{"id":5659261,"date":"2018-11-30T10:47:38","date_gmt":"2018-11-30T12:47:38","guid":{"rendered":"http:\/\/ciendigital.com.br\/?p=5659261"},"modified":"2018-11-30T10:47:38","modified_gmt":"2018-11-30T12:47:38","slug":"a-bussola-do-sim-e-do-nao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ciendigital.com.br\/index.php\/2018\/11\/30\/a-bussola-do-sim-e-do-nao\/","title":{"rendered":"A B\u00fassola do sim e do n\u00e3o"},"content":{"rendered":"<div class=\"pdfprnt-buttons pdfprnt-buttons-post pdfprnt-top-right\"><a href=\"https:\/\/ciendigital.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5659261?print=pdf\" class=\"pdfprnt-button pdfprnt-button-pdf\" target=\"_blank\" ><\/a><a href=\"https:\/\/ciendigital.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5659261?print=print\" class=\"pdfprnt-button pdfprnt-button-print\" target=\"_blank\" ><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/plugins\/pdf-print\/images\/print.png\" alt=\"image_print\" title=\"Conte\u00fado de impress\u00e3o\" \/><\/a><\/div><div class=\"alert-danger\">\n<figure id=\"attachment_5659262\" aria-describedby=\"caption-attachment-5659262\" style=\"width: 280px\" class=\"wp-caption alignright\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-5659262\" src=\"http:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/andrewmcconnel280.jpg\" alt=\"\" width=\"280\" height=\"187\" srcset=\"https:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/andrewmcconnel280.jpg 280w, https:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/andrewmcconnel280-274x183.jpg 274w\" sizes=\"auto, (max-width: 280px) 100vw, 280px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-5659262\" class=\"wp-caption-text\">Andrew McConnell, Rubbish Dump 2.0, 2010<\/figcaption><\/figure>\n<h6>Philippe Lacade\u00e9<\/h6>\n<\/div>\n<p>H\u00e1 um s\u00e9culo, em 1914, Freud se interroga sobre o que desbussola \u201co comportamento da crian\u00e7a\u201d perante seus professores. Prop\u00f5e ent\u00e3o sua b\u00fassola: esse comportamento se orienta e depende do que se passou no \u201cquarto da crian\u00e7a\u201d<a id=\"_ftnref1\" title=\"\" href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\"><sup>1<\/sup><\/a>\u00a0indicando que n\u00e3o \u00e9 por isso \u201cque se poderia tampouco desculp\u00e1-lo\u201d. Freud designa assim um fragmento da vida de cada sujeito ligado a um lugar pr\u00f3prio. \u201cQuarto da crian\u00e7a\u201d designa especialmente na casa um espa\u00e7o onde a crian\u00e7a encontra a presen\u00e7a do Outro parental, que se preocupa com ela, que abre um mundo de palavras gra\u00e7as \u00e0s quais ela pode se identificar. Ela a\u00ed encontra igualmente o mundo dos objetos, objetos pulsionais da demanda oral e anal, e aqueles do desejo como a voz e o olhar. Esses objetos que Lacan nomeia objetos\u00a0<em>a,\u00a0<\/em>dependem de seu corpo e de sua rela\u00e7\u00e3o ao Outro, s\u00e3o os objetos em jogo na puls\u00e3o, que se inscrevem no enodamento do corpo vivente ao dizer do Outro.<\/p>\n<p>Se Freud pode dizer que o comportamento da crian\u00e7a faz sintoma, ele o \u00e9 \u201cenquanto signo e substituto de uma satisfa\u00e7\u00e3o pulsional que n\u00e3o teve lugar\u201d<a id=\"_ftnref2\" title=\"\" href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\"><sup>2<\/sup><\/a>, esse signo n\u00e3o \u00e9 sem liga\u00e7\u00e3o com seu corpo em sua rela\u00e7\u00e3o aos objetos da puls\u00e3o porquanto seu corpo \u00e9 o lugar de uma satisfa\u00e7\u00e3o poss\u00edvel. Freud insiste sobre a responsabilidade que cabe \u00e0 crian\u00e7a. Esta concerne ao uso do gozo que faz do seu corpo e do seu pensamento. No seu quarto a crian\u00e7a cria seu espa\u00e7o e nesse fragmento de vida ela apreende seu corpo como objeto de gozo, mas tamb\u00e9m pode se apreender como elemento \u00e0 parte, querer se isolar e viver seu ser como objeto rejeitado.<\/p>\n<h5>O quarto da crian\u00e7a mudou<\/h5>\n<p>Mostrei em\u00a0<em>Vie \u00e9prise de parole<\/em>\u00a0como no in\u00edcio do s\u00e9culo XXI, o quarto da crian\u00e7a mudou invadido pelos objetos do capitalismo pulsional<a id=\"_ftnref3\" title=\"\" href=\"#_ftn3\" name=\"_ftnref3\"><sup>3<\/sup><\/a>. A crian\u00e7a pode assim, muito cedo, ter acesso aos objetos gadgets<a id=\"_ftnref4\" title=\"\" href=\"#_ftn4\" name=\"_ftnref4\"><sup>4<\/sup><\/a>\u00a0que subvertem ou anulam a presen\u00e7a significante e desejante do Outro.<\/p>\n<p>Eles \u201cv\u00eam no lugar do que nos falta na rela\u00e7\u00e3o de conhecimento\u201d. Para alguns, desde ent\u00e3o h\u00e1 consequente modifica\u00e7\u00e3o do lugar do Outro parental, da fun\u00e7\u00e3o de identifica\u00e7\u00e3o, de transmiss\u00e3o, de falta, necess\u00e1rias para a via do desejo e a rela\u00e7\u00e3o ao conhecimento.<\/p>\n<p>Se algumas crian\u00e7as podem ser desbussoladas outras podem, de modo paradoxal, encontrar no uso desses objetos uma nova b\u00fassola; n\u00f3s devemos, ent\u00e3o, ser mais particularmente cuidadosos com o uso que cada uma faz disso.