{"id":5659253,"date":"2018-11-30T10:38:14","date_gmt":"2018-11-30T12:38:14","guid":{"rendered":"http:\/\/ciendigital.com.br\/?p=5659253"},"modified":"2018-11-30T10:38:14","modified_gmt":"2018-11-30T12:38:14","slug":"assepsia-com-respeito-ao-traco-a-marca-a-memoria-defesa-ao-trauma","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ciendigital.com.br\/index.php\/2018\/11\/30\/assepsia-com-respeito-ao-traco-a-marca-a-memoria-defesa-ao-trauma\/","title":{"rendered":"Assepsia com respeito ao tra\u00e7o, \u00e0 marca, \u00e0 mem\u00f3ria: defesa ao trauma"},"content":{"rendered":"<div class=\"pdfprnt-buttons pdfprnt-buttons-post pdfprnt-top-right\"><a href=\"https:\/\/ciendigital.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5659253?print=pdf\" class=\"pdfprnt-button pdfprnt-button-pdf\" target=\"_blank\" ><\/a><a href=\"https:\/\/ciendigital.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5659253?print=print\" class=\"pdfprnt-button pdfprnt-button-print\" target=\"_blank\" ><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/plugins\/pdf-print\/images\/print.png\" alt=\"image_print\" title=\"Conte\u00fado de impress\u00e3o\" \/><\/a><\/div><div class=\"alert-danger\">\n<figure id=\"attachment_5659254\" aria-describedby=\"caption-attachment-5659254\" style=\"width: 254px\" class=\"wp-caption alignright\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-5659254\" src=\"http:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/tomazviana280-254x300.jpg\" alt=\"\" width=\"254\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/tomazviana280-254x300.jpg 254w, https:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/tomazviana280-274x324.jpg 274w, https:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/tomazviana280.jpg 280w\" sizes=\"auto, (max-width: 254px) 100vw, 254px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-5659254\" class=\"wp-caption-text\">Toz (Tomaz Viana), Sele\u00e7\u00e3o Natural, 2012<\/figcaption><\/figure>\n<h6>Entrevista de Mercedes de Francisco responde \u00e0 Marga Aur\u00e9<\/h6>\n<\/div>\n<p><strong>Marga Aur\u00e9:<\/strong>\u00a0Como voc\u00ea compreende o conceito do trauma?<\/p>\n<p><strong>Mercedes de Francisco:<\/strong>\u00a0Minha primeira associa\u00e7\u00e3o com o traumatismo \u00e9 o neologismo de Lacan &#8211;\u00a0<em>trou<\/em>matismo, que introduz o buraco no interior desta palavra. Esse buraco remete \u00e0 impossibilidade da rela\u00e7\u00e3o sexual e, ao mesmo tempo, aproxima-nos \u00e0 marca, \u00e0 letra.<\/p>\n<p>A vulgariza\u00e7\u00e3o do traumatismo levou a que, socialmente, ele seja considerado como algo de que se deva defender, do qual se tem que evitar :n\u00e3o obstante, toda uma s\u00e9rie de respostas promovidas preventivamente s\u00e3o condenadas ao fracasso.<\/p>\n<p>\u00c9 assim que se rouba da experi\u00eancia traum\u00e1tica seu valor de marca singular imposs\u00edvel de coletivizar.<\/p>\n<p>Um fato em si mesmo n\u00e3o pode ser considerado traum\u00e1tico. Poder\u00e1 tomar esse valor somente se para o sujeito se tratar do encontro contingente entre o gozo do corpo e a palavra.<\/p>\n<p>O\u00a0<em>trou<\/em>matismo inaugura o campo do sinthoma &#8211; o que n\u00e3o cessa de se escrever &#8211; amarrando o \u201cn\u00e3o h\u00e1 rela\u00e7\u00e3o sexual\u201d com o \u201ch\u00e1\u201d disso que se repetir\u00e1 todo ao longo de nossa vida.<\/p>\n<p><strong>Marga Aur\u00e9:<\/strong>\u00a0O que a psican\u00e1lise de orienta\u00e7\u00e3o lacaniana pode propor diante de um traumatismo?<\/p>\n<p><strong>Mercedes de Francisco:<\/strong>\u00a0Primeiramente a psican\u00e1lise de orienta\u00e7\u00e3o lacaniana prop\u00f5e n\u00e3o se guiar pela ideia de \u201cpara todos, igual\u201d. Socialmente s\u00e3o catalogados os fatos que s\u00e3o supostos, em si mesmos, serem traum\u00e1ticos e, a partir disso, os psic\u00f3logos especializados \u201cem trauma\u201d- desculpem-nos a ironia &#8211; v\u00e3o ajudar as v\u00edtimas. De certa maneira elas s\u00e3o homogeinizadas sob o mesmo significante.