{"id":5659368,"date":"2019-03-17T11:47:38","date_gmt":"2019-03-17T14:47:38","guid":{"rendered":"http:\/\/ciendigital.com.br\/?p=5659368"},"modified":"2019-03-17T12:02:09","modified_gmt":"2019-03-17T15:02:09","slug":"a-psicanalise-bastante-viva","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ciendigital.com.br\/index.php\/2019\/03\/17\/a-psicanalise-bastante-viva\/","title":{"rendered":"A psican\u00e1lise bastante viva"},"content":{"rendered":"<div class=\"pdfprnt-buttons pdfprnt-buttons-post pdfprnt-top-right\"><a href=\"https:\/\/ciendigital.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5659368?print=pdf\" class=\"pdfprnt-button pdfprnt-button-pdf\" target=\"_blank\" ><\/a><a href=\"https:\/\/ciendigital.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5659368?print=print\" class=\"pdfprnt-button pdfprnt-button-print\" target=\"_blank\" ><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/plugins\/pdf-print\/images\/print.png\" alt=\"image_print\" title=\"Conte\u00fado de impress\u00e3o\" \/><\/a><\/div><h6>Uma entrevista com Eric Laurent<a title=\"Leia nota\" href=\"#footnote-1\"><sup>1<\/sup><\/a><\/h6>\n<p>Eric Laurent aceitou prestar-se ao jogo de quest\u00f5es e respostas sobre o tema de sua \u00faltima obra, A batalha do autismo, publicada por Navarin em outubro de 2012.<\/p>\n<p><strong>Pergunta:<\/strong>\u00a0O Sr escolhe um vocabul\u00e1rio marcial para o t\u00edtulo de sua obra \u2013 A Batalha do autismo (La bataille de l\u2019autisme) \u2013, a fim de evocar os debates calorosos e os ataques contra a psican\u00e1lise que se seguiram, notadamente pela proclama\u00e7\u00e3o pelos poderes p\u00fablicos, no ano passado, do autismo como uma grande causa nacional.<\/p>\n<p>Se ampliarmos o debate, o senhor estaria de acordo em dizer que o autismo como \u201cbatalha\u201d deve ser englobado em uma guerra mais geral, e, se a resposta for sim, poderia nos precisar seu contorno?<\/p>\n<p><strong>Eric Laurent:<\/strong>\u00a0Batalha, combate, s\u00e3o palavras com as quais muitos pais de crian\u00e7as autistas qualificam o confronto cotidiano com as consequ\u00eancias do modo de ser e do sofrimento de suas crian\u00e7as. Retomei essas palavras para qualificar o confronto entre os advers\u00e1rios da psican\u00e1lise e esses que alguns chamam, atrav\u00e9s de um neologismo original, a \u201cpsiquiatria-psican\u00e1lise\u201d, e n\u00f3s, que desejamos propor uma abordagem plural dos sujeitos autistas em sua diversidade.<\/p>\n<figure id=\"attachment_5659374\" aria-describedby=\"caption-attachment-5659374\" style=\"width: 280px\" class=\"wp-caption alignright\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-5659374\" src=\"http:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/ramos280.jpg\" alt=\"\" width=\"280\" height=\"186\" srcset=\"https:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/ramos280.jpg 280w, https:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/ramos280-274x182.jpg 274w\" sizes=\"auto, (max-width: 280px) 100vw, 280px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-5659374\" class=\"wp-caption-text\">Nuno Ramos<\/figcaption><\/figure>\n<p><strong>Pergunta:<\/strong>\u00a0A respeito disso, o que pensar do paradigma cognitivo-comportamental, do qual at\u00e9 mesmo alguns partid\u00e1rios, como o psiquiatra Laurent Mottron, e tamb\u00e9m alguns autistas de alto n\u00edvel (n\u00e3o especialmente favor\u00e1veis \u00e0 psican\u00e1lise) \u2013 colocam em quest\u00e3o certos tipos de tratamentos inspirados nessas teorias, como ABA: podemos considerar que esse paradigma e suas consequ\u00eancias cl\u00ednicas fazem um sucesso na Europa no momento mesmo em que ele perde um pouco de f\u00f4lego nos pa\u00edses anglosax\u00f5es (como o senhor t\u00e3o bem nos explica na parte sobre as vibrantes discuss\u00f5es em torno do DSM V)?