{"id":5658925,"date":"2018-11-28T18:10:31","date_gmt":"2018-11-28T20:10:31","guid":{"rendered":"http:\/\/ciendigital.com.br\/?p=5658925"},"modified":"2018-11-28T18:12:38","modified_gmt":"2018-11-28T20:12:38","slug":"a-historia-do-cien-brasil","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ciendigital.com.br\/index.php\/2018\/11\/28\/a-historia-do-cien-brasil\/","title":{"rendered":"A Hist\u00f3ria do Cien Brasil"},"content":{"rendered":"<div class=\"pdfprnt-buttons pdfprnt-buttons-post pdfprnt-top-right\"><a href=\"https:\/\/ciendigital.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5658925?print=pdf\" class=\"pdfprnt-button pdfprnt-button-pdf\" target=\"_blank\" ><\/a><a href=\"https:\/\/ciendigital.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5658925?print=print\" class=\"pdfprnt-button pdfprnt-button-print\" target=\"_blank\" ><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/plugins\/pdf-print\/images\/print.png\" alt=\"image_print\" title=\"Conte\u00fado de impress\u00e3o\" \/><\/a><\/div><h2><strong><em><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignright size-full wp-image-5658927\" src=\"http:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/historia.jpg\" alt=\"\" width=\"648\" height=\"411\" srcset=\"https:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/historia.jpg 648w, https:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/historia-300x190.jpg 300w, https:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/historia-274x174.jpg 274w\" sizes=\"auto, (max-width: 648px) 100vw, 648px\" \/>Contexto<\/em><\/strong><strong><em>:<\/em><\/strong><\/h2>\n<p><strong><em>A escuta forma parte da palavra<a title=\"\" href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">\u00a0<\/a><\/em><\/strong>\u00e9 um \u2013 dentre v\u00e1rios- produtos do trabalho de Conversa\u00e7\u00e3o com professores da Escola Maria das Neves,<a title=\"\" href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\">\u00a0<\/a>realizadas pelo Laborat\u00f3rio a-PALAVRAR<a title=\"\" href=\"#_ftn3\" name=\"_ftnref3\">\u00a0<\/a>.<br \/>\nUma chamada \u00e0 escola para que ela se \u201cencarregasse\u201d de \u201censinar o sexual\u201d promoveu tal mal estar que seus diretores e coordenadores, por sua vez, demandaram a interven\u00e7\u00e3o do Laborat\u00f3rio. Por dois anos -2006\/2007 &#8211; entrando em 2008, o trabalho se realizou com regularidade quinzenal, na pr\u00f3pria escola. Os participantes do Laborat\u00f3rio igualmente se reuniam entre eles, nas quinzenas alternadas \u00e0 Conversa\u00e7\u00e3o, para o debate dos efeitos e das consequ\u00eancias poss\u00edveis da experi\u00eancia.<\/p>\n<p>Contextualiza\u00e7\u00e3o do mal estar surgido na Escola Maria das Neves pela demanda recebida:<\/p>\n<p>A decis\u00e3o do Minist\u00e9rio da Educa\u00e7\u00e3o de transformar em mat\u00e9ria curricular os chamados \u201cConte\u00fados Program\u00e1ticos Nacionais\u201d quanto ao tema da Sexualidade, foi justificada pelo \u201ccrescimento dos casos de gravidez entre adolescentes e o risco de contamina\u00e7\u00e3o pela AIDS\u201d, \u201ccabendo aos educadores desenvolverem uma a\u00e7\u00e3o cr\u00edtica e reflexiva sobre o assunto.