{"id":5658981,"date":"2018-11-28T19:19:19","date_gmt":"2018-11-28T21:19:19","guid":{"rendered":"http:\/\/ciendigital.com.br\/?p=5658981"},"modified":"2018-11-28T19:24:35","modified_gmt":"2018-11-28T21:24:35","slug":"o-adolescente-infrator-e-o-usufruto-do-sistema-socioeducativo-1","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ciendigital.com.br\/index.php\/2018\/11\/28\/o-adolescente-infrator-e-o-usufruto-do-sistema-socioeducativo-1\/","title":{"rendered":"O adolescente infrator e o usufruto do sistema socioeducativo. [1]"},"content":{"rendered":"<div class=\"pdfprnt-buttons pdfprnt-buttons-post pdfprnt-top-right\"><a href=\"https:\/\/ciendigital.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5658981?print=pdf\" class=\"pdfprnt-button pdfprnt-button-pdf\" target=\"_blank\" ><\/a><a href=\"https:\/\/ciendigital.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5658981?print=print\" class=\"pdfprnt-button pdfprnt-button-print\" target=\"_blank\" ><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/plugins\/pdf-print\/images\/print.png\" alt=\"image_print\" title=\"Conte\u00fado de impress\u00e3o\" \/><\/a><\/div><h6>Ely Silva<\/h6>\n<p>O presente texto busca discorrer sobre o lugar do saber e do pensamento da adolesc\u00eancia em sua rela\u00e7\u00e3o com as institui\u00e7\u00f5es do sistema socioeducativo<a id=\"_ftn3\" href=\"#ftn3\">[3]<\/a>\u00a0brasileiro. Passados mais de vinte anos de vig\u00eancia do Estatuto da Crian\u00e7a e do Adolescente, faz-se necess\u00e1rio interrogar se as novas pr\u00e1ticas p\u00f3s-estatuto conseguiram romper com a concep\u00e7\u00e3o antiga, onde o adolescente era \u201cmenor\u201d frente \u00e0s institui\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<figure id=\"attachment_5658983\" aria-describedby=\"caption-attachment-5658983\" style=\"width: 300px\" class=\"wp-caption alignright\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-5658983\" src=\"http:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/marcelo-sola-300x200.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"200\" srcset=\"https:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/marcelo-sola-300x200.jpg 300w, https:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/marcelo-sola-768x512.jpg 768w, https:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/marcelo-sola-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/marcelo-sola-274x183.jpg 274w, https:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/marcelo-sola-1170x780.jpg 1170w, https:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/marcelo-sola.jpg 1417w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-5658983\" class=\"wp-caption-text\">Marcelo Sol\u00e1<\/figcaption><\/figure>\n<h4>I &#8211; A adolesc\u00eancia:<\/h4>\n<p>Freud (1905\/1969) decerto tinha suas raz\u00f5es para adotar o termo puberdade. Era um termo que porta a significa\u00e7\u00e3o de algo que est\u00e1 por vir, tanto no que concerne \u00e0s mudan\u00e7as fisiol\u00f3gicas, quanto de processos que marcam a temporalidade da sexualidade e a emancipa\u00e7\u00e3o das figuras paternas. Trata-se de uma temporalidade que pode preparar o sujeito para o momento posterior, a vida adulta e a elei\u00e7\u00e3o do objeto sexual. Na puberdade, escreve Freud, h\u00e1 intensa eclos\u00e3o de fluxos libidinais que deslocam o sujeito da sua posi\u00e7\u00e3o infantil, e seria por meio do saber, das fantasias, do pensamento que o ele buscar\u00e1 responder \u00e0s consequ\u00eancias da irrup\u00e7\u00e3o dessa energia em seu corpo e no inconsciente.