{"id":5658060,"date":"2018-11-16T20:32:35","date_gmt":"2018-11-16T22:32:35","guid":{"rendered":"http:\/\/ciendigital.com.br\/?p=5658060"},"modified":"2018-11-28T17:58:26","modified_gmt":"2018-11-28T19:58:26","slug":"o-que-a-recusa-a-fala-quer-dizer","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ciendigital.com.br\/index.php\/2018\/11\/16\/o-que-a-recusa-a-fala-quer-dizer\/","title":{"rendered":"O que a recusa \u00e0 fala quer dizer? &#8211; Conversa\u00e7\u00e3o sobre o acolhimento de um adolescente em um CAPS-AD."},"content":{"rendered":"<div class=\"pdfprnt-buttons pdfprnt-buttons-post pdfprnt-top-right\"><a href=\"https:\/\/ciendigital.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5658060?print=pdf\" class=\"pdfprnt-button pdfprnt-button-pdf\" target=\"_blank\" ><\/a><a href=\"https:\/\/ciendigital.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5658060?print=print\" class=\"pdfprnt-button pdfprnt-button-print\" target=\"_blank\" ><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/plugins\/pdf-print\/images\/print.png\" alt=\"image_print\" title=\"Conte\u00fado de impress\u00e3o\" \/><\/a><\/div><figure id=\"attachment_5658806\" aria-describedby=\"caption-attachment-5658806\" style=\"width: 300px\" class=\"wp-caption alignright\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-5658806\" src=\"http:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/009-300x212.png\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"212\" srcset=\"https:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/009-300x212.png 300w, https:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/009-274x194.png 274w, https:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/009-600x424.png 600w, https:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/009.png 760w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-5658806\" class=\"wp-caption-text\">Dalton Paula<\/figcaption><\/figure>\n<h6>Giselle Fleury<\/h6>\n<h6>Laborat\u00f3rio Pipa Avoada*<\/h6>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O laborat\u00f3rio Pipa Avoada se dedica \u00e0 investiga\u00e7\u00e3o da crian\u00e7a e do adolescente que, no la\u00e7o social, experienciam a rela\u00e7\u00e3o com a droga, a viol\u00eancia e a vulnerabilidade social. Qual lugar para a droga na adolesc\u00eancia? Que lugar para o tratamento de adolescentes usu\u00e1rios de drogas? S\u00e3o duas quest\u00f5es que orientam atualmente nosso campo de investiga\u00e7\u00e3o. Essas perguntas, lan\u00e7adas como convocat\u00f3ria para uma conversa\u00e7\u00e3o aberta entre os laborat\u00f3rios do CIEN contou com a presen\u00e7a dos profissionais da equipe de um CAPS-AD, al\u00e9m de diversos outros, que atuam no campo da sa\u00fade mental e na educa\u00e7\u00e3o infanto-juvenil, na rede de assist\u00eancia municipal e estadual do Rio de Janeiro.<\/p>\n<p>A proposta da conversa\u00e7\u00e3o surgiu a partir de alguns impasses concernentes \u00e0 pr\u00e1tica com adolescentes usu\u00e1rios de drogas, onde algumas quest\u00f5es foram levantadas pelo grupo, a saber: a fragmenta\u00e7\u00e3o das pr\u00e1ticas de cuidado, a fragilidade da rede social do adolescente, a dificuldade em promover a ades\u00e3o ao tratamento, al\u00e9m da cren\u00e7a de que diferentes t\u00e9cnicas para manejar a quest\u00e3o do abuso de drogas interferem na pr\u00e1tica do cuidado. H\u00e1 a proposta de se discutir a partir de um relato cl\u00ednico a dificuldade do manejo, onde a quest\u00e3o centrou-se na recusa \u00e0 fala por parte do adolescente em contraponto \u00e0s demandas maternas, cuja queixa principal destacava o uso de drogas, atos de viol\u00eancia e o h\u00e1bito de mentir.