{"id":5659100,"date":"2018-11-29T15:31:41","date_gmt":"2018-11-29T17:31:41","guid":{"rendered":"http:\/\/ciendigital.com.br\/?p=5659100"},"modified":"2018-11-29T15:31:41","modified_gmt":"2018-11-29T17:31:41","slug":"trilogia-das-novas-familias","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ciendigital.com.br\/index.php\/2018\/11\/29\/trilogia-das-novas-familias\/","title":{"rendered":"Trilogia das Novas Fam\u00edlias"},"content":{"rendered":"<div class=\"pdfprnt-buttons pdfprnt-buttons-post pdfprnt-top-right\"><a href=\"https:\/\/ciendigital.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5659100?print=pdf\" class=\"pdfprnt-button pdfprnt-button-pdf\" target=\"_blank\" ><\/a><a href=\"https:\/\/ciendigital.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5659100?print=print\" class=\"pdfprnt-button pdfprnt-button-print\" target=\"_blank\" ><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/plugins\/pdf-print\/images\/print.png\" alt=\"image_print\" title=\"Conte\u00fado de impress\u00e3o\" \/><\/a><\/div><div class=\"alert-danger\">\n<figure id=\"attachment_5659101\" aria-describedby=\"caption-attachment-5659101\" style=\"width: 280px\" class=\"wp-caption alignright\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-5659101\" src=\"http:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/scott280.jpg\" alt=\"\" width=\"280\" height=\"220\" srcset=\"https:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/scott280.jpg 280w, https:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/scott280-274x215.jpg 274w\" sizes=\"auto, (max-width: 280px) 100vw, 280px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-5659101\" class=\"wp-caption-text\">Judith Scott, sans titre (poup\u00e9e)<br \/>Laine et tissu<\/figcaption><\/figure>\n<h6>Sobre o filme de Isabel Noronha e Maria do Ros\u00e1rio Collier do R\u00eago Barros<\/h6>\n<\/div>\n<p>O filme de Isabel Noronha,\u00a0<em>Trilogia das novas fam\u00edlias<\/em>, situa de forma pungente a quest\u00e3o de muitas crian\u00e7as de Mo\u00e7ambique, cujos pais morreram de AIDS: como crescer sem pais, como continuar vivendo sem poder contar com seus pais?<\/p>\n<p>A resposta para essa quest\u00e3o s\u00f3 poder\u00e1 vir de cada um. Da\u00ed a escolha de Isabel de escut\u00e1-los, de escutar aqueles que querem falar e que aproveitam a oportunidade oferecida pela realiza\u00e7\u00e3o do filme para contar suas hist\u00f3rias, ou melhor, para se localizarem nas suas hist\u00f3rias.<\/p>\n<p>O filme nos mostra, atrav\u00e9s de tr\u00eas hist\u00f3rias, como essas crian\u00e7as que perderam seus pais n\u00e3o ficaram \u00e0 deriva, e como cada uma foi construindo seu caminho, com o que p\u00f4de resgatar de seus pais em sua mem\u00f3ria, em seus sonhos.<\/p>\n<p>A chegada de Isabel lhes deu a oportunidade de fazer algo com esses restos que aparecem nas lembran\u00e7as de que n\u00e3o ousam falar, nos sonhos, que perturbam, nos desencontros que doem.<\/p>\n<p>No primeiro curta-metragem, o caminho do Ser, \u00e9 a voz que aparece como resto e marca da presen\u00e7a dos pais ausentes que orienta e ensina. E a quest\u00e3o que vai se colocar \u00e9 de como fazer dessa voz sua heran\u00e7a e n\u00e3o um objeto persecut\u00f3rio, que parasitaria a exist\u00eancia deles como uma alucina\u00e7\u00e3o, como um imperativo do qual n\u00e3o pudessem se separar para construir seu pr\u00f3prio caminho. A voz da m\u00e3e diz que \u00e9 necess\u00e1rio ir \u00e0 escola para poderem ir al\u00e9m do que ela lhes ensinou e al\u00e9m do pai, que era carpinteiro. Para fazer da voz heran\u00e7a, \u00e9 preciso pensar que h\u00e1 um al\u00e9m do que foi ensinado, do que foi dito, que autoriza cada um na sua constru\u00e7\u00e3o, na constru\u00e7\u00e3o de seu sintoma a partir desse ponto de real encontrado com a morte dos pais.<\/p>\n<figure id=\"attachment_5659102\" aria-describedby=\"caption-attachment-5659102\" style=\"width: 270px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-5659102\" src=\"http:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/longo280-270x300.jpg\" alt=\"\" width=\"270\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/longo280-270x300.jpg 270w, https:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/longo280-274x304.jpg 274w, https:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/longo280.jpg 280w\" sizes=\"auto, (max-width: 270px) 100vw, 270px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-5659102\" class=\"wp-caption-text\">Robert Longo, Untitled (Andre), 2007<br \/>Charcoal on mounted paper<\/figcaption><\/figure>\n<p>Crescer sem os pais, mas n\u00e3o sem o Outro. Isabel nos indicou bem, como nessas comunidades africanas, os mitos e os rituais, tanto em rela\u00e7\u00e3o ao nascimento como a morte, d\u00e3o lugar a cada um no Outro simb\u00f3lico. Mas, em rela\u00e7\u00e3o a essas crian\u00e7as, cujos pais morreram de AIDS, se observa uma ruptura nos la\u00e7os, pois essas mortes s\u00e3o consideradas como feiti\u00e7arias. H\u00e1 assim uma impossibilidade de se recorrer aos rituais para sustentar o lugar do Outro como refer\u00eancia comum. O filme tem a\u00ed uma fun\u00e7\u00e3o na constru\u00e7\u00e3o de um Outro sob medida, \u00e0 medida de cada um, ao solicitar e produzir junto com eles uma narrativa, onde os vemos encontrar o ponto de apoio sintom\u00e1tico que os orienta, quando a refer\u00eancia aos mitos e aos ritos n\u00e3o consegue mais ser utilizada, ou porque n\u00e3o t\u00eam os recursos financeiros para realiz\u00e1-los, ou porque a l\u00f3gica do pr\u00f3prio mito os exclui como descendentes de pais aid\u00e9ticos, considerados esp\u00edritos do mal.