{"id":5658932,"date":"2018-11-28T18:21:25","date_gmt":"2018-11-28T20:21:25","guid":{"rendered":"http:\/\/ciendigital.com.br\/?p=5658932"},"modified":"2018-11-28T18:32:21","modified_gmt":"2018-11-28T20:32:21","slug":"uma-pratica-na-escola-efeitos-do-encontro-com-o-cien","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ciendigital.com.br\/index.php\/2018\/11\/28\/uma-pratica-na-escola-efeitos-do-encontro-com-o-cien\/","title":{"rendered":"Uma pr\u00e1tica na escola \u2013 Efeitos do encontro com o CIEN"},"content":{"rendered":"<div class=\"pdfprnt-buttons pdfprnt-buttons-post pdfprnt-top-right\"><a href=\"https:\/\/ciendigital.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5658932?print=pdf\" class=\"pdfprnt-button pdfprnt-button-pdf\" target=\"_blank\" ><\/a><a href=\"https:\/\/ciendigital.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5658932?print=print\" class=\"pdfprnt-button pdfprnt-button-print\" target=\"_blank\" ><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/plugins\/pdf-print\/images\/print.png\" alt=\"image_print\" title=\"Conte\u00fado de impress\u00e3o\" \/><\/a><\/div><figure id=\"attachment_5658933\" aria-describedby=\"caption-attachment-5658933\" style=\"width: 559px\" class=\"wp-caption alignright\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-5658933\" src=\"http:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/ponto_de_vista.jpg\" alt=\"\" width=\"559\" height=\"408\" srcset=\"https:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/ponto_de_vista.jpg 559w, https:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/ponto_de_vista-300x219.jpg 300w, https:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/ponto_de_vista-274x200.jpg 274w\" sizes=\"auto, (max-width: 559px) 100vw, 559px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-5658933\" class=\"wp-caption-text\">Imagem: Alighiero Boetti<\/figcaption><\/figure>\n<h6 style=\"text-align: left;\" align=\"right\">Mirta Fernandes<\/h6>\n<p>O encontro com o CIEN permitiu situar e nomear uma quest\u00e3o que rondava um trabalho de psicanalise aplicada, que vem sendo desenvolvido h\u00e1 alguns anos em uma institui\u00e7\u00e3o de ensino, Escola Alfa, a partir de demandas de palestras e grupos de conversa com alunos, professores, coordenadores e pessoal de apoio.<\/p>\n<p>O ponto estrutural dessa pr\u00e1tica com a equipe escolar orientou-se, desde o in\u00edcio, pela cria\u00e7\u00e3o de um espa\u00e7o de fala, escuta e reflex\u00e3o acerca das ang\u00fastias, dos impasses e quest\u00f5es que comparecem no processo de educa\u00e7\u00e3o, envolvendo as rela\u00e7\u00f5es entre pais\/escola\/alunos\/professores, coordenadores e todos os outros profissionais que comp\u00f5em o espa\u00e7o escolar, incluindo o setor administrativo.<\/p>\n<p>N\u00e3o se tratava de ensinar psicanalise aos professores, mas evidenciar na pr\u00e1tica educacional o processo de constitui\u00e7\u00e3o de uma subjetividade e a fun\u00e7\u00e3o do professor como elemento fundamental nesse processo. Elemento externo \u00e0 fam\u00edlia, que pode dar lugar a novas formas de v\u00ednculos a partir de enla\u00e7amentos diferentes daqueles dos padr\u00f5es familiares.