<\/p>\n<p>Lacan, em\u00a0<em>Introdu\u00e7\u00e3o Te\u00f3rica \u00e0s Fun\u00e7\u00f5es da Psican\u00e1lise em Criminologia<\/em>, optou por distinguir a puberdade da adolesc\u00eancia enfatizando que a adolesc\u00eancia \u00e9 uma resposta frente aos acontecimentos da puberdade. Evidentemente, se h\u00e1 um tempo em que a f\u00f3rmula lacaniana de que n\u00e3o h\u00e1 rela\u00e7\u00e3o sexual se p\u00f5e em toda sua contund\u00eancia \u00e9 na adolesc\u00eancia. Lacan exp\u00f4s esta quest\u00e3o quando declarou que o sexual tem rela\u00e7\u00e3o com a fantasia que cada um construiu e n\u00e3o diretamente com o outro, o semelhante.<\/p>\n<p>Mas o que fazer quando nosso desejo n\u00e3o \u00e9 concorde com o desejo do outro? E quando n\u00e3o nos sentimos amados por quem nos ama, o que inventar? O que inventar quando o corpo p\u00fabere se entrega ao gozo sem que o sujeito ache ali um \u201cq\u201d para o pr\u00f3prio desejo? Venturas e desventuras da sexualidade. A sexualidade, com seus fluxos e influxos, fura toda nossa forma de explica\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica, fazendo-nos perguntar sobre o\u00a0<em>sentimento do mundo<\/em>. Frente ao desamparo simb\u00f3lico, a adolescente comete um ato infracional, e, chegando ao atendimento, se pergunta: \u201cfiz dezoito anos&#8230; e agora?&#8230; n\u00e3o sei ser adulta!\u201d<a id=\"_ftn4\" href=\"#ftn4\">[4]<\/a>. Ela estava \u00e0s voltas com poucos recursos simb\u00f3licos para lidar com o novo, que, dentre outras coisas, se referia \u00e0 escolha amorosa.<\/p>\n<p>Na adolesc\u00eancia \u00e9 importante que o sujeito possa se valer dos dispositivos p\u00fablicos, do Simb\u00f3lico para construir suas pr\u00f3prias solu\u00e7\u00f5es quanto \u00e0s quest\u00f5es que enfrenta.<\/p>\n<p>Que diga Clarisse:<\/p>\n<blockquote><p>Quem diz que me entende nunca quis saber [&#8230;]\nE Clarice est\u00e1 trancada no banheiro<br \/>\nE faz marcas no seu corpo com seu pequeno canivete<br \/>\nDeitada no canto, seus tornozelos sangram<br \/>\nE a dor \u00e9 menor do que parece<br \/>\nQuando ela se corta ela esquece<br \/>\nQue \u00e9 imposs\u00edvel ter da vida calma e for\u00e7a<br \/>\nViver em dor, o que ningu\u00e9m entende<br \/>\nTentar ser forte a todo e cada amanhecer<br \/>\nUma de suas amigas j\u00e1 se foi<br \/>\nQuando mais uma ocorr\u00eancia policial<br \/>\nNingu\u00e9m entende, n\u00e3o me olhe assim<br \/>\nCom este semblante de bom samaritano<br \/>\nCumprindo o seu dever, como se eu fosse doente<br \/>\nComo se toda essa dor fosse diferente, ou inexistente<br \/>\nNada existe pra mim, n\u00e3o tente<br \/>\nVoc\u00ea n\u00e3o sabe e n\u00e3o entende<\/p>\n<p>(Renato Russo, Clarisse, 1997)<\/p><\/blockquote>\n<p>Ora, quando a sexualidade se coloca e o sujeito \u00e9 convocado a responder, h\u00e1 um corte em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s respostas um pouco mais garantidas e certas do mundo infantil que lhe davam um lugar em rela\u00e7\u00e3o ao Outro. Na contemporaneidade, todavia, s\u00e3o menos por meio dos conflitos &#8211; como esbo\u00e7a Clarisse &#8211; que os adolescentes tratam o ponto que o traumatiza. Atualmente os atos tomam o lugar da palavra. Assim, as solu\u00e7\u00f5es encontradas pelos sujeitos trilham consequentemente o caminho inverso:\u00a0<em>do ato ao conflito<\/em>.