{"id":5659167,"date":"2018-11-29T16:12:32","date_gmt":"2018-11-29T18:12:32","guid":{"rendered":"http:\/\/ciendigital.com.br\/?p=5659167"},"modified":"2018-11-29T16:12:32","modified_gmt":"2018-11-29T18:12:32","slug":"17-filles-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ciendigital.com.br\/index.php\/2018\/11\/29\/17-filles-2\/","title":{"rendered":"&#8220;17 Filles&#8221;"},"content":{"rendered":"<div class=\"pdfprnt-buttons pdfprnt-buttons-post pdfprnt-top-right\"><a href=\"https:\/\/ciendigital.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5659167?print=pdf\" class=\"pdfprnt-button pdfprnt-button-pdf\" target=\"_blank\" ><\/a><a href=\"https:\/\/ciendigital.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5659167?print=print\" class=\"pdfprnt-button pdfprnt-button-print\" target=\"_blank\" ><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/plugins\/pdf-print\/images\/print.png\" alt=\"image_print\" title=\"Conte\u00fado de impress\u00e3o\" \/><\/a><\/div><div class=\"alert-danger\">\n<figure id=\"attachment_5659168\" aria-describedby=\"caption-attachment-5659168\" style=\"width: 225px\" class=\"wp-caption alignright\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-5659168\" src=\"http:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/17filles280-225x300.jpg\" alt=\"\" width=\"225\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/17filles280-225x300.jpg 225w, https:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/17filles280-274x365.jpg 274w, https:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/17filles280.jpg 280w\" sizes=\"auto, (max-width: 225px) 100vw, 225px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-5659168\" class=\"wp-caption-text\">Delphine &amp; Muriel Coulin, 17 Filles, 2011<\/figcaption><\/figure>\n<h6>Sobre o filme de Delphine &amp; Muriel Coulin, 2011<\/h6>\n<\/div>\n<h6>Cristina Drummond<\/h6>\n<p>Somos avisados de que a hist\u00f3ria que vamos assistir \u00e9 baseada em fatos reais (que ocorreram em 2008, nos Estados Unidos, na Gloucester High School). O fato de o filme ser contextualizado na Fran\u00e7a nos indica que a quest\u00e3o que ele quer levantar n\u00e3o \u00e9 local, e sim est\u00e1 presente por todos os lados em nossa contemporaneidade. Sabemos que a adolesc\u00eancia \u00e9 o tempo em que o sujeito busca se separar de seu Outro e isso implica em que ele encontre novas respostas e que seu corpo seja colocado em quest\u00e3o de uma nova maneira. Se podemos tomar essa afirma\u00e7\u00e3o como um universal, como ele \u00e9 tratado interrogado a partir de um acontecimento?<\/p>\n<p>O filme se inicia com uma exibi\u00e7\u00e3o dos corpos de v\u00e1rias adolescentes que est\u00e3o indo para uma avalia\u00e7\u00e3o m\u00e9dica de rotina na escola. Tatuagens, corpos magros, risos, brincadeiras. Esse clima de rotina, no qual se pesa e se mede o corpo, \u00e9 quebrado com a declara\u00e7\u00e3o de uma jovem \u00e0 enfermeira, de que ela pensa estar gr\u00e1vida.<\/p>\n<p>Dentro de sua mochila, um teste de gravidez e o gadget preferido pelas adolescentes: celular com fone para ouvir m\u00fasica. Na aula de educa\u00e7\u00e3o f\u00edsica ela e as amigas se escondem no meio da corrida para enrolar a professora e fumar. Atitude t\u00edpica e comum por todas as escolas do mundo. Nesse momento, ela conta da gravidez \u00e0s amigas que tomam o fato como um desastre e pensam que ela deve abortar para n\u00e3o ficar gorda e ter que deixar a escola, nem tampouco ficar presa com uma crian\u00e7a e um trabalho de merda. Ela ainda n\u00e3o contou nada \u00e0 m\u00e3e porque quer decidir sozinha. Ela diz \u00e0s amigas que se sente diferente e que elas n\u00e3o podem saber nada do que ela experimenta.