{"id":5659074,"date":"2018-11-28T20:32:07","date_gmt":"2018-11-28T22:32:07","guid":{"rendered":"http:\/\/ciendigital.com.br\/?p=5659074"},"modified":"2018-11-28T20:32:07","modified_gmt":"2018-11-28T22:32:07","slug":"entrevista","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ciendigital.com.br\/index.php\/2018\/11\/28\/entrevista\/","title":{"rendered":"Entrevista"},"content":{"rendered":"<div class=\"pdfprnt-buttons pdfprnt-buttons-post pdfprnt-top-right\"><a href=\"https:\/\/ciendigital.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5659074?print=pdf\" class=\"pdfprnt-button pdfprnt-button-pdf\" target=\"_blank\" ><\/a><a href=\"https:\/\/ciendigital.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5659074?print=print\" class=\"pdfprnt-button pdfprnt-button-print\" target=\"_blank\" ><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/plugins\/pdf-print\/images\/print.png\" alt=\"image_print\" title=\"Conte\u00fado de impress\u00e3o\" \/><\/a><\/div><figure id=\"attachment_5659075\" aria-describedby=\"caption-attachment-5659075\" style=\"width: 231px\" class=\"wp-caption alignright\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-5659075\" src=\"http:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/butler280-231x300.jpg\" alt=\"\" width=\"231\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/butler280-231x300.jpg 231w, https:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/butler280-274x356.jpg 274w, https:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/butler280.jpg 280w\" sizes=\"auto, (max-width: 231px) 100vw, 231px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-5659075\" class=\"wp-caption-text\">Richard Butler, noisymouth, 2013<\/figcaption><\/figure>\n<h6>H\u00e9l\u00e8ne Deltombe<a style=\"font-size: 16px;\" href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">[1]<\/a>e Damasia Amadeo Freda<a style=\"font-size: 16px;\" href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\">[2]<\/a><\/h6>\n<p>A adolesc\u00eancia, tema ao qual o\u00a0<em>Campo Freudiano<\/em>\u00a0nos convida ao trabalho, nos \u00e9 apresentada por Freud como um per\u00edodo traum\u00e1tico em que o jovem \u00e9 colocado \u00e0 prova: alguns enigmas de sua exist\u00eancia se atualizam. Nesse turbilh\u00e3o e por vezes desespero, h\u00e1 uma abertura para novos arranjos e ajustes subjetivos necess\u00e1rios. Novos sintomas surgem como resposta ao real em jogo nesse momento de crise, delicada transi\u00e7\u00e3o, que produz um despertar, como nos ensina a literatura.<\/p>\n<p>Espa\u00e7os de conversa\u00e7\u00e3o tornam-se fundamentais pois cada saber abordar\u00e1 esses sintomas a partir do modo como define o real.<\/p>\n<p>Investigar o adolescente hoje nos permite encontrar duas autoras, duas psicanalistas, que nos brindam cada uma com seu livro, refer\u00eancias para nossas pesquisas.<\/p>\n<p>A primeira, H\u00e9l\u00e8ne Deltombe em\u00a0<em>Les enjeux de l\u2019adolescence<\/em>\u00a0nos permite entrar em seu consult\u00f3rio, ela nos d\u00e1 um testemunho de sua cl\u00ednica com os adolescentes. Apesar dos impasses e dificuldades com o corpo e com a linguagem, o jovem &#8211; que est\u00e1 num momento decisivo entre a inf\u00e2ncia e uma aposta para o futuro -, pode atrav\u00e9s da palavra, no encontro com essa psicanalista, visitar a trama de sua exist\u00eancia e descobrir nela uma via singular de seu desejo.<\/p>\n<p>A segunda autora, Damasia Amadeo Freda, em seu livro\u00a0<em>El adolescente actual, nociones cl\u00ednicas,\u00a0<\/em>tamb\u00e9m nos demonstra sua experi\u00eancia como psicanalista. Ela nos ensina como os adolescentes s\u00e3o os que mais manifestam o decl\u00ednio da autoridade e do saber, e tamb\u00e9m nos revelam as temperaturas das modifica\u00e7\u00f5es do amor: seus sintomas s\u00e3o paradigmas do real de nossa \u00e9poca.