<\/p>\n<p>Mas continuam sendo os adolescentes a nos ensinar como conectar e reconectar o gozo do corpo num tempo de um simb\u00f3lico flu\u00eddico, \u201cl\u00edquido\u201d. \u00c9 preciso conectar o gozo por vezes intruso, outras vezes solto, desamarrado de um encadeamento maior. Assim, blogs, WhatsApp, peda\u00e7os de palavras conectam estados, emo\u00e7\u00f5es e impress\u00f5es e parecem aproximar grupos, compondo verdadeiras comunidades de comunica\u00e7\u00e3o virtual onde \u00e0 Face virtual se conecta o book (livros, discursos, tela de letras), possibilitando dividir e compartilhar as diferentes l\u00ednguas do mundo.<\/p>\n<p>O p\u00fabere passa a dominar certos assuntos, construir saberes e forjar um universo simb\u00f3lico em torno das brincadeiras, dos jogos, do amor, dos estudos, da m\u00fasica, da rela\u00e7\u00e3o com o grupo ou gangues. S\u00e3o com tais recursos, em alguns casos prec\u00e1rios, que buscam dar tratamento \u00e0 libido, na medida em que a engaja num campo simb\u00f3lico mais amplo, menos narc\u00edsico.<\/p>\n<p>Em pesquisa recente, Lima (2014) observa que os blogs s\u00e3o fontes de encontros, de produ\u00e7\u00e3o de discursos, que, quando n\u00e3o valem como missivas amorosas, n\u00e3o deixam de enredar os adolescentes num terreno discursivo, de constru\u00e7\u00e3o ficcional, que auxilia a compartilhar a transi\u00e7\u00e3o da adolesc\u00eancia.<\/p>\n<figure id=\"attachment_5658982\" aria-describedby=\"caption-attachment-5658982\" style=\"width: 300px\" class=\"wp-caption alignright\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-5658982\" src=\"http:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/luis-hermano-300x224.png\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"224\" srcset=\"https:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/luis-hermano-300x224.png 300w, https:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/luis-hermano-768x574.png 768w, https:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/luis-hermano-274x205.png 274w, https:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/luis-hermano.png 800w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-5658982\" class=\"wp-caption-text\">Luis Hermano<\/figcaption><\/figure>\n<h4>II &#8211; Mas o que dizer de nosso campo socioeducativo e da justi\u00e7a penal juvenil? S\u00e3o tamb\u00e9m perme\u00e1veis \u00e0 participa\u00e7\u00e3o, favorecendo a transi\u00e7\u00e3o da adolesc\u00eancia para cada adolescente?<\/h4>\n<p>O Estatuto da Crian\u00e7a e do Adolescente instituiu para a adolesc\u00eancia o direito ao\u00a0<em>desenvolvimento<\/em>. O c\u00f3digo, portanto, estabelece o respeito ao\u00a0<em>princ\u00edpio da condi\u00e7\u00e3o peculiar de pessoa em desenvolvimento<\/em>. Este \u00e9 um princ\u00edpio que no campo jur\u00eddico orienta a norma, as decis\u00f5es e interpreta\u00e7\u00f5es, bem como auxilia na constru\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica p\u00fablica.