<\/p>\n<p>Neste momento ela j\u00e1 se apresenta como aquela que sabe algo que as outras n\u00e3o sabem. \u00c9 dessa posi\u00e7\u00e3o que vamos acompanhar essa adolescente. Ela se coloca como uma exce\u00e7\u00e3o que tem acesso a um saber que as outras n\u00e3o t\u00eam.<\/p>\n<p>Quanto ao pai da crian\u00e7a, ela diz que isso n\u00e3o tem nenhuma import\u00e2ncia e que tudo foi um acidente de uma noite em que a camisinha rompeu. As amigas dizem que continuar\u00e3o insepar\u00e1veis e ficar\u00e3o ao lado dela. Aqui tamb\u00e9m a jovem se coloca como aquela que quer dar conta de sua experi\u00eancia sozinha, dispensando a opini\u00e3o da m\u00e3e, das amigas e do pai da crian\u00e7a. Ela busca se afirmar como respons\u00e1vel por seu ato.<\/p>\n<p>A jovem vive num pr\u00e9dio popular, cozinha e come sozinha, j\u00e1 que o irm\u00e3o n\u00e3o aparece e a m\u00e3e tem que ir trabalhar. \u00c9 uma r\u00e1pida vis\u00e3o da vida familiar. N\u00e3o h\u00e1 pai, n\u00e3o se sabe o que aconteceu, e a m\u00e3e funciona como arrimo de fam\u00edlia e se ocupa em sustentar a casa, sem tempo para cuidar de mais do que isso. Com as amigas ela come no refeit\u00f3rio e elas excluem uma colega da mesa. Essa colega tem nome: Florence, porque at\u00e9 agora todas as demais que formam um grupo de cinco, n\u00e3o s\u00e3o sujeitos nomeados nem separados.\u00a0 Fala dos enjoos com a comida que v\u00e3o passar depois dos 3 meses e as amigas compreendem que ela vai dar sequencia \u00e0 gravidez. Sua inten\u00e7\u00e3o \u00e9 continuar na escola e ter uma vida que valha por duas: uma com o beb\u00ea e outra na escola, uma contabilidade que indica um plus de vida. Ela ter\u00e1 algu\u00e9m que a amar\u00e1 por toda a sua vida. Ao mesmo tempo em que ela discute isso com as amigas, ela quer convenc\u00ea-las, como tamb\u00e9m a si mesma, de que esse acaso \u00e9 uma escolha por uma vida mais interessante e melhor.<\/p>\n<p>O nome da jovem aparece na boca de Florence quando a enfermeira lhe diz que ter\u00e1 menstrua\u00e7\u00e3o durante muitos anos, a menos que resolva ter dez filhos. Ela pergunta-lhe se Camille Fourrier est\u00e1 gr\u00e1vida. A not\u00edcia se espalha pela escola e Florence, que era rejeitada pelas colegas, buscando ser aceita no grupo, diz a Camille que tamb\u00e9m est\u00e1 gr\u00e1vida.<\/p>\n<p>Ao conversar com sua m\u00e3e, esta fica furiosa com a not\u00edcia e julga a filha incapaz de cuidar de sua pr\u00f3pria vida e at\u00e9 mesmo de seus peixinhos. Camille diz que se sente capaz de cuidar de um filho melhor do que a m\u00e3e. A m\u00e3e diz que teve que deix\u00e1-la sozinha porque tinha que trabalhar para sustentar os filhos e que ela havia crescido apesar de tudo. A m\u00e3e diz que ela pensa que \u00e9 esperta, mas que ela \u00e9 na verdade uma idiota e que desta maneira ela vai ter que deixar a escola. Camille diz que tem certeza de que n\u00e3o vai falar dessa maneira com seu filho, que vai cuidar dele e n\u00e3o o deixar\u00e1 sozinho. Ela sup\u00f5e que vai ser uma m\u00e3e diferente da que teve e que desta maneira poder\u00e1 ter uma fam\u00edlia. A m\u00e3e diz que n\u00e3o quer se ocupar dessa crian\u00e7a, que quer viver. Camille diz que ela tamb\u00e9m quer viver, mas que essa \u00e9 a \u00faltima das preocupa\u00e7\u00f5es da m\u00e3e.<\/p>\n<p>Nesse sentido essas jovens nos apresentam as novas manifesta\u00e7\u00f5es da impossibilidade do encontro entre os sexos, s\u00e3o falasseres que se defrontam com o furo do real, furo que deixa o Um sem o Outro. O modo de gozar na atualidade encontra seu fundamento na impossibilidade de escrever a rela\u00e7\u00e3o sexual entre os seres que n\u00e3o se ligam pelo la\u00e7o pai-m\u00e3e, mas apenas pela linguagem e pela fala. A aus\u00eancia de rela\u00e7\u00e3o sexual se apresenta, mais do que nunca, sem as vestimentas do pai e das exig\u00eancias familiares.