índices terríveis de pobreza e doenças é-lhes subtraído o estatuto de desejante, reduzindo-os a serem sujeitos da necessidade, justamente por lhes faltar o mínimo para viver. Jacques Lacan tem páginas memoráveis sobre o tratamento da pobreza e do próximo. Interessa-nos perguntar porque um mundo cujo desenvolvimento tecnológico poderia servir para erradicar a pobreza, provoca seu aumento.

A aparente sociedade da liberdade de eleição, da satisfação dos desejos, do excesso é a mesma cara da mesma moeda. Nossa condição humana está em perigo tanto no excesso como na escassez. Os efeitos deste sistema sobre o planeta e os homens já são difíceis de evitar: mudança climática, aumento das doenças, aumento das guerras, etc. Paremos esse deslizamento. Não gosto do “apocalíptico” porque a única coisa que promove é a impotência e o medo, elementos sempre úteis para, em seguida, instaurar o controle e o terror. Diagnostica-se com clareza o que acontece, mas não se vislumbram muitas possibilidades de mudança, não se encontra a extremidade da corda que permita “outra maneira” de amarrar as coisas.

Para a psicanálise freudiana, o ter e o não ter, que correspondem às diferenças anatômicas, tiveram suas consequências, que Lacan, sobretudo em seu último ensino, diagnosticou como uma ideologia. Ninguém pode negar a genialidade de Freud quando descobre o inconsciente como resultado do encontro entre o ser vivo e a língua, quando nos mostra a importância da diferença sexual e da morte; em uma palavra, quando inventa uma prática como a da psicanálise; mas foi Jacques Lacan, quem, retornando à verdade freudiana pode encontrar o limite intransponível para Freud, o do pai, o do nome do pai. Lacan, sustentando-se na mestria freudiana, conseguiu dar um salto de lógica que ainda está por se dimensionar. Já não se trata do mais e do menos, não se trata de castrado / não castrado, não se trata de satisfação e insatisfação, não se trata de prazer ou de desprazer, inclusive não se trata de mais além do princípio de prazer, de uma barreira a franquear, de algo a transgredir. Para esta nova lógica, o homogênio, o todo, o idêntico, a exceção, podem nos levar ao pior se esmagam o não-todo, o diferente.

Sang Won SungSang Won Sung, ‘TV Baby’, 2010

O humano goza por ser um vivente afetado pela palavra. Trata-se de um funcionamento, não de um disfuncionamento, não se trata de nenhum déficit, nem social, nem adaptativo, nem afetivo: trata-se do modo como cada um organizou um sintoma para enfrentar a impossibilidade da relação sexual, pois, além de que cada sujeito goza à sua maneira, além desse aspecto autístico do gozo, está a diferença de gozo entre homens e mulheres, gozos que não se adéquam. Trata-se de gozos distintos que não respondem à anatomia, mas à assunção de determinadas posições sexuadas.

Por que acreditar que isso teria algo a ver com o tratamento dos problemas que nos acometem? – pode-se objetar que isso é algo muito específico de nossa disciplina, desde o conceito de gozo até a questão da “relação sexual impossível”, passando pela construção de cada um para viver, e, portanto, põe-se em dúvida sua importância para a marcha do mundo.

Na época vitoriana em que Freud viveu, considerar que as neuroses tinham uma etiologia sexual e que as crianças, longe de serem inocentes, eram perversos polimorfos, foi a pedra do escândalo; desde a perspectiva de nosso mundo atual, até pode parecer irrisório.

Jacques Lacan, no entanto, introduz a impossibilidade no probabilismo sexual. Chegou a dizer que gostaria que essa sua fórmula se estendesse como uma reação em cadeia. Mas essa época está marcada pelo imperativo do fálico-sexual_ quantas vezes, com quantos, variados ou não, etcétera – no seio mesmo da diferença sexual.

Frente a isso, apenas resta o laço social, o laço amoroso, algo que vemos cada vez mais afetado. Como já sabemos desde Platão, não existe apenas uma definição do amor. Lacan vai avançando em seu ensino até a concepção do laço amoroso que não tampone o real, nem a impossibilidade, nem o contingente. É o que considera um laço de amor inédito, porque sairia da dialética amor/ódio em sua intenção de alcançar o ser do outro. Um laço entre homens e mulheres que não se erija em monumento da completude, do harmonioso, etc, do calculável, do investimento (financeiro), do assegurado; mas que também não se confunda a contingência com a proliferação do novo, um amor distanciado do neuroamor com seu contrato adjunto e até sua data de validade, proposto por uma deputada alemã. Para isso, usei a palavra RESISTIR. Frente à tendência destrutiva somente é possível opor a resistência do nosso singular sinthoma, que nos dá a possibilidade de saber fazer aí frente ao impossível do laço e ao autístico que nos constitui. Não duvido que esta nova lógica, inclusive esta nova topologia, seja uma alternativa junto com outras, aos tempos que correm.

Se o descobrimento freudiano chegou a afetar até a economia, podemos considerar que a invenção de Lacan pode ajudar, junto com outros discursos, a mudar este mundo, permitir que a condição humana não seja eliminada e conseguir sair dessa dialética mortífera entre o excesso e a escassez, dessa tendência destrutiva que parece haver chegado à sua máxima expressão entre o capitalismo atual, ainda que devemos estar advertidos com Borges de que o abismo pode chegar a ser infinito.

Tradução: Maria Rita Guimarães
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Referencias bibliográficas
LACAN,J. O Seminário 7,A Ética da psicanálise,Jorge Zahar Editor,Rio de Janeiro,1988.p.228 .Referência ao apólogo de São Martinho.
___________O triunfo da Religião, Editorial Paidós.Buenos Aires 2005
MILLER,J.Alain. El partenaire-síntoma. Editorial Paidós,Buenos Aires 2008.

1 Agradecemos a autorização de Mercedes de Francisco para a publicação no Cien Digital deste trabalho apresentado pela autora no Seminario Atlántico del PENSAMIENTO, realizado em Las Palmas de Gran Canárias, Espanha, em 2011. Esse evento propõe-se à reflexão dos acontecimentos da época, desde a perspectiva transdisciplinar.
Mercedes Francisco é psicanalista, membro da Escola Lacaniana de Psicanálise do Campo Freudiano, Associação Mundial de Psicanálise (AMP). Docente do Novo Centro de Estudos Psicanalíticos (NUCEP).Foi presidente da Escola Lacaniana de Psicanálise no período 2000/2002.Integra a redação internacional de Le Nouvel Âne (LNA) por Madrid, revista editada na França e dirigida por Jacques-Alain Miller.
2 Página do artista Victor Vazquez
3 Página da artista Colin Sherrell
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A Bússola do sim e do não

by cien_digital in Cien Digital #16, Hífen

Andrew McConnell, Rubbish Dump 2.0, 2010

Philippe Lacadeé

Há um século, em 1914, Freud se interroga sobre o que desbussola “o comportamento da criança” perante seus professores. Propõe então sua bússola: esse comportamento se orienta e depende do que se passou no “quarto da criança”1 indicando que não é por isso “que se poderia tampouco desculpá-lo”. Freud designa assim um fragmento da vida de cada sujeito ligado a um lugar próprio. “Quarto da criança” designa especialmente na casa um espaço onde a criança encontra a presença do Outro parental, que se preocupa com ela, que abre um mundo de palavras graças às quais ela pode se identificar. Ela aí encontra igualmente o mundo dos objetos, objetos pulsionais da demanda oral e anal, e aqueles do desejo como a voz e o olhar. Esses objetos que Lacan nomeia objetos a, dependem de seu corpo e de sua relação ao Outro, são os objetos em jogo na pulsão, que se inscrevem no enodamento do corpo vivente ao dizer do Outro.

