{"id":5659437,"date":"2019-11-17T08:45:50","date_gmt":"2019-11-17T10:45:50","guid":{"rendered":"http:\/\/ciendigital.com.br\/?p=5659437"},"modified":"2019-11-17T09:29:14","modified_gmt":"2019-11-17T11:29:14","slug":"zain-uma-figura-da-indignacao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ciendigital.com.br\/index.php\/2019\/11\/17\/zain-uma-figura-da-indignacao\/","title":{"rendered":"Zain: uma figura da indigna\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"<div class=\"pdfprnt-buttons pdfprnt-buttons-post pdfprnt-top-right\"><a href=\"https:\/\/ciendigital.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5659437?print=pdf\" class=\"pdfprnt-button pdfprnt-button-pdf\" target=\"_blank\" ><\/a><a href=\"https:\/\/ciendigital.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5659437?print=print\" class=\"pdfprnt-button pdfprnt-button-print\" target=\"_blank\" ><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/plugins\/pdf-print\/images\/print.png\" alt=\"image_print\" title=\"Conte\u00fado de impress\u00e3o\" \/><\/a><\/div><figure id=\"attachment_5659439\" aria-describedby=\"caption-attachment-5659439\" style=\"width: 300px\" class=\"wp-caption alignright\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-5659439\" src=\"http:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2019\/11\/012-001-300x171.png\" alt=\"Autora: Suzy Hazelwood Imagem: gray-wall-with-cracked-blue-paint https:\/\/burst.shopify.com\/ \" width=\"300\" height=\"171\" srcset=\"https:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2019\/11\/012-001-300x171.png 300w, https:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2019\/11\/012-001-274x156.png 274w, https:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2019\/11\/012-001.png 508w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-5659439\" class=\"wp-caption-text\">Autora: Suzy Hazelwood<br \/>Imagem: gray-wall-with-cracked-blue-paint<br \/>https:\/\/burst.shopify.com\/<\/figcaption><\/figure>\n<h6><strong><em>Maria Rita Guimar\u00e3es<\/em><\/strong><\/h6>\n<p>O Cine Cien abriu as atividades do Cien\u2013MG, do primeiro semestre de 2019, com o filme <em>Capharnaum<\/em>, de Nadini Labaki<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\"><sup>[1]<\/sup><\/a>, ganhador do Pr\u00eamio de J\u00fari no Festival de Cannes de 2018. Sua narrativa contempla a pesquisa e o debate trazidos pela tem\u00e1tica orientada pelo \u00faltimo Enapol em seu t\u00edtulo: \u00d3dio, c\u00f3lera e indigna\u00e7\u00e3o. A atualidade do filme n\u00e3o \u00e9 apenas cronol\u00f3gica. Interessaram-nos, de forma especial, os problemas ali testemunhados. Estes correm no fio da navalha de um realismo documental e s\u00e3o aqueles que t\u00eam presen\u00e7a permanente no universo das experi\u00eancias do Cien.<\/p>\n<p>O di\u00e1logo do filme que nos inspira a trabalhar \u00e9 aquele que acontece aos sete minutos da narrativa e em torno do qual o filme \u00e9 organizado estruturalmente.<\/p>\n<blockquote><p>&#8211; Voc\u00ea sabe por que est\u00e1 aqui? pergunta o juiz.<\/p>\n<p>&#8211; Sim.<\/p>\n<p>&#8211; Por qu\u00ea?<\/p>\n<p>&#8211; Eu quero acusar meus pais.<\/p>\n<p>&#8211; Por que voc\u00ea quer acusar seus pais?<\/p>\n<p>&#8211; Por me trazer ao mundo.