<\/p>\n<p>A fala de Camille nos permite pensar que ter um filho se apresenta para ela como uma chance de ter uma fam\u00edlia constru\u00edda num molde distinto dos tradicionais e ao cuidar do beb\u00ea, cuidar de si mesma, ter uma vida separada do abandono que sente. O beb\u00ea vem como um objeto que supriria sua falta e resolveria as consequ\u00eancias de sua experi\u00eancia de abandono e devasta\u00e7\u00e3o. Entretanto, \u00e9 interessante percebermos que esse beb\u00ea n\u00e3o se inscreve numa solu\u00e7\u00e3o ed\u00edpica, ele n\u00e3o \u00e9 tomado como a met\u00e1fora do falo que poderia ser dado pelo pai, tal como Freud nos prop\u00f5e. Ele \u00e9 imaginado como um objeto que permitiria a ruptura da rela\u00e7\u00e3o m\u00e3e-filha, sem uma media\u00e7\u00e3o f\u00e1lica.<\/p>\n<figure id=\"attachment_5659169\" aria-describedby=\"caption-attachment-5659169\" style=\"width: 280px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-5659169\" src=\"http:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/portinari280.jpg\" alt=\"\" width=\"280\" height=\"248\" srcset=\"https:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/portinari280.jpg 280w, https:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/portinari280-274x243.jpg 274w\" sizes=\"auto, (max-width: 280px) 100vw, 280px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-5659169\" class=\"wp-caption-text\">Candido Portinari, Circo, 1941<\/figcaption><\/figure>\n<p>Florence se oferece para ser a parceira de Camille no cuidado com as crian\u00e7as e Camille aceita sua aproxima\u00e7\u00e3o e que ela lhe pague uma coca-cola. As rela\u00e7\u00f5es podem ser inscritas num mercantilismo ainda que de custo baixo.<\/p>\n<p>Camille ainda n\u00e3o contou ao irm\u00e3o e diante dessa quest\u00e3o de ter que enfrentar os representantes do sexo masculino, ela prop\u00f5e \u00e0s amigas de ficarem gr\u00e1vidas juntas. \u201cVamos ser livres, felizes, respons\u00e1veis\u201d. Desta maneira elas permanecer\u00e3o sempre juntas. Ela, na posi\u00e7\u00e3o de exce\u00e7\u00e3o poderia fundar o grupo das novas mulheres, numa esp\u00e9cie de sociedade protetora do falo feminino.<\/p>\n<p>Todas decidem que v\u00e3o tentar engravidar numa festa. Ali Camille encontra o pai da crian\u00e7a. Quando ele lhe pergunta se ele tinha alguma coisa a ver com sua gravidez, ela responde que n\u00e3o. Sua tentativa \u00e9 a de inscrever esse filho apenas no campo do feminino, uma decis\u00e3o que dispensa a m\u00e3e e o pai, a reparti\u00e7\u00e3o sexual. Quando a amiga pergunta se pode transar com ele, Camille responde que isso n\u00e3o tem nenhuma import\u00e2ncia para ela, o que importa \u00e9 que a amiga o fa\u00e7a. O mais importante para ela \u00e9 que seu lugar de exce\u00e7\u00e3o, de A Mulher, seja reconhecido e sustentado pelas amigas. \u00c9 essa a mascarada hist\u00e9rica que ela pretende bancar. A maternidade n\u00e3o se apresenta como uma consequ\u00eancia da contingencia do encontro amoroso, nem como um tratamento para o gozo feminino.