{"id":5659429,"date":"2019-11-17T08:38:59","date_gmt":"2019-11-17T10:38:59","guid":{"rendered":"http:\/\/ciendigital.com.br\/?p=5659429"},"modified":"2019-11-17T09:29:38","modified_gmt":"2019-11-17T11:29:38","slug":"historia-do-cien-brasil-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ciendigital.com.br\/index.php\/2019\/11\/17\/historia-do-cien-brasil-2\/","title":{"rendered":"HIST\u00d3RIA DO CIEN BRASIL"},"content":{"rendered":"<div class=\"pdfprnt-buttons pdfprnt-buttons-post pdfprnt-top-right\"><a href=\"https:\/\/ciendigital.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5659429?print=pdf\" class=\"pdfprnt-button pdfprnt-button-pdf\" target=\"_blank\" ><\/a><a href=\"https:\/\/ciendigital.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5659429?print=print\" class=\"pdfprnt-button pdfprnt-button-print\" target=\"_blank\" ><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/plugins\/pdf-print\/images\/print.png\" alt=\"image_print\" title=\"Conte\u00fado de impress\u00e3o\" \/><\/a><\/div><figure id=\"attachment_5659431\" aria-describedby=\"caption-attachment-5659431\" style=\"width: 200px\" class=\"wp-caption alignright\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-5659431\" src=\"http:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2019\/11\/014-001-200x300.png\" alt=\"Autor: Thom Bradley Imagem: electric-skateboard-in-the-sun https:\/\/burst.shopify.com\/ \" width=\"200\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2019\/11\/014-001-200x300.png 200w, https:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2019\/11\/014-001-274x411.png 274w, https:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2019\/11\/014-001.png 283w\" sizes=\"auto, (max-width: 200px) 100vw, 200px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-5659431\" class=\"wp-caption-text\">Autor: Thom Bradley<br \/>Imagem: electric-skateboard-in-the-sun<br \/>https:\/\/burst.shopify.com\/<\/figcaption><\/figure>\n<p><strong>O Contexto:<\/strong><\/p>\n<p>Rio de Janeiro, 2011. Uma experiencia de um laborat\u00f3rio do CIEN contextualiza a \u00e9poca e testemunha efeitos de uma conversa\u00e7\u00e3o inter-disciplinar realizada em uma escola p\u00fablica, a partir da demanda de um ator e professor de teatro.<\/p>\n<p><strong>O texto:<\/strong><\/p>\n<h2><span style=\"color: #3366ff;\"><strong>\u00a0<\/strong><em>\u201cAcelera\u00e7\u00e3o\u201d\u00a0 &#8211; ou <\/em><em>corpos que agitam<\/em><\/span><\/h2>\n<h6><strong><em>Ana Martha Wilson Maia e Duda Ribeiro<\/em><\/strong><\/h6>\n<h6><strong><em>Laborat\u00f3rio \u201cA crian\u00e7a entre a mulher e a m\u00e3e\u201d<\/em><\/strong><\/h6>\n<p>\u201cEstou com um trabalho em um col\u00e9gio e preciso de voc\u00ea. Est\u00e1 sendo muito dif\u00edcil trabalhar com estes adolescentes. Eles n\u00e3o respeitam limites\u201d.<\/p>\n<p>O convite do ator, diretor e professor de teatro foi imediatamente aceito, afinal a psicanalista e o ator j\u00e1 haviam trabalhado juntos num Projeto<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\"><sup>[1]<\/sup><\/a>, e esta nova oportunidade se transformou em uma das mais ricas experi\u00eancias decorrentes da proposta inter-disciplinar do CIEN. Este texto apresenta alguns momentos das conversa\u00e7\u00f5es realizadas com o objetivo de transmiss\u00e3o de efeitos deste dispositivo.<\/p>\n<p>Ao longo da hist\u00f3ria, as modifica\u00e7\u00f5es no discurso do mestre promoveram mudan\u00e7as no la\u00e7o social e novos sintomas apareceram nesta \u00e9poca a que Miller (2005) se refere como o tempo do Outro que n\u00e3o existe, daqueles que n\u00e3o se enganam com o Nome do Pai e com a exist\u00eancia do Outro. Deste modo, o sujeito se encontra imerso nos semblantes e o simb\u00f3lico j\u00e1 n\u00e3o pode organizar a civiliza\u00e7\u00e3o nem a experi\u00eancia anal\u00edtica, como nos tempos de Freud ou da primeira cl\u00ednica lacaniana.