{"id":5658973,"date":"2018-11-28T19:01:24","date_gmt":"2018-11-28T21:01:24","guid":{"rendered":"http:\/\/ciendigital.com.br\/?p=5658973"},"modified":"2018-11-28T19:23:17","modified_gmt":"2018-11-28T21:23:17","slug":"cinecien-xxy-nem-ele-nem-ela","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ciendigital.com.br\/index.php\/2018\/11\/28\/cinecien-xxy-nem-ele-nem-ela\/","title":{"rendered":"CineCien: XXY, nem ele, nem ela: ?"},"content":{"rendered":"<div class=\"pdfprnt-buttons pdfprnt-buttons-post pdfprnt-top-right\"><a href=\"https:\/\/ciendigital.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5658973?print=pdf\" class=\"pdfprnt-button pdfprnt-button-pdf\" target=\"_blank\" ><\/a><a href=\"https:\/\/ciendigital.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5658973?print=print\" class=\"pdfprnt-button pdfprnt-button-print\" target=\"_blank\" ><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/plugins\/pdf-print\/images\/print.png\" alt=\"image_print\" title=\"Conte\u00fado de impress\u00e3o\" \/><\/a><\/div><h6>Maria Rita Guimar\u00e3es<\/h6>\n<p>A perspectiva pela qual o filme XXY, &#8211; em debate no encontro do CINECIEN\u2013MG em 17\/8\/2016 &#8211; nos interessou, foi a de retratar, justamente na adolesc\u00eancia, os impasses trazidos pela sexualidade, supostamente complexificada por uma anatomia \u201ccompleta\u201d, ou seja, sem um destino anat\u00f4mico que marcasse- mesmo imaginariamente- , uma identidade como\u00a0<em>ele<\/em>\u00a0ou\u00a0<em>ela<\/em>.<\/p>\n<p>XXY \u00e9 um filme argentino, ganhador de v\u00e1rios pr\u00eamios, realizado por Luc\u00eda Puenzo, em 2007. A estrat\u00e9gia da narrativa pode ser chamada, n\u00e3o por acaso, como aquela de um \u201csegredo\u201d que vai se revelando ao longo da mesma. Alex, adolescente de 15 anos, possui os caracteres prim\u00e1rios masculinos e femininos: a intersexualidade \u00e9 seu segredo assim como o de sua fam\u00edlia. \u00c0 parte o equ\u00edvoco do t\u00edtulo &#8211; XXY refere-se \u00e0 S\u00edndrome de Klinefelter e das pol\u00eamicas provocadas por tal confus\u00e3o -, o argumento mostra um casal dividido em rela\u00e7\u00e3o ao \u201cproblema de elei\u00e7\u00e3o do sexo\u201d d* adolescente, mas, para al\u00e9m desse aspecto, nos exp\u00f5e a perguntas sobre o sujeito e sua rela\u00e7\u00e3o com a ambiguidade sexual, com o sexo e o amor. Aceder a essas quest\u00f5es ser\u00e1 um movimento lento, tal como parece ser a inten\u00e7\u00e3o da cineasta: um peixinho hermafrodita no gozo de sua in\u00fatil beleza, desenhos de bonecas providas do \u00f3rg\u00e3o masculino, enfim, met\u00e1foras desenhadas pela c\u00e2mera. Logo, a repentina pergunta de Alex a \u00c1lvaro, no primeiro instante em que se viram:\u00a0<em>\u201cVoc\u00ea quer transar comigo? Nunca transei na vida\u201d<\/em>.<\/p>\n<p>\u00c1lvaro \u00e9 igualmente adolescente, filho do casal que chega como visita, com um prop\u00f3sito claro: na condi\u00e7\u00e3o de cirurgi\u00e3o, o pai de \u00c1lvaro tem a tarefa de convencimento do pai de Alex dos benef\u00edcios da cirurgia pl\u00e1stica \u201cnormalizadora\u201d. Chegar\u00e1 a faz\u00ea-lo? E a cirurgia \u00e9 de ordem trans (transexuais, transg\u00eanero &#8211; que querem mudar de um sexo a outro) ou de ordem intersexual (na solu\u00e7\u00e3o da ambiguidade)? S\u00e3o dois campos distintos. No filme, trata-se de problemas com a diferencia\u00e7\u00e3o do sexo: no in\u00edcio apenas sabemos que h\u00e1 rem\u00e9dios no banheiro para neutralizar os sinais de viriliza\u00e7\u00e3o. Sejam problemas com a ambiguidade ou aqueles da identidade de gen\u00earo, ambos indicam a problem\u00e1tica da sexua\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Quem define, em tempos atuais, o sexo de um sujeito nascido intersexual?<\/p>\n<figure id=\"attachment_5658975\" aria-describedby=\"caption-attachment-5658975\" style=\"width: 300px\" class=\"wp-caption alignright\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-5658975\" src=\"http:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/gunther-uecker-300x300.