<\/p>\n<p><strong>Eric Laurent:<\/strong>\u00a0Constato que a via \u201cTudo TCC\u201d, em particular isso que a equipe de Monttron chama \u201ca ind\u00fastria ABA-Autismo\u201d, provoca in\u00fameras oposi\u00e7\u00f5es, por raz\u00f5es muito diferentes. H\u00e1 a oposi\u00e7\u00e3o dos pr\u00f3prios usu\u00e1rios, os autistas de alto n\u00edvel. H\u00e1 a oposi\u00e7\u00e3o dos burocratas da sa\u00fade que n\u00e3o querem ser arruinados pelo custo dos tratamentos individuais \u2013 ABA, especialmente proibitivos (60.000 $ anuais por tratamento). A Su\u00e9cia renunciou a todo ABA para escolher tratamentos TCC mais ecl\u00e9ticos e lights. H\u00e1 tamb\u00e9m nossas obje\u00e7\u00f5es, que se formulam contrariamente ainda. Esse momento de desilus\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o a isso que era um frenesi, deve nos permitir precisar melhor o tipo de aprendizagens n\u00e3o estritamente repetitivas que n\u00f3s sustentamos. Uma aprendizagem que possa incluir a repeti\u00e7\u00e3o e o jogo.<\/p>\n<figure id=\"attachment_5659373\" aria-describedby=\"caption-attachment-5659373\" style=\"width: 280px\" class=\"wp-caption alignright\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-5659373\" src=\"http:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/kurru280.jpg\" alt=\"\" width=\"280\" height=\"207\" srcset=\"https:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/kurru280.jpg 280w, https:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/kurru280-274x203.jpg 274w\" sizes=\"auto, (max-width: 280px) 100vw, 280px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-5659373\" class=\"wp-caption-text\">Bruno Kurru<\/figcaption><\/figure>\n<p><strong>Pergunta:<\/strong>\u00a0A quest\u00e3o do diagn\u00f3stico do autismo. Por um lado o senhor n\u00e3o pensa que, em rela\u00e7\u00e3o ao movimento de extens\u00e3o do espectro aut\u00edstico, cujas quest\u00f5es o senhor mostra bem em sua obra, temos o interesse em afinar nossas refer\u00eancias de modo a localizar uma categoria operat\u00f3ria do autismo, ao que contribui sua teoria do \u201cretorno do gozo sobre a borda\u201d? Por outro lado, nesse contexto, em que seria pertinente manter o autismo sob a l\u00f3gica da forclus\u00e3o (o senhor evoca a \u201cforclus\u00e3o do buraco\u201d no autismo)?<\/p>\n<p><strong>Eric Laurent:<\/strong>\u00a0O que est\u00e1 em jogo \u00e9 manter o que n\u00f3s apreendemos das rela\u00e7\u00f5es da forclus\u00e3o e do real em um campo que n\u00e3o se define pela forclus\u00e3o do nome do Pai. N\u00f3s n\u00e3o estamos mais no campo da psicose e, n\u00e3o obstante, os modos operat\u00f3rios do sujeito se parecem, se recobrem, se separam, isso que fez o fundo das dificuldades do lugar da cl\u00ednica do autismo.<\/p>\n<p>O ponto fundamental, entretanto, \u00e9 que existem fen\u00f4menos cl\u00ednicos no autismo que n\u00e3o t\u00eam correspond\u00eancia na psicose. Para resumir, tudo que vem da pura repeti\u00e7\u00e3o do UM, sem implica\u00e7\u00e3o do corpo ou do imagin\u00e1rio.<\/p>\n<p><strong>Pergunta:<\/strong>\u00a0O autismo \u00e9 um significante que em sua escrita aparece sob uma dupla acep\u00e7\u00e3o: ele pode ser considerado como o cavalo de Troia dos inimigos da psican\u00e1lise numa \u201cbatalha do autismo\u201d, mas se constitui tamb\u00e9m como um significante principal em nosso campo, como uma categoria operat\u00f3ria que permite afinar o diagn\u00f3stico de psicose.