{"id":5659053,"date":"2018-11-28T20:19:08","date_gmt":"2018-11-28T22:19:08","guid":{"rendered":"http:\/\/ciendigital.com.br\/?p=5659053"},"modified":"2018-11-28T20:19:08","modified_gmt":"2018-11-28T22:19:08","slug":"do-jogo-com-o-veu-ao-veu-arrancado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ciendigital.com.br\/index.php\/2018\/11\/28\/do-jogo-com-o-veu-ao-veu-arrancado\/","title":{"rendered":"Do jogo com o v\u00e9u ao v\u00e9u arrancado"},"content":{"rendered":"<div class=\"pdfprnt-buttons pdfprnt-buttons-post pdfprnt-top-right\"><a href=\"https:\/\/ciendigital.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5659053?print=pdf\" class=\"pdfprnt-button pdfprnt-button-pdf\" target=\"_blank\" ><\/a><a href=\"https:\/\/ciendigital.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5659053?print=print\" class=\"pdfprnt-button pdfprnt-button-print\" target=\"_blank\" ><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/plugins\/pdf-print\/images\/print.png\" alt=\"image_print\" title=\"Conte\u00fado de impress\u00e3o\" \/><\/a><\/div><div class=\"alert-danger\">\n<figure id=\"attachment_5659054\" aria-describedby=\"caption-attachment-5659054\" style=\"width: 280px\" class=\"wp-caption alignright\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-5659054\" src=\"http:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/millais280.jpg\" alt=\"\" width=\"280\" height=\"191\" srcset=\"https:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/millais280.jpg 280w, https:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/millais280-274x187.jpg 274w\" sizes=\"auto, (max-width: 280px) 100vw, 280px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-5659054\" class=\"wp-caption-text\">Sir John Everett Millais, Ophelia, 1851-52<\/figcaption><\/figure>\n<h6>Christiane Page e Laetitia Jodeau-Belle<\/h6>\n<\/div>\n<p>\u201cDo jogo com o v\u00e9u ao v\u00e9u arrancado\u201d, eis como se poderia nomear o percurso realizado pelos artistas do final do s\u00e9culo XIX at\u00e9 s\u00e9culo XXI, em sua maneira de apreender a quest\u00e3o da n\u00e3o- rela\u00e7\u00e3o sexual.<\/p>\n<p>Se o jogo com o v\u00e9u implica no uso de met\u00e1foras, de imagens po\u00e9ticas, um jogo de esconder\/mostrar, os artistas contempor\u00e2neos ( escritores, diretores de teatro e de cinema) numa tentativa de escrita do real o mais perto poss\u00edvel de seu surgimento, n\u00e3o fazem mais uso delas. Isto significa tamb\u00e9m que o leitor, o espectador do s\u00e9culo XXI \u00e9 interpelado de uma nova maneira, \u00e0s vezes inc\u00f4moda at\u00e9 o ponto de chegar ao insuport\u00e1vel. O que levanta a quest\u00e3o sobre o que o artista antecipa a respeito do gozo do leitor ou do espectador no momento de seu ato art\u00edstico como do que antecipa a esse respeito este \u00faltimo que l\u00ea a obra ou vem v\u00ea-la.<\/p>\n<p><strong>Do jogo com o v\u00e9u<\/strong><\/p>\n<p>Ao final do s\u00e9culo XIX, princ\u00edpio do s\u00e9culo XX, a inf\u00e2ncia e as rela\u00e7\u00f5es familiares tornaram-se um objeto de interesse para alguns dramaturgos assim como para a psican\u00e1lise nascente. Estes dramaturgos, que fazem esc\u00e2ndalo ao colocar \u00e0s claras o fracasso do encontro sexual, apreendem, de forma po\u00e9tica, algumas quest\u00f5es fundamentais ainda n\u00e3o teorizadas.