{"id":5659347,"date":"2019-03-17T11:35:28","date_gmt":"2019-03-17T14:35:28","guid":{"rendered":"http:\/\/ciendigital.com.br\/?p=5659347"},"modified":"2019-03-17T12:00:40","modified_gmt":"2019-03-17T15:00:40","slug":"alexandre-stevens1-nos-fala-do-trabalho-com-meninos-de-rua-na-bolivia2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ciendigital.com.br\/index.php\/2019\/03\/17\/alexandre-stevens1-nos-fala-do-trabalho-com-meninos-de-rua-na-bolivia2\/","title":{"rendered":"Alexandre Stevens1 nos fala do trabalho com meninos de rua na Bol\u00edvia2"},"content":{"rendered":"<div class=\"pdfprnt-buttons pdfprnt-buttons-post pdfprnt-top-right\"><a href=\"https:\/\/ciendigital.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5659347?print=pdf\" class=\"pdfprnt-button pdfprnt-button-pdf\" target=\"_blank\" ><\/a><a href=\"https:\/\/ciendigital.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5659347?print=print\" class=\"pdfprnt-button pdfprnt-button-print\" target=\"_blank\" ><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/plugins\/pdf-print\/images\/print.png\" alt=\"image_print\" title=\"Conte\u00fado de impress\u00e3o\" \/><\/a><\/div><h6>Tradu\u00e7\u00e3o: Samyra Assad<br \/>\nRevis\u00e3o: Maria Rita Guimar\u00e3es<\/h6>\n<p><strong>Pergunta:<\/strong>\u00a0Como se chama a institui\u00e7\u00e3o boliviana na qual o senhor trabalhou?<\/p>\n<p><strong>Alexandre Stevens:<\/strong>\u00a0Ela se chama Uyarina, que em qu\u00e9chua quer dizer \u201cfalar\u201d. Mas, l\u00e1, ela \u00e9 chamada pelas crian\u00e7as principalmente pelo nome do lugar onde s\u00e3o acolhidas, que se chama, em espanhol, Punto de Encuentro portanto, Ponto de Encontro. Essa institui\u00e7\u00e3o nasceu porque uma jovem colega de l\u00e1, Sofia Guaraguara, trabalhou, h\u00e1 alguns anos, em Cochabamba, na Bol\u00edvia, com meninos de rua. Ela estava fazendo, ao mesmo tempo, sua forma\u00e7\u00e3o em psican\u00e1lise. Ela reuniu-se com essas crian\u00e7as simplesmente para conversar e escut\u00e1-las, talvez se colocando em risco, em alguns momentos, na \u00e9poca. \u00c9 o que ela diz hoje, apesar de nunca ter tido problemas graves. Acontece que quando ela decidiu partir, porque ela veio para a Europa, algumas crian\u00e7as lhe perguntaram: \u201cMas ent\u00e3o, quando voc\u00ea for embora, quem ser\u00e1 nossa psic\u00f3loga\u201d? Foi o que a fez decidir fundar essa institui\u00e7\u00e3o, a fim de passar o bast\u00e3o desse trabalho que ela fazia de forma isolada. Desde ent\u00e3o trabalham nessa institui\u00e7\u00e3o alguns psicanalistas e outros participantes orientados pela psican\u00e1lise que s\u00e3o psic\u00f3logos de forma\u00e7\u00e3o, alguns que s\u00e3o educadores ou pedagogos, enfim, professores, j\u00e1 que a institui\u00e7\u00e3o \u00e9, ao mesmo tempo, um lugar de escuta e um lugar de refor\u00e7o escolar para as crian\u00e7as mais novas.