{"id":5659015,"date":"2018-11-28T19:42:27","date_gmt":"2018-11-28T21:42:27","guid":{"rendered":"http:\/\/ciendigital.com.br\/?p=5659015"},"modified":"2018-11-28T19:42:27","modified_gmt":"2018-11-28T21:42:27","slug":"fazer-se-um-corpo-na-adolescencia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ciendigital.com.br\/index.php\/2018\/11\/28\/fazer-se-um-corpo-na-adolescencia\/","title":{"rendered":"Fazer-se um corpo na adolesc\u00eancia"},"content":{"rendered":"<div class=\"pdfprnt-buttons pdfprnt-buttons-post pdfprnt-top-right\"><a href=\"https:\/\/ciendigital.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5659015?print=pdf\" class=\"pdfprnt-button pdfprnt-button-pdf\" target=\"_blank\" ><\/a><a href=\"https:\/\/ciendigital.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5659015?print=print\" class=\"pdfprnt-button pdfprnt-button-print\" target=\"_blank\" ><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/plugins\/pdf-print\/images\/print.png\" alt=\"image_print\" title=\"Conte\u00fado de impress\u00e3o\" \/><\/a><\/div><div class=\"alert-danger\">\n<figure id=\"attachment_5659016\" aria-describedby=\"caption-attachment-5659016\" style=\"width: 300px\" class=\"wp-caption alignright\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-5659016\" src=\"http:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/clara-ianni-300x214.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"214\" srcset=\"https:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/clara-ianni-300x214.jpg 300w, https:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/clara-ianni-274x195.jpg 274w, https:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/clara-ianni.jpg 702w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-5659016\" class=\"wp-caption-text\">Clara Ianni<\/figcaption><\/figure>\n<h6>Alexandre Stevens<\/h6>\n<\/div>\n<p>Escolhi apoiar-me em uma refer\u00eancia, \u00e0 qual\u00a0retornarei, que prov\u00e9m de um dos \u00faltimos semin\u00e1rios de Lacan, o semin\u00e1rio sobre Joyce, como temos costume de falar, ou seja, o Semin\u00e1rio XXIII,\u00a0<em>O Sinthoma<\/em><a id=\"_ftn1\" href=\"#ftn1\">[1]<\/a>.<\/p>\n<p>Antes, por\u00e9m, gostaria de colocar de uma maneira mais ampla a pergunta sobre o que \u00e9 \u201cfazer-se um corpo na adolesc\u00eancia\u201d. Assim, se podemos colocar essa pergunta \u00e9 porque h\u00e1 uma dificuldade com o corpo e a adolesc\u00eancia.<\/p>\n<p>Naturalmente j\u00e1 temos um corpo antes da adolesc\u00eancia, contudo algo se modifica com o aparecimento da puberdade, mas n\u00e3o somente isso. Algo muda, sobretudo, com o que Lacan, no seu pref\u00e1cio\u00a0\u00e0 pe\u00e7a de Wedekind,\u00a0<em>O despertar da primavera<\/em>, chama de \u201co despertar de seus sonhos.\u201d<a id=\"_ftn2\" href=\"#ftn2\">[2]<\/a><\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 a mesma coisa considerar que o corpo deve ser refeito porque h\u00e1 uma mudan\u00e7a biol\u00f3gica nele, ou que se refaz porque estes jovens sujeitos s\u00e3o levados a sonhar de outro modo \u201co despertar de seus sonhos\u201d; o despertar de seus pensamentos \u00e9 tamb\u00e9m o pensamento do Outro corpo.<\/p>\n<p>\u00c9 o que faz com que os adolescentes sejam levados a ter de abordar novamente essa quest\u00e3o sobre o corpo, em rela\u00e7\u00e3o\u00a0\u00e0 qual eles organizaram, afinal de contas, um certo n\u00famero de elementos, de fantasias, etc. O corpo como o corpo que se tem, aquele que se experimenta. Quando digo \u201cque se experimenta\u201d, isso quer dizer que goza. N\u00e3o \u00e9 apenas o corpo do qual se pode ter uma ideia, \u00e9 o corpo tal como ele \u00e9 experimentado. O que Lacan chama de gozo, \u00e9 o que se experimenta.<\/p>\n<p>Sabemos que Lacan nos levou a apreender o corpo como uma imagem. \u00c9 a primeira forma do corpo no ensino psicanal\u00edtico, inclusive em Freud. \u00c9 o que Lacan vai formular como o est\u00e1dio do espelho. Temos tamb\u00e9m o corpo como simb\u00f3lico, ou seja\u00a0, tal como ele \u00e9 tomado nos significantes da l\u00edngua na cultura.<\/p>\n<p>No seu curso do ano passado que se intitula \u201cFalar a l\u00edngua do corpo\u201d, \u00c9ric Laurent aponta a esse respeito\u00a0a disjun\u00e7\u00e3o do corpo e do vivo. O corpo, uma vez que incorporou o significante, ou seja,\u00a0que entrou na linguagem, torna-se uma superf\u00edcie onde o car\u00e1ter de vivo ou de morto \u00e9 secund\u00e1rio.<\/p>\n<figure id=\"attachment_5659017\" aria-describedby=\"caption-attachment-5659017\" style=\"width: 250px\" class=\"wp-caption alignright\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-5659017\" src=\"http:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/marina-rheingantz-250x300.png\" alt=\"\" width=\"250\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/marina-rheingantz-250x300.png 250w, https:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/marina-rheingantz-274x328.png 274w, https:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/marina-rheingantz.png 374w\" sizes=\"auto, (max-width: 250px) 100vw, 250px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-5659017\" class=\"wp-caption-text\">Marina Rheingantz<\/figcaption><\/figure>\n<p>A sepultura nos mostra isso: em sepulturas &#8211; Lacan desenvolve essa quest\u00e3o em v\u00e1rios momentos &#8211; o corpo n\u00e3o se torna nenhuma carni\u00e7a, mas pelo contr\u00e1rio, o corpo que a linguagem\u00a0<em>corpsificava<\/em>, como disse Lacan com um neologismo, ganha um estatuto diferente do organismo. Em \u201cRadiofonia\u201d Lacan observa que \u201ca sepultura antiga figura o pr\u00f3prio \u201cconjunto\u201d, a partir do qual se articula nossa l\u00f3gica mais moderna.