{"id":5659357,"date":"2019-03-17T11:40:05","date_gmt":"2019-03-17T14:40:05","guid":{"rendered":"http:\/\/ciendigital.com.br\/?p=5659357"},"modified":"2019-03-17T12:02:43","modified_gmt":"2019-03-17T15:02:43","slug":"laboratorio-em-formacao-da-contingencia-do-encontro-a-invencao-de-uma-bussola-o-cien-na-bahia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ciendigital.com.br\/index.php\/2019\/03\/17\/laboratorio-em-formacao-da-contingencia-do-encontro-a-invencao-de-uma-bussola-o-cien-na-bahia\/","title":{"rendered":"Laborat\u00f3rio em forma\u00e7\u00e3o Da conting\u00eancia do encontro \u00e0 inven\u00e7\u00e3o de uma b\u00fassola: o CIEN na Bahia"},"content":{"rendered":"<div class=\"pdfprnt-buttons pdfprnt-buttons-post pdfprnt-top-right\"><a href=\"https:\/\/ciendigital.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5659357?print=pdf\" class=\"pdfprnt-button pdfprnt-button-pdf\" target=\"_blank\" ><\/a><a href=\"https:\/\/ciendigital.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5659357?print=print\" class=\"pdfprnt-button pdfprnt-button-print\" target=\"_blank\" ><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/plugins\/pdf-print\/images\/print.png\" alt=\"image_print\" title=\"Conte\u00fado de impress\u00e3o\" \/><\/a><\/div><h6>M\u00f4nica Hage Pereira<\/h6>\n<p>Com o tema \u201cFurando etiquetas \u2013 o tra\u00e7o da pol\u00edtica do CIEN\u201d, a III Manh\u00e3 de Trabalhos do Centro Interdisciplinar de Estudos sobre a crian\u00e7a (CIEN), em Salvador, promoveu um encontro com consequ\u00eancias. O CIEN aposta na conting\u00eancia do encontro. E foi desse encontro em Salvador que algo novo p\u00f4de advir \u2013 o desejo de cria\u00e7\u00e3o de um laborat\u00f3rio do CIEN na Bahia.<\/p>\n<p>Vivenciando o cotidiano de uma Institui\u00e7\u00e3o P\u00fablica de Sa\u00fade Mental, o atendimento a crian\u00e7as e adolescentes nos coloca frente \u00e0 quest\u00e3o: o que cada um faz com o que n\u00e3o se controla? Recebemos, diariamente, crian\u00e7as e adolescentes \u201cetiquetados\u201d sob o r\u00f3tulo de \u201chiperativos\u201d, \u201cf\u00f3bicos\u201d, \u201cdeprimidos\u201d, \u201cautistas\u201d, portadores de \u201cretardo mental\u201d, e tantos outros. Essas s\u00e3o as marcas que lhe s\u00e3o atribu\u00eddas como representante de uma categoria, \u00e0 qual, a partir da etiqueta, dever\u00e3o pertencer. As pol\u00edticas universalizantes, com avalia\u00e7\u00f5es baseadas em etiquetas, v\u00eam promovendo uma inf\u00e2ncia catalogada.<\/p>\n<p>Dentro da Institui\u00e7\u00e3o P\u00fablica, seja ela da \u00e1rea de Sa\u00fade, Educa\u00e7\u00e3o ou Justi\u00e7a, compartilhamos com profissionais impelidos a responder ao imperativo do controle social. O saber de cada um encontra-se obturado.<\/p>\n<p>Demandados pelas escolas, pelos Conselhos Tutelares, pelas fam\u00edlias, ou por outros profissionais m\u00e9dicos, fonoaudi\u00f3logos, terapeutas ocupacionais, etc., os profissionais \u201cpsis\u201d, por sua vez, costumam ser solicitados a responder \u00e0quilo que nenhuma outra inst\u00e2ncia conseguiu \u201csolucionar\u201d \u2013 as \u201cdemandas imposs\u00edveis\u201d. \u00c9 preciso, nesse momento, n\u00e3o sucumbir \u00e0 impot\u00eancia. Mas, \u201cna impot\u00eancia, colocar um ponto de possibilidade\u201d, como nos disse Maria do Ros\u00e1rio Collier, na III Manh\u00e3 de Trabalhos do CIEN.<\/p>\n<p>Pensando nesse ponto de possibilidade, trago uma vinheta de um atendimento pela equipe do ambulat\u00f3rio infanto-juvenil do Hospital Juliano Moreira. M. tem 14 anos e chega, encaminhado pela colega psiquiatra, praticamente sem sobrancelhas, pois vem arrancando os pelos frequentemente. Muito inquieto, mal consegue permanecer sentado enquanto conversa. Sempre rindo, sugerindo certo desd\u00e9m, me fala que o irm\u00e3o, usu\u00e1rio de drogas, perturba-o muito: \u201co problem\u00e1tico \u00e9 ele\u201d. Sente-se injusti\u00e7ado em casa, \u201ctudo de errado, dizem que sou o culpado&#8230;\u201d.