{"id":5658929,"date":"2018-11-28T18:17:51","date_gmt":"2018-11-28T20:17:51","guid":{"rendered":"http:\/\/ciendigital.com.br\/?p=5658929"},"modified":"2018-11-28T18:32:21","modified_gmt":"2018-11-28T20:32:21","slug":"a-crianca-os-autismos-e-a-instituicao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ciendigital.com.br\/index.php\/2018\/11\/28\/a-crianca-os-autismos-e-a-instituicao\/","title":{"rendered":"A crian\u00e7a, os autismos e a institui\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"<div class=\"pdfprnt-buttons pdfprnt-buttons-post pdfprnt-top-right\"><a href=\"https:\/\/ciendigital.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5658929?print=pdf\" class=\"pdfprnt-button pdfprnt-button-pdf\" target=\"_blank\" ><\/a><a href=\"https:\/\/ciendigital.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5658929?print=print\" class=\"pdfprnt-button pdfprnt-button-print\" target=\"_blank\" ><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/plugins\/pdf-print\/images\/print.png\" alt=\"image_print\" title=\"Conte\u00fado de impress\u00e3o\" \/><\/a><\/div><figure id=\"attachment_5658930\" aria-describedby=\"caption-attachment-5658930\" style=\"width: 503px\" class=\"wp-caption alignright\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-5658930\" src=\"http:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/orbita.jpg\" alt=\"\" width=\"503\" height=\"399\" srcset=\"https:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/orbita.jpg 503w, https:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/orbita-300x238.jpg 300w, https:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/orbita-274x217.jpg 274w\" sizes=\"auto, (max-width: 503px) 100vw, 503px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-5658930\" class=\"wp-caption-text\">Imagem: Sergio Camargo<\/figcaption><\/figure>\n<h6 style=\"text-align: left;\" align=\"right\">Ana Martha Wilson Maia<\/h6>\n<p>\u201cN\u00f3s, ent\u00e3o, estamos o trazendo aqui porque queremos que ele aprenda a ler e a escrever, e frequente a escola, como as outras crian\u00e7as&#8221; &#8211; este \u00e9 o desejo dos pais, quando chegam com o filho autista, crian\u00e7a ou adolescente, no consult\u00f3rio de um analista. Podemos dizer que todos os pais desejam uma vida normal para o filho e que n\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil o percurso de entrada na institui\u00e7\u00e3o escolar e a aprendizagem em si. Para os que apresentam maiores dificuldades com a linguagem e o la\u00e7o social, \u00e0s vezes se trata mesmo de uma impossibilidade.<br \/>\nDepois de uma s\u00e9rie de tentativas frustradas, mudan\u00e7as de escola, recusas (\u201cn\u00e3o temos vaga\u201d &#8211; escutam frequentemente) e, n\u00e3o raras as vezes, experi\u00eancias com tratamentos cuja orienta\u00e7\u00e3o visa o controle pulsional, o enquadramento a um padr\u00e3o social, os pais chegam perdidos, angustiados, desesperan\u00e7osos, alguns desesperados, e preocupados com o futuro do filho: \u201ccomo ser\u00e1 quando n\u00e3o estivermos mais aqui?\u2019 O tempo passa, as crian\u00e7as crescem.<br \/>\nO acesso do sujeito autista \u00e0 educa\u00e7\u00e3o e ao ensino profissionalizante \u00e9 hoje garantido pela Lei 12.764, de 27 de dezembro de 2012. Sua implementa\u00e7\u00e3o tem trazido impasses para todos que est\u00e3o vivendo esta experi\u00eancia: pais, equipe pedag\u00f3gica, colegas de turma e seus pais, al\u00e9m da pr\u00f3pria crian\u00e7a.