<\/p>\n<p>O que chamamos \u201cmeninos de rua\u201d \u00e9 uma popula\u00e7\u00e3o bem variada: temos por um lado, jovens adolescentes e jovens adultos que est\u00e3o na rua e nela passam todo o tempo, que dormem na rua em lugares bem espec\u00edficos, localizados em algumas pra\u00e7as. Alguns dormem nos morros vizinhos. Por outro lado, existe outra popula\u00e7\u00e3o que \u00e9 seu prolongamento: geralmente s\u00e3o as crian\u00e7as da popula\u00e7\u00e3o anterior e n\u00e3o ficam o tempo todo na rua. \u00c0s vezes ficam nas ruas, mas \u00e0s vezes numa institui\u00e7\u00e3o. Eles v\u00e3o \u00e0 escola, de vez em quando, \u00e0s vezes s\u00e3o acolhidos por uma fam\u00edlia ou numa institui\u00e7\u00e3o. As situa\u00e7\u00f5es s\u00e3o muito variadas. Com os mais novos tamb\u00e9m \u00e9 feito um trabalho para ajudar no refor\u00e7o escolar, para ajud\u00e1-los a se reintegrarem ao mundo escolar e a obter certa localiza\u00e7\u00e3o no mundo institucional. Os meninos de rua propriamente ditos permanecem mais nas ruas e vem para o Ponto de Encontro unicamente para um trabalho com a palavra, digamos, um bate papo.<\/p>\n<p><strong>Pergunta:<\/strong>\u00a0Ent\u00e3o, no espa\u00e7o f\u00edsico dessa institui\u00e7\u00e3o, h\u00e1 um lugar para os encontros destinados \u00e0s entrevistas e tamb\u00e9m um espa\u00e7o mais voltado para a \u00e1rea escolar?<\/p>\n<p><strong>Alexandre Stevens:<\/strong>\u00a0Fisicamente, \u00e9 um c\u00f4modo que deve ser mais ou menos quinze metros quadrados. A institui\u00e7\u00e3o \u00e9 dividida em tr\u00eas. Na parte maior se encontra uma mesa em torno da qual alguns se colocam e que serve como lugar de encontros mais p\u00fablicos, especialmente de trabalho escolar. Depois h\u00e1 dois pequenos consult\u00f3rios, cada um perfazendo tr\u00eas a quatro metros quadrados: s\u00e3o os lugares onde se fala em particular com um participante\/professor, com alguma discri\u00e7\u00e3o. \u00c9 bem pequeno como local. Isso acontece nesses lugares onde se encontram crian\u00e7as de rua. \u00c9 um lugar onde se localiza inclusive uma das principais delegacias de pol\u00edcia, que, dependendo da ocasi\u00e3o, interv\u00e9m tamb\u00e9m junto dessas crian\u00e7as, mas, \u00e9 preciso dizer, de uma forma diferente.<\/p>\n<p><strong>Pergunta:<\/strong>\u00a0\u00c9 a proximidade geogr\u00e1fica que permite captar essas crian\u00e7as para um trabalho no Ponto de Encontro, mas, haveria um deslocamento dos praticantes para o encontro com algumas crian\u00e7as na rua?<\/p>\n<p><strong>Alexandre Stevens:<\/strong>\u00a0Existem os dois. No in\u00edcio, esses encontros eram feitos na rua e depois se abriu esse local que fica na pra\u00e7a. Ao lado dessa, h\u00e1 um morro no qual existe um grupo bem expressivo de crian\u00e7as de rua. Mas eles (trabalhadores da Uyarina) tamb\u00e9m v\u00e3o ao encontro de crian\u00e7as de rua em outros lugares. Hoje, essencialmente, eles est\u00e3o localizados nesse lugar que \u00e9 pr\u00f3ximo das ruas onde est\u00e3o essas crian\u00e7as.<\/p>\n<p><strong>Pergunta:<\/strong>Qual postulado te\u00f3rico orienta o trabalho dessa institui\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<figure id=\"attachment_5659348\" aria-describedby=\"caption-attachment-5659348\" style=\"width: 200px\" class=\"wp-caption alignright\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-5659348\" src=\"http:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/pedrosa280-200x300.jpg\" alt=\"\" width=\"200\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/pedrosa280-200x300.jpg 200w, https:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/pedrosa280-274x412.jpg 274w, https:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/pedrosa280.jpg 280w\" sizes=\"auto, (max-width: 200px) 100vw, 200px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-5659348\" class=\"wp-caption-text\">Renata