ISSN 2178-499X
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A aposta na conversação no CIEN Minas

by cien_digital in Cien Digital #23, Ponto de Vista

Autor: Markus Spiske Imagem: https://burst.shopify.com/

Autor: Markus Spiske
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Aline Aguiar Mendes[1]

O que falar quer dizer[2] nas conversações realizadas no CIEN Minas? Se a oferta da palavra é tomada nos dias de hoje como um instrumento em prol de uma eficácia e de uma previsibilidade do sujeito[3], o CIEN, ao promover as conversações inter-disciplinares, rompe com a resposta padrão ou da normatização, fazendo surgir a diferença e a singularidade[4].

Essa aposta decidida nas conversações e em seus efeitos, em nosso momento atual, será abordada em três conversações realizadas pelo CIEN Minas. Apresentaremos o CIEN in loco, que tem o objetivo de levar a conversação ao encontro com a cidade e, também, duas outras conversações que ocorreram na sede do Instituto de Saúde Mental e Psicanálise e sobre a medicalização nas escolas, em que contamos com professores, coordenadores e familiares e, outra, sobre o insuportável no adolescente, em que tivemos a presença de vários profissionais do campo da saúde e do direito – trabalhadores ligados ao CREAS e a instituições voltadas ao cumprimento de medidas socioeducativas e de proteção ao adolescente, um juiz da vara de infância e juventude e estudantes.

No CIEN in loco, realizado em um hospital da cidade, o Laboratório “Mães em crise” apresentou um caso paradigmático de uma questão acerca do que fazer com as mães que estão em crise num hospital. No decorrer da conversação, o impasse para a equipe pode ser localizado a partir de uma cena que se repetia na fala dos profissionais presentes. O encontro de uma mãe com uma criança de três anos trouxe um insuportável para a equipe de profissionais. Duas questões são colocadas para a equipe: o que vocês acham de uma criança visitar uma mãe em crise? Uma criança deve testemunhar a crise psicótica da mãe? A partir desse momento, os diferentes profissionais apontam situações diversas em que o encontro da mãe com a criança ora foi importante, ora foi devastador, como aponta uma psiquiatra. Não é possível, portanto, tecer um protocolo universal a ser seguido diante de uma situação que envolve uma mãe em crise em um hospital. Ao introduzir o lugar da criança no discurso, abriu-se a chance para uma proposição que implicasse outros profissionais de vários serviços da saúde e saúde mental numa construção para os impasses que viviam e não a promoção de uma resposta salvadora.

Em uma outra atividade do CIEN Minas, “O insuportável na criança e a educação: mal-estar na escola, qual remédio?”, o Laboratório “Docentes doentes: deixe-os falar” junto com o Observatório Infâncias da FAPOL fizeram uma aposta na palavra a partir do vídeo com a entrevista de Marie-Hélène Brousse sobre medicalização. Em um momento da conversação, uma professora diz: “o menino ficou dopado, mas depois ele conseguiu ler”. A responsável por animar a conversação pergunta: “esse remédio é para o menino ou para a escola?”. Um coordenador pedagógico afirma: “não é só os educadores, mas a família também não quer se a ver com o sintoma dela, que é a criança”. Depois de alguns instantes, uma mãe presente diz: “qual a responsabilidade social dos apoiadores de mães, de famílias, quando vejo que as famílias estão solitárias?”. A responsável por animar a conversação cita uma situação em que os professores se demitem de responder por algo e terceirizam sua função chamando, muitas vezes, os psicólogos. Alguns professores intervêm, citando exemplos de situações vividas sobre as quais não sabiam o que responder. Uma outra intervenção, então, é feita: “Todos estão procurando apoio e acabamos fazendo uma terceirização. A ilusão que se vende é que daí não precisamos mais conversar. E há uma demissão dos pais e professores e aí, o remédio toma corpo, vai dando apoio”. Um impasse foi localizado: o remédio é para o menino, para família ou para a escola? A palavra circula, muitos querem falar e não se demitem mais de colocarem sua implicação naquilo que fazem.

