{"id":5659270,"date":"2018-11-30T10:49:13","date_gmt":"2018-11-30T12:49:13","guid":{"rendered":"http:\/\/ciendigital.com.br\/?p=5659270"},"modified":"2018-11-30T10:57:29","modified_gmt":"2018-11-30T12:57:29","slug":"trauma-blitz","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ciendigital.com.br\/index.php\/2018\/11\/30\/trauma-blitz\/","title":{"rendered":"Trauma &#8211; Blitz"},"content":{"rendered":"<div class=\"pdfprnt-buttons pdfprnt-buttons-post pdfprnt-top-right\"><a href=\"https:\/\/ciendigital.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5659270?print=pdf\" class=\"pdfprnt-button pdfprnt-button-pdf\" target=\"_blank\" ><\/a><a href=\"https:\/\/ciendigital.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5659270?print=print\" class=\"pdfprnt-button pdfprnt-button-print\" target=\"_blank\" ><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/plugins\/pdf-print\/images\/print.png\" alt=\"image_print\" title=\"Conte\u00fado de impress\u00e3o\" \/><\/a><\/div><div class=\"alert-danger\">\n<figure id=\"attachment_5659271\" aria-describedby=\"caption-attachment-5659271\" style=\"width: 280px\" class=\"wp-caption alignright\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-5659271\" src=\"http:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/klarakristalova280.jpg\" alt=\"\" width=\"280\" height=\"298\" srcset=\"https:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/klarakristalova280.jpg 280w, https:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/klarakristalova280-274x292.jpg 274w\" sizes=\"auto, (max-width: 280px) 100vw, 280px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-5659271\" class=\"wp-caption-text\">Klara Kristalova, &#8216;The Catastrophe&#8217;, 2007<\/figcaption><\/figure>\n<h6>Eric Laurent<\/h6>\n<\/div>\n<p>Trauma \u00e9 uma palavra que nos vem da Renascen\u00e7a, como Sinthome. O trauma se escuta melhor quando ressoa sua origem grega:\u00a0<em>tr\u00f4ma<\/em>, a ferida. Lacan nos fez entender que \u00e9 a ferida irrepar\u00e1vel que faz lal\u00edngua sobre o corpo. \u00c9 o traumatismo do nascimento \u00e0 l\u00edngua.<\/p>\n<p>O esplendor da origem h\u00e1 muito tempo foi cantado em poesia e valorizado pela filosofia. O avesso desse esplendor \u00e9 o sol negro do trauma e seus efeitos de atra\u00e7\u00e3o estranha, de buraco negro absorvendo misteriosamente toda energia no sentido que Jacques- Alain Miller deu \u00e0\u00a0<em>energeia<\/em>\u00a0no final de seu curso \u201cO ser e o Um\u201d. Ele \u00e9 o buraco que bordeia a itera\u00e7\u00e3o do Um. Ele organiza a topologia do espa\u00e7o na qual se situa o que n\u00f3s chamamos sujeito. O trauma tem tamb\u00e9m rela\u00e7\u00e3o com o m\u00faltiplo. H\u00e1 o trauma do qual testemunha o autista, h\u00e1 aquele que Michel Leiris e seu \u201creusement\u201d<a title=\"Leia nota\" href=\"#footnote-1\"><sup>1<\/sup><\/a>. No seu caso, o traumatismo \u00e9 aquele da enuncia\u00e7\u00e3o. No ato da enuncia\u00e7\u00e3o, h\u00e1 nomea\u00e7\u00e3o latente desse primeiro n\u00facleo traum\u00e1tico. O traumatismo n\u00e3o \u00e9 simplesmente a inscri\u00e7\u00e3o de um choque, ele \u00e9 tamb\u00e9m o buraco produzido pelo ato de enuncia\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A cita\u00e7\u00e3o que me agrada sobre o trauma \u2013 ferida \u00e9 uma varia\u00e7\u00e3o sobre o que Lacan chamava o parceiro \u201cdevasta\u00e7\u00e3o&#8221;. O homem-devasta\u00e7\u00e3o, para uma mulher, esclarece a devasta\u00e7\u00e3o que acreditamos conhecer muito bem entre a m\u00e3e e a filha, ou a devasta\u00e7\u00e3o que pode fazer uma mulher visando uma outra. A marquesa de Merteuil escreve ao visconde de Valmont: &#8220;Quando uma mulher golpeia no cora\u00e7\u00e3o de outra, ela raramente erra em encontrar o lugar sens\u00edvel, e a ferida \u00e9 incur\u00e1vel\u00a0.