Se Freud pode dizer que o comportamento da criança faz sintoma, ele o é “enquanto signo e substituto de uma satisfação pulsional que não teve lugar”2, esse signo não é sem ligação com seu corpo em sua relação aos objetos da pulsão porquanto seu corpo é o lugar de uma satisfação possível. Freud insiste sobre a responsabilidade que cabe à criança. Esta concerne ao uso do gozo que faz do seu corpo e do seu pensamento. No seu quarto a criança cria seu espaço e nesse fragmento de vida ela apreende seu corpo como objeto de gozo, mas também pode se apreender como elemento à parte, querer se isolar e viver seu ser como objeto rejeitado.

O quarto da criança mudou

Mostrei em Vie éprise de parole como no início do século XXI, o quarto da criança mudou invadido pelos objetos do capitalismo pulsional3. A criança pode assim, muito cedo, ter acesso aos objetos gadgets4 que subvertem ou anulam a presença significante e desejante do Outro.

Eles “vêm no lugar do que nos falta na relação de conhecimento”. Para alguns, desde então há consequente modificação do lugar do Outro parental, da função de identificação, de transmissão, de falta, necessárias para a via do desejo e a relação ao conhecimento.

Se algumas crianças podem ser desbussoladas outras podem, de modo paradoxal, encontrar no uso desses objetos uma nova bússola; nós devemos, então, ser mais particularmente cuidadosos com o uso que cada uma faz disso.

Robert Heinecken, untitled

Sabe-se, desde Freud e Lacan, que por estrutura, a criança é submetida desde sempre como sujeito à pressão do objeto perdido, ao gozo desse objeto perdido. Tomadas então pela insaciável exigência de recuperar esse gozo mítico do objeto perdido no cerne de uma suposta experiência de satisfação, certas crianças se encontram presas, com seus corpos, na aposta sintomática desses objetos gadgets modernos que lhes seduzem articulados que são ao mais de gozo. Um querer gozar toma assim o lugar de um querer dizer e de um desejo de saber.

A criança sem o tempo da mediação do Outro

Aí onde reina a ausência do desejo do Outro a criança pode se reduzir ao silêncio do objeto que assumiu o comando de seu ser complementando sua falta a ser. Esse Outro, Freud o define como o complexo de Nebenmench5, o complexo do semelhante, com que Lacan introduz a dimensão ética do encontro com a presença e o tempo do Outro. Freud o precisa: “é desta forma, junto ao semelhante, que o homem aprende a reconhecer”. É com a presença do semelhante como objeto humano, o mais próximo dele, muito cedo e em sua intimidade que o sujeito aprende a reconhecer, ao mesmo tempo: “o objeto de satisfação”, “o objeto hostil” assim como “a única potência que confere segurança”, segurança de um discurso que se estabelece o mais próximo de seu ser. A criança conhece mais seu objeto que o Outro, ela conhece melhor o modo de emprego do objeto gadget que a respeito do Outro. É o caso, então, do encontro com o desejo do Outro, que o perturba, que agita seu corpo e faz sintoma. O computador ou o gadget suplantou a palavra do adulto. A criança não sabe mais o que fazer com a presença desejante do Outro, com o olhar e a voz do Outro. Mas é preciso assinalar que algumas crianças fazem justamente um uso que pode lhes servir para conseguir conhecimentos sem ter que passar pelo Outro6.

Da criança instrumentalizada à autoridade silenciosa do objeto

As relações com o que representa autoridade na palavra e a presença do humano são alteradas em proveito da autoridade silenciosa do objeto gadget. A criança moderna que se tornou adolescente corre o risco de não mais alojar, como o adolescente de Rimbaud, a verdade de seu desejo “em uma alma e um corpo”7 mas alojá-la como irmã do gozo no objeto mais de gozar silencioso onde ela pensa ter o gozo, enquanto pelo contrário, o objeto goza dela. É aqui que a relação com o objeto gadget pode ter valor de novo sintoma, introduzindo um comportamento aditivo, curto-circuitando a relação ao outro. Assim também quando o outro humano mais próximo lhe fala e quer lhe dizer o savoir y faire que ele mesmo extraiu de sua própria existência, ela se angustia ou tem medo, donde surgem os novos sintomas fóbicos que vão do pânico à fobia social. Mas também no lugar do sintoma como formação do inconsciente surge um estilo de vida em que predomina o gozo.

Jake and Dinos Chapman, Zygotic acceleration, biogenetic, de-sublimated libidinal model, 1995

O imperativo do gozo e o objeto como sintoma

A questão é saber como essa criança moderna – que não se sustenta mais de seu desejo, mas da solitária relação ao objeto –, toma conta do excesso de consumo que lhe barra o acesso ao saber e ao inconsciente. Os desejos tão solicitados são transformados em necessidades, em imperativos de gozo que respondem à gulodice de seu supereu sem que a criança saiba demandar ao Outro. Ela quer tudo e tudo já8. Ela se encontra, então, vítima de um supereu feroz que a empurra para querer gozar de tudo e para o qual bem e mal se equivalem.

Controle remoto na mão, a criança conecta diretamente seu corpo com o objeto gadget que já era interrogado por Lacan em 1974: “chegaremos a nos tornar animados verdadeiramente pelos gadgets?”. Lacan não acreditava, mesmo afirmando, não obstante, que “verdadeiramente não há nada a fazer quando o gadget não é um sintoma”9. Lacan evidenciava deste modo, a solução do gadget como podendo ser para o sujeito um novo sintoma; parece abrir uma via mais digna para o objeto gadget. Não se trata de rejeitá-lo com a nostalgia dos tempos antigos, mas compreender o uso que o sujeito faz disso. Se ele pode ter valor de sintoma, é porque o sujeito pode se servir dele como um ponto de apoio localizado, ou mesmo como suplência.

Como se orientar com a psicanálise para dizer sim e não a essa língua?