<br \/>\nAssim, a quest\u00e3o da inclus\u00e3o \u00e9 muit\u00edssimo complexa, pois trata do tempo presente, o que se pode fazer hoje, e da perspectiva de um futuro enigm\u00e1tico e sombrio quando se percebe que para os \u201cmais diferentes\u201d pouco adianta insistir em um tratamento padr\u00e3o. Pode-se obter como resultado que o sujeito consinta um pouco melhor com a presen\u00e7a do outro, que se apresente com uma conduta social \u201cadequada\u201d, durante certo tempo, sendo ele literalmente treinado para suportar o malestar que experimenta e se apresentar \u201cmenos louco\u201d, mas sem que jamais se saiba o que ele deseja, pelo que se interessa, e at\u00e9 onde poderia ir em seu caminho de vida, caso lhe dirigissem a aposta de que poderia, a seu modo, avan\u00e7ar.<\/p>\n<h3>Loucura e morte<\/h3>\n<p>A loucura \u00e9 uma das faces da segrega\u00e7\u00e3o que \u00e9 bem ilustrada pela leitura de Foucault (1972) sobre uma impactante imagem: \u201cA Nau dos Loucos\u201d, quadro de Jeronymus Bosch.<br \/>\nFoucault descreve a figura do louco como aquele que vivia errante, escorra\u00e7ado de cidade em cidade, e \u00e0s vezes entregue \u00e0 grupos de mercadores, peregrinos ou navegantes. O louco era o \u201cpassageiro\u201d ou o \u201cprisioneiro da passagem\u201d que, aparentemente acolhido, era na verdade recolhido em pris\u00f5es para que n\u00e3o ficasse vagando com sua loucura obscena, exposta. Ele se transformava, desta maneira, em \u201cprisioneiro de sua pr\u00f3pria partida\u201d.<br \/>\nPor isso a forma como a loucura apareceu no imagin\u00e1rio da Renascen\u00e7a:\u00a0<em>Narrenschiff<\/em>\u00a0\u00e9 um estranho barco deslizando ao longo dos rios da Ren\u00e2nia e dos canais flamengos, na tela de Bosch, que faz s\u00e9rie com a \u201cNau dos Pr\u00edncipes e das Batalhas da Nobreza\u201d e a \u201cNau das Damas Virtuosas\u201d.<br \/>\nH\u00e1, todavia, uma diferen\u00e7a entre\u00a0<em>Narrenschiff\u00a0<\/em>e as outras naus: ela de fato existiu. N\u00e3o foi apenas uma cria\u00e7\u00e3o art\u00edstica. Em uma barca louca, o prisioneiro da passagem tinha como destino um outro lugar em que tamb\u00e9m n\u00e3o havia lugar para ele. Como um lugar de passagem \u00e9 um limiar entre um dentro e um fora, um interior e um exterior, restava para o louco um \u201centre-lugar\u2019, na medida em que representava uma amea\u00e7a, o incontrol\u00e1vel, a morte.<br \/>\nTra\u00e7ando a \u201cHist\u00f3ria da loucura\u201d, Foucault mostra que a representa\u00e7\u00e3o da morte atravessa a cultura ao longo do tempo de diferentes formas. Se o leproso era a presen\u00e7a viva da morte, mais tarde o desatino da loucura veio substituir a lepra, marcando uma virada no interior de uma mesma \u201cinquietude humana\u201d.<\/p>\n<h3>Liberdade e segrega\u00e7\u00e3o na inf\u00e2ncia<\/h3>\n<p>Foi em uma Jornada organizada por Maud Mannoni (1968) que Lacan proferiu a \u201cAlocu\u00e7\u00e3o sobre as psicoses da crian\u00e7a\u201d. Este texto e \u201cNota sobre a crian\u00e7a\u201d s\u00e3o refer\u00eancias fundamentais de seu ensino para a psican\u00e1lise com crian\u00e7as.