<\/p>\n<p>Referindo-se \u00e0 express\u00e3o freudiana, Miller (2004a) aponta que os sujeitos contempor\u00e2neos est\u00e3o desorientados desde a dissolu\u00e7\u00e3o da \u201cmoral civilizada\u201d. Os p\u00f3s-modernos e os hipermodernos, os desinibidos e os neodesinibidos&#8230; todos est\u00e3o desamparados, sem b\u00fassola, sob a ditadura do mais de gozar que devasta a natureza, acaba com o casamento, dispersa a fam\u00edlia e modifica os corpos, diz ele. A inexist\u00eancia do Outro ecoa nos impasses com que os profissionais dos Laborat\u00f3rios do CIEN se deparam atualmente, em suas pr\u00e1ticas cotidianas, inseridos nas \u00e1reas da sa\u00fade, da educa\u00e7\u00e3o, da justi\u00e7a e da assist\u00eancia social.<\/p>\n<h3><span style=\"color: #3366ff;\"><strong><em>Corpos que agitam<\/em><\/strong><\/span><\/h3>\n<p>Da queda dos ideais e dos representantes de autoridade decorre a fragilidade da figura do professor, evidenciada nas escolas e universidades.<\/p>\n<p>\u201cA turma que escolhemos tem nos dado muita preocupa\u00e7\u00e3o. Eles t\u00eam entre 12 e 16 anos, repetiram um ou mais anos e s\u00e3o dispersos, agitados\u201d \u2013 nos relata a diretora do col\u00e9gio. \u201cN\u00f3s tivemos que criar uma turma para eles e demos o nome de turma da <em>Acelera\u00e7\u00e3o<\/em> porque est\u00e3o atrasados. S\u00e3o os nossos piores alunos\u201d.<\/p>\n<p>A psicanalista pergunta quem s\u00e3o estes adolescentes. Moram nas comunidades pr\u00f3ximas ao bairro em que se localiza o col\u00e9gio, favelas conhecidas quase que internacionalmente por meio do cinema: Rocinha, Vidigal e Cruzada S\u00e3o Sebasti\u00e3o. Alguns s\u00e3o filhos de nordestinos e de outros pais que vieram para o Rio de Janeiro em busca de melhores sal\u00e1rios. Eles convivem com s\u00e9rios problemas relacionados ao tr\u00e1fico de drogas e segundo a diretora, por terem se desiludido com o \u201csucesso intelectual\u201d destes filhos que geralmente s\u00e3o os mais velhos da prole, os pais \u201cdesistem\u201d deles e os destinam \u00e0 fun\u00e7\u00e3o de \u201colhar\u201d os mais novos. Estes jovens come\u00e7am a trabalhar cedo em subempregos e sem uma m\u00ednima escolaridade, visto a acirrada competi\u00e7\u00e3o do mercado, dificilmente ascendem de cargo. Assim, a turma <em>Acelera\u00e7\u00e3o<\/em> se circunscreve numa temporalidade, s\u00e3o os atrasados e, numa forma de segrega\u00e7\u00e3o: desde o lugar na fam\u00edlia, o sujeito a\u00ed \u00e9 um resto, o pior, com o que n\u00e3o se sabe o que fazer.<\/p>\n<p>As aulas de teatro se iniciam. Com a dificuldade esperada, o professor se apresenta, exp\u00f5e o que deseja obter com as aulas e como ser\u00e3o encaminhadas. \u201cFaremos uma Leitura de Pe\u00e7a\u201d, prop\u00f5e ele. Entre mo\u00e7as e rapazes, os adolescentes n\u00e3o sossegam: tapas, pux\u00f5es de perna, um derruba o outro, chave de pesco\u00e7o, gritos e correria. Dois ouvem MP3, cada um com uma parte do fone de ouvido, como se nada houvesse. As mo\u00e7as conversam ou se jogam no ch\u00e3o, lutam, em uma mistura de disputa e sedu\u00e7\u00e3o. O professor eleva a voz, repete que ningu\u00e9m \u00e9 obrigado a participar. Consegue fazer com eles dois exerc\u00edcios de improvisa\u00e7\u00e3o. A psicanalista \u00e9 apresentada justamente como uma psicanalista que ir\u00e1 participar deste trabalho e alguns se aproximam para saber um pouco da \u201cprofessora\u201d, forma como se dirigem aos adultos no col\u00e9gio. Ela passa depois a ser chamada de Ana. \u201cPode?