<\/p><\/blockquote>\n<p>Trata-se de Zain, com idade \u2013 suposta \u2013 de 12 anos. Nesse processo, ele \u00e9 o autor da den\u00fancia aos pais por \u201ctraz\u00ea-lo ao mundo\u201d. Anteriormente, noutro processo, ele foi condenado \u00e0 pris\u00e3o por ter esfaqueado aquele que viria a ser o marido de sua irm\u00e3. Salv\u00e1-la daquele casamento arranjado, for\u00e7ado, tendo ela apenas 11 anos, era seu projeto de vida. Figura de uma Ant\u00edgona moderna, \u201ca dor lhe servia como \u00f3culos escuros\u201d<a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\"><sup>[2]<\/sup><\/a>, Zain comete a passagem ao ato desesperado pela causa fraterna: sua irm\u00e3 a pre\u00e7o de galinhas. Sua figura exibe o profundo contraste entre o desenvolvimento f\u00edsico mirrado e seu destemor na posi\u00e7\u00e3o de sujeito em busca da possibilidade de restaura\u00e7\u00e3o de uma frase\/palavra na qual h\u00e1 um fora de sentido.<\/p>\n<p>Acompanhando-o em sua trajet\u00f3ria, testemunhamos seu trabalho em responder \u00e0 quest\u00e3o do que seria uma vida como vida digna e a elabora\u00e7\u00e3o de algo avesso \u00e0 viol\u00eancia, \u00e0 sua viol\u00eancia, mas tamb\u00e9m \u00e0 viol\u00eancia do Outro. Podemos ler isso na passagem do tempo e nas mudan\u00e7as de posi\u00e7\u00f5es do sujeito entre dois atos por ele praticados, que destaco como relevantes; entre eles, uma travessia:<\/p>\n<p>1\u00ba tempo: a passagem ao ato \u2013 tentativa de matar o cunhado \u2013 quando o sujeito desaparece na cena, nela restando como objeto <em>a.<\/em><\/p>\n<p>2\u00ba tempo: o ato de indigna\u00e7\u00e3o conformado \u00e0 \u00e9tica das consequ\u00eancias, pr\u00f3pria ao desejo, enquanto princ\u00edpio da dignidade significante.<\/p>\n<p>Adiantemos que sua acusa\u00e7\u00e3o aos pais perante a lei \u00e9 em raz\u00e3o de que seus pais n\u00e3o lhe concedem (e aos irm\u00e3os, pois o la\u00e7o fraternal para ele \u00e9 um valor sem igual) uma vida que seja vida reconhec\u00edvel como humana. N\u00e3o examinaremos os meandros te\u00f3ricos pass\u00edveis de serem levantados pelos termos humanidade\/desumanidade, sobretudo no mal-estar da civiliza\u00e7\u00e3o contempor\u00e2nea. Sigamos Nadine Labaki, que nos pega pelas m\u00e3os e nos leva \u00e0 fronteira mais impenetr\u00e1vel da pergunta sobre se aquela vida \u00e9 vida que concerne \u00e0 esp\u00e9cie humana. Rapidamente, podemos enumerar os pontos de degrada\u00e7\u00e3o registrados pela cineasta:<\/p>\n<p><strong>1- Precariedade absoluta: sobreviv\u00eancia rebatida \u00e0 necessidade<\/strong><\/p>\n<p>O real da fome como puls\u00e3o de autoconserva\u00e7\u00e3o \u2013 termos freudianos \u2013 imp\u00f5e um aniquilamento da demanda, para diz\u00ea-lo de forma curto-circuitada. No entanto, para al\u00e9m da imperiosa busca de subsist\u00eancia em pequenos e s\u00f3rdidos \u201cbicos\u201d, Zain nos escancara a precariedade mais extrema: o anonimato do desejo do Outro. N\u00e3o h\u00e1 Outro familiar, escolar, nenhum Outro social do qual receber a luz de um olhar. O sombrio da vida segue na servid\u00e3o ao trabalho excessivo para a obten\u00e7\u00e3o do m\u00ednimo do m\u00ednimo, a fim de n\u00e3o sucumbir \u00e0 morte, o que exige transgredir, mentir e se envergonhar cotidianamente; tempo estagnado numa repeti\u00e7\u00e3o sem futuro.<\/p>\n<p><strong>2- O aviltamento da preposi\u00e7\u00e3o \u201csem\u201d<\/strong><\/p>\n<p><em>Sem<\/em> <em>p\u00e1tria<\/em> (\u00e9 um imigrante, mesma situa\u00e7\u00e3o do ator mirim, que o interpreta). <em>Sem<\/em> <em>pap\u00e9is (<\/em>fam\u00edlia clandestina submetida ao ilimitado gozo do Outro em troca de m\u00edseros metros quadrados para se esconder).<em> Sem nome <\/em>(a primeira vez em que \u00e9 chamado por <em>Zain!<\/em> foi na pris\u00e3o).