<\/p>\n<p>A este respeito, Miranda (1999) demonstra que a psicologia referendou a ideia de pensar a crian\u00e7a e o adolescente como sujeito ativo e capaz de responder \u2013 por meio de discurso fundado na concep\u00e7\u00e3o de autonomia (legado da antropologia) \u2013 mas, concomitantemente, foi respons\u00e1vel por perpetuar a no\u00e7\u00e3o de um sujeito ainda em evolu\u00e7\u00e3o e imaturo, que decorreu da influ\u00eancia das teorias funcionais, comportamentais e desenvolvimentistas da corrente norte-americana. O autor assinala que a ideia de um indiv\u00edduo imaturo, a se desenvolver, j\u00e1 estava presente desde o s\u00e9culo XIX.<\/p>\n<p>Santana (2013), por seu turno, constatou a franca dificuldade de interlocu\u00e7\u00e3o entre os operadores do direito e o adolescente infrator nos momentos da audi\u00eancia judicial. Este autor identificou a cena jur\u00eddica, traduzida em especial pelas audi\u00eancias, como uma \u201ccena muda\u201d. O adolescente n\u00e3o se pronuncia. Para Santana, haveria um descompasso sem\u00e2ntico<a id=\"_ftn5\" href=\"#ftn5\">[5]<\/a>\u00a0do sistema de justi\u00e7a frente \u00e0 linguagem do adolescente infrator, principalmente quando o sistema de justi\u00e7a se apega \u201c\u00e0 veridicidade e a for\u00e7a das narra\u00e7\u00f5es constru\u00eddas ao longo do processo\u201d (p. 16).<\/p>\n<p>Nesse sentido, se o campo da justi\u00e7a juvenil encontra dificuldades e embara\u00e7os com o que est\u00e1 em jogo na transgress\u00e3o, maior ser\u00e1 seu apego \u00e0s certezas de seus saberes e, frente ao formalismo nada educativo desse sistema, o sil\u00eancio aparece como resposta do adolescente.<\/p>\n<p>A importa\u00e7\u00e3o malograda de teorias da psicologia e da educa\u00e7\u00e3o pode ter deixado um resto de uma suposta incapacidade atrelada \u00e0 no\u00e7\u00e3o de adolesc\u00eancia. Assim, as conclus\u00f5es extra\u00eddas por Santana parecem evidenciar na \u201ccena muda\u201d as consequ\u00eancias desse resto, dessa importa\u00e7\u00e3o, em torno do pressuposto da incapacidade juvenil na pr\u00f3pria pr\u00e1tica institucional.<\/p>\n<p>Os saberes da psicologia, das disciplinas cient\u00edficas, do sistema penal juvenil, ao falar do adolescente, v\u00e3o resultar numa suposta no\u00e7\u00e3o de pessoa pela metade, n\u00e3o desenvolvida, e v\u00e3o criar como consequ\u00eancia uma adolesc\u00eancia deficit\u00e1ria, uma vez que o pensamento, a subjetividade do adolescente e sua apropria\u00e7\u00e3o da linguagem do sistema de justi\u00e7a (onde deveria ser part\u00edcipe) pouco t\u00eam lugar nessa cena. A cena pouco o leva a mudar de posi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Embora seja importante considerar a necessidade de prote\u00e7\u00e3o integral do princ\u00edpio do \u201cdesenvolvimento\u201d, conforme estabelece o texto legal, parece-nos que o desdobramento deste conceito presente na pr\u00e1tica socioeducativa se realiza de forma paradoxal. O sujeito em desenvolvimento que vigora no sistema jur\u00eddico pode portar um resto de tempos antigos, de uma concep\u00e7\u00e3o de adolesc\u00eancia n\u00e3o h\u00e1bil para se apropriar das institui\u00e7\u00f5es encarregadas de seu cuidado. Assim, diante dessa gigantesca engrenagem, que come\u00e7a desde a abordagem policial at\u00e9 a entrada do adolescente em medida socioeducativa, nosso adolescente se coloca muito mais numa posi\u00e7\u00e3o de defesa do que lidando com mecanismos que lhe permitam fazer um melhor dos dispositivos.