<\/p>\n<figure id=\"attachment_5659263\" aria-describedby=\"caption-attachment-5659263\" style=\"width: 280px\" class=\"wp-caption alignright\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-5659263\" src=\"http:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/robertheinecken280.jpg\" alt=\"\" width=\"280\" height=\"210\" srcset=\"https:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/robertheinecken280.jpg 280w, https:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/robertheinecken280-274x206.jpg 274w\" sizes=\"auto, (max-width: 280px) 100vw, 280px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-5659263\" class=\"wp-caption-text\">Robert Heinecken, untitled<\/figcaption><\/figure>\n<p>Sabe-se, desde Freud e Lacan, que por estrutura, a crian\u00e7a \u00e9 submetida desde sempre como sujeito \u00e0 press\u00e3o do objeto perdido, ao gozo desse objeto perdido. Tomadas ent\u00e3o pela insaci\u00e1vel exig\u00eancia de recuperar esse gozo m\u00edtico do objeto perdido no cerne de uma suposta experi\u00eancia de satisfa\u00e7\u00e3o, certas crian\u00e7as se encontram presas, com seus corpos, na aposta sintom\u00e1tica desses objetos gadgets modernos que lhes seduzem articulados que s\u00e3o ao mais de gozo. Um querer gozar toma assim o lugar de um querer dizer e de um desejo de saber.<\/p>\n<h5>A crian\u00e7a sem o tempo da media\u00e7\u00e3o do Outro<\/h5>\n<p>A\u00ed onde reina a aus\u00eancia do desejo do Outro a crian\u00e7a pode se reduzir ao sil\u00eancio do objeto que assumiu o comando de seu ser complementando sua falta a ser. Esse Outro, Freud o define como o complexo de\u00a0<em>Nebenmench<a id=\"_ftnref5\" title=\"\" href=\"#_ftn5\" name=\"_ftnref5\"><sup>5<\/sup><\/a><\/em>, o complexo do semelhante, com que Lacan introduz a dimens\u00e3o \u00e9tica do encontro com a presen\u00e7a e o tempo do Outro. Freud o precisa: \u201c\u00e9 desta forma, junto ao semelhante, que o homem aprende a reconhecer\u201d. \u00c9 com a presen\u00e7a do semelhante como objeto humano, o mais pr\u00f3ximo dele, muito cedo e em sua intimidade que o sujeito aprende a reconhecer, ao mesmo tempo: \u201co objeto de satisfa\u00e7\u00e3o\u201d, \u201co objeto hostil\u201d assim como \u201ca \u00fanica pot\u00eancia que confere seguran\u00e7a\u201d, seguran\u00e7a de um discurso que se estabelece o mais pr\u00f3ximo de seu ser. A crian\u00e7a conhece mais seu objeto que o Outro, ela conhece melhor o modo de emprego do objeto gadget que a respeito do Outro. \u00c9 o caso, ent\u00e3o, do encontro com o desejo do Outro, que o perturba, que agita seu corpo e faz sintoma. O computador ou o gadget suplantou a palavra do adulto. A crian\u00e7a n\u00e3o sabe mais o que fazer com a presen\u00e7a desejante do Outro, com o olhar e a voz do Outro. Mas \u00e9 preciso assinalar que algumas crian\u00e7as fazem justamente um uso que pode lhes servir para conseguir conhecimentos sem ter que passar pelo Outro<a id=\"_ftnref6\" title=\"\" href=\"#_ftn6\" name=\"_ftnref6\"><sup>6<\/sup><\/a>.<\/p>\n<h5>Da crian\u00e7a instrumentalizada \u00e0 autoridade silenciosa do objeto<\/h5>\n<p>As rela\u00e7\u00f5es com o que representa autoridade na palavra e a presen\u00e7a do humano s\u00e3o alteradas em proveito da autoridade silenciosa do objeto gadget. A crian\u00e7a moderna que se tornou adolescente corre o risco de n\u00e3o mais alojar, como o adolescente de Rimbaud, a verdade de seu desejo \u201cem uma alma e um corpo\u201d<a id=\"_ftnref7\" title=\"\" href=\"#_ftn7\" name=\"_ftnref7\"><sup>7<\/sup><\/a>\u00a0mas aloj\u00e1-la como irm\u00e3 do gozo no objeto mais de gozar silencioso onde ela pensa ter o gozo, enquanto pelo contr\u00e1rio, o objeto goza dela. \u00c9 aqui que a rela\u00e7\u00e3o com o objeto gadget pode ter valor de novo sintoma, introduzindo um comportamento aditivo, curto-circuitando a rela\u00e7\u00e3o ao outro. Assim tamb\u00e9m quando o outro humano mais pr\u00f3ximo lhe fala e quer lhe dizer o\u00a0<em>savoir y faire<\/em>\u00a0que ele mesmo extraiu de sua pr\u00f3pria exist\u00eancia, ela se angustia ou tem medo, donde surgem os novos sintomas f\u00f3bicos que v\u00e3o do p\u00e2nico \u00e0 fobia social. Mas tamb\u00e9m no lugar do sintoma como forma\u00e7\u00e3o do inconsciente surge um estilo de vida em que predomina o gozo.