\u201d \u2013 perguntam os alunos. E assim, uma diferen\u00e7a \u00e9 marcada, Ana n\u00e3o \u00e9 uma professora e Duda \u00e9 um professor de teatro. Que consequ\u00eancias decorreriam disto?<\/p>\n<p>Antes do in\u00edcio da segunda aula, a psicanalista conta que a turma foi apresentada para ela e para ele como a turma <em>Acelera\u00e7\u00e3o<\/em> e pergunta se sabem a raz\u00e3o deste nome. \u201cN\u00f3s todos repetimos\u201d, alguns respondem. Ela continua: \u201c\u00c9, foi o que nos explicaram, que est\u00e3o atrasados. O que voc\u00eas pensam sobre isso? Proponho que possamos conversar um pouco sobre repetir, acelera\u00e7\u00e3o, atrasados, etc., em quatro encontros que acontecer\u00e3o no hor\u00e1rio das aulas de teatro\u201d. E a aula come\u00e7a, no mesmo ritmo, entre empurr\u00f5es, socos, risadas, queixas. Quando conseguem parar e ouvir o professor, gostam dos exerc\u00edcios e se divertem.<\/p>\n<p>Estas aulas se baseiam em exerc\u00edcios de dramaturgia selecionados para a adolesc\u00eancia. Muitas vezes em c\u00edrculo, enfatizam a troca de olhares, o momento de prestar aten\u00e7\u00e3o no outro, a colabora\u00e7\u00e3o na constru\u00e7\u00e3o da cena, desde o jogo do \u201cfala o nome e troca de lugar\u201d, ou o jogo do \u201csai quem sabe a hora certa\u201d (um de cada vez), entre outros, at\u00e9 o Exerc\u00edcio do Palha\u00e7o que, surpreendentemente, eles adoram: \u201cele (o palha\u00e7o) tem que perder para o outro rir\u201d, explica o professor. Estes adolescentes criam situa\u00e7\u00f5es de humor sem nenhum mal-estar por terem que ficar no lugar do sem jeito, do que fracassa e desperta, por isso, muitos risos. Ao longo das aulas, repete-se o \u201catraso\u201d. Um tempo \u00e9 sempre perdido.<\/p>\n<figure id=\"attachment_5659430\" aria-describedby=\"caption-attachment-5659430\" style=\"width: 300px\" class=\"wp-caption alignright\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-5659430 size-medium\" src=\"http:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2019\/11\/014-002-300x199.png\" alt=\"Foto: Brodie Vissers Imagem: skateboarders-onlooker https:\/\/burst.shopify.com\/\" width=\"300\" height=\"199\" srcset=\"https:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2019\/11\/014-002-300x199.png 300w, https:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2019\/11\/014-002-274x182.png 274w, https:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2019\/11\/014-002.png 568w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-5659430\" class=\"wp-caption-text\">Foto: Brodie Vissers<br \/>Imagem: skateboarders-onlooker<br \/>https:\/\/burst.shopify.com\/<\/figcaption><\/figure>\n<p><span style=\"color: #3366ff;\"><strong><em>\u201cE se fosse diferente?\u201d<\/em><\/strong><\/span><\/p>\n<p>Na primeira conversa\u00e7\u00e3o, alguns alunos chegam com cara de contrariados, mas abrem o verbo quando a psicanalista pergunta \u201ce a\u00ed, o que pensaram?\u201d. Uma mo\u00e7a conta que a professora n\u00e3o gostava dela e nem ela da professora, porque detestava levar coques na cabe\u00e7a e passou a matar aula. Outra diz que repetiu por \u201cfaltas justificadas\u201d: madrinha de casamento de uma prima que mora na zona norte, sem dinheiro para as passagens, a m\u00e3e decidiu que ficasse na casa da tia at\u00e9 que o vestido fosse feito pela costureira. Mas como a prima mudou de costureira duas vezes, perdeu um m\u00eas de aulas. \u201cMinha m\u00e3e foi falar com a professora, explicou que eram faltas justificadas\u201d, diz certa de que foi injusti\u00e7ada. Algu\u00e9m pergunta: \u201cmas que bobeira, voc\u00ea repetiu por isso?