{"id":5658054,"date":"2018-11-16T20:29:39","date_gmt":"2018-11-16T22:29:39","guid":{"rendered":"http:\/\/ciendigital.com.br\/?p=5658054"},"modified":"2018-11-28T17:58:27","modified_gmt":"2018-11-28T19:58:27","slug":"forum-racismo-por-que-existem-apenas-racas-de-discurso-desafios-para-a-democracia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ciendigital.com.br\/index.php\/2018\/11\/16\/forum-racismo-por-que-existem-apenas-racas-de-discurso-desafios-para-a-democracia\/","title":{"rendered":"F\u00d3RUM RACISMO &#8211; Por que existem apenas ra\u00e7as de discurso: desafios para a democracia &#8211; As armas do analista frente ao discurso racista[1]"},"content":{"rendered":"<div class=\"pdfprnt-buttons pdfprnt-buttons-post pdfprnt-top-right\"><a href=\"https:\/\/ciendigital.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5658054?print=pdf\" class=\"pdfprnt-button pdfprnt-button-pdf\" target=\"_blank\" ><\/a><a href=\"https:\/\/ciendigital.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5658054?print=print\" class=\"pdfprnt-button pdfprnt-button-print\" target=\"_blank\" ><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/plugins\/pdf-print\/images\/print.png\" alt=\"image_print\" title=\"Conte\u00fado de impress\u00e3o\" \/><\/a><\/div><figure id=\"attachment_5658855\" aria-describedby=\"caption-attachment-5658855\" style=\"width: 300px\" class=\"wp-caption alignright\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-5658855 size-medium\" src=\"http:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/012-300x240.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"240\" srcset=\"https:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/012-300x240.jpg 300w, https:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/012-768x614.jpg 768w, https:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/012-274x219.jpg 274w, https:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/012.jpg 1001w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-5658855\" class=\"wp-caption-text\">Tatiana Blass<\/figcaption><\/figure>\n<h6>Rede Movida Zadig Doces &amp; B\u00e1rbaros &#8211; Belo Horizonte, 9\/3\/2018<strong>\u00a0<\/strong><\/h6>\n<h6>Ana Lydia Santiago<\/h6>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A segunda metade do s\u00e9culo XX foi palco de grandes mudan\u00e7as no esp\u00edrito do capitalismo, que teve como consequ\u00eancia o avan\u00e7o e a globaliza\u00e7\u00e3o dos mercados. Desde ent\u00e3o, a crescente unifica\u00e7\u00e3o de prefer\u00eancias dos consumidores e de seus padr\u00f5es de consumo passa a alimentar a intoler\u00e2ncia em rela\u00e7\u00e3o ao diferente e faz aparecer o <em>imposs\u00edvel de suportar<\/em><strong>,<\/strong> quando as diferen\u00e7as se precipitam em um espa\u00e7o \u00fanico. Em raz\u00e3o dessa conjuntura, ocorrem fen\u00f4menos que concretizam o que Jacques Lacan, em 1973, em entrevista a Jacques-Alain Miller, tratada em <em>Televis\u00e3o, <\/em>tinha profetizado como a prolifera\u00e7\u00e3o futura do racismo.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 preciso muito esfor\u00e7o para observar a atual escalada do racismo. \u00c9 o que pude constatar no espa\u00e7o escolar, em que o insuport\u00e1vel da diferen\u00e7a se revela no corpo, em imagens geradas n\u00e3o apenas pela cor da pele mas tamb\u00e9m por objetos de indument\u00e1ria e de consumo, que sinalizam para o Outro modos de gozo e estilos de vida n\u00e3o conformes aos padr\u00f5es impostos.