{"id":5659209,"date":"2018-11-29T16:38:24","date_gmt":"2018-11-29T18:38:24","guid":{"rendered":"http:\/\/ciendigital.com.br\/?p=5659209"},"modified":"2024-04-19T09:29:53","modified_gmt":"2024-04-19T12:29:53","slug":"o-passado-editavel-crise-da-interioridade-e-espetacularizacao-de-si","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ciendigital.com.br\/index.php\/2018\/11\/29\/o-passado-editavel-crise-da-interioridade-e-espetacularizacao-de-si\/","title":{"rendered":"O passado edit\u00e1vel Crise da interioridade e espetaculariza\u00e7\u00e3o de si"},"content":{"rendered":"<div class=\"pdfprnt-buttons pdfprnt-buttons-post pdfprnt-top-right\"><a href=\"https:\/\/ciendigital.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5659209?print=pdf\" class=\"pdfprnt-button pdfprnt-button-pdf\" target=\"_blank\" ><\/a><a href=\"https:\/\/ciendigital.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5659209?print=print\" class=\"pdfprnt-button pdfprnt-button-print\" target=\"_blank\" ><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/plugins\/pdf-print\/images\/print.png\" alt=\"image_print\" title=\"Conte\u00fado de impress\u00e3o\" \/><\/a><\/div><div class=\"alert-danger\">\n<h6>Paula Sibilia<a id=\"_ftnref1\" style=\"font-size: 16px;\" title=\"\" href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\"><sup>1<\/sup><\/a><\/h6>\n<\/div>\n<p>O homem \u00e9 o \u00fanico animal capaz de lembrar. Ao menos, isso supomos, e tamb\u00e9m \u00e9 o que Friedrich Nietzsche observou em suas\u00a0<em>Considera\u00e7\u00f5es extempor\u00e2neas<\/em>\u00a0de 1873. Claro que n\u00e3o se tratava, para ele, de uma grande qualidade capaz de enaltecer o g\u00eanero humano. \u201c\u00c9 poss\u00edvel viver quase sem lembran\u00e7as, sim, e viver feliz assim, como o mostra o animal\u201d, constatava ent\u00e3o o fil\u00f3sofo alem\u00e3o, \u201cmas \u00e9 absolutamente imposs\u00edvel viver, em geral, sem esquecimento\u201d. Por isso, esquecer ruminando seria, para Nietzsche, \u201ca capacidade mais elevada do esp\u00edrito\u201d.<\/p>\n<p>Pode parecer estranho, mas esse autor\u00a0 n\u00e3o foi o \u00fanico a se revoltar contra as tiranias da mem\u00f3ria, defendendo em troca as pot\u00eancias libertadoras do esquecimento. Para ter uma ideia das desventuras que o lembrar-se de tudo pode implicar, basta evocar o c\u00e9lebre protagonista do conto de Jorge Luis Borges,\u00a0<em>Funes o memorioso,<\/em>\u00a0a quem a quantidade avassaladora de lembran\u00e7as, literalmente, o impedia\u00a0 de viver.<\/p>\n<p>Tudo isso vem \u00e0 tona agora porque subitamente convivemos com uma m\u00e1quina monstruosa que parece se lembrar de tudo: a internet. A essa fabulosa qualidade apontam as reclama\u00e7\u00f5es que se erguem contra os motores de busca como\u00a0<em>Google<\/em>\u00a0ou\u00a0<em>Yahoo<\/em>, em nome do \u201cdireito ao esquecimento\u201d nas redes inform\u00e1ticas. O que se pede, em suma, \u00e9 que sejam apagados certos dados pessoais que se referem a situa\u00e7\u00f5es do passado e que, embora sejam verdadeiros, o demandante considera que o prejudicam de algum modo.<\/p>\n<p>Em maio de 2014, a Uni\u00e3o Europeia tomou uma decis\u00e3o ins\u00f3lita nesse sentido, que provocou intensos debates ao repercutir em todo o planeta. Segundo tais medidas, os buscadores da internet devem atender as peti\u00e7\u00f5es dos usu\u00e1rios quando estes solicitem que sejam eliminados de seus resultados alguns conte\u00fados que os afetam de forma negativa. A partir da\u00ed, e por toda parte, n\u00e3o cessam de proliferar os processos judiciais que tentam limitar a informa\u00e7\u00e3o dispon\u00edvel sobre um determinado indiv\u00edduo.<\/p>\n<p>Assim, por exemplo, entre os casos que mais ecoaram, est\u00e3o os de atrizes ou modelos que pedem a omiss\u00e3o de links para sites pornogr\u00e1ficos em todas as buscas associadas a seus nomes. Mas n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 isso, pois a diversidade abunda neste \u00e2mbito. Existem tamb\u00e9m aqueles que querem desaparecer dos resultados mostrados por\u00a0<em>Google<\/em>\u00a0porque temem por sua seguran\u00e7a, por exemplo, ou porque desejam proteger sua privacidade, ou porque os associam a epis\u00f3dios de seu passado que n\u00e3o querem que sejam lembrados por ningu\u00e9m.