\u201d Os impasses que se apresentaram \u00e0 escola foram analisados por n\u00f3s de duas maneiras:<\/p>\n<p>1:- Situa\u00e7\u00e3o ideal. Assim era designada \u2013 e desejada &#8211; pelos professores, a situa\u00e7\u00e3o na qual transmiss\u00e3o dos conhecimentos dos conte\u00fados program\u00e1ticos seria poss\u00edvel: uma classe cujos alunos seriam mais \u201ccontrol\u00e1veis\u201d em suas manifesta\u00e7\u00f5es, f\u00edsicas e\/ou verbais. No caso, os conte\u00fados do aparelho reprodutor eram repassados como cumprimento do que \u00e9 exigido como objetivo oficial: preven\u00e7\u00e3o de gravidez na adolesc\u00eancia, de doen\u00e7as sexualmente transmiss\u00edveis\/AIDS. Qual o\u00a0<strong><em>impasse<\/em><\/strong>? Os mesmos alunos \u201cd\u00f3ceis\u201d, mantinham-se na total indiferen\u00e7a pelo conte\u00fado, num absoluto \u201c<em>num tou nem a\u00ed<\/em>\u201d demonstrando de tal forma que a transmiss\u00e3o concernia mais ao politicamente correto do ao que \u201ctudo voc\u00ea gostaria de saber e nunca teve coragem de perguntar?\u201d A situa\u00e7\u00e3o ideal era solid\u00e1ria \u00e0 higieniza\u00e7\u00e3o da no\u00e7\u00e3o de sexo, de tal forma que se transmita epistemicamente sem sequer haja \u201crisinhos\u201d na classe.<br \/>\n2: \u201cSitua\u00e7\u00e3o de risco\u201d: Assim era designada \u2013 e evitada \u2013 a transmiss\u00e3o pelos professores do \u201censino do sexual\u201d (como diziam), encontrava como obst\u00e1culo impeditivo \u00e0 sua realiza\u00e7\u00e3o a presen\u00e7a do n\u00e3o-programado. O ineduc\u00e1vel que se abre em um leque bastante amplo de situa\u00e7\u00f5es de presen\u00e7a de gozo, obscenidade, insulto, fazia tremer o professorado. Qual\u00a0<strong>impasse?\u00a0<\/strong>N\u00e3o se chega ao \u201caparelho reprodutor\u201d, na disciplina de Ci\u00eancias, n\u00e3o concluindo a transmiss\u00e3o dos conte\u00fados esperados para o curr\u00edculo desta. A inibi\u00e7\u00e3o ser\u00e1 o sintoma dos professores.<\/p>\n<h2><strong><em>O texto<\/em><\/strong><strong><em>:<\/em><\/strong><\/h2>\n<h3><strong>A escuta forma parte da palavra<\/strong><a title=\"\" href=\"#_ftn4\" name=\"_ftnref4\"><\/a><\/h3>\n<h6>Maria Rita Guimar\u00e3es.<br \/>\nRespons\u00e1vel pelo laborat\u00f3rio a-PALAVRAR<\/h6>\n<p>O caminho verdadeiro segue por sobre uma corda, que n\u00e3o est\u00e1 esticada no alto, mas se estende quase rente ao ch\u00e3o. Parece mais determinado a fazer trope\u00e7ar, do que a ser transit\u00e1vel. Kafka<\/p>\n<p>O argumento convocat\u00f3rio ao trabalho trouxe-me as seguintes palavras de Lacan.<\/p>\n<p>\u201cBoca ing\u00eanua cujo elogio h\u00e1 de ocupar meus derradeiros dias, abre-te mais uma vez para me ouvir. N\u00e3o \u00e9 preciso fechar os olhos. O sujeito vai muito al\u00e9m do que o indiv\u00edduo experimenta \u2018subjetivamente\u2019: vai exatamente t\u00e3o longe quanto a verdade que ele pode atingir e que talvez saia dessa boca que voc\u00ea j\u00e1 acaba de fechar outra vez\u201d (LACAN,1953, p.266).