\u201d O conjunto vazio das ossadas \u00e9 o elemento irredut\u00edvel pelo qual se ordenam, como elementos outros, os instrumentos do gozo &#8211; colares, copos, armas: mais subelementos\u00a0para enumerar o gozo do que\u00a0 para faz\u00ea-lo reingressar no corpo.\u201d<a id=\"_ftn3\" href=\"#ftn3\">[3]<\/a><\/p>\n<p>Sabemos que aqui ele faz refer\u00eancia a mais moderna l\u00f3gica porque para a l\u00f3gica matem\u00e1tica, todo conjunto, quaisquer que sejam os elementos que o constituam, apresenta o conjunto de seus subconjuntos. Se voc\u00ea tem um conjunto com dois elementos A e B , os subconjuntos s\u00e3o {A}, {B}, {AB} e \u2205 o conjunto vazio. O conjunto vazio \u00e9 sempre ao final inclu\u00eddo em todo conjunto. \u00c9 a partir desse conjunto vazio que Lacan vai formular o sujeito do inconsciente como tal. Portanto, o que ele situa na sepultura \u00e9 o elemento conjunto vazio do sujeito como s\u00e9rie de ossadas e elementos de gozo que o sujeito teve no curso de sua exist\u00eancia. O corpo \u00e9 a s\u00e9rie desses instrumentos de gozo.<\/p>\n<p>A prop\u00f3sito, poder\u00edamos nos perguntar se hoje, caso ainda se fizesse tais sepulturas, com o que ser\u00edamos enterrados: Iphone, t\u00e1bletes&#8230;? Estes instrumentos n\u00e3o tomam um sentido particular, eles somente podem ser enumerados: pode-se apenas fazer a lista da s\u00e9rie de objetos de gozo aos quais o sujeito se liga.<\/p>\n<p>Isso d\u00e1 uma indica\u00e7\u00e3o, uma primeira, sobre a quest\u00e3o do corpo na adolesc\u00eancia. Penso nos adolescentes, invadidos, \u00e0s vezes, por tais objetos. Quando digo os adolescentes, somos n\u00f3s, tamb\u00e9m: o iPhone, o t\u00e1blete, etc, n\u00f3s estamos permanentemente conectados neles. Mas um certo n\u00famero de adolescentes est\u00e1 extremamente conectado e, al\u00e9m disso, frequentemente em v\u00e1rias m\u00e1quinas ao mesmo tempo. Eu me coloquei a quest\u00e3o, ali\u00e1s, &#8211; porque acontece que eu tamb\u00e9m tenho dois adolescentes &#8211; eu os vejo tamb\u00e9m estando ao mesmo tempo em frente da televis\u00e3o, em comunica\u00e7\u00e3o com um amigo no iPhone e olhando no t\u00e1blete como terceira coisa.<\/p>\n<figure id=\"attachment_5659018\" aria-describedby=\"caption-attachment-5659018\" style=\"width: 188px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-5659018\" src=\"http:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/practice-makes-perfect-shahzia-188x300.jpg\" alt=\"\" width=\"188\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/practice-makes-perfect-shahzia-188x300.jpg 188w, https:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/practice-makes-perfect-shahzia-768x1226.jpg 768w, https:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/practice-makes-perfect-shahzia-641x1024.jpg 641w, https:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/practice-makes-perfect-shahzia-274x438.jpg 274w, https:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/practice-makes-perfect-shahzia.jpg 1000w\" sizes=\"auto, (max-width: 188px) 100vw, 188px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-5659018\" class=\"wp-caption-text\">SHAHZIA SIKANDER, Practice makes perfect, 2011<\/figcaption><\/figure>\n<p>Ent\u00e3o eu me perguntava \u2013 eles n\u00e3o est\u00e3o assim o tempo todo, fique tranquilo! \u2013 ser\u00e1 que eles est\u00e3o ligados demais, ou ser\u00e1 que eles conseguem, gra\u00e7as\u00a0a isso,\u00a0se desligarem? Porque n\u00e3o \u00e9 a mesma coisa que estar simplesmente\u00a0 vendo a televis\u00e3o ap\u00f3s o trabalho por toda a noite. Isso \u00e9 uma liga\u00e7\u00e3o fixa. N\u00e3o \u00e9 a mesma coisa que ter sua s\u00e9rie de objetos de gozo em que se pode passar de um\u00a0a outro.<\/p>\n<p>Se tomamos o corpo por seus tro\u00e7os de real do gozo, n\u00e3o se trata de lhes dar um sentido, trata-se de chegar a nome\u00e1-los para os sujeitos adolescentes que est\u00e3o muito agarrados, \u00e0s vezes, a seus objetos ou a jogos, numa esp\u00e9cie de adic\u00e7\u00e3o. Ainda temos jovens que s\u00e3o extremamente fixados aos jogos de v\u00eddeo.Temos esta patologia, que aparece mais no Jap\u00e3o do que aqui, do jovem que se mant\u00e9m completamente isolado em seu quarto, apenas com seus jogos. Nesses casos, o que se pode fazer? Nada al\u00e9m, justamente, de se interessar pelo objeto de gozo e fazer com que ele nomeie, desenvolva progressivamente o que lhe interessa nele. Para al\u00e9m da solid\u00e3o que ele experimenta, fazer com que palavras sejam colocadas, palavras sobre essa s\u00e9rie de tra\u00e7os de gozo vividos frequentemente com grande sentimento de solid\u00e3o.<\/p>\n<p>O corpo tem uma inclina\u00e7\u00e3o a querer gozar e \u00e9 preciso aceitar ocup\u00e1-lo um pouco para poder fazer outra coisa. Escutava recentemente estudantes me dizerem como eles estudam. H\u00e1 um deles que caminha quando estuda; outro que tinha parado de fumar e recome\u00e7a no momento da prova: isso o acalma. O corpo pede para ser acalmado, isto \u00e9, para ser ocupado, para que se possa, de um outro lado, pensar.<\/p>\n<p>Portanto, \u201cse fazer um corpo\u201d; o que \u00e9 um corpo? Como se pode aborda-lo?<\/p>\n<p>Lacan destacou v\u00e1rias vezes que um corpo, n\u00e3o o somos, n\u00f3s o temos. No discurso corrente, isso \u00e9 evidente. N\u00e3o se diz: \u201ceu sou esse corpo\u201d, se diz: \u201ctenho um corpo\u201d, \u201ceu tenho dor em tal lugar\u201d, etc. Fala-se do pr\u00f3prio corpo como de um \u201cter\u201d. A prop\u00f3sito, Jacques-Alain Miller enfatiza que o temos tanto que \u00e9 necess\u00e1rio se ocupar dele como de um objeto.