<\/p>\n<figure id=\"attachment_5659211\" aria-describedby=\"caption-attachment-5659211\" style=\"width: 228px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-5659211\" src=\"http:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/velazquez280-228x300.jpg\" alt=\"\" width=\"228\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/velazquez280-228x300.jpg 228w, https:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/velazquez280-274x361.jpg 274w, https:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/velazquez280.jpg 280w\" sizes=\"auto, (max-width: 228px) 100vw, 228px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-5659211\" class=\"wp-caption-text\">Diego Vel\u00e1zquez,\u00a0<br \/>La infanta Margarita Teresa de Austria,\u00a0<br \/>1653, Kunsthistorisches Museum, Viena<\/figcaption><\/figure>\n<p>S\u00e3o in\u00fameros os ingredientes deste debate, que \u00e9 muito complexo e est\u00e1 cheio de contradi\u00e7\u00f5es. Em todo caso, esse reconhecimento t\u00e3o recente do \u201cdireito ao esquecimento\u201d por lei abala alguns alicerces de nossa tradi\u00e7\u00e3o filos\u00f3fica e faz surgir a seguinte d\u00favida. Por ventura estaria se realizando, afinal, em pleno s\u00e9culo XXI, aquele feliz desprendimento das garras da mem\u00f3ria proposto pelos autores anteriormente mencionados que, n\u00e3o por acaso, marcaram a fogo o pensamento e o imagin\u00e1rio dos s\u00e9culos XIX e XX?<\/p>\n<p>Talvez sim, em certo sentido, por\u00e9m n\u00e3o exatamente como eles o enunciaram. Porque o que entendemos por mem\u00f3ria e esquecimento, inclusive o que consideramos que seja \u201cser algu\u00e9m\u201d e a rela\u00e7\u00e3o que isso implica com as pr\u00f3prias lembran\u00e7as, s\u00e3o todas defini\u00e7\u00f5es que costumam mudar com os vaivens da hist\u00f3ria. E talvez tenham se reconfigurado de maneira inesperada nos \u00faltimos tempos. Nessa perspectiva, n\u00e3o surpreende que figuras como Nietzsche\u00a0 e Borges tenham se encarni\u00e7ado contra os poss\u00edveis abusos da mem\u00f3ria, j\u00e1 que suas obras costumavam disparar agudos dardos aos valores vigentes na \u00e9poca em que escreveram. E, como \u00e9 sabido, tanto o s\u00e9culo XIX como boa parte do XX estiveram, obcecados pela mem\u00f3ria.<\/p>\n<p>Inclusive Sigmund\u00a0 Freud, autor de uma das teorias mais bem-sucedidas sobre o que significa ser humano na era moderna, atribuiu \u00e0 mem\u00f3ria um papel desp\u00f3tico: podemos n\u00e3o nos lembrarmos de algo,ou acreditar que o esquecemos, mas tudo o que vivemos nos constitui de um modo profundo e crucial, alimentando o que somos. Mesmo se um determinado epis\u00f3dio n\u00e3o se encontra esclarecido no n\u00edvel mais imediato da consci\u00eancia, admite-se que\u00a0<em>tudo<\/em>\u00a0o vivido est\u00e1 abrigado em substratos ainda mais profundos de nossa ess\u00eancia. E n\u00e3o h\u00e1 o que fazer: ainda que pensemos que n\u00e3o nos lembramos, estamos feitos dessa mat\u00e9ria t\u00e3o esquiva como insistente.<\/p>\n<p>No entanto, muita \u00e1gua correu debaixo da ponte desde aquelas vitorianas \u00e9pocas, e \u00e9 prov\u00e1vel que nossa rela\u00e7\u00e3o com a mem\u00f3ria j\u00e1 n\u00e3o seja a mesma. Embora hoje, mais do que nunca, sejam erguidos museus, eventos ou parques tem\u00e1ticos para prestar culto a toda sorte de acontecimentos do passado. Isso, sem deixar de lado a encena\u00e7\u00e3o espetacularizada de \u00e9pocas inteiras, enquanto infinidade de material jornal\u00edstico ou bibliogr\u00e1fico, bem como cinematogr\u00e1fico e televisivo, tamb\u00e9m se ocupa do assunto.<\/p>\n<p>Para n\u00e3o falar dos blogs, dos perfis nas redes sociais e das toneladas de fotos que acumulamos para documentar cada instante de nossas perip\u00e9cias vitais, ou de seja l\u00e1 o que for.<\/p>\n<p>De modo que o desejo de registrar e arquivar parece ainda muito presente em nossa cultura, mas o curioso \u00e9 que tudo isso convive com uma novidade: as ferramentas para apagar lembran\u00e7as. Nesse sentido, a reivindica\u00e7\u00e3o do \u201cdireito ao esquecimento\u201d que estourou recentemente na internet, n\u00e3o parece estar sozinha nessa tend\u00eancia. V\u00e1rios experimentos cient\u00edficos procuram descobrir uma subst\u00e2ncia qu\u00edmica que seja capaz de eliminar reminisc\u00eancias dolorosas dos c\u00e9rebros daqueles que sofrem de \u201cestresse p\u00f3s-traum\u00e1tico\u201d, por exemplo. \u00c9 a esse esfor\u00e7o que alude o filme\u00a0<em>Brilho eterno de uma mente sem lembran\u00e7as,<\/em>\u00a0dirigido por Michel Gondry em 2004, cujos personagens recorrem a uma empresa que vende esse tipo de servi\u00e7os para solucionar, de modo indolor e com alta praticidade, a tristeza de uma desilus\u00e3o amorosa.