{"id":5659283,"date":"2018-11-30T11:03:29","date_gmt":"2018-11-30T13:03:29","guid":{"rendered":"http:\/\/ciendigital.com.br\/?p=5659283"},"modified":"2018-11-30T11:03:29","modified_gmt":"2018-11-30T13:03:29","slug":"a-infancia-sob-controle-e-a-educacao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ciendigital.com.br\/index.php\/2018\/11\/30\/a-infancia-sob-controle-e-a-educacao\/","title":{"rendered":"A inf\u00e2ncia sob controle e a Educa\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"<div class=\"pdfprnt-buttons pdfprnt-buttons-post pdfprnt-top-right\"><a href=\"https:\/\/ciendigital.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5659283?print=pdf\" class=\"pdfprnt-button pdfprnt-button-pdf\" target=\"_blank\" ><\/a><a href=\"https:\/\/ciendigital.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5659283?print=print\" class=\"pdfprnt-button pdfprnt-button-print\" target=\"_blank\" ><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/plugins\/pdf-print\/images\/print.png\" alt=\"image_print\" title=\"Conte\u00fado de impress\u00e3o\" \/><\/a><\/div><div class=\"alert-danger\">\n<h6>Marisa Nubile<a style=\"font-size: 16px;\" title=\"Leia nota\" href=\"#footnote-1\"><sup>1<\/sup><\/a><\/h6>\n<\/div>\n<p>N\u00e3o h\u00e1 como ficar isento diante do document\u00e1rio \u201cA inf\u00e2ncia sob controle\u201d, realizado por Marie-Pierre Jaury. Quem o assiste \u00e9 convocado a tomar uma posi\u00e7\u00e3o frente aos discursos que nele aparecem.<\/p>\n<p>No meu caso, como trabalhei durante muito tempo na \u00e1rea educacional, uma quest\u00e3o logo se imp\u00f4s: o document\u00e1rio foi feito a partir de depoimentos de m\u00e9dicos, psic\u00f3logos e neurologistas. O que o educador tem a ver com aqueles discursos? Em que medida a escola \u00e9 tocada pelas argumenta\u00e7\u00f5es dos especialistas?<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 de hoje que a Educa\u00e7\u00e3o sofre influ\u00eancia de outros saberes; inicialmente da medicina, mas n\u00e3o s\u00f3 dela. A influ\u00eancia foi tamanha que a partir da d\u00e9cada de 1970 muitos autores denunciaram a patologiza\u00e7\u00e3o no espa\u00e7o escolar. Dentre os pesquisadores que fizeram tal den\u00fancia encontramos, aqui no Brasil, nomes que s\u00e3o refer\u00eancias, dentre os quais podemos citar a psic\u00f3loga Maria Helena Souza Patto, a educadora Cec\u00edlia Collares , a pediatra Maria Aparecida Afonso Moyses.<\/p>\n<p>Patologizar \u00e9 isso: centrar as causas do n\u00e3o &#8211; aprender em problemas da crian\u00e7a e da fam\u00edlia, isentando as responsabilidades do sistema educacional. (COLLARES, 1994)<\/p>\n<p>Mas, se essa patologiza\u00e7\u00e3o foi alvo de den\u00fancia, percebo que atualmente ela se esvaziou para dar lugar a um discurso tecnicista e biologizante, alimentado pela psicofarmacologia e neuropsiquiatria em alta.<\/p>\n<figure id=\"attachment_5659284\" aria-describedby=\"caption-attachment-5659284\" style=\"width: 280px\" class=\"wp-caption alignright\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-5659284\" src=\"http:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/johnson280.jpg\" alt=\"\" width=\"280\" height=\"224\" srcset=\"https:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/johnson280.jpg 280w, https:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/johnson280-274x219.jpg 274w\" sizes=\"auto, (max-width: 280px) 100vw, 280px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-5659284\" class=\"wp-caption-text\">Emma Johnson, 2\u00e8me Arrondissement, 2012<\/figcaption><\/figure>\n<p>Para contextualizar o panorama atual \u00e9 sempre interessante olhar para tr\u00e1s.