<\/p>\n<p>Contudo, nessa extens\u00e3o do diagn\u00f3stico do autismo a partir dos crit\u00e9rios estat\u00edsticos do DSM-IV, em que aparece ent\u00e3o como uma denomina\u00e7\u00e3o vaga que obscurece todo o campo cl\u00ednico, n\u00e3o encontramos alguma coisa de intr\u00ednseco ao movimento de nosso mundo contempor\u00e2neo, que iria no sentido de um \u201cn\u00facleo aut\u00edstico\u201d, aquele de uma radical solid\u00e3o de todo sujeito, pr\u00f3ximo das elabora\u00e7\u00f5es de Jacques-Alain Miller sobre o Um sozinho?<\/p>\n<figure id=\"attachment_5659372\" aria-describedby=\"caption-attachment-5659372\" style=\"width: 280px\" class=\"wp-caption alignright\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-5659372\" src=\"http:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/miguel280.jpg\" alt=\"\" width=\"280\" height=\"175\" srcset=\"https:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/miguel280.jpg 280w, https:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/miguel280-274x171.jpg 274w\" sizes=\"auto, (max-width: 280px) 100vw, 280px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-5659372\" class=\"wp-caption-text\">Ana Miguel<\/figcaption><\/figure>\n<p><strong>Eric Laurent:<\/strong>\u00a0Voc\u00ea situa muito bem as quest\u00f5es desse duplo movimento.<\/p>\n<p>A caracter\u00edstica epid\u00eamica da denomina\u00e7\u00e3o do autismo na nova cl\u00ednica psiqui\u00e1trica da crian\u00e7a n\u00e3o \u00e9 somente um fen\u00f4meno ligado a uma imprecis\u00e3o dos crit\u00e9rios diagn\u00f3sticos como pensa Allan Frances, o respons\u00e1vel do DSM IV atualmente cr\u00edtico ferrenho do DSM IV.<\/p>\n<p>\u00c9 o resultado de um conjunto de fatores que examino no livro. \u00c9 tamb\u00e9m, em \u00faltima inst\u00e2ncia, a percep\u00e7\u00e3o, na cl\u00ednica, do lugar da pura repeti\u00e7\u00e3o que engaja o corpo. Nessa perspectiva, a solid\u00e3o n\u00e3o \u00e9 aquela do sujeito mas aquela do Um do gozo.<\/p>\n<p><strong>Pergunta:<\/strong>\u00a0O sujeito autista e a institui\u00e7\u00e3o: Ant\u00f4nio di Ciaccia pretendia distinguir a pr\u00e1tica com v\u00e1rios do trabalho em equipe, para reservar a primeira \u00e0s interven\u00e7\u00f5es junto aos sujeitos autistas. Poder\u00edamos postular que essa distin\u00e7\u00e3o convida a pensar que o autismo \u00e9 uma defesa contra a loucura. Trata-se ent\u00e3o de se introduzir no universo do autismo respeitando essa defesa, permitindo que a\u00ed se instale um outro que a crian\u00e7a possa tolerar, um outro compat\u00edvel com suas defesas. O senhor pensa, ent\u00e3o, que essas elabora\u00e7\u00f5es nos incitam \u00e0 considera\u00e7\u00e3o de que haveria uma pr\u00e1tica com os sujeitos autistas distinta da pr\u00e1tica com a crian\u00e7a psic\u00f3tica propriamente dita?<\/p>\n<p><strong>Eric Laurent:<\/strong>\u00a0Parece mais que o sujeito autista sai de um autismo de baixo n\u00edvel de funcionamento para um funcionamento de alto n\u00edvel, como se exprimem aqueles que falam nesses termos.<\/p>\n<p>Digamos que, para n\u00f3s, permanecemos na mesma topologia de um espa\u00e7o que n\u00e3o \u00e9 estruturado como aquele no qual se coloca o sujeito psic\u00f3tico. Sa\u00edmos do autismo para retornar ao autismo, mas de outra forma.<\/p>\n<p><strong>Pergunta:<\/strong>\u00a0Tratar-se-ia, ent\u00e3o, de considerar que o manejo do \u2013 tratamento \u2013 com, ou as interven\u00e7\u00f5es junto ao autista \u2013 n\u00e3o s\u00e3o para faz\u00ea-lo cair na loucura: trata-se de fazer a crian\u00e7a sair de seu autismo ou de emparelhar-se com esta defesa de modo a permitir a\u00e7\u00f5es mais humanizantes?