<\/p>\n<figure id=\"attachment_5659212\" aria-describedby=\"caption-attachment-5659212\" style=\"width: 263px\" class=\"wp-caption alignright\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-5659212\" src=\"http:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/jobbins280-263x300.jpg\" alt=\"\" width=\"263\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/jobbins280-263x300.jpg 263w, https:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/jobbins280-274x312.jpg 274w, https:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/jobbins280.jpg 280w\" sizes=\"auto, (max-width: 263px) 100vw, 263px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-5659212\" class=\"wp-caption-text\">Freya Jobbins, Kerri Anne, 2013, s\u00e9rie \u201cdollfaces\u201d<\/figcaption><\/figure>\n<p>N\u00e3o \u00e9 casual que, justamente agora, surjam esses sonhos de uma mem\u00f3ria edit\u00e1vel ao gosto do consumidor, como se a pr\u00f3pria vida fosse uma hist\u00f3ria contada num suporte digital, cujos epis\u00f3dios desagrad\u00e1veis pudessem ser apagados \u2013 ou melhor,\u00a0<em>deletados\u00a0<\/em>\u2013 \u00a0com a efic\u00e1cia t\u00edpica dos computadores e por livre decis\u00e3o de cada um. A met\u00e1fora acabou se aderindo ao referente, de modo que a\u00a0<em>Timeline<\/em>\u00a0de\u00a0<em>Facebook\u00a0<\/em>n\u00e3o representa mais a epopeiade seu protagonista por meio de uma s\u00e9rie de imagens cuidadosamente selecionadas. Agora, ambas as subst\u00e2ncias &#8212; vida e relato audiovisual &#8212; se fundem e\u00a0 se confundem nessa biografia inform\u00e1tica.<\/p>\n<p>Tratadas como arquivos digitais, as lembran\u00e7as deixam de ser aquele ingrediente et\u00e9reo<br \/>\ne misterioso que nutria a interioridade de cada indiv\u00edduo. Essa ess\u00eancia oculta e enigm\u00e1tica era claramente anal\u00f3gica, incompat\u00edvel com qualquer dispositivo eletr\u00f4nico e incapaz de se converter em informa\u00e7\u00e3o. Por isso, exigia outras t\u00e9cnicas de deciframento: as viagens introspectivas e as evoca\u00e7\u00f5es retrospectivas, por exemplo, como rituais cotidianos para se conhecer a si mesmo, procurando dar um sentido coerente ao ca\u00f3tico fluxo de acontecimentos que comp\u00f5em toda e qualquer vida.<\/p>\n<p>Mas algo parece ter mudado bastante nesse panorama. Quando se opera segundo a l\u00f3gica inform\u00e1tica, se ningu\u00e9m lembrar que algo aconteceu \u2013 inclusive consigo mesmo \u2013 porque esse dado foi eliminado tecnicamente, ent\u00e3o, pode-se agir como se isso nunca tivesse ocorrido. Algo compar\u00e1vel ao que acontece quando se recorre ao bisturi para modelar o pr\u00f3prio aspecto f\u00edsico, por exemplo, ou quando algu\u00e9m edita a \u201clinha do tempo\u201d em sua p\u00e1gina de\u00a0<em>Facebook<\/em>, ou quando lhe exige a\u00a0<em>Google<\/em>\u00a0que deixe de mostrar imagens e textos vergonhosos a seu respeito.<\/p>\n<p>A naturaliza\u00e7\u00e3o, entre n\u00f3s, de todas essas atitudes, sugere algo inquietante. A mat\u00e9ria que nos constitui parece ter mudado sutilmente para transmutar-se em outra coisa, ao se redefinirem os pilares que sustentam a hist\u00f3ria pessoal de cada sujeito. J\u00e1 n\u00e3o \u00e9 algo cujos vest\u00edgios s\u00e3o\u00a0<em>guardados<\/em>\u00a0no mais rec\u00f4ndito do pr\u00f3prio lar &#8212; como se fazia com o \u00e1lbum de fam\u00edlia ou com o di\u00e1rio \u00edntimo de antigamente, por exemplo &#8212; ou ent\u00e3o \u201cdentro\u201d das entranhas mais profundas de cada um. Em vez disso, agora parece se tratar de uma esp\u00e9cie de capital que se deve administrar com o prop\u00f3sito priorit\u00e1rio de\u00a0<em>mostr\u00e1-lo<\/em>.