{"id":5659227,"date":"2018-11-30T10:21:35","date_gmt":"2018-11-30T12:21:35","guid":{"rendered":"http:\/\/ciendigital.com.br\/?p=5659227"},"modified":"2018-11-30T10:21:35","modified_gmt":"2018-11-30T12:21:35","slug":"comentario-do-filme-monsieur-lazhar-o-que-traz-boas-novas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ciendigital.com.br\/index.php\/2018\/11\/30\/comentario-do-filme-monsieur-lazhar-o-que-traz-boas-novas\/","title":{"rendered":"Coment\u00e1rio do filme\u00a0Monsieur Lazhar \u2013 O que traz Boas Novas"},"content":{"rendered":"<div class=\"pdfprnt-buttons pdfprnt-buttons-post pdfprnt-top-right\"><a href=\"https:\/\/ciendigital.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5659227?print=pdf\" class=\"pdfprnt-button pdfprnt-button-pdf\" target=\"_blank\" ><\/a><a href=\"https:\/\/ciendigital.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5659227?print=print\" class=\"pdfprnt-button pdfprnt-button-print\" target=\"_blank\" ><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/plugins\/pdf-print\/images\/print.png\" alt=\"image_print\" title=\"Conte\u00fado de impress\u00e3o\" \/><\/a><\/div><div class=\"alert-danger\">\n<figure id=\"attachment_5659228\" aria-describedby=\"caption-attachment-5659228\" style=\"width: 280px\" class=\"wp-caption alignright\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-5659228\" src=\"http:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/6lazhar280.jpg\" alt=\"\" width=\"280\" height=\"181\" srcset=\"https:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/6lazhar280.jpg 280w, https:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/6lazhar280-274x177.jpg 274w\" sizes=\"auto, (max-width: 280px) 100vw, 280px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-5659228\" class=\"wp-caption-text\">Sophie N\u00e9lisse como Alice L&#8217;\u00c9cuyer em Monsieur Lazhar, 2013<\/figcaption><\/figure>\n<h6>Margaret Pires do Couto<\/h6>\n<\/div>\n<p>O filme retrata o cotidiano de uma escola canadense e nos permite acompanhar como a institui\u00e7\u00e3o trata um acontecimento tr\u00e1gico que ocorre em seu interior: uma professora se enforca dentro da sala de aula. O corpo da professora \u00e9 encontrado por um dos alunos Simon (\u00c9milien N\u00e9ron) e logo em seguida por Alice (Sophie N\u00e9lisse), sua colega de classe. A diretora da escola, vivida por Danielle Proulx re\u00fane todos os pais e diz que com ajuda da psic\u00f3loga todos ir\u00e3o superar este trauma. A escola tem dificuldades para encontrar algu\u00e9m que substitua a professora. Bachir Lazhar, interpretado por Mohamed Fellag, um imigrante argelino, apresenta-se para o cargo e assume o comando das aulas. Esse encontro com os alunos e com a escola se revelar\u00e1 surpreendente.<\/p>\n<p>Dos diferentes e interessantes elementos apresentados pelo filme, destacarei dois pontos que considero essenciais:<br \/>\n1.\u00a0\u00a0 O modo como a escola trata o que considera \u201ceventos traum\u00e1ticos\u201d e seu recurso \u00e0\u00a0<em>Psicologia do Trauma\u00a0<\/em>para dar significa\u00e7\u00e3o ao mesmo;<br \/>\n2.\u00a0\u00a0 O efeito do encontro das crian\u00e7as com esse estrangeiro, o \u00fanico a estranhar o discurso educativo e a maquinaria escolar produzida em torno do evento.<\/p>\n<p><strong>Primeiro ponto<\/strong><br \/>\nEstamos na civiliza\u00e7\u00e3o do trauma. Como lembra-nos Eric Laurent(LAURENT, p.1)essa civiliza\u00e7\u00e3o do trauma \u00e9 efeito da pr\u00f3pria tentativa da ci\u00eancia de fazer existir uma causalidade programada e uma determina\u00e7\u00e3o objetiva para todos os comportamentos humanos de modo que tudo que escape a essa programa\u00e7\u00e3o torna-se portanto traum\u00e1tico.