<\/p>\n<p>Nelas est\u00e1 anunciado que mais al\u00e9m do indiv\u00edduo est\u00e1 uma verdade, em vias de se fazer conhecida &#8211; amputada, conforme sua natureza -, mas sa\u00edda pela \u00fanica boca que poderia proferi-la: o sujeito. Nessa presen\u00e7a fugidia do sujeito reside toda a diferen\u00e7a entre a oferta e demanda da palavra generalizada e aquela que visa a que um sujeito compare\u00e7a a meio dizer sua verdade. Ing\u00eanua boca que torna o inconsciente \u201caud\u00edvel\u201d, a nos ocupar at\u00e9 nossos derradeiros dias. Inconsciente e palavra: um \u00e9 o objeto descoberto pela psican\u00e1lise e outro \u00e9 seu instrumento operacional.<\/p>\n<p>Nosso objetivo \u00e9 compartilhar, de forma breve, o esfor\u00e7o a que se dedica o laborat\u00f3rio a-PALAVRAR em sua pr\u00e1tica para estar \u00e0 altura de seu nome. Faremos sua apresenta\u00e7\u00e3o resumida para seguir na tentativa de demonstrar o modo de trabalho via uma pequena vinheta pr\u00e1tica.<\/p>\n<p>Apresenta\u00e7\u00e3o dos prop\u00f3sitos do Laborat\u00f3rio a-PALAVRAR.<\/p>\n<p>O a-PALAVRAR se orienta pela pol\u00edtica do imposs\u00edvel em seu trabalho junto a uma institui\u00e7\u00e3o educacional. Falar desta maneira nos permite situar sua perspectiva de trabalho: pela presen\u00e7a do sujeito, do desejo e do real. Real que \u00e9, justamente, esse imposs\u00edvel. Implica dizer que mantemos o oco \u2013 ou se preferirem- o buraco, como estrutura que se revela operadora da subjetividade. Sobretudo porque nos cabe, delicadamente, estabelecer condi\u00e7\u00f5es para que os parceiros de outras disciplinas que participam do laborat\u00f3rio n\u00e3o desconhe\u00e7am o fato de que o imposs\u00edvel n\u00e3o deve ser reduzido \u00e0 condi\u00e7\u00e3o de impot\u00eancia. Sobretudo somos advertidos de que os tempos atuais est\u00e3o regidos por uma estrutura burocratizada, que \u00e9 uma ordem de ferro &#8211; para lembrar a express\u00e3o de Lacan -, que substitui a antiga ordem que se deduzia do amor ao Nome do Pai, e, por conseguinte, nela, o lugar do desejo \u00e9 cedido ao gozo.<\/p>\n<p>A tarefa da Escola como um trabalho da civiliza\u00e7\u00e3o<\/p>\n<p>Como pode o gozo entrar no v\u00ednculo social? Por via do sintoma. Por meio do sintoma sabemos por onde se deixa manifestar a dimens\u00e3o do gozo que \u201cescapou\u201d, aquilo que n\u00e3o se apreende no govern\u00e1vel, no analis\u00e1vel e no educ\u00e1vel: \u00e9 o aspecto ingovern\u00e1vel, inanalis\u00e1vel e ineduc\u00e1vel por sua pr\u00f3pria estrutura e que o sintoma, digamos assim, herda.<\/p>\n<p>O que escapa ao standard das normas cria impasses.<\/p>\n<p>Temos, na atualidade, uma realidade sexual humana praticamente oposta ao tempo das descobertas freudianas.<\/p>\n<p>Tal desregula\u00e7\u00e3o libidinal da sociedade em que vivemos re-convoca a Educa\u00e7\u00e3o a produzir novas formas de regula\u00e7\u00f5es para o sujeito, no campo sexual, possivelmente baseando-se em seu papel hist\u00f3rico. Se outrora havia uma \u201cmedida\u201d, uma propor\u00e7\u00e3o que estava sustentada por um Outro &#8211; que a Escola encarnava &#8211; em nome desse lugar a ordem governamental lhe encarrega de \u201censinar o sexual\u201d aos jovens e crian\u00e7as, como mat\u00e9ria curricular. Falamos da decis\u00e3o do Minist\u00e9rio da Educa\u00e7\u00e3o e os chamados \u201cConte\u00fados Program\u00e1ticos Nacionais\u201d. Trata-se, portanto, da educa\u00e7\u00e3o p\u00fablica, o que sup\u00f5e o Estado docente, respons\u00e1vel pela educa\u00e7\u00e3o laica gratuita.