{"id":5658068,"date":"2018-11-16T20:36:50","date_gmt":"2018-11-16T22:36:50","guid":{"rendered":"http:\/\/ciendigital.com.br\/?p=5658068"},"modified":"2018-11-28T17:58:26","modified_gmt":"2018-11-28T19:58:26","slug":"juntos-nao-misturados","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ciendigital.com.br\/index.php\/2018\/11\/16\/juntos-nao-misturados\/","title":{"rendered":"Juntos, n\u00e3o misturados"},"content":{"rendered":"<div class=\"pdfprnt-buttons pdfprnt-buttons-post pdfprnt-top-right\"><a href=\"https:\/\/ciendigital.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5658068?print=pdf\" class=\"pdfprnt-button pdfprnt-button-pdf\" target=\"_blank\" ><\/a><a href=\"https:\/\/ciendigital.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5658068?print=print\" class=\"pdfprnt-button pdfprnt-button-print\" target=\"_blank\" ><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/plugins\/pdf-print\/images\/print.png\" alt=\"image_print\" title=\"Conte\u00fado de impress\u00e3o\" \/><\/a><\/div><figure id=\"attachment_5658802\" aria-describedby=\"caption-attachment-5658802\" style=\"width: 300px\" class=\"wp-caption alignright\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-5658802\" src=\"http:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/005-300x241.png\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"241\" srcset=\"https:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/005-300x241.png 300w, https:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/005-274x220.png 274w, https:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/005-600x483.png 600w, https:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/005.png 706w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-5658802\" class=\"wp-caption-text\">Ana Prata<\/figcaption><\/figure>\n<h6>Soraya Alves Pereira<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\"><sup>[1]<\/sup><\/a><\/h6>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h6>O Laborat\u00f3rio<em> Juntos, n\u00e3o misturados <\/em>surgiu de uma intera\u00e7\u00e3o entre psican\u00e1lise e direito, e da oferta \u00e0 conversa\u00e7\u00e3o a crian\u00e7as e adolescentes acolhidos institucionalmente em S\u00e3o Jo\u00e3o Del Rei \u2013 Minas Gerais.<\/h6>\n<blockquote><p><em>Pus-me a cantar minha pena<\/em><\/p>\n<p><em>Com uma palavra t\u00e3o doce,<\/em><\/p>\n<p><em>De maneira t\u00e3o serena,<\/em><\/p>\n<p><em>Que at\u00e9 Deus pensou que fosse<\/em><\/p>\n<p><em>felicidade \u2013 e n\u00e3o pena.\u201d<\/em><\/p>\n<h6>Cec\u00edlia Meireles<\/h6>\n<\/blockquote>\n<p>Viver junto e n\u00e3o se perder no Outro, dividir um espa\u00e7o comum, com regras e tratamentos comuns e n\u00e3o ser afastado de si mesmo, de sua mais \u00edntima diferen\u00e7a. Como \u201cser junto\u201d sem se misturar uns nos outros, mantendo suas vontades, seus gostos, modos de ser, de sofrer, de estar no mundo?<\/p>\n<p>Desafios di\u00e1rios da vida num abrigo que acolhe crian\u00e7as e adolescentes que n\u00e3o encontraram na fam\u00edlia, por motivos de pen\u00faria financeira ou emocional, condi\u00e7\u00f5es m\u00ednimas de cuidado e prote\u00e7\u00e3o. A conviv\u00eancia t\u00e3o pr\u00f3xima e os abandonos passados, t\u00e3o intensos e devastadores, fazem com que se ligar a um Outro dentro da institui\u00e7\u00e3o seja, muitas vezes, a sa\u00edda para uma vida poss\u00edvel.<\/p>\n<p>As jovens adolescentes que tomam parte no laborat\u00f3rio <em>Juntos, n\u00e3o misturados <\/em>enfrentam a dif\u00edcil tarefa de se descolarem das ins\u00edgnias a elas atribu\u00eddas: abandonadas, presas do abrigo, pobrezinhas, fadadas a repetirem a hist\u00f3ria dos pais. Desejam ser mais que isso e n\u00e3o sabem que caminhos seguir.