<\/p>\n<p>Lembremos, com Ari\u00e8s (1981), que o sentimento da inf\u00e2ncia foi uma constru\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica. Na Idade M\u00e9dia, n\u00e3o havia consci\u00eancia da particularidade da inf\u00e2ncia distinto do adulto e do jovem. Pessoas nasciam e logo que podiam viver sem os cuidados b\u00e1sicos da m\u00e3e eram incorporados na sociedade sem nenhuma distin\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O que nos interessa recuperar aqui, \u00e9 que nos primeiros tempos deste longo per\u00edodo que se denomina Modernidade, quando o sentimento da inf\u00e2ncia estava sendo constru\u00eddo, tal sentimento foi forjado a partir de um projeto de adulto que se queria saud\u00e1vel, letrado e produtivo.<\/p>\n<p>A inf\u00e2ncia passa a ser entendida como um tempo de preparo e, dentro de seu ide\u00e1rio, preparo significa corre\u00e7\u00e3o feita atrav\u00e9s de mecanismos de vigil\u00e2ncia, disciplina, segrega\u00e7\u00e3o e controle. A escola como institui\u00e7\u00e3o surge junto com esse novo sentimento de crian\u00e7a com o prop\u00f3sito de control\u00e1-la.<\/p>\n<p>Mas, o que a crian\u00e7a representa para que seja necess\u00e1rio control\u00e1-la?<\/p>\n<p>Vejamos algumas express\u00f5es do pensamento desse per\u00edodo:<\/p>\n<p>\u201cS\u00f3 o tempo pode curar o homem da inf\u00e2ncia e da juventude, idades da imperfei\u00e7\u00e3o sob todos os aspectos\u201d. (Balthazar Gratien em um tratado sobre a Educa\u00e7\u00e3o de 1646. IN: Ari\u00e8s, 1981, p. 104)<\/p>\n<p>Kant em Sobre a Pedagogia no s\u00e9culo XVIII, descreve quatro objetivos da Educa\u00e7\u00e3o, sendo que aquele que aparece em primeiro lugar \u00e9 \u201cdisciplinar, domar a selvageria humana\u201d. (KANT, 1999, p.25)<\/p>\n<p>O que podemos abstrair dessas coloca\u00e7\u00f5es \u00e9 que a crian\u00e7a denuncia nosso universo pulsional, &#8211; aquilo que \u00e9 singular ao sujeito -, e que a Educa\u00e7\u00e3o \u00e9 chamada a ser um dos agentes capazes de regular aquilo que habita de \u201cselvagem\u201d no humano.<\/p>\n<p>Diante disso que \u00e9 percebido como anticivilizat\u00f3rio, o projeto da Modernidade se calcou em uma l\u00f3gica vertical baseada em ideais coletivos tendo como pano de fundo o \u201cdever absoluto, a \u00e9tica do sacrif\u00edcio\u201d(Lipovetsky, 2004,p 26 ). Isso significa que a Modernidade foi pensada a partir do referencial de que o individual e o coletivo deveriam se corresponder perfeitamente. E, isto s\u00f3 \u00e9 poss\u00edvel se a raz\u00e3o se impuser contra as paix\u00f5es, se leis severas punirem os que lucram e se a Educa\u00e7\u00e3o ensinar as crian\u00e7as a dominar suas puls\u00f5es e seus v\u00edcios e se formarem gra\u00e7as a disciplinas estritas (TOURAINE, 1998, p 30-31).<\/p>\n<p>Dentro desse ide\u00e1rio, a Educa\u00e7\u00e3o foi permeada pelo saber de outras ci\u00eancias que se organizaram para tentar entender a crian\u00e7a oferecendo refer\u00eancias de cuidado e moraliza\u00e7\u00e3o. \u00c9 desta maneira que o saber m\u00e9dico auxiliou a produzir um projeto de educa\u00e7\u00e3o e sa\u00fade, influenciou propostas pedag\u00f3gicas dirigidas a moralizar e ordenar a rela\u00e7\u00e3o entre adultos e crian\u00e7as e foi usado para explicar o fracasso escolar.