{"id":5659142,"date":"2018-11-29T15:54:10","date_gmt":"2018-11-29T17:54:10","guid":{"rendered":"http:\/\/ciendigital.com.br\/?p=5659142"},"modified":"2018-11-29T15:54:10","modified_gmt":"2018-11-29T17:54:10","slug":"imagem-e-significante-enlaces-e-desenlaces","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ciendigital.com.br\/index.php\/2018\/11\/29\/imagem-e-significante-enlaces-e-desenlaces\/","title":{"rendered":"Imagem e significante:\u00a0enlaces e desenlaces"},"content":{"rendered":"<div class=\"pdfprnt-buttons pdfprnt-buttons-post pdfprnt-top-right\"><a href=\"https:\/\/ciendigital.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5659142?print=pdf\" class=\"pdfprnt-button pdfprnt-button-pdf\" target=\"_blank\" ><\/a><a href=\"https:\/\/ciendigital.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5659142?print=print\" class=\"pdfprnt-button pdfprnt-button-print\" target=\"_blank\" ><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/plugins\/pdf-print\/images\/print.png\" alt=\"image_print\" title=\"Conte\u00fado de impress\u00e3o\" \/><\/a><\/div><div class=\"alert-danger\">\n<h6>Luc\u00edola Freitas de Mac\u00eado<\/h6>\n<\/div>\n<h5>O linchamento virtual e os novos contornos da vergonha, Kafka no s\u00e9culo 21?<\/h5>\n<p>A tecnologia impede que coisas ditas sejam esquecidas, pois incita a que sejam reproduzidas ad infinitum. Em agosto de 2006 uma jornalista divulgou informa\u00e7\u00e3o equivocada, ao vivo, em programa televisivo, sobre o goleiro Rog\u00e9rio Ceni, que ligou imediatamente para o programa e confrontou-a, tamb\u00e9m ao vivo e em tempo real. A cena foi parar no YouTube:\u00a0 \u201ca coisa nunca mais parou de acontecer&#8230; \u00e9 como se eu estivesse naquele filme em que o dia se repete&#8230; eu acordava e come\u00e7ava tudo de novo. A vergonha n\u00e3o acabava, ficava sempre ficava voltando\u201d<a id=\"_ftnref1\" title=\"\" href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\"><sup>1<\/sup><\/a>.<\/p>\n<p>A vinheta jornal\u00edstica nos levar\u00e1 a interrogar, ao longo deste percurso:<\/p>\n<ul>\n<li>As modaliza\u00e7\u00f5es do Outro e as respostas do sujeito: o Outro absoluto e as rela\u00e7\u00f5es de opress\u00e3o; O Outro inexistente e\/ou inconsistente e a condi\u00e7\u00e3o de deriva e de desamparo.<\/li>\n<li>O estatuto do trauma, que parece menos articulado \u00e0 fantasia; e mais suscet\u00edvel \u00e0s injun\u00e7\u00f5es arbitr\u00e1rias de um Outro absoluto, tema amplamente discutido nos textos preparat\u00f3rios do Pipol 7, cujo t\u00edtulo \u00e9 \u201cV\u00edtima!\u201d.<\/li>\n<\/ul>\n<h5>Palavra: novo modo de usar?<\/h5>\n<p>Em 1953 Lacan escreveu, por ocasi\u00e3o do Congresso de Roma, um texto inaugural, no qual dedica um cap\u00edtulo \u00e0s resson\u00e2ncias da interpreta\u00e7\u00e3o:<\/p>\n<div class=\"sidebox\">\n<blockquote><p>\u00c0 medida que a linguagem se torna mais funcional, ela se torna impr\u00f3pria para a fala, e ao se tornar demasiadamente particular, perde sua fun\u00e7\u00e3o de linguagem&#8230; quanto mais o of\u00edcio da linguagem se neutraliza, aproximando-se da informa\u00e7\u00e3o, mais lhe s\u00e3o imputadas redund\u00e2ncias&#8230; uma parte importante do meio fon\u00e9tico \u00e9 sup\u00e9rflua para que se realize a comunica\u00e7\u00e3o efetivamente buscada&#8230; mas o que \u00e9 redund\u00e2ncia para a informa\u00e7\u00e3o \u00e9 precisamente aquilo que, na fala, faz as vezes de resson\u00e2ncia. Pois nesta a fun\u00e7\u00e3o da linguagem n\u00e3o \u00e9 informar, mas evocar. O que busco na fala \u00e9 a resposta do Outro. O que me constitui como sujeito \u00e9 minha pergunta.