Eu mostrei em Vie éprise de parole e La vraie vie à l’école como o aumento, na cena do mundo, da pretensão do direito ao gozo como bem se quer, conduz alguns para além de toda culpabilidade ao não ceder ao imperativo do gozo do supereu. Isto vem fazer reinar em sua língua, que não se articula mais ao Outro, o imperativo do Um sozinho que diz o que ele quer, quando o quer, e tudo isto sem nenhum recalcamento nem culpabilidade.

Escuta-se, então, uma língua carregada de tensão verbal e que se pretende separada da língua dita, de sentido comum, vivida por eles como superegoica. Não se pode mais se encantar com a aparente “liberação” dos valores morais ou da palavra que fariam acreditar que, em nome da autenticidade, se teria o direito de dizer tudo o que se pensa. Percebe-se em seu avesso o novo império do gozo, seu o-pior do gozo, que para além da diferença sexual faz crer a esses sujeitos, que eles teriam também o direito de gozar do corpo do outro. Isso ilustra bem como para alguns é o empuxo-ao-gozo de seu corpo, o se gozar no corpo da língua que lhes fazem, paradoxalmente, esquecer que têm um corpo, aqueles que receberam justamente de sua relação à língua articulada.

William Cordova, “Some of US were gladiators”, 2006

Éric Laurent, em seu texto, A sociedade do sintoma10 interrogava a posição do psicanalista e propunha seguir a via aberta por Martin Heidegger em sua conferência “Serenidade”11: trata-se de localizar o uso do gozo que o sujeito pode experimentar a fim de evitar o impedimento de fazer valer seus próprios pensamentos. A questão essencial colocada por Martin Heidegger é, então, de saber como dizer ao mesmo tempo Sim e Não para o sujeito. Esse Sim e Não colocados desta forma desnudam a particularidade do inconsciente para cada sujeito e resultam também no triunfo do supereu. Obedecer ao Goza! é obedecer à sua ordem, não obstante, restabelecer o censor é anunciar as devastações que virão nos novos retornos que fará a pulsão. A posição do psicanalista com relação ao gozo é de enviar o sujeito à sua particularidade.

Existir na particularidade do sintoma de sua língua.

De acordo com Éric Laurent comentamos que o grande movimento da civilização, seu hedonismo de massa, fez desaparecer a particularidade do sintoma. Há, entretanto, variedades clínicas no modo em que cada um usa do insulto ou da provocação12.  Nós devemos então saber oferecer o lugar, a situação onde cada um encontrará a singularidade do caminho que lhe é próprio, saber ser o destinatário, falando com os jovens sobre aquilo que lhes parece ser um impasse, aí onde precisamente eles são tomados pelo empuxo-a-gozar do Um sozinho em sua língua13. Saibamos, no que parece gelificado em uma palavra, abrir pequeno furos particulares onde cada sujeito poderá se liberar da tirania do gozo todo ou de falar nessa língua de provocação. Trata-se de tomar posição colocando-se a serviço da língua, ao “dar um pequeno empurrão na língua”, a fim de que cada um se sinta trabalhado por sua relação a ela, aí onde pensava que tudo era estabelecido segundo sua medida.

O que se goza nessa língua não é sem relação com o que se goza no corpo desses adolescentes vindo indicar essa alguma coisa que tem traço e cruza a língua imediatamente. Esse movimento pulsional, essa imediatez verbal da sensação que anteriormente era reprimida pela língua articulada e que hoje não opera mais, se encontra de certo modo liberado e incidindo diretamente na vida do sujeito. Uma certa consistência da vida acompanhada de uma língua inédita não pode mais ser diminuída de modo autoritário exercido por um mestre cego ou fascinado, isso não opera mais e pode, ao contrário, implicar devastações ainda mais consequentes.

Michelangelo Pistolleto, World Globe, 1966-68

Marion

Marion, treze anos, insultada em seu Facebook e em seu celular por adolescentes de sua classe, na quarta-feira, 13 de Fevereiro de 2013, em vez de ir ao seu colégio e depois de ter consultado no Google o site Como se suicidar? decide se enforcar no cabideiro de seu quarto. É aí onde sua mãe a descobre mais tarde. O que aconteceu?

Nessa quarta-feira de manhã Marion diz à sua mãe Nora que está cansada e quer ficar na cama. Depois do café da manhã ela retornou para seu quarto. Na noite da véspera ela comunicou à sua mãe um sofrimento de amor e deu notícia de seu esgotamento. Nora a deixa então em seu quarto com o celular sob o travesseiro e sai para almoçar com uma amiga e seus dois outros filhos. Por volta das 13h30min a mãe se inquieta, sua filha não atende o celular, ela entra em casa se precipita no quarto da filha, arromba a porta que tinha sido bloqueada e a encontra enforcada, inanimada, presa a um lenço enroscado no cabideiro. Marion deixou duas cartas sobre sua escrivaninha. A primeira endereçada ao colégio. Aluna da quarta série, ela escreveu sobre o envelope o número de sua classe. Ela detalha seus sofrimentos, suas humilhações, os insultos ocorridos muitas vezes em plena aula e nomeia seus cinco algozes. “Minha vida virou de ponta a cabeça, ninguém pode compreendê-la”. Sobre o outro envelope ela escreveu “Minhas mil lembranças com vocês”, mas o envelope está vazio.

Os pais compreendem através de uma reportagem na FR3 que Marion havia se tornado a vitima de uns poucos e decidem apresentar queixa. Eles querem saber o que se passou no colégio e com os cinco alunos algozes. Segundo eles “esses jovens queriam eliminar sua filha”. E “não é porque são menores que eles devem ser desculpados”. Em seguida Nora procura os amigos de Marion para interrogá-los. Dizem-lhe para deixar as crianças tranquilas e ir fazer seu luto. Desconfiam dela, é tomada por louca. Os professores se calam. A diretora do colégio recusa receber os pais. “Nada permite pensar que Marion ia mal”.

Descobre-se que Nora queria anteriormente que sua filha mudasse de classe; desde a sexta série. Marion se deixava tratar de mongoloide e autista. Na quinta série um menino tinha endereçado um SMS: “Amanhã, na parada do ônibus você será morta”. Diante da demanda de Nora, o orientador tinha convocado o autor da mensagem que, ao lado de sua mãe, tinha balbuciado “Mas era por diversão”.

Geta Brătescu, ‘Vestigii’ (serie Vestigios), 1978

Nesse ano da quarta série ela se queixava de não poder trabalhar porque era tratada de tonta ou nerd quando ousava pedir silêncio em aula. No colégio era a balbúrdia, confusão, impostos por qualquer testa de ferro. Um aluno diz a uma professora: “você, eu te como”. Outro atira sua agenda no rosto de uma professora de história. No recreio lutam, e parece que às vezes bebem e fumam nos banheiros. O clima se apazigua e Marion se apaixona por um menino. Os pais a vêem mudar, ela escreve três mil SMS por mês ao seu amado.