<\/p>\n<p><em>Sem nome<\/em> (demarca uma diferen\u00e7a essencial: j\u00e1 n\u00e3o se trata da indig\u00eancia provocada pela exclus\u00e3o\/segrega\u00e7\u00e3o reinantes na condi\u00e7\u00e3o de <em>sem pap\u00e9is<\/em>, como imigrantes: sem estatuto legal em outro territ\u00f3rio; portanto, sem trabalho ou acesso aos bens sociais como sa\u00fade e educa\u00e7\u00e3o. Trata-se aqui da demiss\u00e3o de um pai que, embora capaz de uma transmiss\u00e3o, sucumbe ao exerc\u00edcio da paternidade e apenas consegue repetir o insuport\u00e1vel de sua vida tal como o \u201cmodo como fui criado\u201d; isto \u00e9, \u201cpessoas cuspiam em mim na rua; eles me tratavam como um animal\u201d. Um pai, o qual acreditou que sua condi\u00e7\u00e3o \u201chomem\u201d adviria com os filhos, que seriam sua \u201cespinha dorsal\u201d. \u201cMas eles me fuderam, partiram meu cora\u00e7\u00e3o. Eu amaldi\u00e7oo o dia em que me casei\u201d.<\/p>\n<p><strong>3- Insulto<\/strong><\/p>\n<p>Se Zain n\u00e3o \u00e9 um nome pronunciado por seus pais, ele \u00e9 substitu\u00eddo por \u201cbastardo, in\u00fatil, peda\u00e7o de lixo\u201d e outras inj\u00farias.<\/p>\n<p>Jacques Alain-Miller nos deu o matema do insulto:<\/p>\n<p>(S(a))<\/p>\n<p>\u2013\u2013\u2013\u2013\u2013\u2013\u2013\u2013\u2013<\/p>\n<p>(A barrado)<\/p>\n<p>Tal f\u00f3rmula, Miller nos esclarece, refere-se ao momento do desfalecimento do Outro como lugar dos significantes. Portanto, quando emerge o ser do sujeito como a e surge do fundo da l\u00edngua um significante que marca o momento do imposs\u00edvel de dizer, \u201ca\u00ed onde o pr\u00f3prio ser excede as possibilidades da l\u00edngua\u201d<sup> <a href=\"#_ftn3\" name=\"_ftnref3\">[3]<\/a><\/sup>.<\/p>\n<p>Por que excede as possibilidades da l\u00edngua? Busco entend\u00ea-lo pelas palavras de Miller: \u201cO insulto \u00e9 uma tentativa para dizer a Coisa mesma, para que ela possa ser cernida como objeto <em>\u03b1<\/em> e<strong>, <\/strong>dessa forma, captar o Outro, isol\u00e1-lo, atravess\u00e1-lo em seu ser, em seu Dasein, na merda que \u00e9\u201d<a href=\"#_ftn4\" name=\"_ftnref4\"><sup>[4]<\/sup><\/a>. Coagulado no insulto, eis a merda que Zain \u00e9 como dejeto no mundo.<\/p>\n<h3><span style=\"color: #3366ff;\"><strong><em>A trag\u00e9dia \u00c9dipo em Colono \u201cDe prefer\u00eancia, n\u00e3o ter nascido\u201d.<\/em><\/strong><\/span><\/h3>\n<p>\u201cEu os acuso por me trazerem ao mundo\u201d pode ser pensado como equivalente contempor\u00e2neo ao m\u00e9<em> phunai de <\/em>\u00c9dipo em Colono<em>?<\/em> Poderemos nos aventurar por este caminho, porque se sabe que o <em>m\u00e9 phunai <\/em>se inscreve quando \u00e9 descoberta a extens\u00e3o do insuport\u00e1vel da vida:<\/p>\n<blockquote><p>\u201cA Lacan, a paix\u00e3o pelo n\u00f3 borremeano, serviu para chegar a essa zona de exist\u00eancia, a mesma zona de \u00c9dipo em Colono, na qual se apresenta a aus\u00eancia absoluta de caridade, de fraternidade, de qualquer sentimento humano\u201d.<a href=\"#_ftn5\" name=\"_ftnref5\"><sup>[5]<\/sup><\/a><\/p><\/blockquote>\n<p><em>Phunai <\/em>\u00e9 um verbo de duplo sentido: significa ser nascido, e <em>m\u00e9 phunai <\/em>quer dizer <em>n\u00e3o <\/em>ter nascido. A tradu\u00e7\u00e3o de Lacan, segundo vers\u00e3o brasileira dos semin\u00e1rios, varia: \u201cDe prefer\u00eancia, n\u00e3o ser\u201d<a href=\"#_ftn6\" name=\"_ftnref6\"><sup>[6]<\/sup><\/a>, \u201cpudesse eu n\u00e3o ser nascido\u201d<a href=\"#_ftn7\" name=\"_ftnref7\"><sup>[7]<\/sup><\/a> e \u201cn\u00e3o ter nascido\u201d<a href=\"#_ftn8\" name=\"_ftnref8\"><sup>[8]<\/sup><\/a>, mantendo presente n\u00e3o somente a articula\u00e7\u00e3o do excesso de sofrimento e a possibilidade de nos maldizermos, mas tamb\u00e9m a de um caminho pr\u00f3prio, diferente de um destino:<\/p>\n<p>\u201cDesejar \u2018n\u00e3o ter nascido\u2019 n\u00e3o \u00e9 o mesmo que querer morrer e tamb\u00e9m \u00e9 diferente de querer cometer suic\u00eddio. Significa ter em conta a dificuldade de amar a vida. Freud n\u00e3o era ing\u00eanuo a este respeito: falava do \u2018dever de viver\u2019, n\u00e3o falava da felicidade de viver\u201d.