Pedrosa<\/figcaption><\/figure>\n<p>Fala-se a\u00ed de psican\u00e1lise aplicada, e, se assim for, como se recusa e se adota essa orienta\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p><strong>Alexandre Stevens:<\/strong>\u00a0\u00c9 uma institui\u00e7\u00e3o que se pretende psicanal\u00edtica e que \u00e9 de orienta\u00e7\u00e3o da psican\u00e1lise aplicada. Essencialmente, Ponto de Encontro \u00e9 um lugar onde os jovens podem vir falar, onde eles s\u00e3o escutados por psicanalistas ou por pessoas em forma\u00e7\u00e3o anal\u00edtica. Mas, al\u00e9m da assist\u00eancia escolar da qual falei, n\u00e3o acontece nada mais. Esses meninos de rua s\u00e3o, por outro lado, ajudados pelas institui\u00e7\u00f5es religiosas para os cuidados necess\u00e1rios, que lhes d\u00e3o um pouco de alimenta\u00e7\u00e3o, de leite, coisas assim. A especificidade do Ponto de Encontro \u00e9, justamente, n\u00e3o se ocupar de todas essas necessidades e ser somente um lugar onde se pode vir falar. Trata-se de um lugar que \u00e9 unicamente orientado pelo sistema de refer\u00eancia psicanal\u00edtica. N\u00e3o obstante, principalmente para as crian\u00e7as menores, existe todo um apoio escolar que \u00e9 mais implementado. Assim, a refer\u00eancia \u00e9 psicanal\u00edtica, mas, por outro lado, n\u00e3o exclui o trabalho com a pedagogia, na medida do poss\u00edvel e do necess\u00e1rio. Quer dizer, o m\u00e1ximo poss\u00edvel.<\/p>\n<p>A quest\u00e3o que se coloca inicialmente \u00e9, quando se diz \u201cum lugar para vir falar\u201d, primeiramente conseguir que a palavra possa querer dizer alguma coisa para eles. Pois s\u00e3o jovens que, frequentemente, ocupam seu tempo brigando e se drogando nessa pra\u00e7a. Existem algumas meninas, existem rela\u00e7\u00f5es sexuais, elas tamb\u00e9m t\u00eam filhos, mas n\u00e3o h\u00e1, de fato, casais. Isso circula de modo diferente. A parceria deles \u00e9 mais a briga e a droga mais barata do mundo, ou seja, a cola. Por outro lado, vir falar implica, de in\u00edcio, ter vontade de falar. Mas isso n\u00e3o \u00e9 muito a praia deles. O h\u00e1bito deles \u00e9 brigar, interpelar, falar na delegacia policial. Vir para falar como tal n\u00e3o faz parte da rotina deles. A primeira coisa \u00e9 coloc\u00e1-los diante da ideia mesma de que \u00e9 poss\u00edvel falar, falar de si, de uma dificuldade encontrada, etc.<\/p>\n<p><strong>Pergunta:<\/strong>\u00a0Sem que isso seja um interrogat\u00f3rio policial&#8230;<\/p>\n<p><strong>Alexandre Stevens:<\/strong>De fato. O que \u00e9 muito surpreendente \u00e9 que a pol\u00edcia os chama somente por seus apelidos. Todos eles t\u00eam um apelido e assim s\u00e3o chamados entre eles. Os apelidos s\u00e3o dados por uma caracter\u00edstica f\u00edsica ou um h\u00e1bito. Um deles \u00e9 chamado de \u201co chin\u00eas\u201d, pois ele tem os olhos um pouco puxados; outro, \u201ccrian\u00e7a do lixo\u201d, pois ele se aloja sempre perto das lixeiras. S\u00e3o apelidos que t\u00eam um sentido, como, ali\u00e1s, todos os apelidos do mundo. Ent\u00e3o, a pol\u00edcia os chama por seus apelidos, enquanto, no Ponto de Encontro, n\u00f3s os chamamos somente por seus nomes. Pediu-se que seus nomes fossem declarados e, pouco a pouco, \u00e9 o \u00fanico lugar onde s\u00e3o chamados pelo nome e sobrenome, enquanto em outros lugares s\u00e3o chamados pelo apelido.