<\/p>\n<figure id=\"attachment_5659255\" aria-describedby=\"caption-attachment-5659255\" style=\"width: 232px\" class=\"wp-caption alignright\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-5659255\" src=\"http:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/nickgeorgiou280-232x300.jpg\" alt=\"\" width=\"232\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/nickgeorgiou280-232x300.jpg 232w, https:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/nickgeorgiou280-768x992.jpg 768w, https:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/nickgeorgiou280-792x1024.jpg 792w, https:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/nickgeorgiou280-274x354.jpg 274w, https:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/nickgeorgiou280-1170x1512.jpg 1170w, https:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/nickgeorgiou280.jpg 1280w\" sizes=\"auto, (max-width: 232px) 100vw, 232px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-5659255\" class=\"wp-caption-text\">Nick Georgiou, Paper image, 2014<\/figcaption><\/figure>\n<p>Estamos num tempo marcado pelo choque, pelo que chocante e isso pode ser confundido com o que, para a psican\u00e1lise lacaniana, \u00e9 uma experi\u00eancia traum\u00e1tica.<\/p>\n<p>Walter Benjamin, apoiando-se em Freud, demonstrou-nos que, na experi\u00eancia do homem moderno, a recep\u00e7\u00e3o de choques converteu-se numa regra e a consequ\u00eancia disso \u00e9 uma tomada de consci\u00eancia r\u00e1pida, uma defesa face ao impacto, pois h\u00e1 um fluxo incessante de excita\u00e7\u00f5es que colocam \u00e0 prova a toler\u00e2ncia dos sujeitos. Esse enorme aumento da toler\u00e2ncia frente aos choques que se produzem de maneira cont\u00ednua, tem como pre\u00e7o esterilizar a consci\u00eancia para a experi\u00eancia pois o que \u00e9 caracter\u00edstico do choque em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 experi\u00eancia \u00e9 n\u00e3o deixar tra\u00e7os, de se dissolver na consci\u00eancia na medida em que \u00e9 tolerado por ela.<\/p>\n<p>Essa assepsia com respeito ao tra\u00e7o, \u00e0 marca, \u00e0 mem\u00f3ria, \u00e9 uma forma de defesa frente a uma realidade permanentemente preenchida de est\u00edmulos impactantes. Suportamos, cada vez mais, imagens desconcertantes que proliferam atrav\u00e9s da televis\u00e3o, da internet, do cinema, etc \u2026 que nos provocam um sentimento desagrad\u00e1vel mais que pode ser facilmente superado. Defendemo-nos em nos tornando insens\u00edveis, mas, de certa maneira assim tamb\u00e9m perdemos nossa capacidade de viver uma experi\u00eancia, de que o acontecimento nos deixe marcas, de que a mem\u00f3ria nos enlace \u00e0 nossa pr\u00f3pria narra\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A psican\u00e1lise prop\u00f5e uma experi\u00eancia com a palavra, com a pontua\u00e7\u00e3o, com o \u201cpo\u00e9tico\u201d enla\u00e7ado ao real. Ela prop\u00f5e ao ser falante que n\u00e3o renuncie \u00e0 dignidade da experi\u00eancia traum\u00e1tica, isto \u00e9, uma experi\u00eancia com o real que deixou um tra\u00e7o, uma marca.<\/p>\n<p><strong>Marga Aur\u00e9:<\/strong>\u00a0Como voc\u00ea compreende a frase de Eric Laurent que est\u00e1 na brochura das Jornadas 43 da \u00c9cole de la Cause Freudienne:<\/p>\n<p class=\"alert-danger\">\u201cDepois do trauma, \u00e9 necess\u00e1rio reinventar um Outro que n\u00e3o existe e inventar um caminho novo que se desenha preferentemente pela via do insensato do fantasma e do sintoma\u201d.