{"id":5659309,"date":"2018-11-30T11:19:17","date_gmt":"2018-11-30T13:19:17","guid":{"rendered":"http:\/\/ciendigital.com.br\/?p=5659309"},"modified":"2018-11-30T11:19:17","modified_gmt":"2018-11-30T13:19:17","slug":"robert-walser-o-passeador-ironico","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ciendigital.com.br\/index.php\/2018\/11\/30\/robert-walser-o-passeador-ironico\/","title":{"rendered":"Robert Walser, o passeador Ir\u00f4nico"},"content":{"rendered":"<div class=\"pdfprnt-buttons pdfprnt-buttons-post pdfprnt-top-right\"><a href=\"https:\/\/ciendigital.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5659309?print=pdf\" class=\"pdfprnt-button pdfprnt-button-pdf\" target=\"_blank\" ><\/a><a href=\"https:\/\/ciendigital.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5659309?print=print\" class=\"pdfprnt-button pdfprnt-button-print\" target=\"_blank\" ><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/plugins\/pdf-print\/images\/print.png\" alt=\"image_print\" title=\"Conte\u00fado de impress\u00e3o\" \/><\/a><\/div><div class=\"alert-danger\">\n<figure id=\"attachment_5659310\" aria-describedby=\"caption-attachment-5659310\" style=\"width: 186px\" class=\"wp-caption alignright\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-5659310\" src=\"http:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/walser2-280-186x300.jpg\" alt=\"\" width=\"186\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/walser2-280-186x300.jpg 186w, https:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/walser2-280-274x442.jpg 274w, https:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/walser2-280.jpg 280w\" sizes=\"auto, (max-width: 186px) 100vw, 186px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-5659310\" class=\"wp-caption-text\">Robert Walser, Mikroschriften, 19322<\/figcaption><\/figure>\n<h6>Entrevista de Philippe Lacad\u00e9e por Simone Bianchi<a style=\"font-size: 16px;\" title=\"Leia nota\" href=\"#footnote-1\"><sup>1<\/sup><\/a><\/h6>\n<\/div>\n<h5 class=\"text-success\"><strong>Ensinamentos psicanal\u00edticos da escrita do Real<\/strong><\/h5>\n<p>Phillippe Lacad\u00e9e no seu livro Robert Walser, o passeador ir\u00f4nico,<a title=\"Leia nota\" href=\"#footnote-3\"><sup>3<\/sup><\/a>demonstra a import\u00e2ncia da ironia em Robert Walser. Sua rela\u00e7\u00e3o ir\u00f4nica com a l\u00edngua lhe tra\u00e7ou um destino bem particular. Gra\u00e7as \u00e0 inven\u00e7\u00e3o de uma escrita microgram\u00e1tica e o m\u00e9todo do l\u00e1pis &#8211; escrita min\u00fascula do l\u00e1pis sobre os peda\u00e7os de papel &#8211; Walser conseguiu manter uma imagem de seu corpo e sustentar um m\u00ednimo de la\u00e7o social. O Real que constitui o romance na obra de Walser \u00e9 tamb\u00e9m o trabalho do poeta.<\/p>\n<p><strong>Simone Bianchi:<\/strong>\u00a0Voc\u00ea poderia nos dizer, em poucas palavras, quem foi Robert Walser?