<\/p>\n<figure id=\"attachment_5659213\" aria-describedby=\"caption-attachment-5659213\" style=\"width: 225px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-5659213\" src=\"http:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/davenport280-225x300.jpg\" alt=\"\" width=\"225\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/davenport280-225x300.jpg 225w, https:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/davenport280-274x365.jpg 274w, https:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/davenport280.jpg 280w\" sizes=\"auto, (max-width: 225px) 100vw, 225px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-5659213\" class=\"wp-caption-text\">Ian Davenport, Ingleby Wall Painting (after Carpaccio) &#8211; detalhe, 2011<\/figcaption><\/figure>\n<p>Ou seja, em lugar daquele tesouro que devia ser protegido na intimidade para dar consist\u00eancia ao\u00a0<em>eu<\/em>, trata-se de um relato cuja fun\u00e7\u00e3o primordial consiste em ser visto. Isto \u00e9, que os outros o assistam como se fosse um espet\u00e1culo e que o testemunhem com seus pr\u00f3prios olhos; e, na medida do poss\u00edvel, que tamb\u00e9m o &#8220;curtam&#8221; clicando nos bot\u00f5es adequados ou fazendo coment\u00e1rios afirmativos.<\/p>\n<p>De fato, j\u00e1 n\u00e3o se guarda quase nada para sempre, nem na interioridade impalp\u00e1vel da alma nem na privacidade do lar. N\u00e3o se conservam fotos impressas, cartas ou di\u00e1rios, por exemplo, pois tornou-se imprescind\u00edvel mostrar logo tudo nas telas e, em seguida, descart\u00e1-lo para renovar o perfil. \u00c9 preciso exibir tudo o que se\u00a0<em>\u00e9<\/em>; ou, mais exatamente, o que se\u00a0<em>est\u00e1<\/em>, clamando sempre pela aprova\u00e7\u00e3o alheia. Ainda com mais exatid\u00e3o, dir-se-ia que \u00e9 necess\u00e1rio mostrar tudo o que se deseja que os outros considerem que se\u00a0<em>\u00e9,<\/em>\u00a0para assim receber o seu almejado apoio com o polegar para cima.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, cada vez existe menos diferen\u00e7a entre aqueles pares que antes se consideravam opostos e excludentes: ess\u00eancia e apar\u00eancia tamb\u00e9m se confundem e se misturam nestas novas pr\u00e1ticas vitais, sem privil\u00e9gios morais para a primeira nem desprezos para a segunda. O importante \u00e9 que se\u00a0<em>somos<\/em>\u00a0algo, ent\u00e3o tudo isso tem que estar\u00a0<em>\u00e0 vista<\/em>; porque se n\u00e3o se mostra e os demais n\u00e3o o enxergam, ent\u00e3o nada nem ningu\u00e9m poder\u00e1 nos garantir que existe.<\/p>\n<p>Ante essa importante e curiosa muta\u00e7\u00e3o, o fato de que algo tenha acontecido ou n\u00e3o, parece perder relev\u00e2ncia. Tamb\u00e9m muda a maneira em que uma lembran\u00e7a do passado afeta o presente, sem necessariamente se afixar de modo indel\u00e9vel na \u201cess\u00eancia interior\u201d de seu protagonista. O que mais importa, agora, parece ser outra coisa: o efeito que tudo isso produz nos outros; em suma, como os demais o veem.<\/p>\n<p>Da\u00ed que as reivindica\u00e7\u00f5es atualmente em curso em torno ao &#8220;direito ao esquecimento&#8221; tamb\u00e9m costumem se apresentar sob outro r\u00f3tulo: o \u201cdireito \u00e0 autodetermina\u00e7\u00e3o informativa\u201d. Neste caso, o que se defende \u00e9 a faculdade de cada indiv\u00edduo para administrar por si mesmo a divulga\u00e7\u00e3o e o uso dos dados referidos \u00e0 sua pessoa. Esses sonhos de autonomia tamb\u00e9m levam a marca do contempor\u00e2neo. Essa ilus\u00e3o de controle total, por\u00e9m, n\u00e3o cessa de nos desapontar, dando resson\u00e2ncias inesperadas \u00e0s sagazes teorias de Gilles Deleuze sobre o mundo contempor\u00e2neo.<\/p>\n<p>Cabe lembrar que esse fil\u00f3sofo franc\u00eas recorreu \u00e0 express\u00e3o \u201csociedades de controle\u201d para designar o \u201cnovo monstro\u201d, como ele mesmo ironizou naquele breve e contundente ensaio publicado originalmente em 1990. A que se referia? \u00c0 gradual implanta\u00e7\u00e3o de um regime de vida inovador, que vai se distanciando dos modos de funcionamento tipicamente modernos e industriais , ou seja, daquilo que Michel Foucault nomeara \u201csociedades disciplinares\u201d em seus estudos publicados alguns anos antes.<\/p>\n<p>Essas novidades come\u00e7aram a se delinear nas \u00faltimas d\u00e9cadas do s\u00e9culo passado, com o apoio crucial das tecnologias eletr\u00f4nicas e digitais, para configurar uma organiza\u00e7\u00e3o social mais compat\u00edvel com o \u00e1gil capitalismo de final do s\u00e9culo XX e princ\u00edpios do XXI; isto \u00e9, um sistema regido pelo excesso de produ\u00e7\u00e3o e pelo consumo exacerbado, pelo marketing e pela publicidade, pelos fluxos financeiros em tempo real e pela interconex\u00e3o em redes globais de comunica\u00e7\u00e3o. E, sobretudo, marcado pela decad\u00eancia de certos estabelecimentos b\u00e1sicos da sociedade moderna &#8212; tais como a escola, a f\u00e1brica, a pris\u00e3o e o hospital &#8212; enquanto a empresa se entronizava como um\u00a0 modelo que impregnaria todas as demais institui\u00e7\u00f5es, ao contagi\u00e1-las com seu onipresente \u201cesp\u00edrito empresarial\u201d.