<\/p>\n<figure id=\"attachment_5659264\" aria-describedby=\"caption-attachment-5659264\" style=\"width: 280px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-5659264\" src=\"http:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/jakeanddinoschapman280.jpg\" alt=\"\" width=\"280\" height=\"232\" srcset=\"https:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/jakeanddinoschapman280.jpg 280w, https:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/jakeanddinoschapman280-274x227.jpg 274w\" sizes=\"auto, (max-width: 280px) 100vw, 280px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-5659264\" class=\"wp-caption-text\">Jake and Dinos Chapman, Zygotic acceleration, biogenetic, de-sublimated libidinal model, 1995<\/figcaption><\/figure>\n<h5>O imperativo do gozo e o objeto como sintoma<\/h5>\n<p>A quest\u00e3o \u00e9 saber como essa crian\u00e7a moderna \u2013 que n\u00e3o se sustenta mais de seu desejo, mas da solit\u00e1ria rela\u00e7\u00e3o ao objeto \u2013, toma conta do excesso de consumo que lhe barra o acesso ao saber e ao inconsciente. Os desejos t\u00e3o solicitados s\u00e3o transformados em necessidades, em imperativos de gozo que respondem \u00e0 gulodice de seu supereu sem que a crian\u00e7a saiba demandar ao Outro. Ela quer\u00a0<em>tudo e tudo j\u00e1<a id=\"_ftnref8\" title=\"\" href=\"#_ftn8\" name=\"_ftnref8\"><sup>8<\/sup><\/a><\/em>. Ela se encontra, ent\u00e3o, v\u00edtima de um supereu feroz que a empurra para querer gozar de tudo e para o qual bem e mal se equivalem.<\/p>\n<p>Controle remoto na m\u00e3o, a crian\u00e7a conecta diretamente seu corpo com o objeto gadget que j\u00e1 era interrogado por Lacan em 1974: \u201cchegaremos a nos tornar animados verdadeiramente pelos gadgets?\u201d. Lacan n\u00e3o acreditava, mesmo afirmando, n\u00e3o obstante, que \u201cverdadeiramente n\u00e3o h\u00e1 nada a fazer quando o gadget n\u00e3o \u00e9 um sintoma\u201d<a id=\"_ftnref9\" title=\"\" href=\"#_ftn9\" name=\"_ftnref9\"><sup>9<\/sup><\/a>. Lacan evidenciava deste modo, a solu\u00e7\u00e3o do gadget como podendo ser para o sujeito um novo sintoma; parece abrir uma via mais digna para o objeto gadget. N\u00e3o se trata de rejeit\u00e1-lo com a nostalgia dos tempos antigos, mas compreender o uso que o sujeito faz disso. Se ele pode ter valor de sintoma, \u00e9 porque o sujeito pode se servir dele como um ponto de apoio localizado, ou mesmo como supl\u00eancia.<\/p>\n<h5>Como se orientar com a psican\u00e1lise para dizer sim e n\u00e3o a essa l\u00edngua?<\/h5>\n<p>Eu mostrei em\u00a0<em>Vie \u00e9prise de parole e La vraie vie \u00e0 l\u2019\u00e9cole<\/em>\u00a0como o aumento, na cena do mundo, da pretens\u00e3o do direito ao gozo como bem se quer, conduz alguns para al\u00e9m de toda culpabilidade ao n\u00e3o ceder ao imperativo do gozo do supereu. Isto vem fazer reinar em sua l\u00edngua, que n\u00e3o se articula mais ao Outro, o imperativo do Um sozinho que diz o que ele quer, quando o quer, e tudo isto sem nenhum recalcamento nem culpabilidade.<\/p>\n<p>Escuta-se, ent\u00e3o, uma l\u00edngua carregada de tens\u00e3o verbal e que se pretende separada da l\u00edngua dita, de sentido comum, vivida por eles como superegoica. N\u00e3o se pode mais se encantar com a aparente \u201clibera\u00e7\u00e3o\u201d dos valores morais ou da palavra que fariam acreditar que, em nome da autenticidade, se teria o direito de dizer tudo o que se pensa. Percebe-se em seu avesso o novo imp\u00e9rio do gozo, seu o-pior do gozo, que para al\u00e9m da diferen\u00e7a sexual faz crer a esses sujeitos, que eles teriam tamb\u00e9m o direito de gozar do corpo do outro. Isso ilustra bem como para alguns \u00e9 o empuxo-ao-gozo de seu corpo, o se gozar no corpo da l\u00edngua que lhes fazem, paradoxalmente, esquecer que t\u00eam um corpo, aqueles que receberam justamente de sua rela\u00e7\u00e3o \u00e0 l\u00edngua articulada.<\/p>\n<figure id=\"attachment_5659265\" aria-describedby=\"caption-attachment-5659265\" style=\"width: 280px\" class=\"wp-caption alignright\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-5659265\" src=\"http:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/williamcordova280.jpg\" alt=\"\" width=\"280\" height=\"273\" srcset=\"https:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/williamcordova280.jpg 280w, https:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/williamcordova280-274x267.jpg 274w, https:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/williamcordova280-50x50.jpg 50w\" sizes=\"auto, (max-width: 280px) 100vw, 280px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-5659265\" class=\"wp-caption-text\">William Cordova, \u201cSome of US were gladiators\u201d, 2006<\/figcaption><\/figure>\n<p>\u00c9ric Laurent, em seu texto, A sociedade do sintoma<a id=\"_ftnref10\" title=\"\" href=\"#_ftn10\" name=\"_ftnref10\"><sup>10<\/sup><\/a>\u00a0interrogava a posi\u00e7\u00e3o do psicanalista e propunha seguir a via aberta por Martin Heidegger em sua confer\u00eancia \u201cSerenidade\u201d<a id=\"_ftnref11\" title=\"\" href=\"#_ftn11\" name=\"_ftnref11\"><sup>11<\/sup><\/a>: trata-se de localizar o uso do gozo que o sujeito pode experimentar a fim de evitar o impedimento de fazer valer seus pr\u00f3prios pensamentos. A quest\u00e3o essencial colocada por Martin Heidegger \u00e9, ent\u00e3o, de saber como dizer ao mesmo tempo Sim e N\u00e3o para o sujeito. Esse Sim e N\u00e3o colocados desta forma desnudam a particularidade do inconsciente para cada sujeito e resultam tamb\u00e9m no triunfo do supereu. Obedecer ao\u00a0<em>Goza!<\/em>\u00a0\u00e9 obedecer \u00e0 sua ordem, n\u00e3o obstante, restabelecer o censor \u00e9 anunciar as devasta\u00e7\u00f5es que vir\u00e3o nos novos retornos que far\u00e1 a puls\u00e3o. A posi\u00e7\u00e3o do psicanalista com rela\u00e7\u00e3o ao gozo \u00e9 de enviar o sujeito \u00e0 sua particularidade.