<\/p>\n<p>Um dos segredos da pr\u00e1tica anal\u00edtica consiste em tomar o sujeito como vazio de sentido, <em>falta a ser,<\/em> sem identifica\u00e7\u00f5es pr\u00e9vias e, portanto, sem qualquer destaque de suas condi\u00e7\u00f5es social, cultural ou \u00e9tnica. Interessa, antes de tudo, revelar a incid\u00eancia, nele, de determina\u00e7\u00f5es da palavra, da linguagem. \u00c9 por isso que o campo aberto por Freud tem como ponto de partida a chamada <em>regra fundamental<\/em>, que se funda no convite ao sujeito a tomar a palavra o mais livremente poss\u00edvel\u00a0 \u0336 posi\u00e7\u00e3o in\u00e9dita, subversiva, no \u00e2mbito da ordem m\u00e9dica\u00a0 \u0336 , o que atraiu a aten\u00e7\u00e3o de muitos, inclusive de artistas. Esse campo \u00e9 explorado de diversas maneiras, sobretudo a partir de uma proposta de Jacques-Alain Miller, para o psicanalista manter conex\u00e3o com os sintomas que afligem a civiliza\u00e7\u00e3o. Refiro-me \u00e0 oferta da pr\u00e1tica da <em>Conversa\u00e7\u00e3o<\/em>, em que se adota o m\u00e9todo da <em>\u201cassocia\u00e7\u00e3o livre coletivizada\u201d<\/em>, voltada ao mal-estar que ocorre em espa\u00e7os institucionais.<\/p>\n<p>Nessa perspectiva \u2013 e no \u00e2mbito de uma pesquisa\/interven\u00e7\u00e3o desenvolvida pelo N\u00facleo Interdisciplinar de Pesquisa em Psican\u00e1lise e Educa\u00e7\u00e3o (Nipse)<a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\"><sup>[2]<\/sup><\/a> em uma escola da rede municipal de Belo Horizonte\/MG, que apresentava, na ocasi\u00e3o, o menor \u00cdndice de Desenvolvimento Escolar B\u00e1sico (IDEB) e o mais baixo resultado na Prova Brasil, avalia\u00e7\u00f5es censit\u00e1rias promovidas pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (INEP) \u2013, foi J\u00falia, uma menina de 9 anos de idade, que explicitou o n\u00f3 do racismo e sua interfer\u00eancia no acesso \u00e0 alfabetiza\u00e7\u00e3o. Para a escola, J\u00falia representava o sintoma da institui\u00e7\u00e3o: fracasso escolar nos primeiros anos de escolaridade. Ao tomar a palavra, ela afirma: <em>\u201cS\u00f3 os brancos<\/em> <em>aprendem<\/em>\u201d e <em>\u201cLer e escrever n\u00e3o \u00e9 para negros\u201d<\/em>. Conta que, na sua sala de aula, apenas Isabela, uma de suas colegas, e a professora sabiam ler. Reproduzo, por oportuno, parte da conversa desenvolvida ao longo dessa entrevista no \u00e2mbito da referida pesquisa:<\/p>\n<p>Pergunto-lhe:<\/p>\n<p><em>&#8211; N\u00e3o tem mais nenhum coleguinha que sabe ler?<\/em><\/p>\n<p>Ela pensa e responde surpresa:<\/p>\n<p><em>&#8211; Uai! Tem! O Marcos, o Cau\u00e3 e o M\u00e1rcio.<\/em><\/p>\n<p><em>&#8211; Voc\u00ea pode me falar um pouco mais sobre a Isabela?<\/em><\/p>\n<p><em>&#8211; Ela tem uma mochila de rodinhas rosa&#8230; Eu tamb\u00e9m tenho mochila, mas a minha \u00e9 mais bonita que a dela. A Isabela tem um t\u00eanis rosa&#8230; Mas eu acho o meu mais bonito que o dela.<\/em><\/p>\n<p>Continuando, ela enumera outros objetos que ambas possuem, sempre valorizando os seus em detrimento dos da colega.<\/p>\n<p>Digo-lhe ent\u00e3o:<\/p>\n<p><em>&#8211; N\u00e3o estou entendendo. Voc\u00ea acha que a Isabela sabe mais. Mas, ao se comparar com ela, \u00e9 voc\u00ea quem sabe das coisas e tudo que escolhe<\/em> <em>\u00e9 melhor para voc\u00ea.<\/em><\/p>\n<p><em>Ent\u00e3o, qual \u00e9 o problema?