{"id":5659313,"date":"2018-11-30T11:24:09","date_gmt":"2018-11-30T13:24:09","guid":{"rendered":"http:\/\/ciendigital.com.br\/?p=5659313"},"modified":"2018-11-30T11:24:09","modified_gmt":"2018-11-30T13:24:09","slug":"resistir-a-avaliacao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ciendigital.com.br\/index.php\/2018\/11\/30\/resistir-a-avaliacao\/","title":{"rendered":"Resistir \u00e0 avalia\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"<div class=\"pdfprnt-buttons pdfprnt-buttons-post pdfprnt-top-right\"><a href=\"https:\/\/ciendigital.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5659313?print=pdf\" class=\"pdfprnt-button pdfprnt-button-pdf\" target=\"_blank\" ><\/a><a href=\"https:\/\/ciendigital.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5659313?print=print\" class=\"pdfprnt-button pdfprnt-button-print\" target=\"_blank\" ><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/plugins\/pdf-print\/images\/print.png\" alt=\"image_print\" title=\"Conte\u00fado de impress\u00e3o\" \/><\/a><\/div><div class=\"alert-danger\">\n<figure id=\"attachment_5659314\" aria-describedby=\"caption-attachment-5659314\" style=\"width: 280px\" class=\"wp-caption alignright\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-5659314\" src=\"http:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/vazquez280.jpg\" alt=\"\" width=\"280\" height=\"187\" srcset=\"https:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/vazquez280.jpg 280w, https:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/vazquez280-274x183.jpg 274w\" sizes=\"auto, (max-width: 280px) 100vw, 280px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-5659314\" class=\"wp-caption-text\">Victor Vazquez, &#8220;Hommage to Words&#8221;, 20072<\/figcaption><\/figure>\n<h6>Mercedes de Francisco<a style=\"font-size: 16px;\" title=\"Leia nota\" href=\"#footnote-1\"><sup>1<\/sup><\/a><\/h6>\n<\/div>\n<hr \/>\n<p>Um dos signos desta \u00e9poca \u00e9 a tend\u00eancia ao c\u00e1lculo e \u00e0 avalia\u00e7\u00e3o, que leva consigo a prolifera\u00e7\u00e3o do incalcul\u00e1vel. O uso da cifra pela estat\u00edstica quer nos fazer esquecer que \u201cn\u00e3o a medida,\u201d mas \u201co medido\u201d, est\u00e1 imerso no registro simb\u00f3lico numa ordem hierarquizada pelo sentido.<\/p>\n<p>Convido-os a fazerem uma incurs\u00e3o pelos protocolos de atua\u00e7\u00e3o de psic\u00f3logos condutivistas e pelas investiga\u00e7\u00f5es neurol\u00f3gicas, para terem a dimens\u00e3o do que se trata. Lendo somente o que pretendem medir, podemos ter uma ideia da envergadura \u201ctotalit\u00e1ria\u201d deste projeto, que parece n\u00e3o ter autores. O que sup\u00f5e nos transmitir que qualquer coisa que nos ocorra como sujeitos, como humanos, ou melhor, como \u201c<em>trou<\/em>humanos\u201d, usando um neologismo lacaniano que condensa trauma, buraco (<em>trou<\/em>, em franc\u00eas) e humano, \u00e9 calcul\u00e1vel. De imediato e mais al\u00e9m das singularidades de cada um, inclusive das diferen\u00e7as psicopatol\u00f3gicas, produz-se um deslocamento e nos convertemos, n\u00f3s mesmos, em nossos pr\u00f3prios avaliadores. No pr\u00f3prio sujeito e em sua forma de se constituir, essa tend\u00eancia encontra onde se alojar.<\/p>\n<p>Quem tem sido isento de compara\u00e7\u00e3o com o outro semelhante, mesmo sabendo que, dessa compara\u00e7\u00e3o, sempre finalizar\u00e1 com um \u201cmenos\u201d? Por isso, trata-se de resistir (como \u00e9 entendido no campo da f\u00edsica), pois se n\u00e3o opomos resist\u00eancia, a in\u00e9rcia ser\u00e1 esta: cada vez mais, homens e mulheres querem controlar suas vidas para que n\u00e3o apare\u00e7a nada de imprevisto, o que leva a um aumento da ang\u00fastia, ou, outra poss\u00edvel op\u00e7\u00e3o, negar as consequ\u00eancias das a\u00e7\u00f5es que realizam, acreditando falsamente estar fora do controle.