<\/p>\n<h5>Existir na particularidade do sintoma de sua l\u00edngua.<\/h5>\n<p>De acordo com \u00c9ric Laurent comentamos que o grande movimento da civiliza\u00e7\u00e3o, seu hedonismo de massa, fez desaparecer a particularidade do sintoma. H\u00e1, entretanto, variedades cl\u00ednicas no modo em que cada um usa do insulto ou da provoca\u00e7\u00e3o<a id=\"_ftnref12\" title=\"\" href=\"#_ftn12\" name=\"_ftnref12\"><sup>12<\/sup><\/a>. \u00a0N\u00f3s devemos ent\u00e3o saber oferecer o lugar, a situa\u00e7\u00e3o onde cada um encontrar\u00e1 a singularidade do caminho que lhe \u00e9 pr\u00f3prio, saber ser o destinat\u00e1rio, falando com os jovens sobre aquilo que lhes parece ser um impasse, a\u00ed onde precisamente eles s\u00e3o tomados pelo empuxo-a-gozar do Um sozinho em sua l\u00edngua<a id=\"_ftnref13\" title=\"\" href=\"#_ftn13\" name=\"_ftnref13\"><sup>13<\/sup><\/a>. Saibamos, no que parece gelificado em uma palavra, abrir pequeno furos particulares onde cada sujeito poder\u00e1 se liberar da tirania do gozo todo ou de falar nessa l\u00edngua de provoca\u00e7\u00e3o. Trata-se de tomar posi\u00e7\u00e3o colocando-se a servi\u00e7o da l\u00edngua, ao \u201cdar um pequeno empurr\u00e3o na l\u00edngua\u201d, a fim de que cada um se sinta trabalhado por sua rela\u00e7\u00e3o a ela, a\u00ed onde pensava que tudo era estabelecido segundo sua medida.<\/p>\n<p>O que se goza nessa l\u00edngua n\u00e3o \u00e9 sem rela\u00e7\u00e3o com o que se goza no corpo desses adolescentes vindo indicar essa alguma coisa que tem tra\u00e7o e cruza a l\u00edngua imediatamente. Esse movimento pulsional, essa imediatez verbal da sensa\u00e7\u00e3o que anteriormente era reprimida pela l\u00edngua articulada e que hoje n\u00e3o opera mais, se encontra de certo modo liberado e incidindo diretamente na vida do sujeito. Uma certa consist\u00eancia da vida acompanhada de uma l\u00edngua in\u00e9dita n\u00e3o pode mais ser diminu\u00edda de modo autorit\u00e1rio exercido por um mestre cego ou fascinado, isso n\u00e3o opera mais e pode, ao contr\u00e1rio, implicar devasta\u00e7\u00f5es ainda mais consequentes.<\/p>\n<figure id=\"attachment_5659266\" aria-describedby=\"caption-attachment-5659266\" style=\"width: 280px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-5659266\" src=\"http:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/michelangelopistoletto280.jpg\" alt=\"\" width=\"280\" height=\"187\" srcset=\"https:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/michelangelopistoletto280.jpg 280w, https:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/michelangelopistoletto280-274x183.jpg 274w\" sizes=\"auto, (max-width: 280px) 100vw, 280px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-5659266\" class=\"wp-caption-text\">Michelangelo Pistolleto, World Globe, 1966-68<\/figcaption><\/figure>\n<h5>Marion<\/h5>\n<p>Marion, treze anos, insultada em seu\u00a0<em>Facebook<\/em>\u00a0e em seu celular por adolescentes de sua classe, na quarta-feira, 13 de Fevereiro de 2013, em vez de ir ao seu col\u00e9gio e depois de ter consultado no Google o site\u00a0<em>Como se suicidar<\/em>? decide se enforcar no cabideiro de seu quarto. \u00c9 a\u00ed onde sua m\u00e3e a descobre mais tarde. O que aconteceu?<\/p>\n<p>Nessa quarta-feira de manh\u00e3 Marion diz \u00e0 sua m\u00e3e Nora que est\u00e1 cansada e quer ficar na cama. Depois do caf\u00e9 da manh\u00e3 ela retornou para seu quarto. Na noite da v\u00e9spera ela comunicou \u00e0 sua m\u00e3e um sofrimento de amor e deu not\u00edcia de seu esgotamento. Nora a deixa ent\u00e3o em seu quarto com o celular sob o travesseiro e sai para almo\u00e7ar com uma amiga e seus dois outros filhos. Por volta das 13h30min a m\u00e3e se inquieta, sua filha n\u00e3o atende o celular, ela entra em casa se precipita no quarto da filha, arromba a porta que tinha sido bloqueada e a encontra enforcada, inanimada, presa a um len\u00e7o enroscado no cabideiro. Marion deixou duas cartas sobre sua escrivaninha. A primeira endere\u00e7ada ao col\u00e9gio. Aluna da quarta s\u00e9rie, ela escreveu sobre o envelope o n\u00famero de sua classe. Ela detalha seus sofrimentos, suas humilha\u00e7\u00f5es, os insultos ocorridos muitas vezes em plena aula e nomeia seus cinco algozes. \u201cMinha vida virou de ponta a cabe\u00e7a, ningu\u00e9m pode compreend\u00ea-la\u201d. Sobre o outro envelope ela escreveu \u201cMinhas mil lembran\u00e7as com voc\u00eas\u201d, mas o envelope est\u00e1 vazio.<\/p>\n<p>Os pais compreendem atrav\u00e9s de uma reportagem na FR3 que Marion havia se tornado a vitima de uns poucos e decidem apresentar queixa. Eles querem saber o que se passou no col\u00e9gio e com os cinco alunos algozes. Segundo eles \u201cesses jovens queriam eliminar sua filha\u201d. E \u201cn\u00e3o \u00e9 porque s\u00e3o menores que eles devem ser desculpados\u201d. Em seguida Nora procura os amigos de Marion para interrog\u00e1-los. Dizem-lhe para deixar as crian\u00e7as tranquilas e ir fazer seu luto. Desconfiam dela, \u00e9 tomada por louca. Os professores se calam. A diretora do col\u00e9gio recusa receber os pais. \u201cNada permite pensar que Marion ia mal\u201d.