<\/p>\n<p>Conforme escreve Garcia (2015, p. 33): \u201cNosso ECA n\u00e3o resistiu ao sistema. O sistema passou a ser o \u00fanico referente em se tratando do jovem infrator\u201d. Fiquei me perguntando como escutar o que o Dr. C\u00e9lio nos disse com essa assertiva, discutida em momentos de interlocu\u00e7\u00e3o de trabalho.<\/p>\n<p>Ora, as institui\u00e7\u00f5es, calcadas num discurso humanista, lidam com a regra, que se aplica a todos (todos iguais). Mas a solu\u00e7\u00e3o de cada sujeito &#8211; ainda mais quanto se trata de atos que vem no lugar de uma produ\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica, \u00e9 singular. Conforme Clarisse: \u201cquem disse que me entende nunca quis saber\u201d.<\/p>\n<p>Para que haja usufruto do campo socioeducativo, somente dando lugar a linguagem, ao pensamento de Clarisse. Caso contr\u00e1rio, o campo socioeducativo gira em seu formalismo, com pouca margem para lidar com o excesso presentificado no ato infracional ou nas quest\u00f5es este suscita.<\/p>\n<h4>III &#8211; \u00c9 preciso ter uma a\u00e7\u00e3o mais afirmativa em rela\u00e7\u00e3o ao saber e ao pensamento de nossos adolescentes<\/h4>\n<p>Tendo em vista que usufruir, no direito, \u00e9 ter posse, mas n\u00e3o a propriedade, conforme observa Guerra<a id=\"_ftn6\" href=\"#ftn6\">[6]<\/a>, uma primeira conclus\u00e3o nos faz pensar que o sistema penal juvenil e o campo socioeducativo, em seu car\u00e1ter formal, seriam pouco afeitos ao uso? do adolescente em conflito com a lei.<\/p>\n<p>O usufruto do adolescente do campo socioeducativo ainda \u00e9 fr\u00e1gil.<\/p>\n<p>Se assim for, a imaturidade recai nas pol\u00edticas p\u00fablicas, no campo da justi\u00e7a juvenil, quando estes pouco se abrem \u00e0 forma-de-vida do adolescente infrator. E n\u00e3o h\u00e1 como o sujeito buscar as m\u00ednimas solu\u00e7\u00f5es frente ao ato infracional se ele n\u00e3o usufruir do campo encarregado de tratar sua quest\u00e3o com a Lei. Sabemos que o adolescente infrator esburaca o Simb\u00f3lico e isto talvez seja a fonte da maior dificuldade em se tratando de promover a sua\u00a0<em>prote\u00e7\u00e3o integral<\/em>\u00a0nas institui\u00e7\u00f5es. Uma vez que o ato infracional desordena o que est\u00e1 estabelecido, precisamos pensar em institui\u00e7\u00f5es mais abertas, que permitam maior participa\u00e7\u00e3o para que o sujeito possa fazer a travessia da adolesc\u00eancia.<\/p>\n<p>Quando lidamos com situa\u00e7\u00f5es de agress\u00e3o de guarda municipal a um adolescente simplesmente por este tomar banho no chafariz da cidade; quando nos deparamos com posi\u00e7\u00f5es institucionais que determinam a retirada dos filhos rec\u00e9m-nascidos de m\u00e3es usu\u00e1rias de crack e maconha, sem sequer possibilitar ouvi-las como m\u00e3es; quando um adolescente de 14 anos \u00e9 detido por rabiscar a parede da sala de aula onde estudava com a ponta de um galho de \u00e1rvore; e quando a \u201ccomiss\u00e3o da bala\u201d prevalece no debate em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 redu\u00e7\u00e3o da maioridade penal, torna-se necess\u00e1rio escutar o socioeducativo.