O corte entre o silêncio e a palavra: O que fazer com isso?

Laboratório A criança e o jovem na hipermodernidade1

O tema da automutilação foi trazido ao laboratório CIEN-Salvador por uma escola pública situada em uma região de alta vulnerabilidade social, que se viu diante do impasse de numerosos casos de automutilação entre os estudantes. A comunidade escolar se questionava: o que fazer com isso? A partir dessa demanda, que exasperava os educadores, foi possível instalar pontos de intersecção entre queixas e discursos, até então marcados pela opacidade. As conversações ocorreram com um grupo de 18 adolescentes, do sexto ao nono ano, em sua maioria meninas.

A primeira conversação teve seu pontapé inicial com a provocação: o que estamos fazendo aqui? Surgiram explicações: “não sei. Por que tem muita gente se cortando? Porque ficam com o cão no corpo”. Aos poucos a palavra começava circular. Ana diz ter procurado a direção da escola em busca de ajuda, mas segundo ela, eles não ouviam, não entendiam. Sempre apresentam um discurso pronto: “parece coisa do Google, você tem que procurar Deus, sorria, fique bem. Como se fosse fácil assim. Tratam a gente como objeto”. Maria acrescenta: “em casa acontece a mesma coisa. Minha mãe não me entende, não me ouve. Diz que na época dela não tinha nada disso”.

Ao meu lado, percebo um adolescente inquieto que, diante do convite à fala, mostra uma foto com cortes profundos no braço. Relata que tem se cortado e que o padrasto tentou medicá-lo com um remédio do irmão. Sua mãe diz que é bobagem, que está imitando colegas. Sente-se irritado com o tom do padrasto e da mãe. Conta que, em uma das situações, foi levado ao hospital, mas que lá não tinham remédio para isso. Neste momento, o silêncio se coloca no espaço. Surgem então, relatos de sofrimento, violência e abuso sexual. Maria compartilha que sua melhor amiga havia se suicidado e que se interroga sobre o motivo.

Esta foi minha primeira participação nas conversações do CIEN. Naquela noite, sonhei que procurava pela saída de emergência, e entre tantas portas, escolhia aquela com o letreiro do “não saber”. As (im)possibilidades de intervenção em um espaço escolar ressoam: que efeitos o encontro com o discurso da psicanálise poderia produzir ali? Como situar as contingências nesta face moebiana da psicanálise em extensão? Teriam elas efeitos de formação?

Judith Miller indica que a prática dos laboratórios, ao sustentar um “saber não saber”, subverte discursos universalizantes que segregam e normatizam, pois se fazem surdos às particularidades dos sujeitos em questão (Miller, 2007). As conversações operam, portanto, um corte que, ao dar lugar ao que não pode ser dito, toma o adolescente em sua condição de sujeito. Ao nos orientarmos pelo que Lacan enuncia como um “repúdio radical de um certo ideal do bem” (Lacan, 1959/60, p.274), abre-se espaço para que novas invenções possam se inscrever a partir da recusa de respostas prontas ofertadas pelo discurso do mestre.

Ao final de uma das conversações Jean espera todos saírem da sala e nos procura. Conta que briga muito e que havia deixado um adolescente desacordado. Diz que costuma esmurrar a parede e que tem saído de madrugada para correr na estrada. Diante do convite para que levasse suas questões para a conversação, formula seu impasse com a questão: o que você faria se toda mágoa que sentisse se transformasse em ódio? Isso ressoa entre os adolescentes. Ao se servirem desta pergunta foi possível colocar em palavras aquilo que fazia questão: o que fazer com a raiva?

Uma participante pontua: como deixar que isso se vá? Que não retorne a você? Márcia se mostra espantada, diz nunca ter pensado nisso. “Fico no chuveiro, isso me acalma”, diz Aline. “Escrevo, canto, me bato com os outros no futebol, ouço música”. Cada um pôde inscrever ali sua forma singular de romper com aquele circuito doloroso. Os efeitos surgem para cada um, agora não mais pela via da automutilação, do retorno ao corpo, mas que se faz não sem o corpo. Vamos recolhendo no um a um, invenções singulares que se fizeram possíveis a partir da instalação deste impasse.

Cabe destacar que as conversações propostas pelo CIEN não se configuram como uma terapêutica, pois não se trata de interpretar aqueles que delas participam (Aromí, 2023). Ao se orientar pela ética psicanalítica, essa prática sustenta uma aposta que não visa tamponar ou recobrir com sentido, mas, ao contrário, mantém o mal-entendido, bordeando os limites da palavra. A partir dessa oferta, abre-se a possibilidade para que cada um se confronte com um “querer dizer” (Udênio, 2011) sobre pontos dolorosos que lhes tocam.

No ano letivo seguinte, retornamos. Lara nos fala sobre seu desejo de se mudar de escola. Relatam sobre o que lhes têm feito questão por aqueles dias – naquela semana haviam anunciado possíveis ataques em escolas. Diante disso, Léia observa temerosa: “a porta de saída é a mesma da entrada”. Jean mostra imagens de carros que se interessa.

A exasperação que organizava a escola cedeu lugar a um arrefecimento. Diante do desejo de falar, demandado pelos jovens, tornou-se possível sustentar uma aposta nos efeitos da fala. As urgências por eles trazidas puderam se desdobrar, possibilitando uma torsão que fez emergir, a posteriori, um novo impasse. Podemos, então, nos questionar: quais os efeitos do discurso analítico para estes jovens? Observamos que a partir da exasperação, tornou-se possível que o adolescente pudesse advir. O encontro com a palavra propiciou um afrouxamento das identificações mortificantes, permitindo a invenção de um saber-fazer com isso e, assim, possibilitando sair pela mesma porta de entrada.

 

 

1 Participantes: Daniela Nunes Araújo, Fernanda Dumet, Gislaine Andrade e Márcia Ledo.

REFERÊNCIAS

AROMÍ, Anna. Um moebius lacaniano. Cien Digital 25, Hífen. 2023. Disponível em < https://ciendigital.com.br/index.php/2023/03/05/um-moebius-lacaniano1/>

BARROS, R. A. Aquém do sintoma: dor crônica e inibição. 2018. Tese (Doutorado em Psicologia) – Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2018.

Lacan, J. (1997). O Seminário, livro 7: a ética da psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar.

Laurent, E. Sociedade do sintoma. RJ Contra Capa Livraria, 2007

Miller, Judith. Por que um Boletim Eletrônico do CIEN no Brasil? 2007. Disponível em <https://ciendigital.com.br/index.php/textos-de-referencia/>

MILLER, Judith. “Editorial – Judith Miller nos diz o que é o CIEN”. CIEN Digital, nº 2, novembro de 2018. Disponível em: <https://ciendigital.com.br/wp-content/uploads/2018/11/CIEN-Digital02.pdf>

SELDES, R. La urgencia dicha. Buenos Aires: Coléccion Diva Ed., 2019.

UDENIO, Beatriz. O encontro com a palavra. 2011.

MILLER, Judith. “Editorial – Judith Miller nos diz o que é o CIEN”. CIEN Digital, nº 2, novembro de 2018. Disponível em: https://ciendigital.com.br/wp-content/uploads/2018/11/CIEN-Digital02.pdf