<\/p>\n<h6 align=\"right\">LACAN, 1998, p.300-301<\/h6>\n<\/blockquote>\n<figure id=\"attachment_5659143\" aria-describedby=\"caption-attachment-5659143\" style=\"width: 200px\" class=\"wp-caption alignright\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-5659143\" src=\"http:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/gurololita280-200x300.jpg\" alt=\"\" width=\"200\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/gurololita280-200x300.jpg 200w, https:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/gurololita280-274x411.jpg 274w, https:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/gurololita280.jpg 280w\" sizes=\"auto, (max-width: 200px) 100vw, 200px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-5659143\" class=\"wp-caption-text\">Guro Lolita, moda Japonesa<\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: left;\" align=\"right\">Pois bem, o que dizermos da fun\u00e7\u00e3o da fala e da linguagem nos tempos que correm? E quanto ao estatuto do significante, em tempos em que a linguagem se torna cada vez mais funcional, esvaziada de suas redund\u00e2ncias e de suas resson\u00e2ncias? Em que o sentido, por um lado, perde sua primazia em detrimento da comunica\u00e7\u00e3o efetivamente buscada, por outro, em detrimento da inscri\u00e7\u00e3o de uma marca, de uma cifra de gozo?<\/p>\n<\/div>\n<p>Vejamos o que se mostra na cena do mundo: as novas tecnologias digitais parecem se imiscuir irremediavelmente nas pr\u00e1ticas da palavra atrav\u00e9s do mundo virtual, atrav\u00e9s dos blogs, redes sociais e outros dispositivos pr\u00f3prios ao la\u00e7o social de nosso tempo. A palavra, nesses dispositivos, produz efeitos por sua materialidade, como ancoragem e ciframento de gozo, mais que pela via de seu deciframento e da produ\u00e7\u00e3o de sentido. Parece haver, no \u00e2mbito das pr\u00e1ticas de linguagem, um novo link entre palavra e imagem, na medida em que a palavra, esvaziada de sentido e significa\u00e7\u00e3o, comp\u00f5e, fixa a imagem, ao inv\u00e9s de explic\u00e1-la e conferir-lhe sentidos. Tratar-se-ia de um novo uso da palavra? De novos la\u00e7os entre as palavras, os corpos e os gozos? Um la\u00e7o marcado pela materialidade, pela literalidade, e pela pulsionalidade: palavra marca, objeto meton\u00edmico, descarga pulsional?<\/p>\n<p>O uso que os sujeitos contempor\u00e2neos fazem da palavra coloca-nos diante de uma rela\u00e7\u00e3o com o simb\u00f3lico diferente daquela inscrita sob a \u00e9gide do Nome-do-Pai. No \u00faltimo ensino de Lacan temos uma pluraliza\u00e7\u00e3o dos nomes-do-pai e a forclus\u00e3o generalizada. N\u00e3o \u00e9 pela via da met\u00e1fora que os nomes-do-pai operam, articulando um significante a um gozo que este significante deveria negativizar. O que est\u00e1 em jogo nessa pluraliza\u00e7\u00e3o s\u00e3o possibilidades singulares de amarra\u00e7\u00e3o do simb\u00f3lico com o imagin\u00e1rio e o real.