<\/p>\n<figure id=\"attachment_5659285\" aria-describedby=\"caption-attachment-5659285\" style=\"width: 280px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-5659285\" src=\"http:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/lopes280.jpg\" alt=\"\" width=\"280\" height=\"210\" srcset=\"https:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/lopes280.jpg 280w, https:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/lopes280-274x206.jpg 274w\" sizes=\"auto, (max-width: 280px) 100vw, 280px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-5659285\" class=\"wp-caption-text\">Jarbas Lopes e Laura Lima, Padedeu<\/figcaption><\/figure>\n<p>Mas, n\u00e3o apenas a medicina influenciou a Educa\u00e7\u00e3o. Dando um salto no tempo, no in\u00edcio do s\u00e9culo XX, entra em cena a Psicologia com as escalas de intelig\u00eancia. \u00c9 criado um aparato cient\u00edfico de segrega\u00e7\u00e3o tornando poss\u00edvel separar os que podiam desenvolver certa intelectualidade daqueles para quem eram indicados os servi\u00e7os profissionalizantes ou especiais.<\/p>\n<p>Um s\u00e9culo depois, temos a impress\u00e3o de que as premissas continuam as mesmas, como vimos no document\u00e1rio A inf\u00e2ncia sob controle. O que dizer da psic\u00f3loga que, muito naturalmente, pontuava o comportamento de uma crian\u00e7a que colocava a m\u00e3o na cabe\u00e7a ou se agitava na cadeira diante da frustra\u00e7\u00e3o no jogo, cena registrada nesse document\u00e1rio?<\/p>\n<p>Mas, se h\u00e1 um continu\u00edsmo ideol\u00f3gico diante daquilo que a crian\u00e7a representa, tamb\u00e9m observamos que novos determinantes se imp\u00f5em. Em primeiro lugar, a diferen\u00e7a entre normal e anormal est\u00e1 cada vez mais estreita. Aquilo que antes era suportado pela sociedade hoje \u00e9 considerado patologia. Al\u00e9m disso, se tempos atr\u00e1s a solu\u00e7\u00e3o encontrada para o comportamento \u201cdesviante\u201d era a disciplina moral, hoje a solu\u00e7\u00e3o apresentada \u00e9 o uso de medicamento. Solu\u00e7\u00e3o alardeada pelo marketing de uma ind\u00fastria farmac\u00eautica em alta.<\/p>\n<p>Como esse cen\u00e1rio se apresenta hoje em dia no ambiente escolar?<\/p>\n<p>A disserta\u00e7\u00e3o de mestrado da pesquisadora Renata Guarrido (2008) analisou a produ\u00e7\u00e3o de 20 anos da revista \u201cNova escola\u201d, destinada a professores. Seu objetivo foi observar como determinados temas eram abordados pela revista, dividindo a an\u00e1lise em dois per\u00edodos: as produ\u00e7\u00f5es da revista de 1986 a 1996 e as de 1996 a 2006.<\/p>\n<p>Uma das constata\u00e7\u00f5es foi a de que as informa\u00e7\u00f5es oferecidas ao professor, especialmente no segundo per\u00edodo, continham fortemente uma considera\u00e7\u00e3o biol\u00f3gica como fundamento para o entendimento, tanto de certos comportamentos dos alunos, quanto para explicar o processo de aprendizagem.<\/p>\n<p>Isso se refletia, por exemplo, em artigos baseados nos pressupostos da neuroci\u00eancia que \u201crevelavam\u201d como o aprendizado ocorre. Em um dos artigos destacados observamos a seguinte chamada:<\/p>\n<p>Nesta reportagem, buscamos uma explica\u00e7\u00e3o cient\u00edfica para o processo de aprendizagem. A neuroci\u00eancia, \u00e1rea da medicina que estuda o sistema nervoso, est\u00e1 contribuindo muito para esclarecer o que acontece com o c\u00e9rebro humano, desde a sua forma\u00e7\u00e3o at\u00e9 o envelhecimento. Com isso, ajuda os educadores a entender o que ocorre no c\u00e9rebro da crian\u00e7a quando ela est\u00e1 em contato com novas informa\u00e7\u00f5es, como ela processa essas novidades e de que forma o aprendizado se torna conhecimento para toda a vida. (GUARRIDO, 2008, p. 87).