<\/p>\n<figure id=\"attachment_5659349\" aria-describedby=\"caption-attachment-5659349\" style=\"width: 280px\" class=\"wp-caption alignright\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-5659349\" src=\"http:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/nakanishi280.jpg\" alt=\"\" width=\"280\" height=\"209\" srcset=\"https:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/nakanishi280.jpg 280w, https:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/nakanishi280-274x205.jpg 274w\" sizes=\"auto, (max-width: 280px) 100vw, 280px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-5659349\" class=\"wp-caption-text\">Natsuyuki Nakanishi<\/figcaption><\/figure>\n<p><strong>Pergunta:<\/strong>\u00a0Os apelidos usados pela pol\u00edcia s\u00e3o aqueles que ela d\u00e1 para esses jovens, ou s\u00e3o apelidos que os jovens se d\u00e3o, eles mesmos?<\/p>\n<p><strong>Alexandre Stevens:<\/strong>S\u00e3o apelidos que eles mesmos se d\u00e3o. Ali\u00e1s, contaram-me um incidente. A pol\u00edcia deteve uma jovem \u2013 pois de tempos em tempos isso acontece em fun\u00e7\u00e3o da viol\u00eancia que excede entre eles, e \u00e9 quando a pol\u00edcia irrompe. Era uma jovem e a pol\u00edcia perguntou-lhe seu apelido; ela disse que n\u00e3o tinha. A pol\u00edcia n\u00e3o quis acreditar nela e ela o inventou, na hora, para a pol\u00edcia: \u201ccrian\u00e7a de rua\u201d. \u00c9 divertido, pois ela se designou por isso que ela era do lado da identifica\u00e7\u00e3o. O apelido identifica do lado imagin\u00e1rio, mas identifica, ao mesmo tempo, do lado do sentido. Enquanto o nome marca uma dist\u00e2ncia em rela\u00e7\u00e3o a isso. A palavra implica, pois, o nome, isso implica que se fale em seu nome, e implica certa responsabilidade subjetiva. Todo o trabalho \u00e9 chegar a que se tenha a\u00ed uma implica\u00e7\u00e3o subjetiva.<\/p>\n<p>Estar na rua \u00e9 uma escolha, frequentemente uma escolha for\u00e7ada do sujeito por raz\u00f5es econ\u00f4micas, mas tamb\u00e9m por raz\u00f5es de estrutura. Eu encontrei algumas dessas crian\u00e7as de rua. Escutei falar de muitas delas no plano das discuss\u00f5es cl\u00ednicas e devo dizer que estamos amplamente no campo da psicose. S\u00e3o pessoas fortemente desamparadas no mundo para se juntar a esse mundo muito marginal, ali\u00e1s, como uma parte dos Sem Domicilio Fixo (SDF) para n\u00f3s. Mas isso n\u00e3o \u00e9 somente por uma quest\u00e3o econ\u00f4mica. Existem, ao mesmo tempo, raz\u00f5es econ\u00f4micas e as raz\u00f5es de estrutura subjetiva que fazem com que eles se encontrem assim na rua.<\/p>\n<p><strong>Pergunta:<\/strong>\u00a0A realidade desse trabalho com as crian\u00e7as de rua faz um chamado para outro sistema de refer\u00eancia do que o da estrutura, da transfer\u00eancia, dos conceitos que temos o costume de utilizar? Chegamos com as refer\u00eancias psicanal\u00edticas da mesma maneira nesse trabalho? Ela encontra a mesma pertin\u00eancia?