Marion não se queixa mais de nada embora permaneça o alvo de um pequeno grupo de meninas e de um menino. Alban, que ela beijou um dia, depois rejeitou. Alban lhe tinha dito “a primeira vez será comigo”, mas ao se dar conta de que Marion ama um outro, se diverte com um grupo de companheiros a tratá-la de puta, diz que ela é gorda, não tem seios, é muito grave, a seus olhos ela é nada,  uma panaca.

É em seu quarto e sob seus lençóis que ela recebe tudo isso. Sem o conhecimento de seus pais ela criou seu muro Facebook. Sob o pretexto da perda de sua agenda, ela obtem outra, falsa, sobre a qual se atribui notas excelentes e um comportamento exemplar, que apresenta para seus pais assinarem, e outra, a verdadeira, na qual ela tem más notas e um comportamento deplorável com insultos e que assina no lugar de seus pais. Esse estratagema lhe permite não perder o enfrentamento aos outros.

Na véspera da tragéda uma simulação de incêndio impede Marion de partir. A quase totalidade da classe se agrupa em torno dela por uma banalidade. Com efeito, ela escreveu na parede sobre uma colega um dos comentários estúpidos que, tão frequentemente, leu sobre si mesma: “Lila, você é uma panaca, não gostamos de você”. Vaias generalizadas, Alban lidera a dança com outros pestinhas. “Você tem menos orgulho, hein?” Eles continuam pelos corredores “vamos arrancar seus olhos, te matar”. Do banheiro Marion chama sua mãe “não me sinto bem, eu queria ir para casa”.

Ela contata aquela que lhe disse: “se você voltar ao colégio eu te matarei”. Ela a tranquiliza, mas continua a lhe dizer “Você nos deixa tontos pra fazer do seu jeito, é convencida, vou lhe quebrar, você se acredita popular, tenta nos chocar e acredita que todos os caras te adoram”. Ela chama então seu namorado e diz “é melhor terminar o namoro para que os outros não te façam mal”. À noite ela se abriga nos braços de sua mãe, mas não lhe diz de sua ruptura amorosa e não diz dos pedidos de desculpas que deve fazer publicamente diante de toda classe para pedir perdão a Lila. “Ela não vai ter coragem de mexer com a menina, se ela aparecer eu vou matá-la!”

Quando informam a Alban a morte de Marion ele diz “Não é verdade, porra, não fiz nada, eu sou de jogar vídeogame”. No dia seguinte da tragédia é sua vez de receber ameaças de morte, seu pai decide então muda-lo de colégio. Sobre a página do Facebook intitulado Rip (Reast in Peace) aberta por seus colegas, as causas do suicídio não deixam nenhuma dúvida para eles e todos se dão conta de que o uso da língua injuriosa desarticulada do outro e seus objetos gadgets lhes fazem desbussolados. “O pior é que fizeram isso para brincar e hoje choram”.

Walter Nomura (Tinho), ‘Conversando com meus Mestres do passado’, oléo sobre tela, 2011

O efeito da linguagem e o mais-de-gozo

É disso que se trata em adolescentes como esses, de lhes oferecer entrar na linguagem mais do que em uma norma ideal14. A palavra é um dom da língua feita ao outro sobre um fundo de promessa, e assinala onde cada um, por mais pobre que seja, aceita se vestir de palavras para se ver amável e até digno de ser amado, servindo-se de seu sintoma. É aí que saberá o que deve ao Outro do símbolo com a condição de que lhe tenha sido oferecido o caminho certo, ou seja, que tenha sabido dizer sim à sua presença no mundo da palavra. Por isso o sujeito se realiza na falha onde surgiu como inconsciente, pela falta que produziu no Outro, seguindo a marca que Freud descobre como a pulsão mais radical: a pulsão de morte.

O supereu lacaniano é o rosto da pulsão de morte no qual são presos muitos jovens de hoje. É por isso que se busca estender o registro dos objetos a para além da lista natural a todos os objetos da indústria, da sublimação da cultura, a tudo que pode vir completar. São gotinhas de gozo, por vezes de pequenos nadas que dão o estilo de vida de muitos de nossos adolescentes e seu modo de gozo, lá onde reina a face do que Freud nomeia pulsão de morte.

É no momento da adolescência que chamei de o exílio (l’éxil) 15que se encontra esse furo no real sustentado pela divisão mais visível do corpo e do gozo. Com frequência é com esses produtos da civilização que a falta a ser do corpo procura se alimentar, se cortar, se ocultar, onde para alguns e cada vez mais a dívida simbólica foi devastada. A pulsão de morte se chama, aqui, a gulodice do supereu quando o símbolo não é mais o que se apresenta para marcar autoridade e devora o sujeito.

Como disse Éric Laurent, os adolescentes buscam também, como muitos sujeitos modernos, a presença do Outro entre eles16. O perigo de uma certa juventude sem qualidades e tragicamente sem memória nos remete ao que dizia Jacques Lacan em 196117 quando adiantava que a dívida simbólica pode não estar sob a responsabilidade de alguns sujeitos; desde então eles não se sentem mais responsáveis e se encontram “incumbidos de uma desgraça ainda maior desse destino de não ser nada”18. Não se desnudam à particularidade do sintoma para reinventar seu lugar no mundo.

Esses adolescentes diretamente conectados em um mundo imediato sem a mediação do Outro, se apresentam diretamente em ato e usam da escola para colocar em jogo seu desencadeamento pulsional no qual o se fazer ver e se fazer escutar ocupam a encenação de seus corpos. A pulsão de morte direta em estado bruto conduz ao pior de uma conduta desbussolada e fora de limites. É o que tornou a escola difícil para Marion, um espaço vazio à possível intervenção do Outro, resultando em fracasso a função do “ponto de apoio” do professor19. Nesse lugar é possível fazer valer o que é mais eficiente, mais do que se apoiar sobre um ponto ideal, com frequência rejeitado pelo adolescente, pois ele se orienta pela solução do ponto de apoio já encontrado, o sujeito com seu sintoma: “o insuportável do sintoma pode se transformar em ponto de apoio para que o sujeito reinvente seu lugar no Outro”20. “É na roupagem do discurso como tal que o sujeito pode se identificar e se apoiar para suportar o efeito de linguagem que é a angústia”21. As provocações linguajeiras, os insultos, os comportamentos desrespeitosos ou violentos são um modo particular de se situar na linguagem cobrindo toda a falta porque a linguagem do adulto, portador dessa falta, é muito angustiante e não cumpre mais a autoridade como antes. “A insolência não é mais que cobertura”22. Ela contém uma questão essencial que aguarda sua resposta, uma verdadeira resposta.

Para concluir Freud indica que a escola não deve esquecer a particularidade do sintoma, ela “não deve reivindicar para si mesma o lado cruel da vida” e “não querer ser mais que um lugar onde se goza a vida”, sobretudo quando é o sentido da vida, até o limite, que alguns adolescentes colocam em questão. Freud nos convidava a não recuar diante do sintoma “pouco satisfatório”, sobretudo quando, tal como o representa Marion, ele é a pantomima do teatro em sua versão da pulsão de morte.