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/gunther-uecker-300x300.jpg 300w, https:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/gunther-uecker-150x150.jpg 150w, https:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/gunther-uecker-768x767.jpg 768w, https:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/gunther-uecker-1024x1024.jpg 1024w, https:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/gunther-uecker-274x274.jpg 274w, https:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/gunther-uecker-1170x1168.jpg 1170w, https:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/gunther-uecker-50x50.jpg 50w, https:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/gunther-uecker-570x570.jpg 570w, https:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/gunther-uecker-370x370.jpg 370w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-5658975\" class=\"wp-caption-text\">G\u00fcnther Uecker<\/figcaption><\/figure>\n<p>A pr\u00e1tica m\u00e9dica ocidental de \u201ccorrigir\u201d precocemente, via cirurgia, o rec\u00e9m-nascido portador de ambiguidade sexual assim que estudos fisiol\u00f3gicos, hormonais, morfol\u00f3gicos, determinam qual o sexo que melhor lhe conviria, passou a ser questionada pelas associa\u00e7\u00f5es de defesa dos direitos dos intersexuais, a partir dos anos 90. Elas se colocam a favor de que um sexo seja atribuido ao rec\u00e9m nascido, por\u00e9m que lhe seja reservado o direito de elei\u00e7\u00e3o, quando adulto.Portanto, nada de cirurgias, consideradas mutiladoras. O debate se torna mais \u00e1rduo porque os argumentos daqueles que exercem a medicina nesse campo respondem com o sofrimento emocional e ps\u00edquico das fam\u00edlias e que a decis\u00e3o pela n\u00e3o determina\u00e7\u00e3o do sexo via ci\u00eancia seria uma desvaloriza\u00e7\u00e3o desumana daquele sofrimento. A tr\u00e9plica nesse debate, feita pelas associa\u00e7\u00f5es, \u00e9 que muitas vezes a defini\u00e7\u00e3o do sexo pela ci\u00eancia propicia uma futura discord\u00e2ncia experimentada pelo sujeito. Haveria, nesses casos, uma reivindica\u00e7\u00e3o \u00e0 harmonia e plenitude sexual a partir dos direitos humanos? Por outro lado, h\u00e1 relatos de experi\u00eancias nas quais, a posteriori, surgem demandas de novas cirurgias de revers\u00e3o do sexo atribuido, numa realiza\u00e7\u00e3o da suposta harmonia.<\/p>\n<p>XXY prop\u00f5e uma pergunta essencial: na intersexualidade h\u00e1 um for\u00e7amento \u00e0 elei\u00e7\u00e3o? A narrativa funciona como tentativa de resposta. A fam\u00edlia de Alex sai de Buenos Aires, onde el* nasceu e busca ref\u00fagio numa isolada vila da costa uruguaia &#8211; lugar n\u00e3o nomeado &#8211; \u201cpara fugir de que todos os idiotas do mundo se pusessem a opinar\u201d. O pai, bi\u00f3logo marinho, acredita que a leitura de livros como\u00a0<em>\u201cA origem do sexo\u201d<\/em>\u00a0ajudar\u00e1 a filha a saber daquilo que se passa com ela. Com um posicionamento ortodoxo e prote\u00e7\u00e3o desmesurada \u00e0 filha \u201cque \u00e9 uma menina perfeita\u201d, ele n\u00e3o cede ao desejo de sua mulher de que se retire da filha \u201co que sobra\u201d, para que ela siga sendo uma mulher.<\/p>\n<p>O que \u201csobra\u201d no corpo de Alex \u2013 e aqui n\u00e3o h\u00e1 como n\u00e3o se lembrar de Alexina B, um dos nomes de Herculine Barbin, resgastada das trevas por Michel Foucault \u2013 \u00e9 o \u00f3rg\u00e3o de gozo na passagem ao ato que * personagem pratica, no for\u00e7amento do ato sexual com \u00c1lvaro. Para esse jovem, o impacto \u00e9 proporcional \u00e0 viol\u00eancia exercida por Alex, e \u00e9 irradiado em duas dire\u00e7\u00f5es: 1- acreditara que transaria com uma mulher e, n\u00e3o sendo isso o que acontecera, 2- experimenta um gozo novo, que o divide.