{"id":5659161,"date":"2018-11-29T16:09:59","date_gmt":"2018-11-29T18:09:59","guid":{"rendered":"http:\/\/ciendigital.com.br\/?p=5659161"},"modified":"2018-11-29T16:09:59","modified_gmt":"2018-11-29T18:09:59","slug":"gravidez-na-adolescencia-sair-da-vida-de-merda","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ciendigital.com.br\/index.php\/2018\/11\/29\/gravidez-na-adolescencia-sair-da-vida-de-merda\/","title":{"rendered":"Gravidez na adolesc\u00eancia: sair da vida de merda?"},"content":{"rendered":"<div class=\"pdfprnt-buttons pdfprnt-buttons-post pdfprnt-top-right\"><a href=\"https:\/\/ciendigital.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5659161?print=pdf\" class=\"pdfprnt-button pdfprnt-button-pdf\" target=\"_blank\" ><\/a><a href=\"https:\/\/ciendigital.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5659161?print=print\" class=\"pdfprnt-button pdfprnt-button-print\" target=\"_blank\" ><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/plugins\/pdf-print\/images\/print.png\" alt=\"image_print\" title=\"Conte\u00fado de impress\u00e3o\" \/><\/a><\/div><div class=\"alert-danger\">\n<figure id=\"attachment_5659163\" aria-describedby=\"caption-attachment-5659163\" style=\"width: 280px\" class=\"wp-caption alignright\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-5659163\" src=\"http:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/17filles2280.jpg\" alt=\"\" width=\"280\" height=\"153\" srcset=\"https:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/17filles2280.jpg 280w, https:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/17filles2280-246x135.jpg 246w, https:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/17filles2280-274x150.jpg 274w\" sizes=\"auto, (max-width: 280px) 100vw, 280px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-5659163\" class=\"wp-caption-text\">Delphine &amp; Muriel Coulin, 17 Filles, 2011g<\/figcaption><\/figure>\n<h6>Teresa Mendon\u00e7a e Simone Pinheiro<\/h6>\n<\/div>\n<p>As mudan\u00e7as que a ci\u00eancia moderna nos imp\u00f5e, n\u00e3o desvinculadas dos interesses capitalistas, d\u00e3o origem a novos modos de se experimentar a sexualidade. O controle da natalidade e as drogas que garantem a pot\u00eancia sexual, diferentes formas de procria\u00e7\u00e3o, sele\u00e7\u00e3o gen\u00e9tica e os exames de DNA, entre outros, v\u00e3o fazendo desaparecer gradualmente a liga\u00e7\u00e3o entre a reprodu\u00e7\u00e3o, o ato sexual e a parceria amorosa. Defrontamo-nos com novos modos de gozo.<\/p>\n<p>O filme \u201c<em>17 filles\u201d<\/em>\u00a0retrata um epis\u00f3dio ver\u00eddico, acontecido em 2008, numa escola de Massachusetts \u2013 EUA: Dezessete alunas engravidaram-se ao mesmo tempo. \u00a0A realiza\u00e7\u00e3o do filme, entretanto, se passa na Fran\u00e7a, no fim do ver\u00e3o. Nesta \u00e9poca acontece uma invas\u00e3o de joaninhas que v\u00eam \u00e0 praia, para morrer. As adolescentes trocavam suas confid\u00eancias na praia e, brincando com as joaninhas, uma delas comenta: \u201cJoaninhas gostam de merda\u201d. Ao longo do filme, em v\u00e1rios di\u00e1logos, as meninas qualificam a vida dos adultos como \u201cvida de merda\u201d ou seja: s\u00e9ria, sem divers\u00e3o, sem tempo para os filhos e com pouca realiza\u00e7\u00e3o no trabalho. A escolha pela gravidez, ao mesmo tempo, em um momento da vida de transi\u00e7\u00e3o, desafia-nos a pensar a posi\u00e7\u00e3o dessas jovens. A gravidez seria uma solu\u00e7\u00e3o para n\u00e3o cair na vida de merda?