<\/p>\n<p><strong>Alexandre Stevens:<\/strong>\u00a0Sim, totalmente. Do lado da estrutura do sujeito, a quest\u00e3o se coloca sempre quando se debate isso clinicamente. Os efeitos de transfer\u00eancia s\u00e3o incontest\u00e1veis quando n\u00f3s os vemos encontrar um ou outro educador no local. Mas o que me parece mais surpreendente \u00e9 o que se passa ao n\u00edvel da responsabilidade subjetiva. Por exemplo, fui informado sobre um caso cl\u00ednico de uma jovem adolescente que est\u00e1 parcialmente na rua e parcialmente na escola. Na rua, ela j\u00e1 foi violada, sofreu efeitos de toda uma s\u00e9rie de devasta\u00e7\u00e3o inerentes \u00e0 passagem pela rua e tamb\u00e9m j\u00e1 foi drogada. Na escola ela chora por ser injuriada pelos colegas de classe, onde a tratam como \u201cmenina de rua\u201d e tamb\u00e9m \u201cde ter sido violada\u201d. Ela toma isso como uma inj\u00faria. Quando um dos respons\u00e1veis da institui\u00e7\u00e3o vai com ela \u00e0 escola, ele descobre que ela se faz injuriar pelos outros, mas \u00e9 porque ela mesma contou para os outros que ela \u00e9 uma crian\u00e7a de rua, que ela se fez violar, etc. A partir da\u00ed, falando disso novamente, ela bruscamente compreendeu que a palavra tem um efeito. Que o fato de que ela falou tinha esse efeito. E pela primeira vez depois dessa sequ\u00eancia \u2013 quando ela j\u00e1 tinha ido falar regularmente no Ponto de Encontro, mas a\u00ed, sempre queria falar apenas em p\u00fablico \u2013, pediu para falar num consult\u00f3rio, para que ningu\u00e9m escutasse o que ela dizia. A\u00ed est\u00e1 um efeito de constru\u00e7\u00e3o sintom\u00e1tica e de tomada de uma responsabilidade subjetiva, nisso que falar quer dizer, e nisso que lhe traz como consequ\u00eancias. Ela \u00e9 injuriada porque ela mesma forneceu ao outro os instrumentos para injuri\u00e1-la. A partir disso, tomando em considera\u00e7\u00e3o pela primeira vez o lado subjetivo, ela p\u00f4de trocar parcialmente de posi\u00e7\u00e3o. O trabalho consiste muito em fazer aparecer essa responsabilidade subjetiva dos jovens. Nesse sentido, essas s\u00e3o as refer\u00eancias que temos na psican\u00e1lise, caso por caso.<\/p>\n<figure id=\"attachment_5659350\" aria-describedby=\"caption-attachment-5659350\" style=\"width: 200px\" class=\"wp-caption alignright\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-5659350\" src=\"http:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/choucair280-200x300.jpg\" alt=\"\" width=\"200\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/choucair280-200x300.jpg 200w, https:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/choucair280-274x411.jpg 274w, https:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/choucair280.jpg 280w\" sizes=\"auto, (max-width: 200px) 100vw, 200px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-5659350\" class=\"wp-caption-text\">Saloua Raouda Choucairi<\/figcaption><\/figure>\n<p><strong>Pergunta:<\/strong>\u00a0Trata-se ent\u00e3o de fazer aparecer essa refer\u00eancia subjetiva mais al\u00e9m do contexto social e econ\u00f4mico, pelo qual n\u00e3o \u00e9 preciso se deixar cegar totalmente&#8230;<\/p>\n<p><strong>Alexandre Stevens:<\/strong>\u00a0Exatamente, pois o contexto econ\u00f4mico e social \u00e9 apenas uma parte do problema. Ele existe efetivamente, mas h\u00e1 certo n\u00famero de rea\u00e7\u00f5es poss\u00edveis, e, no fundo, s\u00e3o essas rea\u00e7\u00f5es que essa institui\u00e7\u00e3o procura deixar abertas para esses jovens, na medida em que eles est\u00e3o prontos para reagir a isso.<\/p>\n<p><strong>Pergunta:<\/strong>\u00a0Eles s\u00e3o todos psic\u00f3ticos?