<\/p>\n<figure id=\"attachment_5659286\" aria-describedby=\"caption-attachment-5659286\" style=\"width: 280px\" class=\"wp-caption alignright\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-5659286\" src=\"http:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/ricalde280.jpg\" alt=\"\" width=\"280\" height=\"214\" srcset=\"https:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/ricalde280.jpg 280w, https:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/ricalde280-274x209.jpg 274w\" sizes=\"auto, (max-width: 280px) 100vw, 280px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-5659286\" class=\"wp-caption-text\">Rosana Ricalde, Mares do mundo<\/figcaption><\/figure>\n<p>Como podemos observar, o funcionamento neurol\u00f3gico passa a ser fundamento do aprendizado e o conhecimento neurol\u00f3gico um subs\u00eddio necess\u00e1rio para o professor, comenta a pesquisadora.<\/p>\n<p>Em outro artigo, o c\u00e9rebro \u00e9 tratado como sujeito do aprendizado: \u201choje se sabe o que acontece quando ele (o c\u00e9rebro) est\u00e1 captando, analisando e transformando est\u00edmulos em conhecimento e o que ocorre nas c\u00e9lulas nervosas&#8230;\u201d (GUARRIDO, 2008,p. 89)<\/p>\n<p>As publica\u00e7\u00f5es sobre TDA ou TDAH (transtorno de d\u00e9ficit de aten\u00e7\u00e3o e hiperatividade) s\u00e3o exemplos de como os comportamentos dos alunos s\u00e3o lidos atrav\u00e9s da lente do discurso m\u00e9dico. A pesquisadora conclui que comportamentos como agita\u00e7\u00e3o, agressividade, dispersividade, abordados muitas vezes do ponto de vista psicol\u00f3gico at\u00e9 os anos 1990, sofreram uma tradu\u00e7\u00e3o e passaram a ser tratados, no segundo per\u00edodo, como sintomas de uma doen\u00e7a. Vejamos o artigo que faz a seguinte ressalva:<\/p>\n<p>Apesar da medicina ainda n\u00e3o contar com dados conclusivos sobre formas de tratamento, o TDA \u00e9 considerado um dist\u00farbio psiqui\u00e1trico, portanto uma doen\u00e7a. (&#8230;) Uma s\u00e9rie de tratamentos v\u00eam sendo pesquisados, mas nada se mostrou superior \u00e0 associa\u00e7\u00e3o de rem\u00e9dios com acompanhamento psicol\u00f3gico. (GUARRIDO, 2008, p. 83).<\/p>\n<p>Outro retrato da influ\u00eancia da vis\u00e3o m\u00e9dica e instrumental permeando o cotidiano escolar \u00e9 a divulga\u00e7\u00e3o na Revista de um \u201cteste de diagn\u00f3stico para d\u00e9ficit de aten\u00e7\u00e3o\u201d, que reproduz os crit\u00e9rios diagn\u00f3sticos presentes no DSM \u2013IV. A ideia \u00e9 a de que os professores possam detectar os sinais e, dependendo da pontua\u00e7\u00e3o, encaminhar o aluno para um especialista.<\/p>\n<p>Quais s\u00e3o os efeitos desse discurso no espa\u00e7o escolar?<\/p>\n<p>Como nos alerta a pesquisadora, se a estimula\u00e7\u00e3o cerebral for transformada em t\u00e9cnica, \u201co lugar do sujeito que ensina e do sujeito que aprende fica muito pr\u00f3ximo do maquinal\u201d (GUARRIDO, 2008, p. 100). O papel do professor pode ser reduzido a um estimulador do c\u00e9rebro!<\/p>\n<p>Tal constata\u00e7\u00e3o nos convoca a pensar no objetivo da Educa\u00e7\u00e3o que, para mim, longe de buscar uma apreens\u00e3o ass\u00e9ptica e funcional daquilo que acontece no c\u00e9rebro dos alunos, passa pela transmiss\u00e3o de certa rela\u00e7\u00e3o com o saber. E, tal transmiss\u00e3o \u00e9 da ordem do encontro humano onde existe sempre um ponto de imposs\u00edvel que escapa a toda e qualquer tentativa de previs\u00e3o, at\u00e9 porque estamos diante de uma rela\u00e7\u00e3o entre sujeitos e, portanto, uma rela\u00e7\u00e3o onde algo da ordem do inconsciente escapa e escapar\u00e1 sempre. Isso n\u00e3o deixa de ser desconcertante, da\u00ed que a solu\u00e7\u00e3o da medicaliza\u00e7\u00e3o pode se tornar mais atraente do que o tortuoso e incerto caminho do la\u00e7o com o outro.