<\/p>\n<figure id=\"attachment_5659214\" aria-describedby=\"caption-attachment-5659214\" style=\"width: 280px\" class=\"wp-caption alignright\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-5659214\" src=\"http:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/hyun280.jpg\" alt=\"\" width=\"280\" height=\"243\" srcset=\"https:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/hyun280.jpg 280w, https:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/hyun280-274x238.jpg 274w\" sizes=\"auto, (max-width: 280px) 100vw, 280px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-5659214\" class=\"wp-caption-text\">Choi Jung Hyun, keyboard viper, 2008<\/figcaption><\/figure>\n<p>Como parte desse movimento, entraram em crise as figuras de autoridade mais tradicionais (pais, chefes, mestres, Estado), de modo que o antigo sistema de poder centralizador &#8212; que exercia uma vigil\u00e2ncia vertical e internalizada por meio de regulamentos e culpas &#8212; tamb\u00e9m caiu em decl\u00ednio. Contudo, essa transforma\u00e7\u00e3o n\u00e3o significou uma libera\u00e7\u00e3o total das velhas amarras; ou pelo menos, n\u00e3o foi apenas isso o que aconteceu. Junto com esse afrouxamento, abriu-se o horizonte para a implanta\u00e7\u00e3o de um tipo de controle mais sutil e eficaz, que opera em todo momento e lugar, gra\u00e7as \u00e0 espantosa ubiq\u00fcidade dos dispositivos digitais de comunica\u00e7\u00e3o e informa\u00e7\u00e3o. Em s\u00edntese, trata-se de um poder descentralizado e distribu\u00eddo pela totalidade do tecido social, como Deleuze vislumbrara com tanta perspic\u00e1cia h\u00e1 um quarto de s\u00e9culo atr\u00e1s.<\/p>\n<p>Contudo, esse controle sobre a fatal inseguran\u00e7a da vida \u00e9 mais uma armadilha extremamente lucrativa que um fato consumado &#8212; ou algo que alguma vez possa vir a se consumar de vez. O mercado , a tecnoci\u00eancia e os meios de comunica\u00e7\u00e3o selam, todos os dias, uma alian\u00e7a t\u00e1cita para manter essa din\u00e2mica em funcionamento. Um movimento estimulado, ao mesmo tempo, pelo temor\u00a0 ao inimigo (ou ao simples acaso) e a promessa de que sempre ser\u00e1 poss\u00edvel afugent\u00e1-lo tecnicamente. Os mais variados artefatos est\u00e3o \u00e0 nossa disposi\u00e7\u00e3o, conforme nos \u00e9 explicado todo dia, para que possamos com eles &#8220;controlar&#8221; o ca\u00f3tico acontecer da vida.<\/p>\n<p>Por\u00e9m, al\u00e9m dessa pot\u00eancia que emana do bem-sucedido \u201cmito cientificista\u201d, agora tamb\u00e9m vivemos na \u201csociedade do espet\u00e1culo\u201d. Quer dizer, aquilo que Guy Debord entrevira j\u00e1 faz quase meio s\u00e9culo. Em plena agita\u00e7\u00e3o das rebeli\u00f5es contraculturais, esse autor notou que estava se engendrando esta nova configura\u00e7\u00e3o sociocultural, pol\u00edtica e econ\u00f4mica, uma de cujas defini\u00e7\u00f5es mais citadas afirma que \u201co espet\u00e1culo \u00e9 uma rela\u00e7\u00e3o entre pessoas mediada por imagens\u201d. Quase nada do mencionado nestas p\u00e1ginas teria sido imagin\u00e1vel no long\u00ednquo ano de 1967; no entanto, tudo isto talvez sugira que algo daquela \u00e1cida previs\u00e3o est\u00e1 se cristalizando agora. Com alguns ingredientes imprevistos, sem d\u00favida, mas \u00e9 inevit\u00e1vel associar o que acontece hoje em dia com aquilo que Debord intuiu, com furioso desd\u00e9m, numa \u00e9poca em que recursos t\u00e9cnicos como a internet n\u00e3o habitavam sequer os mais audazes relatos de fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica.<\/p>\n<p>\u00c9 muito peculiar a combina\u00e7\u00e3o que atualmente se d\u00e1 entre essas duas vertentes: a incita\u00e7\u00e3o ao espet\u00e1culo de si mesmo, por um lado, e os sonhos de controle total com ajuda da tecnoci\u00eancia, por outro lado. Os conflitos que essas novidades suscitam n\u00e3o deixam de causar toda sorte de perplexidades. Assim, por exemplo, em meio \u00e0 prolifera\u00e7\u00e3o de estrat\u00e9gias de visibilidade que todos estamos intimados a colocar em jogo cotidianamente, com o prop\u00f3sito de projetar perfis atraentes e capazes de conquistar o maior n\u00famero de olhares, de cliques no bot\u00e3o \u201ccurtir\u201d e de seguidores, cabe se perguntar se \u00e9 poss\u00edvel ter algum controle sobre aquilo que se difunde acerca de si mesmo.