{"id":5659113,"date":"2018-11-29T15:38:20","date_gmt":"2018-11-29T17:38:20","guid":{"rendered":"http:\/\/ciendigital.com.br\/?p=5659113"},"modified":"2018-11-29T15:38:20","modified_gmt":"2018-11-29T17:38:20","slug":"a-ceu-aberto","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ciendigital.com.br\/index.php\/2018\/11\/29\/a-ceu-aberto\/","title":{"rendered":"A C\u00e9u Aberto"},"content":{"rendered":"<div class=\"pdfprnt-buttons pdfprnt-buttons-post pdfprnt-top-right\"><a href=\"https:\/\/ciendigital.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5659113?print=pdf\" class=\"pdfprnt-button pdfprnt-button-pdf\" target=\"_blank\" ><\/a><a href=\"https:\/\/ciendigital.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5659113?print=print\" class=\"pdfprnt-button pdfprnt-button-print\" target=\"_blank\" ><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/plugins\/pdf-print\/images\/print.png\" alt=\"image_print\" title=\"Conte\u00fado de impress\u00e3o\" \/><\/a><\/div><div class=\"alert-danger\">\n<figure id=\"attachment_5659114\" aria-describedby=\"caption-attachment-5659114\" style=\"width: 280px\" class=\"wp-caption alignright\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-5659114\" src=\"http:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/hesidence280.jpg\" alt=\"\" width=\"280\" height=\"193\" srcset=\"https:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/hesidence280.jpg 280w, https:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/hesidence280-274x189.jpg 274w\" sizes=\"auto, (max-width: 280px) 100vw, 280px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-5659114\" class=\"wp-caption-text\">Daniel Hesidence, Untitled (Maritime Spring) \u2013 55\u00aa Bienal Veneza<\/figcaption><\/figure>\n<h6>M\u00f4nica Hage<\/h6>\n<\/div>\n<p>No dia 28 de mar\u00e7o de 2015, a Biblioteca da Se\u00e7\u00e3o Bahia, em parceria com o CIEN-Bahia, exibiu o filme da cineasta Mariana Otero:\u00a0<em>A C\u00e9u Aberto<\/em>. Mariana adentra com a sua c\u00e2mera em uma Institui\u00e7\u00e3o na B\u00e9lgica, o\u00a0<em>Courtil<\/em>, e com muita sensibilidade nos transporta para o dia-a-dia de crian\u00e7as e jovens autistas e psic\u00f3ticos.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s a exibi\u00e7\u00e3o do filme, iniciamos um rico debate, contando com a presen\u00e7a de um p\u00fablico diversificado: membros da EBP, alunos e associados do IPB, psic\u00f3logos, profissionais da \u00e1rea da educa\u00e7\u00e3o, al\u00e9m de alguns pais de autistas.<\/p>\n<p>Come\u00e7amos com a fala de T\u00e2nia Abreu (diretora de Biblioteca da EBP) destacando que o filme \u00e9 uma oportunidade \u00edmpar de apresentar ao p\u00fablico o trabalho da psican\u00e1lise de orienta\u00e7\u00e3o lacaniana com sujeitos portadores de autismos, fora dos muros dos consult\u00f3rios, principalmente por ser este um momento importante de afirma\u00e7\u00e3o da psican\u00e1lise como terap\u00eautica eficaz nesses casos. Assinala a import\u00e2ncia de tratarmos os autistas como sujeitos e n\u00e3o como deficientes. Ela diz que apesar de reconhecermos toda a import\u00e2ncia de uma fundamenta\u00e7\u00e3o te\u00f3rica para orientar o nosso trabalho, n\u00e3o podemos perder de vista que essa teoriza\u00e7\u00e3o s\u00f3 dever\u00e1 acontecer a partir da cl\u00ednica, e este \u00e9 o grande ensinamento da pr\u00e1tica no Courtil. Assim, devemos estar atentos \u00e0s inven\u00e7\u00f5es das crian\u00e7as no seu cotidiano. \u00a0Ela destaca, ainda do filme, as li\u00e7\u00f5es te\u00f3ricas sobre a import\u00e2ncia dos objetos aut\u00edsticos, as estrat\u00e9gias dos mediadores para interromper um ciclo de repeti\u00e7\u00e3o de gozo, que no autismo \u00e9 da ordem do infinito, introduzindo nomea\u00e7\u00f5es e o novo. Al\u00e9m disso, a pouca import\u00e2ncia que \u00e9 dada ao diagn\u00f3stico, \u201cvisto que etiquetar uma crian\u00e7a pode ofuscar o desejo.