<\/p>\n<figure id=\"attachment_5659019\" aria-describedby=\"caption-attachment-5659019\" style=\"width: 300px\" class=\"wp-caption alignright\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-5659019\" src=\"http:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/number-182-leonardo-drew-300x225.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"225\" srcset=\"https:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/number-182-leonardo-drew-300x225.jpg 300w, https:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/number-182-leonardo-drew-768x575.jpg 768w, https:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/number-182-leonardo-drew-1024x767.jpg 1024w, https:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/number-182-leonardo-drew-274x205.jpg 274w, https:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/number-182-leonardo-drew-1170x877.jpg 1170w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-5659019\" class=\"wp-caption-text\">Leonardo Drew, Number 182, 2016<\/figcaption><\/figure>\n<p>De fato as mulheres devem, de vez em quando, recomp\u00f4-lo um pouco cada manh\u00e3, como uma imagem na frente do espelho, maquiando-se etc. Quanto aos homens, pelo menos para eles, h\u00e1 sempre um peda\u00e7o que faz o que bem entende e do qual eles n\u00e3o t\u00eam certeza se faz parte deles.<\/p>\n<p>Lacan vai mais longe no Semin\u00e1rio sobre o Sinthoma , onde ele diz isto: \u201co falasser adora seu corpo porque cr\u00ea que o tem\u201d.<a id=\"_ftn4\" href=\"#ftn4\">[4]<\/a>\u00a0O falasser \u00e9 um neologismo do \u00faltimo Lacan para falar , n\u00e3o mais do sujeito do inconsciente, do sujeito da fala que busca o sentido daquilo que ele diz, mas para falar do sujeito entanto que ele goza, para falar do corpo que goza como tal. Portanto, o falasser \u00e9 voc\u00ea e eu, nesta dimens\u00e3o onde o corpo nos captura. \u201cO falasser adora seu corpo porque cr\u00ea que o tem\u201d. Ele cr\u00ea que o tem, isso quer dizer que ele n\u00e3o o tem. Quando encontramos sujeitos que est\u00e3o em grande dificuldade &#8211; penso em particular nos esquizofr\u00eanicos \u2013compreendemos logo que um corpo n\u00e3o se o tem, necessariamente. Isto me evoca meu primeiro encontro em psiquiatria \u2013 eu fazia est\u00e1gio naquele hospital havia uma semana &#8211; um homem com cerca de vinte anos me disse: \u201cvoc\u00ea v\u00ea l\u00e1, debaixo do arm\u00e1rio, s\u00e3o meus gl\u00f3bulos vermelhos\u201d. Eu fiquei um pouco surpreso, devo dizer. E aos poucos compreendi a dificuldade que ele tinha para juntar um certo n\u00famero de peda\u00e7os. Portanto, o corpo, cr\u00ea-se que o tem, o que nem sempre \u00e9 seguro.<\/p>\n<p>A prop\u00f3sito, esta manh\u00e3, durante um pequeno semin\u00e1rio com os trabalhadores do Centro psicanal\u00edtico de Consulta e Tratamento (CPCT), um dos participantes apresentava o caso de um jovem que se sentia completamente atravessado por vozes estrangeiras que falavam mal dele. Mas o conte\u00fado das vozes contava bem menos do que o fato de que seu corpo era sem cessar invadido por alguma coisa estrangeira, ao ponto que ele dizia: \u201cmeu corpo n\u00e3o pertence completamente a mim, ele \u00e9 outro\u201d. Compreendemos bem que para esse jovem, seu corpo, ele n\u00e3o acredita que ele o tem, isso n\u00e3o est\u00e1 exatamente assegurado.<\/p>\n<p>\u201cO falasser adora seu corpo porque cr\u00ea que o tem\u201d[&#8230;] A adora\u00e7\u00e3o, disse Lacan, \u201c\u00e9 a \u00fanica rela\u00e7\u00e3o que o falasser tem com seu corpo.\u201d<a id=\"_ftn4\" href=\"#ftn4\">[4]<\/a>\u00a0A adora\u00e7\u00e3o, isso quer dizer consagrar a ele um culto, \u00e9 amor, mais precisamente o que se chama de amor pr\u00f3prio, quando se trata do amor de seu pr\u00f3prio corpo, do amor do corpo pr\u00f3prio. \u00c9 a \u00fanica \u201cconsist\u00eancia mental\u201d do\u00a0<em>falasser<\/em>, disse Lacan. \u201cConsist\u00eancia mental\u201d quer dizer que ela n\u00e3o \u00e9 f\u00edsica. Aqui voltamos \u00e0 quest\u00e3o de que se fazer um corpo na adolesc\u00eancia se n\u00e3o \u00e9 tanto para responder \u00e0 puberdade , \u00e9 , ao menos, para responder ao que vem no mental, isto \u00e9, fora do f\u00edsico como o \u201cdespertar de seus sonhos\u201d. O que \u00e9 do f\u00edsico no corpo, sabe- se bem que isso, isso n\u00e3o consiste assim t\u00e3o bem, isso escapa para todo o mundo progressivamente na exist\u00eancia. O que d\u00e1 \u201cconsist\u00eancia mental\u201d \u00e9, com efeito, o amor-pr\u00f3prio do corpo, a ideia que se tem de seu corpo pr\u00f3prio e \u00e0 qual nos seguramos.<\/p>\n<p>Podemos relatar um caso particular de um adolescente que n\u00e3o se segurava nessa ideia. Um adolescente para quem isso escapa &#8211; o que escapa, n\u00e3o \u00e9 seu corpo f\u00edsico, mas \u00e9 seu amor pr\u00f3prio.<\/p>\n<p>\u00c9 o caso de Joyce, na sequ\u00eancia que ele descreve, no\u00a0<em>Retrato do artista quando jovem<\/em><a id=\"_ftn5\" href=\"#ftn5\">[5]<\/a>, no qual ele conta como, retornando da escola discutindo com os colegas sobre os grandes poetas ingleses, &#8211; eles discutiam sobre os poetas como os jovens hoje fazem sobre os cantores. Eles discutem e ao final ele \u00e9 espancado por seus colegas porque ele apoiou Byron, de quem os demais diziam que era her\u00e9tico. Discutem e ele \u00e9 empurrado no alambrado de ferro com arames farpados; em seguida ele \u00e9 abandonado ali, os outros v\u00e3o embora. Ele se levanta e segue o mesmo caminho.