<\/p>\n<figure id=\"attachment_5659215\" aria-describedby=\"caption-attachment-5659215\" style=\"width: 280px\" class=\"wp-caption alignright\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-5659215\" src=\"http:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/kesselring280.jpg\" alt=\"\" width=\"280\" height=\"224\" srcset=\"https:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/kesselring280.jpg 280w, https:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/kesselring280-274x219.jpg 274w\" sizes=\"auto, (max-width: 280px) 100vw, 280px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-5659215\" class=\"wp-caption-text\">Ana Kesselring, Corpotopias, 2011<\/figcaption><\/figure>\n<p>Essa pergunta evoca os casos, cada vez mais frequentes, de fotos ou v\u00eddeos de pessoas famosas em atitudes sensuais, muitas vezes sem roupas ou praticando atividades sexuais, que de repente &#8220;vazam&#8221; e s\u00e3o divulgadas pela internet, transformando-se imediatamente em not\u00edcias de alto impacto &#8212; pelo menos, por uns poucos dias. Algo semelhante acontece com o fen\u00f4meno do\u00a0<em>bullying<\/em>, outra manifesta\u00e7\u00e3o bem contempor\u00e2nea, embora seja habitual dizer que n\u00e3o se trata de nenhuma novidade, mas de uma atualiza\u00e7\u00e3o do cl\u00e1ssico \u201cass\u00e9dio escolar\u201d que\u00a0<em>sempre<\/em>\u00a0teria existido.<\/p>\n<p>No entanto, n\u00e3o \u00e9 por acaso que hoje o constrangimento se multiplique exponencialmente com essa virtual exibi\u00e7\u00e3o em in\u00fameras telas e que, em consequ\u00eancia, possa chegar a ter efeitos descomunais. Quando se dissemina pelas redes inform\u00e1ticas, a humilha\u00e7\u00e3o diante de uma exposi\u00e7\u00e3o vergonhosa se torna ainda mais asfixiante, pois o que antes costumava ser de ordem privada &#8212; limitando-se \u00e0s paredes da escola ou da casa, por exemplo &#8212; subitamente se joga no \u00e2mbito p\u00fablico com um alcance potencialmente infinito.<\/p>\n<p>Nesse contexto, as reivindica\u00e7\u00f5es pelo \u201cdireito ao esquecimento\u201d parecem just\u00edssimas.<br \/>\nNo entanto, aqui emerge outra das complica\u00e7\u00f5es deste assunto: como consegui-lo? Como obter, de fato, esse apagamento t\u00e3o buscado nesses casos? Se a espetaculariza\u00e7\u00e3o de si mesmo se legitimou e se generalizou, a pretens\u00e3o de manter algum controle sobre os pr\u00f3prios dados em suporte digital torna-se cada vez menos plaus\u00edvel &#8212; ainda mais quando se trata de imagens, esses materiais especialmente inflam\u00e1veis que se multiplicam e circulam despertando grande avidez. Talvez os dois componentes dessa equa\u00e7\u00e3o sejam incompat\u00edveis, de modo que a \u00fanica forma de controlar o que se diz sobre si mesmo &#8212; incluindo a\u00ed o que cada um conta ou mostra acerca de sua pr\u00f3pria vida &#8212; seja se abstendo n\u00e3o s\u00f3 de fazer circular, mas tamb\u00e9m de produzir qualquer documento digital a seu respeito.<\/p>\n<p>Algo altamente improv\u00e1vel, que talvez possa at\u00e9 ser digno de pesadelos para boa parte dos sujeitos contempor\u00e2neos; ou seja, aqueles que se converteram em loquazes autores, narradores e personagens de si mesmos. Vale notar que essas criaturas &#8212; os personagens &#8212; nunca est\u00e3o sozinhos: sempre h\u00e1 algu\u00e9m que observa tudo o que eles fazem, algu\u00e9m que segue com avidez seus atos e gestos, seus sentimentos e pensamentos, at\u00e9 suas emo\u00e7\u00f5es mais min\u00fasculas ou banais. Sempre h\u00e1 um espectador, um leitor, uma c\u00e2mara, um olhar sobre o personagem que tira dele seu car\u00e1ter meramente humano. E, para poder existir, ele precisa fervorosamente desse olhar alheio.<\/p>\n<p>J\u00e1 na vida das pessoas de carne e osso, nem sempre h\u00e1 um p\u00fablico disposto a observar suas a\u00e7\u00f5es &#8212; nem as her\u00f3icas, nem as miser\u00e1veis, e menos ainda as trivialidades cotidianas. Com muita frequ\u00eancia, ali\u00e1s, ningu\u00e9m nos olha. Nesses casos, n\u00e3o temos testemunhas do que somos. Isso n\u00e3o seria muito grave e at\u00e9 poderia significar um al\u00edvio, se n\u00e3o viv\u00eassemos imersos numa cultura como a contempor\u00e2nea. Isto \u00e9, uma sociedade na qual a verdade sobre o que somos deixou de brotar prioritariamente da interioridade , ou seja, de algo que ter\u00edamos zelosamente guardado \u201cdentro\u201d de cada um de n\u00f3s e que constituiria a pr\u00f3pria ess\u00eancia. Em vez disso, cada vez mais, cabe ao olhar alheio o poder de irradiar essa verdade, ao avaliar tudo (e t\u00e3o somente) o que cada um \u00e9 capaz de mostrar.