\u00a0 Tudo que n\u00e3o \u00e9 program\u00e1vel, previs\u00edvel, torna-se trauma. Por isso, o esc\u00e2ndalo do trauma \u00e9 que ele sempre escapa a toda programa\u00e7\u00e3o. Sua irrup\u00e7\u00e3o produz ent\u00e3o, o grupo dos traumatizados &#8211; v\u00edtimas de bullyng, abusados sexualmente, hiperativos, portadores de estresse p\u00f3s-traum\u00e1tico etc.- e o empuxo \u00e0 produ\u00e7\u00e3o de sentido, ao excesso de sentido. Nessa dire\u00e7\u00e3o, os especialistas,\u00a0 na maioria das vezes o psic\u00f3logo, s\u00e3o convocados para dar sentido \u00e0quilo que escapou ao sentido. Ele \u00e9 convocado \u00e0 explicar com suas matrizes interpretativas o acontecimento traum\u00e1tico e reconciliar o sujeito com a desordem do mundo.<br \/>\nTudo isso fica evidente em v\u00e1rias passagens do filme tanto na insist\u00eancia em convocar um especialista para tratar o trauma das crian\u00e7as, ao mesmo tempo, que elas nada podem dizer sobre seu sofrimento com a morte da professora. Elas s\u00e3o autorizadas a falar sobre o acontecido somente nas sess\u00f5es com a psic\u00f3loga. Fora dessas sess\u00f5es, as marcas do acontecimento devem ser apagadas com os adultos fazendo sil\u00eancio para o que aconteceu. A fala de uma das crian\u00e7as \u00e9, nesse sentido, exemplar: \u201cos adultos acham que n\u00f3s estamos traumatizados, mas eles que est\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>Tudo isso me fez lembrar o epis\u00f3dio que ocorreu pr\u00f3ximo de n\u00f3s do Massacre de Realengo. O Massacre de Realengo refere-se ao assassinato em massa ocorrido em 07 de abril de 2011 na Escola Municipal Tasso da Silveira, localizada no bairro de Realengo, na cidade do RJ. Wellington Menezes de Oliveira, de 23 anos, invadiu a escola armado com dois rev\u00f3lveres e come\u00e7ou a disparar contra os alunos presentes, matando doze deles, com idade entre 13 e 16 anos.\u00a0 Foi interceptado por policiais, cometendo suic\u00eddio ou morto depois. A televis\u00e3o noticiou por v\u00e1rios dias e muitos especialistas\u00a0<em>psi<\/em>\u00a0foram convocados para explicar a motiva\u00e7\u00e3o do crime. Explica\u00e7\u00f5es desde bullying sofrido na inf\u00e2ncia, dist\u00farbio de comportamento, problemas familiares foram utilizados para dar sentido ao acontecimento.\u00a0 Um ano depois no Caderno Cotidiano da Folha de S\u00e3o Paulo sai a seguinte mat\u00e9ria sobre o ocorrido: \u201cAlunos de Realengo tentam superar o trauma um ano ap\u00f3s o massacre\u201d.Um trecho da reportagem afirma que tr\u00eas psic\u00f3logos, dois assistentes sociais e dois professores investem em projetos l\u00fadicos para\u00a0<strong>tentar apagar<\/strong>\u00a0<strong>as marcas<\/strong>\u00a0deixadas pelo massacre.<br \/>\nTrata-se, portanto, da l\u00f3gica de silenciar o inesperado. \u00c9 o que nossa civiliza\u00e7\u00e3o tende a fazer com essa\u00a0 prolifera\u00e7\u00e3o do sentido e generaliza\u00e7\u00e3o do trauma.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<figure id=\"attachment_5659229\" aria-describedby=\"caption-attachment-5659229\" style=\"width: 300px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-5659229\" src=\"http:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/lazhar2-300x169.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"169\" srcset=\"https:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/lazhar2-300x169.jpg 300w, https:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/lazhar2-274x154.jpg 274w, https:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/lazhar2.jpg 635w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-5659229\" class=\"wp-caption-text\">Philippe Falardeau, Monsieur Lazhar, 2013<\/figcaption><\/figure>\n<p><strong>Segundo ponto<\/strong><\/p>\n<p>A chegada de Bachir Lazhar na escola, \u201co que traz boas novas\u201d,\u00a0 pode ser considerada um bom encontro. Trata-se de um estrangeiro, um imigrante argelino que enfrenta problemas para regularizar sua situa\u00e7\u00e3o como refugiado no Canad\u00e1.