<\/p>\n<p>Nas conversa\u00e7\u00f5es falam da conviv\u00eancia no abrigo, e da falta de perspectiva de uma vida em fam\u00edlia. Vivendo juntas, aprendem que \u00e9 em meio \u00e0 ru\u00edna do ideal familiar e do mito de um amor que tudo acolhe e suporta que precisam construir la\u00e7os poss\u00edveis de afeto, dentro e fora do abrigo.<\/p>\n<p>A cada encontro do laborat\u00f3rio, contam suas fantasias, escancaram seus ideais e encaram sua realidade. Compartilham a ang\u00fastia de perceber, nas visitas das m\u00e3es, o mesmo desnorteamento, as mesmas dificuldades que levaram ao abrigamento, e de como preferem a interrup\u00e7\u00e3o de tais visitas, por se sentirem assim muito mais leves.<\/p>\n<p>Cientes da impossibilidade de retorno \u00e0 conviv\u00eancia familiar, v\u00eam construindo, junto ao promotor da Inf\u00e2ncia e Juventude e a operadores do direito a possibilidade de viverem, ao completar de seus dezoito anos, numa moradia comum, subsidiada pelo Estado &#8211; frequentemente omisso e distante dos direitos t\u00e3o caros a toda crian\u00e7a ou adolescente carente de recursos financeiros e afetivos.<\/p>\n<p>Interessante notar como essas jovens v\u00eam compreendendo, nesse tempo de abrigo, o funcionamento da justi\u00e7a; \u00e9 bonito ver como aprenderam a se valer dos recursos jur\u00eddicos. A cada encontro do laborat\u00f3rio tomam a palavra, demandam saber a quantas andam seus processos, reclamam pela demora de solu\u00e7\u00e3o e sempre demonstram satisfa\u00e7\u00e3o e alegria ao serem ouvidas &#8211; falando ao mesmo tempo, se repetindo, mas percebendo os pequenos e grandes detalhes que diferenciam cada situa\u00e7\u00e3o individual, aprendendo, aos poucos, a dizer seu desejo.<\/p>\n<p>Notamos que o mesmo acontece quando est\u00e3o na presen\u00e7a do juiz, do promotor, das assistentes sociais e psic\u00f3logas, lan\u00e7am suas quest\u00f5es, recebem valiosos esclarecimentos e, ainda que estes sejam dif\u00edceis de ouvir, demonstram al\u00edvio e satisfa\u00e7\u00e3o por serem escutadas.<\/p>\n<p>Em nossos encontros, \u00e9 not\u00e1vel como a abertura de um espa\u00e7o para falar, sem um saber pr\u00e9vio que oriente a conversa\u00e7\u00e3o e a possibilidade de escolher o que dizer, atrai e estimula a participa\u00e7\u00e3o de todas. Quando as coisas se atropelam e uma repete a fala da outra, riem e brincam: \u201cficou tudo t\u00e3o misturado que n\u00e3o d\u00e1 pra saber quem falou primeiro\u201d; quando o que lhes vem por dentro, cada uma \u00e0 sua vez e, por conta pr\u00f3pria, encontra voz.<\/p>\n<p>Nesses momentos, percebem que mesmo tendo tanto em comum, s\u00e3o diferentes e que por isso podem ter id\u00e9ias e opini\u00f5es diversas uma das outras, conseguindo falar sobre as situa\u00e7\u00f5es vividas, cada uma sob sua perspectiva. Um bom exemplo \u00e9 quando nos questionam sobre namoro e sexualidade na adolesc\u00eancia e, \u00e0 abertura da quest\u00e3o para todas, come\u00e7am falando ao mesmo tempo, ou repetindo o que outra acabou de falar, discutindo, brigando, concordando, e aos poucos v\u00e3o colocando suas id\u00e9ias, suas fantasias, seus receios.<\/p>\n<p>A vida no abrigo, \u00e0s vezes duradoura demais, favorece uma forte identifica\u00e7\u00e3o entre elas, com seus efeitos uniformes e constantes, favorecendo, como nos lembra Freud em <em>Psicologia das massas e an\u00e1lise do eu, <\/em>\u201ca falta de autonomia e de iniciativa de cada indiv\u00edduo.