{"id":5659546,"date":"2022-01-23T07:02:53","date_gmt":"2022-01-23T10:02:53","guid":{"rendered":"http:\/\/ciendigital.com.br\/?p=5659546"},"modified":"2022-01-23T07:43:52","modified_gmt":"2022-01-23T10:43:52","slug":"primeira-mesa-de-conversacao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ciendigital.com.br\/index.php\/2022\/01\/23\/primeira-mesa-de-conversacao\/","title":{"rendered":"PRIMEIRA MESA DE CONVERSA\u00c7\u00c3O"},"content":{"rendered":"<div class=\"pdfprnt-buttons pdfprnt-buttons-post pdfprnt-top-right\"><a href=\"https:\/\/ciendigital.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5659546?print=pdf\" class=\"pdfprnt-button pdfprnt-button-pdf\" target=\"_blank\" ><\/a><a href=\"https:\/\/ciendigital.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5659546?print=print\" class=\"pdfprnt-button pdfprnt-button-print\" target=\"_blank\" ><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/plugins\/pdf-print\/images\/print.png\" alt=\"image_print\" title=\"Conte\u00fado de impress\u00e3o\" \/><\/a><\/div><h4><em>II Conversa\u00e7\u00e3o CIEN Am\u00e9rica &#8211; A crian\u00e7a<br \/>\nviolenta e a dignidade do sujeito<\/em><\/h4>\n<h6><em>S\u00e3o Paulo, 13 de setembro de 2019.<\/em><\/h6>\n<h6><em>Coordena:<\/em> <em>V\u00e2nia Brito Gomes (CIEN-Brasil<\/em><em>)<\/em><em><br \/>\n<\/em><em>Anima: Fernando G\u00f3mez Smith (NEL)<\/em><\/h6>\n<blockquote><p><em>Quando uma hist\u00f3ria vinda de uma crian\u00e7a toca profundamente. (Nahuel)<\/em><\/p>\n<p><em>Laborat\u00f3rio \u201cNi\u00f1os y Adolescentes Violentos\u201d: Nacidos para molestar?<br \/>\n(CIEN &#8211; Ushuaia, Terra do Fogo, Argentina)<\/em><\/p>\n<p>\u201cO ser humano como parl\u00eatre est\u00e1 destinado a ser sintom\u00e1tico.\u201d<\/p>\n<p><em>Jacques-Alain Miller, Crian\u00e7as Violentas, Interven\u00e7\u00e3o de encerramento da 4a. Jornada do Instituto da Crian\u00e7a, 2017<\/em><\/p>\n<p>\u201cAprisionar o pr\u00f3prio sofrimento \u00e9 arriscar-se a que ele te devore desde o interior.\u201d<\/p>\n<p>\u201cTudo pode ter beleza, at\u00e9 o mais horr\u00edvel.\u201d<\/p>\n<p>\u201cNa verdade, n\u00e3o sei se meus quadros s\u00e3o surrealistas ou n\u00e3o, mas sei que representam a express\u00e3o mais sincera de mim mesma.\u201d<\/p>\n<p><em>Frida Khalo<\/em><\/p><\/blockquote>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignright size-medium wp-image-5659548\" src=\"http:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2022\/01\/003-005-300x225.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"225\" srcset=\"https:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2022\/01\/003-005-300x225.jpg 300w, https:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2022\/01\/003-005-274x206.jpg 274w, https:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2022\/01\/003-005.jpg 549w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/>Em uma escola inaugurada esse ano, h\u00e1 somente tr\u00eas alunos na 6a. s\u00e9rie. Crian\u00e7as que tiveram que deixar suas escolas particulares pela situa\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica do pa\u00eds. A professora nos relata o qu\u00e3o dif\u00edcil se apresenta a demanda dos pais que exigem \u201cqualidade educativa\u201d.<\/p>\n<p>A prima de Nahuel, conta \u00e0 professora uma cena da escola anterior: seu primo sofria Bullying, o trancavam no banheiro. Nahuel, frente \u00e0 fala da garota, n\u00e3o diz nada. A seguir diz que trocou de escola porque ele n\u00e3o gostava da anterior e que as professoras o maltratavam. Agora diz que desta escola nova tamb\u00e9m n\u00e3o gosta.<\/p>\n<p>Nahuel j\u00e1 \u00e9 conhecido por todos os professores pelo mal-estar que gera. De seus colegas, debocha da falta de saber. Ele assume o comando. Discute tudo, se \u00e9 corrigido, fica bravo, se \u00e9 solicitado a fazer atividades, justifica-se. Desafia o professor negando que seja certo o que lhe dizem. Nunca fica calado. Quando comete um erro, discute ou se angustia. Em alguns momentos \u00e9 ap\u00e1tico. Frente ao pedido da professora para que modifique seus modos, diz \u201ceu sou assim\u201d. Perguntamo-nos para que isso lhe serve.