\u201d. Outro aluno diz: \u201c\u00e9 a mimada da sala, os pais fazem tudo o que ela quer\u201d. O professor de teatro pergunta o que ela acha de ter repetido o ano por estas faltas e a adolescente j\u00e1 n\u00e3o afirma com firmeza que foram justificadas.<\/p>\n<p>Um aluno diz que \u201cn\u00e3o conseguia escrever com letras de m\u00e3os dadas\u201d, as letras cursivas, e a professora lhe dava listas enormes de frases para treinar. Um dia, cansado, disse a ela que n\u00e3o queria mais escrever, que n\u00e3o conseguia com esta letra. Muito brava, ela teria cravado as unhas em seu bra\u00e7o. A m\u00e3e fez sucessivas reclama\u00e7\u00f5es para a coordenadora, mas a situa\u00e7\u00e3o ficou sem sa\u00edda para ele.<\/p>\n<p>Outro rapaz se lembra de um momento que teria sido decisivo: em uma das brigas com a professora, discutiram aos gritos e ela o empurrou pelos ombros. Como \u00e9 muito alto, ao perder o equil\u00edbrio, caiu por tr\u00e1s de uma mesa e s\u00f3 se recorda de ter impulsivamente reagido a socos.<\/p>\n<p>Diversas s\u00e3o as vers\u00f5es vitimadas destes adolescentes que agem como se as consequ\u00eancias estivessem longe de suas responsabilidades com rela\u00e7\u00e3o ao que fazem com seus desejos. H\u00e1 um real em jogo, os corpos que agitam no col\u00e9gio n\u00e3o s\u00e3o apenas os dos adolescentes desta turma. E esse real perpassa pelos alunos, pelos professores, pelos pais, pelo professor de teatro e pela psicanalista nas conversa\u00e7\u00f5es. Os acontecimentos de discurso deixam tra\u00e7os no corpo (Miller, 2004b). O que se v\u00ea nesta turma s\u00e3o corpos que agitam.<\/p>\n<p>O Outro mau, que persegue, \u00e9 personificado na segunda conversa\u00e7\u00e3o por uma determinada professora, a \u201cX\u201d. Descrita como m\u00e1 e severa, \u00e9 culpada por todos pelas reprova\u00e7\u00f5es. Muitas hist\u00f3rias s\u00e3o relatadas, o professor faz algumas perguntas, pequenos coment\u00e1rios e a psicanalista termina lan\u00e7ando a quest\u00e3o: \u201cmas alguns repetiram mais de uma vez, outros n\u00e3o estudaram com ela. Afinal, \u00e9 sempre por culpa do professor que um aluno repete de ano?\u201d.<\/p>\n<p>A aula seguinte \u00e9 bem confusa. Duas mo\u00e7as se xingam no p\u00e1tio, brigam antes de entrarem no audit\u00f3rio em que s\u00e3o dadas as aulas de teatro. Um grupo se faz a favor de uma, enquanto a outra quer ir embora. O professor a acolhe e pede sil\u00eancio a todos. Contam que a professora \u201cX\u201d xingou a turma durante a exibi\u00e7\u00e3o de um filme.<\/p>\n<p>O nome da professora retorna na conversa\u00e7\u00e3o. O professor pergunta se j\u00e1 ouviram falar de uma pe\u00e7a intitulada \u201cA aurora da minha vida\u201d<a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\"><sup>[2]<\/sup><\/a> e resume para eles a trama. Um deles diz que com essa professora que tiveram, fica f\u00e1cil fazer uma professora. \u201cMas a ideia n\u00e3o \u00e9 fazer igual\u201d \u2013 explica o professor. \u201cE se fosse diferente?\u201d \u2013 pergunta a psicanalista. Decidem criar os esquetes com uma personagem baseada nela, na professora \u201cX\u201d, mas inventando outras caracter\u00edsticas, nome e solu\u00e7\u00f5es para cada um. A psicanalista corta a conversa\u00e7\u00e3o. Eles ficam com o professor e escolhem seus personagens: o bagunceiro, o <em>nerd<\/em>, o chato, o dedo-duro, o comportado, o l\u00edder, o dorminhoco, a marrenta, o descolado, entre outros.