\u00a0 Essa cl\u00ednica, mais\u00a0 que qualquer outra, nos coloca diante quest\u00f5es e inven\u00e7\u00f5es. As duas psicanalistas em seus livros transmitem diversos \u00edndices de que h\u00e1 algo novo na adolesc\u00eancia. E como a psican\u00e1lise \u00e9 viva, atenta ao que faz exce\u00e7\u00e3o para cada sujeito pois n\u00e3o h\u00e1 nenhum m\u00e9todo ou t\u00e9cnica v\u00e1lida para todos. Podemos retirar deles a li\u00e7\u00e3o de como \u00e9 preciso &#8211; aos parceiros dos adolescentes -, n\u00e3o ceder sobre seu desejo e que uma aposta deve ser, a cada encontro com o jovem, renovada. Neste sentido, s\u00e3o livros que certamente v\u00e3o interessar aos profissionais de disciplinas diversas!<\/p>\n<p class=\"text-success\"><strong>CIEN Digital:<\/strong>\u00a0Quais os desafios\u00a0 da adolesc\u00eancia?<\/p>\n<p><strong>H\u00e9l\u00e8ne Deltombe:\u00a0<\/strong>Para al\u00e9m dos traumatismos que cada um pode encontrar em sua exist\u00eancia &#8211; os acontecimentos marcantes, as palavras que ferem, as rela\u00e7\u00f5es que perturbam, as viol\u00eancias &#8211; a adolesc\u00eancia \u00e9 em si um per\u00edodo traum\u00e1tico pois se trata de arrancar-se de sua fam\u00edlia e de preparar seu futuro. O adolescente, na incerteza e na ang\u00fastia da solid\u00e3o, \u00e9 tomado pelos conflitos \u00edntimos entre ideal, procura do amor,\u00a0 vontade\u00a0 de gozo, e ele se sente desorientado, o que favorece a forma\u00e7\u00e3o de sintomas e as passagens ao ato. E ainda mais que, na puberdade, as puls\u00f5es se assinalam com viol\u00eancia e fazem vacilar o equil\u00edbrio que o sujeito havia, mais ou menos, conquistado durante a inf\u00e2ncia, mas que era em parte imagin\u00e1rio, e n\u00e3o \u00e9 mais suficiente para responder \u00e0s quest\u00f5es essenciais: como deixar seus pais, como encontrar o Outro sexo, como assumir sua pr\u00f3pria sexualidade, o que \u00e9 o amor?<\/p>\n<figure id=\"attachment_5659076\" aria-describedby=\"caption-attachment-5659076\" style=\"width: 186px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-5659076\" src=\"http:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/broodthaers280-186x300.jpg\" alt=\"\" width=\"186\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/broodthaers280-186x300.jpg 186w, https:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/broodthaers280-274x441.jpg 274w, https:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/broodthaers280.jpg 280w\" sizes=\"auto, (max-width: 186px) 100vw, 186px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-5659076\" class=\"wp-caption-text\">Marcel Broodthaers, La Tour Visuelle, 1966<\/figcaption><\/figure>\n<p>Os adolescentes dos dias atuais \u00a0referem-se menos \u00e0s gera\u00e7\u00f5es precedentes que aos seus semelhantes, aos quais preferem se conformar sob o modo de identifica\u00e7\u00e3o, n\u00e3o somente pelos gostos comuns, formas de culturas compartilhadas, as modas, mas tamb\u00e9m por sintomas que correm o risco de n\u00e3o serem considerados como tais, nem pelo seu entorno nem por eles mesmos, enquanto d\u00e3o ao adolescente o sentimento de uma identidade comum que os conforta nessa via.<\/p>\n<p>A adolesc\u00eancia n\u00e3o \u00e9 mais a revolta contra o pai que ela foi h\u00e1 tempos, os sintomas n\u00e3o se desenvolvem mais por identifica\u00e7\u00e3o a um tra\u00e7o do pai, mas tomam a forma de epidemias, sobre o modo de identifica\u00e7\u00f5es rec\u00edprocas no seio de uma faixa et\u00e1ria.<\/p>\n<p>Certas adic\u00e7\u00f5es, como os jogos eletr\u00f4nicos, s\u00e3o um exemplo; o alcoolismo e a toxicomania, que comportam o risco de um processo de marginaliza\u00e7\u00e3o, s\u00e3o um outro.<\/p>\n<p>Os sintomas correm o risco de serem reduzidos a \u00edndices de pertencimento a uma faixa et\u00e1ria em lugar de se revelar como um apelo \u00e0 escuta de um sofrimento \u00edntimo.