{"id":5658056,"date":"2018-11-16T20:30:41","date_gmt":"2018-11-16T22:30:41","guid":{"rendered":"http:\/\/ciendigital.com.br\/?p=5658056"},"modified":"2018-11-28T17:58:27","modified_gmt":"2018-11-28T19:58:27","slug":"que-tipo-de-crianca-audiovisual-voce-e","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ciendigital.com.br\/index.php\/2018\/11\/16\/que-tipo-de-crianca-audiovisual-voce-e\/","title":{"rendered":"Que tipo de crian\u00e7a audiovisual voc\u00ea \u00e9? &#8211; Casos de produ\u00e7\u00f5es audiovisuais voltadas para o p\u00fablico infantil"},"content":{"rendered":"<div class=\"pdfprnt-buttons pdfprnt-buttons-post pdfprnt-top-right\"><a href=\"https:\/\/ciendigital.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5658056?print=pdf\" class=\"pdfprnt-button pdfprnt-button-pdf\" target=\"_blank\" ><\/a><a href=\"https:\/\/ciendigital.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5658056?print=print\" class=\"pdfprnt-button pdfprnt-button-print\" target=\"_blank\" ><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/plugins\/pdf-print\/images\/print.png\" alt=\"image_print\" title=\"Conte\u00fado de impress\u00e3o\" \/><\/a><\/div><figure id=\"attachment_5658808\" aria-describedby=\"caption-attachment-5658808\" style=\"width: 300px\" class=\"wp-caption alignright\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-5658808\" src=\"http:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/011-300x289.png\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"289\" srcset=\"https:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/011-300x289.png 300w, https:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/011-768x740.png 768w, https:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/011-1024x986.png 1024w, https:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/011-274x264.png 274w, https:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/011-600x578.png 600w, https:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/011.png 1085w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-5658808\" class=\"wp-caption-text\">Gisele Camargo<\/figcaption><\/figure>\n<h6>Jon Russo<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\"><sup>[1]<\/sup><\/a><\/h6>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O convite para escrever sobre minhas experi\u00eancias com a produ\u00e7\u00e3o audiovisual voltada ao p\u00fablico infantil torna-se uma grata oportunidade \u00e0 reflex\u00e3o e ao pensar no trajeto profissional trilhado at\u00e9 aqui.<\/p>\n<p>No ano de 2001, junto com outros dois amigos, decidimos criar um est\u00fadio de produ\u00e7\u00e3o audiovisual, Usinanimada, voltado principalmente a produ\u00e7\u00e3o de anima\u00e7\u00f5es e que tivesse como norte a cria\u00e7\u00e3o autoral, ou seja, a materializa\u00e7\u00e3o de nossas pr\u00f3prias ideias. No in\u00edcio das atividades do est\u00fadio desenvolvemos todo tipo de material: publicidade, v\u00eddeos did\u00e1ticos, educativos, mas o objetivo era ter autonomia para gerar conte\u00fado. Isso aconteceu a partir do ano de 2005 e tentarei ater meu depoimento a duas produ\u00e7\u00f5es espec\u00edficas que tive o prazer de conceber e co-dirigir.