<\/p>\n<p>J\u00e1 vemos emergir um \u201ctudo assegurado\u201d; a publicidade das companhias de seguros resulta cada vez melhor ao mostrar as crian\u00e7as no comercial.<\/p>\n<figure id=\"attachment_5659315\" aria-describedby=\"caption-attachment-5659315\" style=\"width: 215px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-5659315\" src=\"http:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/manders280-215x300.jpg\" alt=\"\" width=\"215\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/manders280-215x300.jpg 215w, https:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/manders280-274x383.jpg 274w, https:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/manders280.jpg 280w\" sizes=\"auto, (max-width: 215px) 100vw, 215px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-5659315\" class=\"wp-caption-text\">Mark Manders, Bienal de Veneza, 2013<\/figcaption><\/figure>\n<p>Crian\u00e7as protegidas que n\u00e3o cair\u00e3o jamais ao lado daquelas que nos s\u00e3o apresentadas na absoluta precariedade e desamparo. Nosso primeiro mundo, gra\u00e7as \u00e0s seguradoras, pode dormir tranquilo. Aparentemente vivemos em um mundo pleno de experi\u00eancias poss\u00edveis e novas, as viagens ex\u00f3ticas, as drogas sint\u00e9ticas, a prolifera\u00e7\u00e3o pornogr\u00e1fica s\u00e3o um v\u00e9u cada vez mais espesso que torna opaca a inelimin\u00e1vel conting\u00eancia.<\/p>\n<p>Trata-se da repeti\u00e7\u00e3o do novo, o novo caduco e obsoleto. A abund\u00e2ncia de objetos de consumo como express\u00e3o deste capitalismo em que vivemos n\u00e3o se esgota em si mesma pois o que consegue \u00e9 introduzir o sujeito em uma espiral de empuxo a uma satisfa\u00e7\u00e3o que n\u00e3o cessa de se auto-alimentar.<\/p>\n<p>Os objetos n\u00e3o t\u00eam import\u00e2ncia; isso era na \u00e9poca de Rockefeller. Na \u00e9poca de Bill Gates trata-se de destruir o objeto feito para que surja o novo, e, assim, sucessivamente. Para manter a euforia do consumo s\u00e3o necess\u00e1rias as drogas sint\u00f4nicas como s\u00e3o a coca\u00edna, a anfetamina, o\u00a0<em>Prozac<\/em>, o\u00a0<em>Viagra<\/em>, o\u00a0<em>Rubifen<\/em>, et c\u00e9tera. Euforia que vem acompanhada da \u201cbaixa\u201d, a depress\u00e3o no auge de nossos dias.<\/p>\n<p>\u00c9 indubit\u00e1vel que os soci\u00f3logos que se impuseram a tarefa de ler os signos de nossa \u00e9poca t\u00eam clareza de sua patologiza\u00e7\u00e3o. Nos pa\u00edses do excesso, sua popula\u00e7\u00e3o est\u00e1 cada vez mais afetada no terreno da subjetividade, os sujeitos adoecem e seus sintomas s\u00e3o a maneira de resistir a essa tend\u00eancia. O sujeito n\u00e3o pode trabalhar, est\u00e1 deprimido, angustiado, quando se trata da outra cara do consumo man\u00edaco, leva-o ao ato violento, quando levando ao extremo o controle e a avalia\u00e7\u00e3o de si mesmo, surge o estouro.<\/p>\n<p>Vemos, assim, surgir uns sujeitos cada vez mais desorientados, e, por tanto, com mais medo, como nos dizia Freud em seu belo texto O\u00a0<em>Estranho<\/em>. Desorientados &#8211; frente a que? &#8211; frente a este real imposs\u00edvel de dominar, calcular, predizer, tratar pelo simb\u00f3lico ou pelo imagin\u00e1rio. Nossa desorienta\u00e7\u00e3o est\u00e1 causada pela elimina\u00e7\u00e3o da impossibilidade.<\/p>\n<p>N\u00e3o se trata de nenhuma falha a ser retificada, n\u00e3o se trata de impot\u00eancia, n\u00e3o se trata de d\u00e9ficit, de menos valia, mas nos fazem acreditar que sim.