<\/p>\n<p>A praticante, psic\u00f3loga do CAPS-AD, relata que Andr\u00e9, 15 anos, \u00e9 encaminhado \u00e0 institui\u00e7\u00e3o pelo Conselho Tutelar. A m\u00e3e descobre que o filho fazia uso regular de maconha e acredita que os problemas enfrentados pela escola, de indisciplina e viol\u00eancia, que culminaram no seu desligamento, relacionavam-se com isso.<\/p>\n<p>No primeiro atendimento, Andr\u00e9 se recusa a falar. Limita-se a dizer que n\u00e3o vai falar e que n\u00e3o quer estar ali. Inicialmente, a m\u00e3e \u00e9 escutada, no entanto, mesmo com a recusa do filho em vir ao tratamento, ela o traz ao servi\u00e7o. Certo dia, h\u00e1 uma briga entre eles na recep\u00e7\u00e3o, sob interven\u00e7\u00e3o da praticante, a briga \u00e9 apartada. Ele \u00e9 convidado a entrar na sala e contar sua vers\u00e3o. Aceita o convite. Passa \u00e0 fala: queixa-se de que a m\u00e3e sempre o culpa por tudo de errado em casa. Sente que \u00e9 tratado de forma diferente em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s suas irm\u00e3s mais velhas. Nega uso de drogas e relata que o afastamento escolar se deu por sua escolha e falta de interesse. A praticante lhe diz que o espa\u00e7o dos atendimentos no CAPS-AD pode ser o de falar como se sente.\u00a0 Ele aceita a oferta e passa a ser acompanhado individualmente.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s uma solicita\u00e7\u00e3o da m\u00e3e de um atendimento a s\u00f3s com a praticante, Andr\u00e9 volta ao sil\u00eancio: \u201c<em>Se ela quer falar, que fale no meu lugar<\/em>\u201d! Passa a ter com a praticante uma postura desafiadora e arrogante. Em um outro momento, diz: <em>\u201cest\u00e1 tudo bem, estou aprendendo a deixar passar\u201d<\/em>. Questionado sobre como seria isso, responde: <em>\u201cestou te dizendo o que eu acho que voc\u00ea quer ouvir\u201d<\/em>. Passa a mais um longo per\u00edodo de recusa \u00e0 fala. Os atendimentos prosseguem em completo sil\u00eancio. Na sequ\u00eancia, sua m\u00e3e vem sozinha ao servi\u00e7o. Nos conta que Andr\u00e9 queixa-se agora da praticante, lhe \u00e9 devolvido que isso precisa ser conversado na presen\u00e7a dele. M\u00e3e e filho se afastam do servi\u00e7o.<\/p>\n<p>Algumas quest\u00f5es circulam na conversa\u00e7\u00e3o: qual o papel do CAPS-AD neste caso? Como manejar o caso de um adolescente na institui\u00e7\u00e3o para tratamento de drogas, cuja demanda de tratamento vem da m\u00e3e? Era a droga a quest\u00e3o em jogo? O que a recusa \u00e0 fala quer dizer?<\/p>\n<p>Algu\u00e9m pontua que a presen\u00e7a da praticante da psican\u00e1lise na institui\u00e7\u00e3o de sa\u00fade mental possibilitou que a recusa \u00e0 fala por parte de Andr\u00e9 n\u00e3o fosse interpretada pela equipe como recusa ao tratamento. Laurent (1999, p.13) nos adverte que o analista n\u00e3o pode cair no \u201cburaco dos ideais\u201d. Sustentar a posi\u00e7\u00e3o de analista a partir de um \u201cdizer silencioso\u201d pode contribuir para denunciar que \u201ca promo\u00e7\u00e3o de novos ideais n\u00e3o \u00e9 a \u00fanica alternativa\u201d, o que \u00e9 demonstrado por este sujeito. Assim, a institui\u00e7\u00e3o p\u00f4de funcionar como um terceiro, que, em um primeiro momento, passa a exercer uma fun\u00e7\u00e3o de acolhimento e de media\u00e7\u00e3o das queixas maternas para, posteriormente, dar espa\u00e7o ao sofrimento experienciado pelo adolescente. Acolher o sil\u00eancio como demanda foi o que possibilitou a entrada deste adolescente no tratamento.