<\/p>\n<figure id=\"attachment_5659020\" aria-describedby=\"caption-attachment-5659020\" style=\"width: 300px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-5659020\" src=\"http:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/medusa-300x295.png\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"295\" srcset=\"https:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/medusa-300x295.png 300w, https:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/medusa-274x269.png 274w, https:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/medusa-50x50.png 50w, https:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/medusa.png 456w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-5659020\" class=\"wp-caption-text\">Luiz Zerbini, medusa, 2011<\/figcaption><\/figure>\n<p>\u201cEnquanto as cenas deste epis\u00f3dio cruel passavam com uma rapidez aguda na sua mem\u00f3ria, perguntava-se porque n\u00e3o sentia raiva neste momento por aqueles que o tinham atormentado; ele n\u00e3o tinha se esquecido de um s\u00f3 detalhe da covardia cruel deles, mas suas lembran\u00e7as n\u00e3o lhe despertavam nenhuma c\u00f3lera. Todas as descri\u00e7\u00f5es de amor e de raiva que ele havia encontrado nos livros, pareciam-lhe desprovidas de realidade, mesmo naquela noite enquanto ele retornava titubeando, ele havia sentido um certo poder que lhe despojava desta c\u00f3lera assim subitamente tecida t\u00e3o facilmente como um fruto que larga a sua casca tenra e madura \u201c.<a id=\"_ftn5\" href=\"#ftn5\">[5]<\/a><\/p>\n<p>O que ele tinha sentido se perder, deslizar dele, n\u00e3o \u00e9 seu corpo, mas o sentimento que ele tinha de seu corpo. Lacan disse: \u201ca psicologia de seu corpo\u201d. \u00c9 seu amor pr\u00f3prio, \u00e9 essa adora\u00e7\u00e3o do corpo. Precisemos com Lacan que n\u00e3o \u00e9 um momento masoquista, quer dizer, n\u00e3o se trata de um gozo ruim. \u00c9, antes de tudo, simplesmente, a aus\u00eancia de la\u00e7os, de afetos que seguram o corpo. Mediante isto, todo o trabalho de substitui\u00e7\u00e3o que Joyce vai fazer fabricando-se um ser de substitui\u00e7\u00e3o, um nome pr\u00f3prio, consiste\u00a0em reparar o que ele chama \u201ca consci\u00eancia incriada\u00a0de [sua] ra\u00e7a\u201d, ou seja , aquilo que vem fundar seu corpo como tal, sob a forma de seu trabalho da l\u00edngua que torce a l\u00edngua inglesa.<\/p>\n<p>\u00c9 uma solu\u00e7\u00e3o, a solu\u00e7\u00e3o de Joyce, uma maneira de se fazer um corpo, de se fazer um corpo fora do corpo. Fazer-se um corpo num trabalho sobre a l\u00edngua. Existem outros exemplos de \u201cse fazer um corpo\u201d fora do corpo. Temos, por exemplo &#8211; \u00c9ric Laurent desenvolve isso &#8211; o pintor Rothko que faz um certo n\u00famero de pinturas que s\u00e3o essencialmente constitu\u00eddas por tiras de cores. Ele se aferrava muito a que tudo isso tivesse bom tamanho, ou seja,\u00a0o tamanho do corpo. Demasiado grande aquilo n\u00e3o serviria\u00a0para nada, demasiado pequeno seria uma redu\u00e7\u00e3o da imagem do corpo que n\u00e3o conviria de forma nenhuma. Por isso pintava apenas telas\u00a0do tamanho de um corpo. Al\u00e9m disso, Eric Laurent destaca que Rothko se esfor\u00e7ava muito para que suas pinturas fossem apresentadas em um espa\u00e7o tal como se fossem encontradas no corpo de maneira frontal, muito r\u00e1pido, para n\u00e3o ter espa\u00e7o. Rothko explica bem que \u00e9 preciso olh\u00e1-las de uma dist\u00e2ncia exata, de 85 cm, ou seja, que \u00e9 preciso estar um pouco dentro, n\u00e3o se deve faz\u00ea-lo do exterior, trata-se de estar dentro. Eis um outro tipo de trabalho para se fazer um corpo fora do corpo. Um certo n\u00famero de solu\u00e7\u00f5es s\u00e3o desse tipo.<\/p>\n<p>Mas existe uma solu\u00e7\u00e3o que n\u00e3o \u00e9 necessariamente mais f\u00e1cil e que eu tenho a fraqueza de considerar melhor. \u00c9 conseguir adorar um outro corpo. \u201cO\u00a0<em>falasser<\/em>\u00a0adora seu corpo\u201d e, seja dito de passagem, essa pequena passagem de Lacan que comento, voc\u00eas encontram coment\u00e1rios sobre ela de Jacques-Alain Miller em seu curso \u201cPe\u00e7as soltas\u201d. Jacques-Alain Miller nos apresentou uma leitura coerente do \u00faltimo Lacan. Esta adora\u00e7\u00e3o que Miller diz do Um corpo \u2013 ele escreve \u201cUm\u201d justamente para fazer aparecer como isto n\u00e3o \u00e9 o outro \u2013 \u00e9 evidentemente a ra\u00edz do imagin\u00e1rio. Ela nos lembra um pouco o est\u00e1dio do espelho: o sujeito que se apreende como imagem, de in\u00edcio. Essa adora\u00e7\u00e3o do Um corpo \u00e9 uma rela\u00e7\u00e3o prim\u00e1ria com o corpo que d\u00e1 uma consist\u00eancia imagin\u00e1ria ao sujeito, mas a ela se acrescenta o pensamento \u2013 o pensamento, isto n\u00e3o \u00e9 a mesma coisa que a imagem \u2013 e pelo pensamento chega-se \u00e0 adora\u00e7\u00e3o do outro corpo no encontro sexual com o que aquilo tem, ent\u00e3o, de aleat\u00f3rio, j\u00e1 que se trata de um encontro. Sabemos que um encontro \u00e9 sempre faltoso, \u00e9 o que Lacan expressa, dizendo: \u201ca rela\u00e7\u00e3o sexual n\u00e3o existe\u201d. Isto dito, a frase que ele diz: \u201ca \u00fanica rela\u00e7\u00e3o que se tem com o pr\u00f3prio corpo \u00e9 a adora\u00e7\u00e3o\u201d quer dizer que, pelo contr\u00e1rio, se n\u00e3o h\u00e1 rela\u00e7\u00e3o sexual, existe uma rela\u00e7\u00e3o poss\u00edvel com o corpo. Mas a adora\u00e7\u00e3o do outro corpo \u00e9, portanto, uma certa maneira de se fazer um corpo na adolesc\u00eancia. Joyce tinha tamb\u00e9m uma mulher com a qual ele tinha excelentes rela\u00e7\u00f5es, mas isso nem sempre era, necessariamente, suficiente. Para ele, n\u00e3o era.