<br \/>\nAquele que por n\u00e3o ser professor de profiss\u00e3o, porque em sua terra natal exercia outro of\u00edcio, estranho ao universo e ao discurso escolar p\u00f4de estranhar e causar estranhamento nesse espa\u00e7o. Com sua presen\u00e7a e indaga\u00e7\u00f5es interrogou tanto o sil\u00eancio imposto diante do tr\u00e1gico evento ocorrido, quanto as regras do politicamente correto que, como sabemos, na maioria das vezes servem para encobrir a\u00a0<em>aus\u00eancia de regras<\/em>\u00a0<em>universais<\/em>\u00a0que regulam as rela\u00e7\u00f5es. \u00c9 diante dessa aus\u00eancia que a escola, na contemporaneidade, produz uma prolifera\u00e7\u00e3o de regras e orienta\u00e7\u00f5es de conduta, tais como:\u00a0 n\u00e3o pode tocar nos alunos, n\u00e3o se pode utilizar alguns termos, n\u00e3o se deve educar, apenas ensinar, alguns temas n\u00e3o devem ser discutidos em sala de aula etc. Portanto, o politicamente correto \u00e9 fruto daquilo que declinou e que antes regulavam essas rela\u00e7\u00f5es: a transfer\u00eancia e posi\u00e7\u00e3o do professor eticamente orientado por seu desejo de ensinar.<br \/>\nExatamente esse estrangeiro, marcado tamb\u00e9m pela dor de ter perdido sua fam\u00edlia em um ataque terrorista, pode escapar a tend\u00eancia de dar sentido \u00e0quilo que escapa ao sentido e \u00e0 representa\u00e7\u00e3o: a morte.\u00a0 \u00c9 sua posi\u00e7\u00e3o que o orienta no acolhimento do sofrimento das crian\u00e7as dando espa\u00e7o para que uma a uma, a seu modo e \u00e0 seu tempo, encontre um jeito para alojar seu saber ou sua falta de saber sobre a morte. Suas inquieta\u00e7\u00f5es, d\u00favidas, medos, ang\u00fastias surgem e encontram um lugar onde podem ser ditas sem a necessidade de psicologiz\u00e1-las no novelo do sentido. Ao mesmo tempo, ele n\u00e3o faz de sua hist\u00f3ria pessoal e de seu sofrimento enquanto sujeito elemento de identifica\u00e7\u00e3o. Afirma que o espa\u00e7o da escola \u00e9 um lugar de trabalho e n\u00e3o um lugar de colocar nosso desespero, o que nos faz lembrar da indica\u00e7\u00e3o freudiana da escola como um lugar poss\u00edvel de tratar a tend\u00eancia a destrui\u00e7\u00e3o por meio do enla\u00e7amento com a puls\u00e3o de vida via o saber.<br \/>\nPareceu-me que Bachir Lazhar, pr\u00f3ximo \u00e0 posi\u00e7\u00e3o de um analista, recorro novamente ao texto de Eric Laurent, nos ensina que se o analista pode ajudar um sujeito a reencontrar a palavra depois de um traumatismo, \u00e9 porque ele consegue estar ele pr\u00f3prio no lugar do trauma. Ele pode ocupar esse lugar do insensato, de um parceiro que traumatiza o discurso comum para autorizar o outro discurso, o do inconsciente. Desse modo, conduz o sujeito n\u00e3o a proliferar sentidos que gerariam mais impot\u00eancia, mas o conduz a\u00a0<em>acalmar-se<\/em>\u00a0ao deparar-se com o imposs\u00edvel.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<footer>\n<hr \/>\n<h6><strong>Refer\u00eancias Bibliogr\u00e1ficas:<\/strong><\/h6>\n<h6>Folha de S\u00e3o Paulo, Caderno Cotidiano do dia 07 de abril de 2012<br \/>\nFREUD, S.\u00a0<em>Contribui\u00e7\u00f5es para uma discuss\u00e3o acerca do suic\u00eddio<\/em>, volume XI.<\/h6>\n<h6>LAURENT, E.\u00a0<em>O trauma ao Avesso.<\/em><\/h6>\n<\/footer>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Margaret Pires do Couto O filme retrata o cotidiano de uma escola canadense e nos permite acompanhar como a institui\u00e7\u00e3o trata um acontecimento tr\u00e1gico que ocorre em seu interior: uma professora se enforca dentro da sala de aula. 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