<\/p>\n<figure id=\"attachment_5659216\" aria-describedby=\"caption-attachment-5659216\" style=\"width: 280px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-5659216\" src=\"http:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/escobar280.jpg\" alt=\"\" width=\"280\" height=\"210\" srcset=\"https:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/escobar280.jpg 280w, https:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/escobar280-274x206.jpg 274w\" sizes=\"auto, (max-width: 280px) 100vw, 280px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-5659216\" class=\"wp-caption-text\">Daniel Escobar, &#8216;The World\u2019, 2014, Foto: Simone Catto<\/figcaption><\/figure>\n<p>As redes sociais s\u00e3o meios perfeitos para consumar esse jogo. No entanto, mesmo dispondo desses recursos e usando-os ativamente, se ningu\u00e9m constata ou &#8212; ainda melhor &#8212; festeja nossa exist\u00eancia traduzida em valiosas imagens, se s\u00e3o poucos aqueles que nos \u201cseguem\u201d, os que clicam em \u201ccurtir\u201d ou deixam algum coment\u00e1rio positivo diante da \u00faltima\u00a0<em>selfie<\/em>\u00a0que postamos na internet, ent\u00e3o, como garantir que somos\u00a0<em>algu\u00e9m?<\/em><\/p>\n<p>Embora os personagens \u00e0s vezes pare\u00e7am estar sozinhos, n\u00e3o \u00e9 o que de fato acontece: eles sempre est\u00e3o \u00e0 vista. Absolutamente tudo em suas vidas deve acontecer sob os olhos gulosos de algum espectador ou leitor, ou ent\u00e3o dos mais atuais seguidores, amigos ou f\u00e3s. Sozinhos, eles n\u00e3o existem. Somente\u00a0<em>s\u00e3o<\/em>\u00a0ou\u00a0<em>est\u00e3o<\/em>\u00a0quando algu\u00e9m os observa: sob esse olhar t\u00e3o\u00a0 cobi\u00e7ado, eles ganham sua fant\u00e1stica vitalidade. Como resistir, portanto, a esse anseio atual de se mostrar e mendigar aplausos, se o mundo nos converteu em verdadeiros personagens?<\/p>\n<p>Por isso, o anonimato n\u00e3o \u00e9 uma possibilidade vi\u00e1vel hoje em dia, supondo que algu\u00e9m pudesse chegar a desej\u00e1-lo. Entre tantos cruzamentos de dados e redes de informa\u00e7\u00f5es, se um cidad\u00e3o do globalizado s\u00e9culo XXI quisesse se manter na obscuridade do invis\u00edvel, provavelmente lhe seria muito dif\u00edcil. O velho sonho da ilha deserta, por exemplo, n\u00e3o parece mais fact\u00edvel; ali\u00e1s, ele nem sequer \u00e9 imagin\u00e1vel hoje em dia como pura fantasia\u2026 pelo menos, n\u00e3o sem wi-fi, e portanto com acesso aos apetecidos &#8212; mas tamb\u00e9m temidos &#8212; portais de\u00a0<em>Google\u00a0<\/em>ou<em>\u00a0Facebook.<\/em><\/p>\n<p>Isto parece ser, de fato, o ponto culminante daquilo que Walter Benjamin denominara, em seus escritos da d\u00e9cada de 1930, \u201co triunfo sobre o anonimato\u201d. Acompanhando o percurso de seu famoso\u00a0<em>fl\u00e2neur\u00a0<\/em>pelas ruas deParis, o ensa\u00edsta alem\u00e3o descreveu alguns mecanismos de controle administrativo arduamente implantados na Europa do s\u00e9culo XIX, como os processos de identifica\u00e7\u00e3o dos indiv\u00edduos e o reordenamento urbano das popula\u00e7\u00f5es. Todos movimentos imprescind\u00edveis para a moderniza\u00e7\u00e3o do mundo ent\u00e3o em andamento. Naqueles textos, o autor constatava algo fundamental para o projeto moderno: &#8220;um homem se torna mais suspeito quanto mais dif\u00edcil seja encontr\u00e1-lo&#8221;.<\/p>\n<p>Com a transi\u00e7\u00e3o do paradigma anal\u00f3gico para o digital, as tecnologias de processamento de dados reduziram muito mais ainda as possibilidades de permanecer oculto, alheio ao controle, fora da abrang\u00eancia das tentaculares redes. N\u00e3o apenas porque n\u00e3o \u00e9 mais poss\u00edvel se esconder, mas sobretudo porque quase ningu\u00e9m deseja faz\u00ea-lo. Por isso, as novas ferramentas inform\u00e1ticas parecem concluir o processo iniciado pelas t\u00e9cnicas criminal\u00edsticas da \u00e9poca comentada por Benjamin, como a assinatura, a carteira de identidade e a fotografia. &#8220;A hist\u00f3ria de detetives surge no instante em que se assegura essa conquista, a mais decisiva de todas, sobre o anonimato do homem\u201d, afirmava o fil\u00f3sofo ; \u201ca partir da\u00ed, n\u00e3o se pode mais pressentir onde acabar\u00e3o os esfor\u00e7os para fix\u00e1-lo no falar e no fazer\u201d.