<\/p>\n<p>Descobre-se que Nora queria anteriormente que sua filha mudasse de classe; desde a sexta s\u00e9rie. Marion se deixava tratar de\u00a0<em>mongoloide e autista.\u00a0<\/em>Na quinta s\u00e9rie um menino tinha endere\u00e7ado um SMS: \u201cAmanh\u00e3, na parada do \u00f4nibus voc\u00ea ser\u00e1 morta\u201d. Diante da demanda de Nora, o orientador tinha convocado o autor da mensagem que, ao lado de sua m\u00e3e, tinha balbuciado \u201cMas era por divers\u00e3o\u201d.<\/p>\n<figure id=\"attachment_5659267\" aria-describedby=\"caption-attachment-5659267\" style=\"width: 300px\" class=\"wp-caption alignright\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-5659267\" src=\"http:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/gerhardrichter280-1-300x236.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"236\" srcset=\"https:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/gerhardrichter280-1-300x236.jpg 300w, https:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/gerhardrichter280-1-274x216.jpg 274w, https:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/gerhardrichter280-1.jpg 609w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-5659267\" class=\"wp-caption-text\">Geta Br\u0103tescu, \u2018Vestigii\u2019 (serie Vestigios), 1978<\/figcaption><\/figure>\n<p>Nesse ano da quarta s\u00e9rie ela se queixava de n\u00e3o poder trabalhar porque era tratada de tonta ou nerd quando ousava pedir sil\u00eancio em aula. No col\u00e9gio era a balb\u00fardia, confus\u00e3o, impostos por qualquer testa de ferro. Um aluno diz a uma professora: \u201cvoc\u00ea, eu te como\u201d. Outro atira sua agenda no rosto de uma professora de hist\u00f3ria. No recreio lutam, e parece que \u00e0s vezes bebem e fumam nos banheiros. O clima se apazigua e Marion se apaixona por um menino. Os pais a v\u00eaem mudar, ela escreve tr\u00eas mil SMS por m\u00eas ao seu amado.<\/p>\n<p>Marion n\u00e3o se queixa mais de nada embora permane\u00e7a o alvo de um pequeno grupo de meninas e de um menino. Alban, que ela beijou um dia, depois rejeitou. Alban lhe tinha dito \u201ca primeira vez ser\u00e1 comigo\u201d, mas ao se dar conta de que Marion ama um outro, se diverte com um grupo de companheiros a trat\u00e1-la de\u00a0<em>puta,\u00a0<\/em>diz que ela \u00e9\u00a0<em>gorda<\/em>, n\u00e3o tem\u00a0<em>seios<\/em>, \u00e9 muito\u00a0<em>grave<\/em>, a seus olhos ela \u00e9\u00a0<em>nada<\/em>, \u00a0uma\u00a0<em>panaca<\/em>.<\/p>\n<p>\u00c9 em seu quarto e sob seus len\u00e7\u00f3is que ela recebe tudo isso. Sem o conhecimento de seus pais ela criou seu muro\u00a0<em>Facebook.\u00a0<\/em>Sob o pretexto da perda de sua agenda, ela obtem outra, falsa, sobre a qual se atribui notas excelentes e um comportamento exemplar, que apresenta para seus pais assinarem, e outra, a verdadeira, na qual ela tem m\u00e1s notas e um comportamento deplor\u00e1vel com insultos e que assina no lugar de seus pais. Esse estratagema lhe permite n\u00e3o perder o enfrentamento aos outros.<\/p>\n<p>Na v\u00e9spera da trag\u00e9da uma simula\u00e7\u00e3o de inc\u00eandio impede Marion de partir. A quase totalidade da classe se agrupa em torno dela por uma banalidade. Com efeito, ela escreveu na parede sobre uma colega um dos coment\u00e1rios est\u00fapidos que, t\u00e3o frequentemente, leu sobre si mesma: \u201cLila, voc\u00ea \u00e9 uma\u00a0<em>panaca<\/em>, n\u00e3o gostamos de voc\u00ea\u201d. Vaias generalizadas, Alban lidera a dan\u00e7a com outros pestinhas. \u201cVoc\u00ea tem menos orgulho, hein?\u201d Eles continuam pelos corredores \u201cvamos arrancar seus olhos, te matar\u201d. Do banheiro Marion chama sua m\u00e3e \u201cn\u00e3o me sinto bem, eu queria ir para casa\u201d.<\/p>\n<p>Ela contata aquela que lhe disse: \u201cse voc\u00ea voltar ao col\u00e9gio eu te matarei\u201d. Ela a tranquiliza, mas continua a lhe dizer \u201cVoc\u00ea nos deixa tontos pra fazer do seu jeito, \u00e9 convencida, vou lhe quebrar, voc\u00ea se acredita popular, tenta nos chocar e acredita que todos os caras te adoram\u201d. Ela chama ent\u00e3o seu namorado e diz \u201c\u00e9 melhor terminar o namoro para que os outros n\u00e3o te fa\u00e7am mal\u201d. \u00c0 noite ela se abriga nos bra\u00e7os de sua m\u00e3e, mas n\u00e3o lhe diz de sua ruptura amorosa e n\u00e3o diz dos pedidos de desculpas que deve fazer publicamente diante de toda classe para pedir perd\u00e3o a Lila. \u201cEla n\u00e3o vai ter coragem de mexer com a menina, se ela aparecer eu vou mat\u00e1-la!