<\/p>\n<p>Por exemplo,\u00a0<em>O Despertar da primavera\u00a0<\/em>(1890) de Wedekind<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">[1]<\/a>\u00a0aborda o tema da descoberta da sexualidade pelos adolescentes na sociedade do s\u00e9culo XIX mostrando a qual ponto eles n\u00e3o podem se virar com ela. Essa quest\u00e3o atravessa o tempo, como est\u00e1 demonstrado pelo interesse que os diretores de teatro lhe conferem, desde seu surgimento.<a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\">[2]<\/a>\u00a0Esse texto \u00e9 revelador do fato de que a quest\u00e3o sexual, que aparece ruidosamente com a psican\u00e1lise e da qual n\u00e3o se pode sustentar, da\u00ed em diante, que seja uma exclusividade dos adultos, preocupa os esp\u00edritos no final do s\u00e9culo XIX para al\u00e9m do pequeno c\u00edrculo vienense. Um \u201chanoveriano\u201d, portanto geograficamente distante do discurso da psican\u00e1lise nascente, elabora um discurso que antecipa Freud. Em 1907, Freud consagra \u00e0 pe\u00e7a uma sess\u00e3o de trabalho com o grupo de psicanalistas da quarta feira em Viena.<a href=\"#_ftn3\" name=\"_ftnref3\">[3]<\/a>\u00a0A an\u00e1lise que ele faz dela efetivamente d\u00e1 conta do ponto onde ele est\u00e1 na elabora\u00e7\u00e3o da psican\u00e1lise e das teorias sobre a sexualidade. Se, como enuncia Adler nesta mesma sess\u00e3o, Wedekind \u201csabe, estritamente falando, tudo o que h\u00e1 para saber\u201d no momento em que o grupo de Viena estuda seu texto, podemos, lendo-o com Lacan, descobrir que aquilo que ele sabia pode ainda, atualmente, nos ensinar, j\u00e1 que a quest\u00e3o continua extremamente atual. \u201c\u00c9 porque a gente se desenvolve \u2026isso trabalha na gente, \u00e9 por isso\u2026<a href=\"#_ftn4\" name=\"_ftnref4\">[4]<\/a>\u00a0diz Bastien numa conversa\u00e7\u00e3o organizada por Philippe Lacad\u00e8e atrav\u00e9s laborat\u00f3rio do CIEN para uma sala de quarta s\u00e9rie. \u00c9 o que Sophie, outra adolescente comenta: \u201cNa quarta s\u00e9rie, os garotos come\u00e7am a se masturbar. Isso os toma. Eles est\u00e3o diretamente conectados na coisa<a href=\"#_ftn5\" name=\"_ftnref5\">[5]<\/a>\u201d e, enfim: \u201cNa 4a s\u00e9rie, todo mundo pensa nisso, \u00e9 a perturba\u00e7\u00e3o essencial.<a href=\"#_ftn6\" name=\"_ftnref6\">[6]<\/a>\u201d<\/p>\n<figure id=\"attachment_5659055\" aria-describedby=\"caption-attachment-5659055\" style=\"width: 218px\" class=\"wp-caption alignright\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-5659055\" src=\"http:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/branco280-218x300.jpg\" alt=\"\" width=\"218\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/branco280-218x300.jpg 218w, https:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/branco280-274x378.jpg 274w, https:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/branco280.jpg 280w\" sizes=\"auto, (max-width: 218px) 100vw, 218px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-5659055\" class=\"wp-caption-text\">Rodrigo Branco, \u2018Anonimous #5\u2019, 2012<\/figcaption><\/figure>\n<p>Em sua pe\u00e7a, Wedekind coloca em cena a n\u00e3o -rela\u00e7\u00e3o sexual tal como \u00e9 definida pela teoria lacaniana e que ele declina no um por