{"id":5659148,"date":"2018-11-29T15:56:08","date_gmt":"2018-11-29T17:56:08","guid":{"rendered":"http:\/\/ciendigital.com.br\/?p=5659148"},"modified":"2018-11-29T15:56:08","modified_gmt":"2018-11-29T17:56:08","slug":"a-voz-do-supereu-just-do-it","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ciendigital.com.br\/index.php\/2018\/11\/29\/a-voz-do-supereu-just-do-it\/","title":{"rendered":"A voz do Supereu:\u00a0Just Do It!"},"content":{"rendered":"<div class=\"pdfprnt-buttons pdfprnt-buttons-post pdfprnt-top-right\"><a href=\"https:\/\/ciendigital.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5659148?print=pdf\" class=\"pdfprnt-button pdfprnt-button-pdf\" target=\"_blank\" ><\/a><a href=\"https:\/\/ciendigital.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5659148?print=print\" class=\"pdfprnt-button pdfprnt-button-print\" target=\"_blank\" ><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/plugins\/pdf-print\/images\/print.png\" alt=\"image_print\" title=\"Conte\u00fado de impress\u00e3o\" \/><\/a><\/div><div class=\"alert-danger\">\n<figure id=\"attachment_5659149\" aria-describedby=\"caption-attachment-5659149\" style=\"width: 280px\" class=\"wp-caption alignright\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-5659149\" src=\"http:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/ripps280.jpg\" alt=\"\" width=\"280\" height=\"283\" srcset=\"https:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/ripps280.jpg 280w, https:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/ripps280-274x277.jpg 274w, https:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/ripps280-50x50.jpg 50w\" sizes=\"auto, (max-width: 280px) 100vw, 280px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-5659149\" class=\"wp-caption-text\">Ryder Ripps, Hourglass, 2014<\/figcaption><\/figure>\n<h6>Miquel Bassols<\/h6>\n<\/div>\n<p>O conceito de Supereu n\u00e3o \u00e9 claro nem transparente, merece ser recenseado tanto na obra de Freud como no ensino de Lacan e na pr\u00f3pria hist\u00f3ria da cl\u00ednica. H\u00e1 uma hist\u00f3ria do supereu que se faz presente na varia\u00e7\u00e3o dos sintomas dos quais ele mesmo se alimenta. Existe o supereu freudiano que pro\u00edbe um gozo de uma maneira sempre imposs\u00edvel de realizar por completo, com essa lei louca que diz ao sujeito masculino: \u201cassim, como o pai, deves ser; e assim, como o pai,\u00a0<em>n\u00e3o<\/em>\u00a0deves ser\u201c (\u00a0FREUD em\u00a0<em>O Eu e o Isso<\/em>, 1923\u00a0). \u00c9 o supereu que pro\u00edbe, mas que tamb\u00e9m obriga, colocando o sujeito num dilema imposs\u00edvel de resolver: deves fazer A e, ao mesmo tempo, n\u00e3o A.<\/p>\n<p>A concep\u00e7\u00e3o lacaniana do Supereu logo realizou um deslocamento desde o cl\u00e1ssico supereu entendido como proibi\u00e7\u00e3o de um gozo para o supereu, muito mais atual, entendido como imperativo que finalmente imp\u00f5e ao sujeito um gozo igualmente imposs\u00edvel de obter. Vivemos, \u00e9 certo, a escala global sob o imperativo da obten\u00e7\u00e3o de um gozo que se revela sempre t\u00e3o imposs\u00edvel de realizar em sua totalidade como in\u00fatil em sua parcialidade, t\u00e3o mort\u00edfero em suas consequ\u00eancias como ineficaz em sua economia que n\u00e3o se recicla. A conhecida f\u00f3rmula &#8211; \u201cGoza!\u201d &#8211; com a qual Lacan distingue esta dimens\u00e3o imperativa de um gozo no sujeito contempor\u00e2neo, de fato pode ter um bom antecedente em uma passagem da obra do escritor Andr\u00e9 Gide,\u00a0<em>Corydon,<\/em>\u00a0arrazoado escrito em defesa da homossexualidade contra o moralismo de sua \u00e9poca. Nele, o autor p\u00f5e na boca da \u201cvoz da natureza\u201d este mesmo imperativo, &#8211; \u201cGoza!\u201d \u2013 dirigido tanto ao homem como \u00e0 mulher. \u00c9 um imperativo que vem no lugar de um inexistente instinto sexual que dissesse tanto a um como ao outro qual \u00e9 o objeto natural e complementar desse instinto. O imperativo \u2013 \u201cGoza!