<\/p>\n<p>A primeira a engravidar, Camille, conta \u00e0s amigas que ficou com um rapaz qualquer, s\u00f3 por uma noite, cujo nome n\u00e3o importa, e a \u201ccamisinha estourou\u201d. Diz: \u201cEu n\u00e3o preciso dele\u201d. Destaca-se das demais pela novidade e excepcionalidade da situa\u00e7\u00e3o que passa a viver.\u00a0 Al\u00e9m de demonstrar orgulho diante da gravidez n\u00e3o planejada, sua tristeza, ang\u00fastia e medo s\u00e3o evidentes. Diz que \u201cn\u00e3o se sente a mesma\u201d, mas ter\u00e1 \u201cuma vida a 200%\u201d junto ao filho, que a &#8220;amar\u00e1 para sempre e sem condi\u00e7\u00f5es&#8221;.\u00a0O amor do filho seria uma garantia para n\u00e3o cair na vida de merda?<\/p>\n<p>\u00c0 sua m\u00e3e Camille fala que \u201cpelo menos ter\u00e1 a impress\u00e3o de ter uma fam\u00edlia\u201d e que \u201cser\u00e1 melhor m\u00e3e que ela\u201d.<\/p>\n<figure id=\"attachment_5659164\" aria-describedby=\"caption-attachment-5659164\" style=\"width: 280px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-5659164\" src=\"http:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/17-Filles-b280.jpg\" alt=\"\" width=\"280\" height=\"186\" srcset=\"https:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/17-Filles-b280.jpg 280w, https:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/17-Filles-b280-274x182.jpg 274w\" sizes=\"auto, (max-width: 280px) 100vw, 280px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-5659164\" class=\"wp-caption-text\">Delphine &amp; Muriel Coulin, 17 Filles, 2011<\/figcaption><\/figure>\n<p>Florence \u00e9 tamb\u00e9m aluna da escola e n\u00e3o faz parte desse grupo de amigas, mas deseja muito ser inclu\u00edda nele e ter um lugar junto a elas. Para isso, simula que tamb\u00e9m est\u00e1 gr\u00e1vida. Camille se alegra e sente-se apoiada pelo fato de Florence fazer, agora, par com ela. Fazem at\u00e9 planos\u00a0de se ajudarem no futuro e, juntas, criarem os filhos.<\/p>\n<p>Identificadas com Camille, que, \u201cpelo menos est\u00e1 vivendo algo diferente\u201d, express\u00e3o das jovens no filme, as outras adolescentes fazem, ent\u00e3o, o pacto de se engravidarem ao mesmo tempo. Pensam que, como m\u00e3es, passariam a ser livres, felizes e respons\u00e1veis, e mudariam sua realidade de vida.<\/p>\n<p>Freud (1996 [1905], p.214) j\u00e1 anuncia que \u201cuma das realiza\u00e7\u00f5es ps\u00edquicas mais significativas e dolorosas da adolesc\u00eancia\u201d \u00e9 o desligamento das figuras paternas que institui a oposi\u00e7\u00e3o entre a nova e a velha gera\u00e7\u00e3o. Os dizeres das adolescentes no filme revelam o desejo de que esse desligamento se concretize e possam ter um destino diferente daquele de seus pais.<\/p>\n<p>Estar gr\u00e1vida parece possibilitar\u00a0\u00e0s adolescentes uma nova nomea\u00e7\u00e3o: M\u00c3E. Significante forte, impregnado do sentido\u00a0idealizado do amor e compromisso. De acordo com Mendon\u00e7a (2012) ser m\u00e3e seria ent\u00e3o uma maneira da adolescente ascender ao mundo adulto e identificar-se socialmente buscando uma afirma\u00e7\u00e3o no mundo.