um, retomando, sob diversas formas, o mesmo tema apresentando um verdadeiro cat\u00e1logo clinico no qual os personagens t\u00eam a oportunidade de expor diferentes posi\u00e7\u00f5es frente ao gozo. Interrogamos no curso do texto e em fun\u00e7\u00e3o do que ele mostra, os elementos que tomam parte na defini\u00e7\u00e3o do que seria uma rela\u00e7\u00e3o sexual. Em 1974, com a montagem de Brigitte Jacques a partir da tradu\u00e7\u00e3o de Fran\u00e7ois Regnault, a pe\u00e7a encontra de fato a psican\u00e1lise lacaniana e se aventura para al\u00e9m do que Freud teorizava a partir do Pai. As diferentes problem\u00e1ticas da pe\u00e7a encontram as preocupa\u00e7\u00f5es te\u00f3ricas que Lacan desenvolve em seus semin\u00e1rios e ganham lugar na elabora\u00e7\u00e3o da no\u00e7\u00e3o de inexist\u00eancia da rela\u00e7\u00e3o sexual, de suas causas e de seus efeitos. No pref\u00e1cio da pe\u00e7a (1974) ele insiste sobre o fato de que nessa pe\u00e7a, \u00e9 ao n\u00edvel do inconsciente, tal como ele se manifesta atrav\u00e9s do sonho, que a quest\u00e3o de fazer o amor se coloca para os jovens: \u201c Assim um dramaturgo abordou, em 1891, a hist\u00f3ria do que \u00e9, para os meninos adolescentes, fazer o amor com as mocinhas, assinalando que eles n\u00e3o pensariam nisso sem o despertar de seus sonhos\u201d,<a href=\"#_ftn7\" name=\"_ftnref7\">[7]<\/a>\u00a0e que tal quest\u00e3o aparece como um enigma fora de sentido. Em\u00a0<em>Escritos\u00a0<\/em>Lacan j\u00e1 tinha sublinhado que \u201cO sonho n\u00e3o \u00e9 o inconsciente, e, sim, (\u2026) sua via r\u00e9gia. (\u2026) \u00e9 pelo efeito de met\u00e1fora que ele procede\u201d<a href=\"#_ftn8\" name=\"_ftnref8\">[8]<\/a>. Dito de outra maneira, o encontro sexual acontece sobre o registro imagin\u00e1rio, a partir de manifesta\u00e7\u00f5es do inconsciente e \u201ctudo que nos \u00e9 permitido abordar de realidade resta enraizado na fantasia&#8221;<a href=\"#_ftn9\" name=\"_ftnref9\">[9]<\/a>: isto tem consequ\u00eancias diversas que Wedekind p\u00f5e em evid\u00eancia principalmente do lado do rapaz, mas tamb\u00e9m do lado das mo\u00e7as, aspecto pouco estudado at\u00e9 hoje.<\/p>\n<p>Se podemos dizer que esta obra captura, a partir dos personagens adolescentes masculinos, mas tamb\u00e9m femininos, o que Lacan teorizar\u00e1 sobre a inexist\u00eancia da rela\u00e7\u00e3o sexual, \u00e9 interessante insistir sobre a maneira pela qual Wedekind evoca a quest\u00e3o do gozo, espec\u00edfica de cada um, e que concerne somente ao sujeito. Para al\u00e9m da f\u00e1bula, pela maneira de escrever, pelo estilo, pela poesia: o leitor v\u00ea o v\u00e9u se levantar, mas n\u00e3o v\u00ea nada mais. O v\u00e9u levantado n\u00e3o mostra nada e o leitor permanece estrangeiro ao gozo dos pequenos outros que os personagens representam. O autor n\u00e3o convoca o leitor em nenhum momento a v\u00ea-lo nem a olh\u00e1-lo; talvez a imagin\u00e1-lo.Dessa maneira, l\u00e1 onde a literatura contempor\u00e2nea, como o espet\u00e1culo contempor\u00e2neo, visa o gozo do leitor e a ascens\u00e3o do objeto na cena, com Wedekind, temos o v\u00e9u, o equ\u00edvoco, as met\u00e1foras po\u00e9ticas. Quest\u00e3o de \u00e9poca\u2026<\/p>\n<div class=\"sidebox\">\n<p>Nosso mais sincero agradecimento \u00e0s autoras pela generosa disponibilidade do texto para publica\u00e7\u00e3o no Cien Digital.