<\/p>\n<p><strong>Philippe Lacad\u00e9e:<\/strong>\u00a0Robert Walser \u00e9 um escritor su\u00ed\u00e7o alem\u00e3o que foi reconhecido na sua vida pelos grandes \u2013 Franz Kafka, Robert Musil, Walter Benjamin. Apesar de ser reconhecido como um grande escritor, isso n\u00e3o o afastou do caminho que, como ele pr\u00f3prio dizia, o conduzia a ser um homem ordin\u00e1rio mas, sobretudo, a querer \u201cser um ravissante zero todo redondo\u201d<a title=\"Leia nota\" href=\"#footnote-4\"><sup>4<\/sup><\/a>, a fim de viver uma vida simples e ser curioso de cada detalhe que sua escrita inspirava. Ent\u00e3o, eu tentei mostrar como essa vida t\u00e3o ordin\u00e1ria e simples \u00e9 dependente da sua estrutura subjetiva t\u00e3o original, sem apresent\u00e1-lo como caso cl\u00ednico. Parece-me que ele ilustra a tese de psicose ordin\u00e1ria, quer dizer, uma psicose n\u00e3o desencadeada at\u00e9 o momento onde ele se destabiliza, o que levou sua irm\u00e3 a hospitaliz\u00e1-lo.<\/p>\n<p><strong>Simone Bianchi:<\/strong>\u00a0Voc\u00ea evoca a vida de Robert Walser como uma vida de err\u00e2ncias e vagabundagem. No seu livro O despertar e o ex\u00edlio, voc\u00ea nomeia o poeta Rimbaud como \u201co pr\u00edncipe da err\u00e2ncia\u201d<a title=\"Leia nota\" href=\"#footnote-5\"><sup>5<\/sup><\/a>. Dois poetas que n\u00e3o t\u00eam o pai como ferramenta para a grande estrada da vida. Mas o que voc\u00ea mostra bem em Walser \u00e9 a posi\u00e7\u00e3o ir\u00f4nica do sujeito.<\/p>\n<p><strong>Philippe Lacad\u00e9e:<\/strong>\u00a0Sim, eu proponho ler a sua obra\/vida como uma tese sobre a ironia de onde se deduz seu estilo, sua atitude e suas dificuldades em fazer la\u00e7o social. Ele passa sua vida sozinho, assumindo gra\u00e7as \u00e0 escrita, sua loucura, o que fez com que durante muito tempo n\u00e3o pode ser chamado de louco. Era uma loucura mais discreta \u2013 bem sustentada pelo manejo t\u00e3o preciso e rigoroso da l\u00edngua \u2013 que acontecia nele caracterizando-o como estranho a si mesmo e aos outros. Mas ele deveria ent\u00e3o escrever cada detalhe encontrado na sua l\u00edngua porque era isso que funcionava como supl\u00eancia. Walser nos revela no corpo de sua escrita, vivendo-a mais pr\u00f3ximo de seu corpo, o modo pelo qual o drama da sua loucura se desempenha no verbo. De fato, ele que se dizia especialista da escuta, sentia um grande sofrimento ps\u00edquico em falar com o Outro. De fato, ele dizia: \u201cquando eu quero falar, eu empresto imediatamente o ouvido para ter um audit\u00f3rio\u201d<a title=\"Leia nota\" href=\"#footnote-6\"><sup>6<\/sup><\/a>. Sua rela\u00e7\u00e3o ir\u00f4nica com a l\u00edngua lhe tra\u00e7ou um destino bem particular, contrariamente as apar\u00eancias, como se o seu discurso n\u00e3o lhe permitisse fazer la\u00e7o social.<\/p>\n<p><strong>Simone Bianchi:<\/strong>\u00a0Voc\u00ea mostra tamb\u00e9m como sua posi\u00e7\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 l\u00edngua ensina sobre o autismo.<\/p>\n<p><strong>Philippe Lacad\u00e9e:<\/strong>\u00a0Sua posi\u00e7\u00e3o nos ensina sobre a quest\u00e3o do autista, ou seja, aquele que escuta a si mesmo, como indica muito bem nas crian\u00e7as Tanner, mas tamb\u00e9m, notadamente no Brigand, sobre as vozes escutadas por ele, mas que lhe inspirava na cria\u00e7\u00e3o dos personagens fict\u00edcios, especialmente as mulheres. Assim, se Robert Walser escuta a si mesmo, como dizia Lacan do autista, ele admitiria tamb\u00e9m ouvir as vozes femininas \u2013 as quais eram apenas das mulheres que ele encontrara, aquelas dos seus romances \u2013 e ficar frequentemente surpreso com ele mesmo pelas suas estranhezas. \u00c9 a famosa confiss\u00e3o ao m\u00e9dico que se encontra no Brigand que \u00e9 uma verdadeira li\u00e7\u00e3o ir\u00f4nica sobre a esquizofrenia.