<\/p>\n<p>Essa chamada \u00e0 Educa\u00e7\u00e3o para o ensino dos conte\u00fados sexuais \u00e9 justamente o ponto que produziu o trabalho do Laborat\u00f3rio a -PALAVRAR. Apenas menciono o fato de que o objetivo da \u201corienta\u00e7\u00e3o sexual\u201d dos Conte\u00fados Program\u00e1ticos Nacionais \u00e9 invalidado pelos professores porque os alunos sabem mais que a gente sobre sexo,- elas dizem-, porque muitos j\u00e1 t\u00eam experi\u00eancia em jogos sexuais e alguns j\u00e1 t\u00eam vida sexual ativa. Este saber que o professorado imputa ao alunado foi deduzido, tamb\u00e9m, pelos problemas gerados na escola por comportamentos de natureza sexual, inadequados \u00e0 institui\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>Vinheta pr\u00e1tica<\/strong><a title=\"\" href=\"#_ftn5\" name=\"_ftnref5\"><\/a><\/p>\n<p>Em uma das conversa\u00e7\u00f5es do a-PALAVRAR com os professores surgiu o seguinte relato:<\/p>\n<p>Um aluno de nove anos, rec\u00e9m-chegado \u00e0 escola, j\u00e1 est\u00e1 consagrado como \u201ctipo assustador\u201d. Por qu\u00ea? De forma recorrente, \u00e0 fala da professora esse menino interv\u00e9m e sua fala \u00e9 sempre relativa ao sentido sexual do termo empregado por ela. O exemplo apresentado nessa conversa\u00e7\u00e3o diz respeito \u00e0 interrup\u00e7\u00e3o sofrida em aula de l\u00edngua portuguesa quando era usada uma poesia como material de ensino. Um verso continha a palavra \u201cpintor\u201d e, nesse momento, o aluno acrescenta a palavra \u201cpinto\u201d. A professora se diz \u201cassustada\u201d, n\u00e3o sabe o que fazer e faz o de sempre, ainda que in\u00f3cuo para o aluno: manda-o para fora de sala.<\/p>\n<p>A palavra circulou entre muitos participantes sem que uma fala in\u00e9dita indicasse um corte na ideia un\u00e2nime do \u201cimposs\u00edvel\u201d que esse aluno era, at\u00e9 o momento em que outra professora &#8211; embora estivesse solid\u00e1ria \u00e0 colega em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 condi\u00e7\u00e3o de \u201cassustada\u201d &#8211; introduz o fato novo de que o comportamento do aluno, em sua presen\u00e7a \u2014 trabalham em equipe de tr\u00eas \u2014 n\u00e3o apresentava o comportamento de apenas falar com a intrus\u00e3o do sentido sexual das palavras. Esse dizer novo sobre o aluno \u201cassustador\u201d funcionou como ponto de estofo no fluxo das interpreta\u00e7\u00f5es morais da conduta do aluno. No entanto, os efeitos surgidos desta conversa\u00e7\u00e3o apenas puderam verdadeiramente se apresentar na ocasi\u00e3o de posterior encontro. Neste, o relato da reincid\u00eancia da conduta do aluno com a mesma professora foi colorido pelo frescor de sua posi\u00e7\u00e3o: inv\u00e9s de se sentir afetada pelo assustador, aproveitou a ocasi\u00e3o e passou ao conte\u00fado dos v\u00e1rios sentidos das palavras.<br \/>\nEste singelo exemplo pretende ser suficientemente capaz de nos indicar os momentos em que os professores se \u201cassustam\u201d no exerc\u00edcio da transmiss\u00e3o de conhecimento e saber. A partir desses momentos chegam \u00e0 impot\u00eancia que ir\u00e1 obstruir a passagem a nova forma de resposta.<\/p>\n<p>\u201cQue fazer?