<\/p>\n<p>Durante o tempo em que permaneceu em atendimento, foi recolhido pela equipe que Andr\u00e9 n\u00e3o sustenta os ideais sociais; n\u00e3o pode estar na escola regular, n\u00e3o tem boa rela\u00e7\u00e3o com sua fam\u00edlia nuclear, pratica pequenos atos de viol\u00eancia, furtos e roubos na regi\u00e3o onde reside, al\u00e9m de fazer uso regular de maconha. A praticante localiza em uma fala de Andr\u00e9 a possibilidade de implic\u00e1-lo no tratamento e nos conta que foi a afirma\u00e7\u00e3o da negativa \u2013 \u201c<em>Eu n\u00e3o sou um drogado<\/em>\u201d! \u2013 o que permitiu que Andr\u00e9 formulasse um pedido de ajuda, ao se identificar com o significante \u201cdrogado\u201d, ao mesmo tempo em que o recusa.<\/p>\n<p>Para a equipe, o manejo a partir do desejo de escuta permitiu encontrar um ponto poss\u00edvel de trabalho neste caso. No entanto, localizar o imposs\u00edvel para cada caso, mantendo pulsante a interroga\u00e7\u00e3o de como se orientar diante destes fen\u00f4menos de \u201cgozo mau\u201d, \u00e9 o que, de acordo com Laurent (2017), \u201cpermite favorecer o despertar \u00e0 responsabilidade do gozo que retorna a cada um, das proibi\u00e7\u00f5es universais que outros saberes enunciam\u201d.<\/p>\n<p>Na conversa\u00e7\u00e3o, ao circular a palavra entre os outros saberes e profissionais externos \u00e0 institui\u00e7\u00e3o, inventa-se um novo espa\u00e7o, vazio de saber, permitindo que as quest\u00f5es iniciais ecoem fora dos termos \u201ctecnocr\u00e1ticos\u201d produzidos nas institui\u00e7\u00f5es. Ao final da conversa\u00e7\u00e3o, ficamos com a reflex\u00e3o de que n\u00e3o existe um lugar \u201cideal\u201d para tratar o adolescente usu\u00e1rio de drogas, seu lugar de cuidado deve ser constru\u00eddo e orientado para e pelo sujeito.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<hr \/>\n<h6>Refer\u00eancias bibliogr\u00e1ficas<\/h6>\n<h6>MILLER, Jacques-Alain. &#8220;Em dire\u00e7\u00e3o a adolesc\u00eancia&#8221;. In: <em>Op\u00e7\u00e3o Lacaniana<\/em> (impressa) n. 72. P. 20-30. S\u00e3o Paulo: Eolia. 2016.<\/h6>\n<h6>LAURENT, \u00c9ric. &#8220;O analista cidad\u00e3o&#8221;. In <em>Revista Curinga<\/em> n. 13, set ,1999.<\/h6>\n<h6>________. &#8220;H\u00edfen&#8221;. <em>As vias do CIEN<\/em>. Em: CIEN-Digital. n. 21, setembro de 2017. dispon\u00edvel em: <u><a href=\"http:\/\/www.uaihost.com\/ciendigital\/n21\/hifen.html\">http:\/\/www.uaihost.com\/ciendigital\/n21\/hifen.html<\/a><\/u>.<\/h6>\n<hr \/>\n<h6>*Participantes: Vilma Dias, Jorge Carvalho, Alessandra Caldas, Bruna Montechristo, Camila Macedo, Wagner Erlange e Roberta D\u2019Assun\u00e7\u00e3o)<\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Giselle Fleury Laborat\u00f3rio Pipa Avoada* &nbsp; O laborat\u00f3rio Pipa Avoada se dedica \u00e0 investiga\u00e7\u00e3o da crian\u00e7a e do adolescente que, no la\u00e7o social, experienciam a rela\u00e7\u00e3o com a droga, a viol\u00eancia e a vulnerabilidade social. Qual lugar para a droga na adolesc\u00eancia? Que lugar para o tratamento de adolescentes usu\u00e1rios de drogas? 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