<\/p>\n<p>Fica a perplexa indaga\u00e7\u00e3o de um adolescente: caso pud\u00e9ssemos perguntar utilizando nossas palavras para dizer da perplexidade de um adolescente, talvez o fiz\u00e9ssemos assim. Como posso recorrer ao socioeducativo para resolver as quest\u00f5es referentes \u00e0 lei, \u00e0 rela\u00e7\u00e3o com a cidade, \u00e0 rela\u00e7\u00e3o com a fam\u00edlia, se este se mostra, desde a comunidade onde resido, repressor e avesso \u00e0 participa\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p>De fato, pens\u00e1vamos \u2013 j\u00e1 fomos adolescentes \u2013 num campo onde seria poss\u00edvel ao sujeito encontrar v\u00e1rios ambientes para discutir suas quest\u00f5es (tamb\u00e9m de forma espont\u00e2nea), sejam elas de ordem territorial, local, familiar, patrimonial, de sobreviv\u00eancia. Seria um campo aberto, mais poroso, por que n\u00e3o?<a id=\"_ftn7\" href=\"#ftn7\">[7]<\/a>\u00a0S\u00f3 assim estar\u00edamos mais propensos a extrair conseq\u00fc\u00eancias do pensamento do jovem infrator, pois, conforme afirma Badiou (2007), mesmo quando estamos diante de atos que carregam algum grau de viol\u00eancia, como em alguns atos infracionais, que podem trazer preju\u00edzos aos outros e ao pr\u00f3prio sujeito, h\u00e1 um pensamento que os sustenta. Numa outra perspectiva, Arendt j\u00e1 demonstrou a import\u00e2ncia do pensamento para a pr\u00e1tica pol\u00edtica.<\/p>\n<p>\u00c9 poss\u00edvel \u00e0s institui\u00e7\u00f5es de direito juvenil dar maior \u00eanfase ao subjetivo, e n\u00e3o somente ao jur\u00eddico. Somente um pensamento gen\u00e9rico poderia nos auxiliar a lidar com o adolescente infrator, assinala Garcia (2011). Os dispositivos legais (voltados ao adolescente infrator) talvez pudessem incluir ou construir mecanismos propensos aos singularizados modos de apropria\u00e7\u00e3o, de forma mais interativa, que favore\u00e7a o engajamento do sujeito. Teria o socioeducativo que inserir em sua pauta de debate a ado\u00e7\u00e3o de pr\u00e1ticas que contemplem na express\u00e3o do adolescente possibilidade de legitimidade e validade, de considera\u00e7\u00e3o pol\u00edtica.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<hr \/>\n<div class=\"footer-notes\">\n<h6>Notas:<\/h6>\n<h6><a id=\"ftn1\" href=\"#_ftn1\">1<\/a>\u00a0Este trabalho \u00e9 singelamente dedicado ao C\u00e9lio Garcia.<\/h6>\n<h6><a id=\"ftn2\" href=\"#_ftn2\">2<\/a>\u00a0Graduado em Psicologia pelo Unicentro FUMEC. Mestrado em Psicologia pela UFMG. Psicanalista praticante. Trabalhou por doze anos no campo socioeducativo em atendimento a adolescentes e fam\u00edlias e na supervis\u00e3o cl\u00ednica aos profissionais da \u00e1rea.<\/h6>\n<h6><a id=\"ftn3\" href=\"#_ftn3\">3<\/a>\u00a0Sistema socioeducativo refere-se \u00e0s institui\u00e7\u00f5es p\u00fablicas respons\u00e1veis por assegurar e garantir a promo\u00e7\u00e3o de direitos a inf\u00e2ncia e a adolesc\u00eancia: Sistema de Sa\u00fade, Educa\u00e7\u00e3o, Assist\u00eancia Social, Seguran\u00e7a e \u00f3rg\u00e3os que comp\u00f5em o poder judici\u00e1rio.<\/h6>\n<h6><a id=\"ftn4\" href=\"#_ftn4\">4<\/a>\u00a0Fragmento apresentado em circunst\u00e2ncia de trabalho na rede socioeducativa.<\/h6>\n<h6><a id=\"ftn5\" href=\"#_ftn5\">5<\/a>\u00a0A sem\u00e2ntica, como prop\u00f5e Maingueneau, concebe o campo discursivo menos em sua capacidade de os enunciados proferirem a verdade, mas na capacidade de campos discursivos produzirem \u201cefeitos de sentido de verdade\u201d (Maingueneau apud Miranda, 1999, p. 13).<\/h6>\n<h6><a id=\"ftn6\" href=\"#_ftn6\">6<\/a>\u00a0Contribui\u00e7\u00e3o advinda de uma interlocu\u00e7\u00e3o com Andr\u00e9a Guerra.