<\/p>\n<p><strong>Mercedes de Francisco:<\/strong>\u00a0Esta frase me sugere a rela\u00e7\u00e3o com o acaso e a conting\u00eancia. Na experi\u00eancia traum\u00e1tica produz-se o encontro com a inexist\u00eancia do Outro pela via do acaso, do imprevisto, do que n\u00e3o conhece nenhuma lei. A partir desse acaso, organiza-se, de forma contingente, uma lei que responde ao enla\u00e7amento singular, &#8211; como se disse antes -, do gozo com o significante e que determinar\u00e1 nossa vida.<\/p>\n<p>Do puro sem sentido do acaso organiza-se uma escritura sinthom\u00e1tica e, atrav\u00e9s da constru\u00e7\u00e3o fantasm\u00e1tica, um sentido.<\/p>\n<figure id=\"attachment_5659256\" aria-describedby=\"caption-attachment-5659256\" style=\"width: 280px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-5659256\" src=\"http:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/jeffkoons280.jpg\" alt=\"\" width=\"280\" height=\"280\" srcset=\"https:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/jeffkoons280.jpg 280w, https:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/jeffkoons280-150x150.jpg 150w, https:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/jeffkoons280-274x274.jpg 274w, https:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/jeffkoons280-50x50.jpg 50w\" sizes=\"auto, (max-width: 280px) 100vw, 280px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-5659256\" class=\"wp-caption-text\">Jeff Koons, balloon dog sculpture, 2010<\/figcaption><\/figure>\n<p>Esse momento inicial que \u00e9 o trauma e ao qual se retornar\u00e1 a cada encontro em nossa vida que o evoque, \u00e9 o que mais nos aproxima a esta experi\u00eancia do real sem lei frente ao qual nos defendemos.<\/p>\n<p>Para exemplificar esse \u00faltimo ponto, evocarei um encontro traum\u00e1tico, arriscado, vivido por mim em minha juventude. Frente a um mau encontro com outro desconhecido e violento, num momento de certa vulnerabilidade \u2018alegre\u201ddo corpo, a resposta que, sem pensar, encontrei __\u201crogar-lhe\u201d __ permitiu parar essa viol\u00eancia e apenas sofrer pequenas les\u00f5es f\u00edsicas. Poderia dizer que consegui sair inc\u00f3lume, no sentido objetivo, mas \u00e9 evidente que n\u00e3o foi assim, no sentido subjetivo.<\/p>\n<p>Frente a este encontro imprevis\u00edvel, arbitr\u00e1rio, sem lei nem causa, o primeiro que surge \u00e9 uma pergunta: porque comigo?<\/p>\n<p>As respostas que o sujeito d\u00e1 a essa quest\u00e3o \u00e9 a maneira de se defender frente a esse \u201creal sem lei\u201d, \u201csem sentido\u201d, \u201csem causa\u201d.<\/p>\n<p>Essas respostas n\u00e3o s\u00e3o novas, elas remetem \u00e0quelas que o sujeito forjou no momento inicial traum\u00e1tico. Mas esse material j\u00e1 conhecido n\u00e3o me permitiu fechar a hi\u00e2ncia que o \u201cmau encontro\u201d havia aberto. Podia reconhecer o insensato do fato e de minha tentativa de encontrar a explica\u00e7\u00e3o mas n\u00e3o era poss\u00edvel parar essa in\u00e9rcia.<\/p>\n<p>N\u00e3o imediatamente, mas depois de algum tempo, isso permitiu uma demanda de an\u00e1lise e, no percurso anal\u00edtico, pode-se separar a escritura sinthom\u00e1tica que presidiu a vida do sujeito. \u201cAgora\u201d, em \u201ccada ocasi\u00e3o\u201d, essa escrita que marcou o corpo, em vez de encobrir, mostra o real sem lei, o buraco que se apresenta no interior do fato traum\u00e1tico.<\/p>\n<p class=\"sidebox\">Agradecemos a amabilidade de Mercedes de Francisco em autorizar a publica\u00e7\u00e3o desta entrevista concedida a Marga Aur\u00e9 por ocasi\u00e3o da 43<sup>a<\/sup>\u00a0jornadas da ECF, em novembro de 2013.<\/p>\n<div align=\"right\">Tradu\u00e7\u00e3o: Maria Rita Guimar\u00e3es<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Entrevista de Mercedes de Francisco responde \u00e0 Marga Aur\u00e9 Marga Aur\u00e9:\u00a0Como voc\u00ea compreende o conceito do trauma? 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