<\/p>\n<p>Para Jacques Lacan essa impossibilidade se expressa na imposs\u00edvel f\u00f3rmula da rela\u00e7\u00e3o sexual. N\u00e3o temos um saber fazer que nos oriente nas rela\u00e7\u00f5es entre homens e mulheres.<\/p>\n<p>Para encontrarmos, a \u00fanica possibilidade \u00e9 uma inven\u00e7\u00e3o, um \u201ceureka\u201d a partir da\u00ed.<\/p>\n<figure id=\"attachment_5659316\" aria-describedby=\"caption-attachment-5659316\" style=\"width: 225px\" class=\"wp-caption alignright\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-5659316\" src=\"http:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/sherrell280-225x300.jpg\" alt=\"\" width=\"225\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/sherrell280-225x300.jpg 225w, https:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/sherrell280-274x365.jpg 274w, https:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/sherrell280.jpg 280w\" sizes=\"auto, (max-width: 225px) 100vw, 225px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-5659316\" class=\"wp-caption-text\">Colin Sherrell, NO\/ON &#8212; Pine, 20103<\/figcaption><\/figure>\n<p>\u00c9 por isso que a diferen\u00e7a sexual, isto \u00e9, o \u201c hetero\u201d, \u00e9 fundamental para avan\u00e7ar nos impasses de nossa civiliza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Para n\u00f3s, n\u00e3o se trata da quest\u00e3o de g\u00eanero, a igualdade de oportunidades n\u00e3o nos faz esquecer a diferen\u00e7a inevit\u00e1vel.<\/p>\n<p>O ser humano \u00e9 falante, sexuado e mortal. A palavra, a diferen\u00e7a sexual, a morte s\u00e3o insepar\u00e1veis de sua condi\u00e7\u00e3o. Por isso, podemos nos perguntar o que sup\u00f5e esta tentativa, em apar\u00eancia \u201cac\u00e9fala\u201d, de afastar o humano de sua condi\u00e7\u00e3o, despojando-o do poder de sua palavra, apagando sua diferen\u00e7a, distanciando-o de sua finitude.<\/p>\n<p>Bi\u00f3logos de prest\u00edgio chegaram a conceber que cientificamente poder-se-ia falar da inexist\u00eancia da morte.<\/p>\n<p>Cada vez mais, diferentes fil\u00f3sofos, artistas, soci\u00f3logos, em diferentes lugares do mundo coincidem com este diagn\u00f3stico da \u00e9poca, com esta tend\u00eancia totalit\u00e1ria e silenciosa no seio mesmo de nossas est\u00e1veis democracias.<\/p>\n<p>Essa tend\u00eancia totalit\u00e1ria apresenta-se agora com uma roupagem intoc\u00e1vel. Fala-se de neurocultura, neuro\u00e9tica, neuroideologia e at\u00e9 de neuroarte. \u00c9 poss\u00edvel que possamos retroceder no tempo at\u00e9 acreditar que as chaves de nossa subjetividade tenham sido localizadas no \u00f3rg\u00e3o do c\u00e9rebro? O que sup\u00f5e esse \u201csuposto avan\u00e7o\u201d para a filosofia, a arte, a poesia, a psican\u00e1lise, etc, disciplinas que se sustentam na condi\u00e7\u00e3o humana? Deixando o contexto das disciplinas: o que tal \u201csuposto avan\u00e7o\u201d sup\u00f5e para a condi\u00e7\u00e3o humana mesma? Se as sinapses cerebrais respondessem a tudo: \u00e0 gen\u00e9tica, em resumo, ao organismo, que seria dos homens?! O cinema da ci\u00eancia-fic\u00e7\u00e3o mostra-nos ao que podemos chegar. Por exemplo, Minority Report, de Spielberg, no qual os sujeitos s\u00e3o aprisionados justamente no momento anterior ao cometimento do ato criminoso , eliminando toda possibilidade de elei\u00e7\u00e3o e fazendo da determina\u00e7\u00e3o um mestre absoluto.