{"id":5658947,"date":"2018-11-28T18:34:29","date_gmt":"2018-11-28T20:34:29","guid":{"rendered":"http:\/\/ciendigital.com.br\/?p=5658947"},"modified":"2018-11-28T18:34:29","modified_gmt":"2018-11-28T20:34:29","slug":"entrevista-com-beatriz-udenio-cien-digital-julho-de-2017","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ciendigital.com.br\/index.php\/2018\/11\/28\/entrevista-com-beatriz-udenio-cien-digital-julho-de-2017\/","title":{"rendered":"Entrevista com Beatriz Udenio Cien Digital, Julho de 2017"},"content":{"rendered":"<div class=\"pdfprnt-buttons pdfprnt-buttons-post pdfprnt-top-right\"><a href=\"https:\/\/ciendigital.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5658947?print=pdf\" class=\"pdfprnt-button pdfprnt-button-pdf\" target=\"_blank\" ><\/a><a href=\"https:\/\/ciendigital.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5658947?print=print\" class=\"pdfprnt-button pdfprnt-button-print\" target=\"_blank\" ><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/plugins\/pdf-print\/images\/print.png\" alt=\"image_print\" title=\"Conte\u00fado de impress\u00e3o\" \/><\/a><\/div><figure id=\"attachment_5658948\" aria-describedby=\"caption-attachment-5658948\" style=\"width: 300px\" class=\"wp-caption alignright\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-5658948\" src=\"http:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/entrevista-300x188.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"188\" srcset=\"https:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/entrevista-300x188.jpg 300w, https:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/entrevista-274x172.jpg 274w, https:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/entrevista.jpg 729w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-5658948\" class=\"wp-caption-text\">Imagem: Mehmet Ali Uysal<\/figcaption><\/figure>\n<h6><em>por S\u00edglia Le\u00e3o<\/em><\/h6>\n<p><em>Cien Digital:\u00a0<\/em>\u201cOs la\u00e7os sociais e suas transforma\u00e7\u00f5es\u201d \u00e9 o tema da pr\u00f3xima Jornada Internacional do CIEN. Voc\u00ea poderia nos contar um pouco sobre a escolha desse tema?<\/p>\n<p><em>Beatriz Udenio:\u00a0<\/em>Claro que sim. Voltamos \u00e0 quest\u00e3o dos la\u00e7os sociais uma d\u00e9cada depois de ter tratado do tema em uma jornada do CIEN sobre \u201cO porvir dos la\u00e7os sociais\u201d. Desde ent\u00e3o, at\u00e9 os dias de hoje, as novas formas de comunica\u00e7\u00e3o, os meios, os jogos virtuais, os dispositivos m\u00f3veis e as redes, merecem uma nova e prof\u00edcua conversa\u00e7\u00e3o acerca das consequ\u00eancias de tudo isso sobre a palavra, os corpos e a situa\u00e7\u00e3o atual das crian\u00e7as e adolescentes.<\/p>\n<p>\u00c9 o que tentamos apresentar como quest\u00f5es a serem compartilhadas na Conversa\u00e7\u00e3o de setembro, a partir do Argumento elaborado para a jornada.<\/p>\n<p><em>Cien Digital:\u00a0<\/em>Em rela\u00e7\u00e3o ao formato dessa Jornada, h\u00e1 algo de novo quando se pensa em uma \u201cConversa\u00e7\u00e3o Internacional Americana\u201d?<\/p>\n<p><em>Beatriz Udenio:\u00a0<\/em>H\u00e1 algo novo ao colocar diretamente no t\u00edtulo da jornada a palavra\u00a0<em>Conversa\u00e7\u00e3o<\/em>. Isto implica que o dispositivo da conversa\u00e7\u00e3o \u00e9 o que sustenta toda a jornada de interc\u00e2mbio. \u00c9 dar legitimidade aquilo que vem sendo feito h\u00e1 muitos anos no CIEN.<\/p>\n<p>Voc\u00eas no Brasil tem sustentado v\u00e1rias conversa\u00e7\u00f5es do CIEN. O que chamamos Conversa\u00e7\u00e3o? Qual \u00e9 o seu segredo? No Campo Freudiano, as conversa\u00e7\u00f5es prop\u00f5em um debate sobre quest\u00f5es centrais e candentes do campo da experi\u00eancia. Isto se realiza durante um tempo delimitado, o tempo que dura a conversa\u00e7\u00e3o, sem ideias pr\u00e9-concebidas, deixando-se ser surpreendidos pelo novo que pode surgir desse interc\u00e2mbio, e concluindo com a possibilidade de recolher alguns pontos discretos de saber que emergem do trabalho entre v\u00e1rios.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, o t\u00edtulo enfatiza que se trata da comunidade ligada ao CIEN fundamentalmente na Am\u00e9rica Latina.