<\/p>\n<p>Uma conting\u00eancia interrompe as conversa\u00e7\u00f5es e as aulas no col\u00e9gio, a implanta\u00e7\u00e3o do projeto de pacifica\u00e7\u00e3o do governo do Rio de Janeiro. Os moradores preferem aguardar os acontecimentos e os alunos n\u00e3o saem de casa no dia da aula de teatro. H\u00e1 ainda feriados, o professor adoece e depois \u00e9 a psicanalista que n\u00e3o deve ir porque a imunidade dele est\u00e1 baixa e pode pegar sua gripe. No retorno, volta a pergunta \u201cpor que ser\u00e1 que dizem que voc\u00eas s\u00e3o atrasados?\u201d, quando a agita\u00e7\u00e3o impede que a palavra tenha lugar. Algumas vozes dizem, em pontos diferentes da sala: \u201c\u00e9 que n\u00f3s n\u00e3o conseguimos prestar aten\u00e7\u00e3o em nada\u201d. J\u00e1 n\u00e3o \u00e9 por causa da professora \u201cX\u201d, trocam ideias o professor e a psicanalista, quando est\u00e3o sozinhos, depois da aula.<\/p>\n<p>O \u00faltimo encontro era tamb\u00e9m o \u00faltimo dia de aula para eles, embora todas as outras turmas j\u00e1 estivessem de f\u00e9rias. \u201cDe novo estamos atrasados\u201d &#8211; diz um rapaz implicado nas conversa\u00e7\u00f5es. Uma mo\u00e7a acrescenta: \u201cera para termos ficado nesta turma seis meses, ficamos um ano!\u201d.<\/p>\n<p>\u201cQual o seu sonho?\u201d &#8211; o professor prop\u00f5e uma filmagem. Em c\u00edrculo, deitados de frente para ele, os alunos se enfileiram de barriga no ch\u00e3o e contam: jogador de futebol, empres\u00e1rio, advogado, modelo, atriz, cada um inventa uma \u201chist\u00f3ria\u201d com nome, idade, onde mora, para que estuda. Quando todos j\u00e1 haviam se apresentado, um se vira para o professor e pergunta: \u201ce voc\u00ea, Duda, qual o seu sonho?\u201d Desta vez, \u00e9 ele que surpreende. \u201c\u00c9 poder viver cada dia, um ap\u00f3s o outro, dando aulas, como estas que dei para voc\u00eas, atuando, dirigindo e estar com meus filhos e amigos\u201d.<\/p>\n<p>O professor que n\u00e3o sabia \u201cimpor limites para adolescentes\u201d e se escondia por tr\u00e1s de um bl\u00e1bl\u00e1bl\u00e1, quando come\u00e7ava a discorrer infind\u00e1veis ensinamentos que ningu\u00e9m parava para ouvir, foi encontrando uma forma diferente de se colocar ao longo das aulas e das conversa\u00e7\u00f5es. \u201cEu fiz muitas cirurgias, um transplante de \u00f3rg\u00e3o, estou feliz por estar com voc\u00eas e termos finalizado este trabalho\u201d.<\/p>\n<p>A despedida se d\u00e1 com palavras escritas \u00e0 caneta nas camisas dos uniformes escolares, \u201cmarcando\u201d no corpo uma \u201ctroca de desejos\u201d com votos de Feliz Natal e felicidades no novo col\u00e9gio. O tempo deles ali terminou. N\u00e3o importa se aprenderam ou n\u00e3o, a lei n\u00e3o permite que permane\u00e7am nesta turma. Eles t\u00eam que passar de ano. Uma m\u00e1quina aparece para capturar este momento em imagens. Abra\u00e7os, beijos, s\u00e3o tiradas muitas fotografias.<\/p>\n<p>O tema do VIII Congresso da AMP, que acontecer\u00e1 em Buenos Aires em abril de 2012, lan\u00e7a desde j\u00e1 uma s\u00e9rie de quest\u00f5es a respeito da fragiliza\u00e7\u00e3o da ordem simb\u00f3lica no s\u00e9culo XXI. O empuxe \u00e0 passagem ao ato est\u00e1 presente na busca desenfreada de satisfa\u00e7\u00e3o, no gozo \u201cprometido\u201d pela ascens\u00e3o do objeto <em>a<\/em> na civiliza\u00e7\u00e3o. Desta experi\u00eancia relatada pelo ator e pela psicanalista, fica a pergunta: o que ocupa hoje o lugar do Outro que n\u00e3o existe na escola?<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<hr \/>\n<h6>Bibliografia<\/h6>\n<h6>Laurent, \u00c9. <em>As paix\u00f5es do ser<\/em>. EBP-Bahia e Instituto de Psican\u00e1lise da Bahia. 2000.<\/h6>\n<h6>Maia, AMW. \u201c<em>Esse Outro que me agita no seio de mim mesmo\u201d, en-cena<\/em>. V ENAPOL. Rio de Janeiro, 2011.<\/h6>\n<h6>Miller, J-A. <em>Uma fantasia<\/em>. Confer\u00eancia no IV Congresso da AMP. Comandatuba, Bahia. 2004 (a).