<\/p>\n<\/div>\n<h6 style=\"text-align: left;\" align=\"right\">Tradu\u00e7\u00e3o:\u00a0<em>Maria Rita Guimar\u00e3es<\/em><\/h6>\n<h6 style=\"text-align: left;\" align=\"right\">Revis\u00e3o:\u00a0<em>Cristina Drummond<\/em><\/h6>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<hr \/>\n<h6><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a>\u00a0WEDEKIND. F,\u00a0<em>O despertar da primavera<\/em>. 3<sup>a<\/sup>\u00a0ed. Trad. Maria Ad\u00e9lia Silva Melo. Lisboa: Editora Estampa, 2008.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\">[2]<\/a>\u00a0Brigitte Prost, em\u00a0<em>L\u2019avant-sc\u00e8ne th\u00e9\u00e2tre<\/em>\u00a0d\u2019octobre 2011, cita nominalmente \u201cLeopold Jessner em 1907, Gustaf Grundgens em 1926 ( depois em 1945), Peter Zadec em 1965, Peter Palitzch em 1973, Einar Schleff ou Brigitte Jacques em 1974, Pierre Romans em 1976, Yves Beaunesne em 1998, PaulDelvaux em 2001, Guillaume Vincent em 2010 \u201dconsagrando um dossier com Olivier C\u00e9lik ao de Omar Porras, de 2011, e podemos, do mesmo modo, acrescentar as de Jasmina Douieb e de Peggy Thomas de 2013 ( Prost B., Une parabole de la condition humaine\u201d,\u00a0<em>L\u2019avant \u2013sc\u00e8ne th\u00e9\u00e2tre<\/em>\u00a0n.1310, 15 de octobre 2011, p.75)<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref3\" name=\"_ftn3\">[3]<\/a>\u00a0FREUD, S. \u201cCompte rendu de la s\u00e8ance de travail de 1907.\u201d F. Wedekind,\u00a0<em>L\u2019Eveil de<\/em>\u00a0<em>printemps<\/em>,\u00a0<em>op. cit<\/em>. p.99-107.<\/h6>\n<h6>NT: \u201c<em>Hanoveriano<\/em>\u201d: a autora refere-se a algu\u00e9m nascido em Han\u00f4ver.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref4\" name=\"_ftn4\">[4]<\/a>\u00a0LACAD\u00c8E, P.\u00a0<em>Le Malentendu de l\u2019enfant<\/em>, Nouvelle edition revue et augment\u00e9e, Paris, \u00c9ditions Mich\u00e8le, 2010, p.419.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref5\" name=\"_ftn5\">[5]<\/a>\u00a0<em>Ibd.<\/em><\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref6\" name=\"_ftn6\">[6]<\/a>\u00a0<em>Ibd.,<\/em>\u00a0p.420.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref7\" name=\"_ftn7\">[7]<\/a>\u00a0LACAN, J. (2003[1974]) \u201c<em>Pref\u00e1cio a\u00a0<\/em>O Despertar da primavera<em>.\u201d In Outros Escritos<\/em>. Rio de Janeiro, Jorge Zahar Editor, p.557.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref8\" name=\"_ftn8\">[8]<\/a>\u00a0LACAN, J. (1998[1958]) A dire\u00e7\u00e3o do tratamento e os princ\u00edpios de seu poder, in\u00a0<em>Escritos<\/em>, Jorge Zahar Editor, p.628.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref9\" name=\"_ftn9\">[9]<\/a>\u00a0LACAN, J. (1985[1972-73])\u00a0<em>O seminario, livro 20<\/em>, Mais ainda. Rio de Janeiro, Jorge Zahar Editor, p.127.<\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Christiane Page e Laetitia Jodeau-Belle \u201cDo jogo com o v\u00e9u ao v\u00e9u arrancado\u201d, eis como se poderia nomear o percurso realizado pelos artistas do final do s\u00e9culo XIX at\u00e9 s\u00e9culo XXI, em sua maneira de apreender a quest\u00e3o da n\u00e3o- rela\u00e7\u00e3o sexual. 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