\u201d (1921- 2011, p\u00e1g 77)<\/p>\n<p>E a import\u00e2ncia de uma maior independ\u00eancia tem sido colocada no centro da conversa, tanto com as adolescentes quanto com a coordena\u00e7\u00e3o do abrigo. A autonomia, sabemos, esbarra nas muitas e variadas medidas de prote\u00e7\u00e3o que orientam o acolhimento e o cuidado e que oferecem condi\u00e7\u00f5es dignas de vida, at\u00e9 ent\u00e3o quase sempre desconhecidas. A subtra\u00e7\u00e3o da singularidade \u00e9 um dos pre\u00e7os a pagar. A vida comum, regida por normas coletivas, que preveem tratamento igualit\u00e1rio, baseia-se na premissa de que o que serve para um deve servir para todos, uniformizando os procedimentos e deixando que se perca a riqueza das mais diversas manifesta\u00e7\u00f5es individuais.<\/p>\n<p>N\u00e3o desconhecendo as dificuldades nem a responsabilidade de um acolhimento institucional de crian\u00e7as e adolescentes, sob cuidado e prote\u00e7\u00e3o integral, acreditamos ser poss\u00edvel individualizar o tratamento ofertado articulando a necessidade, a demanda e o desejo de cada um. Os caminhos que os levaram at\u00e9 o abrigo n\u00e3o s\u00e3o os mesmos, mas compartilham necessidades concretas, como as de acomoda\u00e7\u00e3o, alimenta\u00e7\u00e3o, educa\u00e7\u00e3o formal e sa\u00fade, e que podem ser atendidas de forma global (o que \u00e9 por eles reconhecido e valorizado de forma evidente). Por outro lado, h\u00e1 demandas muito particulares, que dizem respeito ao modo de ser de cada um, que tocam seu desejo e que \u00e9 muito importante n\u00e3o perder de vista, pois \u00e9 o que faz com que sejam \u00fanicos.<\/p>\n<p>Na vida no abrigo, estarem juntas e n\u00e3o misturadas aparece todo o tempo, ora como identifica\u00e7\u00e3o imagin\u00e1ria aos sintomas, ora com atua\u00e7\u00f5es de toda ordem. Ou, ainda, ao lado do simb\u00f3lico, quando, por exemplo, criaram um programa de emagrecimento e solicitaram permiss\u00e3o \u00e0 coordena\u00e7\u00e3o para participar de aulas de Zumba, que acontecem numa pra\u00e7a pr\u00f3xima, lan\u00e7ando os corpos numa dan\u00e7a cheia de ritmo e alegria.<\/p>\n<p>Os encontros no laborat\u00f3rio do Cien testemunham esse movimento dos corpos, que se agitam em sofrimento, mas tamb\u00e9m dan\u00e7am em sintonia com as m\u00fasicas que cantam, quando o espa\u00e7o forense, onde acontecem os encontros, se enche de gingado e alegre entusiasmo.<\/p>\n<p>A aposta do laborat\u00f3rio \u00e9 que, em torno da conversa\u00e7\u00e3o, \u00e0s voltas com as incertezas da vida, possam emergir pequenos e inusitados saberes, \u00edntimos, particulares, que respondam &#8211; ao menos um pouco &#8211; ao grande enigma da exist\u00eancia: que desejo habita em mim e como fazer caber esse desejo no mundo. Esse encontro com o pr\u00f3prio desejo, para al\u00e9m do desejo do Outro institucional ou social \u00e9 que tem surgido nas conversa\u00e7\u00f5es, quando suas fantasias sobre o futuro e sobre a vida fora do abrigo encontram lugar.<\/p>\n<p>Algumas jovens demandam participar de cursos profissionalizantes, almejando uma autonomia financeira na vida futura, outras querem estudar e chegar \u00e0 universidade, todas pensando numa vida que abrigue seus sonhos. Falam em morar juntas depois de sair do abrigo, trabalhando e cuidando da casa enquanto continuam os estudos: \u201cfam\u00edlia n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 o que a gente teve um dia, fam\u00edlia somos todas n\u00f3s que moramos juntas, a gente pode continuar assim at\u00e9 fora daqui\u201d<\/p>\n<p>Assim, muitas vezes soltas e destemidas ante uma realidade massificante e massacrante, as jovens de nosso laborat\u00f3rio seguem escrevendo sua hist\u00f3ria. Ora se enla\u00e7am num \u201ctodos juntos\u201d que sufoca, quando n\u00e3o conseguem ter voz pr\u00f3pria e alienam seu desejo, umas no desejo das outras, quando passam a querer e ter o mesmo.