<\/p>\n<p>Esse \u00e9, entretanto, desde sempre, o papel de um sintoma, na condi\u00e7\u00e3o de que o adolescente n\u00e3o se perca numa procura desenfreada de gozo como \u00fanico recurso contra a ang\u00fastia, se abrigando em um grupo identit\u00e1rio que lhe evita de se situar como sujeito tendo quest\u00f5es para resolver, para discernir seu desejo.<\/p>\n<p class=\"text-success\"><strong>CIEN Digital:<\/strong>\u00a0O que um adolescente pode encontrar em um psicanalista?<\/p>\n<p><strong>H\u00e9l\u00e8ne Deltombe:\u00a0<\/strong>Hoje, o adolescente est\u00e1 muito s\u00f3 em sua luta para encontrar seu lugar na sociedade. Com a falta de ritos de inicia\u00e7\u00e3o, o encontro com um psicanalista pode se constituir para ele em uma chance de encontrar o apoio transferencial necess\u00e1rio para se engajar na via de seu desejo.<\/p>\n<p>Nesse encontro, o adolescente pode formular o que faz traumatismo para ele: os dizeres de seus pais, as puls\u00f5es que o transbordam, o peso do gozo do Outro. A quest\u00e3o que se coloca em cada caso \u00e9 a de saber se subsistem marcas indel\u00e9veis, para encontrarmos uma forma de reduzir o peso mort\u00edfero; ou ainda, como transformar esse impacto por um esclarecimento mais justo sobre a exist\u00eancia, segundo os significantes do sujeito.<\/p>\n<p>O discurso anal\u00edtico suscita uma palavra pr\u00f3pria para restituir ao sujeito sua parte de verdade e um saber sobre seu ser a partir do surgimento das forma\u00e7\u00f5es do inconsciente &#8211; lapsos, atos falhos, sonhos. \u00c9 uma palavra que segue o ritmo pr\u00f3prio do sujeito a fim de favorecer o encontro do real com a linguagem. A aposta a ser feita \u00e9 aquela de uma entrada decisiva no la\u00e7o social segundo a singularidade de seu desejo.<\/p>\n<p>O real do gozo \u00e9 esvaziado pelo processo de palavra que oferece o dispositivo anal\u00edtico, que permite \u00e0 linguagem furar o real, fazer efra\u00e7\u00e3o no real em jogo para o sujeito em rela\u00e7\u00e3o a um traumatismo, ou face ao gozo do Outro, ou ainda, quanto a seu masoquismo ou da puls\u00e3o de morte em jogo.<\/p>\n<p>Quando o sujeito est\u00e1 em impasse com uma viol\u00eancia que n\u00e3o cessa de transbordar, o apelo pode ser feito \u00e0 psican\u00e1lise para lhe permitir \u00a0se inscrever na linguagem, para tratar suas rela\u00e7\u00f5es com os outros de um modo simb\u00f3lico em vez de permanecer em um n\u00edvel imagin\u00e1rio, onde as paix\u00f5es se desencadeiam.<\/p>\n<figure id=\"attachment_5659077\" aria-describedby=\"caption-attachment-5659077\" style=\"width: 280px\" class=\"wp-caption alignright\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-5659077\" src=\"http:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/cesar280.jpg\" alt=\"\" width=\"280\" height=\"278\" srcset=\"https:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/cesar280.jpg 280w, https:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/cesar280-150x150.jpg 150w, https:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/cesar280-274x272.jpg 274w, https:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/cesar280-50x50.jpg 50w\" sizes=\"auto, (max-width: 280px) 100vw, 280px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-5659077\" class=\"wp-caption-text\">Ana Cristina C\u00e9sar, do livro A teus p\u00e9s, 1982<\/figcaption><\/figure>\n<p class=\"text-success\"><strong>CIEN-Digital:<\/strong>\u00a0O que a psican\u00e1lise aprende com os adolescentes?