<\/p>\n<p>Em 2005 a ideia de um programa infantil para a TV come\u00e7ou a martelar na minha cabe\u00e7a a partir da insatisfa\u00e7\u00e3o que sentia ao ver o que se produzia para esse p\u00fablico. Vale lembrar que h\u00e1 treze anos atr\u00e1s n\u00e3o existia a profus\u00e3o de s\u00e9ries infantis que s\u00e3o oferecidas hoje, nas mais diversas plataformas: TV aberta e a cabo, <em>video on demand, Netflix<\/em>, <em>Youtube<\/em> e Aplicativos. E \u00e9 fundamental salientar um ponto: quando se fala em p\u00fablico infantil estamos tratando de um universo diversificado e multifacetado. De maneira sucinta, quando pensamos no mercado audiovisual, pode-se dividir o p\u00fablico infantil em tr\u00eas faixas et\u00e1rias: a pr\u00e9-escolar (de 3 a 5 anos), a escolar (6 a 9) e a pr\u00e9-adolescente (10 a 12). A linguagem, est\u00e9tica e apelos de uma produ\u00e7\u00e3o ser\u00e3o direcionados para uma dessas faixas, lembrando que p\u00fablico-alvo \u00e9 aquele para o qual se pensa a mensagem mas uma produ\u00e7\u00e3o pode ter uma recep\u00e7\u00e3o muito maior, o chamado p\u00fablico potencial. Ent\u00e3o voltamos ao ano de 2005 e \u00e0 minha insatisfa\u00e7\u00e3o. Alguns fatores que geravam inc\u00f4modo no conte\u00fado infantil veiculado na \u00e9poca: ver a crian\u00e7a tratada como coadjuvante e n\u00e3o como protagonista; abordagens manique\u00edstas de diversos assuntos; e ru\u00eddos sonoros, muitos programas eram ensurdecedores, caracter\u00edstica que contribu\u00eda para calar as vozes infantis. Portanto, o processo de cria\u00e7\u00e3o se deu a partir do que eu n\u00e3o queria fazer. Foi assim que nasceu o projeto &#8220;Que tipo de crian\u00e7a voc\u00ea \u00e9?&#8221;.<\/p>\n<p>O &#8220;Que tipo&#8221; foi veiculado na TV Brasil no ano de 2009. Foram 82 epis\u00f3dios, 41 de 3 minutos e 41 de 1 minuto. De 2005 a 2007 tentamos a veicula\u00e7\u00e3o em outras emissoras voltadas para conte\u00fados culturais mas quando se vislumbrava que o projeto &#8216;sairia da gaveta&#8217; acontecia algum entrave. Em 2008 o projeto finalmente deu certo na TV Brasil, sob dire\u00e7\u00e3o de Rog\u00e9rio Shareid e minha. Apresento essas datas para ilustrar a demora em se concretizar uma produ\u00e7\u00e3o audiovisual no Brasil. Essa dificuldade de realiza\u00e7\u00e3o angustia boa parte dos profissionais que trabalham com cria\u00e7\u00e3o, mas tamb\u00e9m serve como tempo de matura\u00e7\u00e3o de ideias.<\/p>\n<p>A estrutura do &#8220;Que tipo&#8221; era pautada em entrevistas com crian\u00e7as, de 6 a 12 anos, de diversas classes sociais, em variados contextos espaciais, falando sobre 41 temas diferentes. O conceito do programa era nunca conseguir responder \u00e0 pergunta t\u00edtulo: que tipo de crian\u00e7a voc\u00ea \u00e9? Atrav\u00e9s da edi\u00e7\u00e3o dos depoimentos a narrativa se constr\u00f3i, como se uma crian\u00e7a complementasse a fala da outra, e o resultado era uma abordagem heterog\u00eanea sobre os assuntos. As respostas n\u00e3o eram evasivas ou taxativas e sim aberturas a &#8216;per\u00edfrases mentais&#8217;. Os conceitos de dialogismo e polifonia do linguista Mikhail Bakhtin serviram como baliza \u00e0 edi\u00e7\u00e3o, assim como a teoria da montagem intelectual do cineasta e te\u00f3rico russo Sergei Eisenstein, que em linhas (muito) gerais defende que &#8220;uma vez reunidos, dois fragmentos de filme de qualquer tipo combinam-se inevitavelmente em um novo conceito, em uma nova qualidade, que nasce, justamente, de sua justaposi\u00e7\u00e3o&#8221;. Ent\u00e3o, a concep\u00e7\u00e3o da edi\u00e7\u00e3o do &#8220;Que tipo&#8221; era a aplica\u00e7\u00e3o do dialogismo <em>bakhtiniano<\/em> atrav\u00e9s da montagem <em>eisensteiniana<\/em>. Mas n\u00e3o funcionou, pelo menos n\u00e3o como se esperava.<\/p>\n<p>O primeiro erro, do ponto de vista do mercado audiovisual, foi n\u00e3o definir bem a faixa et\u00e1ria das crian\u00e7as entrevistadas &#8211; uma crian\u00e7a de doze anos tem interesses diferentes de uma de seis &#8211; o que influencia diretamente na aten\u00e7\u00e3o dos espectadores infantis. O p\u00fablico adulto ficava fascinado com os depoimentos infantis mas as crian\u00e7as se dispersavam. O &#8220;Que tipo&#8221; se propunha um programa infantil de entretenimento, e acabamos por criar um programa documental com crian\u00e7as, para adultos. Esse foi o primeiro cruzamento entre as esferas da fic\u00e7\u00e3o e do document\u00e1rio no meu trabalho, que se transformaram numa constante e no fio condutor de boa parte do que desenvolvo.