<\/p>\n<figure id=\"attachment_5659358\" aria-describedby=\"caption-attachment-5659358\" style=\"width: 280px\" class=\"wp-caption alignright\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-5659358\" src=\"http:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/mignone280.jpg\" alt=\"\" width=\"280\" height=\"281\" srcset=\"https:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/mignone280.jpg 280w, https:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/mignone280-150x150.jpg 150w, https:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/mignone280-274x275.jpg 274w, https:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/mignone280-50x50.jpg 50w\" sizes=\"auto, (max-width: 280px) 100vw, 280px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-5659358\" class=\"wp-caption-text\">V\u00e2nia Mignone<\/figcaption><\/figure>\n<p>O pai, \u201cj\u00e1 muito cansado\u201d, diz que \u201cn\u00e3o aguenta mais.\u201d N\u00e3o sabe o que fazer com M. pois ele n\u00e3o o obedece. Recebe queixas di\u00e1rias da escola, que tamb\u00e9m n\u00e3o sabe como agir com esse aluno, que \u201cn\u00e3o se concentra em nada\u201d, \u201cn\u00e3o assiste \u00e0s aulas, \u201cbagun\u00e7a muito\u201d e \u201cnada aprende\u201d. Frequentemente M. sai de casa sem autoriza\u00e7\u00e3o dos pais e fica \u201caprontando na rua, provocando brigas com os vizinhos.\u201d Em um encontro, M. me pergunta se tenho facebook. Indago-lhe porque e ele diz que gostaria de me adicionar como amiga, para que eu ficasse lhe dizendo, no decorrer da semana: \u201cM. n\u00e3o fa\u00e7a isso, M. n\u00e3o fa\u00e7a aquilo&#8230;\u201d \u201cVoc\u00ea poderia me dizer, pelo facebook, o que devo, ou n\u00e3o, fazer\u201d. Bastante surpresa com essa \u201cinven\u00e7\u00e3o\u201d, hesitei em aceit\u00e1-la por n\u00e3o me sentir confort\u00e1vel ocupando o lugar de \u201clei\u201d que esse adolescente me demandava. Pouco tempo depois, o pai, que tamb\u00e9m em diversas vezes me demandou esse lugar, me diz, num momento de desespero, que ir\u00e1 procurar o Conselho Tutelar pois precisa de \u201calgo que fa\u00e7a o filho parar\u201d e que agora a situa\u00e7\u00e3o piorou pois M. n\u00e3o quer vir mais para os atendimentos. Vale ressaltar que antes disso acontecer, o pai havia me solicitado que internasse M.<\/p>\n<p>Busco, com essa vinheta, trazer um pouco dos impasses que nos deparamos num ambulat\u00f3rio de um hospital psiqui\u00e1trico e de como muitas vezes \u00e9 preciso inventar, criar um ponto de possibilidade diante da impot\u00eancia. O que teria ocorrido se aceitasse a proposta virtual de M.? S\u00e3o pontos para reflex\u00e3o e, qui\u00e7\u00e1, entrarem numa roda de Conversa\u00e7\u00e3o. Se buscamos trabalhar na perspectiva da interdisciplinaridade, porque n\u00e3o debater sobre a \u201csolu\u00e7\u00e3o\u201d encontrada por M., atrav\u00e9s da sua \u201cinclus\u00e3o\u201d na lista dos meus amigos do facebook?<\/p>\n<figure id=\"attachment_5659359\" aria-describedby=\"caption-attachment-5659359\" style=\"width: 280px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-5659359\" src=\"http:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/edenmont280.jpg\" alt=\"\" width=\"280\" height=\"210\" srcset=\"https:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/edenmont280.jpg 280w, https:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/edenmont280-274x206.jpg 274w\" sizes=\"auto, (max-width: 280px) 100vw, 280px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-5659359\" class=\"wp-caption-text\">Nathalia Edenmont<\/figcaption><\/figure>\n<p>Quest\u00f5es como essa ilustrada acima, e tantas outras do cotidiano institucional, levam-nos \u00e0 reflex\u00e3o e constata\u00e7\u00e3o da import\u00e2ncia de um lugar para debat\u00ea-las, de forma