<\/p>\n<p><strong>H\u00e9l\u00e8ne Deltombe:\u00a0<\/strong>Podemos compreender que seja dif\u00edcil para um adolescente resistir aos chamados de identifica\u00e7\u00e3o aos outros adolescentes, a vincula\u00e7\u00e3o a um grupo social ef\u00eamero quando ele desempenha o papel de uma t\u00e1bua de salva\u00e7\u00e3o. Na puberdade, as puls\u00f5es se assinalam com viol\u00eancia e fazem vacilar o equil\u00edbrio que o sujeito tinha mais ou menos encontrado durante o per\u00edodo de lat\u00eancia. Se o grupo que o adolescente pertence privilegia as experi\u00eancias de gozo, acontece que o adolescente descobre a dimens\u00e3o sexual na brutalidade das confronta\u00e7\u00f5es e das passagens ao ato cuja viol\u00eancia o afunda na confus\u00e3o. S\u00e3o momentos de desapari\u00e7\u00e3o do sujeito que colocam em perigo sua rela\u00e7\u00e3o com a linguagem.<\/p>\n<p>Cada adolescente tem a necessidade de descobrir os la\u00e7os poss\u00edveis\u00a0 &#8211; diferentes para cada um \u2013 entre real, imagin\u00e1rio e simb\u00f3lico, afim de viver uma sexualidade que favore\u00e7a a realiza\u00e7\u00e3o de si. A quest\u00e3o \u00e9 de tentar \u00ab\u00a0fazer a coalesc\u00eancia, por assim dizer, dessa realidade sexual e da linguagem\u00a0\u00bb, bem como Jacques Lacan o indica por essa f\u00f3rmula concisa em sua\u00a0<em>Confer\u00eancia em Genebra sobre o sintoma em\u00a0<\/em>1975. Dessa forma, n\u00e3o \u00e9 o pai enquanto tal que \u00e9 o ator principal que permite ao adolescente se emancipar, mas muito mais seu engajamento na linguagem. O essencial \u00e9 conseguir enla\u00e7ar o real em jogo com o imagin\u00e1rio e o simb\u00f3lico atrav\u00e9s da linguagem.<\/p>\n<p class=\"text-success\"><strong>CIEN-Digital:<\/strong>\u00a0Quais diferen\u00e7as a senhora encontrou entre o adolescente de hoje e o adolescente dito freudiano?<\/p>\n<p><strong>H\u00e9l\u00e8ne Deltombe:\u00a0<\/strong>O processo de identifica\u00e7\u00e3o ao semelhante\u00a0 substituiu a identifica\u00e7\u00e3o ao pai, tradicionalmente no centro da constru\u00e7\u00e3o da personalidade. Classicamente, observava-se o adolescente se desligar da admira\u00e7\u00e3o pelo seu pai liberando-se de sua depend\u00eancia,\u00a0 identificando-se aos tra\u00e7os de sua personalidade. Esse processo n\u00e3o \u00e9 mais poss\u00edvel em uma sociedade onde o pai n\u00e3o \u00e9 mais uma figura exaltada, inclusive na inf\u00e2ncia.<\/p>\n<figure id=\"attachment_5659078\" aria-describedby=\"caption-attachment-5659078\" style=\"width: 224px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-5659078\" src=\"http:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/cocteau280-224x300.jpg\" alt=\"\" width=\"224\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/cocteau280-224x300.jpg 224w, https:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/cocteau280-274x367.jpg 274w, https:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/cocteau280.jpg 280w\" sizes=\"auto, (max-width: 224px) 100vw, 224px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-5659078\" class=\"wp-caption-text\">Jean Cocteau, Porte du ciel, 1972<\/figcaption><\/figure>\n<p>At\u00e9 mesmo, o per\u00edodo do decl\u00ednio paterno se foi. N\u00e3o s\u00e3o mais os pais que hoje s\u00e3o derrubados, s\u00e3o os jovens que s\u00e3o exclu\u00eddos. N\u00e3o h\u00e1 acesso ao saber para um n\u00famero crescente de jovens, exclus\u00e3o do trabalho com o aumento do desemprego. Nota-se a ignor\u00e2ncia, e mesmo o analfabetismo de um n\u00famero importante de adolescentes, um aumento de desigualdades que resultam em um processo de segrega\u00e7\u00e3o que tem cada vez mais precocemente lugar.<\/p>\n<p>Constatando esse fen\u00f4meno, Jacques Lacan tirou as consequ\u00eancias subjetivas, sobre o plano te\u00f3rico como sobre o plano cl\u00ednico. Ele tamb\u00e9m indicou a convers\u00e3o necess\u00e1ria a se fazer sobre o plano cl\u00ednico passando de uma situa\u00e7\u00e3o social onde prevalecia o Nome-do-Pai, a uma sociedade onde possam ser eficientes os Nomes-do-Pai, quer dizer, significantes, institui\u00e7\u00f5es, elementos de cultura capazes de constituir apoios fundamentais para os adolescentes.