<\/p>\n<p>Para o te\u00f3rico Bill Nichols, &#8220;todo filme \u00e9 um document\u00e1rio&#8221;, partindo-se da ideia que a capta\u00e7\u00e3o de imagens e sons s\u00e3o registros de um determinado contexto espacial, cultural e social realizados em um tempo delimitado, reflexo de uma realidade espec\u00edfica. Por outro lado, Christian Metz, em seu &#8216;Significa\u00e7\u00e3o no cinema&#8217;, defende que todo filme \u00e9 uma fic\u00e7\u00e3o, a partir do momento que se considera a presen\u00e7a do aparato tecnol\u00f3gico de captura de imagens e sons como um canal mediador entre quem observa e quem \u00e9 observado. As quest\u00f5es sobre as unidades de produ\u00e7\u00e3o documental e ficcional remontam aos primeiros filmes dos irm\u00e3os Lumi\u00e9r\u00e8, percorrem toda a hist\u00f3ria do cinema, passam pelos suportes de difus\u00e3o eletr\u00f4nica como a TV e o v\u00eddeo e chegam \u00e0s plataformas interativas digitais. Na produ\u00e7\u00e3o audiovisual contempor\u00e2nea nota-se o constante imbricamento entre esses universos, exemplos como os <em>mockumentaries <\/em>ou doc-par\u00f3dias (filmes que se revestem de t\u00e9cnicas documentais mas que s\u00e3o encena\u00e7\u00f5es pr\u00e9-roteirizadas), ou o fen\u00f4meno das <em>fake news<\/em>, potencializado pelos meios de difus\u00e3o das novas m\u00eddias.<\/p>\n<p>A segunda experi\u00eancia que tive com a cria\u00e7\u00e3o de conte\u00fado para s\u00e9ries infantis retoma, em certos aspectos, linhas soltas do &#8220;Que tipo de crian\u00e7a voc\u00ea \u00e9?&#8221; e mais uma vez o encontro entre o document\u00e1rio e a fic\u00e7\u00e3o. Aconteceu na concep\u00e7\u00e3o da s\u00e9rie &#8220;Lala&#8221;, co-dirigida com Thomas Larson.<\/p>\n<p>Lala \u00e9 uma s\u00e9rie voltada para o p\u00fablico pr\u00e9-escolar, produzida com t\u00e9cnica mista de anima\u00e7\u00e3o. A protagonista \u00e9 uma menina representada por uma boneca animada em <em>stop-motion<\/em>, mais conhecida como &#8216;anima\u00e7\u00e3o de massinha&#8217;. Seus amigos Toni, Foguete e Zima s\u00e3o brinquedos animados por computador e o diferencial da s\u00e9rie \u00e9 utilizar desenhos e depoimentos reais de crian\u00e7as na elabora\u00e7\u00e3o dos roteiros.<\/p>\n<p>O processo de produ\u00e7\u00e3o dos epis\u00f3dios come\u00e7a com oficinas realizadas com crian\u00e7as de 6 a 8 anos. A faixa et\u00e1ria mais alta que a do p\u00fablico-alvo visa garantir o interesse das crian\u00e7as mais novas. Nessas oficinas os participantes s\u00e3o incentivados a desenhar livremente a partir de temas dados pelos diretores. Al\u00e9m dos desenhos s\u00e3o feitas grava\u00e7\u00f5es de \u00e1udio. Esse material serve como substrato para a defini\u00e7\u00e3o dos roteiros e os desenhos s\u00e3o refeitos por animadores, buscando a maior fidelidade poss\u00edvel com o tra\u00e7o infantil. De 2010 at\u00e9 2017 produzimos 40 epis\u00f3dios de aproximadamente 2 minutos de dura\u00e7\u00e3o cada. Nesses epis\u00f3dios experimentamos estruturas narrativas diferentes, em clipes musicais, poesias, um programa de entrevistas feito por Lala e seus amigos. Neste momento estamos formatando a s\u00e9rie em epis\u00f3dios de 7 minutos que englobam todas essas possibilidades narrativas testadas nos epis\u00f3dios de menor dura\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>No caso da s\u00e9rie Lala temos um universo ficcional protagonizado por uma menina de 6 anos de idade, que d\u00e1 vaz\u00e3o \u00e0 sua