Tours, 25 mai 2014

Tradução: Lucia Mello
Revisão: Raquel Veiga e Maíra Barroso Leo

 

 


Referências Bibliográficas
1 FREUD, Sigmund. Algumas reflexões sobre a psicologia do escolar. (1914) In: FREUD, S. Edição Standard Brasileiras das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago. 2006. Vol. XIII, p. 247-250.
2  FREUD, Sigmund. Inibições, sintomas e angústia. (1926) In: FREUD, S. Edição Standard Brasileiras das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago. 2006. Vol. XX, p. 95.
3 MEIRIEU, Philippe. Lyon, 15 de dezembro de 2008, de seu convite à apresentação de meu livro L’Eveil et l’exil em sua universidade, termo retirado de Bernard Stiegler.
4 LACAN, Jacques.  A Terceira, Dezembro de 2011, In: Opção Lacaniana , n° 62, p. 32. A tradução para gadgets nesta versão é bugiganga.
5 FREUD, Sigmund. Esboço de Psicanálise. (1938) In: FREUD, S. Edição Standard Brasileiras das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago. 2006. Vol. XXIII, p. 157-220.
6 Jornal Le Monde de agosto de 2008.
7 RIMBAUD Arthur, « Il me sera loisible de posséder la vérité dans une âme et un corps. » Une saison en enfer in Œuvre-vie, Arléat., p. 453.
8 SPORTÈS Morgan, Tout, tout de suite, Paris, Fayard, 2011, p. 29.
9 LACAN Jacques, A Terceira, op. cit., p. 34..
10 LAURENT, Éric. A sociedade do sintoma. In: A sociedade do sintoma: a psicanálise, hoje. Rio de Janeiro: Contra Capa Livraria, 2007. p. 163-177.
11 HEIDEGGER, Martin. “Sérénité”, Questions III, Paris, Gallimard, Tel, 1990.
12 LACADÉE, Philippe. Vie éprise de parole, “L’injure un des pics de l’acte de parole”, Editions Michèle, 2012p. 187-251.
13 LACADÉE, Philippe. La vraie vie à l’école, Editions Michèle, 2013.
14 LAURENT, Éric. op., cit.
15  LACADÉE, Philippe. L’éveil et l’exil , Editions Cécile Defaut, 2007.
16 LAURENT, Éric. op., cit.
17  LACAN, Jacques. O Seminário, Livro VIII, A Transferência. p. 295.
18 LACAN, Jacques. Ibid, p. 355: “Em suma, é a própria dívida onde tínhamos nosso lugar que nos pode ser retirada, e é alí que podemos nos sentir nós mesmos, totalmente alienados. Sem dúvida, o até antigo nos tornava culpados dessa dívida, mas ao renunciar à ela, como podemos fazer agora, somos tomados por uma infelicidade ainda maior, a de que esse destino não seja mais nada. Abordaremos esta questão no capítulo 6”.
19  Lacan, em A relação de objeto, p. 82, fala de “relação anaclítica”.
20 LAURENT, Éric. op.cit. Cf. Também J. Lacan diz do ponto de apoio ou apoio contra traduzido do alemão Anlehung para anaclítico, in Seminário, Livro IV, A relação de objeto, 1956-1957, Rio de Janeiro: Imago. p. 82
21 LAURENT, Éric. op. cit.
22 BENAMEUR, Jeanne.  Présent ? Denoël, 2006, p. 65.
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O passado editável Crise da interioridade e espetacularização de si

by cien_digital in Cien Digital #17, Hífen

Maurizio Savini, gomma da masticare, 2011

Paula Sibilia1

O homem é o único animal capaz de lembrar. Ao menos, isso supomos, e também é o que Friedrich Nietzsche observou em suas Considerações extemporâneas de 1873. Claro que não se tratava, para ele, de uma grande qualidade capaz de enaltecer o gênero humano. “É possível viver quase sem lembranças, sim, e viver feliz assim, como o mostra o animal”, constatava então o filósofo alemão, “mas é absolutamente impossível viver, em geral, sem esquecimento”. Por isso, esquecer ruminando seria, para Nietzsche, “a capacidade mais elevada do espírito”.

Pode parecer estranho, mas esse autor  não foi o único a se revoltar contra as tiranias da memória, defendendo em troca as potências libertadoras do esquecimento. Para ter uma ideia das desventuras que o lembrar-se de tudo pode implicar, basta evocar o célebre protagonista do conto de Jorge Luis Borges, Funes o memorioso, a quem a quantidade avassaladora de lembranças, literalmente, o impedia  de viver.

Tudo isso vem à tona agora porque subitamente convivemos com uma máquina monstruosa que parece se lembrar de tudo: a internet. A essa fabulosa qualidade apontam as reclamações que se erguem contra os motores de busca como Google ou Yahoo, em nome do “direito ao esquecimento” nas redes informáticas. O que se pede, em suma, é que sejam apagados certos dados pessoais que se referem a situações do passado e que, embora sejam verdadeiros, o demandante considera que o prejudicam de algum modo.

Em maio de 2014, a União Europeia tomou uma decisão insólita nesse sentido, que provocou intensos debates ao repercutir em todo o planeta. Segundo tais medidas, os buscadores da internet devem atender as petições dos usuários quando estes solicitem que sejam eliminados de seus resultados alguns conteúdos que os afetam de forma negativa. A partir daí, e por toda parte, não cessam de proliferar os processos judiciais que tentam limitar a informação disponível sobre um determinado indivíduo.

Assim, por exemplo, entre os casos que mais ecoaram, estão os de atrizes ou modelos que pedem a omissão de links para sites pornográficos em todas as buscas associadas a seus nomes. Mas não é só isso, pois a diversidade abunda neste âmbito. Existem também aqueles que querem desaparecer dos resultados mostrados por Google porque temem por sua segurança, por exemplo, ou porque desejam proteger sua privacidade, ou porque os associam a episódios de seu passado que não querem que sejam lembrados por ninguém.

Diego Velázquez, 
La infanta Margarita Teresa de Austria, 
1653, Kunsthistorisches Museum, Viena

São inúmeros os ingredientes deste debate, que é muito complexo e está cheio de contradições. Em todo caso, esse reconhecimento tão recente do “direito ao esquecimento” por lei abala alguns alicerces de nossa tradição filosófica e faz surgir a seguinte dúvida. Por ventura estaria se realizando, afinal, em pleno século XXI, aquele feliz desprendimento das garras da memória proposto pelos autores anteriormente mencionados que, não por acaso, marcaram a fogo o pensamento e o imaginário dos séculos XIX e XX?