<\/p>\n<p>Nessa conjuntura de car\u00eancia da fun\u00e7\u00e3o paterna, os sintomas tomam uma nova forma. N\u00f3s os chamamos sintomas do la\u00e7o social porque isso toca o la\u00e7o com os outros: alcolismo, toxicomania, bulimia, anorexia, delinqu\u00eancia, suic\u00eddios, padr\u00f5es de vestu\u00e1rios, modos de comportamentos, modos de express\u00e3o que acentuam os fen\u00f4menos de ruptura e de processo de marginaliza\u00e7\u00e3o dos adolescentes.<\/p>\n<p>O analista n\u00e3o tem outra alternativa que aquela de se deixar guiar por essa demanda paradoxal, a de encontrar o bem-estar enquanto a forma de adic\u00e7\u00e3o adotada pode levar \u00e0 morte. O desejo do analista n\u00e3o pode encontrar essa via sen\u00e3o articulando-se a essa procura, trata-se \u00ab\u00a0de fazer do gozo uma fun\u00e7\u00e3o e de lhe dar sua estrutura l\u00f3gica\u00a0\u00bb.<a href=\"#_ftn3\" name=\"_ftnref3\">[3]<\/a>\u00a0Apesar do paradoxo que comporta uma demanda, trata-se de confiar na palavra, pois o processo da palavra no dispositivo anal\u00edtico permite aos significantes surgirem. H\u00e1 uma l\u00f3gica do encadeamento do significante que vai ter prioridade sobre sua vontade de gozo.<\/p>\n<p>\u00ab\u00a0A linguagem est\u00e1 ligada a alguma coisa que no real faz furo. \u00c9 dessa fun\u00e7\u00e3o de furo que a linguagem opera sua tomada sobre o real. N\u00e3o h\u00e1 verdade poss\u00edvel sen\u00e3o essa de esvaziar esse real\u00a0\u00bb<a href=\"#_ftn4\" name=\"_ftnref4\">[4]<\/a><\/p>\n<p class=\"text-success\"><strong>CIEN-Digital:<\/strong>\u00a0O que h\u00e1 de atual na adolesc\u00eancia?<\/p>\n<figure id=\"attachment_5659079\" aria-describedby=\"caption-attachment-5659079\" style=\"width: 280px\" class=\"wp-caption alignright\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-5659079\" src=\"http:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/serra280.jpg\" alt=\"\" width=\"280\" height=\"261\" srcset=\"https:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/serra280.jpg 280w, https:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/serra280-274x255.jpg 274w\" sizes=\"auto, (max-width: 280px) 100vw, 280px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-5659079\" class=\"wp-caption-text\">Richard Serra, instala\u00e7\u00e3o Ramble Drawings, 2015<\/figcaption><\/figure>\n<p><strong>Damasia Amadeo Freda:\u00a0<\/strong>H\u00e1 determinados comportamentos que falam de uma complexidade, de um agravamento na adolesc\u00eancia atual. Para tomar uma s\u00f3 via, podemos ver uma\u00a0 grada\u00e7\u00e3o de comportamentos que, em definitivo, apontam para o mesmo. Por exemplo, as les\u00f5es que o adolescente inflige em seu corpo &#8211; as auto-les\u00f5es -, s\u00e3o marcas, pequenos tra\u00e7os, signos de algo que n\u00e3o sabemos bem, nem os psicanalistas, nem eles mesmos, signo do que \u00e9. Logo, est\u00e3o tamb\u00e9m, o ass\u00e9dio ao semelhante e por pura divers\u00e3o; um ass\u00e9dio que impacta o corpo do outro e que tem um nome:\u00a0<em>bulling<\/em>. Que se trate de um acosso virtual ou de um ataque real, o fim \u00e9 o mesmo: produzir dano no outro. Em outro extremo, temos a imola\u00e7\u00e3o de adolescentes na radicaliza\u00e7\u00e3o religiosa, a qual consiste na destrui\u00e7\u00e3o total do corpo, o de quem se imola e o do outro ao qual se ataca com esse ato, um outro multiplicado e an\u00f4nimo nesse caso.<\/p>\n<p>Evidentemente, temos que diferenciar cada um desses comportamentos, mas todos tem um denominador comum: o dano do corpo. H\u00e1 a\u00ed um \u00edndice de algo novo na adolesc\u00eancia que bem poderia se enquadrar dentro das caracter\u00edsticas pr\u00f3prias do registro imagin\u00e1rio que, sabemos bem, hoje predomina sobre o registro simb\u00f3lico. No caso da radicaliza\u00e7\u00e3o, pareceria tratar-se, tamb\u00e9m, de um chamado desesperado e extremo \u00e0 re-instaura\u00e7\u00e3o da lei, mas uma lei impiedosa e feroz.