Autor: iLuca Ornagh - Imagem: open-timepiece-exposing-cogs-and-gear-wheels https://burst.shopify.com/

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Por fim, em outra conversação, o Laboratório “Juntos e não misturados” e o Laboratório “Janela da Escuta” trouxeram a experiência, respectivamente, com adolescentes abrigadas e adolescentes que cumprem medida socioeducativa. A questão, “o que é o insuportável no adolescente?”, animou a conversação. Uma das participantes diz: “é não saber o que vai acontecer com ele”. Uma técnica das medidas socioeducativas replica: “mas esse insuportável transborda pra gente que trabalha nos serviços”. O caso, primeiramente apresentado pelo Laboratório “Janela da Escuta”, entra na conversa. Para o adolescente em questão, “ser adolescente era atuar, se envolver”, o que se evidenciava quando ficava em liberdade, fora da medida sócio-educativa. Diz: “quando estou na medida eu penso, quando tenho liberdade, não sei o que fazer”. A coordenadora do Laboratório “Juntos e não misturados” diz que há no abrigo uma superproteção por parte dos profissionais que mantêm as adolescentes no abrigo com receio de que o excedente sexual possa aparecer, se estiverem fora. Ganha espaço na conversação o mal estar dos profissionais, diante desse impasse: “o que fazer diante dessa liberdade perturbadora?”. O juiz intervém e diz: “mas de qualquer modo, a prisão é a negação de qualquer espaço”. Uma outra participante indaga: “mas a dimensão do tempo não seria mais importante que o espaço?”. A conversação avança, trazendo para o centro a questão da construção adolescente e caminha para o final quando a coordenadora do Laboratório “Janela da escuta” afirma a importância dos Laboratórios do CIEN como um espaço-tempo que possibilita o tempo da adolescência.

Como pudemos notar, o encontro com o impasse, com o que não se sabe, propicia a presença de um sopro de vida na invenção testemunhada em nossas conversações no CIEN Minas.

 


[1] Coordenadora do CIEN Minas.
[2] Essa pergunta foi o tema da VI Manhã de Trabalhos do CIEN Brasil em 2018.
[3] Pitella, C.; Telles, H.; Rego Barros, M.R.C; Pavone, T. (Comissão de Coordenação e do CIEN-Brasil 2007/2011). Apresentação da Manhã de trabalhos do CIEN-Brasil Cien Digital, n 5. Novembro de 2008, pg. 4.
[4] Lacadée P. “A vinheta prática tal como ela se elabora no Laboratório CIEN”. In Brown, N. Macêdo, L. Lyra, R. (orgs). Trauma, solidão e laço na infância e adolescência: experiências do CIEN no Brasil. São Paulo. EBP editora. 2017.
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Sobre a diferença sexual: breve comentário a partir da experiência do CIEN

by cien_digital in Cien digital #20, Ponto de Vista

Giuseppe Capogrossi

Virgínia Carvalho

“Que é ser homem?” Tal questão foi isolada a partir da Conversação dos Laboratórios CIEN Minas. Um desses laboratórios convida à palavra 20 rapazes que, em atitude de recusa, não permaneciam dentro da sala de aula na escola onde estudavam. Uma outra conversação teve como ponto /problema o comportamento exibicionista de um adolescente que, tal como Diógenes, no centro da sala de aula produz reboliço com a exibição de seu órgão sexual. Outro laboratório destaca o testemunho de uma jovem de se passar por homem, tentando, para isso e com apoio no jogo significante, bancar a “homi-cida”. O laboratório interessado pelo uso das tecnologias digitais põe em evidência a busca de jovens rapazes nas redes sociais como suporte para decifrar a questão de como ser homem. Essa também é a questão de jovens que se encontram envolvidos com o tráfico de drogas.

Assim, “Que é ser homem?” se tornou a questão do CIEN Minas para o segundo semestre de 2016. Pretendemos trabalhar este tema de forma livre e divertida, como Jacques-Alain Miller, em seu texto de Arcachon (1997), destacou a respeito das conversações dos gregos. Por isso, designamos “conversações ao vivo” nossa iniciativa de trazer para o debate o que se extrai da experiência inter-disciplinar. Como já é sabido, “inter” e “disciplinar”, no CIEN, são separados por um hífen, para preservar o vazio de não saber entre as disciplinas (orientação de Judith Miller, 2007): “Um vazio que pode indicar o lugar de uma ausência vibrante, viva, como um coração que bate, pulsante” (MILLER, 2007, p.5).

XXY: eleição do sexo?