<\/p>\n<p><strong>Simone Bianchi:<\/strong>\u00a0Voc\u00ea o apresenta como \u201co passeador ir\u00f4nico\u201d e voc\u00ea nos diz que o passeio, t\u00edtulo de um dos seus romances, foi vital para ele.<\/p>\n<p><strong>Philippe Lacad\u00e9e:<\/strong>\u00a0O passeio que organiza toda sua vida \u00e9 um passeio na l\u00edngua. Ele passava sua vida andando e passeando, para paradoxalmente, manter-se im\u00f3vel e escutar a sonoridade da l\u00edngua veiculada pelo detalhe do barulho ou a estranheza de uma palavra entendida. Mas tamb\u00e9m ele parava para falar em voz alta e l\u00e1 no que ele nomeia o duplo sil\u00eancio, ele ressonava com a sonoridade, n\u00e3o da l\u00edngua articulada ao Outro do sentido, mas \u00e0 lal\u00edngua, como nos ensinou Lacan, ou seja, aquela do bem dizer antes de ter sentido.<\/p>\n<p><strong>Simone Bianchi:<\/strong>\u00a0Voc\u00ea ilustra bem como a rela\u00e7\u00e3o dele com as palavras e a sonoridade foi essencial.<\/p>\n<p><strong>Philippe Lacad\u00e9e:<\/strong>\u00a0As palavras impostas e a vontade das palavras que ele deduziu da sonoridade, eis em torno do que gira toda a sua escrita. Escrevendo: \u201cAs palavras, que eu estou prestes a pronunciar, t\u00eam toda uma boa vontade delas\u201d<a title=\"Leia nota\" href=\"#footnote-7\"><sup>7<\/sup><\/a>, ele testemunha quantas vezes ele foi parasitado por essa l\u00edngua que veiculava os pensamentos e as palavras, e obedecia uma sonoridade que apenas ele entendia.<\/p>\n<p>Ele est\u00e1 comprometido com as palavras pela maneira de enodar o seu gozo ao significante mestre, recusando-o de modo ir\u00f4nico atrav\u00e9s de sua posi\u00e7\u00e3o subjetiva: ser a gar\u00e7onete. Assim, foi o genial comprometimento com as palavras, at\u00e9 mesmo se representar com as palavras que revelavam a escrita na palavra, que se tornou o servo. Ele poderia dizer: \u201cEu gozo, ent\u00e3o eu obede\u00e7o\u201d. De fato sua obedi\u00eancia consiste em consentir ser o representante da escrita do mestre, enquanto crian\u00e7a que alugava a bela pluma encontrando a solu\u00e7\u00e3o: se transformar em gar\u00e7onete \u201cpara fazer a menina, ent\u00e3o meninando alegremente sem parar\u201d<a title=\"Leia nota\" href=\"#footnote-8\"><sup>8<\/sup><\/a>. \u201cQuando eu exercia realmente as fun\u00e7\u00f5es de um \u201chomem que faz tudo\u201d, eu tinha d\u00favidas que um \u201cromance do Real\u201d, poderia sair deste fragmento de vida, que de um ato do Real poderia sair um ato liter\u00e1rio? Oh, n\u00e3o de modo nenhum\u201d<a title=\"Leia nota\" href=\"#footnote-9\"><sup>9<\/sup><\/a>.<\/p>\n<p><strong>Simone Bianchi:<\/strong>\u00a0O que quer dizer a simplicidade aparente da escrita dele?<\/p>\n<p><strong>Philippe Lacad\u00e9e:<\/strong>\u00a0Este homem que nos encanta pela simplicidade de seus escritos, pela precis\u00e3o de suas palavras, pela \u201csua deprava\u00e7\u00e3o da l\u00edngua\u201d<a title=\"Leia nota\" href=\"#footnote-10\"><sup>10<\/sup><\/a>, pela seriedade de suas palavras mas, sobretudo pela li\u00e7\u00e3o de ironia, encontra na escrita de sua pluma a maneira de se manter numa certa sa\u00fade mental: \u201cOnde est\u00e1 a sa\u00fade, onde est\u00e1 a doen\u00e7a?