<\/p>\n<p>Este momento do filme \u00e9 exemplar como ilustra\u00e7\u00e3o do traum\u00e1tico que \u00e9, para o ser falante, confrontar-se com o gozo pr\u00f3prio, enfrentar-se a esse real em que as palavras n\u00e3o socorrem: a irrup\u00e7\u00e3o de choro para os jovens revela a dimens\u00e3o de desamparo a que sucubem no momento em que \u201cdeixam de sonhar\u201d, como disse Lacan. Talvez nos seja permitido perguntar se, atrav\u00e9s das interpreta\u00e7\u00f5es juvenis, o que se quer demonstrar \u00e9 que se trata de ir mais al\u00e9m da intersexualidade e que a elei\u00e7\u00e3o do sexo situa-se mais al\u00e9m da identifica\u00e7\u00e3o a uma categoria homem\/mulher: o que est\u00e1 em jogo, subjetivamente, \u00e9 a elei\u00e7\u00e3o do tipo de gozo.<\/p>\n<figure id=\"attachment_5658974\" aria-describedby=\"caption-attachment-5658974\" style=\"width: 260px\" class=\"wp-caption alignright\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-5658974\" src=\"http:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/tenmyouva-hisashi-260x300.jpg\" alt=\"\" width=\"260\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/tenmyouva-hisashi-260x300.jpg 260w, https:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/tenmyouva-hisashi-274x316.jpg 274w, https:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/tenmyouva-hisashi.jpg 347w\" sizes=\"auto, (max-width: 260px) 100vw, 260px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-5658974\" class=\"wp-caption-text\">Tenmyouya Hisashi<\/figcaption><\/figure>\n<h4>Sexua\u00e7\u00e3o:<\/h4>\n<p>Em determinada cena, \u00c1lvaro pergunta a Alex:\u00a0<em>&#8220;Que voc\u00ea \u00e9? Homem ou mulher?&#8221;<\/em>\u00a0e obt\u00e9m como resposta:\u00a0<em>\u201cSou as duas coisas\u201d<\/em>. Perplexo, diz:\u00a0<em>\u201cIsto n\u00e3o pode ser!\u201d<\/em>\u00a0e ouve:\u00a0<em>\u201cVoc\u00ea vai me dizer agora o que posso ou n\u00e3o ser?\u201d<\/em>N\u00e3o, \u00c1lvaro n\u00e3o poderia mesmo dizer a Alex o que poderia ser ou n\u00e3o, porque a sexua\u00e7\u00e3o, tal como Lacan nos disse, \u00e9 outra coisa do que, na linguagem comum, falamos em\u00a0<em>\u201cassumir-se\u201d<\/em>\u00a0ou\u00a0<em>\u201csair do arm\u00e1rio\u201d<\/em>. A\u00a0<em>assun\u00e7\u00e3o<\/em>, para a psican\u00e1lise, diz respeito \u00e0 implica\u00e7\u00e3o subjetiva do sexo a partir de uma inscri\u00e7\u00e3o a respeito do significante f\u00e1lico \u2013 h\u00e1 a possibilidade de recusa dessa inscri\u00e7\u00e3o! &#8211; efetuando-se uma significa\u00e7\u00e3o no encontro do corpo com aquele significante. Vale lembrar o corpo al\u00e9m de sua condi\u00e7\u00e3o de imagem no espelho, ainda que seja em relac\u00e3o ao olhar do Outro, mas tom\u00e1-lo como corpo vivo, er\u00f3geno, corpo de gozo. As f\u00f3rmulas que Lacan chamou de sexua\u00e7\u00e3o ensinam que masculinidade e feminilidade s\u00e3o elei\u00e7\u00f5es de gozo inconscientes. A resposta de Alex, recusando-se a posicionar-se como homem ou mulher, independentemente de que sua anatomia \u201cfacilite\u201d ou n\u00e3o a escolha, n\u00e3o inviabiliza, pela l\u00f3gica das f\u00f3rmulas da sexua\u00e7\u00e3o, que se sit\u00fae frente a seu gozo, seja ele todo f\u00e1lico ou n\u00e3o\u2013todo f\u00e1lico. Parece esclarecedora a passagem que tomo emprestada de \u00c9va Pigois que diz: \u201cFace \u00e0 problem\u00e1tica contempor\u00e2nea colocada pela intersexualidade, a psican\u00e1lise deve, claro, escutar os pensamentos emergentes, mas ela deve, sobretudo, preservar um lugar para o inesperado, o acidente que revela o\u00a0<em>falasser<\/em>\u00a0e sua diferen\u00e7a: mesmo no genoma, h\u00e1 lugar para o singular\u201d<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Maria Rita Guimar\u00e3es A perspectiva pela qual o filme XXY, &#8211; em debate no encontro do CINECIEN\u2013MG em 17\/8\/2016 &#8211; nos interessou, foi a de retratar, justamente na adolesc\u00eancia, os impasses trazidos pela sexualidade, supostamente complexificada por uma anatomia \u201ccompleta\u201d, ou seja, sem um destino anat\u00f4mico que marcasse- mesmo imaginariamente- , uma identidade como\u00a0ele\u00a0ou\u00a0ela. 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