O filme XXY, de Lucía Puenzo, animou uma sessão CINECIEN neste semestre. O que é ser homem e o que é ser mulher? é apresentado por meio de um imperativo social. Alex deve se decidir entre uma ou outra posição, já que nasceu hermafrodita. O enredo do filme mostra como a sexualidade não é natural, nem passível de normatização. XXY, sob o viés da intersexualidade, instigou uma conversa sobre as escolhas (forçadas ou não), na esfera do gênero, da posição sexuada, do modo de gozo, perpassando pela interferência da biologia.

Face à eleição sexual, o que o sujeito elege? Mais além da anatomia ou das identificações, trata-se de uma eleição do gozo, como explicitou os trabalhos do 1º Colóquio Internacional do OCA – Observatório da Criança e do Adolescente, realizado em parceria com o CIEN, sobre a rubrica: Mais além do gênero: o corpo adolescente e seus sintomas(maio/2016).

“Sou homem e sou mulher”, afirma o personagem Alex. Ou, ainda: “E se não há o que escolher?” A conversação provocada pelo filme em CINECIEN levou os presentes a se interrogarem se já não havia uma eleição feita por Alex – escolha que não escapa, em certa medida, ao trânsito entre o lado feminino e o masculino da sexuação. A esse respeito, a psicanálise não é binarista, justamente porque considera que esse trânsito entre as duas posições sexuais existe para todos os seres falantes. Mais além da diferença anatômica, “conserva o princípio da diferença entre os sexos concernentes às distintas distribuições do gozo – seja ele o gozo fálico ou o gozo “não-todo” fálico” (SANTIAGO et al, 2014).

Josh Smith

“Erro comum”: menino ou menina?

conversação dos integrantes dos cartéis do OCA, com Daniel Roy, em agosto/2016, sobre o tema “TRANS – sexo e gênero no tempo da infância” –realizada também em parceria com o CIEN –, evidenciou a contribuição da psicanálise de explicitar que a nomeação feita com base na anatomia não corresponde, necessariamente, ao modo de gozo sexual. O que constitui normalmente um impasse para o púbere, frente à eleição que busca fazer, é esse modo de gozo, próprio a cada um.

Daniel Roy, remetendo-nos ao “..ou pior” (1971/72), de Lacan, nos lembra que entramos na vida por um “erro comum”, à saber, o de considerar que ter ou não ter nos representaria. Quando o bebê ainda está na barriga da mãe, diz-se, a partir da anatomia, se será menino ou menina. A presença do instrumento fálico leva a dizer que é um menino e a esperar que se comporte como tal, na perspectiva da lógica do proprietário. A ausência do mesmo, leva à afirmação de que é uma menina e espera-se dela certa feminilidade. Seria essa a tentativa de dar uma significação à diferença sexual a partir do que “se tem ou não no meio das pernas”. Para Vilela (2012), eis o ‘erro comum’, pois “isso só será verdade se a criança consentir com o gozo fálico, se ela tirar daí consequências em sua relação com o homem e com a mulher, e as aceitar”.

Para Daniel Roy, não importa ao psicanalista “se é um homem ou uma mulher”, já que ele não se baseia em nenhuma norma prévia. Isso não o leva, por outro lado, a desconsiderar os efeitos da anatomia e da biologia sobre o sujeito. A psicanálise considera o corpo biológico –esclarece Jésus Santiago na Conversação –, assim como a natureza e a diferença entre os sexos. Desde Freud (1925/1996) são lembradas as consequências psíquicas da distinção anatômica entre os sexos e a práxis nos mostra o quanto, mesmo em tempos trans, não é possível anular essa diferença.

Enfim, a psicanálise acolhe a flexibilidade e a transgeneidade dos modos de gozo, e se interessa pelos efeitos do choque do significante sobre o corpo, que também é de carne e osso. E o CIEN, com sua intervenção orientada e, ao mesmo tempo, em contextos plurais, pode nos trazer mais avanços sobre o tema, no “ao vivo” que a inter-disciplinariedade possibilita.

 


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Uma prática na escola – Efeitos do encontro com o CIEN

by cien_digital in Cien digital #21, Ponto de Vista

Imagem: Alighiero Boetti

Mirta Fernandes

O encontro com o CIEN permitiu situar e nomear uma questão que rondava um trabalho de psicanalise aplicada, que vem sendo desenvolvido há alguns anos em uma instituição de ensino, Escola Alfa, a partir de demandas de palestras e grupos de conversa com alunos, professores, coordenadores e pessoal de apoio.