\u201d &#8211; que afeta a puls\u00e3o do ser que fala, \u00e0 diferen\u00e7a do instinto natural, n\u00e3o diz, no entanto, de qual objeto se tem que gozar. Isso produz nesse ser que fala uma dupla dor de cabe\u00e7a, sempre sintom\u00e1tica: tem que satisfazer a puls\u00e3o e tem que faz\u00ea-lo sem saber, de entrada, com qual objeto. Esta vers\u00e3o do \u201cn\u00e3o existe rela\u00e7\u00e3o sexual\u201d em Andr\u00e9 Gide \u2013 n\u00e3o existe um objeto natural e determinado para a puls\u00e3o sexual-, essa dimens\u00e3o que se expressa no sujeito contempor\u00e2neo por um imperativo de gozo levado, \u00e0s v\u00eazes, at\u00e9 a morte mesma, ser\u00e1 repescado por Jacques Lacan para dar a voz mais precisa a esse Supereu t\u00e3o enigm\u00e1tico como insidioso. \u00c9 uma voz que aparece em toda a diversidade de fen\u00f4menos na cl\u00ednica contempor\u00e2nea, desde a anorexia-bulimia, passando pela s\u00e9rie de adic\u00e7\u00f5es que alimentam a glutoneria do Supereu. Se o Supereu pro\u00edbe um gozo, por uma parte \u00e9 para se alimentar, ele mesmo, desse gozo recha\u00e7ado e impor ao sujeito um novo sacrif\u00edcio, sob a forma de novos imperativos de gozo. A economia de nossa \u00e9poca e seus fracassos parecem seguir um roteiro escrito linha por linha por uma inst\u00e2ncia t\u00e3o obscena e feroz.<\/p>\n<figure id=\"attachment_5659150\" aria-describedby=\"caption-attachment-5659150\" style=\"width: 238px\" class=\"wp-caption alignright\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-5659150\" src=\"http:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/quinn280-238x300.jpg\" alt=\"\" width=\"238\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/quinn280-238x300.jpg 238w, https:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/quinn280-274x345.jpg 274w, https:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/quinn280.jpg 280w\" sizes=\"auto, (max-width: 238px) 100vw, 238px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-5659150\" class=\"wp-caption-text\">Marc Quinn, Another Angel, 2011<br \/>Escultura em bronze patinado<\/figcaption><\/figure>\n<p>Parece que quando Lacan viajou aos EUA e viu a propaganda \u201c<em>Enjoy Coca-cola<\/em>\u201d escrita em letras luminosas suspensas nos edif\u00edcios urbanos, comentou de imediato:\u00a0<em>enjoy<\/em>\u00a0n\u00e3o ser\u00e1 nunca uma boa tradu\u00e7\u00e3o do termo\u00a0<em>jouissance<\/em>. De fato, a palavra francesa \u201cjouissance\u201d (\u00a0gozo\u00a0) n\u00e3o teve em ingl\u00eas nenhuma boa tradu\u00e7\u00e3o e as melhores vers\u00f5es de textos lacanianos optaram por deixar o termo, tal qual, em franc\u00eas. Nosso \u201cgoce\u201d (\u00a0gozo\u00a0) em castelhano acerca-se, talvez, um pouco mais a essa dimens\u00e3o; e o \u201c<em>gaudi<\/em>\u201d ou a \u201c<em>fru\u00efci\u00f3<\/em>&#8221; do catal\u00e3o inclusive se acerca um pouco mais&#8230;<\/p>\n<p>Em todo caso, dispostos a encontrar f\u00f3rmulas atuais do Supereu freudiano na publicidade e na psicopatologia da vida cotidiana, temos a do novo imperativo que alimenta hoje essa figura obscena e feroz: \u201c<em>Just Do It!\u201d (\u00a0<\/em>\u201cFa\u00e7a-o\u201d !\u00a0)<\/p>\n<p>Sim, \u201cSimplesmente, fa\u00e7a-o!\u201d parece hoje a f\u00f3rmula, t\u00e3o vazia quanto imediata em sua formula\u00e7\u00e3o, com que economistas e pol\u00edticos, higienistas e cient\u00edficos alimentam, muitas v\u00eazes, o imperativo do Supereu. \u00c9 um imperativo que parece haver descoberto a inutilidade do gozo em si mesmo para seguir a l\u00f3gica implac\u00e1vel de um empuxo ao al\u00e9m do objeto do qual se deveria gozar. \u201dSimplesmente, fa\u00e7a-o\u201d! nos diz, sem nos dizer realmente, o que \u00e9 o que se tem que fazer.<\/p>\n<p>\u00c9 nesse novo imperativo que seguramente podemos ler a voz atual do Supereu, uma voz que se alimenta da satisfa\u00e7\u00e3o pulsional na cl\u00ednica da passagem ao ato, tanto na intimidade do sofrimento como em sua exposi\u00e7\u00e3o mais p\u00fablica, e, digamos tamb\u00e9m a palavra, ultrajante.<\/p>\n<h6>Tradu\u00e7\u00e3o: Maria Rita Guimar\u00e3es<\/h6>\n<h6>Revis\u00e3o: Nohem\u00ed Brown<\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Miquel Bassols O conceito de Supereu n\u00e3o \u00e9 claro nem transparente, merece ser recenseado tanto na obra de Freud como no ensino de Lacan e na pr\u00f3pria hist\u00f3ria da cl\u00ednica. 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