<\/p>\n<p>\u00c9 claro que tamb\u00e9m h\u00e1 outras caracter\u00edsticas da adolesc\u00eancia atual, mas me interessa colocar em relevo essas porque s\u00e3o um signo da mudan\u00e7a de \u00e9poca e que os adolescentes encarnam lamentavelmente.<\/p>\n<p class=\"text-success\"><strong>CIEN-Digital:<\/strong>\u00a0Em sua experi\u00eancia cl\u00ednica, os\u00a0<strong>adolescentes<\/strong>\u00a0se nomeiam a si mesmos \u201cadolescentes\u201d?<\/p>\n<p><strong>Damasia Amadeo Freda:\u00a0<\/strong>\u00c9 interessante sua pergunta, e ter\u00edamos que estar mais atentos para ver se eles se nomeiam \u201cadolescentes\u201d. N\u00e3o me \u00e9 particularmente\u00a0presente escut\u00e1-los falarem de si mesmos como adolescentes. Por exemplo, defender um direito ou justificar uma a\u00e7\u00e3o invocando esse nome. Por outro lado, \u00e9 certo que a sociedade os nomeia \u201cadolescentes\u201d, \u00e9 certo que o Outro os enquadra dentro desse nome. Mas \u00e9 certo que dentro dessa categoria &#8211; que \u00e9 uma nomea\u00e7\u00e3o -, se incluem os\u00a0<em>Nem-Nem<\/em>, os diferentes nomes das tribos urbanas ou de manifesta\u00e7\u00f5es que, por serem desconhecidas e recentes, rapidamente se catalogam com nomes de s\u00edndromes novas, como \u00e9 o caso da\u00a0<em>afluenza<\/em>. Trata-se de sub-nomea\u00e7\u00f5es dentro de uma nomea\u00e7\u00e3o maior que \u00e9 a adolesc\u00eancia mesma.<\/p>\n<figure id=\"attachment_5659080\" aria-describedby=\"caption-attachment-5659080\" style=\"width: 241px\" class=\"wp-caption alignright\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-5659080\" src=\"http:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/bas280-241x300.jpg\" alt=\"\" width=\"241\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/bas280-241x300.jpg 241w, https:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/bas280-274x342.jpg 274w, https:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/bas280.jpg 280w\" sizes=\"auto, (max-width: 241px) 100vw, 241px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-5659080\" class=\"wp-caption-text\">Hernan Bas, Wine River (Fountain of Youth), 2010<\/figcaption><\/figure>\n<p>\u00c9 importante poder indagar com maior precis\u00e3o sobre essa tem\u00e1tica, porque vai na linha do que lhes dizia anteriormente a respeito do chamado a uma ordem. A nomea\u00e7\u00e3o \u00e9 tamb\u00e9m uma forma de ordenar elementos semelhantes, \u00e9 sem d\u00favida uma tend\u00eancia ao ordenamento, e temos que estar atentos a sua vincula\u00e7\u00e3o e a sua instala\u00e7\u00e3o como poss\u00edvel substitui\u00e7\u00e3o frente ao decl\u00ednio de outra ordem, a patriarcal.<\/p>\n<p class=\"text-success\"><strong>CIEN-Digital:<\/strong>\u00a0O que \u00e9 a adolesc\u00eancia para eles?<\/p>\n<p><strong>Damasia Amadeo Freda:\u00a0<\/strong>A cl\u00ednica e os exemplos anteriores mostram que para eles \u00e9 um momento muito dif\u00edcil, muito mais complexo do \u00a0que em outra \u00e9poca, porque est\u00e1 marcado por uma grande desorienta\u00e7\u00e3o, da qual podem derivar a\u00e7\u00f5es err\u00e1ticas, em omiss\u00f5es, mas tamb\u00e9m em solu\u00e7\u00f5es extremas, como \u00e9 o caso da radicaliza\u00e7\u00e3o religiosa.<\/p>\n<p class=\"text-success\"><strong>CIEN-Digital:<\/strong>\u00a0E para a psican\u00e1lise, o que \u00e9 um adolescente?<\/p>\n<p><strong>Damasia Amadeo Freda:\u00a0<\/strong>Fundamentalmente, \u00e9 a possibilidade de interrogar e investigar sobre as modifica\u00e7\u00f5es da subjetividade da \u00e9poca. A adolesc\u00eancia de hoje est\u00e1 \u00a0nos dando a temperatura de um tipo de subjetividade muito mais abrangente do conjunto social. A adolesc\u00eancia nos d\u00e1 a id\u00e9ia de uma desorienta\u00e7\u00e3o subjetiva que busca desesperadamente um norte, o qual n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o\u00a0certo que se possa encontrar facilmente.