<\/h6>\n<h6>Miller, J-A. Biologia lacaniana e acontecimentos de corpo. <em>Op\u00e7\u00e3o Lacaniana n\u00ba 41<\/em>, p.50. Dez\/2004 (b).<\/h6>\n<h6>Miller, J-A. <em>El Otro que no existe y sus comit\u00e9s de \u00e9tica<\/em>. Buenos Aires: Paid\u00f3s. 2005.<\/h6>\n<hr \/>\n<h6><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\"><sup>[1]<\/sup><\/a> O Projeto \u201c<em>Vida, louca vida<\/em>\u201d foi realizado em um hospital de cust\u00f3dia e tratamento psiqui\u00e1trico no Rio de Janeiro, em 2003 e 2004, coordenado por Ana Martha Wilson Maia que escreveu o argumento para o roteiro da pe\u00e7a com o t\u00edtulo \u201c<em>Loucos somos todos n\u00f3s<\/em>\u201d. O roteiro foi escrito por Roberto Cunha e Duda Ribeiro com a produ\u00e7\u00e3o de t\u00e9cnicos da institui\u00e7\u00e3o. Dois pacientes escreveram um esquete e um outro fez o cen\u00e1rio. Al\u00e9m das aulas de teatro dadas aos pacientes durante um ano e meio, Duda Ribeiro dirigiu a pe\u00e7a. A experi\u00eancia est\u00e1 descrita em: Maia, AMW. \u201c<em>Esse Outro que me agita no seio de mim mesmo\u201d, en-cena<\/em>. V ENAPOL. Rio de Janeiro, 2011.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\"><sup>[2]<\/sup><\/a> Junto com \u201c<em>No Natal a gente vem te buscar<\/em>\u201d e \u201c<em>Um beijo, um abra\u00e7o, um aperto de m\u00e3o<\/em>\u201d, esta pe\u00e7a de Naum Alves de Souza faz parte da trilogia dedicada ao tema memorialista que retrata a experi\u00eancia de alunos e professores, em uma sala de aula nos anos 70, mostrando um sistema escolar repressor atrav\u00e9s da rela\u00e7\u00e3o entre os personagens.<\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O Contexto: Rio de Janeiro, 2011. Uma experiencia de um laborat\u00f3rio do CIEN contextualiza a \u00e9poca e testemunha efeitos de uma conversa\u00e7\u00e3o inter-disciplinar realizada em uma escola p\u00fablica, a partir da demanda de um ator e professor de teatro. O texto: \u00a0\u201cAcelera\u00e7\u00e3o\u201d\u00a0 &#8211; ou corpos que agitam Ana Martha Wilson Maia e Duda Ribeiro Laborat\u00f3rio&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":5659431,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[140,24],"tags":[141],"post_series":[],"class_list":["post-5659429","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-cien-digital-23","category-historia_cien_brasil","tag-cien-digital-23","entry","has-media"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/ciendigital.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5659429","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/ciendigital.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/ciendigital.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ciendigital.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ciendigital.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=5659429"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/ciendigital.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5659429\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ciendigital.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/5659431"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/ciendigital.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=5659429"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/ciendigital.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=5659429"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/ciendigital.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=5659429"},{"taxonomy":"post_series","embeddable":true,"href":"https:\/\/ciendigital.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/post_series?post=5659429"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}