<\/p>\n<figure id=\"attachment_5659165\" aria-describedby=\"caption-attachment-5659165\" style=\"width: 280px\" class=\"wp-caption alignright\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-5659165\" src=\"http:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/brike280.jpg\" alt=\"\" width=\"280\" height=\"275\" srcset=\"https:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/brike280.jpg 280w, https:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/brike280-274x269.jpg 274w, https:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/brike280-50x50.jpg 50w\" sizes=\"auto, (max-width: 280px) 100vw, 280px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-5659165\" class=\"wp-caption-text\">Jana Brike, Dreaming Soldier, 2013<\/figcaption><\/figure>\n<p>Qual o estatuto da gravidez dessas jovens do filme? Uma resposta sintom\u00e1tica \u00e0 irrup\u00e7\u00e3o do real da puberdade que perturba seus corpos? Estariam elas, com este ato, protegendo-se da ang\u00fastia, n\u00e3o desejando saber da verdade do inconsciente? Essa gravidez est\u00e1 endere\u00e7ada ao Outro? Aos pais, \u00e0 m\u00e3e, \u00e0 escola (na figura dos professores, do diretor, profissional de sa\u00fade) aos rapazes?<\/p>\n<p>Pierre Naveau (2001, p.139) afirma: &#8220;A m\u00e3e \u00e9 uma mulher se o filho n\u00e3o \u00e9 tudo para ela. Se seu desejo se divide entre a crian\u00e7a e o homem&#8221;. Para ter um filho do desejo, a mulher tem que consentir com a castra\u00e7\u00e3o. S\u00f3 a partir dessa posi\u00e7\u00e3o admitida do n\u00e3o\u2013toda, posi\u00e7\u00e3o feminina,\u00a0a mulher pode consentir em ser desejada por um homem.<\/p>\n<p>Ao contr\u00e1rio, as jovens, em uma posi\u00e7\u00e3o f\u00e1lica, com semblante de completude, prop\u00f5em aos meninos que as engravidem e, sem a media\u00e7\u00e3o do afeto, n\u00e3o h\u00e1 um consentimento de que o homem limite seu gozo. Os rapazes foram dispensados no que se refere a seu nome e a paternidade. Seus corpos foram usados como objeto, num \u201cembalo de s\u00e1bado \u00e0 noite\u201d. No filme eles se relacionam com as meninas mantendo a proximidade demandada por elas, \u201cficam\u201d com as gr\u00e1vidas, mas fazem uma presen\u00e7a secund\u00e1ria.<\/p>\n<p>Acidental ou planejada, a gravidez impacta a vida dessas adolescentes que fazem la\u00e7o libidinal pela identifica\u00e7\u00e3o imagin\u00e1ria e sintoma com o corpo para \u201cn\u00e3o ter uma vida de merda\u201d, como a da gera\u00e7\u00e3o que as antecede. Poder\u00edamos ent\u00e3o considerar a gravidez na adolesc\u00eancia uma das respostas diante do irrepresent\u00e1vel da condi\u00e7\u00e3o feminina?<\/p>\n<footer>\n<hr \/>\n<h6>Refer\u00eancias Bibliogr\u00e1ficas:<\/h6>\n<h6>FREUD, S. (1905). Tr\u00eas ensaios sobre a Teoria da Sexualidade Ed. Imago, v. VII, 1996.<\/h6>\n<h6>MENDON\u00c7A, T.C.P. Aspectos subjetivos determinantes da gravidez reincidente na adolesc\u00eancia: Uma abordagem a partir da Psican\u00e1lise. Disserta\u00e7\u00e3o de mestrado do Programa de P\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o em Ci\u00eancias da Sa\u00fade da UFMG. Belo Horizonte, 2012.<\/h6>\n<h6>NAUVEAU, P. A Crian\u00e7a entre a M\u00e3e e a Mulher. Belo Horizonte: In: Curinga-Escola Brasileira de Psican\u00e1lise, 2001.<\/h6>\n<\/footer>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Teresa Mendon\u00e7a e Simone Pinheiro As mudan\u00e7as que a ci\u00eancia moderna nos imp\u00f5e, n\u00e3o desvinculadas dos interesses capitalistas, d\u00e3o origem a novos modos de se experimentar a sexualidade. 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