<a href=\"#_ftn9\" name=\"_ftnref9\"><sup>[9]<\/sup><\/a><\/p>\n<p>Zain, sem palavra e com seu destino de merda, ainda mant\u00e9m seu sentimento de pertin\u00eancia \u00e0 esp\u00e9cie humana e sua recusa \u00e0 vitimiza\u00e7\u00e3o social \u2013 posi\u00e7\u00e3o de seu pai \u2013, que o levam a apresentar sua indigna\u00e7\u00e3o ao mundo.<\/p>\n<figure id=\"attachment_5659438\" aria-describedby=\"caption-attachment-5659438\" style=\"width: 225px\" class=\"wp-caption alignright\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-5659438\" src=\"http:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2019\/11\/012-002-225x300.png\" alt=\"Autor: Brodie Vissers by Burst \u2013 Imagem: dancing-house-and-bus-prague - https:\/\/burst.shopify.com\/sign-language\" width=\"225\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2019\/11\/012-002-225x300.png 225w, https:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2019\/11\/012-002-274x365.png 274w, https:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2019\/11\/012-002.png 306w\" sizes=\"auto, (max-width: 225px) 100vw, 225px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-5659438\" class=\"wp-caption-text\">Autor: Brodie Vissers by Burst \u2013 Imagem: dancing-house-and-bus-prague &#8211;<br \/>https:\/\/burst.shopify.com\/sign-language<\/figcaption><\/figure>\n<h3><span style=\"color: #3366ff;\"><strong><em>A indigna\u00e7\u00e3o de Zain<\/em><\/strong><\/span><\/h3>\n<p>No tempo de sua priva\u00e7\u00e3o de liberdade \u2013 n\u00e3o mais que antes, mas agora com grades aparentes, exteriores a seu corpo \u2013, aquelas da institui\u00e7\u00e3o prisional do Estado, Zain \u00e9 arrebatado pela palavra do Outro.<\/p>\n<blockquote><p>\u201c<em>Zain, por que voc\u00ea est\u00e1 ligando?<\/em><\/p>\n<p><em>O que posso fazer para voc\u00ea?\u201d<\/em><\/p>\n<p><em>\u201cEu quero que os adultos me escutem\u201d<\/em>, responde.<\/p><\/blockquote>\n<p>Palavra inaugural de uma demanda: ser escutado. Em que esse ato de acusa\u00e7\u00e3o aos pais, feito por Zain, pode ser tomado no campo da \u00e9tica das consequ\u00eancias<a href=\"#_ftn10\" name=\"_ftnref10\"><sup>[10]<\/sup><\/a> e como um ato de indigna\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p>\u00c9ric Laurent definiu a indigna\u00e7\u00e3o \u201ccomo um sentimento experimentado como um valor diante de algo que atingiu outro valor. H\u00e1 um toque de real, por\u00e9m, sublimado, mais simb\u00f3lico\u201d<a href=\"#_ftn11\" name=\"_ftnref11\"><sup>[11]<\/sup><\/a>.<\/p>\n<p>Creio que se aproxima ao que foi assinalado anteriormente em refer\u00eancia ao princ\u00edpio da dignidade significante. A indigna\u00e7\u00e3o tomada por essa perspectiva \u2013 como princ\u00edpio \u2013 indica uma categoria abstrata, v\u00e1lida para todo ser humano. Diferentemente dos demais termos que comp\u00f5em o t\u00edtulo do \u00faltimo Enapol, n\u00e3o se trata de uma paix\u00e3o.