\u201d<\/p>\n<p>Se o trauma fosse um livro, seria um livro ou uma novela de Kafka. No \u201cUm Relat\u00f3rio para uma academia\u201d, o macaco torna-se homem ,traumatizando seu professor de humanidade, aquele que se apresentava como mestre da linguagem dos homens.<\/p>\n<div class=\"sidebox\">\n<blockquote><p>\u201cMinha natureza de macaco escapou de mim fren\u00e9tica, dando cambalhotas, de tal modo que com isso meu primeiro professor quase se tornou ele pr\u00f3prio um s\u00edmio, teve de renunciar \u00e0s aulas e precisou ser internado num sanat\u00f3rio\u201d.<\/p>\n<p align=\"right\"><small>Um Relat\u00f3rio para uma academia &#8211; Kafka<\/small><\/p>\n<\/blockquote>\n<\/div>\n<figure id=\"attachment_5659272\" aria-describedby=\"caption-attachment-5659272\" style=\"width: 242px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-5659272\" src=\"http:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/marinarheingantz280-242x300.jpg\" alt=\"\" width=\"242\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/marinarheingantz280-242x300.jpg 242w, https:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/marinarheingantz280-274x340.jpg 274w, https:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/marinarheingantz280.jpg 280w\" sizes=\"auto, (max-width: 242px) 100vw, 242px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-5659272\" class=\"wp-caption-text\">Mauro Esp\u00edndola, enthes paterctomizados, 2009<\/figcaption><\/figure>\n<p>Se o trauma fosse uma m\u00fasica seria \u201cElektra\u201d, \u00f3pera de Richard Strauss escrita com Hugo Von Hoff-mansthal antes da Grande Guerra, trag\u00e9dia em um ato de uma viol\u00eancia e de um horror sem igual. A filha traumatizada pelo assassinato do pai grita seu nome e sua dor do mesmo modo que um rugido animal. Ela se segura no lugar de sua dor de existir e a\u00ed se consome. Como dizia o texto de apresenta\u00e7\u00e3o da \u00faltima \u00d3pera montada por Patrice Chereau neste ver\u00e3o, no festival de Aix-en-Provence, o Elektra dirigido por Esa-Pekka Salonen \u201cRichard Strauss fez uma \u00f3pera violenta e s\u00fabita, com sua parti\u00e7\u00e3o vulc\u00e2nica, seu ato \u00fanico de espera febril depois de viol\u00eancia irrepreens\u00edvel, sua imensa orquestra tamb\u00e9m refinada que desencadeia, e suas vozes de mulheres que cantam o desespero de uma fam\u00edlia decomposta. A solid\u00e3o do indiv\u00edduo e a viol\u00eancia \u00edntima jazem no cora\u00e7\u00e3o do trabalho teatral de Patrice Chereau. Era natural ent\u00e3o, para ele, entrar na corrida louca de Elektra, a mulher cujo grito \u00e9 um canto\u201d. Se lemos a homenagem que Brigitte Jacques-Wajcman endere\u00e7ou \u00e0 Chereau no Lacan, Cotidiano, n\u00e3o podemos pensar que ele n\u00e3o a fez deliberadamente.<\/p>\n<p>Se fosse um filme seria Cidad\u00e3o Kane de Orson Welles, pela \u00faltima palavra que pronuncia Kane antes de morrer: \u201c<em>Rosebud<\/em>\u201d. Qual \u00e9 o trauma secreto que vem assim se nomear? \u00c9 o que um critico do filme americano chamou \u201co maior segredo do cinema\u201d. Welles considerava que ele tinha feito tudo para &#8211; esvazi\u00e1-lo de sentido . \u00ab\u00a0<em>We did everything we could to take the mickey out of it<\/em>\u00a0\u00bb.