<\/p>\n<p>O que dizer do simb\u00f3lico, levando em conta tais coordenadas? N\u00e3o s\u00f3 a cultura, seus fen\u00f4menos e produ\u00e7\u00f5es, como tamb\u00e9m a cl\u00ednica dos sujeitos em an\u00e1lise parecem demonstrar que o simb\u00f3lico j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 o que era. Os sujeitos fazem dele um uso diferente, e at\u00e9 contingente. J\u00e1 n\u00e3o se servem dele como antes, como eixo organizador em torno do qual se funda sua estrutura, sua rela\u00e7\u00e3o com a linguagem, o mundo e seus objetos, com seus gozos e parcerias amorosas. O simb\u00f3lico est\u00e1 ali, meio de lado, e \u00e0s vezes at\u00e9 pontualmente forclu\u00eddo, n\u00e3o digo estruturalmente forclu\u00eddo, mas subutilizado, n\u00e3o privilegiado no que concerne \u00e0s solu\u00e7\u00f5es do sujeito.<\/p>\n<p>No mundo regido pela parceria consumidor \u2013 produto, as trocas j\u00e1 n\u00e3o se fundam sobre a vertente simb\u00f3lica. Elas adquirem outro estatuto, marcadas pelo tom da satisfa\u00e7\u00e3o dos imperativos de gozo do momento, s\u00e3o pontuais, ef\u00eameras, m\u00faltiplas na apar\u00eancia, mas unas quanto ao seu cerne: o gozo do Um sozinho. Como pensar a pr\u00e1tica anal\u00edtica nessecontexto, em que o sujeito contempor\u00e2neo n\u00e3o \u00e9 mais o sujeito da representa\u00e7\u00e3o, marcado por uma d\u00edvida simb\u00f3lica, mas se apresenta como resposta do real?<\/p>\n<figure id=\"attachment_5659144\" aria-describedby=\"caption-attachment-5659144\" style=\"width: 280px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-5659144\" src=\"http:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/jianhua280.jpg\" alt=\"\" width=\"280\" height=\"230\" srcset=\"https:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/jianhua280.jpg 280w, https:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/jianhua280-274x225.jpg 274w\" sizes=\"auto, (max-width: 280px) 100vw, 280px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-5659144\" class=\"wp-caption-text\">Liu Jianhua, Games 2000<\/figcaption><\/figure>\n<h5>O imagin\u00e1rio em conex\u00e3o direta com o real e o recha\u00e7o do simb\u00f3lico<\/h5>\n<p>O que se recha\u00e7a com o recha\u00e7o ao simb\u00f3lico \u00e9 a diferen\u00e7a significante. E de modo mais amplo, a diferen\u00e7a no plano das rela\u00e7\u00f5es e da cultura. Parece haver uma contradi\u00e7\u00e3o iminente entre o atual furor das reivindica\u00e7\u00f5es pela diversidade, em suas mais variadas manifesta\u00e7\u00f5es (\u00e9tnico-racial, religiosa, cultural, de g\u00eanero, de orienta\u00e7\u00e3o sexual, de nacionalidade, de op\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, dentre outras), e o exerc\u00edcio do recha\u00e7o \u00e0 diferen\u00e7a engendrada ao n\u00edvel do simb\u00f3lico. As reivindica\u00e7\u00f5es e apelos por igualdade parecem suportar mal quando se trata de pagar o quinh\u00e3o cobrado pela perda de gozo inerente \u00e0 opera\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica.<\/p>\n<p>O tom adicto da civiliza\u00e7\u00e3o contempor\u00e2nea n\u00e3o \u00e9 sem \u00a0conex\u00e3o com o recha\u00e7o generalizado \u00e0 ordem simb\u00f3lica, que parece obter como desdobramentos, ao n\u00edvel da civiliza\u00e7\u00e3o, de um lado, o retorno das religi\u00f5es e das ideologias totalit\u00e1rias; e de outro, a ascens\u00e3o vertiginosa do consumo em escala planet\u00e1ria, como novo imperativo, e a homogeneiza\u00e7\u00e3o que este fen\u00f4meno globalmente produz, colocando de uma maneira nova, e mais uma vez, o organismo como ponto final dos processos de institucionaliza\u00e7\u00e3o da vida em comum.