<\/p>\n<p>Contudo, encontrei um excelente exemplo desta vertente \u201cadorar o outro corpo\u201d \u2013 o que constitui ao mesmo tempo, o corpo do sujeito \u2013 num romance de Balzac,<a id=\"_ftn6\" href=\"#ftn6\">[6]<\/a>\u00a0<em>O L\u00edrio do Vale<\/em>. O sujeito que conta sua hist\u00f3ria a uma mulher diz: \u201cMinha vida \u00e9 dominada por um fantasma\u201d. Na verdade, dois fantasmas porque h\u00e1 o de sua m\u00e3e que nunca o amou, crian\u00e7a deixada, colocada como pensionista na casa de uma governanta, seu irm\u00e3o era o preferido, etc. E, enfim, pela primeira vez, na aus\u00eancia de seu pai e de seu irm\u00e3o mais velho, ele teve a oportunidade de ir a um baile. Isso acontece na \u00e9poca da Restaura\u00e7\u00e3o e da chegada de Luiz XVIII ao poder. Ele n\u00e3o devia perder este baile porque a fam\u00edlia devia estar representada ali. Ent\u00e3o ele pode ir e ele est\u00e1 encantado com isso mas, ao mesmo tempo, ele est\u00e1 um pouco entediado, ele n\u00e3o sabe mais como se comportar. Em um momento, cansado na festa, ele se senta ao lado de uma mulher: \u201cEnganada por minha apar\u00eancia insignificante, uma mulher me tomou por uma crian\u00e7a que estava quase dormindo, e fica perto de mim. Imediatamente, eu senti um perfume de mulher. Meus olhos foram subitamente atingidos por dois brancos ombros arredondados sobre os quais eu queria me enroscar. Eu me levantei palpitante para ver o corpete e fiquei completamente fascinado por um colo pudicamente coberto por uma gaze\u201d. Brevemente, h\u00e1 uma linda descri\u00e7\u00e3o das curvas, dos globos azuis, etc que eu vou pular. \u201cTudo me fez perder a cabe\u00e7a. Depois de me assegurar que ningu\u00e9m me via, eu mergulhava nestas costas como uma crian\u00e7a que se joga no seio de sua m\u00e3e e eu beijava seus ombros, enroscando minha cabe\u00e7a. Esta mulher solta um grito perfurante que a m\u00fasica impediu de escutar, ela se virou, me viu e me disse: \u201cSenhor!\u201d Ah, se ela tivesse dito \u201cmeu pequeno homem, o que \u00e9 que voc\u00ea est\u00e1 fazendo?\u201d eu a teria matado, talvez, mas com este \u201cSenhor\u201d l\u00e1grimas quentes jorraram de meus olhos.<a id=\"_ftn7\" href=\"#ftn7\">[7]<\/a><\/p>\n<figure id=\"attachment_5659021\" aria-describedby=\"caption-attachment-5659021\" style=\"width: 280px\" class=\"wp-caption alignright\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-5659021\" src=\"http:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/plate-with-clams-280x300.jpg\" alt=\"\" width=\"280\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/plate-with-clams-280x300.jpg 280w, https:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/plate-with-clams-274x294.jpg 274w, https:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/plate-with-clams.jpg 438w\" sizes=\"auto, (max-width: 280px) 100vw, 280px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-5659021\" class=\"wp-caption-text\">Adriana Varej\u00e3o, Plate with Claims<\/figcaption><\/figure>\n<p>Essa \u00e9 a forma como se constitui um corpo. Este \u201cSenhor\u201d, por si s\u00f3, faz passar de repente da inf\u00e2ncia \u00e0 idade adulta. \u00c9 uma \u00e9poca em que n\u00e3o h\u00e1 nenhuma certeza de que j\u00e1 existia a adolesc\u00eancia. Eu acho encantador este \u201cSenhor\u201d, que vem com uma \u00fanica palavra circunscrever para n\u00f3s toda a quest\u00e3o da adolesc\u00eancia. Como esta mulher \u201cpetrificada por um olhar animado de uma santa c\u00f3lera\u201d vai se tornar profundamente idealizada e ser\u00e1 o fantasma que vai dominar sua vida. \u00c9 uma outra coisa que \u00e9 um pouco mais rom\u00e2ntica na qual ele poderia talvez se aliviar. Verdade \u00e9 que nesse \u201cSenhor\u201d, ele adora seu pr\u00f3prio corpo por ter adorado o Outro corpo. Ele se constitui e imediatamente ele se olha: \u201cEla se foi [&#8230;] senti, ent\u00e3o, o rid\u00edculo de minha posi\u00e7\u00e3o. S\u00f3 ent\u00e3o, somente compreendi que eu estava vestido como um macaco de um saboiano, eu senti vergonha de mim\u201d. Ele estava vestido de uma forma que n\u00e3o estava mais na moda, nos sal\u00f5es da \u00e9poca. E isto mostra que o desprezo vai com a adora\u00e7\u00e3o, \u00e9 o pre\u00e7o da adora\u00e7\u00e3o, digamos. E quando \u00e9 do outro corpo que se trata, o que vai de in\u00edcio \u00e9 a equivoca\u00e7\u00e3o, porque n\u00e3o se pode nunca deixar de se enganar nesses assuntos.<\/p>\n<p>A equivoca\u00e7\u00e3o que n\u00e3o exclui, ali\u00e1s, que o desprezo ali retorne. Ele se faz assim um corpo a partir de uma palavra que lhe retorna do outro, de quem ele adora o corpo. \u201cSenhor\u201d nos aparece em uma dimens\u00e3o significante, isto significa, mas \u00e9 mais al\u00e9m. Quer dizer: levando este rapaz para o div\u00e3, n\u00e3o temos tanto que lhe pedir para associar sobre este \u201cSenhor\u201d. Este \u201cSenhor\u201d \u00e9 um S1 sozinho que, de um s\u00f3 golpe, marca. Vemos, de fato, que ele pode imediatamente dizer: \u201cela teria dito meu pequeno homem\u201d, porque ele teve a ideia de que ela chegou perto dele porque ele tinha ainda um ar de crian\u00e7a. \u00c9 nessa medida em que \u00e9 mais al\u00e9m do significante que isto vem marcar, como um significante que bate ou, se voc\u00eas quiserem, como um dizer, um dizer que se d\u00e1 a ler sobre seu corpo, que faz ato.