<\/p>\n<p><strong>Alexandre Stevens:<\/strong>N\u00e3o poderia dizer que todos o s\u00e3o. Mas, daqueles dos quais escutei falar e por esses com quem rapidamente encontrei, muitos me pareceram psic\u00f3ticos e, sobretudo, os que permanecem nas ruas. Desses que est\u00e3o nas ruas sem regularidade e que, em parte est\u00e3o na escola, particularmente a jovem de quem falei aqui no plano cl\u00ednico, parece-me menos seguro que sejam psic\u00f3ticos. No quadro desses jovens que n\u00e3o s\u00e3o completamente \u201cmeninos de rua\u201d, s\u00e3o jovens em perigo, na margem entre a rua e a inser\u00e7\u00e3o. Alguns deles n\u00e3o s\u00e3o psic\u00f3ticos, seguramente. N\u00e3o tenho a estat\u00edstica disso mas \u00e9 uma impress\u00e3o bem sustentada a partir do que escutei.<\/p>\n<p><strong>Pergunta:<\/strong>\u00a0Em que consistiram suas interven\u00e7\u00f5es diante dessa equipe e com as crian\u00e7as?<\/p>\n<p><strong>Alexandre Stevens:<\/strong>\u00a0Fui convidado para discutir com eles sobre seus casos cl\u00ednicos, mas na condi\u00e7\u00e3o de que eles escrevessem um livro sobre isso. Eles queriam formalizar um pouco seus encontros cl\u00ednicos e o trabalho que eles fizeram, para coloc\u00e1-lo no papel e extrair disso um ensinamento. Eles tinham me convidado para supervisionar, para ajud\u00e1-los a formalizar seus casos cl\u00ednicos, as situa\u00e7\u00f5es que eles encontram e o trabalho que fazem. Durante quatro dias, meu trabalho consistiu em fazer isso com eles. E ainda dei uma confer\u00eancia na Universidade sobre o tema dos meninos de rua. Havia muitas pessoas, fiquei muito impressionado com isso. Com as pr\u00f3prias crian\u00e7as, s\u00f3 tive um breve encontro com um grupo na pra\u00e7a, em frente ao local de Uyarina. Um encontro que foi muito interessante. N\u00e3o os encontrei sozinho, pois eles n\u00e3o me conheciam. Eu os encontrei com a equipe que os atende regularmente.<\/p>\n<p>Assim que os vimos na pra\u00e7a, o que me impressionou muito foi quando eles estavam justamente entre dois bandos, a ponto de se baterem um pouco. Digo um pouco, pois \u00e9, em alguns momentos, mais violento, e, em outros, menos. O fato \u00e9 que eles rapidamente pararam para ver chegar as pessoas de Uyarina e, nisso, dizendo explicitamente: \u201cvamos falar\u201d. O que \u00e9 muito interessante, \u00e9 que a ideia de ir falar reduziu o volume da viol\u00eancia.<\/p>\n<p>O outro efeito \u00e9 que, no momento em que eles falam, eles n\u00e3o se drogam. Isso diz que eles se drogam permanentemente. Os jovens dessa pra\u00e7a ficam permanentemente paralisados com recipiente branco de cola, a Kefla tal como eles chamam isso, cheirando, salvo quando eles est\u00e3o prestes a falar e a\u00ed eles a colocam no bolso. Ent\u00e3o \u00e9 um simples e pequeno efeito bem localizado, a partir do qual pude ver como a fala reduz a viol\u00eancia e reduz o consumo, pelo menos em alguns instantes.<\/p>\n<p><strong>Pergunta:<\/strong>\u00a0O senhor j\u00e1 falou de um caso particular. Haveria outro caso a partir do qual gostaria de nos dizer alguma coisa: um caso encontrado, ou atrav\u00e9s do qual o senhor supervisionou um trabalho junto aos profissionais?