\u201d<\/p>\n<p>Outra grande li\u00e7\u00e3o do filme, segundo T\u00e2nia Abreu, diz respeito \u00e0 transfer\u00eancia poss\u00edvel nos casos de autismo e psicose, sobretudo porque \u201celas n\u00e3o se ap\u00f3iam no saber constitu\u00eddo, mas em um saber constru\u00eddo ali, no cotidiano.\u201d Cita tamb\u00e9m a \u201cpr\u00e1tica entre v\u00e1rios\u201d, modo de atuar, a partir da psican\u00e1lise lacaniana, nas Institui\u00e7\u00f5es, onde a transfer\u00eancia pode ser \u201cpulverizada\u201d, o que pode ser de fundamental import\u00e2ncia nestes casos.<\/p>\n<figure id=\"attachment_5659115\" aria-describedby=\"caption-attachment-5659115\" style=\"width: 280px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-5659115\" src=\"http:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/hempel280.jpg\" alt=\"\" width=\"280\" height=\"289\" srcset=\"https:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/hempel280.jpg 280w, https:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/hempel280-274x283.jpg 274w\" sizes=\"auto, (max-width: 280px) 100vw, 280px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-5659115\" class=\"wp-caption-text\">Lothar Hempel, Die Blinde S\u00e4ngerin, 2012<br \/>Courtesy Stuart Shave\/Modern Art London<\/figcaption><\/figure>\n<p>Outro ponto de destaque do filme, trazido por T\u00e2nia, \u00e9 a dificuldade cl\u00ednica de diferencia\u00e7\u00e3o entre autismo e esquizofrenia, e a no\u00e7\u00e3o de corpo fragmentado na psicose e n\u00e3o constru\u00eddo no autismo. Como exemplo, Mariage cita Yasmine que escuta o cora\u00e7\u00e3o no p\u00e9! Temos tamb\u00e9m a observa\u00e7\u00e3o sobre o corpo n\u00e3o furado do autista, retratado na ang\u00fastia do jovem Jean \u2013 Hugues ao ver um pelo sair em seu rosto. Trata-se de algo que surge onde n\u00e3o estava previsto, presen\u00e7a real que angustia. Este jovem tamb\u00e9m nos apresenta suas diversas inven\u00e7\u00f5es com o \u00e1lbum que organiza seu mundo espa\u00e7o-temporal ou o uso dos fones de ouvido que regulam a invas\u00e3o das vozes em seu corpo.<\/p>\n<p>Em seguida contamos com a participa\u00e7\u00e3o de Carla Fernandes, J\u00falia Solano e Rog\u00e9rio Barros, Associados do IPB, que nos trouxeram uma importante teoriza\u00e7\u00e3o sobre o corpo e a psicose, articulando com aspectos do filme.<\/p>\n<p>Carla Fernandes nos aponta para a diferen\u00e7a entre \u201cter um corpo e ser um corpo\u201d, destacando que a experi\u00eancia da entrada na linguagem permite ao homem acreditar que tem um corpo. Se, por um lado, o neur\u00f3tico acredita que tem um corpo, por outro lado, a quest\u00e3o de ser um corpo, um corpo fragmentado, se imp\u00f5e constantemente para o esquizofr\u00eanico. O que permite a passagem do ser um corpo a ter um corpo na constitui\u00e7\u00e3o do falasser \u00e9 a significa\u00e7\u00e3o f\u00e1lica. Se um corpo \u00e9 justamente o que nos permite representar o mundo, Carla nos aponta para a import\u00e2ncia das interven\u00e7\u00f5es dos que lidam com as crian\u00e7as no filme e seus efeitos no corpo delas, mostrando que uma das interven\u00e7\u00f5es permite o investimento libidinal na can\u00e7\u00e3o, deslocando momentaneamente o gozo que invade o corpo para o campo da realidade.<\/p>\n<p>J\u00falia Solano nos retorna ao texto de Freud, \u201cMal Estar da Civiliza\u00e7\u00e3o\u201d, onde ele coloca que o mal estar inerente \u00e0 condi\u00e7\u00e3o humana \u00e9 proveniente de tr\u00eas fontes: o corpo, a rela\u00e7\u00e3o com os outros e o mundo exterior. Destaca assim, a partir do filme, a dificuldade encontrada pelo psic\u00f3tico na sua rela\u00e7\u00e3o com os outros, levando-se em considera\u00e7\u00e3o que ele n\u00e3o faz la\u00e7o social e seus comportamentos, muitas vezes considerados bizarros, denunciam isso na sua rela\u00e7\u00e3o com o mundo exterior e na rela\u00e7\u00e3o que estabelece com o pr\u00f3prio corpo. J\u00falia nos fala ainda da fragmenta\u00e7\u00e3o do corpo na psicose, destacando a import\u00e2ncia do corpo estar marcado por uma borda, para assim dar ao sujeito a no\u00e7\u00e3o de interior e exterior. Ressalta a relev\u00e2ncia da delicadeza e fineza das interven\u00e7\u00f5es feitas pela equipe, todas apontando para a constru\u00e7\u00e3o de um corpo, tornando assim poss\u00edvel para estes sujeitos uma separa\u00e7\u00e3o m\u00ednima entre eles e o Outro e ao mesmo tempo promovendo uma regula\u00e7\u00e3o de gozo que lhes permite inserir-se no campo social.