<\/p>\n<p>\u201cFazer-se um corpo\u201d na adolesc\u00eancia passando pelo outro corpo, \u00e9 talvez a melhor solu\u00e7\u00e3o. A dificuldade \u00e9 que se trata evidentemente de se confrontar com o outro, o outro sexo especialmente. Isto n\u00e3o \u00e9 o mais simples e voc\u00eas sabem que Lacan desenvolve, no pref\u00e1cio de\u00a0<em>O despertar da primavera<\/em>, estas duas figuras que Wedekind coloca em cena sobre o teatro que s\u00e3o os dois adolescentes, os dois rapazes, Moritz e Melchior. Um dos dois escolhe o suic\u00eddio pelo temor de se confrontar ao outro sexo e assim Lacan diz: \u201cele ao se excetuar\u201d<a id=\"_ftn8\" href=\"#ftn8\">[8]<\/a>\u00a0e, no fundo, ele se perde ao se excetuar. E que o outro, Melchior, vai se defrontar com o outro sexo, ali\u00e1s, com alguns infort\u00fanios, mas \u00e9 com a condi\u00e7\u00e3o de aceitar, diz Lacan, ser \u201cUm-entre-outros\u201d que ele poder\u00e1 encontrar um caminho, com o homem mascarado que vem lhe dizer como ele deve cuidar de seu corpo.<\/p>\n<p>Certamente, h\u00e1 outras formas de \u201cse fazer um corpo\u201d na adolesc\u00eancia, outras formas que n\u00e3o se separam necessariamente da anterior.<\/p>\n<p>Eu gostaria de fazer uma pequena ressalva sobre a adolesc\u00eancia: \u00e9 uma constru\u00e7\u00e3o, o termo \u201cadolesc\u00eancia\u201d. N\u00f3s o observamos bem neste \u201cSenhor\u201d que basta a ele sozinho. Ent\u00e3o, a adolesc\u00eancia que se prolonga, n\u00e3o iremos encolhe-la, mas vemos que \u00e9 uma constru\u00e7\u00e3o. Existe um autor americano que se chama Robert Epstein que escreveu um grosso livro que se intitula\u00a0<em>The Case Against Adolescense<\/em>, que podemos traduzir por\u00a0<em>Contra a adolesc\u00eancia<\/em>. Ele observou coisas muito certas. Ali\u00e1s, n\u00e3o h\u00e1 tantos problemas com os adolescentes no mundo quanto h\u00e1 nos pa\u00edses mais desenvolvidos que fazem da adolesc\u00eancia uma coisa longa e importante, quer dizer, nos Estados Unidos e Europa. E mais ainda, diz ele, mais colocamos leis que limitam os direitos e deveres dos adolescentes, mais temos crises de adolesc\u00eancia. Epstein tem uma an\u00e1lise muito clara da coisa. Dizemos: \u201cPor que \u00e9 que limitamos o que um adolescente pode fazer? \u2013 Porque ele n\u00e3o \u00e9 ainda totalmente respons\u00e1vel\u201d. E os adultos, eles s\u00e3o verdadeiramente respons\u00e1veis? Um adolescente n\u00e3o pode dirigir e n\u00e3o pode beber. Nos Estados Unidos, eles n\u00e3o podem beber antes dos 21 anos, \u00e9 extremamente restrito. Na pr\u00e1tica, eles contornam a lei. Epstein interroga as atitudes dos adultos: voc\u00eas viram o n\u00famero de pessoas que dirigem tendo bebido? Por que os adolescentes fariam pior? Se eles n\u00e3o s\u00e3o respons\u00e1veis, \u00e9 porque n\u00e3o lhes d\u00e3o a responsabilidade. Ele faz tamb\u00e9m observa\u00e7\u00f5es absolutamente extraordin\u00e1rias, ele diz, por exemplo: \u201cPor que os adolescentes n\u00e3o podem ir \u00e0 guerra mais cedo? O que seria da Fran\u00e7a se Joana d\u2019Arc n\u00e3o tivesse podido ir? Existem tamb\u00e9m exemplos formid\u00e1veis: por exemplo, algumas cidades nos Estados Unidos querem impedir os adolescentes antes dos 20 anos de fumar porque \u00e9 perigoso e eles n\u00e3o s\u00e3o conscientes do perigo. Por outro lado, eles podem se alistar para ir \u00e0 guerra no Iraque a partir dos 18 anos. L\u00e1 eles podem ter consci\u00eancia do perigo. Ele observou um certo n\u00famero de paradoxos que temos em nossas sociedades a respeito desta responsabilidade dos adolescentes.<\/p>\n<figure id=\"attachment_5659022\" aria-describedby=\"caption-attachment-5659022\" style=\"width: 300px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-5659022\" src=\"http:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/jean-dubuffet-300x223.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"223\" srcset=\"https:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/jean-dubuffet-300x223.jpg 300w, https:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/jean-dubuffet-768x571.jpg 768w, https:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/jean-dubuffet-274x204.jpg 274w, https:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/jean-dubuffet.jpg 800w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-5659022\" class=\"wp-caption-text\">Jean Dubuffet<\/figcaption><\/figure>\n<p>Dito isto, o que \u00e9 surpreendente, \u00e9 que ele tem a ideia de que seria necess\u00e1rio controlar as capacidades de cada um e o vemos vir com testes para todos, incluindo os adultos. Vamos ver quem pode fumar, quem pode ir \u00e0 guerra, quem pode dirigir. Vamos medir tudo&#8230; Por outra parte, quando falamos sobre adolesc\u00eancia o de que falamos \u00e9 do que n\u00e3o podemos medir, \u00e9 o que n\u00e3o \u00e9 mensur\u00e1vel. E esta dimens\u00e3o, a do gozo, lhe escapa.<\/p>\n<p>Por exemplo, outra maneira de abordar o corpo: o esporte que tem evidentemente toda a import\u00e2ncia na adolesc\u00eancia. Um certo n\u00famero adora o esporte. H\u00e1 muitas coisas no esporte que s\u00e3o colocadas em jogo. Marie-H\u00e9l\u00e8ne Brousse fez um trabalho<a id=\"_ftn9\" href=\"#ftn9\">[9]<\/a>\u00a0sobre isso, que \u00e9 extremamente interessante, h\u00e1 alguns anos, mostrando o lado do gozo f\u00e1lico do esporte em rela\u00e7\u00e3o com a puls\u00e3o de morte. Gozo f\u00e1lico porque se trata de ser o melhor, mais forte que o outro, \u00e9 a vertente competitiva que flerta sempre com a puls\u00e3o de morte.