\u201d a pergunta \u00e9 leg\u00edtima, sobretudo em algumas situa\u00e7\u00f5es extremas, obscenas, pois se constata uma crise generalizada em termos de valores da autoridade, crise instaurada em qualquer \u00e2mbito da organiza\u00e7\u00e3o social. A Escola e os educadores est\u00e3o nela submetidos.<\/p>\n<p>Se a autoridade est\u00e1 em decl\u00ednio, como exercer o papel e a fun\u00e7\u00e3o pelos quais se est\u00e1 responsabilizado? Em situa\u00e7\u00e3o de viol\u00eancia em sala de aulas, dirigida aos colegas ou mesmo aos professores, diante de atitudes e condutas inadequadas desde o ponto de vista das regras sociais, que fazer? E quando o aluno n\u00e3o se interessa pelos estudos e \u201cn\u00e3o-h\u00e1-o-que-fazer\u201d &#8211; para interess\u00e1-los? N\u00e3o h\u00e1 respostas, sen\u00e3o a resposta, diante da situa\u00e7\u00e3o, de come\u00e7ar a construir respostas. A Escola poder\u00e1 saber-fazer algo com o sintoma, com a particularidade do sujeito, caso dele se aproxime com os aparatos da cultura. Caso o interpele de maneira direta, s\u00f3 conseguir\u00e1 sua fixa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>O que fazer? A constru\u00e7\u00e3o de resposta pela Conversa\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>No texto \u201cQual autoridades para quais puni\u00e7\u00f5es?\u201d Eric Laurent, ap\u00f3s esclarecer os dois sentidos opostos do termo autoridade, isto \u00e9, de um lado a autoridade repressora e do outro a permissiva afirma: \u201ch\u00e1 libido que circula quando os nomes chegam a inverter seus sentidos. (&#8230;) Estamos odioenamorados da autoridade\u201d. (LAURENT, 2004, p.140).<\/p>\n<p>Essa puls\u00e3o, na vertente do \u00f3dio, \u00e9 algo presente nas rela\u00e7\u00f5es professor-aluno, na dimens\u00e3o do suspense: a qualquer momento ocorrer\u00e1 o que se espera, ou que se sabe que ir\u00e1 acontecer. A presen\u00e7a do n\u00e3o-programado, do ineduc\u00e1vel, isto \u00e9, &#8211; a conting\u00eancia &#8211; transforma-se em situa\u00e7\u00e3o de risco porque efetivamente abre-se um leque de situa\u00e7\u00f5es de obscenidade, insulto e inj\u00faria. Cria-se igualmente um impasse na difus\u00e3o do saber: no caso, o que preconiza o Programa do Minist\u00e9rio da Educa\u00e7\u00e3o sobre orienta\u00e7\u00e3o sexual.<\/p>\n<p>O a-PALAVRAR n\u00e3o poderia se empenhar pela palavra junto aos professores sem situar a quest\u00e3o da autoridade no \u00e2mbito das rela\u00e7\u00f5es educativas e sem indagar o que passa em termos de discurso social. A t\u00edtulo de exemplo, tomemos o que sucede quando o Estado como poder coloca em funcionamento leis que tentam comprometer os pais e faz\u00ea-los respons\u00e1veis pela manuten\u00e7\u00e3o de seus filhos na escola, apoiado, sobretudo, pela distribui\u00e7\u00e3o de um\u00a0<em>plus<\/em>financeiro para a renda familiar. Tal fato, provavelmente, terminar\u00e1 promovendo um desvio do enfoque, atingindo mortalmente, inclusive, a pr\u00f3pria ideia que a crian\u00e7a ter\u00e1 do que seja a fun\u00e7\u00e3o da educa\u00e7\u00e3o: muitas vezes, vai-se \u00e0 escola para aumentar a renda familiar e n\u00e3o para se integrar no que h\u00e1 de comum na cultura.