O ponto estrutural dessa prática com a equipe escolar orientou-se, desde o início, pela criação de um espaço de fala, escuta e reflexão acerca das angústias, dos impasses e questões que comparecem no processo de educação, envolvendo as relações entre pais/escola/alunos/professores, coordenadores e todos os outros profissionais que compõem o espaço escolar, incluindo o setor administrativo.

Não se tratava de ensinar psicanalise aos professores, mas evidenciar na prática educacional o processo de constituição de uma subjetividade e a função do professor como elemento fundamental nesse processo. Elemento externo à família, que pode dar lugar a novas formas de vínculos a partir de enlaçamentos diferentes daqueles dos padrões familiares.

Ao participar das reuniões mensais do CIEN e do laboratório “diga aí escola” (2016), o significante “conversação” interroga a analista. Como se distingue uma “conversação” de uma supervisão, de uma interpretação, de uma intervenção orientadora ou de uma transmissão de conceitos de uma disciplina para outra? Qual o lugar do psicanalista nesses encontros?

A escola em questão esperava da psicanalista uma resposta ou a psicanalista se colocava numa posição de saber, de orientadora? De que orientação se tratava? A introdução dos conceitos teóricos da prática da psicanálise na clínica pode ocorrer nesse espaço? Questões que já se formulavam e que encontraram eco e interlocução a partir desse encontro com o CIEN.

A interrogação que o significante “conversação” provocou produziu uma maior atenção nas intervenções, evitando que comparecessem os saberes universais, soluções, e que se sustentasse um ponto de enigma. Um ponto de opacidade, de incógnita, que ao circular permitisse e provocasse, em cada um, questões, dúvidas, podendo dar lugar a invenções singulares.

O recorte a seguir refere-se a um dos encontros onde compareceram queixas a respeito de uma turma do ensino fundamental 2. O que incomodava a todos, professores e coordenadores, era uma separação da turma em pequenos grupos que se segregavam entre si, criando um clima hostil que impedia o convívio e o processo de ensino. Não sabiam o que fazer.

Surge, durante uma reunião com a direção e coordenação pedagógica, a proposta de algumas “reuniões com a turma, nos moldes da reunião da coordenação”, ou seja, de uma conversa livre com a psicanalista e a professora coordenadora do segmento, de forma que escutassem e dessem um lugar à fala desses jovens.

Apresentada a proposta à turma, surgem inicialmente os “porquês” dos encontros, e a resposta vem dos próprios alunos trazendo questões que os incomodavam. Não era o processo de segregação apontado pelos profissionais que os incomodava. Os grupos que se constituíram na turma se comunicavam através de grupos privados no whatsapp.

Queixavam-se de uma menina em particular, Maria, como pivô dos problemas de relacionamento na turma e referiam-se ao fato de Maria mandar cartas e mensagens individuais no whatsapp. Nessas mensagens, Maria se desculpava por sua atitude de acusar os colegas, queixando-se de estar sendo rejeitada e prometia não mandar mais cartas. Essas cartas e bilhetes, no entanto, não cessavam. Interrogados sobre o que os incomodava, cada um responde de uma forma. Na medida em que cada um fala por si, surgem as posições individuais, diferenciando-se dos blocos que constituíam nos grupos de whatsapp.

Da posição que Maria se colocava, excluída e vítima, os colegas interrogam se não seria ela mesma que se excluía com sua atitude. Maria mente, inventando situações como, por exemplo, a de que a mãe está com câncer. Ana Clara diz que ela é um “empecilho”. Rayane a acolhia, era muito amiga, mas um dia Maria mandou uma carta, acusando-a de não ser sua amiga, e Rayane deixou de falar com Maria. Desde então, começaram as cartas de desculpa por seu comportamento agressivo, que não se modificava.

Convocam Maria a falar, já que se mantinha calada todo o tempo. Maria, com dificuldade, fala de sua história de vida, de ter vivido em abrigo, sofrido muito em outra escola, sendo discriminada por sua origem e cor de pele, negra. Faz menção ao incidente que deu início a essas cartas, e diz: “as cartas são uma maneira em que eu me sinto bem. Tenho medo de magoar as pessoas, assim eu escrevo” (…) “Eu não consigo parar de mentir…eu não controlo isso” (…) “Na outra escola eu precisava mentir para ser aceita… sofria bullyng”.