<\/p>\n<p><strong>Alexandre Stevens:<\/strong>\u00a0Para ser otimista ent\u00e3o, um caso totalmente interessante. \u00c9 um jovem de rua, que j\u00e1 estava nas ruas h\u00e1 muitos anos, e que, recentemente, encontrou no \u00f4nibus a fundadora da institui\u00e7\u00e3o, Sofia Guaraguara. Ela n\u00e3o o reconheceu imediatamente, mas ele se apresentou e ela o reconheceu. Ele se tornou arquiteto nesse meio tempo. Para algu\u00e9m que se encontrava na rua, colocar-se a construir casas, n\u00e3o \u00e9 nada mal! Isso indica que existe uma dimens\u00e3o de escolha que permite sair disso tamb\u00e9m. Achei bem extraordin\u00e1rio como percurso. E depois, lembro-me tamb\u00e9m que, na pra\u00e7a, reencontrando-os, um dos jovens conversava comigo, tinha outro que queria falar comigo ao mesmo tempo; ele parou imediatamente de falar, dizendo: \u201ccada um fala na sua vez\u201d. Isso tamb\u00e9m \u00e9 um efeito da fala que achei interessante, n\u00e3o est\u00e1 do lado da fala grupal, mas foi \u201cum a cada vez\u201d.<\/p>\n<footer>______________________________<\/p>\n<h6 id=\"footnote-1\"><sup>1<\/sup>\u00a0Alexandre Stevens \u00e9 psiquiatra, psicanalista, membro da Escola da Causa Freudiana, professor na Se\u00e7\u00e3o Cl\u00ednica de Bruxelas. Ele fundou o Courtil em 1983, institui\u00e7\u00e3o da qual \u00e9 o diretor cl\u00ednico desde ent\u00e3o.<\/h6>\n<h6 id=\"footnote-2\"><sup>2<\/sup>\u00a0Agradecemos a amabilidade de Alexandre Stevens em autorizar ao CIEN Digital a publica\u00e7\u00e3o desta entrevista, realizada por Sophie Simon, com texto estabelecido por Brigitte Duquesne. Originalmente publicada na revista Courtil em Lignes, n. 5, 17\/06\/2012.<\/h6>\n<\/footer>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Tradu\u00e7\u00e3o: Samyra Assad Revis\u00e3o: Maria Rita Guimar\u00e3es Pergunta:\u00a0Como se chama a institui\u00e7\u00e3o boliviana na qual o senhor trabalhou? Alexandre Stevens:\u00a0Ela se chama Uyarina, que em qu\u00e9chua quer dizer \u201cfalar\u201d. Mas, l\u00e1, ela \u00e9 chamada pelas crian\u00e7as principalmente pelo nome do lugar onde s\u00e3o acolhidas, que se chama, em espanhol, Punto de Encuentro portanto, Ponto de&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":5659348,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[138,20],"tags":[125],"post_series":[],"class_list":["post-5659347","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-cien-digital14","category-orbita","tag-cien_digital_14","entry","has-media"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/ciendigital.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5659347","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/ciendigital.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/ciendigital.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ciendigital.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ciendigital.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=5659347"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/ciendigital.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5659347\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ciendigital.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/5659348"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/ciendigital.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=5659347"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/ciendigital.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=5659347"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/ciendigital.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=5659347"},{"taxonomy":"post_series","embeddable":true,"href":"https:\/\/ciendigital.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/post_series?post=5659347"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}