<\/p>\n<p>Na reuni\u00e3o dos professores, eles comentam o fato de v\u00e1rias alunas estarem engravidando. Um diz que isso \u00e9 uma atitude t\u00edpica das adolescentes que buscam se apropriar de seus corpos. Umas se tatuam, outras se mutilam, outras param de comer. Essa seria uma atitude de desafiar os pais que n\u00e3o concordam com essa decis\u00e3o. Se esse ponto de vista tem seu fundamento de verdade, a adolesc\u00eancia realmente \u00e9 um tempo no qual o falasser busca se relacionar de uma nova maneira de seu corpo, isso est\u00e1 longe de ser uma pura rela\u00e7\u00e3o de apropria\u00e7\u00e3o. Se encontramos com frequ\u00eancia nesse momento da vida a presen\u00e7a de cortes, de automutila\u00e7\u00f5es ou de dist\u00farbios alimentares, esses sintomas s\u00e3o \u00edndices de uma dificuldade e de uma ang\u00fastia de dif\u00edcil tratamento.<\/p>\n<p>Perante a lei os pais n\u00e3o podem for\u00e7ar as filhas a abortar e essa \u00e9 uma situa\u00e7\u00e3o em que as adolescentes s\u00e3o tomadas como respons\u00e1veis juridicamente.<\/p>\n<p>Uma professora diz que \u00e9 um progresso que as jovens possam dispor de seus corpos. Outra diz que isso \u00e9 um passo para tr\u00e1s, j\u00e1 que essas adolescentes s\u00f3 ter\u00e3o como perspectiva de vida futura serem m\u00e3es. Outro professor diz que \u00e9 preciso compreender politicamente o gesto das adolescentes. Alguns querem convencer as adolescentes a tomar p\u00edlula e a enfermeira diz que elas est\u00e3o muito certas do que est\u00e3o fazendo. A pergunta \u00e9 de se aos 16-17 anos podemos fazer uma escolha de tal ordem, se se \u00e9 capaz de fazer uma escolha.<\/p>\n<p>Essa \u00e9 uma pergunta de dif\u00edcil resposta, mas que deve ser colocada em cada caso particular, pois n\u00e3o h\u00e1 como responder pela condi\u00e7\u00e3o de cada falasser poder se responsabilizar por seu ato. Na situa\u00e7\u00e3o do filme \u00e9 dif\u00edcil determinar se o que cada uma delas escolhe \u00e9 verdadeiramente ser m\u00e3e.<\/p>\n<p>As adolescentes verificam o dinheiro que podem receber do governo e pensam que com ele elas podem se organizar e, sobretudo, ficarem livres das ordens maternas. O projeto \u00e9 o de serem diferentes de suas pr\u00f3prias m\u00e3es, j\u00e1 que por serem jovens ser\u00e3o mais pr\u00f3ximas dos filhos. N\u00e3o haver\u00e1 choque de gera\u00e7\u00f5es e elas ser\u00e3o como irm\u00e3s dos filhos, uma grande fam\u00edlia. Uma comunidade s\u00f3 de mulheres com seus filhos, ou ainda uma comunidade de irm\u00e3os.<\/p>\n<p>De qualquer maneira, o saber dos professores parece insuficiente para orient\u00e1-los a intervir e a se posicionar na situa\u00e7\u00e3o. O diretor passa um filme onde uma mulher est\u00e1 tendo um filho de parto natural e os alunos riem de certa maneira constrangidos. Podemos pensar que ele buscava mostrar a realidade da situa\u00e7\u00e3o que elas teriam que enfrentar, mas o faz de maneira pouco clara como se ter um filho, ser m\u00e3e, fosse passar por um parto. Al\u00e9m disso, em nenhum momento a palavra \u00e9 dada \u00e0s autoras da decis\u00e3o. As jovens, sem chance de fala, entendem que o que o diretor quer \u00e9 assust\u00e1-las. A posi\u00e7\u00e3o da escola \u00e9 muito mais a de querer coibir a a\u00e7\u00e3o das adolescentes do que a de promover uma oportunidade de discutir o que se passa com elas, se perguntar sobre o que estaria em quest\u00e3o naquela situa\u00e7\u00e3o, no lugar de incluir o que estava se passando num saber j\u00e1 pronto. Quanto \u00e0s adolescentes, elas n\u00e3o sabem como usar um teste de gravidez e nem muito bem o que ter\u00e3o que enfrentar. S\u00f3 sabem que juntar\u00e3o suas moedas e que seguir\u00e3o em frente em sua decis\u00e3o. E que o saber oferecido pela escola n\u00e3o lhes serve para tratar do que acontece com elas.<\/p>\n<p>Uma das adolescentes, que n\u00e3o consegue encontrar um parceiro, porque \u00e9 mais jovem que as outras, oferece dinheiro para um colega e este aceita. Novamente o fato se inscreve de modo mercantilista, o que parece reduzir a situa\u00e7\u00e3o a uma situa\u00e7\u00e3o de compra. Nesse com\u00e9rcio, ningu\u00e9m precisa saber exatamente o que compra nem o que vende e as personagens n\u00e3o t\u00eam ainda nome.