<\/p>\n<p>Disso resulta que, quando o n\u00e3o-aprendizado se v\u00ea traduzido em termos biol\u00f3gicos, pass\u00edvel de corre\u00e7\u00e3o pelo uso de medica\u00e7\u00e3o, corremos o risco de uma desresponsabiliza\u00e7\u00e3o por aquilo que cabe \u00e0 Educa\u00e7\u00e3o. Ou seja, se partimos do pressuposto de que o aprendizado depende fundamentalmente de fatores neuroqu\u00edmicos aquele que trabalha com a crian\u00e7a pode se furtar de fazer interven\u00e7\u00f5es potencialmente transformadoras.<\/p>\n<p>Al\u00e9m dessas considera\u00e7\u00f5es, lembremo-nos de que a patologiza\u00e7\u00e3o que esse discurso promove \u00e9 fruto de classifica\u00e7\u00f5es, como vimos no citado document\u00e1rio. E, quando se classifica h\u00e1 nomea\u00e7\u00e3o: \u201cEle \u00e9 TDA, ele \u00e9 Disl\u00e9xico&#8230;\u201d. Do lado do professor, corre-se o risco dele n\u00e3o se relacionar com o sujeito na sua singularidade, mas com a doen\u00e7a. Do lado da pessoa nomeada, ela pode assumir os atributos que lhe conferem a classifica\u00e7\u00e3o ou consagrar uma vida inteira provando, para si mesma, que tais atributos n\u00e3o lhe pertencem. De toda maneira, h\u00e1 efeitos que podem ocasionar preju\u00edzos grandes \u00e0 trajet\u00f3ria escolar e pessoal do sujeito.<\/p>\n<p>Para concluir, \u00e9 preciso ponderar que n\u00e3o se trata de desvalorizar os avan\u00e7os cient\u00edficos que contribuem, de maneira ineg\u00e1vel, no tratamento dos sofrimentos ps\u00edquicos, nem \u00e9 o caso de propalar o abandono das pesquisas biol\u00f3gicas. O importante \u00e9 ter uma vis\u00e3o cr\u00edtica dos efeitos de um discurso que \u00e9 difundido como uma vis\u00e3o hegem\u00f4nica daquilo que se passa no terreno da subjetividade humana. Terreno nebuloso e dif\u00edcil, sempre propenso a tentativas de controle.<\/p>\n<p>Como vimos, dentro do projeto da Modernidade hist\u00f3rica, a escola nasceu com o prop\u00f3sito de ajudar a regimentar aquilo que de anticivilizat\u00f3rio existe no humano. Para isso, ela se pautou por uma \u00e9tica do controle moral usando e sendo usada pelos ideais m\u00e9dico-higienistas e da psicometria.<\/p>\n<figure id=\"attachment_5659287\" aria-describedby=\"caption-attachment-5659287\" style=\"width: 280px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-5659287\" src=\"http:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/dardot280.jpg\" alt=\"\" width=\"280\" height=\"187\" srcset=\"https:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/dardot280.jpg 280w, https:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/dardot280-274x183.jpg 274w\" sizes=\"auto, (max-width: 280px) 100vw, 280px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-5659287\" class=\"wp-caption-text\">Maril\u00e1 Dardot, Avant et apr\u00e8s la lettre, 2011<\/figcaption><\/figure>\n<p>Hoje estamos vivendo uma crise de paradigmas. \u00c9 fato inquestion\u00e1vel que as antigas balizas que forneciam um referencial para os sujeitos est\u00e3o implodindo. E a viv\u00eancia disso n\u00e3o \u00e9 nada tranquila porque exp\u00f5e todos a uma encruzilhada \u00e9tica.<\/p>\n<p>O que fazer? Reviver antigas formas de controle revestidas pela l\u00f3gica do discurso capitalista? N\u00e3o nos enganemos, a segrega\u00e7\u00e3o e medicaliza\u00e7\u00e3o do espa\u00e7o escolar respondem ao marketing da ind\u00fastria farmac\u00eautica em franca expans\u00e3o. Mas ela s\u00f3 est\u00e1 respondendo de maneira t\u00e3o \u201cpositiva\u201d porque encontrou terreno prop\u00edcio para florescer. Em um momento em que as antigas amarras est\u00e3o se decompondo, o cientificismo promete explicar o inexplic\u00e1vel e curar o incur\u00e1vel da experi\u00eancia humana.