imagina\u00e7\u00e3o e criatividade, junto com seu irm\u00e3o ca\u00e7ula, o Tato, e seus amigos Toni, Foguete, Zima e Massinha (que s\u00e3o seus brinquedos) em seu quarto de brincar. Esse microcosmo serve como canal para expor os desenhos e depoimentos coletados nas oficinas art\u00edsticas. Nos \u00faltimos epis\u00f3dios utilizamos tamb\u00e9m ideias para a composi\u00e7\u00e3o das m\u00fasicas. A colabora\u00e7\u00e3o das crian\u00e7as no material desenvolvido est\u00e1 em conflu\u00eancia direta com alguns aspectos da produ\u00e7\u00e3o audiovisual voltada para as novas m\u00eddias.<\/p>\n<p>O fil\u00f3sofo Pierre L\u00e9vy chama de Revolu\u00e7\u00e3o Digital o fen\u00f4meno desencadeado com a populariza\u00e7\u00e3o da internet e da sociedade interligada em rede. Esta revolu\u00e7\u00e3o compreende as mudan\u00e7as observadas nas rela\u00e7\u00f5es humanas e no ambiente virtual, o ciberespa\u00e7o. Essas mudan\u00e7as influenciaram n\u00e3o s\u00f3 a maneira das pessoas se relacionarem, mas tamb\u00e9m a forma de consumirem, se expressarem e apreenderem o mundo \u00e0 sua volta. Uma das transforma\u00e7\u00f5es mais significativas no \u00e2mbito das comunica\u00e7\u00f5es \u00e9 a da intelig\u00eancia coletiva e da cultura participativa. Henry Jenkins \u00e9 um dos principais expoentes dos estudos midi\u00e1ticos das novas m\u00eddias e o autor da obra &#8216;Cultura da Converg\u00eancia&#8217;, na qual analisa a constru\u00e7\u00e3o e a apreens\u00e3o de textos culturais audiovisuais. Jenkins pontua a modifica\u00e7\u00e3o de paradigmas na estrutura comunicacional preconizada pelos meios de comunica\u00e7\u00e3o de massa, notadamente o r\u00e1dio e a televis\u00e3o. A base emissor-mensagem-receptor, estratificada e un\u00edvoca foi substitu\u00edda pela via de m\u00e3o dupla entre emissor e receptor, transpondo-os aos pap\u00e9is de usu\u00e1rios no contexto virtual. Nos dias atuais os f\u00e3s ou consumidores de uma s\u00e9rie ou texto cultural audiovisual n\u00e3o se contentam em receber os conte\u00fados de forma passiva. As novas m\u00eddias possibilitam a participa\u00e7\u00e3o por parte dos f\u00e3s, seja na gera\u00e7\u00e3o de novos conte\u00fados relacionados \u00e0 seus objetos de adora\u00e7\u00e3o, ou no compartilhamento e circula\u00e7\u00e3o de informa\u00e7\u00f5es. Podemos citar os exemplos da s\u00e9ries <em>Game of Thrones<\/em> e da franquia <em>Star Wars<\/em>, que teve de se atualizar aos novos modelos de consumo por parte dos f\u00e3s.<\/p>\n<p>Quando finalizamos os primeiros 20 epis\u00f3dios da s\u00e9rie Lala fizemos um ciclo de exibi\u00e7\u00f5es coletando opini\u00f5es das crian\u00e7as, sobre os temas, quais estruturas narrativas agradavam mais, at\u00e9 sobre a ader\u00eancia com os personagens. O Massinha \u00e9 disparado o personagem preferido do p\u00fablico. Ele \u00e9 feito de massa de modelar verde e pode se transformar em qualquer coisa. No clipe da m\u00fasica Le\u00e3o ele foi um felino de diversos tamanhos e um novelo de l\u00e3. Nos epis\u00f3dios Massinha assumiu formas t\u00e3o variadas quanto um perisc\u00f3pio, l\u00e2mpada, pandeiro, E.T, sapo. \u00c9 justamente a capacidade de transforma\u00e7\u00e3o que encanta as crian\u00e7as, a rela\u00e7\u00e3o m\u00e1gica de um objeto sumir e assumir outra dimens\u00e3o. Numa perspectiva filos\u00f3fica pode-se dizer que \u00e9 um pouco isso o que a crian\u00e7a faz com seu entorno, a recodifica\u00e7\u00e3o de signos em outros contextos. Esse processo fica mais claro durante as entrevistas para composi\u00e7\u00e3o dos roteiros.