<\/p>\n<p><em>Cien Digital<\/em>: Considerando que voc\u00ea est\u00e1 no CIEN desde a sua funda\u00e7\u00e3o, o que poderia nos dizer sobre a trajet\u00f3ria do CIEN e sobre sua import\u00e2ncia para o Campo Freudiano hoje?<\/p>\n<p><em>Beatriz Udenio:\u00a0<\/em>\u00c9 uma pergunta muito oportuna essa que voc\u00eas formulam, considerando os movimentos mais recentes propostos por Jacques-Alain Miller ao conjunto do Campo Freudiano, sob a ideia da \u201cmovida\u201d \u2013 me refiro \u00e0 \u201cA movida Zadig\u201d.<\/p>\n<p>Atrevo-me a dizer que, no enquadre do CIEN \u2013 criado por Miller em Buenos Aires, em julho de 1996- a orienta\u00e7\u00e3o de abrir a interven\u00e7\u00e3o da psican\u00e1lise nas quest\u00f5es sociais, sobretudo as referidas \u00e0 situa\u00e7\u00e3o das crian\u00e7as e adolescentes nos diferentes discursos que os atravessam, representou e continua representando uma\u00a0<em>movida<\/em>\u00a0para a extens\u00e3o, assim a psican\u00e1lise tem se engajado e se engaja em quest\u00f5es das pol\u00edticas que sustentam as mais variadas institui\u00e7\u00f5es p\u00fablicas e privadas, as quais recebem crian\u00e7as e adolescentes cotidianamente.<\/p>\n<p>Como dizia Juan Carlos Indart nas pontua\u00e7\u00f5es e perspectivas, por ocasi\u00e3o do encerramento da Jornada de 2013 \u201cMe inclui fora dessa\u201d: \u201cno CIEN n\u00e3o se trata somente de expressar nossas ideias sobre o mal estar na cultura, public\u00e1-las e difundi-las, mas tamb\u00e9m incluir-se nos discursos da \u00e9poca, de uma certa maneira\u201d.<\/p>\n<p>Essa certa maneira \u00e9 a que Miller chamou em determinado momento de \u201cextimidade\u201d. \u00c9 esta extimidade, que consegue esburacar, quando consegue, o modo discursivo mais atual, burocr\u00e1tico, aquele das etiquetas e avalia\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>E \u00e9 a partir disso, que os trabalhos do CIEN se transformam em caixas de surpresa: ao incluir-se, a partir de fora, nesses discursos dominantes, dando lugar \u00e0 surpresa.<\/p>\n<p><em>Cien Digital<\/em>: Em alguns momentos, aparecem casos cl\u00ednicos nas conversa\u00e7\u00f5es dos laborat\u00f3rios do CIEN. H\u00e1 um lugar para eles nesse contexto? Quando e de que modo poderiam, esses casos, trazer contribui\u00e7\u00f5es?<\/p>\n<p><em>Beatriz Udenio:\u00a0<\/em>Este \u00e9 um tema que conv\u00e9m elucidar. Desde o in\u00edcio, as experi\u00eancias do CIEN se orientaram em trabalhar sobre o que acontecia com profissionais que recebiam as crian\u00e7as e adolescentes e que n\u00e3o eram psicanalistas. A pr\u00e1tica anal\u00edtica \u2013Judith Miller insistiu sempre nisso- \u00e9 deixada ao lado em nossas investiga\u00e7\u00f5es. A rigor, a bem da verdade, isso n\u00e3o se modificou.<br \/>\n\u00c9 certo que, em algumas ocasi\u00f5es, em alguns laborat\u00f3rios, foi abordado o efeito do trabalho interdisciplinar a partir da localiza\u00e7\u00e3o da leitura feita das vicissitudes de uma crian\u00e7a ou jovem por algum psic\u00f3logo em forma\u00e7\u00e3o, mas s\u00f3 quando envolvia outros profissionais que se ocupavam da crian\u00e7a. Se ocorreu dessa forma \u00e9 porque nesse trabalho de laborat\u00f3rio, tal psic\u00f3logo ou psic\u00f3loga p\u00f4de ser mais sens\u00edvel \u00e0 singularidade dessa ou daquela crian\u00e7a, ou seja, ao que \u00e9 pr\u00f3prio a cada um \u2013como assinalou \u00c9ric Laurent em sua interven\u00e7\u00e3o durante a Jornada do CIEN \u201cMe inclui fora dessa\u201d. Algu\u00e9m que soube fazer com essa ou aquela crian\u00e7a ou adolescente, para al\u00e9m do seu saber disciplinar. Mas, certamente s\u00e3o raz\u00f5es inconscientes que fazem com que seja esta pessoa, e n\u00e3o qualquer uma, a que consegue fazer com que um sujeito se sinta, como algu\u00e9m \u00fanico, ou seja, como um caso de exce\u00e7\u00e3o. Assim \u2013 dizia \u00c9ric Laurent &#8211; no CIEN passamos do regime da proibi\u00e7\u00e3o ao regime da exce\u00e7\u00e3o: cada um como exce\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Mas, volto a sublinhar que o fundamento dos laborat\u00f3rios do CIEN se constitui a partir do efeito que se constata nos profissionais de outras disciplinas, que se servem daquilo que a psican\u00e1lise pode aportar para proteger, estar atentos e sustentar o lugar, n\u00e3o avali\u00e1vel de cada sujeito e suas solu\u00e7\u00f5es, como \u00fanico e incompar\u00e1vel.