<\/p>\n<p>Aparentemente, n\u00e3o h\u00e1 mesmo muito para ser compartilhado &#8211; n\u00e3o h\u00e1 muito \u201cem comum\u201d da cultura &#8211; quando o discurso prevalente da sociedade atual \u00e9 o discurso consumista. Ent\u00e3o, de modo bastante consistente com esse discurso, as crian\u00e7as e adolescentes pobres, &#8211; alvos da referida lei &#8211; longe de acreditarem que h\u00e1 esperan\u00e7a em um futuro melhor, \u201cinstru\u00eddos\u201d pelo discurso capitalista, tornam-se &#8211; mais facilmente? &#8211; consumidores: de drogas, o exemplo cl\u00e1ssico e, consequentemente, de jogos reais de vida e morte.<\/p>\n<p>Podemos dizer que aprendem rapidamente a arte de viver no mundo dos valores atuais, justificando, embora de modo tr\u00e1gico e contr\u00e1rio, a c\u00e9lebre frase da fil\u00f3sofa Hanna Arendt, na qual diz: \u201co objetivo da escola ser\u00e1 o de ensinar \u00e0s crian\u00e7as como \u00e9 o mundo e n\u00e3o instru\u00ed-los na arte de viver.\u201d<\/p>\n<p>N\u00e3o poderemos explicitar uma dist\u00e2ncia entre fazer incidir a a\u00e7\u00e3o pedag\u00f3gica na \u2018arte de viver\u2019, e a a\u00e7\u00e3o de promover recursos poss\u00edveis a que o sujeito se vire de modo mais pr\u00f3prio ao conv\u00edvio social, mais adequado ao \u2018comum \u201cda cultura? Percebemos que \u00e9 f\u00e1cil deslizar de um ao outro. Se o objetivo da escola for educar os modos de gozo, os estilos de vida, ela se encarregar\u00e1 do uso da autoridade moralizante &#8211; ou falsamente permissiva &#8211; , passando facilmente \u00e0 a\u00e7\u00e3o que em outras disciplinas recebe o nome de controle social.<\/p>\n<h2><strong><em>Um coment\u00e1rio \u00e0 \u00e9poca<\/em><\/strong><strong><em>:<\/em><\/strong><\/h2>\n<h3><strong>Coment\u00e1rio para a-Palavrar<a title=\"\" href=\"#_ftn6\" name=\"_ftnref6\"><\/a><\/strong><\/h3>\n<h6>C\u00e9lio Garcia<\/h6>\n<p>Raramente nos deparamos com inven\u00e7\u00f5es, novas formas simb\u00f3licas para nossas a\u00e7\u00f5es coletivas. Creio ser o caso desta vez. O territ\u00f3rio onde se passa a a\u00e7\u00e3o coletiva \u00e9 uma institui\u00e7\u00e3o educacional. A dificuldade de se chegar \u00e0 pr\u00e1tica pretendida n\u00e3o ser\u00e1 das menores, j\u00e1 que o conjunto de institui\u00e7\u00f5es nesse campo \u00e9 regido pelos &#8220;conte\u00fados program\u00e1ticos nacionais&#8221; estabelecidos por inst\u00e2ncia superior. O que significa propor como lema &#8220;lei e desejo&#8221;, em contrapartida ao lema habitual da institui\u00e7\u00e3o educacional que \u00e9 &#8220;lei e ordena\u00e7\u00e3o.&#8221;<\/p>\n<p>Freud j\u00e1 havia dito ser a educa\u00e7\u00e3o uma profiss\u00e3o imposs\u00edvel. Pois bem, nossa Escola- a Escola de Lacan- pretende praticar uma pol\u00edtica do imposs\u00edvel. Para tanto, ela apela para o sujeito, para o desejo, para o real. O real sem lei, o desejo n\u00e3o ordenado e o sujeito que conhece a lei (Se ele n\u00e3o a conhecesse, como conheceria a transgress\u00e3o?).<\/p>\n<p>Contrariamente \u00e0 ideologia liberal que afirma ser necess\u00e1rio o mercado e seu aparato financeiro, a a\u00e7\u00e3o coletiva a que me refiro, tem em mente, em oposi\u00e7\u00e3o ao necess\u00e1rio, um outro poss\u00edvel, justamente em contradi\u00e7\u00e3o a esta exclusiva do necess\u00e1rio. Para a ideologia liberal o poss\u00edvel \u00e9 subalterno ao mercado, necess\u00e1rio. Na verdade, o mercado ao oferecer\u00a0<em>gadgets<\/em>\u00a0nas prateleiras pretende regular o gozo, \u00e0 maneira consumista.