<\/p>\n<figure id=\"attachment_5659317\" aria-describedby=\"caption-attachment-5659317\" style=\"width: 249px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-5659317\" src=\"http:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/fontana280-249x300.jpg\" alt=\"\" width=\"249\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/fontana280-249x300.jpg 249w, https:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/fontana280-274x330.jpg 274w, https:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/fontana280.jpg 280w\" sizes=\"auto, (max-width: 249px) 100vw, 249px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-5659317\" class=\"wp-caption-text\">Lucio Fontana, Concetto spaziale, 1968<\/figcaption><\/figure>\n<p>A mass media e os pol\u00edticos t\u00eam uma cumplicidade com essa suposta \u201cci\u00eancia\u201d, que n\u00e3o distingue a direita ou a esquerda, conservadores ou progressistas.Trata-se mais de uma \u201cf\u00e9 cega\u201d, de uma f\u00e9 na apar\u00eancia laica, mas que encontra seu melhor aliado na religi\u00e3o cat\u00f3lica.<\/p>\n<p>Lacan nos advertia que a ci\u00eancia afetaria tanto o real que a religi\u00e3o se consideraria com melhores motivos, ainda, para \u201capaziguar os cora\u00e7\u00f5es\u201d(1).<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m Lacan, \u201cdetector de inc\u00eandio\u201d nos anos cinquenta, vislumbrou o crescimento do individualismo que levaria a irrup\u00e7\u00e3o da viol\u00eancia, mostrou o efeito que a ci\u00eancia teria sobre o real e que seria acompanhado pelo auge da religi\u00e3o. Para o Vaticano \u00e9 mais dif\u00edcil aceitar o casamento entre homossexuais que certas investiga\u00e7\u00f5es cient\u00edficas.<\/p>\n<p>Cada vez mais encontramo-nos com ensa\u00edstas que nos descrevem o que est\u00e1 acontecendo: o trabalho prec\u00e1rio e humilhante, os la\u00e7os amorosos afetados pelo imperativo do novo, do jovem, do caduco; elejo o trabalho e o amor porque eram para Freud dois pilares da vida humana. Mais solid\u00e3o, mais temor, mais fragilidade. Os sujeitos com menos recursos e com mais precariedade nesta sociedade hiperdesenvolvida. E, principalmente, mais desresponsabilizados de sua pr\u00f3pria vida, uma vida medicalizada, na qual o que menos importa \u00e9 o que sucede ao sujeito, cujo ser se reduz a um organismo.<\/p>\n<p>Aos sujeitos que vivem em pa\u00edses com \u00edndices terr\u00edveis de pobreza e doen\u00e7as \u00e9-lhes subtra\u00eddo o estatuto de desejante, reduzindo-os a serem sujeitos da necessidade, justamente por lhes faltar o m\u00ednimo para viver. Jacques Lacan tem p\u00e1ginas memor\u00e1veis sobre o tratamento da pobreza e do pr\u00f3ximo. Interessa-nos perguntar porque um mundo cujo desenvolvimento tecnol\u00f3gico poderia servir para erradicar a pobreza, provoca seu aumento.<\/p>\n<p>A aparente sociedade da liberdade de elei\u00e7\u00e3o, da satisfa\u00e7\u00e3o dos desejos, do excesso \u00e9 a mesma cara da mesma moeda. Nossa condi\u00e7\u00e3o humana est\u00e1 em perigo tanto no excesso como na escassez. Os efeitos deste sistema sobre o planeta e os homens j\u00e1 s\u00e3o dif\u00edceis de evitar: mudan\u00e7a clim\u00e1tica, aumento das doen\u00e7as, aumento das guerras, etc. Paremos esse deslizamento. N\u00e3o gosto do \u201capocal\u00edptico\u201d porque a \u00fanica coisa que promove \u00e9 a impot\u00eancia e o medo, elementos sempre \u00fateis para, em seguida, instaurar o controle e o terror. Diagnostica-se com clareza o que acontece, mas n\u00e3o se vislumbram muitas possibilidades de mudan\u00e7a, n\u00e3o se encontra a extremidade da corda que permita \u201coutra maneira\u201d de amarrar as coisas.