<\/p>\n<p>As entrevistas s\u00e3o captadas como conversas espont\u00e2neas e livres sobre os mais variados temas. Realizo uma pauta mental mas no momento de capta\u00e7\u00e3o o assunto pode tomar rumos inesperados. Uma das entrevistas mais curiosas foi sobre a China. N\u00f3s quer\u00edamos saber o que habitava o imagin\u00e1rio infantil sobre esse pa\u00eds. A conversa come\u00e7ou tratando de aspectos mais conhecidos da cultura chinesa, como a culin\u00e1ria. A diferen\u00e7a cultural indignava uma das meninas que se negava a comer sapo e cobra e ela sabia que isso acontecia porque um tio dela j\u00e1 havia estado na China. Na opini\u00e3o dela e da amiga o ideal seria comer doces, at\u00e9 porque essa era a &#8220;religi\u00e3o&#8221; delas. Pra entrar na religi\u00e3o das duas, tinha de responder um question\u00e1rio, se n\u00e3o gostasse de doces estaria fora da seita. Esse \u00e9 um exemplo das conex\u00f5es feitas durante o processo de pesquisa.<\/p>\n<p>Em um outro momento tratamos do tema Tecnologia e ficamos surpresos ao perceber que n\u00e3o s\u00e3o todas as crian\u00e7as que curtem aparatos tecnol\u00f3gicos, pelos mais diversos motivos. Uma delas nos contou que o grande problema era a bateria, que acabava logo, ent\u00e3o ela preferia brincar com coisas que n\u00e3o dependiam da energia el\u00e9trica. Ainda sobre esse tema ouvimos que o Google sabe muita coisa mas foi o homem que colocou tudo l\u00e1. Pode-se pensar no car\u00e1ter curioso e &#8220;engra\u00e7adinho&#8221; de tais falas, mas elas demonstram muito mais do que uma aparente superficialidade. A apreens\u00e3o de um objeto (tema) pode acontecer de diversas formas, muitas vezes vem \u00e0 tona a reprodu\u00e7\u00e3o de um discurso notadamente adulto, como opini\u00f5es sobre pol\u00edtica. Mas o que tentamos \u00e9 quebrar o discurso reproduzido provocando a crian\u00e7a a dizer o que ela pensa sobre aquilo, desvinculando sua opini\u00e3o da fala dos adultos. Em uma das entrevistas tratamos do tema Teatro e em determinado momento o menino com que convers\u00e1vamos disse que &#8220;amava&#8221; o teatro musical; diante do palco ele podia se desligar do mundo real e sonhar por pelo menos uma hora e meia. Mas mesmo sendo f\u00e3 dos musicais ele tamb\u00e9m gostava de pe\u00e7as mais s\u00e9rias pois era muito importante ter um esp\u00edrito cr\u00edtico sobre a realidade. Talvez a termo &#8220;esp\u00edrito cr\u00edtico&#8221; tenha sido ouvido em alguma conversa entre os pais ou familiares mas a conex\u00e3o feita entre o teatro musical e as pe\u00e7as mais s\u00e9rias \u00e9 uma forma de aproxima\u00e7\u00e3o realizada pela pr\u00f3pria crian\u00e7a.<\/p>\n<p>Um dos maiores desafios nesse momento \u00e9 utilizar as plataformas digitais de modo cada vez mais participativo. O pr\u00f3ximo passo ser\u00e1 a produ\u00e7\u00e3o dos epis\u00f3dios de 7 minutos e prevemos a cria\u00e7\u00e3o de canais mais diretos de pesquisa, atrav\u00e9s do envio de materiais via redes sociais. O objetivo \u00e9 usar as plataformas digitais para potencializar a coleta de material documental e tamb\u00e9m ficcional, aproveitando ideias do p\u00fablico na composi\u00e7\u00e3o das m\u00fasicas e das narrativas.<\/p>\n<p>O cineasta alem\u00e3o Win Wenders diz que sempre fez o mesmo filme, perseguindo uma mesma ideia. Tento modestamente aproximar-me desse olhar. Tanto a s\u00e9rie &#8220;Que tipo de crian\u00e7a voc\u00ea \u00e9?&#8221;, quanto a &#8220;Lala&#8221; s\u00e3o tentativas de investigar a riqueza do universo infantil e propor cruzamentos entre a realidade da crian\u00e7a e suas proje\u00e7\u00f5es imagin\u00e1rias. Esses universos nem sempre apresentam linhas divis\u00f3rias claras, por isso essa investiga\u00e7\u00e3o \u00e9 t\u00e3o instigante. No meu caso, creio que esse seja o principal fio condutor e est\u00edmulo para trabalhar com crian\u00e7as e para crian\u00e7as.