\u201d<a title=\"Leia nota\" href=\"#footnote-11\"><sup>11<\/sup><\/a>. O que n\u00e3o cessa de se escrever. Escrever se coloca mais perto do seu corpo, como se sua exist\u00eancia se definisse em torno da escrita que lhe proporciona uma felicidade singular ou que o rejeita como um parceiro muito caprichoso: \u201cum homem que n\u00e3o rabisca pode apenas beber seu caf\u00e9 de manh\u00e3? Tal homem ouse a respirar mal.\u201d<a title=\"Leia nota\" href=\"#footnote-12\"><sup>12<\/sup><\/a>\u00a0N\u00e3o se falaria dele como um trabalhador, um faz tudo, um romancista manual, \u201c um torneiro que escreve, que corta, bota, forja, recorta, bate, digita ou crava as frases juntas\u201d, um passeador, \u201cum ouvidor o mais genial\u201d, um folhetinista. Esse \u201csolid\u00e1rio mundano\u201d mas, sobretudo esse \u201chomem estranho\u201d, se dedicava a incarnar at\u00e9 a morte, j\u00e1 escrito no seu romance As crian\u00e7as Tanner<a title=\"Leia nota\" href=\"#footnote-13\"><sup>13<\/sup><\/a>, a subst\u00e2ncia viva que falta \u00e0 escrita. Tudo o que se tem a dizer \u00e9 eclipsado pelo ato de escrever: \u201capareceu que ele era mais apto a escrever e viver dos romances. Nossas imagina\u00e7\u00f5es s\u00e3o exatamente reais tanto quanto as nossas outras realidades\u201d<a title=\"Leia nota\" href=\"#footnote-14\"><sup>14<\/sup><\/a>.<\/p>\n<p><strong>Simone Bianchi:<\/strong>\u00a0Voc\u00ea fala de uma crise da escrita e do estatuto particular desses textos miniaturizados ao extremo.<\/p>\n<p><strong>Philippe Lacad\u00e9e:<\/strong>\u00a0\u00c9 uma escrita secreta e privada, onde vemos o reflexo dos dist\u00farbios ps\u00edquicos de Walser que os conduziram desde 1929 ao Asilo Waldau e que, como pensava Carl Seeling, n\u00e3o merecia que a decifr\u00e1ssemos? N\u00e3o, esta escrita miniaturizada n\u00e3o \u00e9 um sintoma de uma doen\u00e7a mas, ao contr\u00e1rio, seguindo ao p\u00e9 da letra as palavras de Walser, um meio de cura, significando para Walser a possibilidade de conservar e de renovar em perman\u00eancia sua for\u00e7a criativa. Gra\u00e7as a Lacan podemos fazer de sua escrita miniaturizada o equivalente do Sinthoma de Walser, a inven\u00e7\u00e3o que lhe permite \u201ccurar-se literalmente\u201d e alcan\u00e7ar \u201ca singular felicidade\u201d<a title=\"Leia nota\" href=\"#footnote-15\"><sup>15<\/sup><\/a>. De fato Walser se colocava a escrever assim desde o que ele chamou de \u201csua crise da escrita\u201d e \u201cseu per\u00edodo de decad\u00eancia\u201d, surgidos de modo brusco durante os seus \u00faltimos anos em Berlim, onde ele experimenta um deixar cair do corpo, um verdadeiro tormento vivido sob o modo de uma falha da m\u00e3o. Ele teve que deixar a cidade em 1912 para retornar \u00e0 Berna, onde ele gostava de ouvir a si mesmo na sonoridade de lal\u00edngua.<\/p>\n<p><strong>Simone Bianchi:<\/strong>\u00a0Por que ele inventa o m\u00e9todo do l\u00e1pis?<\/p>\n<p><strong>Philippe Lacad\u00e9e:<\/strong>\u00a0Ele inventa ent\u00e3o o seu m\u00e9todo do l\u00e1pis que lhe permite miniaturizar sua escrita. Esse processo do l\u00e1pis tem uma significa\u00e7\u00e3o muito precisa: mant\u00ea-lo na ilisibilidade e fazer calar \u201cessa coisa incongruente que sa\u00eda da pluma\u201d, essa escrita na palavra que, de repente, colocava-se a dizer alguma coisa \u2013 equivalente das epifanias de Joyce \u2013 e que o perseguia.