Talvez sim, em certo sentido, porém não exatamente como eles o enunciaram. Porque o que entendemos por memória e esquecimento, inclusive o que consideramos que seja “ser alguém” e a relação que isso implica com as próprias lembranças, são todas definições que costumam mudar com os vaivens da história. E talvez tenham se reconfigurado de maneira inesperada nos últimos tempos. Nessa perspectiva, não surpreende que figuras como Nietzsche  e Borges tenham se encarniçado contra os possíveis abusos da memória, já que suas obras costumavam disparar agudos dardos aos valores vigentes na época em que escreveram. E, como é sabido, tanto o século XIX como boa parte do XX estiveram, obcecados pela memória.

Inclusive Sigmund  Freud, autor de uma das teorias mais bem-sucedidas sobre o que significa ser humano na era moderna, atribuiu à memória um papel despótico: podemos não nos lembrarmos de algo,ou acreditar que o esquecemos, mas tudo o que vivemos nos constitui de um modo profundo e crucial, alimentando o que somos. Mesmo se um determinado episódio não se encontra esclarecido no nível mais imediato da consciência, admite-se que tudo o vivido está abrigado em substratos ainda mais profundos de nossa essência. E não há o que fazer: ainda que pensemos que não nos lembramos, estamos feitos dessa matéria tão esquiva como insistente.

No entanto, muita água correu debaixo da ponte desde aquelas vitorianas épocas, e é provável que nossa relação com a memória já não seja a mesma. Embora hoje, mais do que nunca, sejam erguidos museus, eventos ou parques temáticos para prestar culto a toda sorte de acontecimentos do passado. Isso, sem deixar de lado a encenação espetacularizada de épocas inteiras, enquanto infinidade de material jornalístico ou bibliográfico, bem como cinematográfico e televisivo, também se ocupa do assunto.

Para não falar dos blogs, dos perfis nas redes sociais e das toneladas de fotos que acumulamos para documentar cada instante de nossas peripécias vitais, ou de seja lá o que for.

De modo que o desejo de registrar e arquivar parece ainda muito presente em nossa cultura, mas o curioso é que tudo isso convive com uma novidade: as ferramentas para apagar lembranças. Nesse sentido, a reivindicação do “direito ao esquecimento” que estourou recentemente na internet, não parece estar sozinha nessa tendência. Vários experimentos científicos procuram descobrir uma substância química que seja capaz de eliminar reminiscências dolorosas dos cérebros daqueles que sofrem de “estresse pós-traumático”, por exemplo. É a esse esforço que alude o filme Brilho eterno de uma mente sem lembranças, dirigido por Michel Gondry em 2004, cujos personagens recorrem a uma empresa que vende esse tipo de serviços para solucionar, de modo indolor e com alta praticidade, a tristeza de uma desilusão amorosa.

Freya Jobbins, Kerri Anne, 2013, série “dollfaces”

Não é casual que, justamente agora, surjam esses sonhos de uma memória editável ao gosto do consumidor, como se a própria vida fosse uma história contada num suporte digital, cujos episódios desagradáveis pudessem ser apagados – ou melhor, deletados –  com a eficácia típica dos computadores e por livre decisão de cada um. A metáfora acabou se aderindo ao referente, de modo que a Timeline de Facebook não representa mais a epopeiade seu protagonista por meio de uma série de imagens cuidadosamente selecionadas. Agora, ambas as substâncias — vida e relato audiovisual — se fundem e  se confundem nessa biografia informática.

Tratadas como arquivos digitais, as lembranças deixam de ser aquele ingrediente etéreo
e misterioso que nutria a interioridade de cada indivíduo. Essa essência oculta e enigmática era claramente analógica, incompatível com qualquer dispositivo eletrônico e incapaz de se converter em informação. Por isso, exigia outras técnicas de deciframento: as viagens introspectivas e as evocações retrospectivas, por exemplo, como rituais cotidianos para se conhecer a si mesmo, procurando dar um sentido coerente ao caótico fluxo de acontecimentos que compõem toda e qualquer vida.

Mas algo parece ter mudado bastante nesse panorama. Quando se opera segundo a lógica informática, se ninguém lembrar que algo aconteceu – inclusive consigo mesmo – porque esse dado foi eliminado tecnicamente, então, pode-se agir como se isso nunca tivesse ocorrido. Algo comparável ao que acontece quando se recorre ao bisturi para modelar o próprio aspecto físico, por exemplo, ou quando alguém edita a “linha do tempo” em sua página de Facebook, ou quando lhe exige a Google que deixe de mostrar imagens e textos vergonhosos a seu respeito.

A naturalização, entre nós, de todas essas atitudes, sugere algo inquietante. A matéria que nos constitui parece ter mudado sutilmente para transmutar-se em outra coisa, ao se redefinirem os pilares que sustentam a história pessoal de cada sujeito. Já não é algo cujos vestígios são guardados no mais recôndito do próprio lar — como se fazia com o álbum de família ou com o diário íntimo de antigamente, por exemplo — ou então “dentro” das entranhas mais profundas de cada um. Em vez disso, agora parece se tratar de uma espécie de capital que se deve administrar com o propósito prioritário de mostrá-lo.

Ian Davenport, Ingleby Wall Painting (after Carpaccio) – detalhe, 2011

Ou seja, em lugar daquele tesouro que devia ser protegido na intimidade para dar consistência ao eu, trata-se de um relato cuja função primordial consiste em ser visto. Isto é, que os outros o assistam como se fosse um espetáculo e que o testemunhem com seus próprios olhos; e, na medida do possível, que também o “curtam” clicando nos botões adequados ou fazendo comentários afirmativos.

De fato, já não se guarda quase nada para sempre, nem na interioridade impalpável da alma nem na privacidade do lar. Não se conservam fotos impressas, cartas ou diários, por exemplo, pois tornou-se imprescindível mostrar logo tudo nas telas e, em seguida, descartá-lo para renovar o perfil. É preciso exibir tudo o que se é; ou, mais exatamente, o que se está, clamando sempre pela aprovação alheia. Ainda com mais exatidão, dir-se-ia que é necessário mostrar tudo o que se deseja que os outros considerem que se é, para assim receber o seu almejado apoio com o polegar para cima.

Além disso, cada vez existe menos diferença entre aqueles pares que antes se consideravam opostos e excludentes: essência e aparência também se confundem e se misturam nestas novas práticas vitais, sem privilégios morais para a primeira nem desprezos para a segunda. O importante é que se somos algo, então tudo isso tem que estar à vista; porque se não se mostra e os demais não o enxergam, então nada nem ninguém poderá nos garantir que existe.

Ante essa importante e curiosa mutação, o fato de que algo tenha acontecido ou não, parece perder relevância. Também muda a maneira em que uma lembrança do passado afeta o presente, sem necessariamente se afixar de modo indelével na “essência interior” de seu protagonista. O que mais importa, agora, parece ser outra coisa: o efeito que tudo isso produz nos outros; em suma, como os demais o veem.