Após a fala de Maria, surgem queixas de Lucas, indicando que ele seria um outro excluído na turma. Sempre que se formavam grupos de trabalho, Lucas e Maria ficavam sem grupo.
A coordenadora que participava do encontro tomou para si, sem combinação prévia, a incumbência de anotar a reunião. A partir de suas anotações, recorto as intervenções da psicanalista:
Em que situação a turma se vê excluindo Maria e Lucas?

Felipe responde: “Maria tenta se enturmar escrevendo cartinhas e Lucas ri de tudo e não fala de seu desconforto. Lucas chamou uma menina de vadia e depois disse que não sabia o isso significava.”

Alguns tomam a posição de defender Maria e outros, Lucas, buscando justificar suas atitudes, apelando para uma verdade sobre as situações, sobre as falas de cada um, sobre os fatos. Também insistem que Maria fica usando sua história pessoal para justificar tudo, e Lucas se faz de bobo, como se não soubesse de nada, fingindo inocência.

“Não há uma história verdadeira… cada um tem sua própria versão sobre o que acontece…”, diz a psicanalista Ana Clara insiste em que Maria o tempo todo fica falando e revivendo sua história no abrigo.

“Todos temos nossas fragilidades…e será que não pensamos todos a partir de nossas histórias?”- nova fala da psicanalista ao final do encontro.

Num segundo encontro, relatam alguma mudança em relação a Maria. Mudaram também os lugares onde se sentavam, misturando-se entre si. Começaram a aparecer queixas em relação a outros colegas e situações em que uns incomodavam aos outros.

Esses encontros sustentaram um espaço de interrogação, um espaço de fala e de escuta de cada um, permitindo que a fragilidade de Maria fosse vista e respeitada como sua diferença e deslocando o “mal” concentrado em um sujeito para todos. Como cada um lida com o seu próprio “mal”? Dessa forma, Maria pode se perguntar sobre sua certeza de ser rejeitada, o que a atormentava, e alguns puderam falar de sentimentos recíprocos.

A posição da analista, orientada pelo dispositivo da conversação, promove uma circulação das falas individuais pelo espaço comum. Mais além do mal entendido da comunicação, a conversação convoca uma associação livre entre vários. Fala que pode ser acolhida como a manifestação de um pensamento singular que pode ou não enlaçar-se a outros. Não se trata de uma identificação de um com um outro semelhante, mas com a incógnita que o outro é para cada um e a própria incógnita que cada um é para si mesmo.

A conversação se distingue de uma intervenção clínica na medida em que não visa interpretar o sujeito. As intervenções comparecem como interrogações, visando um deslocamento das identificações, dos efeitos grupais que aprisionam o sujeito. Tal experiência de trabalho, trouxe-me como questão a posição do analista nas conversações. Poderíamos aproximá-la a do mais-um no dispositivo do cartel? Operar uma possibilidade de trabalho entre vários, a partir de um vazio de saber, permitindo a cada um, no encontro com o outro, conduzir sua questão a partir de sua singularidade.

O dispositivo da conversação evidenciou, como efeito dessa experiência, como cada um pode se localizar a partir de um impasse que se apresentou e dar algum tratamento ao seu mal-estar no convívio com os outros.

Também nas reuniões de coordenação, a dinâmica das reuniões sofre o efeito da experiência no laboratório do CIEN. Os professores passaram a suportar a interrogação de seu lugar de saber, desobrigaram-se de responder e garantir verdades inquestionáveis. Esse imperativo pôde cair e então comparecer o reconhecimento de um saber singular, da criança, do jovem, do professor, dos pais, em cada um dos envolvidos na difícil tarefa de educar. A partir de março de 2017 a Diretora pedagógica e as coordenadoras do fundamental 1 e 2 passaram a participar do laboratório “diga aí escola”.

A transmissão de um ensino se dá ao abrir espaço para um desejo de saber e criação de novos saberes. O “não saber” pode comparecer sem representar uma ameaça à autoridade e ao saber de cada professor e cabe ao psicanalista sustentar com sua presença os desdobramentos e as surpresas que surgem desse encontro.

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