<\/p>\n<figure id=\"attachment_5659311\" aria-describedby=\"caption-attachment-5659311\" style=\"width: 204px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-5659311\" src=\"http:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/walser280-204x300.jpg\" alt=\"\" width=\"204\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/walser280-204x300.jpg 204w, https:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/walser280-274x403.jpg 274w, https:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/walser280.jpg 280w\" sizes=\"auto, (max-width: 204px) 100vw, 204px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-5659311\" class=\"wp-caption-text\">Robert Walser, Mikroschriften, 19322<br \/>Robert Walser microscripts courtesy de Robert Walser Archive, Bern courtesy New Directions and Christine Burgin<\/figcaption><\/figure>\n<p><strong>Simone Bianchi:<\/strong>\u00a0Voc\u00ea poderia precisar o que voc\u00ea nomeia \u201co lago ac\u00fastico\u201d, que parece ter uma import\u00e2ncia na vida dele, no n\u00edvel do \u201cterrit\u00f3rio do l\u00e1pis\u201d tornar-se o territ\u00f3rio sonoro dele.<\/p>\n<p><strong>Philippe Lacad\u00e9e:<\/strong>\u00a0Assim, seu territ\u00f3rio do l\u00e1pis torna-se seu territ\u00f3rio sonoro, seu lago ac\u00fastico<a title=\"Leia nota\" href=\"#footnote-16\"><sup>16<\/sup><\/a>\u00a0o qual ele mant\u00e9m, j\u00e1 que o encontramos ao longo dos seus escritos, ao ponto de fazer um livro, \u201cSeelend\u201d, enquanto se protegia atrav\u00e9s da miniaturiza\u00e7\u00e3o de sua escrita. Neste sentido, ele esclarece o lugar e a fun\u00e7\u00e3o da letra no \u00faltimo ensino de Lacan. Digamos que gra\u00e7as ao territ\u00f3rio do l\u00e1pis, ele inventa do que se proteger do seu territ\u00f3rio da escrita, l\u00e1 onde ele \u201couve a si mesmo\u201d, espa\u00e7o de gozo, que ele nomear\u00e1 seu lago ac\u00fastico, espa\u00e7o de escrita reduzida a uma letra, enquanto recusava a escrita do significante tamb\u00e9m portador de sentido lis\u00edvel pelo Outro. Sua carta \u00e0 Max Rychner na qual ele revela o modo pelo qual se dissolve para ele a escrita da pluma, permite melhor compreender o que estava em jogo na sua escrita \u2013 \u201cToda hist\u00f3ria do meu trabalho e da minha vida\u201d \u2013 e a maneira pela qual ele soube se servir da escrita para tratar a sua grande sensibilidade \u00e0 sonoridade do significante, ao que ele entendia das palavras<a title=\"Leia nota\" href=\"#footnote-17\"><sup>17<\/sup><\/a>.<\/p>\n<p>O \u201cdito-esquizofr\u00eanico\u201d como dizia Lacan, parece ter encontrado a sa\u00edda da escrita para se manter no la\u00e7o social. A inven\u00e7\u00e3o do seu m\u00e9todo do l\u00e1pis lhe ofereceu um novo recurso frente ao seu \u201cdito-esquizofr\u00eanico, tomado sem o recurso de nenhum discurso estabelecido\u201d<a title=\"Leia nota\" href=\"#footnote-18\"><sup>18<\/sup><\/a>.<\/p>\n<p><strong>Simone Bianchi:<\/strong>\u00a0Voc\u00ea demonstra nos dois cap\u00edtulos como a escrita, \u00e0s vezes t\u00e3o simples e estranha de Walser, ilustra a teoria da dupla escrita no ensino de Jacques Lacan.