<\/p>\n<p>J\u00e1 h\u00e1 certa contradi\u00e7\u00e3o entre regular e consumir. Mas, vamos adiante. Sabemos que distribuir o gozo \u00e9 opera\u00e7\u00e3o j\u00e1 tentada pelos regimes totalit\u00e1rios. (O nazismo foi expl\u00edcito nesse sentido). Na realidade, s\u00f3 o fantasma era atendido. N\u00e3o podemos excluir todas as formas de viol\u00eancia, diz nossa Escola, contrariamente \u00e0 promessa feita no reino da pol\u00edtica de seguran\u00e7a em sua edi\u00e7\u00e3o atual. Ou seja, acrescenta nossa Escola: temos que aprender com a nova subjetividade niilista trazida pelo jovem infrator, pelo jovem drogadito, pelo &#8220;tipo assustador&#8221;, e outros. Quando falamos de sujeito, \u00e9 ele tamb\u00e9m.<\/p>\n<p>Como vimos, encontramos desde o in\u00edcio, termos como nega\u00e7\u00e3o de muita coisa que estava em funcionamento na institui\u00e7\u00e3o. Nega\u00e7\u00e3o, para a a\u00e7\u00e3o coletiva proposta, n\u00e3o inclui entretanto, destrui\u00e7\u00e3o. A destrui\u00e7\u00e3o \u00e9 frequentemente o resultado final dos tais &#8220;conte\u00fados program\u00e1ticos nacionais&#8221; declarados pela institui\u00e7\u00e3o educacional, precisamente ao encobrir as contradi\u00e7\u00f5es. Estou falando dos que abandonam a institui\u00e7\u00e3o escolar, os repetentes, os reprovados.<\/p>\n<p>Como ent\u00e3o operar? Operamos gra\u00e7as \u00e0 parte afirmativa da nega\u00e7\u00e3o, isto \u00e9, a subtra\u00e7\u00e3o. A nega\u00e7\u00e3o associada \u00e0 subtra\u00e7\u00e3o despoja o sujeito dos predicados acrescentados (bom aluno, mau aluno; mau car\u00e1ter, bom menino; menino que sabe [de sexo], menino inocente; menino hiperativo, menino tranquilo); ela dispensa tipologia frequentemente de inspira\u00e7\u00e3o psicol\u00f3gica, assim como os estere\u00f3tipos, os preconceitos, as classifica\u00e7\u00f5es. Os tipos fundados nos mitos nunca s\u00e3o inocentes.<\/p>\n<p>Vamos ver!<\/p>\n<hr \/>\n<div>\n<h6 id=\"ftn1\"><a title=\"\" href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\"><\/a>Texto publicado em\u00a0<em>TERRE DU CIEN<\/em>&#8211; Journal du Centre Interdisciplinaire sur L\u2019enfant. Mars 2009, p.31.<\/h6>\n<p><a title=\"\" href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\"><\/a>A escola oferece cursos para alunos dos 1\u00ba, 2\u00ba, 3\u00baciclos do Ensino Fundamental pela manh\u00e3 e tarde e para Jovens e Adultos \u00e0 noite. Na ocasi\u00e3o, na escola estudavam aproximadamente 400 alunos.<br \/>\n2:Participantes do a-PALAVRAR: Clara Maria Macedo de Paula, Psicopedagoga; Lic\u00ednia Paccini, m\u00e9dica generalista PFS e hebiatra; Maria das Gra\u00e7as Sena, psicanalista; Maria Aparecida Farage, psicanalista; Maria Rita de Oliveira Guimar\u00e3es (respons\u00e1vel); Susana Teatine, psicanalista. As Conversa\u00e7\u00f5es acolhiam profissionais de outras disciplinas, conforme convite ou demanda de presen\u00e7a.<\/p>\n<h6 id=\"ftn3\"><\/h6>\n<p><a title=\"\" href=\"#_ftnref4\" name=\"_ftn4\"><\/a>LACAN, Jacques. Confer\u00eancia em Genebra sobre o sintoma, em\u00a0<em>Intervenciones y Textos 2,\u00a0<\/em>Ediciones Manancial, Buenos Aires,1988, p.133.