<\/p>\n<p>Ao participar das reuni\u00f5es mensais do CIEN e do laborat\u00f3rio \u201cdiga a\u00ed escola\u201d (2016), o significante \u201cconversa\u00e7\u00e3o\u201d interroga a analista. Como se distingue uma \u201cconversa\u00e7\u00e3o\u201d de uma supervis\u00e3o, de uma interpreta\u00e7\u00e3o, de uma interven\u00e7\u00e3o orientadora ou de uma transmiss\u00e3o de conceitos de uma disciplina para outra? Qual o lugar do psicanalista nesses encontros?<\/p>\n<p>A escola em quest\u00e3o esperava da psicanalista uma resposta ou a psicanalista se colocava numa posi\u00e7\u00e3o de saber, de orientadora? De que orienta\u00e7\u00e3o se tratava? A introdu\u00e7\u00e3o dos conceitos te\u00f3ricos da pr\u00e1tica da psican\u00e1lise na cl\u00ednica pode ocorrer nesse espa\u00e7o? Quest\u00f5es que j\u00e1 se formulavam e que encontraram eco e interlocu\u00e7\u00e3o a partir desse encontro com o CIEN.<\/p>\n<p>A interroga\u00e7\u00e3o que o significante \u201cconversa\u00e7\u00e3o\u201d provocou produziu uma maior aten\u00e7\u00e3o nas interven\u00e7\u00f5es, evitando que comparecessem os saberes universais, solu\u00e7\u00f5es, e que se sustentasse um ponto de enigma. Um ponto de opacidade, de inc\u00f3gnita, que ao circular permitisse e provocasse, em cada um, quest\u00f5es, d\u00favidas, podendo dar lugar a inven\u00e7\u00f5es singulares.<\/p>\n<p>O recorte a seguir refere-se a um dos encontros onde compareceram queixas a respeito de uma turma do ensino fundamental 2. O que incomodava a todos, professores e coordenadores, era uma separa\u00e7\u00e3o da turma em pequenos grupos que se segregavam entre si, criando um clima hostil que impedia o conv\u00edvio e o processo de ensino. N\u00e3o sabiam o que fazer.<\/p>\n<p>Surge, durante uma reuni\u00e3o com a dire\u00e7\u00e3o e coordena\u00e7\u00e3o pedag\u00f3gica, a proposta de algumas \u201creuni\u00f5es com a turma, nos moldes da reuni\u00e3o da coordena\u00e7\u00e3o\u201d, ou seja, de uma conversa livre com a psicanalista e a professora coordenadora do segmento, de forma que escutassem e dessem um lugar \u00e0 fala desses jovens.<\/p>\n<p>Apresentada a proposta \u00e0 turma, surgem inicialmente os \u201cporqu\u00eas\u201d dos encontros, e a resposta vem dos pr\u00f3prios alunos trazendo quest\u00f5es que os incomodavam. N\u00e3o era o processo de segrega\u00e7\u00e3o apontado pelos profissionais que os incomodava. Os grupos que se constitu\u00edram na turma se comunicavam atrav\u00e9s de grupos privados no whatsapp.<\/p>\n<p>Queixavam-se de uma menina em particular, Maria, como piv\u00f4 dos problemas de relacionamento na turma e referiam-se ao fato de Maria mandar cartas e mensagens individuais no whatsapp. Nessas mensagens, Maria se desculpava por sua atitude de acusar os colegas, queixando-se de estar sendo rejeitada e prometia n\u00e3o mandar mais cartas. Essas cartas e bilhetes, no entanto, n\u00e3o cessavam. Interrogados sobre o que os incomodava, cada um responde de uma forma. Na medida em que cada um fala por si, surgem as posi\u00e7\u00f5es individuais, diferenciando-se dos blocos que constitu\u00edam nos grupos de whatsapp.