tal que as demandas que nos chegam do universo multidisciplinar (professores, representantes dos Conselhos Tutelares, etc.) possam encontrar na roda de Conversa\u00e7\u00e3o, um espa\u00e7o poss\u00edvel onde a palavra circule e o n\u00e3o saber seja suportado, isto \u00e9, um espa\u00e7o interdisciplinar. Dessa forma, come\u00e7amos a discutir sobre a implanta\u00e7\u00e3o de um laborat\u00f3rio do CIEN ainda que, nesse momento, ele se configure como Laborat\u00f3rio em Forma\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Em entrevista concedida recentemente, por ocasi\u00e3o do XIX Encontro Brasileiro do Campo Freudiano, Judith Miller coloca que o CIEN \u00e9 uma das maneiras de dizer, de inventar, uma modalidade que valoriza o trabalho social e que pode permitir a cada um dar conta da impot\u00eancia.<\/p>\n<p>Os profissionais, das diversas disciplinas, que participam das experi\u00eancias do CIEN n\u00e3o sustentam uma cl\u00ednica psicanal\u00edtica, mas, segundo Udenio (2011), se orientam por aquilo que os praticantes da psican\u00e1lise podem lhes transmitir do que extraem de sua forma\u00e7\u00e3o, de sua an\u00e1lise pessoal \u2013 da\u00ed a denomina\u00e7\u00e3o de \u201canalisantes esclarecidos\u201d \u2013 e do que sua pr\u00e1tica anal\u00edtica lhes ensinou.<\/p>\n<p>Sobre isso, Miller (2012) tece um coment\u00e1rio: \u201cos analistas do Campo Freudiano nos laborat\u00f3rios do CIEN realizam um trabalho \u2013 n\u00e3o cl\u00ednico \u2013 mas tendo como tarefa arranjar no mundo contempor\u00e2neo \u2013 denunciando os entraves que fazem obst\u00e1culo e os falsos semblantes que o querem calar \u2013 um espa\u00e7o onde o inconsciente se torne aud\u00edvel. Para isso, o inconsciente deve ter um destinat\u00e1rio&#8230;\u201d<\/p>\n<p>As Conversa\u00e7\u00f5es interdisciplinares do CIEN permitem, segundo Judith Miller, \u201cabrir espa\u00e7os onde a subjetividade de cada um possa encontrar um lugar.\u201d Ao darmos a oportunidade de se tomar a palavra, atentos ao que escapa e n\u00e3o se encaixa nas normas, teremos a chance de \u201crecolhermos efeitos de sujeito\u201d.<\/p>\n<p>Num mundo em que, cada vez mais, o que um sujeito enuncia encontra-se desacreditado; onde n\u00e3o h\u00e1 espa\u00e7o para a singularidade, \u00e9 responsabilidade do CIEN, atrav\u00e9s dos seus laborat\u00f3rios, promover este espa\u00e7o.<\/p>\n<p>Com a express\u00e3o paradoxal \u201cme inclui fora dessa\u201d, proferida por um adolescente que participava de um dos laborat\u00f3rios em Belo Horizonte, Beatriz Udenio nos traz, em entrevista concedida por ocasi\u00e3o do XIX Encontro Brasileiro do Campo Freudiano, um exemplo precioso de como cada um poder\u00e1 incluir sua singularidade no mundo. Poder estar no mundo, resguardando a sua singularidade, n\u00e3o \u00e9 tarefa simples. Teria sido essa a maneira encontrada por M. de \u201cincluir-se\u201d \u2013 estando na minha lista de amigos do facebook, ainda que n\u00e3o conseguisse sustentar, por muito tempo, qualquer v\u00ednculo, sequer nos atendimentos?<\/p>\n<footer>______________________________<\/p>\n<h6><strong>Refer\u00eancias Bibliogr\u00e1ficas:<\/strong><\/h6>\n<h6>MILLER, J-A. Coment\u00e1rio durante a reuni\u00e3o dos laborat\u00f3rios no outono de 2006; publicado no Anu\u00e1rio do CIEN- Brasil 2011-2012.<\/h6>\n<h6>UDENIO, B. A modo de orientaci\u00f3n. Boletim Preparat\u00f3rio \u00e0 5\u00aa Jornada Internacional do CIEN, n.4, abr.2011.<\/h6>\n<\/footer>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>M\u00f4nica Hage Pereira Com o tema \u201cFurando etiquetas \u2013 o tra\u00e7o da pol\u00edtica do CIEN\u201d, a III Manh\u00e3 de Trabalhos do Centro Interdisciplinar de Estudos sobre a crian\u00e7a (CIEN), em Salvador, promoveu um encontro com consequ\u00eancias. O CIEN aposta na conting\u00eancia do encontro. 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