Caminhos de significantes e sonhos, efeitos de CIEN que despertam

 

Laboratório Bola de Gude

Contextos

O laboratório Bola de Gude iniciou sua formação em 2023, em Campinas-SP, diante da saída do isolamento social provocado pela pandemia da COVID-19. Onde encontrar as crianças na cidade, em quais territórios e o que elas têm a dizer? Foi o impasse que interessou ao laboratório e o sustenta. Seu nome, Bola de gude, entrelaça o campo de investigação e a imagem poética de uma brincadeira de rua e de laços, em que no momento em que se tocam, bolinhas se afastam, se aproximam, se espalham, alterando seus arranjos a cada encontro, não sem os furos. Composto pelas disciplinas da Educação, Pediatria, Serviço Social, Psicologia e tendo a Psicanálise como anfitriã, o laboratório conta com onze participantes que entrelaçam seus encontros a cada mês com as conversações quinzenais com as crianças.

Primeiro, a confrontação dos corpos

Lacan propõe, nas entrevistas preliminares, a confrontação de corpos como o ponto de partida do encontro que pode se tornar uma análise. Emprestamos essa orientação aos encontros do CIEN com as crianças, apostando que desde aí, a conversação poderia surgir. Passamos a frequentar as oficinas de audiovisual, inseridas no programa de atividades de uma instituição que opera no contraturno escolar em uma comunidade de alta vulnerabilidade. Em tais oficinas, eram desenvolvidas as produções de filmagens e fotografias, a partir de um tema definido pelos participantes. O material era recolhido no cotidiano, pelo bairro, nas ruas, praças e casas por onde passavam. Ao longo das caminhadas, um menino arrisca: a dona é professora também? Não, vim para conversar. Outros se aproximam e contam espontaneamente experiências, planos de vida. Um tropeça e rompe a alça de seu chinelo: Ixi, só tenho esse, vai ter que consertar e busca no chão algo para amarrar. Outro recolhe materiais que encontra no caminho e termina a oficina com uma pipa. De corpos agitados e espalhados, recortes de vídeos, fotos e palavras, as crianças já podem mostrar seus impasses e invenções. Queremos fazer filmes de terror. E o que é terror?, provocação do CIEN que captura um impasse e instala a conversação.

Dos corpos agitados aos corpos que falam

O terror, experimentado na carne, nos filmes e nas relações, foi o tema inicial da roda de conversa, como eles nomearam os encontros que passaram a ser em uma sala e com uma única regra: falar o que viesse à cabeça, um de cada vez. Um garoto diz: Andava pela rua à noite e vi um velho mendigo. Corri para ele não me pegar. Ele só aparece para as crianças, para que os adultos não acreditem nelas. Evidencia-se, nesse tempo, tanto a via do saber da criança quanto o lugar que ele pode (ou não) ocupar nas relações com aqueles que se ocupam dela. Dizem não encontrar nos adultos um lugar de endereçamento para seus dizeres, mas ali, na roda, encontram-se com a palavra que circula, dos sonhos sonhados que trazem angústias para os sonhos de um futuro outro. O terror desliza para o que machuca: mostram suas marcas, falam sobre o que quebra o coração, as perdas e mortes prematuras. O dizer encontra o que toca o corpo ou o que o afeta já pode ser traduzido em palavras.

Depois, os efeitos dos sonhos e das palavras

Seguem contando sonhos e pesadelos que não fazem sentido, mas fazem sentir medo e angústia. Um garoto diz: Sonhei que meu pai estava sendo preso. Quando acordei, a polícia estava em casa. E meu pai foi pro saco.

Na roda, surge o tema do medo de ir da escola para casa sozinho. A comunidade acabara de vivenciar um episódio violento, envolvendo o estupro e a morte de uma menina que tinha ido à padaria comprar pão. Ao compartilhar suas experiências, as crianças puderam encontrar algumas saídas, como eleger amigos para acompanhar e mesmo para conversar nos momentos de angústia.

Em outra conversação, uma menina tomou a palavra e fez o relato em terceira pessoa de uma cena que ocorreu no dia anterior: uma mulher foi levar o filho na creche e um homem estava esperando com uma faca para matá-la. Ao final do relato, ela olhou para a laboratoriante e fez um sinal com os olhos, uma piscada. Ela contou a história da própria mãe, sem que todos soubessem. Em uma piscada, o sinal de que a conversação pode ser o suporte de um dizer.

Assim, do impasse depurado sobre o terror, um fio se fundou passando pelos sonhos e como cada um falava sobre seus medos, expectativas para o futuro e conflitos. Lembramos de Daniel Roy, quando ele diz:

Existem, portanto, dois caminhos para o trabalho do sonho que se abrem a partir do material significante: o do desejo, por meio do qual a realidade se constrói; e aquele que cava o buraco por onde toda realidade escapa em direção a um impossível de representar.

Podemos recolher nessas falas algo do desejo e do impossível de se representar. Nas conversações, ficou evidente que tanto o endereçamento das produções, das associações dos sonhos, como o que se evidenciava de um recorte da realidade tece um outro modo do “significante balizar a realidade na qual seu corpo se insere”.

Nestas vinhetas, o que estava em jogo era justamente o que pode, em uma conversação, dar lugar a uma pequena montagem do  real, do simbólico e do imaginário. Quando os sonhos, pesadelos e angústias não encontram um endereçamento na palavra, o sofrimento se evidencia. Recolhemos que os efeitos do CIEN podem dar espaço para a construção de montagens que permitam às crianças construírem novas amarrações e se deslocarem um pouco nos discursos dominantes e realidades socio-econômicas de privações.

Partindo das oficinas de audiovisual, apostamos, com os significantes e os sonhos,  na oferta às crianças da “oportunidade de se deslocar nos discursos de dominação que buscam assujeitá-las e a ocasião de encontrar um lugar para os objetos gadgets que nossa civilização lhes oferece aos montes.”