<\/p>\n<p>Ela chegou mesmo a dar um exemplo formid\u00e1vel, quando veio fazer uma confer\u00eancia sobre este tema na B\u00e9lgica: ela tinha supervisionado uma equipe na qual havia um jovem esportista de quem haviam tirado um \u00f3rg\u00e3o. Este jovem homem retornou alguns meses mais tarde e ele \u00e9 ent\u00e3o melhor que os outros. Um outro aluno vem se encontrar com ela, lhe dizendo: \u201cVoc\u00ea n\u00e3o acha que eu faria bem sendo operado tamb\u00e9m?\u201d. Vemos a\u00ed a puls\u00e3o de morte aparecer sem m\u00e1scara.<\/p>\n<p>Existe um outro aspecto do esporte. Em uma Jornada da ACF B\u00e9lgica sobre o esporte, Katty Langelez evocou a vertente \u201cgozo m\u00edstico\u201d do esporte, gozo feminino, uma vez que Lacan associa gozo m\u00edstico e gozo feminino. Um outro gozo, ent\u00e3o. Ela se apoiou sobre uma obra de Philippe Mengue. H\u00e1 um bom exemplo disto em\u00a0<em>Imensid\u00e3o Azul<\/em>. Neste filme, dois homens fazem mergulho livre. Um est\u00e1 totalmente na competi\u00e7\u00e3o: ele quer ser aquele que desce mais baixo e, em seguida, ele morre por tentar superar o outro que desceu um pouco mais. O outro n\u00e3o est\u00e1 na competi\u00e7\u00e3o de forma alguma, mas adora descer porque encontra nisso um gozo singular que n\u00e3o tem absolutamente nada a ver com a competi\u00e7\u00e3o. Ele n\u00e3o procura ser mais forte que o outro. Somente, de fato, ele desce mais facilmente, mais longe, e ele \u00e9 tomado pelo gozo de participar do mundo das profundidades, at\u00e9 o ponto de tamb\u00e9m permanecer nele. \u00c9 um gozo absolutamente distinto do gozo f\u00e1lico, competitivo. A\u00ed o corpo \u00e9 tomado numa esp\u00e9cie de \u201cinfinitude\u201d. Voc\u00eas t\u00eam evidentemente numerosos exemplos de pr\u00e1ticas em que os sujeitos podem jogar intensamente com a puls\u00e3o de morte, notadamente no\u00a0<em>wing suit<\/em>, estas pessoas que fazem p\u00e1ra-quedismo sem p\u00e1ra-quedas, com combina\u00e7\u00f5es em forma de asa e quase tocam nas montanhas. Muitos praticantes morreram. Mas jogar com o limite tem tamb\u00e9m a dimens\u00e3o de \u201cse fazer um corpo\u201d.<\/p>\n<p>Para concluir com uma quest\u00e3o muito atual, pensei numa outra face desta quest\u00e3o no malestar de um certo n\u00famero de adolescentes que se expressam sob uma forma extremamente particular e violenta, no que chamamos de terrorismo jihadista. Muitos s\u00e3o adolescentes, n\u00e3o todos. Eu n\u00e3o tenho a ideia de que haja uma figura cl\u00ednica que seria o modelo do jihadista. Sabemos, ao contr\u00e1rio, como \u00e9\u00a0 a cada vez, muito diferente para cada um. Mas eu li no Le Monde um artigo sobre uma s\u00e9rie de jovens francesas adolescentes, de 14 a 19 anos, que se radicalizaram. Podemos falar do \u201cnarcisismo triunfante do terrorista\u201d como evoca Jacques-Alain Miller. Mas outra coisa me tocou nesta radicaliza\u00e7\u00e3o. Elas se radicalizaram pela internet, em contato com um \u201crecrutador\u201d na S\u00edria e elas mesmas em seguida se colocam em contato e conversam entre si. Essas adolescentes v\u00eam de fam\u00edlias que n\u00e3o s\u00e3o absolutamente religiosas. Uma entre elas se converteu, as outras v\u00eam de fam\u00edlias mu\u00e7ulmanas, pouco ou n\u00e3o praticantes, e nada em seus meios as incentiva nisso. H\u00e1 uma pequena dimens\u00e3o \u201crevolta\u201d, em uma entre elas ao menos, que quer partir porque seu pai recusou que ela use um v\u00e9u, quer dizer que sua fam\u00edlia n\u00e3o era muito religiosa. E o que eu achei interessante \u00e9 como elas podem dizer que elas encontram a\u00ed o software m\u00e1gico, o \u00ab Um \u00bb que decide tudo, pelo qual tudo \u00e9 regrado. Ou seja: como nos vestimos, como comemos, a vida cotidiana e em qual caso podemos ter rela\u00e7\u00f5es sexuais. No fundo, h\u00e1 a\u00ed um sentido perfeito.<\/p>\n<figure id=\"attachment_5659023\" aria-describedby=\"caption-attachment-5659023\" style=\"width: 214px\" class=\"wp-caption alignright\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-5659023\" src=\"http:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/james-dean-214x300.jpg\" alt=\"\" width=\"214\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/james-dean-214x300.jpg 214w, https:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/james-dean-274x385.jpg 274w, https:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/james-dean.jpg 427w\" sizes=\"auto, (max-width: 214px) 100vw, 214px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-5659023\" class=\"wp-caption-text\">Martin Kippenberger, James Dean 1989<\/figcaption><\/figure>\n<p>Contudo, isso n\u00e3o quer dizer que nada transborde porque elas t\u00eam entre elas, ao mesmo tempo, discuss\u00f5es totalmente adolescentes. Por exemplo &#8211; apenas retiro tr\u00eas frases &#8211; uma dentre essas diz: &#8220;H\u00e1 aqueles que querem fazer tudo, como a cantora Rihanna, e eu quero fazer tudo como Mehah&#8221;. \u00c9 sinistro e, ao mesmo tempo, \u00e9 uma fala muito aut\u00eantica de adolescente ao n\u00edvel identificat\u00f3rio, ao n\u00edvel de procurar suas identifica\u00e7\u00f5es. Ela diz isso \u00e0 pol\u00edcia, isso tem um lado provocador. Mas existem conversas que s\u00e3o formid\u00e1veis, por exemplo: &#8220;Voc\u00ea viu aquele?&#8221; Elas falam sobre &#8220;irm\u00e3os&#8221;, isto \u00e9, recrutadores. &#8220;Voc\u00ea viu aquele, seus sapatos? &#8211; S\u00e3o formid\u00e1veis, s\u00e3o da marca tal&#8221;. Uma outra diz: &#8220;E voc\u00ea viu,ele era bonito demais com seu fuzil&#8221;, etc. \u00c9 bastante espantoso porque, quando lemos isso, estamos ao mesmo tempo em um outro mundo e estamos totalmente no modo de uma conversa entre adolescentes. \u00c9 isso que surpreende: n\u00e3o \u00e9 descolado, \u00e9 apenas um pouquinho descolado &#8211; e que muda tudo, claro, com um atalho surpreendente sobre a forma de se fazer um corpo.