A conversação sobre sonhos: ponto de impossível ou um lugar a pertencer?
Laboratório Entre Escolhas e Expectativas
O laboratório “Entre escolhas e Expectativas” acontece na PUC Minas e produz, duas vezes ao ano, conversações com jovens universitários de diversos cursos. O tema proposto pelo CIEN-Minas para os trabalhos do primeiro semestre de 2024 foi o sonho, e o título pensado para convocar os jovens a participarem da atividade do laboratório foi ambíguo: “Você realiza seu sonho?”. A discussão com a temática dos sonhos na Conversação com jovens caminha para duas possíveis articulações: o sonho onírico e o sonho de vida e é sobre esse ponto que o texto discorre. Foi deixado aos participantes caminhar em uma dessas direções, sem que algo fosse imposto, e assim se fez uma Conversação.
Na Conversação, o tema dos sonhos foi discutido em suas diversas formas e como eles aparecem para cada um. No momento inicial, os jovens se propuseram a conversar sobre os sonhos de vida, dizendo que não tinham um sonho de futuro e que estavam animados para discutir esse tema, quase que para procurar, no sonho de vida do colega, algo para poder se sonhar também: “E eu também tô no momento da minha vida em que eu tô procurando um sonho” diz uma das participantes. Apesar dessa vontade inicial, não foi nesse caminho que a conversação correu. Ao dizer da falta de sonhos “de futuro” e da vontade de fazê-los, o que aparece são os diversos relatos de sonhos oníricos: os jovens descrevem sonhos “absurdos” em que não podem extrair nenhum sentido e outros com mensagens sobre a vida real – sempre tentando dar sentido.
No início, os participantes diziam que o sonho era um termómetro para medir se a vida ia bem. Outros, diziam do sonho como uma premonição. Por exemplo, um dos sonhos mais discutidos e citados foi o do “coelho preto”, em que um adolescente conta que estava há um ano tentando mudar do curso de Direito, e num determinado dia, sonha com um coelho preto, de relógio e cartola que dizia para ele: “novas oportunidades virão”. A partir disso, o jovem muda de curso, e ao contar ao grupo todos ficam muito impressionados. Apesar de, nesse início, a conversação ter um tom mais festivo, o que predomina a partir do segundo encontro são os sonhos de angústia, em que relatam sonhos nos quais são perseguidos por algum animal que possuem muito medo, ou que correm e não conseguem chegar a nenhum lugar, que gritam e não sai nenhuma voz. Aparece na discussão relatos sobre sonhos de infância e sonhos repetitivos, nesse ponto eles concluem, em grupo, que esses sonhos “marcaram a personalidade” deles. Sobre os pesadelos, uma das participantes diz: “geralmente nos meus pesadelos eu tenho a sensação de desamparo. Eu acho que é porque… eu me sinto frágil, e exposta”
Quando se fala de sonhos na teoria psicanalítica, o despertar é um ponto importante. Porém, não é isso que aparece nessa conversação: quando os jovens fazem um sonho de angústia, ao acordarem, a angústia não perdura. O despertar é sem angústia, sem questão. Eles dizem que voltam a dormir normalmente, pois, durante o dia, possuem muitas coisas para fazer e precisam estar bem descansados. Se acordam assustados, não fazem questão de lembrar e trabalhar o que foi sonhado: “eu sonhei. Se eu consegui lembrar, beleza. Se eu não lembrei, também é a vida que segue, entendeu?”, outro participante adiciona: “seja lá qual for o significado do meu sonho, eu deixo pra lá”. Essa posição diante dos sonhos nos lembra o que Carolina Koretzky desenvolve a respeito do que Freud e Lacan falam a respeito dos sonhos. O sujeito, ao se confrontar com esse ponto de horror no sonho, volta a dormir na realidade – no sentido de dormir nas representações, no próprio fantasma e no mundo dos semblantes. É o que os jovens universitários nos contam: se a angústia aparece, fogem disso com naturalidade e se escondem nos discursos hipnotizantes da realidade.
Já nos últimos encontros, quando a discussão se move para a decifração do sonho do outro, os participantes tentam chegar a uma explicação dos sonhos. A partir disso, um impasse se presentifica na Conversação: se no início dos encontros havia um esforço de se lembrar dos sonhos e anotar, no fim da conversação, eles relatam que continuam sonhando, mas não se lembram mais do conteúdo dos sonhos. “Tô dando mais importância para meu sonho, mas ao mesmo tempo não quero saber”, diz um dos participantes. Fica claro que o efeito de falar dos sonhos oníricos na Conversação, para os jovens universitários, é de um trabalho inconsciente de não recordar. Podemos nos perguntar, então, se a interpretação no âmbito do grupo causa um ponto de impossível e se um dos efeitos da conversação foi ocasionar uma nova relação de cada um com seus sonhos.
No final, frente ao impasse, a Conversação volta ao ponto inicial: “procurar um sonho de vida”, e essa busca retorna à intenção dos meninos de terem procurado, na conversação, um espaço para ouvir os pares falarem sobre seus sonhos de vida, e assim talvez, fazerem seu próprio. Uma das participantes comenta: “Às vezes, você queria ouvir o (sonho de vida) dos outros. Eu tô tentando pensar sobre, porque eu acho que eu preciso, entendeu? Aí, essa é a minha tentativa, construir conjuntamente: ah, eu não tenho um sonho, você também não? Vamos criar um.”. Assim, fica aparente que a intenção dos jovens, ao participarem de uma conversação sobre sonhos, não é ser um sonhador que diz de si, mas sim, ter um lugar a pertencer. Isso nos revela que o lugar possível para se implicar a partir do discurso do sonho é apenas no trabalho de análise.