<br \/>\nAo final desta Jornada, Lacan circunscreve que a liberdade est\u00e1 no centro da quest\u00e3o que entrela\u00e7a a crian\u00e7a, a psicose e a institui\u00e7\u00e3o, comentando que foi desenvolvida durante a apresenta\u00e7\u00e3o dos trabalhos em \u201cuma perspectiva meio estreita\u201d (p.360) pelos analistas ingleses. A cr\u00edtica de Lacan incide precisamente neste entrela\u00e7amento, na medida em que os autores n\u00e3o articularam a cl\u00ednica com a teoria a respeito da rela\u00e7\u00e3o sexual, do inconsciente e do gozo. Ele, ent\u00e3o, lan\u00e7a a pergunta: \u201cser\u00e1 que essa liberdade, suscitada, sugerida por uma certa pr\u00e1tica dirigida a estes sujeitos, n\u00e3o traz em si seu limite e seu engodo?\u201d E afirma que o valor da psican\u00e1lise est\u00e1 justamente em operar com a fantasia e o gozo, e que o progresso da ci\u00eancia tende \u00e0 segrega\u00e7\u00e3o, o que nos leva aos manuais de classifica\u00e7\u00e3o diagn\u00f3stica e \u00e0s etiquetas que passam a acompanhar o sujeito por onde passe, deixando-o \u00e0 margem da norma, segregado.<br \/>\nPor exemplo, nunca se falou, se publicou, se etiquetou tantas crian\u00e7as e adolescentes com o Transtorno do Espectro Autista (TEA) como agora. S\u00e3o muitas as hip\u00f3teses sobre sua causa, mas n\u00e3o se pode dizer que h\u00e1 uma causa espec\u00edfica, na medida em que o autismo s\u00f3 se pode dizer no plural e que n\u00e3o h\u00e1 como reduzir o singular ao reconhecimento de alguns sinais. Neste sentido, mesmo que sejam criados novos m\u00e9todos de avalia\u00e7\u00e3o, a generaliza\u00e7\u00e3o do autismo n\u00e3o se sustenta.<br \/>\nLacan (1953) j\u00e1 havia marcado uma estreita rela\u00e7\u00e3o entre a loucura e a liberdade. Em suas palavras: \u201clonge de ser para a liberdade um insulto, a loucura \u00e9 sua fiel companheira, segue-lhe o movimento como uma sombra. E o ser do homem n\u00e3o apenas n\u00e3o pode ser compreendido sem a loucura, como n\u00e3o seria o ser do homem se n\u00e3o carregasse em si a loucura como limite de sua liberdade\u201d (p.177).<br \/>\nInconsciente \u00e0 c\u00e9u aberto, livre, como pode uma crian\u00e7a psic\u00f3tica, autista ou que apresente uma neurose grave, estar em uma institui\u00e7\u00e3o se a loucura marca o limite de sua liberdade? Que institui\u00e7\u00e3o est\u00e1 \u00e0 altura de acolh\u00ea-la? \u201cComo fazer para que as massas humanas, fadadas ao mesmo espa\u00e7o, n\u00e3o apenas geogr\u00e1fico, mas tamb\u00e9m, ocasionalmente, familiar, se mantenham separadas?\u201d (Lacan, 1967). O respeito \u00e0 diferen\u00e7a est\u00e1 em jogo e as diferentes formas de segrega\u00e7\u00e3o falam do \u00f3dio ao gozo do Outro.<\/p>\n<h3>Autismos e inclus\u00e3o<\/h3>\n<p>\u201cO que faz com que este Outro seja Outro para que se possa o odiar em seu ser?\u201d (p.53) &#8211; pergunta Miller (2010), em seu curso Extimidad. \u201cSe odeia especialmente a maneira particular de que o Outro goza\u201d, prossegue ele, do que podemos extrair que o que fica de fora, segregado, \u00e9 o mais \u00edntimo de cada um, seu modo de gozo. O autismo \u00e9 um modo de ser diferente. E como incomoda aos outros o uso que o sujeito faz de seu objeto privilegiado! Lembremos de Temple Grandin (2010) que teve jogada no lixo da universidade sua \u201cm\u00e1quina do abra\u00e7o\u201d.<br \/>\nA relativamente recente cria\u00e7\u00e3o da fun\u00e7\u00e3o de media\u00e7\u00e3o na escola tem movimentado debates, como aconteceu durante o F\u00f3rum &#8220;O que \u00e9 o autismo, hoje?&#8221; (2017). Qual a fun\u00e7\u00e3o do mediador escolar? O que \u00e9, e para quem \u00e9 a media\u00e7\u00e3o: para o autista, o professor ou os colegas da turma? Em que medida esta fun\u00e7\u00e3o se assemelha \u00e0 fun\u00e7\u00e3o do duplo nos autismos? E se agora a lei obriga a escola a acolher o portador de TEA, \u00e9 poss\u00edvel para o educador trabalhar com o \u201cdiferente\u201d quando n\u00e3o deseja?