<\/p>\n<p>Resta esta pura letra \u201c<em>Rosenbud<\/em>\u201d. De onde ela vem? Entre todas as respostas propostas e que o artigo de Wikipedia condensa muito bem, dois se destacam. Em seu livro de 2002,\u00a0<em>Hearst Over Hollywood<\/em>, Louis Pizzitola relata que era o apelido dado \u00e0 m\u00e3e de Hearst pelo filho de um casal de amigos \u00edntimos daquela e rival em seu cora\u00e7\u00e3o de seu pr\u00f3prio filho. Gore Vidal, sempre bem informado dessas coisas, declarou que\u00a0<em>Rosebud<\/em>\u00a0era o apelido dado por Hearst ao clitoris de sua amante, Marion Davies. O que foi confirmado por outros. Ent\u00e3o: traumatismo da m\u00e3e ou da mulher, no que acreditar? Nos dois.<\/p>\n<p>Se fosse uma pe\u00e7a poderia ser \u201cOs espectros\u201d de Henrik Ibsen. Lemos a\u00ed o traumatismo das teorias da hereditariedade cient\u00edfica do fim do s\u00e9culo, soberbamente expostas. Os espectros em quest\u00e3o s\u00e3o as aves da desgra\u00e7a que se fundam sobre uma fam\u00edlia decomposta quando todo o discurso est\u00e1 deslocado. No n\u00edvel dos servos, um pai quer prostituir sua filha, mas em uma casa de repouso para marinheiros dignos. No n\u00edvel dos mestres, o pai morto teve uma crian\u00e7a com a empregada, que se torna- dama de companhia da m\u00e3e, e o filho da fam\u00edlia retorna de uma longa temporada no estrangeiro, de onde ele fugiu e contraiu s\u00edfilis, para querer se casar com ela. O pastor desconsidera todos esses segredos uma vez que ele est\u00e1 no cora\u00e7\u00e3o da intimidade da fam\u00edlia e \u00e9 um antigo amante da m\u00e3e. A fogueira das vaidades consome a riqueza e as boas inten\u00e7\u00f5es da heran\u00e7a deixada pelo pai no inc\u00eandio do hosp\u00edcio. E no ano anterior, Thomas Ostermeier dirige a cena da morte do filho nos bra\u00e7os da m\u00e3e como um eco \u00e0 morte incestuosa da m\u00e3e no \u201cMinha m\u00e3e\u201d de George Bataille.<\/p>\n<h6>Tradu\u00e7\u00e3o: Cristiana Pittella de Mattos<\/h6>\n<h6>Revis\u00e3o: Maria Rita Guimar\u00e3es<\/h6>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h6 class=\"sidebox\">Os mais sinceros agradecimentos a \u00c9ric Laurent pela autoriza\u00e7\u00e3o concedida a CIEN Digital para a publica\u00e7\u00e3o do presente trabalho.<\/h6>\n<footer>\n<hr \/>\n<h6><strong>Notas:<\/strong><\/h6>\n<h6 id=\"footnote-1\"><sup>1<\/sup>\u00a0NT: Michel Leiris, no conto \u201cA Regra do Jogo\u201d narra sua experi\u00eancia na inf\u00e2ncia ao emitir das entranhas, como riso ou grito: \u201creusement\u201d. Essa jacula\u00e7\u00e3o vem marcar a primeira lembran\u00e7a de sua vida e marca sua rela\u00e7\u00e3o \u00e0 felicidade ou mais exatamente sua rela\u00e7\u00e3o \u00e0 infelicidade. Um de seus brinquedos cai, um soldado de chumbo ou de papel mache. Rapidamente ele o pega e para sua alegria n\u00e3o tinha quebrado, ele ent\u00e3o exclama: \u201creusement\u201d! Algu\u00e9m mais velho retruca: n\u00e3o se diz \u201creusement\u201d se diz \u201cheureusement\u201d. Nesse momento sua alegria \u00e9 cortada, fica pasmo e entregue a uma esp\u00e9cie de vertigem.<\/h6>\n<h6 id=\"footnote-2\"><sup>2<\/sup>\u00a0NT: Cl\u00e1ssico da literatura libertina de Chordelos de Laclos, As liga\u00e7\u00f5es Perigosas<\/h6>\n<\/footer>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Eric Laurent Trauma \u00e9 uma palavra que nos vem da Renascen\u00e7a, como Sinthome. O trauma se escuta melhor quando ressoa sua origem grega:\u00a0tr\u00f4ma, a ferida. Lacan nos fez entender que \u00e9 a ferida irrepar\u00e1vel que faz lal\u00edngua sobre o corpo. \u00c9 o traumatismo do nascimento \u00e0 l\u00edngua. 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