<\/p>\n<p><strong>Philippe Lacad\u00e9e:<\/strong>\u00a0A li\u00e7\u00e3o cl\u00ednica de Walser mostra como o seu modo de escrita \u00e9 tamb\u00e9m uma verdadeira li\u00e7\u00e3o cl\u00ednica sobre o gesto da escrita e da teoria da dupla escrita, contida no ensino de Jacques Lacan como Jacques-Alain Miller soube nos demonstrar. O m\u00e9todo do l\u00e1pis esclarece essa teoria da dupla escrita como restaura\u00e7\u00e3o do sentido mas, tamb\u00e9m do significante e do saber. O significante pertence \u00e0 palavra. O significante, em sua natureza, n\u00e3o \u00e9 sen\u00e3o que o suporte f\u00f4nico do sentido.A posi\u00e7\u00e3o subjetiva de Walser \u00e9 sua rela\u00e7\u00e3o com a sonoridade do significante e a fona\u00e7\u00e3o. O significante, antes de tudo, \u00e9 um fen\u00f4meno de fona\u00e7\u00e3o, e \u00e9 a isso que Walser \u00e9 muito sens\u00edvel. Se sua escrita de pluma j\u00e1 tinha valor de sintoma para ele, o m\u00e9todo do l\u00e1pis e a escrita miniatura que se deduz, tem valor de sinthoma para n\u00f3s.<\/p>\n<p><strong>Simone Bianchi:<\/strong>\u00a0Enfim seu livro presta homenagem ao poeta como aquele que est\u00e1 \u00e0 frente da psican\u00e1lise.<\/p>\n<p><strong>Philippe Lacad\u00e9e:<\/strong>\u00a0\u00c9 nisso que o poeta, por estar \u00e0 frente da psican\u00e1lise, nos esclarece: sua escrita miniatura, radicaliza de algum modo, os dois modos da escrita, ou seja, o significante e a letra; ela marca a distin\u00e7\u00e3o entre a escrita que n\u00e3o fala para ele e o desenho da escrita miniatura.<\/p>\n<h6><\/h6>\n<h6>Tradu\u00e7\u00e3o: Simone Bianchi.<\/h6>\n<footer>\n<hr \/>\n<h6 id=\"footnote-1\"><sup>1<\/sup>\u00a0Essa entrevista foi publicada na Revista Horizon n\u00b055, Paris, Junho 2011.<\/h6>\n<h6 id=\"footnote-2\"><sup>2<\/sup>\u00a0Carta, 15&#215;10 cm, do redator liter\u00e1rio da Neue Z\u00fcrcher Zeitung, Capa com micro escritas a l\u00e1pis de Robert Walser em 1932. Courtesia de Robert Walser Archive, Bern e Cortesia do New Directions and Christine Burgin<\/h6>\n<h6 id=\"footnote-3\"><sup>3<\/sup>\u00a0Lacad\u00e9e P, Robert Walser, le promeneur ironique. Enseignements psychanalytiques de l\u2019\u00e9criture d\u2019un roman du r\u00e9el, (Pr\u00e9face de Philippe Forest), \u00e9ditions C\u00e9cile Defaut, 2010.<\/h6>\n<h6 id=\"footnote-4\"><sup>4<\/sup>\u00a0Walser R., L\u2019institut Benjamenta, Paris, Gallimard, L\u2019imaginaire, 1960, p.33.<\/h6>\n<h6 id=\"footnote-5\"><sup>5<\/sup>\u00a0Lacad\u00e9e P., L\u2019\u00e9veil et l\u2019exil, Enseignements psychanalytiques de la plus d\u00e9licate des transitions, Nantes, Editions C\u00e9cile Defaut, 2007, p.37.<\/h6>\n<h6 id=\"footnote-6\"><sup>6<\/sup>\u00a0Walser R., Dimanche \u00e0 la campagne, cit\u00e9 par Peter Utz in Robert Walser, Danser dans les marges, Gen\u00e8ve, Editions Zo\u00e9, 1998, p.265.<\/h6>\n<h6 id=\"footnote-7\"><sup>7<\/sup>\u00a0Walser R., Le territoire du crayon, Microgrammes, Carouge-Gen\u00e8ve, Editions Zo\u00e9, 2003, p.44.<\/h6>\n<h6 id=\"footnote-8\"><sup>8<\/sup>\u00a0Walser R., Le brigand, Paris, Folio, Gallimard, 1994, p.164.<\/h6>\n<h6 id=\"footnote-9\"><sup>9<\/sup>\u00a0Walser R., Walser \u00e0 propos de Walser, Nouvelles du jour, Carouge-Gen\u00e8ve, Editions Zo\u00e9, 2000, p.46.