<\/p>\n<figure id=\"attachment_5659371\" aria-describedby=\"caption-attachment-5659371\" style=\"width: 280px\" class=\"wp-caption alignright\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-5659371\" src=\"http:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/dasilva280.jpg\" alt=\"\" width=\"280\" height=\"231\" srcset=\"https:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/dasilva280.jpg 280w, https:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/dasilva280-274x226.jpg 274w\" sizes=\"auto, (max-width: 280px) 100vw, 280px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-5659371\" class=\"wp-caption-text\">Maria Helena Vieira da Silva<\/figcaption><\/figure>\n<p><strong>Eric Laurent:<\/strong>\u00a0A met\u00e1fora segundo a qual a interven\u00e7\u00e3o junto ao sujeito autista teria por horizonte \u201clevar \u00e0 loucura\u201d, ser\u00e1 cada vez menos admiss\u00edvel. \u00c9 preciso renunciar a isso. Trata-se de se apoiar sobre o uso aut\u00edstico do objeto para ampliar o mundo do sujeito e lhe permitir encontrar seu lugar em um Outro sempre dispon\u00edvel ao deslizamento da l\u00edngua e \u00e0 conting\u00eancia.<\/p>\n<p><strong>Pergunta:<\/strong>\u00a0Aprendemos muito bem, gra\u00e7as \u00e0s descri\u00e7\u00f5es feitas pelo senhor e \u00e0s reivindica\u00e7\u00f5es de certos grupos de pais de autistas, a import\u00e2ncia da comunidade para esses sujeitos agrupados em associa\u00e7\u00e3o, assim como para os autistas de alto n\u00edvel que reivindicam tamb\u00e9m pertencer a esta mesma denomina\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Poder\u00edamos ver a\u00ed um retorno ao que Lacan descreveu em seus Complexos familiares, sob a forma desses grupos familiares que tomaram como suporte os elementos da comunidade, quando a psican\u00e1lise, ao contr\u00e1rio, nasce no contexto da subida ao z\u00eanite do individualismo contempor\u00e2neo.<\/p>\n<p>Estaria o senhor de acordo em distinguir a pr\u00e1tica com v\u00e1rios do suporte do sujeito autista por uma comunidade?<\/p>\n<p>O senhor n\u00e3o veria a\u00ed uma das raz\u00f5es dos recentes ataques contra a psican\u00e1lise que se inscreve contr\u00e1ria em rela\u00e7\u00e3o a esse retorno dos comunitarismos?<\/p>\n<p><strong>Eric Laurent:<\/strong>\u00a0Temos necessidade de dialogar com as associa\u00e7\u00f5es de pais ou de simpatizantes de sujeitos autistas que possam escutar a voz daqueles que est\u00e3o privados de obter direitos espec\u00edficos. Essas associa\u00e7\u00f5es, quando elas s\u00e3o heterog\u00eaneas, n\u00e3o agrupam somente pais de autistas, n\u00e3o apenas simpatizantes de autistas, n\u00e3o somente partid\u00e1rios de uma \u00fanica abordagem, n\u00e3o apenas uma mesma faixa de idade, etc. ser\u00e3o mais sens\u00edveis \u00e0s proposi\u00e7\u00f5es que fazemos de uma abordagem pluralizada, implementada nas institui\u00e7\u00f5es caracterizadas por esse modo m\u00faltiplo que \u00e9 a pr\u00e1tica com v\u00e1rios. Elas se afastam do modelo da comunidade de cren\u00e7a.<\/p>\n<figure id=\"attachment_5659370\" aria-describedby=\"caption-attachment-5659370\" style=\"width: 280px\" class=\"wp-caption alignright\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-5659370\" src=\"http:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/silveira280.jpg\" alt=\"\" width=\"280\" height=\"211\" srcset=\"https:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/silveira280.jpg 280w, https:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/silveira280-274x206.jpg 274w\" sizes=\"auto, (max-width: 280px) 100vw, 280px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-5659370\" class=\"wp-caption-text\">Rafael Silveira<\/figcaption><\/figure>\n<p><strong>Pergunta:<\/strong>\u00a0Seu livro \u00e9 constru\u00eddo em duas partes: a primeira \u00e9 te\u00f3rica e oferece ao leitor os avan\u00e7os mais detalhados sobre o autismo, inspirados nos trabalhos do \u00faltimo Lacan transmitidos por Jacques.