<\/p>\n<p><a title=\"\" href=\"#_ftnref5\" name=\"_ftn5\"><\/a>\u201cRetenhamos dessa l\u00f3gica do efeito\u00a0<em>a posteriori\u00a0<\/em>justamente o que se opera como efeito de \u201ctrans-forma\u00e7\u00e3o\u201d para um parceiro de uma disciplina, que relata um momento de encontro com uma crian\u00e7a, uma situa\u00e7\u00e3o precisa que lhe faz pensar que ele poderia falar disso nesse espa\u00e7o da conversa\u00e7\u00e3o interdisciplinar. \u00c9 esse relato de testemunho que nomeamos vinheta\u00a0<em>pr\u00e1tica<\/em>, insistindo sobre o fato de que \u00e9 no\u00a0<em>a posteriori\u00a0<\/em>do relato que se encontra, devido ao dispositivo do laborat\u00f3rio, o efeito de transmiss\u00e3o poss\u00edvel\u201d<em>\u00a0Philippe Lacad\u00e9e, em CIEN_DIGITAL 2<\/em><\/p>\n<div id=\"ftn6\">\n<h6><a title=\"\" href=\"#_ftnref6\" name=\"_ftn6\"><\/a>Coment\u00e1rio de Celio Garcia como efeito de sua escuta na apresenta\u00e7\u00e3o do trabalho \u2013 a seu convite- no Semin\u00e1rio mensal que mantinha com o nome \u201cPsican\u00e1lise e Pol\u00edtica\u201d.<\/h6>\n<\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Contexto: A escuta forma parte da palavra\u00a0\u00e9 um \u2013 dentre v\u00e1rios- produtos do trabalho de Conversa\u00e7\u00e3o com professores da Escola Maria das Neves,\u00a0realizadas pelo Laborat\u00f3rio a-PALAVRAR\u00a0. Uma chamada \u00e0 escola para que ela se \u201cencarregasse\u201d de \u201censinar o sexual\u201d promoveu tal mal estar que seus diretores e coordenadores, por sua vez, demandaram a interven\u00e7\u00e3o do&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":5658927,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[126,24],"tags":[82],"post_series":[],"class_list":["post-5658925","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-cien-digital-21","category-historia_cien_brasil","tag-cien_digital_21","entry","has-media"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/ciendigital.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5658925","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/ciendigital.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/ciendigital.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ciendigital.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ciendigital.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=5658925"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/ciendigital.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5658925\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ciendigital.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/5658927"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/ciendigital.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=5658925"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/ciendigital.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=5658925"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/ciendigital.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=5658925"},{"taxonomy":"post_series","embeddable":true,"href":"https:\/\/ciendigital.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/post_series?post=5658925"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}