Daí que as reivindicações atualmente em curso em torno ao “direito ao esquecimento” também costumem se apresentar sob outro rótulo: o “direito à autodeterminação informativa”. Neste caso, o que se defende é a faculdade de cada indivíduo para administrar por si mesmo a divulgação e o uso dos dados referidos à sua pessoa. Esses sonhos de autonomia também levam a marca do contemporâneo. Essa ilusão de controle total, porém, não cessa de nos desapontar, dando ressonâncias inesperadas às sagazes teorias de Gilles Deleuze sobre o mundo contemporâneo.

Cabe lembrar que esse filósofo francês recorreu à expressão “sociedades de controle” para designar o “novo monstro”, como ele mesmo ironizou naquele breve e contundente ensaio publicado originalmente em 1990. A que se referia? À gradual implantação de um regime de vida inovador, que vai se distanciando dos modos de funcionamento tipicamente modernos e industriais , ou seja, daquilo que Michel Foucault nomeara “sociedades disciplinares” em seus estudos publicados alguns anos antes.

Essas novidades começaram a se delinear nas últimas décadas do século passado, com o apoio crucial das tecnologias eletrônicas e digitais, para configurar uma organização social mais compatível com o ágil capitalismo de final do século XX e princípios do XXI; isto é, um sistema regido pelo excesso de produção e pelo consumo exacerbado, pelo marketing e pela publicidade, pelos fluxos financeiros em tempo real e pela interconexão em redes globais de comunicação. E, sobretudo, marcado pela decadência de certos estabelecimentos básicos da sociedade moderna — tais como a escola, a fábrica, a prisão e o hospital — enquanto a empresa se entronizava como um  modelo que impregnaria todas as demais instituições, ao contagiá-las com seu onipresente “espírito empresarial”.

Choi Jung Hyun, keyboard viper, 2008

Como parte desse movimento, entraram em crise as figuras de autoridade mais tradicionais (pais, chefes, mestres, Estado), de modo que o antigo sistema de poder centralizador — que exercia uma vigilância vertical e internalizada por meio de regulamentos e culpas — também caiu em declínio. Contudo, essa transformação não significou uma liberação total das velhas amarras; ou pelo menos, não foi apenas isso o que aconteceu. Junto com esse afrouxamento, abriu-se o horizonte para a implantação de um tipo de controle mais sutil e eficaz, que opera em todo momento e lugar, graças à espantosa ubiqüidade dos dispositivos digitais de comunicação e informação. Em síntese, trata-se de um poder descentralizado e distribuído pela totalidade do tecido social, como Deleuze vislumbrara com tanta perspicácia há um quarto de século atrás.

Contudo, esse controle sobre a fatal insegurança da vida é mais uma armadilha extremamente lucrativa que um fato consumado — ou algo que alguma vez possa vir a se consumar de vez. O mercado , a tecnociência e os meios de comunicação selam, todos os dias, uma aliança tácita para manter essa dinâmica em funcionamento. Um movimento estimulado, ao mesmo tempo, pelo temor  ao inimigo (ou ao simples acaso) e a promessa de que sempre será possível afugentá-lo tecnicamente. Os mais variados artefatos estão à nossa disposição, conforme nos é explicado todo dia, para que possamos com eles “controlar” o caótico acontecer da vida.

Porém, além dessa potência que emana do bem-sucedido “mito cientificista”, agora também vivemos na “sociedade do espetáculo”. Quer dizer, aquilo que Guy Debord entrevira já faz quase meio século. Em plena agitação das rebeliões contraculturais, esse autor notou que estava se engendrando esta nova configuração sociocultural, política e econômica, uma de cujas definições mais citadas afirma que “o espetáculo é uma relação entre pessoas mediada por imagens”. Quase nada do mencionado nestas páginas teria sido imaginável no longínquo ano de 1967; no entanto, tudo isto talvez sugira que algo daquela ácida previsão está se cristalizando agora. Com alguns ingredientes imprevistos, sem dúvida, mas é inevitável associar o que acontece hoje em dia com aquilo que Debord intuiu, com furioso desdém, numa época em que recursos técnicos como a internet não habitavam sequer os mais audazes relatos de ficção científica.

É muito peculiar a combinação que atualmente se dá entre essas duas vertentes: a incitação ao espetáculo de si mesmo, por um lado, e os sonhos de controle total com ajuda da tecnociência, por outro lado. Os conflitos que essas novidades suscitam não deixam de causar toda sorte de perplexidades. Assim, por exemplo, em meio à proliferação de estratégias de visibilidade que todos estamos intimados a colocar em jogo cotidianamente, com o propósito de projetar perfis atraentes e capazes de conquistar o maior número de olhares, de cliques no botão “curtir” e de seguidores, cabe se perguntar se é possível ter algum controle sobre aquilo que se difunde acerca de si mesmo.

Ana Kesselring, Corpotopias, 2011

Essa pergunta evoca os casos, cada vez mais frequentes, de fotos ou vídeos de pessoas famosas em atitudes sensuais, muitas vezes sem roupas ou praticando atividades sexuais, que de repente “vazam” e são divulgadas pela internet, transformando-se imediatamente em notícias de alto impacto — pelo menos, por uns poucos dias. Algo semelhante acontece com o fenômeno do bullying, outra manifestação bem contemporânea, embora seja habitual dizer que não se trata de nenhuma novidade, mas de uma atualização do clássico “assédio escolar” que sempre teria existido.

No entanto, não é por acaso que hoje o constrangimento se multiplique exponencialmente com essa virtual exibição em inúmeras telas e que, em consequência, possa chegar a ter efeitos descomunais. Quando se dissemina pelas redes informáticas, a humilhação diante de uma exposição vergonhosa se torna ainda mais asfixiante, pois o que antes costumava ser de ordem privada — limitando-se às paredes da escola ou da casa, por exemplo — subitamente se joga no âmbito público com um alcance potencialmente infinito.

Nesse contexto, as reivindicações pelo “direito ao esquecimento” parecem justíssimas.
No entanto, aqui emerge outra das complicações deste assunto: como consegui-lo? Como obter, de fato, esse apagamento tão buscado nesses casos? Se a espetacularização de si mesmo se legitimou e se generalizou, a pretensão de manter algum controle sobre os próprios dados em suporte digital torna-se cada vez menos plausível — ainda mais quando se trata de imagens, esses materiais especialmente inflamáveis que se multiplicam e circulam despertando grande avidez. Talvez os dois componentes dessa equação sejam incompatíveis, de modo que a única forma de controlar o que se diz sobre si mesmo — incluindo aí o que cada um conta ou mostra acerca de sua própria vida — seja se abstendo não só de fazer circular, mas também de produzir qualquer documento digital a seu respeito.

Algo altamente improvável, que talvez possa até ser digno de pesadelos para boa parte dos sujeitos contemporâneos; ou seja, aqueles que se converteram em loquazes autores, narradores e personagens de si mesmos. Vale notar que essas criaturas — os personagens — nunca estão sozinhos: sempre há alguém que observa tudo o que eles fazem, alguém que segue com avidez seus atos e gestos, seus sentimentos e pensamentos, até suas emoções mais minúsculas ou banais. Sempre há um espectador, um leitor, uma câmara, um olhar sobre o personagem que tira dele seu caráter meramente humano. E, para poder existir, ele precisa fervorosamente desse olhar alheio.