-Alain Miller, mas igualmente, de suas \u00faltimas elabora\u00e7\u00f5es. A segunda parte \u00e9 mais pol\u00edtica, o senhor posiciona-se a\u00ed como um cidad\u00e3o esclarecido da cidade e demonstra as sa\u00eddas dessa \u201cbatalha do autismo\u201d, coloca em jogo seus la\u00e7os com o Big Pharma e suas verdadeiras procuras da gen\u00e9tica, que pretendem ao contr\u00e1rio cada dia fazer avan\u00e7os maiores.<\/p>\n<p>Pode-se considerar que o senhor d\u00e1, por tal composi\u00e7\u00e3o, a via da posi\u00e7\u00e3o que o cl\u00ednico orientado por Freud e Lacan deve ter na cidade: informado, combativo e o mais pr\u00f3ximo das quest\u00f5es pol\u00edticas e cl\u00ednicas? Isso pode permitir, para os jovens cl\u00ednicos, por exemplo, n\u00e3o se deixarem levar por um certo fatalismo que pretende que a psican\u00e1lise, atacada por todas as partes, est\u00e1 acabando de morrer?<\/p>\n<p><strong>Eric Laurent:<\/strong>\u00a0Como estaria acabando de morrer! Deixemos a puls\u00e3o de morte l\u00e1 onde ela est\u00e1, quer dizer, na civiliza\u00e7\u00e3o. A desordem no real testemunha isso suficientemente e n\u00f3s o exploraremos na ocasi\u00e3o do pr\u00f3ximo Congresso da AMP em 2014. A psican\u00e1lise n\u00e3o cessa de propor sua r\u00e9plica a essa puls\u00e3o de morte. O cientificismo contempor\u00e2neo \u00e9 um dos nomes dessa puls\u00e3o. Ele pensa que resolve os sintomas do vivente por um saber estat\u00edstico fetichizado, visando reduzir a particularidade a uma varia\u00e7\u00e3o cifrada.<\/p>\n<p>\u00c9 preciso, ali\u00e1s, distinguir a precis\u00e3o preditiva da s\u00e9rie estat\u00edstica do reconhecimento dos limites desse saber. Um estat\u00edstico genial como Nat Silver, \u201cking of quants\u201d (rei da quantifica\u00e7\u00e3o) como \u00e9 chamado, mant\u00e9m em seu blog hospedado no New York Times &lt;http:\/\/fivethirtyeight.blogs.nytimes.com&gt; uma cr\u00f4nica muito contempor\u00e2nea dessa tens\u00e3o e dessa delimita\u00e7\u00e3o necess\u00e1ria. Para a gen\u00e9tica, \u00e9 preciso seguir a querela das interpreta\u00e7\u00f5es, que faz tanta raiva na ci\u00eancia biol\u00f3gica quanto a querela das interpreta\u00e7\u00f5es da mec\u00e2nica qu\u00e2ntica em f\u00edsica.<\/p>\n<figure id=\"attachment_5659369\" aria-describedby=\"caption-attachment-5659369\" style=\"width: 185px\" class=\"wp-caption alignright\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-5659369\" src=\"http:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/vilar1.png\" alt=\"\" width=\"185\" height=\"192\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-5659369\" class=\"wp-caption-text\">Valeria Vilar<\/figcaption><\/figure>\n<p>Os exageros de Big Pharma sobre os resultados efetivos dos medicamentos, sua minimiza\u00e7\u00e3o dos efeitos nefastos, as dificuldades de interpreta\u00e7\u00e3o dos resultados dos ensaios cl\u00ednicos controlados (ECR), passaram, agora, de empresas fechadas \u00e0 pra\u00e7a p\u00fablica. Os esc\u00e2ndalos n\u00e3o tocam somente aos psicotr\u00f3picos mas a todas as classes de medicamentos (cf: Vioxx, Mediator, as estatinas (statines) etc.). O jovem cl\u00ednico est\u00e1 agora imerso em tudo isso. Ele est\u00e1 em um mundo em que ele mesmo toma medicamentos, como todo mundo, em que a hero\u00edna do seriado P\u00e1tria-(Homeland) toma regularmente seus psicotr\u00f3picos, onde o cen\u00e1rio do filme O lado bom da vida (The silver lining playbooks), com Bradley Cooper, Jeniffer Lawrence, Robert De Niro, faz de Bradley Cooper um simp\u00e1tico bipolar, confuso como todo mundo em seus amores. O diretor e roteirista David Russel revelou que ele fez o filme para seu filho de 12 anos, diagnosticado de bipolar. \u00c9 preciso ver o filme que \u00e9 um sucesso: foi prejudicado pela tradu\u00e7\u00e3o francesa do t\u00edtulo como Happiness Therapy.