<\/p>\n<p>Para a psican\u00e1lise freudiana, o ter e o n\u00e3o ter, que correspondem \u00e0s diferen\u00e7as anat\u00f4micas, tiveram suas consequ\u00eancias, que Lacan, sobretudo em seu \u00faltimo ensino, diagnosticou como uma ideologia. Ningu\u00e9m pode negar a genialidade de Freud quando descobre o inconsciente como resultado do encontro entre o ser vivo e a l\u00edngua, quando nos mostra a import\u00e2ncia da diferen\u00e7a sexual e da morte; em uma palavra, quando inventa uma pr\u00e1tica como a da psican\u00e1lise; mas foi Jacques Lacan, quem, retornando \u00e0 verdade freudiana pode encontrar o limite intranspon\u00edvel para Freud, o do pai, o do nome do pai. Lacan, sustentando-se na mestria freudiana, conseguiu dar um salto de l\u00f3gica que ainda est\u00e1 por se dimensionar. J\u00e1 n\u00e3o se trata do mais e do menos, n\u00e3o se trata de castrado \/ n\u00e3o castrado, n\u00e3o se trata de satisfa\u00e7\u00e3o e insatisfa\u00e7\u00e3o, n\u00e3o se trata de prazer ou de desprazer, inclusive n\u00e3o se trata de mais al\u00e9m do princ\u00edpio de prazer, de uma barreira a franquear, de algo a transgredir. Para esta nova l\u00f3gica, o homog\u00eanio, o todo, o id\u00eantico, a exce\u00e7\u00e3o, podem nos levar ao pior se esmagam o n\u00e3o-todo, o diferente.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" class=\"img-polaroid pull-left\" title=\"Sang Won Sung\" src=\"images\/sung280.jpg\" alt=\"Sang Won Sung\" \/>Sang Won Sung, &#8216;TV Baby&#8217;, 2010<\/p>\n<p>O humano goza por ser um vivente afetado pela palavra. Trata-se de um funcionamento, n\u00e3o de um disfuncionamento, n\u00e3o se trata de nenhum d\u00e9ficit, nem social, nem adaptativo, nem afetivo: trata-se do modo como cada um organizou um sintoma para enfrentar a impossibilidade da rela\u00e7\u00e3o sexual, pois, al\u00e9m de que cada sujeito goza \u00e0 sua maneira, al\u00e9m desse aspecto aut\u00edstico do gozo, est\u00e1 a diferen\u00e7a de gozo entre homens e mulheres, gozos que n\u00e3o se ad\u00e9quam. Trata-se de gozos distintos que n\u00e3o respondem \u00e0 anatomia, mas \u00e0 assun\u00e7\u00e3o de determinadas posi\u00e7\u00f5es sexuadas.<\/p>\n<p>Por que acreditar que isso teria algo a ver com o tratamento dos problemas que nos acometem? \u2013 pode-se objetar que isso \u00e9 algo muito espec\u00edfico de nossa disciplina, desde o conceito de gozo at\u00e9 a quest\u00e3o da \u201crela\u00e7\u00e3o sexual imposs\u00edvel\u201d, passando pela constru\u00e7\u00e3o de cada um para viver, e, portanto, p\u00f5e-se em d\u00favida sua import\u00e2ncia para a marcha do mundo.<\/p>\n<p>Na \u00e9poca vitoriana em que Freud viveu, considerar que as neuroses tinham uma etiologia sexual e que as crian\u00e7as, longe de serem inocentes, eram perversos polimorfos, foi a pedra do esc\u00e2ndalo; desde a perspectiva de nosso mundo atual, at\u00e9 pode parecer irris\u00f3rio.<\/p>\n<p>Jacques Lacan, no entanto, introduz a impossibilidade no probabilismo sexual. Chegou a dizer que gostaria que essa sua f\u00f3rmula se estendesse como uma rea\u00e7\u00e3o em cadeia. Mas essa \u00e9poca est\u00e1 marcada pelo imperativo do f\u00e1lico-sexual_ quantas vezes, com quantos, variados ou n\u00e3o, etc\u00e9tera &#8211; no seio mesmo da diferen\u00e7a sexual.<\/p>\n<p>Frente a isso, apenas resta o la\u00e7o social, o la\u00e7o amoroso, algo que vemos cada vez mais afetado. Como j\u00e1 sabemos desde Plat\u00e3o, n\u00e3o existe apenas uma defini\u00e7\u00e3o do amor. Lacan vai avan\u00e7ando em seu ensino at\u00e9 a concep\u00e7\u00e3o do la\u00e7o amoroso que n\u00e3o tampone o real, nem a impossibilidade, nem o contingente. \u00c9 o que considera um la\u00e7o de amor in\u00e9dito, porque sairia da dial\u00e9tica amor\/\u00f3dio em sua inten\u00e7\u00e3o de alcan\u00e7ar o ser do outro. Um la\u00e7o