<\/p>\n<p>Camille faz um ultrassom e pode ver o beb\u00ea mexendo em seu ventre. Ela n\u00e3o quis saber o sexo da crian\u00e7a e essa vis\u00e3o \u00e9 diferente do que ela e as amigas podem ver no livro. Ela conta \u00e0 enfermeira que anteriormente ela n\u00e3o podia imaginar o beb\u00ea e no ultrassom foi esquisito porque ela o viu, e agora ela est\u00e1 morrendo de medo. Aqui podemos claramente ver como o discurso da ci\u00eancia que antecipa as imagens da crian\u00e7a pode perturbar a estabilidade da jovem angustiando-a ao apresentar o beb\u00ea como um corpo real. Essa imagem tem um efeito muito diferente daquele provocado pelas imagens do filme projetado pelo diretor. A imagem do ultrassom concerne ao corpo de Camille, e lhe apresenta algo vivo e real de que ela ainda n\u00e3o tinha querido saber e que a angustia. A enfermeira diz que n\u00e3o tem outro jeito sen\u00e3o seguir em frente.<\/p>\n<figure id=\"attachment_5659170\" aria-describedby=\"caption-attachment-5659170\" style=\"width: 181px\" class=\"wp-caption alignright\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-5659170\" src=\"http:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/palma280-181x300.jpg\" alt=\"\" width=\"181\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/palma280-181x300.jpg 181w, https:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/palma280-274x454.jpg 274w, https:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/palma280.jpg 280w\" sizes=\"auto, (max-width: 181px) 100vw, 181px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-5659170\" class=\"wp-caption-text\">Mariana Palma, Untitled, 2013<\/figcaption><\/figure>\n<p>Na comemora\u00e7\u00e3o de natal a m\u00e3e n\u00e3o a deixa beber e ela tem que contar ao irm\u00e3o que est\u00e1 gr\u00e1vida. Ele pergunta brincando se eles ter\u00e3o um soldado ou uma desempregada, isto \u00e9, se a crian\u00e7a ser\u00e1 como eles. O irm\u00e3o oferece seu quarto para o beb\u00ea, mas a m\u00e3e diz que Camille tem a inten\u00e7\u00e3o de ir para um pequeno apartamento e isso ser\u00e1 melhor para todos. N\u00e3o fica muito claro de quem \u00e9 a decis\u00e3o, j\u00e1 que nada \u00e9 muito discutido. O irm\u00e3o lhe d\u00e1 de presente um urso do Afeganist\u00e3o onde ele luta na guerra e a m\u00e3e lhe d\u00e1 um curso de dire\u00e7\u00e3o. O irm\u00e3o e a m\u00e3e lhe ensinam um pouco a dirigir para que ela n\u00e3o tenha que pagar tantas aulas. Dirigir um carro n\u00e3o a habilita a dirigir sua vida, ainda que pare\u00e7a que irm\u00e3o e m\u00e3e reconhecem que ela j\u00e1 pode dar um passo.<\/p>\n<p>Os pais de Clementine, a jovem que paga para engravidar, est\u00e3o furiosos com ela que ainda \u00e9 muito jovem e infantil. O pai lhe diz que ela \u00e9 influenciada por Camille e lhe pergunta se elas querem mudar o mundo. Clementine diz que quer tentar e que n\u00e3o quer ficar como seus pais, idiotas. O pai diz que n\u00e3o vai tolerar aquilo e que vai lev\u00e1-la ao hospital para que ela fa\u00e7a um aborto, mas ela responde que a lei est\u00e1 do seu lado. E ela foge de casa. Ela quer ficar com Camille. Apesar de Clementine ser uma adolescente que conta com um casal de pais, seu pai se apresenta impositivo e sem nenhuma condi\u00e7\u00e3o para orient\u00e1-la ou faz\u00ea-la refletir a respeito da gravidade de sua decis\u00e3o. Ele quer decidir por ela como se ela ainda fosse uma crian\u00e7a, coisa que ela recusa.