Zezé, um menino fantasioso

 

Luciana Silviano Brandão Lopes

Fui convidada para animar a abertura desse semestre no Cien-Minas e com grande satisfação vi que o filme escolhido foi “O meu pé de laranja lima”. Esta história marcou minha infância e naquela época todo mundo se emocionava com a história triste de Zezé, seu pai alcoólatra e a morte do Portuga.

A história do “Meu pé de laranja lima” foi muito popular na época de seu lançamento, rendendo filmes e até novelas. Em 2003 foi publicada em forma de quadrinhos, além de ter sido traduzida para 52 línguas. Dito isso, fica claro o impacto que esse livro teve no imaginário da época e porque não dizer, ainda hoje.

Ao rever o filme uma das coisas que mais me impressionou foi como o brincar infantil mudou. Atualmente, as crianças ficam grudadas em suas telas virtuais, com pouco espaço para fantasiar ou fazer castelos no ar. Na época do livro, as crianças brincavam na rua, inventavam brinquedos, cozinhavam em fogãozinho de lenha. Uma cena marcante do filme é quando Zezé e seu irmão brincam em um avião construído com rodas velhas de bicicleta e folhas de bananeira imitando o som do avião, dando-nos a ideia de estarmos dentro da aeronave. E as cenas no zoológico? Nem se fala! Imagina entrar em um canavial e conceder que existe ali leão e outros bichos?

Em “Escritores criativos e devaneios” – em 1907, Freud deu uma conferência para uma plateia de 90 pessoas sobre a escrita criativa e o exame das fantasias – nela, o psicanalista se pergunta de onde o escritor retira seu material e chega à conclusão que é possível procurar na infância os primeiros traços da atividade criativa, pois a criança cria seu próprio mundo imaginativo.

A ocupação favorita e mais intensa das crianças são os brinquedos ou os jogos, e diga-se, elas levam muito à sério suas brincadeiras! Me lembro de minha sobrinha que quando criança ficou tão encantada pela história de Anastácia que só atendia quando a chamavam por esse nome: ela se tornou a Anastácia. Exemplos como esse também podem ser observados quando nos deparamos com crianças vestidas de super-heróis na rua. Mas, apesar da emoção com que catexizam seu mundo de brinquedo, elas o distinguem da realidade. Ou seja, sabem que a brincadeira faz parte da imaginação.

Outro bom exemplo de brincadeiras infantis são as de médico e de casinha, nas quais personagens da vida adulta são incorporados. Poderíamos dizer que nesse caso, o brincar se sustenta, sobretudo, no princípio do prazer, conservado na fantasia, e em um dos principais desejos infantis, o de ser adulto, o que muito contribui com o desenvolvimento humano.

Mas do que afinal se trata a fantasia? A fantasia fica em um espaço imaginário dentro do território da razão, com uma fronteira definida separando-a da realidade. Lá vivem faunos, sereias, monstros, vilões, heróis, todos vivendo em um mundo em que tudo é possível. O impossível e o possível convivem bem sem nenhum tipo de problema.

No texto freudiano, o psicanalista afirma que o escritor criativo adulto faz o mesmo que a criança, uma vez que “Cria um mundo de fantasia que ele leva muito a sério, isto é, no qual investe uma grande quantidade de emoção, enquanto mantém uma separação nítida entre o mesmo e a realidade”. Ou seja, mesmo nesta atividade adulta há a percepção da oposição entre a realidade e o brincar.

Podemos nos perguntar nesse momento, sobre o percurso do fantasiar da infância para a fase adulta. À primeira vista pareceria que ao crescer as pessoas param de brincar e renunciam a este prazer, mas o que se vê é que isso nunca é renunciado. “Da mesma forma, a criança em crescimento, quando para de brincar, só abdica do elo com os objetos reais; em vez de brincar, ela agora fantasia”. Ao criar castelos no ar e devanear, a criança consegue abolir temporariamente, o princípio da realidade permitindo que reine o princípio do prazer.

Portanto, qual a chave para responder à pergunta sobre o que acontece com o brincar na fase adulta? Como identificar as fantasias já que os adultos não podem mais brincar? O adulto tem que atuar no mundo real, tem que trabalhar e ter responsabilidades. A hipótese de Freud é que algumas dessas pessoas se tornarão escritores.

Zezé, um menino imaginoso

A pungente história de Zezé é um bom exemplo para esclarecer como a criança brinca e através da fantasia, cria um mundo mais suportável para si. Filho de um pai alcoólatra e de uma mãe sempre triste e ausente de casa, o menino sonha em sair da cidade onde mora e ter uma vida melhor. Antes que isto seja possível, cria brincadeiras em que cavalga em cavalos, canta músicas que só ele pode ouvir, passeia em florestas e “faz amizade” com um pé de laranja lima. Será nesta árvore que encontrará um interlocutor fiel para ouvir seu sofrimento e para sair em cavalgada em direção a mundos mais felizes.

Zezé é um menino que acredita ser o diabo (ficção sobre o mal-entendido estrutural que faz parte da história de todo ser falante e que diz sobre o lugar da criança como objeto no desejo dos pais) e faz tudo para que essa fantasia se confirme: quebra vidraças, passa cera na rua, coloca fogo em cercas. A consequência é estar sempre apanhando do pai e irmãos.

Felizmente, será o encontro com o Portuga que algo se abre em sua trajetória desafortunada. Será com esse homem, que desafia a morte ao passar na linha de trem, que encontrará uma espécie de pai que o ouve e entende.

Penso que a grande importância do Portuga será a de incentivar a criança, que tem grande apreço pelas palavras e nomes, a transformar sua fantasia em histórias.

Finalizo esse pequeno texto com a citação de Freud em Escritores criativos: “Acaso não poderíamos dizer que ao brincar toda criança se comporta como um escritor criativo, pois cria um mundo próprio, ou melhor, reajusta os elementos de seu mundo de uma nova forma que lhe agrade?”

Referências bibliográficas:

FREUD, Sigmund. Escritores criativos e devaneio. In: FREUD, Sigmund. Gradiva de Jensen e outros trabalhos. Rio de Janeiro: Imago, 1976. p. 147-158. (Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud, 9).