\u201d<\/p>\n<p>Quando informam a Alban a morte de Marion ele diz \u201cN\u00e3o \u00e9 verdade, porra, n\u00e3o fiz nada, eu sou de jogar v\u00eddeogame\u201d. No dia seguinte da trag\u00e9dia \u00e9 sua vez de receber amea\u00e7as de morte, seu pai decide ent\u00e3o muda-lo de col\u00e9gio. Sobre a p\u00e1gina do\u00a0<em>Facebook\u00a0<\/em>intitulado\u00a0<em>Rip (Reast in Peace)\u00a0<\/em>aberta por seus colegas, as causas do suic\u00eddio n\u00e3o deixam nenhuma d\u00favida para eles e todos se d\u00e3o conta de que o uso da l\u00edngua injuriosa desarticulada do outro e seus objetos gadgets lhes fazem desbussolados. \u201cO pior \u00e9 que fizeram isso para brincar e hoje choram\u201d.<\/p>\n<figure id=\"attachment_5659268\" aria-describedby=\"caption-attachment-5659268\" style=\"width: 224px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-5659268\" src=\"http:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/walternomura280-224x300.jpg\" alt=\"\" width=\"224\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/walternomura280-224x300.jpg 224w, https:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/walternomura280-274x367.jpg 274w, https:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/walternomura280.jpg 280w\" sizes=\"auto, (max-width: 224px) 100vw, 224px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-5659268\" class=\"wp-caption-text\">Walter Nomura (Tinho), &#8216;Conversando com meus Mestres do passado&#8217;, ol\u00e9o sobre tela, 2011<\/figcaption><\/figure>\n<h5>O efeito da linguagem e o mais-de-gozo<\/h5>\n<p>\u00c9 disso que se trata em adolescentes como esses, de lhes oferecer entrar na linguagem mais do que em uma norma ideal<a id=\"_ftnref14\" title=\"\" href=\"#_ftn14\" name=\"_ftnref14\"><sup>14<\/sup><\/a>. A palavra \u00e9 um dom da l\u00edngua feita ao outro sobre um fundo de promessa, e assinala onde cada um, por mais pobre que seja, aceita se vestir de palavras para se ver am\u00e1vel e at\u00e9 digno de ser amado, servindo-se de seu sintoma. \u00c9 a\u00ed que saber\u00e1 o que deve ao Outro do s\u00edmbolo com a condi\u00e7\u00e3o de que lhe tenha sido oferecido o caminho certo, ou seja, que tenha sabido dizer sim \u00e0 sua presen\u00e7a no mundo da palavra. Por isso o sujeito se realiza na falha onde surgiu como inconsciente, pela falta que produziu no Outro, seguindo a marca que Freud descobre como a puls\u00e3o mais radical: a puls\u00e3o de morte.<\/p>\n<p>O supereu lacaniano \u00e9 o rosto da puls\u00e3o de morte no qual s\u00e3o presos muitos jovens de hoje. \u00c9 por isso que se busca estender o registro dos objetos\u00a0<em>a<\/em>\u00a0para al\u00e9m da lista natural a todos os objetos da ind\u00fastria, da sublima\u00e7\u00e3o da cultura, a tudo que pode vir completar. S\u00e3o gotinhas de gozo, por vezes de pequenos nadas que d\u00e3o o estilo de vida de muitos de nossos adolescentes e seu modo de gozo, l\u00e1 onde reina a face do que Freud nomeia puls\u00e3o de morte.<\/p>\n<p>\u00c9 no momento da adolesc\u00eancia que chamei de o ex\u00edlio (<em>l\u2019\u00e9xil)\u00a0<\/em><a id=\"_ftnref15\" title=\"\" href=\"#_ftn15\" name=\"_ftnref15\"><sup>15<\/sup><\/a>que se encontra esse furo no real sustentado pela divis\u00e3o mais vis\u00edvel do corpo e do gozo. Com frequ\u00eancia \u00e9 com esses produtos da civiliza\u00e7\u00e3o que a falta a ser do corpo procura se alimentar, se cortar, se ocultar, onde para alguns e cada vez mais a d\u00edvida simb\u00f3lica foi devastada. A puls\u00e3o de morte se chama, aqui, a gulodice do supereu quando o s\u00edmbolo n\u00e3o \u00e9 mais o que se apresenta para marcar autoridade e devora o sujeito.<\/p>\n<p>Como disse \u00c9ric Laurent, os adolescentes buscam tamb\u00e9m, como muitos sujeitos modernos, a presen\u00e7a do Outro entre eles<a id=\"_ftnref16\" title=\"\" href=\"#_ftn16\" name=\"_ftnref16\"><sup>16<\/sup><\/a>. O perigo de uma certa juventude sem qualidades e tragicamente sem mem\u00f3ria nos remete ao que dizia Jacques Lacan em 1961<a id=\"_ftnref17\" title=\"\" href=\"#_ftn17\" name=\"_ftnref17\"><sup>17<\/sup><\/a>\u00a0quando adiantava que a d\u00edvida simb\u00f3lica pode n\u00e3o estar sob a responsabilidade de alguns sujeitos; desde ent\u00e3o eles n\u00e3o se sentem mais respons\u00e1veis e se encontram \u201cincumbidos de uma desgra\u00e7a ainda maior desse destino de n\u00e3o ser nada\u201d<a id=\"_ftnref18\" title=\"\" href=\"#_ftn18\" name=\"_ftnref18\"><sup>18<\/sup><\/a>. N\u00e3o se desnudam \u00e0 particularidade do sintoma para reinventar seu lugar no mundo.