<\/p>\n<p>Com respeito ao adolescente em si, a psican\u00e1lise pode ser um bom instrumento para ajud\u00e1-lo a encontrar uma orienta\u00e7\u00e3o mais de acordo ao pr\u00f3prio desejo. Porque os desejos, os genu\u00ednos, muitas vezes se encontram aprisionados entre as palavras e por tal motivo n\u00e3o encontram uma boa forma para se expressarem. Ent\u00e3o \u00e9 quest\u00e3o de lhes dar a palavra para que esses desejos se expressem e encontrem melhor rumo.<\/p>\n<h6>Entrevistas e Tradu\u00e7\u00e3o:\u00a0<em>Cristiana Pittella de Mattos<\/em><\/h6>\n<h6>Revis\u00e3o:\u00a0<em>S\u00e9rgio de Mattos<\/em><\/h6>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<hr \/>\n<h6>Notas:<\/h6>\n<h6><a id=\"_ftn1\" title=\"\" href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">1<\/a>\u00a0\u00a0H\u00e9l\u00e8ne Deltombe \u00e9 psic\u00f3loga, psicanalista, membro da \u00c9cole de La Cause Freudienne (ECF) e da Associa\u00e7\u00e3o Mundial de Psicanalise (AMP).<\/h6>\n<h6><a id=\"_ftn2\" title=\"\" href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\">2<\/a>\u00a0\u00a0Damasia Amadeo de Freda \u00e9 psicanalista, membro da Escuela de la Orientaci\u00f3n Lacaniana (EOL) e da Associa\u00e7\u00e3o Mundial de Psican\u00e1lise (AMP).<\/h6>\n<h6><a id=\"_ftn3\" title=\"\" href=\"#_ftnref3\" name=\"_ftn3\">3<\/a>\u00a0\u00a0Miller J.-A., \u00ab\u00a0Une lecture du s\u00e9minaire\u00a0<em>D\u2019un Autre \u00e0 l\u2019autre<\/em>\u00a0\u00bb,\u00a0<em>Revue la Cause freudienne<\/em>\u00a0n\u00b065, Paris, Navarin, 2007, p.105.<\/h6>\n<div id=\"ftn4\">\n<h6><a id=\"_ftn4\" title=\"\" href=\"#_ftnref4\" name=\"_ftn4\">4<\/a>\u00a0\u00a0Lacan J.,\u00a0<em>Le S\u00e9minaire<\/em>, Livre XXIII,\u00a0<em>Le sinthome<\/em>, Paris, Seuil, mars 2005, p.31.<\/h6>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>H\u00e9l\u00e8ne Deltombe[1]e Damasia Amadeo Freda[2] A adolesc\u00eancia, tema ao qual o\u00a0Campo Freudiano\u00a0nos convida ao trabalho, nos \u00e9 apresentada por Freud como um per\u00edodo traum\u00e1tico em que o jovem \u00e9 colocado \u00e0 prova: alguns enigmas de sua exist\u00eancia se atualizam. Nesse turbilh\u00e3o e por vezes desespero, h\u00e1 uma abertura para novos arranjos e ajustes subjetivos necess\u00e1rios.&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":5659075,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[132,26],"tags":[120],"post_series":[],"class_list":["post-5659074","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-cien-digital-19","category-entrevista","tag-cien_digital_19","entry","has-media"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/ciendigital.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5659074","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/ciendigital.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/ciendigital.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ciendigital.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ciendigital.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=5659074"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/ciendigital.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5659074\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ciendigital.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/5659075"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/ciendigital.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=5659074"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/ciendigital.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=5659074"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/ciendigital.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=5659074"},{"taxonomy":"post_series","embeddable":true,"href":"https:\/\/ciendigital.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/post_series?post=5659074"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}