<\/p>\n<p>Ao longo do filme, a narrativa de cada um vai constituindo um destinat\u00e1rio e se insere numa cadeia de transmiss\u00e3o, da qual n\u00f3s, espectadores, passamos a fazer parte. Essa cadeia que vai assim se constituindo parece servir de recurso para essas crian\u00e7as lidarem com a queda da sustenta\u00e7\u00e3o nos mitos e poderem apoiar-se em novos la\u00e7os de solidariedade e amizade que v\u00e3o se solidificando, o que \u00e9 bem diferente de uma obra de caridade.<\/p>\n<p>Isso \u00e9 o que nos mostra o terceiro curta-metragem,\u00a0<em>Ali Aleluia<\/em>. Ali contraiu AIDS por transmiss\u00e3o vertical, e desde que seus pais morreram ele vive s\u00f3 com sua prima na sua casa de inf\u00e2ncia.\u00a0<em>Ali<\/em>\u00a0transmite a alegria que conseguiu encontrar nos novos la\u00e7os com a filha da vizinha, que vai busc\u00e1-lo para brincar, para ajud\u00e1-lo a cumprir suas tarefas escolares e fazer suas refei\u00e7\u00f5es. Ela n\u00e3o o deixa s\u00f3. Um la\u00e7o de amizade que quebra o tabu da maldi\u00e7\u00e3o que paira sobre essas crian\u00e7as \u00e9 um ant\u00eddoto contra a segrega\u00e7\u00e3o, e abre efetivamente um novo caminho.<\/p>\n<figure id=\"attachment_5659103\" aria-describedby=\"caption-attachment-5659103\" style=\"width: 176px\" class=\"wp-caption alignright\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-5659103\" src=\"http:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/eu280-176x300.jpg\" alt=\"\" width=\"176\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/eu280-176x300.jpg 176w, https:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/eu280-274x466.jpg 274w, https:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/eu280.jpg 280w\" sizes=\"auto, (max-width: 176px) 100vw, 176px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-5659103\" class=\"wp-caption-text\">Adrianna Eu, O Corte e a Costura, 2007<\/figcaption><\/figure>\n<p>O segundo curta-metragem,\u00a0<em>Delfina mulher-menina<\/em>, mostra a dificuldade dessa adolescente de 13 anos em fazer o luto de sua m\u00e3e, na medida em que fica apegada \u00e0 m\u00e1goa pelo abandono do pai, que vive com outra mulher e nunca procurou os filhos para ajud\u00e1-los. Vemos a exig\u00eancia que pesa sobre\u00a0<em>Delfina<\/em>\u00a0de ter que encarnar a figura materna, o que a impede de estabelecer novos la\u00e7os com seus irm\u00e3os maiores. S\u00f3 com o irm\u00e3o ca\u00e7ula consegue assumir essa fun\u00e7\u00e3o, o que a reconforta. Em seu trabalho de luto, sonha com a m\u00e3e. Parece que esse sonho lhe serve como recurso para n\u00e3o ter que ser ela pr\u00f3pria a m\u00e3e. Decide ent\u00e3o escrever uma carta \u00e0 m\u00e3e, e depois confiou essa carta \u00e0 respons\u00e1vel pelo projeto Mahalhle. Com isso cria um novo destinat\u00e1rio, o que poder\u00e1 lhe permitir n\u00e3o ter que encarnar a m\u00e3e e poder receber a ajuda e a orienta\u00e7\u00e3o de uma figura materna.<\/p>\n<p>Esses tr\u00eas curtas metragens mostram como sair do isolamento e da solid\u00e3o se utilizando das marcas deixadas pelos pais, que fazem dessas crian\u00e7as e adolescentes portadores das fantasias parentais, de seus projetos n\u00e3o realizados, de suas ambi\u00e7\u00f5es pessoais. Atravessados por essas marcas eles v\u00e3o construindo suas modalidades pr\u00f3prias de estar no mundo e se inserir no discurso que sustenta os la\u00e7os naquela comunidade.<\/p>\n<p>O CIEN agradece a Isabel Noronha sua presen\u00e7a no debate sobre o filme, que abre certamente para novos encontros dos quais possamos tirar consequ\u00eancias de sua experi\u00eancia. O cinema, como elemento \u00eaxtimo, poder\u00e1 fazer parte da reconstru\u00e7\u00e3o de la\u00e7os por parte daqueles que se sentem abandonados pelo Outro, quando a falta que o constitui, corre o risco de ser tamponada, quando n\u00e3o se podem situar no mito e no que este circunscreve como imposs\u00edvel.<\/p>\n<p>Quando as novas fam\u00edlias se constroem a partir da crian\u00e7a, elas precisam situar esse ponto de imposs\u00edvel para poderem lidar com os la\u00e7os horizontais que ganham toda sua preval\u00eancia com a aus\u00eancia dos pais.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Sobre o filme de Isabel Noronha e Maria do Ros\u00e1rio Collier do R\u00eago Barros O filme de Isabel Noronha,\u00a0Trilogia das novas fam\u00edlias, situa de forma pungente a quest\u00e3o de muitas crian\u00e7as de Mo\u00e7ambique, cujos pais morreram de AIDS: como crescer sem pais, como continuar vivendo sem poder contar com seus pais? 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