<\/p>\n<p>A ideia das meninas \u00e9 que seus pais, assim como o diretor da escola, querem lhes causar medo, para que elas continuem na mesma vida de merda deles. Esse medo provocado seria apenas o reflexo do medo que eles pr\u00f3prios teriam de mudar de vida. No lugar de se intimidarem, elas querem demonstrar que podem sustentar sua decis\u00e3o e resolvem encontrar um lugar para ficarem juntas e decidirem sobre suas vidas. E invadem uma casa abandonada na praia. Clementine gosta de ver seus pais preocupados com ela, mas Camille diz que elas t\u00eam que se virar sozinhas, dispensar os pais.<\/p>\n<p>O ultrassom de uma das meninas parece apresentar alguma altera\u00e7\u00e3o. Isso amea\u00e7a a todas, uma pequena diferen\u00e7a que, al\u00e9m disso, \u00e9 mais um problema a ser encarado por um grupo t\u00e3o imaturo e que enfrenta t\u00e3o mal o desigual. Aqui o medo \u00e9 real e sua causa n\u00e3o pode ser imputada a um adulto ignorante e de mal com a vida. \u00c9 no corpo de uma delas que as coisas acontecem.<\/p>\n<p>Clementine, com medo de enfrentar uma chuva de vento naquela casa prec\u00e1ria, chama seus pais. Quando chega ali, Camille v\u00ea que a casa est\u00e1 abandonada e sai de carro com o irm\u00e3o. Esse lhe diz que isso era s\u00f3 o come\u00e7o do que iria acontecer, que elas n\u00e3o iriam conseguir manter o projeto de criarem seus filhos juntas. Ele lhe diz que o projeto dele tamb\u00e9m era o de sair daquela vida e que se viu atirando em pessoas que n\u00e3o haviam feito nada contra ele. E que ele se encontrou sozinho, sem ningu\u00e9m para ajud\u00e1-lo.<\/p>\n<p>O que o irm\u00e3o de Camille aponta \u00e9 a solid\u00e3o dos uns que de alguma maneira est\u00e1 na base dessa solu\u00e7\u00e3o sintom\u00e1tica de uma gravidez em grupo. Apesar de elas buscarem uma solu\u00e7\u00e3o comum, temos no fundo uma solu\u00e7\u00e3o que indica a pluraliza\u00e7\u00e3o dos sintomas que concernem \u00e0 maternidade na contemporaneidade, e a consequ\u00eancia do fato de que a exist\u00eancia, que anteriormente era sustentada pela fun\u00e7\u00e3o paterna, se deslocar da exce\u00e7\u00e3o para as m\u00faltiplas solu\u00e7\u00f5es. Os sintomas da maternidade s\u00e3o m\u00faltiplos. A exist\u00eancia se encontra para al\u00e9m dos ideais e dos modelos de fam\u00edlia preconizados como adequados e bem orientados para a procria\u00e7\u00e3o. \u00c9 como se n\u00e3o havendo a exce\u00e7\u00e3o paterna, todas as exist\u00eancias se apresentassem como exce\u00e7\u00f5es. O Um se apresenta como o cada um sozinho.<\/p>\n<p>Por isso o irm\u00e3o de Camille \u00e9 descrente na possibilidade de mudan\u00e7a, o que ele encontrou foi decep\u00e7\u00e3o e solid\u00e3o.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m assistimos atualmente \u00e0s tentativas do direito de construir novas fic\u00e7\u00f5es jur\u00eddicas que busquem dar lugar a essas exist\u00eancias na lei, a essas solu\u00e7\u00f5es particulares que n\u00e3o se universalizam. O fato de essas adolescentes serem respons\u00e1veis juridicamente por suas decis\u00f5es e contarem com o amparo financeiro do Estado, n\u00e3o garante que elas possam se responsabilizar por sua decis\u00e3o.<\/p>\n<p>Na televis\u00e3o um jornalista interroga se o fato de 14 adolescentes estarem gr\u00e1vidas seria a consequ\u00eancia de uma crise econ\u00f4mica, do fato de a atividade pesqueira e industrial terem entrado em crise na cidade. \u00c9 uma leitura que diz que essa decis\u00e3o n\u00e3o est\u00e1 separada da falta de ideais e perspectiva de vida nos tempos atuais. A falta de oportunidades \u00e9 tamb\u00e9m o que aparece no caminho que o irm\u00e3o de Camille encontra ainda t\u00e3o jovem e brincando de Amelie Poulin no meio de uma guerra fervilhante de mortes.