<\/h6>\n<h6 id=\"footnote-10\"><sup>10<\/sup>\u00a0Benjamim W., Robert Walser, \u0152uvres II, Folio Essais, 2000, p.156.<\/h6>\n<h6 id=\"footnote-11\"><sup>11<\/sup>\u00a0Walser R., Le territoire du crayon, op. cit., p.103.<\/h6>\n<h6 id=\"footnote-12\"><sup>12<\/sup>\u00a0Walser R., Walser \u00e0 propos de Walser, Ibid.<\/h6>\n<h6 id=\"footnote-13\"><sup>13<\/sup>\u00a0Walser R., Les enfants Tanner, Paris, Gallimard, Folio, 1985.<\/h6>\n<h6 id=\"footnote-14\"><sup>14<\/sup>\u00a0Walser R., Le brigand, op. cit., p.74.<\/h6>\n<h6 id=\"footnote-15\"><sup>15<\/sup>\u00a0Walser R., Le territoire du crayon, op. cit., p.35-36.<\/h6>\n<h6 id=\"footnote-16\"><sup>16<\/sup>\u00a0Walser R., Les enfants Tanner, op. cit., p.276.<\/h6>\n<h6 id=\"footnote-17\"><sup>17<\/sup>\u00a0\u00ab Les mots que je m\u2019appr\u00eate \u00e0 prononcer ici ont leur volont\u00e9 bien \u00e0 eux \u00bb, in Le territoire du crayon, op. cit., p.44.<\/h6>\n<h6 id=\"footnote-18\"><sup>18<\/sup>\u00a0Lacan J., \u00ab L\u2019\u00e9tourdit \u00bb, Autres \u00e9crits, Paris, Le seuil, 2001, p.474.<\/h6>\n<\/footer>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Entrevista de Philippe Lacad\u00e9e por Simone Bianchi1 Ensinamentos psicanal\u00edticos da escrita do Real Phillippe Lacad\u00e9e no seu livro Robert Walser, o passeador ir\u00f4nico,3demonstra a import\u00e2ncia da ironia em Robert Walser. Sua rela\u00e7\u00e3o ir\u00f4nica com a l\u00edngua lhe tra\u00e7ou um destino bem particular. Gra\u00e7as \u00e0 inven\u00e7\u00e3o de uma escrita microgram\u00e1tica e o m\u00e9todo do l\u00e1pis &#8211;&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":5659310,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[137,26],"tags":[124],"post_series":[],"class_list":["post-5659309","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-cien-digital-15","category-entrevista","tag-cien_digital_15","entry","has-media"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/ciendigital.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5659309","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/ciendigital.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/ciendigital.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ciendigital.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ciendigital.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=5659309"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/ciendigital.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5659309\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ciendigital.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/5659310"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/ciendigital.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=5659309"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/ciendigital.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=5659309"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/ciendigital.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=5659309"},{"taxonomy":"post_series","embeddable":true,"href":"https:\/\/ciendigital.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/post_series?post=5659309"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}