<\/p>\n<figure id=\"attachment_5659116\" aria-describedby=\"caption-attachment-5659116\" style=\"width: 280px\" class=\"wp-caption alignright\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-5659116\" src=\"http:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/kucia280.jpg\" alt=\"\" width=\"280\" height=\"280\" srcset=\"https:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/kucia280.jpg 280w, https:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/kucia280-150x150.jpg 150w, https:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/kucia280-274x274.jpg 274w, https:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/kucia280-50x50.jpg 50w\" sizes=\"auto, (max-width: 280px) 100vw, 280px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-5659116\" class=\"wp-caption-text\">Craig Kucia, i sing with my ears closed, 2007<\/figcaption><\/figure>\n<p>Rog\u00e9rio Barros, partindo do pressuposto freudiano de que \u201co eu \u00e9 essencialmente corporal\u201d (1923), nos diz que toma essa no\u00e7\u00e3o como central para pensar interven\u00e7\u00f5es psicanal\u00edticas em casos de psicose e autismo, especialmente em crian\u00e7as e adolescentes. Para ele, o que p\u00f4de extrair do trabalho que acontece no Courtil \u00e9 \u201ca possibilidade de uma pr\u00e1tica com sujeitos cuja carne denuncia a marca da incid\u00eancia do significante, mas o corpo, enquanto unidade, n\u00e3o se fez poss\u00edvel.\u201d Questiona se h\u00e1 uma dimens\u00e3o da unidade corporal. \u201cSer\u00e1 que podemos falar em ter um corpo e ser um corpo?\u201d Observa que as interven\u00e7\u00f5es no Courtil miram algo da organiza\u00e7\u00e3o corporal, favorecida pela simboliza\u00e7\u00e3o da extra\u00e7\u00e3o de objeto realizada por via de recursos l\u00fadicos ou no trivial.<\/p>\n<p>No debate aberto ao p\u00fablico surgiram v\u00e1rias quest\u00f5es, dentre elas um questionamento entre a diferen\u00e7a entre \u201cbricolagem\u201d e \u201cinven\u00e7\u00e3o\u201d. Bem como, questionamentos que chegaram da pedagogia sobre o tipo de limite que \u00e9 necess\u00e1rio no tratamento para crian\u00e7as psic\u00f3ticas e qual \u00e9 o limite que \u00e9 dado na escola, pela educa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Para finalizar, trago aqui as minhas contribui\u00e7\u00f5es enquanto representante do CIEN, destacando que podemos articular a pr\u00e1tica realizada no Courtil com alguns princ\u00edpios do Cien. Os profissionais da Institui\u00e7\u00e3o, atravessados pela psican\u00e1lise lacaniana n\u00e3o obturam a produ\u00e7\u00e3o de saber das crian\u00e7as, pois est\u00e3o tocados pela pergunta sobre o saber de cada uma delas. Assim, a l\u00f3gica que opera \u00e9 a l\u00f3gica da pergunta constante sobre elas: o que tenta fazer? Qual a sua dificuldade? O que lhe permite certas coisas? Observamos que em nenhum momento aparecem respostas pr\u00e9-estabelecidas, nem protocolos impostos. Trata-se de um trabalho de cria\u00e7\u00e3o constante da equipe e dos jovens, assim como na pr\u00e1tica do Cien.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>M\u00f4nica Hage No dia 28 de mar\u00e7o de 2015, a Biblioteca da Se\u00e7\u00e3o Bahia, em parceria com o CIEN-Bahia, exibiu o filme da cineasta Mariana Otero:\u00a0A C\u00e9u Aberto. 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