<\/p>\n<p>Esses adolescentes diretamente conectados em um mundo imediato sem a media\u00e7\u00e3o do Outro, se apresentam diretamente em ato e usam da escola para colocar em jogo seu desencadeamento pulsional no qual o se fazer ver e se fazer escutar ocupam a encena\u00e7\u00e3o de seus corpos. A puls\u00e3o de morte direta em estado bruto conduz ao pior de uma conduta desbussolada e fora de limites. \u00c9 o que tornou a escola dif\u00edcil para Marion, um espa\u00e7o vazio \u00e0 poss\u00edvel interven\u00e7\u00e3o do Outro, resultando em fracasso a fun\u00e7\u00e3o do \u201cponto de apoio\u201d do professor<a id=\"_ftnref19\" title=\"\" href=\"#_ftn19\" name=\"_ftnref19\"><sup>19<\/sup><\/a>. Nesse lugar \u00e9 poss\u00edvel fazer valer o que \u00e9 mais eficiente, mais do que se apoiar sobre um ponto ideal, com frequ\u00eancia rejeitado pelo adolescente, pois ele se orienta pela solu\u00e7\u00e3o do ponto de apoio j\u00e1 encontrado, o sujeito com seu sintoma: \u201co insuport\u00e1vel do sintoma pode se transformar em ponto de apoio para que o sujeito reinvente seu lugar no Outro\u201d<a id=\"_ftnref20\" title=\"\" href=\"#_ftn20\" name=\"_ftnref20\"><sup>20<\/sup><\/a>. \u201c\u00c9 na roupagem do discurso como tal que o sujeito pode se identificar e se apoiar para suportar o efeito de linguagem que \u00e9 a ang\u00fastia\u201d<a id=\"_ftnref21\" title=\"\" href=\"#_ftn21\" name=\"_ftnref21\"><sup>21<\/sup><\/a>. As provoca\u00e7\u00f5es linguajeiras, os insultos, os comportamentos desrespeitosos ou violentos s\u00e3o um modo particular de se situar na linguagem cobrindo toda a falta porque a linguagem do adulto, portador dessa falta, \u00e9 muito angustiante e n\u00e3o cumpre mais a autoridade como antes. \u201cA insol\u00eancia n\u00e3o \u00e9 mais que cobertura\u201d<a id=\"_ftnref22\" title=\"\" href=\"#_ftn22\" name=\"_ftnref22\"><sup>22<\/sup><\/a>. Ela cont\u00e9m uma quest\u00e3o essencial que aguarda sua resposta, uma verdadeira resposta.<\/p>\n<p>Para concluir Freud indica que a escola n\u00e3o deve esquecer a particularidade do sintoma, ela \u201cn\u00e3o deve reivindicar para si mesma o lado cruel<a id=\"_GoBack\" name=\"_GoBack\"><\/a>\u00a0da vida\u201d e \u201cn\u00e3o querer ser mais que um lugar onde se goza a vida\u201d, sobretudo quando \u00e9 o sentido da vida, at\u00e9 o limite, que alguns adolescentes colocam em quest\u00e3o. Freud nos convidava a n\u00e3o recuar diante do sintoma \u201cpouco satisfat\u00f3rio\u201d, sobretudo quando, tal como o representa Marion, ele \u00e9 a pantomima do teatro em sua vers\u00e3o da puls\u00e3o de morte.<\/p>\n<p>Tours, 25 mai 2014<\/p>\n<h6>Tradu\u00e7\u00e3o: Lucia Mello<\/h6>\n<h6>Revis\u00e3o: Raquel Veiga e Ma\u00edra Barroso Leo<\/h6>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h6 class=\"sidebox\">Cien digital agradece a am\u00e1vel autoriza\u00e7\u00e3o de Philippe Lacad\u00e9e para esta publica\u00e7\u00e3o.<\/h6>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<footer>\n<hr \/>\n<h6><strong>Refer\u00eancias Bibliogr\u00e1ficas<\/strong><\/h6>\n<h6><a id=\"_ftn1\" title=\"\" href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">1<\/a>\u00a0FREUD, Sigmund.\u00a0<em>Algumas reflex\u00f5es sobre a psicologia do escolar.<\/em>\u00a0(1914) In: FREUD, S. Edi\u00e7\u00e3o Standard Brasileiras das Obras Psicol\u00f3gicas Completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago. 2006. Vol. XIII, p. 247-250.<\/h6>\n<h6><a id=\"_ftn2\" title=\"\" href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\">2<\/a>\u00a0 FREUD, Sigmund.\u00a0<em>Inibi\u00e7\u00f5es, sintomas e ang\u00fastia<\/em>. (1926) In: FREUD, S. Edi\u00e7\u00e3o Standard Brasileiras das Obras Psicol\u00f3gicas Completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago. 2006. Vol. XX, p. 95.<\/h6>\n<h6><a id=\"_ftn3\" title=\"\" href=\"#_ftnref3\" name=\"_ftn3\">3<\/a>\u00a0MEIRIEU, Philippe. Lyon, 15 de dezembro de 2008, de seu convite \u00e0 apresenta\u00e7\u00e3o de meu livro\u00a0<em>L\u2019Eveil et l\u2019exil\u00a0<\/em>em sua universidade, termo retirado de Bernard Stiegler.<\/h6>\n<h6><a id=\"_ftn4\" title=\"\" href=\"#_ftnref4\" name=\"_ftn4\">4<\/a>\u00a0LACAN, Jacques. \u00a0A Terceira, Dezembro de 2011,\u00a0<em>In: Op\u00e7\u00e3o Lacaniana<\/em>\u00a0, n\u00b0 62, p. 32. A tradu\u00e7\u00e3o para gadgets nesta vers\u00e3o \u00e9\u00a0<em>bugiganga.<\/em><\/h6>\n<h6><a id=\"_ftn5\" title=\"\" href=\"#_ftnref5\" name=\"_ftn5\">5<\/a>\u00a0FREUD, Sigmund.\u00a0<em>Esbo\u00e7o de Psican\u00e1lise.\u00a0<\/em>(1938) In: FREUD, S. Edi\u00e7\u00e3o Standard Brasileiras das Obras Psicol\u00f3gicas Completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago. 2006. Vol. XXIII, p. 157-220.<\/h6>\n<h6><a id=\"_ftn6\" title=\"\" href=\"#_ftnref6\" name=\"_ftn6\">6<\/a>\u00a0Jornal\u00a0<em>Le Monde\u00a0<\/em>de agosto de 2008.<\/h6>\n<h6><a id=\"_ftn7\" title=\"\" href=\"#_ftnref7\" name=\"_ftn7\">7<\/a>\u00a0RIMBAUD Arthur, \u00ab Il me sera loisible de poss\u00e9der la v\u00e9rit\u00e9 dans une \u00e2me et un corps. \u00bb\u00a0Une saison en enfer\u00a0in\u00a0\u0152uvre-vie, Arl\u00e9at., p. 453.<\/h6>\n<h6><a id=\"_ftn8\" title=\"\" href=\"#_ftnref8\" name=\"_ftn8\">8<\/a>\u00a0SPORT\u00c8S Morgan,\u00a0Tout, tout de suite, Paris, Fayard, 2011, p. 29.<\/h6>\n<h6><a id=\"_ftn9\" title=\"\" href=\"#_ftnref9\" name=\"_ftn9\">9<\/a>\u00a0LACAN Jacques, A Terceira,\u00a0op. cit., p. 34..<\/h6>\n<h6><a id=\"_ftn10\" title=\"\" href=\"#_ftnref10\" name=\"_ftn10\">10<\/a>\u00a0LAURENT, \u00c9ric. A sociedade do sintoma. In:\u00a0<em>A sociedade do sintoma: a psican\u00e1lise, hoje.\u00a0<\/em>Rio de Janeiro: Contra Capa Livraria, 2007. p. 163-177.