<\/p>\n<p>Diante da encruzilhada \u00e9tica h\u00e1 aqueles que experimentam novos la\u00e7os. Em Educa\u00e7\u00e3o h\u00e1 experi\u00eancias interessant\u00edssimas que fazem contraponto ao universalismo do discurso que vimos no document\u00e1rio. S\u00e3o escolas, comunidades ou pessoas que inventam diferentes e inovadoras maneiras de se relacionar com os desafios de um mundo em transforma\u00e7\u00e3o. E eu aposto nelas!<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<footer>\n<hr \/>\n<h6><strong>Refer\u00eancias Bibliogr\u00e1ficas:<\/strong><\/h6>\n<h6>ARI\u00c8S, P. Hist\u00f3ria Social da Crian\u00e7a e da fam\u00edlia. Rio de Janeiro: LTC Editora, 1981.<\/h6>\n<h6>COLLARES, C. A. L. O Cotidiano escolar patologizado: espa\u00e7os de preconceitos e pr\u00e1ticas cristalizadas. 1994. Tese (Livre-Doc\u00eancia) &#8211; Faculdade de Educa\u00e7\u00e3o da Unicamp, Campinas.<\/h6>\n<h6>GUARRIDO, R. L. O que n\u00e3o tem rem\u00e9dio remediado est\u00e1: medicaliza\u00e7\u00e3o da vida e algumas implica\u00e7\u00f5es do saber m\u00e9dico na educa\u00e7\u00e3o. 2008. Disserta\u00e7\u00e3o de mestrado \u2013 Faculdade de Educa\u00e7\u00e3o da USP, S\u00e3o Paulo.<\/h6>\n<h6>KANT, I. Sobre a Pedagogia. Piracicaba: Editora Unimep, 1999.<\/h6>\n<h6>LIPOVETSKY, G. Metamorfoses da cultura liberal: \u00e9tica, m\u00eddia e empresa. Porto Alegre: Sulina, 2004.<\/h6>\n<h6>TOURAINE, A. Poderemos viver juntos? Iguais e diferentes. Petr\u00f3polis (RJ): Vozes, 1998.<\/h6>\n<hr \/>\n<h6 id=\"footnote-1\"><sup>1<\/sup>\u00a0Mestre e doutora em psicologia e Educa\u00e7\u00e3o<\/h6>\n<\/footer>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Marisa Nubile1 N\u00e3o h\u00e1 como ficar isento diante do document\u00e1rio \u201cA inf\u00e2ncia sob controle\u201d, realizado por Marie-Pierre Jaury. Quem o assiste \u00e9 convocado a tomar uma posi\u00e7\u00e3o frente aos discursos que nele aparecem. No meu caso, como trabalhei durante muito tempo na \u00e1rea educacional, uma quest\u00e3o logo se imp\u00f4s: o document\u00e1rio foi feito a partir&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":5659284,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[137,130],"tags":[124],"post_series":[],"class_list":["post-5659283","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-cien-digital-15","category-cine-cien","tag-cien_digital_15","entry","has-media"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/ciendigital.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5659283","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/ciendigital.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/ciendigital.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ciendigital.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ciendigital.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=5659283"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/ciendigital.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5659283\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ciendigital.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/5659284"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/ciendigital.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=5659283"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/ciendigital.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=5659283"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/ciendigital.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=5659283"},{"taxonomy":"post_series","embeddable":true,"href":"https:\/\/ciendigital.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/post_series?post=5659283"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}