\u00a0 Ora soltam um pouco os la\u00e7os, deixando advir o que lhes \u00e9 mais particular, num \u201ctodos juntos\u201d que integra e partilha. Descobrem os pequenos prazeres comuns (como a dan\u00e7a), vivem a vida &#8211; essa que insiste em seguir em frente, deixando, quem sabe, antever de soslaio dias mais felizes.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<hr \/>\n<h6>Refer\u00eancias<\/h6>\n<h6>MEIRELES, Cec\u00edlia. <em>Antologia Po\u00e9tica.<\/em> Rio de janeiro: Editora Nova Fronteira, 2001.<\/h6>\n<h6>FREUD, Sigmund. <em>Psicologia das massas e an\u00e1lise do eu e outros textos (1920-1923).<\/em>S\u00e3o Paulo: Companhia das Letras, 2011.<\/h6>\n<hr \/>\n<h6><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\"><sup>[1]<\/sup><\/a> Coordenadora do Laborat\u00f3rio <em>Juntos, n\u00e3o misturados <\/em>Cien &#8211; Minas Gerais. Psicanalista. Psic\u00f3loga da vara da Inf\u00e2ncia e Juventude da comarca de S\u00e3o Jo\u00e3o Del-Rei \u2013 MG. Mestre em Conceitos fundamentais e Cl\u00ednica Psicanal\u00edtica: Articula\u00e7\u00f5es, pela UFSJ &#8211; Universidade Federal de S\u00e3o Jo\u00e3o Del-Rei. e-mail: sorayaalvespereira@uol.com.br<\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Soraya Alves Pereira[1] &nbsp; O Laborat\u00f3rio Juntos, n\u00e3o misturados surgiu de uma intera\u00e7\u00e3o entre psican\u00e1lise e direito, e da oferta \u00e0 conversa\u00e7\u00e3o a crian\u00e7as e adolescentes acolhidos institucionalmente em S\u00e3o Jo\u00e3o Del Rei \u2013 Minas Gerais. Pus-me a cantar minha pena Com uma palavra t\u00e3o doce, De maneira t\u00e3o serena, Que at\u00e9 Deus pensou que&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":5658802,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[118,22],"tags":[81],"post_series":[],"class_list":["post-5658068","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-cien_digital_22","category-laboratorios","tag-cien_digital_22","entry","has-media"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/ciendigital.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5658068","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/ciendigital.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/ciendigital.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ciendigital.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ciendigital.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=5658068"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/ciendigital.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5658068\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ciendigital.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/5658802"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/ciendigital.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=5658068"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/ciendigital.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=5658068"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/ciendigital.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=5658068"},{"taxonomy":"post_series","embeddable":true,"href":"https:\/\/ciendigital.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/post_series?post=5658068"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}