<\/h6>\n<h6><a id=\"_ftn11\" title=\"\" href=\"#_ftnref11\" name=\"_ftn11\">11<\/a>\u00a0HEIDEGGER, Martin. \u201cS\u00e9r\u00e9nit\u00e9\u201d,\u00a0<em>Questions III<\/em>, Paris, Gallimard, Tel, 1990.<\/h6>\n<h6><a id=\"_ftn12\" title=\"\" href=\"#_ftnref12\" name=\"_ftn12\">12<\/a>\u00a0LACAD\u00c9E, Philippe.\u00a0<em>Vie \u00e9prise de parole<\/em>, \u201cL\u2019injure un des pics de l\u2019acte de parole\u201d, Editions Mich\u00e8le, 2012<em>.\u00a0<\/em>p. 187-251.<\/h6>\n<h6><a id=\"_ftn13\" title=\"\" href=\"#_ftnref13\" name=\"_ftn13\">13<\/a>\u00a0LACAD\u00c9E, Philippe.\u00a0<em>La vraie vie \u00e0 l\u2019\u00e9cole<\/em>, Editions Mich\u00e8le, 2013.<\/h6>\n<h6><a id=\"_ftn14\" title=\"\" href=\"#_ftnref14\" name=\"_ftn14\">14<\/a>\u00a0LAURENT, \u00c9ric.\u00a0<em>op., cit<\/em>.<\/h6>\n<h6><a id=\"_ftn15\" title=\"\" href=\"#_ftnref15\" name=\"_ftn15\">15<\/a>\u00a0 LACAD\u00c9E, Philippe.\u00a0<em>L\u2019\u00e9veil et l\u2019exil\u00a0<\/em>, Editions C\u00e9cile Defaut, 2007.<\/h6>\n<h6><a id=\"_ftn16\" title=\"\" href=\"#_ftnref16\" name=\"_ftn16\">16<\/a>\u00a0LAURENT, \u00c9ric.\u00a0<em>op., cit<\/em>.<\/h6>\n<h6><a id=\"_ftn17\" title=\"\" href=\"#_ftnref17\" name=\"_ftn17\">17<\/a>\u00a0\u00a0LACAN, Jacques. O Semin\u00e1rio, Livro VIII, A Transfer\u00eancia. p. 295.<\/h6>\n<h6><a id=\"_ftn18\" title=\"\" href=\"#_ftnref18\" name=\"_ftn18\">18<\/a>\u00a0LACAN, Jacques. Ibid, p. 355: \u201cEm suma, \u00e9 a pr\u00f3pria d\u00edvida onde t\u00ednhamos nosso lugar que nos pode ser retirada, e \u00e9 al\u00ed que podemos nos sentir n\u00f3s mesmos, totalmente alienados. Sem d\u00favida, o\u00a0<em>at\u00e9<\/em>\u00a0antigo nos tornava culpados dessa d\u00edvida, mas ao renunciar \u00e0 ela, como podemos fazer agora, somos tomados por uma infelicidade ainda maior, a de que esse destino n\u00e3o seja mais nada. Abordaremos esta quest\u00e3o no cap\u00edtulo 6\u201d.<\/h6>\n<h6><a id=\"_ftn19\" title=\"\" href=\"#_ftnref19\" name=\"_ftn19\">19<\/a>\u00a0 Lacan, em\u00a0<em>A rela\u00e7\u00e3o de objeto, p. 82,\u00a0<\/em>fala de \u201crela\u00e7\u00e3o anacl\u00edtica\u201d.<\/h6>\n<h6><a id=\"_ftn20\" title=\"\" href=\"#_ftnref20\" name=\"_ftn20\">20<\/a>\u00a0LAURENT, \u00c9ric.\u00a0<em>op.cit. Cf.\u00a0<\/em>Tamb\u00e9m J. Lacan diz do<em>\u00a0ponto de apoio\u00a0<\/em>ou<em>\u00a0apoio contra\u00a0<\/em>traduzido do alem\u00e3o<em>\u00a0Anlehung\u00a0<\/em>para<em>\u00a0anacl\u00edtico, in Semin\u00e1rio,\u00a0<\/em>Livro IV<em>, A rela\u00e7\u00e3o de objeto,\u00a0<\/em>1956-1957, Rio de Janeiro: Imago. p. 82<\/h6>\n<h6><a id=\"_ftn21\" title=\"\" href=\"#_ftnref21\" name=\"_ftn21\">21<\/a>\u00a0LAURENT, \u00c9ric.\u00a0<em>op. cit.<\/em><\/h6>\n<div id=\"ftn22\">\n<h6><a id=\"_ftn22\" title=\"\" href=\"#_ftnref22\" name=\"_ftn22\">22<\/a>\u00a0BENAMEUR, Jeanne.\u00a0\u00a0<em>Pr\u00e9sent ?\u00a0<\/em>Deno\u00ebl, 2006, p. 65.<\/h6>\n<\/div>\n<\/footer>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Philippe Lacade\u00e9 H\u00e1 um s\u00e9culo, em 1914, Freud se interroga sobre o que desbussola \u201co comportamento da crian\u00e7a\u201d perante seus professores. Prop\u00f5e ent\u00e3o sua b\u00fassola: esse comportamento se orienta e depende do que se passou no \u201cquarto da crian\u00e7a\u201d1\u00a0indicando que n\u00e3o \u00e9 por isso \u201cque se poderia tampouco desculp\u00e1-lo\u201d. Freud designa assim um fragmento da&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":5659262,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[136,21],"tags":[123],"post_series":[],"class_list":["post-5659261","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-cien-digital-16","category-hifen","tag-cien_digital_16","entry","has-media"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/ciendigital.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5659261","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/ciendigital.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/ciendigital.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ciendigital.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ciendigital.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=5659261"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/ciendigital.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5659261\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ciendigital.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/5659262"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/ciendigital.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=5659261"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/ciendigital.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=5659261"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/ciendigital.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=5659261"},{"taxonomy":"post_series","embeddable":true,"href":"https:\/\/ciendigital.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/post_series?post=5659261"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}