entre homens e mulheres que n\u00e3o se erija em monumento da completude, do harmonioso, etc, do calcul\u00e1vel, do investimento (financeiro), do assegurado; mas que tamb\u00e9m n\u00e3o se confunda a conting\u00eancia com a prolifera\u00e7\u00e3o do novo, um amor distanciado do neuroamor com seu contrato adjunto e at\u00e9 sua data de validade, proposto por uma deputada alem\u00e3. Para isso, usei a palavra RESISTIR. Frente \u00e0 tend\u00eancia destrutiva somente \u00e9 poss\u00edvel opor a resist\u00eancia do nosso singular sinthoma, que nos d\u00e1 a possibilidade de saber fazer a\u00ed frente ao imposs\u00edvel do la\u00e7o e ao aut\u00edstico que nos constitui. N\u00e3o duvido que esta nova l\u00f3gica, inclusive esta nova topologia, seja uma alternativa junto com outras, aos tempos que correm.<\/p>\n<p>Se o descobrimento freudiano chegou a afetar at\u00e9 a economia, podemos considerar que a inven\u00e7\u00e3o de Lacan pode ajudar, junto com outros discursos, a mudar este mundo, permitir que a condi\u00e7\u00e3o humana n\u00e3o seja eliminada e conseguir sair dessa dial\u00e9tica mort\u00edfera entre o excesso e a escassez, dessa tend\u00eancia destrutiva que parece haver chegado \u00e0 sua m\u00e1xima express\u00e3o entre o capitalismo atual, ainda que devemos estar advertidos com Borges de que o abismo pode chegar a ser infinito.<\/p>\n<h6><\/h6>\n<h6>Tradu\u00e7\u00e3o: Maria Rita Guimar\u00e3es<\/h6>\n<footer>\n<h6>______________________________<\/h6>\n<h6><strong>Referencias bibliogr\u00e1ficas<\/strong><\/h6>\n<h6>LACAN,J. O Semin\u00e1rio 7,A \u00c9tica da psican\u00e1lise,Jorge Zahar Editor,Rio de Janeiro,1988.p.228 .Refer\u00eancia ao ap\u00f3logo de S\u00e3o Martinho.<\/h6>\n<h6>___________O triunfo da Religi\u00e3o, Editorial Paid\u00f3s.Buenos Aires 2005<\/h6>\n<h6>MILLER,J.Alain. El partenaire-s\u00edntoma. Editorial Paid\u00f3s,Buenos Aires 2008.<\/h6>\n<hr \/>\n<h6 id=\"footnote-1\"><sup>1<\/sup>\u00a0Agradecemos a autoriza\u00e7\u00e3o de Mercedes de Francisco para a publica\u00e7\u00e3o no Cien Digital deste trabalho apresentado pela autora no Seminario Atl\u00e1ntico del PENSAMIENTO, realizado em Las Palmas de Gran Can\u00e1rias, Espanha, em 2011. Esse evento prop\u00f5e-se \u00e0 reflex\u00e3o dos acontecimentos da \u00e9poca, desde a perspectiva transdisciplinar.<br \/>\nMercedes Francisco \u00e9 psicanalista, membro da Escola Lacaniana de Psican\u00e1lise do Campo Freudiano, Associa\u00e7\u00e3o Mundial de Psican\u00e1lise (AMP). Docente do Novo Centro de Estudos Psicanal\u00edticos (NUCEP).Foi presidente da Escola Lacaniana de Psican\u00e1lise no per\u00edodo 2000\/2002.Integra a reda\u00e7\u00e3o internacional de Le Nouvel \u00c2ne (LNA) por Madrid, revista editada na Fran\u00e7a e dirigida por Jacques-Alain Miller.<\/h6>\n<h6 id=\"footnote-2\"><sup>2<\/sup>\u00a0<a href=\"http:\/\/www.victorvazquezpr.com\/VICTOR_VAZQUEZ\/work.php?series=4\">P\u00e1gina do artista Victor Vazquez<\/a><\/h6>\n<h6 id=\"footnote-3\"><sup>3<\/sup>\u00a0<a href=\"http:\/\/www.colinsherrell.com\/photos-3\/files\/page2-1034-full.html\">P\u00e1gina da artista Colin Sherrell<\/a><\/h6>\n<\/footer>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Mercedes de Francisco1 Um dos signos desta \u00e9poca \u00e9 a tend\u00eancia ao c\u00e1lculo e \u00e0 avalia\u00e7\u00e3o, que leva consigo a prolifera\u00e7\u00e3o do incalcul\u00e1vel. O uso da cifra pela estat\u00edstica quer nos fazer esquecer que \u201cn\u00e3o a medida,\u201d mas \u201co medido\u201d, est\u00e1 imerso no registro simb\u00f3lico numa ordem hierarquizada pelo sentido. 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