Duas conversações e mais uma: “Qual a particularidade do discurso analítico na prática do CIEN?”*
Emelice Prado Bagnola – Cien SP
Gostaria de introduzir o contexto, o tempo delicado de nossa história, em que a série de duas conversações e mais uma está inserida. Na vida cotidiana: a pandemia de COVID 19 e uma “democracia em vertigem”. Na Política de Orientação Lacaniana: a construção das Redes da infância do Campo Freudiano, que preserva a natureza de um trabalho em andamento. Neste boletim: a polifonia de uma prática.
A conversação que ocorreu no dia 28 de maio de 2022, coordenada por Flávia Cêra e animada por Beatriz Udênio, produziu um esclarecimento ao apontar a rampa de saída de um tempo sombrio e revelar um desejo lúcido, através da experiência no CIEN. Penso que para construir um trabalho e seguirmos orientados no discurso, o que a prática das conversações ensinam é que será necessário colocar à prova o efeito da conversação a cada vez. “Será preciso demonstrar a cada vez a pertinência da prática dos laboratórios do CIEN para a psicanálise” ressalta Beatriz Udênio.
A comissão de orientação do CIEN Brasil elegeu uma questão para dar suporte à conversação com os responsáveis dos laboratórios no Brasil e escolheu um pequeno fragmento da aula de Lacan de 19 de dezembro de 1972. Uma questão que, me parece, pode nos levar longe. Vou manter a pergunta do título deste texto para que ela possa ressoar entre nós.
“Qual a particularidade do discurso analítico na prática do CIEN?”
O que está em jogo quando o CIEN, ao formular uma pergunta, visa tocar um ponto para extrair deste ponto, que não é um ponto qualquer, algo novo? Como o tema: “Pais exasperados e crianças terríveis” pode ser o anfitrião dessa novidade e nos lançar ao futuro?
No rastro dessa reflexão, recordo uma entrevista que Judith Miller concedeu por ocasião dos 15 anos da Escola Brasileira de Psicanálise e que toca o nascimento do CIEN. É na resposta de Judith sobre o debate entre a psicanálise pura e a psicanálise aplicada, que escuto uma direção que pode ser útil para a formulação das Redes da infância. Quando o movimento pode ser tomado como alternativo, Judith esclarece: “Sim, mas tomar isso como movimentos alternativos é um erro. Não há alternativa, não é um ou outro, nem um sem o outro. Não entendo como isso pôde ser interpretado como alternativa quando, na realidade, são batimentos.”
Lacan nos diz: “Muito bem! É no que algo do aparelho do corpo é estruturado da mesma maneira, é em razão da unidade topológica das hiâncias em jogo, que a pulsão tem seu papel no funcionamento do inconsciente.”
Penso ser essa uma maneira de dizer que o lugar para as conversações nos laboratórios vai mais além do pai morto. Visa, nomear para. “A chave é sempre preservar algo por dizer. Encarnar o que resta por dizer.”
Tomo as palavras de Judith com Lacan, para destacar o primeiro efeito da conversação na voz de Flávia Cêra. Ela nos recorda que assim como o inconsciente que não cessa de se escrever, não cessa de não se escrever, pode estar a fórmula de uma proposta de conversação. Esta me parece uma orientação contemporânea. A conversação desenhada homóloga ao inconsciente.
Vou passar ao fragmento de leitura, eleito pela comissão de orientação com Beatriz, para essa conversação e destaco nesse, o amor: “Muito bem, eu diria agora que desse discurso psicanalítico há sempre alguma emergência de um discurso ao outro. Ao aplicar essas categorias que em si mesmas só se estruturam pela existência do discurso psicanalítico, é preciso prestar atenção à colocação em prova dessa verdade de que há emergência do discurso analítico a cada travessia de um discurso a outro. Não é outra coisa que eu digo quando digo que o amor é o signo de que trocamos de discurso”
O empuxo à tradição aliado à incidência do discurso capitalista sobre o saber, tomo aqui o exemplo dos links e likes, a incidência destes também sobre os corpos, no imperativo de gozo onde nada falta, nos permitem perceber a escolha do tema para o trabalho das Redes e do texto de orientação que o acompanha. De entrada o texto já funciona como borda. Nesse intervalo de tempo e com o tema na mão, foi importante a perguntar do Cien Bahia através do convite que recebi, para animar uma conversação em dezembro de 2021: “De onde vem a demanda para o CIEN?” quando pontuei: O que o CIEN demanda da cidade? Desta maneira introduzimos a pergunta: Qual a particularidade do amor de transferência no CIEN?
Nos momentos preparatórios da conversação no Cien Brasil, ressoou a lembrança de uma intervenção de Flávia Cêra. Um daqueles bons efeitos de compreender a posteriori. Flávia trabalhava conosco durante a conversação no estado de São Paulo que ocorreu em maio de 2022 intitulada: “O visível e o invisível da infância.” O impasse, uma impotência acentuada pela impossibilidade de realizar os encontros em presença com as crianças que atingia o coração do funcionamento do laboratório. O trabalho dos laboratórios seguia sustentado pelo desejo dos laboratoriantes, no entanto, sem contar com o vivo da voz da criança. Então Flávia nos disse algo que eu recordo desta maneira. Havia uma impotência observada nos laboratórios, porém se mantivéssemos aberta a oferta da palavra nos encontros, e eu diria mesmo que fossem encontros modestos, haveria espaço para um encontro contingente. Uma contingência poderia abrir as vias para passar, uma impotência à uma impossibilidade e uma impossibilidade a uma possibilidade recordando uma lição de Lacan. Não estava aí já uma atenção com os giros!?
O amor de transferência pode emergir quando o submetemos a uma estrutura de linguagem. Aqui supõe-se que o sujeito, apoiado em um pequeno coletivo, esse constituído em formato de laboratório, possa fazer sua escolha ao tomar a palavra. Como no apólogo dos três prisioneiros, a escolha parece ser um modo, sendo ele criança ou criança grande, de poder responder e inventar uma decisão sincera frente ao impossível. Fazer vacilar a certeza sensível quando se coloca uma pergunta, por exemplo.
Então, mais além de nos mantermos interessados no que cada disciplina na prática de um laboratório tem a dizer sobre a criança, é crucial situar como os discursos afetam as disciplinas. Beatriz nos recorda de maneira sutil que o importante para a psicanálise é o valor “no inter” e não “do inter” para esclarecer a importância das disciplinas e também como os discursos aparecem na conversação.
Neste ponto Virgínia Carvalho costura a conversa servindo-se do texto de orientação. Ela nos diz: “Os discursos geralmente exploram as discrepâncias entre a criança perfeita e a criança terrível. Colocam palavras no sofrimento, dão sentido, ensinam a lidar com as emoções. No discurso analítico interessa uma leitura.” Tomar a palavra na conversação: “Assim, amarrotamos para deter a hemorragia ou visando o relâmpago, esse é o efeito ao qual, às vezes, a poesia ou o dito espirituoso alcançam.”
Para concluir, pergunto: há algo novo no impasse? Lacan nos diz: “há sempre alguma emergência de um discurso ao outro.” Estaria aí, na emergência, lugar do impasse, tomando o impasse como índice que fundamenta a iniciativa de uma conversação, a estrutura que nos permitiria prosseguir nos laboratórios à altura de nossa época? Situar o impasse para compreender devagar o que traz cada um para o CIEN será importante para mantermos os propósitos da conversação, onde cada um possa escrever algo novo também de si.