<\/p>\n<p>Assim, uma dentre elas, com idade de 14 anos, desenvolve brevemente, em quatro frases, seu projeto de vida: &#8220;Agora eu estou casada, moro na Turquia com meu marido e, mais tarde, com mam\u00e3e [porque ela escreve para a m\u00e3e dela]. Vamos criar nosso filho que ir\u00e1 nascer no Iraque, nada mais bonito, e ele ser\u00e1 uma crian\u00e7a crente e, um dia, voc\u00ea vai atender um telefonema dizendo que eu morri, \u00e9 isso&#8221;. Acho isso surpreendente porque conhe\u00e7o adolescentes que respondem \u00e0 pergunta: &#8220;O que voc\u00ea quer fazer na vida?&#8221;, dizendo, \u00e0s vezes. com dificuldade: &#8220;Encontrar um rapaz muito simp\u00e1tico, casar, ter filhos&#8221;, ou \u00e9 dito outras vezes, de forma muito caricatural &#8211; penso aqui no Courtil &#8211; adolescentes que t\u00eam poucos referenciais na vida, mas que se colocam como referencial: um marido, filhos ou at\u00e9 um filho, um marido &#8211; n\u00e3o \u00e9 sempre no mesmo sentido.<\/p>\n<p>Mas, no caso anterior, n\u00e3o \u00e9 mais a adolesc\u00eancia que se restringe a uma \u00fanica palavra, &#8220;Senhor&#8221;, mas \u00e9 na adolesc\u00eancia que se fixa todo um projeto de vida, em tr\u00eas palavras: casamento, filhos, falecimento. \u00c9 bastante surpreendente como forma de se fazer um corpo mas, apesar disso, \u00e9 uma maneira de faze-lo para si. Evidentemente, acho que n\u00e3o temos oportunidade de intervir porque elas n\u00e3o v\u00eam falar sobre isso. Isso certamente vir\u00e1, mas trata-se, aqui, de uma discuss\u00e3o entre adolescentes.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<hr \/>\n<h6>A Alexandre Stevens os sinceros agradecimentos de Cien Digital pela amabilidade em permitir a publica\u00e7\u00e3o do presente trabalho.<\/h6>\n<h6>Tradu\u00e7\u00e3o: Ana Martha Maia e Maria Rita Guimar\u00e3es<\/h6>\n<h6>Revis\u00e3o: Cristina Drummond<\/h6>\n<hr \/>\n<div class=\"footer-notes\">\n<h6>Notas:<\/h6>\n<h6><a id=\"ftn1\" href=\"#_ftn1\">1<\/a>\u00a0LACAN,J. (1975-1976) O Semin\u00e1rio, livro 23, O Sinthoma, J.Zahar Editor, RJ, 2007.<\/h6>\n<h6><a id=\"ftn2\" href=\"#_ftn2\">2<\/a>\u00a0_________.\u00a0<em>Pref\u00e1cio a O despertar da primavera<\/em>. Outros Escritos, RJ, .Zahar Ed., 2003, p. 557-559.<\/h6>\n<h6><a id=\"ftn3\" href=\"#_ftn3\">3<\/a>\u00a0LACAN, J.\u00a0<em>Radiofonia<\/em>, Outros Escritos, RJ, .Zahar Ed., 2003, p.407.<\/h6>\n<h6><a id=\"ftn4\" href=\"#_ftn4\">4<\/a>\u00a0LACAN,J. (1975-1976) O Semin\u00e1rio, livro 23, O Sinthoma, J.Zahar Editor, RJ, 2007., p.64.<\/h6>\n<h6><a id=\"ftn5\" href=\"#_ftn5\">5<\/a>\u00a0JOYCE James,\u00a0<em>Portrait de l&#8217;artiste en jeune homme<\/em>, Paris, Gallimard, 1992<\/h6>\n<h6><a id=\"ftn6\" href=\"#_ftn6\">6<\/a>\u00a0Tomo a ideia de Philippe\u00a0Lacad\u00e9e que o evoca em um dos seus livros.<\/h6>\n<h6><a id=\"ftn7\" href=\"#_ftn7\">7<\/a>\u00a0BALZAC H., Le lys dans la valle\u0301e,<\/h6>\n<h6><a id=\"ftn8\" href=\"#_ftn8\">8<\/a>\u00a0LACAN-J.,\u00a0<em>Pref\u00e1cio a O despertar da primavera<\/em>. Outros Escritos, RJ, .Zahar Ed., 2003, p. 558<\/h6>\n<h6><a id=\"ftn9\" href=\"#_ftn9\">9<\/a>\u00a0BROUSSE, Marie-He\u0301le\u0300ne,\u00a0<em>L\u2019activite\u0301 sportive a\u0300 la lumie\u0300re de la psychanalyse<\/em>, Coll. Sport, psychanalyse et science, Paris, PUF, 1997<\/h6>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Alexandre Stevens Escolhi apoiar-me em uma refer\u00eancia, \u00e0 qual\u00a0retornarei, que prov\u00e9m de um dos \u00faltimos semin\u00e1rios de Lacan, o semin\u00e1rio sobre Joyce, como temos costume de falar, ou seja, o Semin\u00e1rio XXIII,\u00a0O Sinthoma[1]. Antes, por\u00e9m, gostaria de colocar de uma maneira mais ampla a pergunta sobre o que \u00e9 \u201cfazer-se um corpo na adolesc\u00eancia\u201d. Assim,&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":5659016,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[129,21],"tags":[119],"post_series":[],"class_list":["post-5659015","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-cien-digital-20","category-hifen","tag-cien_digital_20","entry","has-media"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/ciendigital.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5659015","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/ciendigital.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/ciendigital.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ciendigital.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ciendigital.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=5659015"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/ciendigital.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5659015\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ciendigital.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/5659016"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/ciendigital.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=5659015"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/ciendigital.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=5659015"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/ciendigital.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=5659015"},{"taxonomy":"post_series","embeddable":true,"href":"https:\/\/ciendigital.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/post_series?post=5659015"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}