<\/p>\n<p><em>Cien Digital<\/em>: Como AE, voc\u00ea poderia nos dizer sobre o lugar que teve e tem o CIEN na sua permanente forma\u00e7\u00e3o anal\u00edtica?<\/p>\n<p><em>Beatriz Udenio:\u00a0<\/em>Fiz um desdobramento de algo disto na apresenta\u00e7\u00e3o que realizei durante a Jornada do CIEN \u201cCrian\u00e7as saturadas\u201d, que ocorreu em S\u00e3o Paulo, em setembro de 2015. Falei ali sobre \u201cencontrar meu tra\u00e7o de exce\u00e7\u00e3o\u201d. Trata-se de uma dial\u00e9tica: como encontrei o CIEN no ano de 1996 e como desde ent\u00e3o, o CIEN foi acompanhando n\u00e3o somente minha forma\u00e7\u00e3o, mas tamb\u00e9m os avan\u00e7os e meus achados na pr\u00f3pria an\u00e1lise.<\/p>\n<p>Refiro-me ao modo como fui captando cada vez mais claramente o porqu\u00ea do meu gosto pelo trabalho inter-disciplinar, em rela\u00e7\u00e3o com a montagem da minha solu\u00e7\u00e3o sinthom\u00e1tica.<br \/>\nTamb\u00e9m sublinhei que quando escolhemos a psican\u00e1lise para transit\u00e1-la como analisantes, como tamb\u00e9m para fazer dela uma pr\u00e1tica, esse tra\u00e7o pr\u00f3prio, \u00fanico, est\u00e1 ali para ser despojado dos sentidos neur\u00f3ticos para que se torne \u00fatil, uma ferramenta de vida.<\/p>\n<p>Para mim foi assim. Para isto contribu\u00edram minha chegada ao mundo em um \u201cinter-l\u00ednguas\u201d, de l\u00ednguas diversas, onde foi preciso tramitar aquilo que experimentava como um \u201cfora de lugar\u201d at\u00e9 fazer-me um lugar com esse \u201cinter\u201d mesmo. Assim foi tomando forma meu gosto por andar daqui para l\u00e1, entre diferentes grupos. E quando encontrei o CIEN, tudo aquilo ressoava em mim, repercutindo no que eu mesma havia experimentado e que a an\u00e1lise havia me permitido construir como modo instrumental de fazer com isso, dialogando com outros, com aqueles\u00a0<em>mais outros<\/em>\u00a0que os da pr\u00f3pria par\u00f3quia.<\/p>\n<p>Trata-se de um modo de fazer com o \u00eaxtimo. Por isso, \u201cMe incluo fora dessa\u201d, a frase daquele adolescente que participou de um laborat\u00f3rio de Belo Horizonte, ao qual Fernanda Otoni se referiu em 2013, me capturou desde o princ\u00edpio, at\u00e9 o ponto de prop\u00f4-la como t\u00edtulo para a Jornada daquele ano.<\/p>\n<p>Permite dar lugar ao modo que cada um \u2013profissional, crian\u00e7a, adolescente- pode encontrar um lugar para situar-se nas bordas daquilo que, em ocasi\u00f5es, se vive como algo insuport\u00e1vel.<br \/>\nEste tra\u00e7o (des)localizador, afinado na an\u00e1lise, define meu modo de localizar-me naquilo que Lacan denominou como n\u00f3 entre a extens\u00e3o e a intens\u00e3o da psican\u00e1lise, esp\u00e9cie de localiza\u00e7\u00e3o topol\u00f3gica, \u00eaxtima, que determina minhas escolhas de experi\u00eancia institucional e como isso se inscreve em meu sinthoma.<\/p>\n<h6 style=\"text-align: left;\" align=\"right\">Tradu\u00e7\u00e3o: Paola Salinas<br \/>\nRevis\u00e3o: Glacy Gorski<\/h6>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<hr \/>\n<h6>Nota: Os textos mencionados de Juan Carlos Indart e \u00c9ric Laurent est\u00e3o publicados em espanhol no \u201cCuadernos del CIEN N\u00b0 7\u201d, Buenos Aires, 2014. O texto \u201cEncontrar mi rasgo de excepci\u00f3n\u201d, est\u00e1 publicado na revista EL NI\u00d1O 14, Grama ediciones, Buenos Aires, 2016.<\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>por S\u00edglia Le\u00e3o Cien Digital:\u00a0\u201cOs la\u00e7os sociais e suas transforma\u00e7\u00f5es\u201d \u00e9 o tema da pr\u00f3xima Jornada Internacional do CIEN. Voc\u00ea poderia nos contar um pouco sobre a escolha desse tema? Beatriz Udenio:\u00a0Claro que sim. 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