<\/em><\/p>\n<p>Depois de um minuto de reflex\u00e3o, J\u00falia responde:<\/p>\n<p>&#8211;<em> \u00c9 que minha m\u00e3e n\u00e3o sabe ler.<\/em><\/p>\n<p>Dou prosseguimento \u00e0 conversa, visando cingir, de maneira precisa, algumas cren\u00e7as a que o sujeito se agarra, porque est\u00e3o ao seu alcance, para tentar inscrever o que lhe escapa. J\u00falia transforma-se visivelmente durante a entrevista: no in\u00edcio, ela fala baixinho, de cabe\u00e7a baixa; depois, vai mostrando gosto pela palavra; e, no final, pede para voltar e conversar mais.<\/p>\n<p>No que concerne \u00e0 alfabetiza\u00e7\u00e3o, J\u00falia teve seu destino mudado a partir do encontro com um analista. Para Oprah Winfrey, ganhadora do Globo de Ouro 2018, o encontro que mudou sua vida tamb\u00e9m aconteceu, quando ela era uma menina da mesma idade de J\u00falia. Sentada no ch\u00e3o da casa de sua m\u00e3e \u2013 que, inclusive, tinha a mesma condi\u00e7\u00e3o da m\u00e3e de J\u00falia \u2013, ela estava assistindo \u00e0 televis\u00e3o, quando Anne Bancroft anunciou o ganhador do Oscar de Melhor Ator, na 36<u><sup>a<\/sup><\/u> edi\u00e7\u00e3o dessa premia\u00e7\u00e3o pela Academia de Artes e Ci\u00eancia Cinematogr\u00e1fica dos Estados Unidos, em 1964: <em>\u201cO vencedor \u00e9 Sidney Poitier!\u201d <\/em>Essas palavras da apresentadora associaram-se, de imediato, \u00e0 imagem do homem mais elegante que Oprah j\u00e1 tinha visto. Segundo ela testemunha, <em>\u201csua gravata era branca e sua pele, negra\u201d<a href=\"#_ftn3\" name=\"_ftnref3\"><sup><strong>[3]<\/strong><\/sup><\/a>.<\/em> A prop\u00f3sito, afirma que, naquele instante, viu <em>\u201cpela primeira vez, um homem negro ser apresentado como celebridade\u201d <\/em>e isso traduziu em imagens sonoras o que ela pr\u00f3pria queria para seu destino. Durante seu discurso, quando entregou o Globo de Ouro a Sidney, em 1982, ela declara que, naquele momento, s\u00f3 pensava que outras meninas poderiam estar assistindo \u00e0 primeira mulher negra entregar esse pr\u00eamio e, assim, se inspirarem.<\/p>\n<p>Volto a J\u00falia, para esclarecer que, ao tomar a palavra, a menina permitiu o deciframento de uma s\u00e9rie de fen\u00f4menos que estavam acontecendo durante o trabalho pedag\u00f3gico voltado \u00e0 alfabetiza\u00e7\u00e3o, que, na \u00e9poca, na escola em quest\u00e3o, foi assumido por uma dupla de pesquisadoras do Nipse, uma negra e outra branca. Essa composi\u00e7\u00e3o deu oportunidade para as crian\u00e7as expressarem a marca nociva do racismo na escolariza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Fazer da cor da pele uma aquarela, misturar branco e preto ou diluir a tinta do discurso racista por meio da palavra constitu\u00edram o processo de transforma\u00e7\u00e3o operado por J\u00falia e outras crian\u00e7as da mesma institui\u00e7\u00e3o, para tornar poss\u00edvel o uso do c\u00f3digo alfabeto do Outro em uma pintura pr\u00f3pria.<\/p>\n<p>Os gestores da mesma escola \u201cmoviam montanhas\u201d para mudar a situa\u00e7\u00e3o de fracasso comprovada, sem conseguir resultados minimamente satisfat\u00f3rios. Para eles, a <em>\u201cassocia\u00e7\u00e3o livre coletivizada\u201d<\/em> permitiu a explicita\u00e7\u00e3o de que, na verdade, responsabilizavam a pobreza familiar pelo fracasso escolar dos alunos. E criticavam os pais, pois viam, na rela\u00e7\u00e3o destes com a escola, apenas um interesse meramente assistencial. Consequentemente, implementavam mudan\u00e7as no espa\u00e7o escolar apenas com base no que julgavam apropriado \u00e0 realidade social das respectivas fam\u00edlias.