<\/p>\n<p>Da posi\u00e7\u00e3o que Maria se colocava, exclu\u00edda e v\u00edtima, os colegas interrogam se n\u00e3o seria ela mesma que se exclu\u00eda com sua atitude. Maria mente, inventando situa\u00e7\u00f5es como, por exemplo, a de que a m\u00e3e est\u00e1 com c\u00e2ncer. Ana Clara diz que ela \u00e9 um \u201cempecilho\u201d. Rayane a acolhia, era muito amiga, mas um dia Maria mandou uma carta, acusando-a de n\u00e3o ser sua amiga, e Rayane deixou de falar com Maria. Desde ent\u00e3o, come\u00e7aram as cartas de desculpa por seu comportamento agressivo, que n\u00e3o se modificava.<\/p>\n<p>Convocam Maria a falar, j\u00e1 que se mantinha calada todo o tempo. Maria, com dificuldade, fala de sua hist\u00f3ria de vida, de ter vivido em abrigo, sofrido muito em outra escola, sendo discriminada por sua origem e cor de pele, negra. Faz men\u00e7\u00e3o ao incidente que deu in\u00edcio a essas cartas, e diz: \u201cas cartas s\u00e3o uma maneira em que eu me sinto bem. Tenho medo de magoar as pessoas, assim eu escrevo\u201d (&#8230;) \u201cEu n\u00e3o consigo parar de mentir&#8230;eu n\u00e3o controlo isso\u201d (&#8230;) \u201cNa outra escola eu precisava mentir para ser aceita&#8230; sofria bullyng\u201d.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s a fala de Maria, surgem queixas de Lucas, indicando que ele seria um outro exclu\u00eddo na turma. Sempre que se formavam grupos de trabalho, Lucas e Maria ficavam sem grupo.<br \/>\nA coordenadora que participava do encontro tomou para si, sem combina\u00e7\u00e3o pr\u00e9via, a incumb\u00eancia de anotar a reuni\u00e3o. A partir de suas anota\u00e7\u00f5es, recorto as interven\u00e7\u00f5es da psicanalista:<br \/>\n<em>Em que situa\u00e7\u00e3o a turma se v\u00ea excluindo Maria e Lucas?<\/em><\/p>\n<p>Felipe responde: \u201cMaria tenta se enturmar escrevendo cartinhas e Lucas ri de tudo e n\u00e3o fala de seu desconforto. Lucas chamou uma menina de vadia e depois disse que n\u00e3o sabia o isso significava.\u201d<\/p>\n<p>Alguns tomam a posi\u00e7\u00e3o de defender Maria e outros, Lucas, buscando justificar suas atitudes, apelando para uma verdade sobre as situa\u00e7\u00f5es, sobre as falas de cada um, sobre os fatos. Tamb\u00e9m insistem que Maria fica usando sua hist\u00f3ria pessoal para justificar tudo, e Lucas se faz de bobo, como se n\u00e3o soubesse de nada, fingindo inoc\u00eancia.<\/p>\n<p>\u201cN\u00e3o h\u00e1 uma hist\u00f3ria verdadeira&#8230; cada um tem sua pr\u00f3pria vers\u00e3o sobre o que acontece&#8230;\u201d, diz a psicanalista Ana Clara insiste em que Maria o tempo todo fica falando e revivendo sua hist\u00f3ria no abrigo.<\/p>\n<p>\u201cTodos temos nossas fragilidades&#8230;e ser\u00e1 que n\u00e3o pensamos todos a partir de nossas hist\u00f3rias?\u201d- nova fala da psicanalista ao final do encontro.<\/p>\n<p>Num segundo encontro, relatam alguma mudan\u00e7a em rela\u00e7\u00e3o a Maria. Mudaram tamb\u00e9m os lugares onde se sentavam, misturando-se entre si. Come\u00e7aram a aparecer queixas em rela\u00e7\u00e3o a outros colegas e situa\u00e7\u00f5es em que uns incomodavam aos outros.<\/p>\n<p>Esses encontros sustentaram um espa\u00e7o de interroga\u00e7\u00e3o, um espa\u00e7o de fala e de escuta de cada um, permitindo que a fragilidade de Maria fosse vista e respeitada como sua diferen\u00e7a e deslocando o \u201cmal\u201d concentrado em um sujeito para todos. Como cada um lida com o seu pr\u00f3prio \u201cmal\u201d? Dessa forma, Maria pode se perguntar sobre sua certeza de ser rejeitada, o que a atormentava, e alguns puderam falar de sentimentos rec\u00edprocos.