<\/h6>\n<h6><a id=\"ftn7\" href=\"#_ftn7\">7<\/a>\u00a0Agrade\u00e7o a Fernanda Otoni de Barros-Brisset e ao professor Oswaldo Fran\u00e7a Neto pela sempre proveitosa interlocu\u00e7\u00e3o.<\/h6>\n<hr \/>\n<h6>Refer\u00eancias:<\/h6>\n<h6>BADIOU,A. (2007).\u00a0<em>O s\u00e9culo<\/em>\u00a0(C. F. Silveira, trad.). Aparecida. S\u00e3o Paulo: Ideias e Letras.<\/h6>\n<h6>Dado Villa-Lobos \/\u00a0Renato Russo. (1997). Clarisse. Album\u00a0<em>Uma Outra Esta\u00e7\u00e3o<\/em>. Gravadora EMI.<\/h6>\n<h6>FREUD, S. (1969). A interpreta\u00e7\u00e3o dos sonhos. In\u00a0<em>Edi\u00e7\u00e3o standard brasileira das obras psicol\u00f3gicas completas de Sigmund Freud<\/em>\u00a0(J. Salom\u00e3o, trad., vol. 4). Rio de Janeiro: Imago. (Trabalho original publicado em 1900).<\/h6>\n<h6>_______, S. (1969). Tr\u00eas ensaios sobre a teoria da sexualidade. In\u00a0<em>Edi\u00e7\u00e3o standard brasileira das obras psicol\u00f3gicas completas de Sigmund Freud<\/em>\u00a0(J. Salom\u00e3o, trad., vol. 7, pp.123-250). Rio de Janeiro: Imago. (Trabalho original publicado em 1905).<\/h6>\n<h6>_______, S. (1969). Al\u00e9m do princ\u00edpio do prazer. In\u00a0<em>Edi\u00e7\u00e3o standard brasileira das obras psicol\u00f3gicas completas de Sigmund Freud<\/em>\u00a0(J. Salom\u00e3o, trad., vol. 18, pp. 185-212. Rio de Janeiro: Imago (Trabalho original publicado em 1920).<\/h6>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ely Silva O presente texto busca discorrer sobre o lugar do saber e do pensamento da adolesc\u00eancia em sua rela\u00e7\u00e3o com as institui\u00e7\u00f5es do sistema socioeducativo[3]\u00a0brasileiro. Passados mais de vinte anos de vig\u00eancia do Estatuto da Crian\u00e7a e do Adolescente, faz-se necess\u00e1rio interrogar se as novas pr\u00e1ticas p\u00f3s-estatuto conseguiram romper com a concep\u00e7\u00e3o antiga, onde&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":5658983,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[129,23],"tags":[119],"post_series":[],"class_list":["post-5658981","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-cien-digital-20","category-contribuicoes","tag-cien_digital_20","entry","has-media"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/ciendigital.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5658981","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/ciendigital.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/ciendigital.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ciendigital.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ciendigital.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=5658981"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/ciendigital.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5658981\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ciendigital.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/5658983"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/ciendigital.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=5658981"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/ciendigital.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=5658981"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/ciendigital.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=5658981"},{"taxonomy":"post_series","embeddable":true,"href":"https:\/\/ciendigital.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/post_series?post=5658981"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}