<\/p>\n<p>Qual a incid\u00eancia de um sentimento de valor para Zain, um valor soterrado at\u00e9 o momento em que as ondas sonoras do r\u00e1dio fazem ressoar e repercutir tal valor com as palavras: \u201cEste relat\u00f3rio sobre injusti\u00e7as contra crian\u00e7as tocou profundamente nosso p\u00fablico. Voc\u00ea quer comentar sobre o que voc\u00ea acabou de assistir?\u201d.<\/p>\n<p>Para Zain \u2013 fa\u00e7amos a hip\u00f3tese \u2013, o sentimento, o valor de pertin\u00eancia ao humano foi atingido de forma avassaladora: sua irm\u00e3 morre por n\u00e3o poder receber cuidados m\u00e9dicos.<\/p>\n<p>N\u00e3o tinha documentos que lhe permitissem ingressar no mundo \u201cdos direitos humanos\u201d. Como se a dignidade pudesse ser relativizada e sujeita \u00e0s normas burocr\u00e1ticas. Sab\u00edamos dos infort\u00fanios de Zain desde o in\u00edcio, mas, agora, com seu ato, ele nos mostra que o valor contido no sentimento da indigna\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 um dado \u201cao humano\u201d: \u00e9-lhe preliminar; da\u00ed, poder classificar-se como princ\u00edpio o irredut\u00edvel humano, o sentimento de pessoa em sua particularidade e singularidade.<\/p>\n<p>Parece importante localizarmos a quest\u00e3o da singularidade do sujeito como sentimento requerido por Zain nas cenas em que reprova os pais, \u2013 e de forma dura o fez na visita de sua m\u00e3e na cadeia! \u2013 por trazerem mais um filho ao mundo. Seu pedido de que n\u00e3o mais trouxessem filhos ao mundo foi interpretado por muitos daqueles que escreveram an\u00e1lises cr\u00edticas do filme como um posicionamento da cineasta totalmente equivocado, j\u00e1 que estaria sendo \u2013 tamb\u00e9m ela \u2013 segregacionista, ao afirmar, pela boca de Zain, que pobres n\u00e3o podem ter prole numerosa. Vemos, por tais interpreta\u00e7\u00f5es, realizadas em nome do politicamente correto, um humanismo sem cr\u00edtica, o silencioso movimento bem-intencionado, sem d\u00favidas, que favorece a causa do que, a partir de Lacan, chamamos a forclus\u00e3o do sujeito.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<hr \/>\n<h6><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\"><sup>[1]<\/sup><\/a> Ficha t\u00e9cnica: Nome: Cafarnaum. Nome original: Capharna\u00fcm. Cor da filmagem: Colorida. Origem: L\u00edbano. Ano de produ\u00e7\u00e3o: 2018. G\u00eanero: Drama. Dura\u00e7\u00e3o: 121 min. Classifica\u00e7\u00e3o: 16 anos. Dire\u00e7\u00e3o: Nadine Labaki. Elenco: Zain Al Rafeea, Yordanos Shiferaw e Nadine Labaki.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\"><sup>[2]<\/sup><\/a> Youcenar, Marguerite. Ant\u00edgona o la elecci\u00f3n. In <em>Fuegos.<\/em> Tradu\u00e7\u00e3o Emma Calatayud 1. ed. Buenos Aires: Suma de Letras Argentina, 2005. p. 51-56.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref3\" name=\"_ftn3\"><sup>[3]<\/sup><\/a> Miller, Jacques-Alain. Semin\u00e1rio <em>El Banquete de los analistas. <\/em>Curso (1989-1990) <em>Orienta\u00e7\u00e3o Lacaniana<\/em>, ensinamento pronunciado no Departamento de psican\u00e1lise de Paris VIII. (In\u00e9dito). p. 54.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref4\" name=\"_ftn4\"><sup>[4]<\/sup><\/a> <em>Idem, Ibdem.<\/em><\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref5\" name=\"_ftn5\"><sup>[5]<\/sup><\/a> Miller, Jacques-Alain. O real no s\u00e9culo XXI. In <em>Scilicet<\/em>: um real para o s\u00e9culo XXI. Belo Horizonte: Scriptum, 2014. p. 32.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref6\" name=\"_ftn6\"><sup>[6]<\/sup><\/a> Lacan, Jacques. <em>O semin\u00e1rio Livro 7: A \u00e9tica da psican\u00e1lise<\/em>, Rio de Janeiro, Jorge Zahar Editor,1988. p.367.