<br \/>\nMuitas quest\u00f5es surgiram e os participantes sa\u00edram com a certeza de que o F\u00f3rum foi um espa\u00e7o de trabalho que promoveu um debate cl\u00ednico, epist\u00eamico e pol\u00edtico importante, e que estreitou la\u00e7os de trabalho entre profissionais e pais de autistas. A mesa das m\u00e3es foi emocionante.<br \/>\nMas o que de fato surpreendeu foi a apresenta\u00e7\u00e3o de dois jovens adultos. Henrique ao piano e Beatriz na voz mostraram, atrav\u00e9s da m\u00fasica, o efeito do trabalho que realizam em an\u00e1lise e como a psican\u00e1lise de orienta\u00e7\u00e3o lacaniana \u00e9 uma poss\u00edvel abordagem no tratamento dos autismos, \u00fanica em sua aposta nas inven\u00e7\u00f5es singulares do ser falante, a partir do modo de gozo de cada um.<br \/>\nNa dire\u00e7\u00e3o de uma das m\u00fasicas que apresentaram, seguimos com eles:<\/p>\n<p align=\"right\"><em>\u201c\u00c9\u00a0<\/em><em>saber se sentir infinito\u00a0<\/em><br \/>\n<em>Num universo t<\/em><em>\u00e3<\/em><em>o vasto e bonito,\u00a0<\/em><em>\u00e9\u00a0<\/em><em>saber sonhar.<\/em><br \/>\n<em>Ent\u00e3o fazer valer a pena<\/em><br \/>\n<em>Cada verso daquele poema sobre acreditar.\u201d<\/em><br \/>\nTrem bala, Ana Vilela<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<hr \/>\n<h6>Bibliografia<br \/>\nMaia, AMW. Curso &#8220;Autismos &#8211; um modo de ser diferente&#8221;. Espa\u00e7o Culturama &#8211; Centro de Cultura e Ensino. Goi\u00e2nia, 2016.<br \/>\nMaia, AMW. Asperger &#8211; um dos nomes dos autismos. Edi\u00e7\u00e3o Especial da Revista Psicologia. S\u00e3o Paulo: Mythos Editora. N\u00famero 33. 2017.<br \/>\nMaia, AMW. Pontua\u00e7\u00f5es apresentadas na coordena\u00e7\u00e3o da Mesa-redonda II: &#8220;O que \u00e9 a inclus\u00e3o dos autistas?&#8221; F\u00f3rum de Debates: &#8220;O que \u00e9 o autismo, hoje?&#8221;, realizado pelo Observat\u00f3rio Pol\u00edticas sobre o Autismo (EBP\/FAPOL), em parceria com a Universidade FUMEC. Belo Horizonte, FUMEC. 26 de abril de 2017.<br \/>\nFoucault, M. (1972) Hist\u00f3ria da Loucura na Idade Cl\u00e1ssica. S\u00e3o Paulo: Perspectiva. 1997.<br \/>\nLacan, J. (1953) Fun\u00e7\u00e3o e campo da fala e da linguagem em psican\u00e1lise. Escritos. RJ: Zahar. 1998.<br \/>\nLacan, J. (1967) Alocu\u00e7\u00e3o sobre as psicoses da crian\u00e7a. Outros Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editora. 20013.<br \/>\nLacan, J. (1969) Nota sobre a crian\u00e7a. Outros escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editora. 2003.<br \/>\nMannoni, M. Enfance alien\u00e9e II. L&#8217;enfants, la psychose et l&#8217;institution. Recherches , 8. D\u00e9cembre. 1968.<br \/>\nMiller, J-A. Extimidad. Buenos Aires: Paid\u00f3s. 2010.<br \/>\nTemple Grandin. Dire\u00e7\u00e3o: Mick Jackson. Telefilme norte-americano exibido no canal HBO. 2010.<\/h6>\n<div class=\"footer-notes\"><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ana Martha Wilson Maia \u201cN\u00f3s, ent\u00e3o, estamos o trazendo aqui porque queremos que ele aprenda a ler e a escrever, e frequente a escola, como as outras crian\u00e7as&#8221; &#8211; este \u00e9 o desejo dos pais, quando chegam com o filho autista, crian\u00e7a ou adolescente, no consult\u00f3rio de um analista. 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