<\/p>\n<p>\u00c9 um modo contempor\u00e2neo no qual a loucura encontrou seu estatuto ordin\u00e1rio, que n\u00e3o \u00e9 somente aquele de uma doen\u00e7a, mas de um modo de ser. Esses que n\u00e3o tomam medicamentos, subst\u00e2ncias psicotr\u00f3picas legais t\u00eam recursos \u00e0s subst\u00e2ncias ilegais, leves ou pesadas.<\/p>\n<p>Esse modo \u00e9 o nosso, aquele em que a ci\u00eancia n\u00e3o nos chega apenas sob os gadgets e latusas, como se exprimia Lacan, mas sob a forma dos psicotr\u00f3picos e do c\u00e1lculo de nossa vida pelo computador, o tablet super port\u00e1vel e o smartphone. Para se orientar nesse mundo e reconhecer o lugar do sujeito n\u00e3o \u00e9 suficiente a localiza\u00e7\u00e3o pelo GPS, \u00e9 preciso as refer\u00eancias da psican\u00e1lise muito viva, essa de hoje.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Entrevista realizada por Dominique Holvoet e Virginie Leblanc, originalmente publicada na revista Coutil en ligneS, n. 10.<\/p>\n<h6>Tradu\u00e7\u00e3o: Cristiana Pittella de Mattos<br \/>\nRevis\u00e3o: Maria Rita Guimar\u00e3es<\/h6>\n<footer>______________________________<\/p>\n<h6 id=\"footnote-1\"><sup>1<\/sup>\u00a0Agradecemos a Eric Laurent a gentil autoriza\u00e7\u00e3o desta entrevista para publica\u00e7\u00e3o no CIEN Digital<\/h6>\n<\/footer>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Uma entrevista com Eric Laurent1 Eric Laurent aceitou prestar-se ao jogo de quest\u00f5es e respostas sobre o tema de sua \u00faltima obra, A batalha do autismo, publicada por Navarin em outubro de 2012. Pergunta:\u00a0O Sr escolhe um vocabul\u00e1rio marcial para o t\u00edtulo de sua obra \u2013 A Batalha do autismo (La bataille de l\u2019autisme) \u2013,&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":5659374,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[138,26],"tags":[125],"post_series":[],"class_list":["post-5659368","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-cien-digital14","category-entrevista","tag-cien_digital_14","entry","has-media"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/ciendigital.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5659368","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/ciendigital.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/ciendigital.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ciendigital.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ciendigital.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=5659368"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/ciendigital.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5659368\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ciendigital.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/5659374"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/ciendigital.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=5659368"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/ciendigital.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=5659368"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/ciendigital.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=5659368"},{"taxonomy":"post_series","embeddable":true,"href":"https:\/\/ciendigital.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/post_series?post=5659368"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}