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<hr \/>\n<h6>BIBLIOGRAFIA<\/h6>\n<h6>BRAITH, Beth (Org.). <em>Bakhtin: dialogismo e polifonia<\/em><strong>.<\/strong> S\u00e3o Paulo: Editora Contexto, 2011.<\/h6>\n<h6>EISENSTEIN, S. <em>O sentido do filme<\/em><strong>.<\/strong> Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2002.<\/h6>\n<h6>JENKINS, Henry. <em>Cultura da converg\u00eancia<\/em><strong>.<\/strong> S\u00e3o Paulo: Editora Aleph, 2009.<\/h6>\n<h6>LEVY, Pierre. <em>Cibercultura<\/em><strong>.<\/strong> S\u00e3o Paulo: Editora 34, 1999.<\/h6>\n<h6>METZ, Christian. <em>A significa\u00e7\u00e3o no cinema<\/em>. S\u00e3o Paulo: Perspectiva, 2012.<\/h6>\n<h6>NICHOLS, B. <em>Introdu\u00e7\u00e3o ao document\u00e1rio<\/em>. Campinas: Papirus, 2005.<\/h6>\n<h6><strong>Internet<\/strong> \u2013 Que tipo de crian\u00e7a voc\u00ea \u00e9? Dispon\u00edvel em: <a href=\"https:\/\/vimeo.com\/album\/2003253\">https:\/\/vimeo.com\/album\/2003253<\/a><\/h6>\n<hr \/>\n<h6><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\"><sup>[1]<\/sup><\/a> Gustavo Russo Estev\u00e3o (Jon) possui gradua\u00e7\u00e3o em Comunica\u00e7\u00e3o Social &#8211; Radialismo e Televis\u00e3o, especializa\u00e7\u00e3o em Hist\u00f3ria da Educa\u00e7\u00e3o e mestrado em Imagem e Som. Leciona desde 2001 em cursos de gradua\u00e7\u00e3o e p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o de Comunica\u00e7\u00e3o, assuntos referentes \u00e0 cria\u00e7\u00e3o e produ\u00e7\u00e3o audiovisual. \u00c9 s\u00f3cio-diretor dos est\u00fadios Usinanimada e Lala Produ\u00e7\u00f5es Art\u00edsticas, nos quais atua como roteirista, produtor e diretor.<\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Jon Russo[1] &nbsp; O convite para escrever sobre minhas experi\u00eancias com a produ\u00e7\u00e3o audiovisual voltada ao p\u00fablico infantil torna-se uma grata oportunidade \u00e0 reflex\u00e3o e ao pensar no trajeto profissional trilhado at\u00e9 aqui. No ano de 2001, junto com outros dois amigos, decidimos criar um est\u00fadio de produ\u00e7\u00e3o audiovisual, Usinanimada, voltado principalmente a produ\u00e7\u00e3o de&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":5658808,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[118,20],"tags":[81],"post_series":[],"class_list":["post-5658056","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-cien_digital_22","category-orbita","tag-cien_digital_22","entry","has-media"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/ciendigital.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5658056","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/ciendigital.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/ciendigital.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ciendigital.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ciendigital.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=5658056"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/ciendigital.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5658056\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ciendigital.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/5658808"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/ciendigital.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=5658056"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/ciendigital.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=5658056"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/ciendigital.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=5658056"},{"taxonomy":"post_series","embeddable":true,"href":"https:\/\/ciendigital.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/post_series?post=5658056"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}