<\/p>\n<p>Aqui tamb\u00e9m h\u00e1 uma cifra, o chamado \u201crefugo humano\u201d<a id=\"_ftnref2\" title=\"\" href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\"><sup>2<\/sup><\/a>, que se multiplica em escala diretamente proporcional \u00e0 expans\u00e3o global das sociedades de massas consumidoras, instalando uma crise aguda e permanente na ind\u00fastria que se ocupa de sua \u201creciclagem\u201d ou de sua \u201cremo\u00e7\u00e3o\u201d: a centralidade do problema da intoler\u00e2ncia \u00e9tnico-racial, religiosa, pol\u00edtica, cultural, e a discrimina\u00e7\u00e3o aos imigrantes, refugiados e asilados; o papel crescente ocupado pelos vagos e difusos temores relacionados \u00e0 seguran\u00e7a, e o concomitante incremento da \u201cind\u00fastria da seguran\u00e7a\u201d, e consequente policiamento da vida dom\u00e9stica, por meio de medidas de seguran\u00e7a pautadas em pol\u00edticas segregacionistas, para que a sa\u00fade da sociedade e seu \u201cfuncionamento normal\u201d n\u00e3o sejam amea\u00e7ados.<\/p>\n<p>Tomando como paradigma o contexto brasileiro, o sistema penal nos d\u00e1 um exemplo paradigm\u00e1tico: seguindo a diretriz da constru\u00e7\u00e3o de novos dispositivos de encarceramento e de puni\u00e7\u00e3o com a perda da liberdade, est\u00e1 o projeto de lei em discuss\u00e3o no Congresso Brasileiro, que defende a redu\u00e7\u00e3o da maioridade penal dos 18, para os 16 anos. Medida que, tal como argumenta o antrop\u00f3logo e cientista pol\u00edtico Luiz Eduardo Soares<a id=\"_ftnref3\" title=\"\" href=\"#_ftn3\" name=\"_ftnref3\"><sup>3<\/sup><\/a>, soa absurda aos olhos de qualquer cidad\u00e3o minimamente sensato, independentemente de sua orienta\u00e7\u00e3o pol\u00edtica: Que sentido haveria em defender a amplia\u00e7\u00e3o das responsabilidades de um sistema falido? Que sentido haveria em propor a extens\u00e3o do espectro de abrang\u00eancia de um modelo que sabidamente n\u00e3o funciona e produz o inverso do que lhe cumpriria? Como uma institui\u00e7\u00e3o reconhecida como degradada, perversa, violenta, torpe e brutal, al\u00e9m de contra produtiva, poder\u00e1 ser encarregada de assumir atribui\u00e7\u00f5es ainda mais exigentes e complexas? Vamos propor o que n\u00e3o funciona para os adultos, para os adolescentes? Como isso pode passar pela cabe\u00e7a de uma pessoa que se sup\u00f5e racional? E aqui estamos, pois parece que propor algo que fa\u00e7a algum sentido, ou que seja minimamente dotado de alguma racionalidade, n\u00e3o parece dar o tom \u00e0 pol\u00edtica, regida pela ind\u00fastria da remo\u00e7\u00e3o do refugo, neste caso, do \u201crefugo humano\u201d.<\/p>\n<figure id=\"attachment_5659145\" aria-describedby=\"caption-attachment-5659145\" style=\"width: 280px\" class=\"wp-caption alignright\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-5659145\" src=\"http:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/oehlen280-1.jpg\" alt=\"\" width=\"280\" height=\"206\" srcset=\"https:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/oehlen280-1.jpg 280w, https:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/oehlen280-1-274x202.jpg 274w\" sizes=\"auto, (max-width: 280px) 100vw, 280px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-5659145\" class=\"wp-caption-text\">Albert