<\/p>\n<p>O diretor convoca os pais para falarem do assunto e diz que agora s\u00e3o 15 adolescentes gr\u00e1vidas. Diante da acusa\u00e7\u00e3o de um pai de que ele \u00e9 respons\u00e1vel, o diretor diz que ele n\u00e3o \u00e9 respons\u00e1vel pela vida privada dessas alunas, em todo caso n\u00e3o mais que os pais. O fato de ele n\u00e3o ser respons\u00e1vel pela vida privada das meninas, e de n\u00e3o ser o pai delas, n\u00e3o o isenta da responsabilidade de tratar dessa situa\u00e7\u00e3o. A enfermeira diz que quer instalar uma m\u00e1quina de preservativos na escola, mas que o uso de p\u00edlula \u00e9 de responsabilidade dos pais. O diretor quer que os professores aumentem o controle e obriguem os alunos a trabalhar. Ele tamb\u00e9m pretende excluir a jovem que \u00e9 a cabe\u00e7a do grupo pensando que isso pode ser uma maneira de provocar medo nas outras. Vemos aqui a dificuldade da escola e dos pais dimensionarem suas responsabilidades e o alcance da tarefa imposs\u00edvel de educar. O que a escola quer \u00e9 que isso acabe e que o real fique de fora de seus muros.<\/p>\n<figure id=\"attachment_5659171\" aria-describedby=\"caption-attachment-5659171\" style=\"width: 280px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-5659171\" src=\"http:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/beltrame280.jpg\" alt=\"\" width=\"280\" height=\"187\" srcset=\"https:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/beltrame280.jpg 280w, https:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/beltrame280-274x183.jpg 274w\" sizes=\"auto, (max-width: 280px) 100vw, 280px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-5659171\" class=\"wp-caption-text\">Thais Beltrame, ninho &#8211; detalhe<br \/>(s\u00e9rie &#8216;qualquer tempo que j\u00e1 passou pertence \u00e0 morte&#8217;), 2010<\/figcaption><\/figure>\n<p>A enfermeira pergunta a Camille porque ela levou as outras pelo mesmo caminho, se era porque ela se sentia s\u00f3 ou tinha medo. Ela diz que isso n\u00e3o tem import\u00e2ncia. Que no in\u00edcio teve medo e que estava feliz por suas amigas. Ela diz que foi apenas a primeira e a enfermeira diz que algumas n\u00e3o v\u00e3o conseguir sair dessa experi\u00eancia, Clementine por exemplo. Camille pergunta se os adultos tiveram melhores ideias. A enfermeira que confessa n\u00e3o ter filhos, diz que lhes era oferecida a possibilidade de estudar e viver melhor. Camille diz que h\u00e1 nos adultos uma mentira de n\u00e3o perceber que a vida deles \u00e9 uma merda. O que ela denuncia \u00e9 uma repeti\u00e7\u00e3o da falta de perspectiva e de desejo e um saber que n\u00e3o leva em conta um furo, um saber que tudo sabe e que n\u00e3o d\u00e1 lugar para a subjetividade e as singularidades. Ela tem certeza de que elas t\u00eam que tentar outro caminho. Camille diz que essa conversa com a enfermeira acabou com as d\u00favidas que ela tinha a respeito de sua decis\u00e3o.<\/p>\n<p>Com certeza Camille n\u00e3o tinha nenhuma condi\u00e7\u00e3o de saber a respeito de sua posi\u00e7\u00e3o de bancar A Mulher, de ser a exce\u00e7\u00e3o e a conversa com a enfermeira que n\u00e3o tem filhos a desautoriza, assim como aos outros adultos a estarem na posi\u00e7\u00e3o de serem modelos para uma identifica\u00e7\u00e3o. A enfermeira n\u00e3o sabe nada sobre maternidade, j\u00e1 que ela n\u00e3o \u00e9 m\u00e3e. E por ter n\u00e3o vivido isso em seu corpo, ela \u00e9 desautorizada por Camille. \u00c9 essa destitui\u00e7\u00e3o da posi\u00e7\u00e3o de ideal da enfermeira assim como sua experi\u00eancia que fazem Camille ter certeza de sua decis\u00e3o.