Já na vida das pessoas de carne e osso, nem sempre há um público disposto a observar suas ações — nem as heróicas, nem as miseráveis, e menos ainda as trivialidades cotidianas. Com muita frequência, aliás, ninguém nos olha. Nesses casos, não temos testemunhas do que somos. Isso não seria muito grave e até poderia significar um alívio, se não vivêssemos imersos numa cultura como a contemporânea. Isto é, uma sociedade na qual a verdade sobre o que somos deixou de brotar prioritariamente da interioridade , ou seja, de algo que teríamos zelosamente guardado “dentro” de cada um de nós e que constituiria a própria essência. Em vez disso, cada vez mais, cabe ao olhar alheio o poder de irradiar essa verdade, ao avaliar tudo (e tão somente) o que cada um é capaz de mostrar.

Daniel Escobar, ‘The World’, 2014, Foto: Simone Catto

As redes sociais são meios perfeitos para consumar esse jogo. No entanto, mesmo dispondo desses recursos e usando-os ativamente, se ninguém constata ou — ainda melhor — festeja nossa existência traduzida em valiosas imagens, se são poucos aqueles que nos “seguem”, os que clicam em “curtir” ou deixam algum comentário positivo diante da última selfie que postamos na internet, então, como garantir que somos alguém?

Embora os personagens às vezes pareçam estar sozinhos, não é o que de fato acontece: eles sempre estão à vista. Absolutamente tudo em suas vidas deve acontecer sob os olhos gulosos de algum espectador ou leitor, ou então dos mais atuais seguidores, amigos ou fãs. Sozinhos, eles não existem. Somente são ou estão quando alguém os observa: sob esse olhar tão  cobiçado, eles ganham sua fantástica vitalidade. Como resistir, portanto, a esse anseio atual de se mostrar e mendigar aplausos, se o mundo nos converteu em verdadeiros personagens?

Por isso, o anonimato não é uma possibilidade viável hoje em dia, supondo que alguém pudesse chegar a desejá-lo. Entre tantos cruzamentos de dados e redes de informações, se um cidadão do globalizado século XXI quisesse se manter na obscuridade do invisível, provavelmente lhe seria muito difícil. O velho sonho da ilha deserta, por exemplo, não parece mais factível; aliás, ele nem sequer é imaginável hoje em dia como pura fantasia… pelo menos, não sem wi-fi, e portanto com acesso aos apetecidos — mas também temidos — portais de Google ou Facebook.

Isto parece ser, de fato, o ponto culminante daquilo que Walter Benjamin denominara, em seus escritos da década de 1930, “o triunfo sobre o anonimato”. Acompanhando o percurso de seu famoso flâneur pelas ruas deParis, o ensaísta alemão descreveu alguns mecanismos de controle administrativo arduamente implantados na Europa do século XIX, como os processos de identificação dos indivíduos e o reordenamento urbano das populações. Todos movimentos imprescindíveis para a modernização do mundo então em andamento. Naqueles textos, o autor constatava algo fundamental para o projeto moderno: “um homem se torna mais suspeito quanto mais difícil seja encontrá-lo”.

Com a transição do paradigma analógico para o digital, as tecnologias de processamento de dados reduziram muito mais ainda as possibilidades de permanecer oculto, alheio ao controle, fora da abrangência das tentaculares redes. Não apenas porque não é mais possível se esconder, mas sobretudo porque quase ninguém deseja fazê-lo. Por isso, as novas ferramentas informáticas parecem concluir o processo iniciado pelas técnicas criminalísticas da época comentada por Benjamin, como a assinatura, a carteira de identidade e a fotografia. “A história de detetives surge no instante em que se assegura essa conquista, a mais decisiva de todas, sobre o anonimato do homem”, afirmava o filósofo ; “a partir daí, não se pode mais pressentir onde acabarão os esforços para fixá-lo no falar e no fazer”.

Contudo, o ponto mais extremo dessa trajetória talvez possa ser vislumbrado na exposição por livre vontade que se consumou nos últimos anos através de canais interativos como as redes sociais da internet ou os aplicativos para celulares, que permitem manter um circuito de contatos permanentemente ativado. Através desses dispositivos, todos os dias, milhões de indivíduos comunicam toda sorte de dados sobre si mesmos, inclusive textos e imagens pessoais de diversa índole, além de “seguir” as informações relativas a quantidades crescentes de gente interconectada.

A maioria costuma adotar tais práticas com prazer, cumprindo rituais de cotidiana devoção, e não porque alguma autoridade os obrigue a fazê-lo como um sofrimento imposto sob o peso da lei. Pelo menos, isso acontece até que a situação fique complicada e mostre, de repente, sua face mais obscura. Então, a tecla delete será vista como uma ambígua promessa de solução absoluta. E o “direito ao esquecimento” aparece como uma válvula legal que procura cumprir essa impossibilidade.

Google é um poderoso emblema desse conflito. O buscador mais usado da internet parece ser não apenas um oráculo que tudo sabe, mas também uma instância legítima  — ao menos assim legitimada, inclusive pelas instituições jurídicas mais respeitadas e poderosas do mundo — para administrar as referências pessoais de seus milhões  de usuários de todo o planeta. Tentar lhe colocar barreiras jurídicas, no entanto, pode resultar tão inócuo como problemático.

Certamente, o debate continua. No entanto, talvez esta polêmica tão atual em torno do “direito ao esquecimento” na internet, seja um novo indício de uma mudança histórica de enorme magnitude e complexidade, que vem se concretizando há algum tempo e cujos sintomas estão por toda parte. Em suma, e como já foi insinuado: a verdade não emana mais do interior de cada um, como costumávamos pensar até pouco tempo atrás, mas do olhar alheio. Inclusive no que se refere a algo fundamental: quem se é, quem se foi e quem se poderia chegar a ser.

Tradução: Maria Rita Guimarães
Revisão: Paula Sibilia

 

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1Paula Sibilia é professora do Programa de Pós-Graduação em Comunicação (PPGCOM) e do Departamento de Estudos Culturais e Mídia da UFF, autora dos livros O homem pós-orgânico: Corpo, subjetividade e tecnologias digitais (2002), O show do eu: A intimidade como espetáculo (2008) e Redes ou paredes: A escola em tempos de dispersão (2012), todos publicados também em espanhol. É mestre em Comunicação (UFF), doutora em Comunicação e Cultura (UFRJ) e em Saúde Coletiva (UERJ). Em 2012 fez pós-doutorado na Université Paris VIII, da França. Atualmente é bolsista de Produtividade em Pesquisa pelo CNPq e Jovem Cientista do Nosso Estado pela FAPERJ, além de coordenar o PPGCOM-UFF. www.paulasibilia.com.
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