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref7\" name=\"_ftn7\"><sup>[7]<\/sup><\/a> Lacan, Jacques. <em>O semin\u00e1rio Livro 8<\/em>; <em>A transfer\u00eancia<\/em>. Rio de Janeiro, Jorge Zahar Editor,1992. p. 295.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref8\" name=\"_ftn8\"><sup>[8]<\/sup><\/a> Lacan, Jacques.<em> O semin\u00e1rio Livro<\/em> 6: <em>O desejo e sua interpreta\u00e7\u00e3o<\/em>. Rio de Janeiro, Jorge Zahar Editor. 2016. p. 107.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref9\" name=\"_ftn9\"><sup>[9]<\/sup><\/a> Huler, Susana. Nous ne comprenons pas les djihadistes lls ne nous comprennent pas non plus. <em>Lacan Quotidien, 464<\/em>. Dispon\u00edvel em: &lt;www.lacanquotidien.fr&gt;. Acesso em: 30 jun. 2019.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref10\" name=\"_ftn10\"><sup>[10]<\/sup><\/a> Conforme Miller (2017, p. 98): \u201cS\u00f3 se pode referir precisamente o ato a suas consequ\u00eancias. [\u2026] Por isso, no instante de passar ao ato, na medida em que n\u00e3o \u00e9 passagem ao ato, leva-se em conta a rea\u00e7\u00e3o do Outro, o que diz e o que vai fazer\u201d (Miller, Jacques-Alain <em>Pol\u00edtica Lacaniana. <\/em>Compila\u00e7\u00e3o Silvia Tendlarz. Buenos Aires: Colecci\u00f3n Diva, 2017).<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref11\" name=\"_ftn11\"><sup>[11]<\/sup><\/a> Laurent, \u00c9ric. Entrevista concedida a Ana Lydia Santiago (Parte 5). <em>Boletim OCI#7<\/em>. IX Enapol. Circula\u00e7\u00e3o por Veredas em 01\/07\/2019.<\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Maria Rita Guimar\u00e3es O Cine Cien abriu as atividades do Cien\u2013MG, do primeiro semestre de 2019, com o filme Capharnaum, de Nadini Labaki[1], ganhador do Pr\u00eamio de J\u00fari no Festival de Cannes de 2018. Sua narrativa contempla a pesquisa e o debate trazidos pela tem\u00e1tica orientada pelo \u00faltimo Enapol em seu t\u00edtulo: \u00d3dio, c\u00f3lera e&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":5659439,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[140,130],"tags":[141],"post_series":[],"class_list":["post-5659437","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-cien-digital-23","category-cine-cien","tag-cien-digital-23","entry","has-media"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/ciendigital.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5659437","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/ciendigital.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/ciendigital.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ciendigital.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ciendigital.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=5659437"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/ciendigital.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5659437\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ciendigital.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/5659439"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/ciendigital.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=5659437"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/ciendigital.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=5659437"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/ciendigital.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=5659437"},{"taxonomy":"post_series","embeddable":true,"href":"https:\/\/ciendigital.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/post_series?post=5659437"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}