<\/p>\n<p>J\u00falia acusa Camille de estar com ci\u00fames porque Tom est\u00e1 apaixonado por ela. Elas levantam a blusa de Florence e descobrem finalmente que ela mentiu o tempo todo que estava gr\u00e1vida.\u00a0 Elas v\u00e3o buscar Clementine para libert\u00e1-la. Cantam: viva o chocolate, a hero\u00edna e a vodca. Nem h\u00e1 lugar para o amor nem para o sentido. \u00c9 como se nesse momento a autoridade e a lei estivessem dilu\u00eddas e ausentes do mundo.<\/p>\n<p>Agora os acontecimentos v\u00e3o ser desencadeados para mostrar que a solu\u00e7\u00e3o idealizada n\u00e3o pode ser realizada. Elas v\u00e3o para a praia onde encontram os rapazes e ali continuam brincando com o fogo. Clementine perde o f\u00f4lego e Camille a leva de carro para sua casa. Mas depois Clementine lhe manda uma mensagem dizendo que seus pais n\u00e3o est\u00e3o em casa e que ela perde sangue. Camille d\u00e1 meia volta, mas tem um acidente. Ela avisa Clementine e tenta falar com as amigas, em v\u00e3o. O carro n\u00e3o liga e ela avisa Clementine onde est\u00e1. A ambul\u00e2ncia chega. Camille teve um descolamento de placenta. Tom fica no quarto com ela. Mas n\u00e3o h\u00e1 retorno poss\u00edvel, o que foi decidido arrasta suas consequ\u00eancias.<\/p>\n<p>Essa sequencia de fatos vem nos trazer o real que sempre irrompe ali onde n\u00e3o \u00e9 esperado. A precariedade das adolescentes se apresenta, mas isso n\u00e3o invalida a decis\u00e3o que elas tomaram.<\/p>\n<p>Ningu\u00e9m soube o que aconteceu com Camille depois que ela perdeu o beb\u00ea. Ela deixou tanto a cidade como sua m\u00e3e. Junto com o beb\u00ea ela perdeu seu lugar de exce\u00e7\u00e3o e fica imposs\u00edvel para ela permanecer no grupo. Ela continuou a fazer as amigas sonharem com uma outra vida, mas nunca voltou ao col\u00e9gio. As adolescentes n\u00e3o criaram seus filhos juntos, mas continuaram a frequentar a escola. Tudo foi um sonho da adolesc\u00eancia, fruto de uma energia que ningu\u00e9m pode conter. Afinal, mudar o que foi herdado \u00e9 tarefa de dif\u00edcil execu\u00e7\u00e3o, sobretudo em tempos t\u00e3o prec\u00e1rios e com t\u00e3o pouca esperan\u00e7a.<\/p>\n<p>Nenhum happy end e o que encontramos no final tamb\u00e9m n\u00e3o \u00e9 nada desastroso. As adolescentes continuam na escola, os beb\u00eas s\u00e3o cuidados e pouca coisa muda na vida daquela cidade. Um filme que poderia estar discutindo um fato \u00fanico, nos mostra que todas as solu\u00e7\u00f5es s\u00e3o \u00fanicas, s\u00e3o tentativas de dar conta da precariedade do simb\u00f3lico em nosso mundo. A maternidade \u00e9 uma aposta, o grupo de mulheres que dispensam o homem \u00e9 outra mais, o apoio no grupo dos iguais, encarnar a exce\u00e7\u00e3o ali onde n\u00e3o h\u00e1 ideal, o beb\u00ea como objeto tamp\u00e3o, a exclus\u00e3o da vida, da escola e do saber, todas essas sa\u00eddas s\u00e3o efeitos desse impasse dos falasseres encontrarem o como fazer sem o suporte de modelos que os orientem e, sobretudo, sem um lugar para a sua palavra.<\/p>\n<p>Em nosso mundo, o falo se tornou um instrumento particular que serve simplesmente para marcar o fracasso, o ratear da rela\u00e7\u00e3o. A \u00fanica possibilidade \u00e9 a de que as rela\u00e7\u00f5es se fa\u00e7am pela fala e pela linguagem. Essa \u00e9 a chance e a aposta da psican\u00e1lise.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Sobre o filme de Delphine &amp; Muriel Coulin, 2011 Cristina Drummond Somos avisados de que a hist\u00f3ria que vamos assistir \u00e9 baseada em fatos reais (que ocorreram em 2008, nos Estados Unidos, na Gloucester High School). 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