<\/p>\n<p>Contudo, o ponto mais extremo dessa trajet\u00f3ria talvez possa ser vislumbrado na exposi\u00e7\u00e3o por livre vontade que se consumou nos \u00faltimos anos atrav\u00e9s de canais interativos como as redes sociais da internet ou os aplicativos para celulares, que permitem manter um circuito de contatos permanentemente ativado. Atrav\u00e9s desses dispositivos, todos os dias, milh\u00f5es de indiv\u00edduos comunicam toda sorte de dados sobre si mesmos, inclusive textos e imagens pessoais de diversa \u00edndole, al\u00e9m de \u201cseguir\u201d as informa\u00e7\u00f5es relativas a quantidades crescentes de gente interconectada.<\/p>\n<p>A maioria costuma adotar tais pr\u00e1ticas com prazer, cumprindo rituais de cotidiana devo\u00e7\u00e3o, e n\u00e3o porque alguma autoridade os obrigue a faz\u00ea-lo como um sofrimento imposto sob o peso da lei. Pelo menos, isso acontece at\u00e9 que a situa\u00e7\u00e3o fique complicada e mostre, de repente, sua face mais obscura. Ent\u00e3o, a tecla\u00a0<em>delete<\/em>\u00a0ser\u00e1 vista como uma amb\u00edgua promessa de solu\u00e7\u00e3o absoluta. E o &#8220;direito ao esquecimento&#8221; aparece como uma v\u00e1lvula legal que procura cumprir essa impossibilidade.<\/p>\n<p><em>Google<\/em>\u00a0\u00e9 um poderoso emblema desse conflito. O buscador mais usado da internet parece ser n\u00e3o apenas um or\u00e1culo que tudo sabe, mas tamb\u00e9m uma inst\u00e2ncia leg\u00edtima\u00a0 &#8212; ao menos assim legitimada, inclusive pelas institui\u00e7\u00f5es jur\u00eddicas mais respeitadas e poderosas do mundo &#8212; para administrar as refer\u00eancias pessoais de seus milh\u00f5es\u00a0 de usu\u00e1rios de todo o planeta. Tentar lhe colocar barreiras jur\u00eddicas, no entanto, pode resultar t\u00e3o in\u00f3cuo como problem\u00e1tico.<\/p>\n<p>Certamente, o debate continua. No entanto, talvez esta pol\u00eamica t\u00e3o atual em torno do \u201cdireito ao esquecimento\u201d na internet, seja um novo ind\u00edcio de uma mudan\u00e7a hist\u00f3rica de enorme magnitude e complexidade, que vem se concretizando h\u00e1 algum tempo e cujos sintomas est\u00e3o por toda parte. Em suma, e como j\u00e1 foi insinuado: a verdade n\u00e3o emana mais do interior de cada um, como costum\u00e1vamos pensar at\u00e9 pouco tempo atr\u00e1s, mas do olhar alheio. Inclusive no que se refere a algo fundamental: quem se\u00a0<em>\u00e9<\/em>, quem se\u00a0<em>foi\u00a0<\/em>e quem se poderia chegar a ser.<\/p>\n<h6>Tradu\u00e7\u00e3o: Maria Rita Guimar\u00e3es<\/h6>\n<h6>Revis\u00e3o: Paula Sibilia<\/h6>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<footer>______________________________<\/p>\n<div id=\"ftn1\">\n<h6><a id=\"_ftn1\" title=\"\" href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">1<\/a><strong>Paula Sibilia<\/strong>\u00a0\u00e9 professora do Programa de P\u00f3s-Gradua\u00e7\u00e3o em Comunica\u00e7\u00e3o (PPGCOM) e do Departamento de Estudos Culturais e M\u00eddia da UFF, autora dos livros\u00a0<em>O homem p\u00f3s-org\u00e2nico: Corpo, subjetividade e tecnologias digitais<\/em>\u00a0(2002),\u00a0<em>O show do eu: A intimidade como espet\u00e1culo\u00a0<\/em>(2008) e\u00a0<em>Redes ou paredes: A escola em tempos de dispers\u00e3o<\/em>\u00a0(2012), todos publicados tamb\u00e9m em espanhol. \u00c9 mestre em Comunica\u00e7\u00e3o (UFF), doutora em Comunica\u00e7\u00e3o e Cultura (UFRJ) e em Sa\u00fade Coletiva (UERJ). Em 2012 fez p\u00f3s-doutorado na Universit\u00e9 Paris VIII, da Fran\u00e7a. Atualmente \u00e9 bolsista de Produtividade em Pesquisa pelo CNPq e Jovem Cientista do Nosso Estado pela FAPERJ, al\u00e9m de coordenar o PPGCOM-UFF.\u00a0<a href=\"http:\/\/www.paulasibilia.com\">www.paulasibilia.com<\/a>.<\/h6>\n<\/div>\n<\/footer>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Paula Sibilia1 O homem \u00e9 o \u00fanico animal capaz de lembrar. Ao menos, isso supomos, e tamb\u00e9m \u00e9 o que Friedrich Nietzsche observou em suas\u00a0Considera\u00e7\u00f5es extempor\u00e2neas\u00a0de 1873. 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