Oehlen, The Greeting, 2003<\/figcaption><\/figure>\n<p>Para o fil\u00f3sofo Newton Bignotto<a id=\"_ftnref4\" title=\"\" href=\"#_ftn4\" name=\"_ftnref4\"><sup>4<\/sup><\/a>, o consumo como tra\u00e7o homogeneizador da cultura vem se constituindo neste s\u00e9culo como uma nova express\u00e3o da biopol\u00edtica. Como consequ\u00eancia, constata-se um incremento da intoler\u00e2ncia e da segrega\u00e7\u00e3o, que costuma se fazer valer, nas atuais sociedades de massas consumidoras, como rejei\u00e7\u00e3o \u00e0 diversidade e recusa da alteridade nas suas mais variadas formas de express\u00e3o. No mundo regido pelo consumo, as trocas j\u00e1 n\u00e3o se fundam no registro simb\u00f3lico, s\u00e3o regidas pela uniformidade da satisfa\u00e7\u00e3o dos imperativos de gozo do momento. Conforme argumenta Jacques-Alain Miller, em \u201cR\u00e9ponse \u00e0 Ranci\u00e8re\u201d<a id=\"_ftnref5\" title=\"\" href=\"#_ftn5\" name=\"_ftnref5\"><sup>5<\/sup><\/a>, na contra m\u00e3o da derrocada dos universalismos judaico, crist\u00e3o e comunista, assistimos a franca hegemonia dos universalismos capitalista e mul\u00e7umano, e seu irrevog\u00e1vel desdobramento: a transmuta\u00e7\u00e3o do universalismo, ao menos no caso do capitalista, para a homogeneiza\u00e7\u00e3o forjada pelo \u201ctodos iguais pelo consumo\u201d, e os refugos gerados pela prolifera\u00e7\u00e3o fren\u00e9tica, compulsiva e ilimitada de objetos feitos para movimentar e retro alimentar o mega mercado global.<\/p>\n<figure id=\"attachment_5659146\" aria-describedby=\"caption-attachment-5659146\" style=\"width: 160px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-5659146\" src=\"http:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/dumas280-160x300.jpg\" alt=\"\" width=\"160\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/dumas280-160x300.jpg 160w, https:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/dumas280-274x513.jpg 274w, https:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/dumas280.jpg 280w\" sizes=\"auto, (max-width: 160px) 100vw, 160px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-5659146\" class=\"wp-caption-text\">Marlene Dumas, The Painter, 1994<br \/>The Museum of Modern Art, New York<\/figcaption><\/figure>\n<p>Os efeitos n\u00e3o apenas chegam \u00e0 cl\u00ednica, mas a perpassam. Nas institui\u00e7\u00f5es, nos consult\u00f3rios, nas ruas, atrav\u00e9s do recurso cada vez mais comum \u00e0s passagens ao ato como tentativas de haver-se com aquilo que n\u00e3o se compreende, ou como modo de defesa frente a algo vivido como insuport\u00e1vel. O simb\u00f3lico parece rarefeito, quando n\u00e3o, inoperante, o que sugere uma primazia do eixo imagin\u00e1rio em conex\u00e3o direta com o real; corriqueiras s\u00e3o as sa\u00eddas pela agressividade e o \u00f3dio ao semelhante, como moedas de troca frente aos choques dos gozos, a esgar\u00e7ar o tecido social; \u00e9 neste estado de coisas que, n\u00e3o raro, se descortina uma vontade imperativa de destrui\u00e7\u00e3o daquele que encarna o gozo rejeitado.<\/p>\n<p>Outro cap\u00edtulo a ser investigado \u00e9 o da intoler\u00e2ncia ao discurso do inconsciente, e mesmo, ao discurso anal\u00edtico, e o manejo preciso que a cl\u00ednica exige do praticante. Nota-se uma primazia da mostra\u00e7\u00e3o em detrimento do exerc\u00edcio de elabora\u00e7\u00e3o e de implica\u00e7\u00e3o subjetiva, o que tem consequ\u00eancias para a vida, para a cl\u00ednica, e tamb\u00e9m, quanto \u00e0s formas de constitui\u00e7\u00e3o dos sintomas e a dire\u00e7\u00e3o dos tratamentos.