<\/p>\n<p>A posi\u00e7\u00e3o da analista, orientada pelo dispositivo da conversa\u00e7\u00e3o, promove uma circula\u00e7\u00e3o das falas individuais pelo espa\u00e7o comum. Mais al\u00e9m do mal entendido da comunica\u00e7\u00e3o, a conversa\u00e7\u00e3o convoca uma associa\u00e7\u00e3o livre entre v\u00e1rios. Fala que pode ser acolhida como a manifesta\u00e7\u00e3o de um pensamento singular que pode ou n\u00e3o enla\u00e7ar-se a outros. N\u00e3o se trata de uma identifica\u00e7\u00e3o de um com um outro semelhante, mas com a inc\u00f3gnita que o outro \u00e9 para cada um e a pr\u00f3pria inc\u00f3gnita que cada um \u00e9 para si mesmo.<\/p>\n<p>A conversa\u00e7\u00e3o se distingue de uma interven\u00e7\u00e3o cl\u00ednica na medida em que n\u00e3o visa interpretar o sujeito. As interven\u00e7\u00f5es comparecem como interroga\u00e7\u00f5es, visando um deslocamento das identifica\u00e7\u00f5es, dos efeitos grupais que aprisionam o sujeito. Tal experi\u00eancia de trabalho, trouxe-me como quest\u00e3o a posi\u00e7\u00e3o do analista nas conversa\u00e7\u00f5es. Poder\u00edamos aproxim\u00e1-la a do mais-um no dispositivo do cartel? Operar uma possibilidade de trabalho entre v\u00e1rios, a partir de um vazio de saber, permitindo a cada um, no encontro com o outro, conduzir sua quest\u00e3o a partir de sua singularidade.<\/p>\n<p>O dispositivo da conversa\u00e7\u00e3o evidenciou, como efeito dessa experi\u00eancia, como cada um pode se localizar a partir de um impasse que se apresentou e dar algum tratamento ao seu mal-estar no conv\u00edvio com os outros.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m nas reuni\u00f5es de coordena\u00e7\u00e3o, a din\u00e2mica das reuni\u00f5es sofre o efeito da experi\u00eancia no laborat\u00f3rio do CIEN. Os professores passaram a suportar a interroga\u00e7\u00e3o de seu lugar de saber, desobrigaram-se de responder e garantir verdades inquestion\u00e1veis. Esse imperativo p\u00f4de cair e ent\u00e3o comparecer o reconhecimento de um saber singular, da crian\u00e7a, do jovem, do professor, dos pais, em cada um dos envolvidos na dif\u00edcil tarefa de educar. A partir de mar\u00e7o de 2017 a Diretora pedag\u00f3gica e as coordenadoras do fundamental 1 e 2 passaram a participar do laborat\u00f3rio \u201cdiga a\u00ed escola\u201d.<\/p>\n<p>A transmiss\u00e3o de um ensino se d\u00e1 ao abrir espa\u00e7o para um desejo de saber e cria\u00e7\u00e3o de novos saberes. O \u201cn\u00e3o saber\u201d pode comparecer sem representar uma amea\u00e7a \u00e0 autoridade e ao saber de cada professor e cabe ao psicanalista sustentar com sua presen\u00e7a os desdobramentos e as surpresas que surgem desse encontro.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Mirta Fernandes O encontro com o CIEN permitiu situar e nomear uma quest\u00e3o que rondava um trabalho de psicanalise aplicada, que vem sendo desenvolvido h\u00e1 alguns anos em uma institui\u00e7\u00e3o de ensino, Escola Alfa, a partir de demandas de palestras e grupos de conversa com alunos, professores, coordenadores e pessoal de apoio. 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