<\/p>\n<p>Quando a pr\u00e1tica educacional situa o aluno e sua fam\u00edlia em posi\u00e7\u00e3o inferior em rela\u00e7\u00e3o ao saber e \u00e0 educa\u00e7\u00e3o, produz-se um discurso que segrega. No fundo, o que est\u00e1 em jogo \u00e9 a dificuldade para acolher a diferen\u00e7a e o diverso expressos em um modo de gozo outro. <em>\u201cDeixar esse Outro entregue a seu modo de gozo, eis o que s\u00f3 seria poss\u00edvel n\u00e3o lhe impondo o nosso, n\u00e3o o tomando por subdesenvolvido\u201d,<\/em> afirma Lacan, em <em>Televis\u00e3o<\/em>, indicando que a l\u00f3gica contempor\u00e2nea do racismo consiste em recha\u00e7ar no Outro um modo diferente de gozo. O decl\u00ednio da civiliza\u00e7\u00e3o patriarcal deixa o sujeito desbussolado, sem saber qual Outro possibilita a orienta\u00e7\u00e3o do gozo. Como se sabe, o racismo \u00e9 o h\u00e1bito, cada vez mais crescente, de recusa do gozo do Outro.<\/p>\n<p>Na escola de J\u00falia, o m\u00e9todo da <em>Conversa\u00e7\u00e3o<\/em> mostrou-se uma arma potente, com vistas a se desembara\u00e7ar dos fatos de gozo de que o corpo se constitui lugar privilegiado da contraposi\u00e7\u00e3o ao discurso racista presente em muitas pr\u00e1ticas de institui\u00e7\u00f5es escolares. Al\u00e9m disso, possibilitou a grande parte dos educadores envolvidos estabelecer novo la\u00e7o com os pais de alunos, la\u00e7o pautado na aposta em que a educa\u00e7\u00e3o pode ser um instrumento valioso para a vida civilizada, em detrimento dos apelos obscurantistas da \u00e9poca atual.<\/p>\n<p>O analista tem, portanto, suas armas e n\u00e3o abdica delas frente \u00e0s tend\u00eancias segregacionistas das sociedades contempor\u00e2neas. Diante da pr\u00e1tica racista, a <em>\u201cassocia\u00e7\u00e3o livre coletivizada\u201d<\/em> afirma-se, pois, como um discurso que, ao acolher a trajet\u00f3ria singular de uma vida, resiste \u00e0s ideologias, utopias, ideais e pr\u00e1ticas que gravitam em torno da uniformiza\u00e7\u00e3o dos modos de gozo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<hr \/>\n<h6><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\"><sup>[1]<\/sup><\/a> Texto publicado parcialmente em <em>Correio Express. <\/em>Revista on line da Escola Brasileira de Psican\u00e1lise. n\u00b0 2, mar\u00e7o de 2018. Edi\u00e7\u00e3o extra. Dispon\u00edvel em <u><a href=\"https:\/\/www.ebp.org.br\/correio_express\/extra001\/texto_AnaLydia.html\">https:\/\/www.ebp.org.br\/correio_express\/extra001\/texto_AnaLydia.html<\/a><\/u> e Publicado em Curinga, EBP-MG, n 46, jul\/dez de 2018.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\"><sup>[2]<\/sup><\/a> O Nipse integra a \u00e1rea da P\u00f3s-Gradua\u00e7\u00e3o da Faculdade de Educa\u00e7\u00e3o da Universidade Federal de Minas Gerais (FaE\/UFMG).<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref3\" name=\"_ftn3\"><sup>[3]<\/sup><\/a> Discurso de Oprah Winfrey, dispon\u00edvel em yuotube.com<\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Rede Movida Zadig Doces &amp; B\u00e1rbaros &#8211; Belo Horizonte, 9\/3\/2018\u00a0 Ana Lydia Santiago &nbsp; A segunda metade do s\u00e9culo XX foi palco de grandes mudan\u00e7as no esp\u00edrito do capitalismo, que teve como consequ\u00eancia o avan\u00e7o e a globaliza\u00e7\u00e3o dos mercados. 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