<\/p>\n<p>Se o corpo parece funcionar sozinho; se n\u00e3o h\u00e1 ser no corpo, existe o acontecimento. Os acontecimentos de corpo e suas marcas de gozo. Tais marcas parecem comportar um ponto de foraclus\u00e3o para todo e qualquer sujeito, vindo a funcionar tal qual um paralelo a atravessar a verticalidade da cl\u00ednica estrutural, aproximando entre si, neste exato ponto, as cl\u00e1ssicas estruturas cl\u00ednicas, antes absolutamente separadas pelo basti\u00e3o do Nome do Pai. A cl\u00ednica do falasser \u00e9 uma cl\u00ednica do acontecimento de corpo, de sua localiza\u00e7\u00e3o e nomea\u00e7\u00e3o. E assim, onde se apresentar\u00e1 a intoler\u00e2ncia ao discurso anal\u00edtico, e mesmo, ao inconsciente, l\u00ea-se as marcas da n\u00e3o rela\u00e7\u00e3o, dos pontos de exterioridade ao simb\u00f3lico, as marcas de gozo a\u00ed fixadas; e inventa-se, com o recurso \u00e0 palavra (\u00a0e n\u00e3o menos, aos sil\u00eancios\u00a0), uma arte de manejar lacunas, e uma arte de extrair do lacunar, nomes, nomea\u00e7\u00f5es, conjugados no singular.<\/p>\n<p>A \u00faltima cl\u00ednica de Lacan, com seus arranjos singulares, parece estar mais sintonizada com as novas possibilidades que esse simb\u00f3lico contempor\u00e2neo horizontalizado e rebaixado come\u00e7a a delinear. Uma amarra\u00e7\u00e3o, um efeito de significa\u00e7\u00e3o, ou de nomea\u00e7\u00e3o, podem constituir sintomas, sem o apoio do Nome do Pai.<\/p>\n<hr \/>\n<h6>Notas:<\/h6>\n<p><a id=\"_ftn1\" title=\"\" href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">1<\/a>\u00a0\u00a0Mat\u00e9ria de Renan Fagundes e fragmento do relato da jornalista Milly Lacombe, em \u201cA vergonha em rede\u201d, Revista Trip, p.58-62.<\/p>\n<p><a id=\"_ftn2\" title=\"\" href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\">2<\/a>\u00a0\u00a0Bauman, Z. Vidas desperdi\u00e7adas, p.106-109.<\/p>\n<p><a id=\"_ftn3\" title=\"\" href=\"#_ftnref3\" name=\"_ftn3\">3<\/a>\u00a0\u00a0Soares, L.E. \u201cSobre a maioridade penal\u201d. Dispon\u00edvel em:\u00a0<a href=\"http:\/\/diretorianarede.com.br\/luiz-eduardo-soares-e-sua-opiniao-sobre-a-reducao-da-maioridade-penal\/\">http:\/\/diretorianarede.com.br\/luiz-eduardo-soares-e-sua-opiniao-sobre-a-reducao-da-maioridade-penal\/<\/a><\/p>\n<p><a id=\"_ftn4\" title=\"\" href=\"#_ftnref4\" name=\"_ftn4\">4<\/a>\u00a0\u00a0Bignotto, N. \u201cHomogeneidade e exce\u00e7\u00e3o\u201d. In: Curinga. Belo Horizonte: EBP-MG, n.35, p. 72-14.<\/p>\n<div id=\"ftn5\">\n<h6><a id=\"_ftn5\" title=\"\" href=\"#_ftnref5\" name=\"_ftn5\">5<\/a>\u00a0\u00a0Miller, J-A.\u201cR\u00e9ponse \u00e0 Ranci\u00e8re\u201d. Dispon\u00edvel em:<a href=\"http:\/\/blogs.mediapart.fr\/blog\/jam\/070415\/reponse-ranciere\">http:\/\/blogs.mediapart.fr\/blog\/jam\/070415\/reponse-ranciere<\/a><\/h6>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Luc\u00edola Freitas de Mac\u00eado O linchamento virtual e os novos contornos da vergonha, Kafka no s\u00e9culo 21? A tecnologia impede que coisas ditas sejam esquecidas, pois incita a que sejam reproduzidas ad infinitum. 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