<\/p>\n<p>Quando se escuta \u201ch\u00e1 crian\u00e7as violentas\u201d, se tornam sens\u00edveis aspectos mais profundos da condi\u00e7\u00e3o humana. As respostas podem ser d\u00edspares, e as consequ\u00eancias inesperadas. \u00c9 por isso, efetivamente, o que denominamos um instante de olhar: \u00e9 a partir de localizar uma constru\u00e7\u00e3o de um sujeito, o que h\u00e1 de verdade nesse sofisma \u201cviolentos\u201d, e naqueles que trabalham com crian\u00e7as, a partir de um saber fazer, que se aposta na dire\u00e7\u00e3o de uma dignidade da crian\u00e7a, a qual, mais do que alcan\u00e7ada, est\u00e1 sempre por advir.<\/p>\n<p>Algo chama a aten\u00e7\u00e3o, Nahuel se preocupa com sua letra, pergunta para sua professora se \u00e9 leg\u00edvel. As palavras que n\u00e3o s\u00e3o compreens\u00edveis, a professora as sublinha, e lhe pede que as escreva de novo. Ele se angustia, n\u00e3o aceita o erro, diz que sim s\u00e3o compreens\u00edveis. A professora efetivamente n\u00e3o consegue ler, e o que se p\u00f5e em jogo \u00e9 um imposs\u00edvel. A leitura \u00e9 algo de que ele gosta. Leva livros de fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica para usar uma vez que terminou os deveres&#8230; antes de todos.<\/p>\n<p>Nesse laborat\u00f3rio, professores, docentes de outras \u00e1reas e agentes de sa\u00fade p\u00fablica conversam acerca da coincid\u00eancia da impossibilidade do saber frente ao que lhes excede, o que fazer frente a este tipo de situa\u00e7\u00e3o. Uma constante reflex\u00e3o sobre a incompreens\u00e3o \u00e9 escutada.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m se escuta uma forte alus\u00e3o \u00e0 inf\u00e2ncia como um valor em si mesmo que n\u00e3o se representa em nenhum signo como o violento. Ap\u00f3s cada conversa\u00e7\u00e3o volta a disrup\u00e7\u00e3o entre ambas as circunst\u00e2ncias: os corpos n\u00e3o calam nas salas de aula e os adultos terminam com san\u00e7\u00f5es paliativas de normatividade. No entanto, a professora de Nahuel se mostra paciente esperando-o de outro modo.<\/p>\n<p>Algo \u00e9 for\u00e7ado para al\u00e9m do dito, entre a verdade dos saberes das disciplinas e as exig\u00eancias do senso comum, para tudo o que n\u00e3o \u00e9 compreens\u00edvel. Com esta vacila\u00e7\u00e3o subjetiva se precipita uma indaga\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Aparece ent\u00e3o uma primeira leitura: do Bullying passamos a pensar numa crian\u00e7a que se faz n\u00e3o ser querida. Apresenta-se como uma crian\u00e7a que pode com tudo, desafia e prescinde do Outro. Tamb\u00e9m \u00e9 uma crian\u00e7a que come\u00e7a a se angustiar, se afeta, se enfurece, aparece a raiva e o choro. \u201cTenho medo que minha m\u00e3e morra\u201d expressa quando um professor o repreende por se mostrar desafiante.<\/p>\n<p>O pai n\u00e3o mora aqui, a m\u00e3e n\u00e3o se faz presente na institui\u00e7\u00e3o a n\u00e3o ser para reclamar o privil\u00e9gio dele ser o portador da bandeira. Uma crian\u00e7a exigida a partir de um ideal e sujeita a uma viol\u00eancia n\u00e3o esclarecida.<\/p>\n<p>O bullying aparece como um significante que n\u00e3o remete a outra coisa. A subjetividade da crian\u00e7a fica anulada, esmaga-se um desejo. A palavra da crian\u00e7a permite fazer uma leitura. H\u00e1 outra coisa em jogo. \u00c9 a singularidade que nos reposiciona frente \u00e0 impot\u00eancia e aos ideais.<\/p>\n<p>Na volta das f\u00e9rias a professora comenta que observa mudan\u00e7as. Quando lhe pede a folha para ler sua produ\u00e7\u00e3o Nahuel diz: \u201cMinha letra \u00e9 feia, voc\u00ea n\u00e3o vai entender. Minha m\u00e3e disse que \u00e9 feia\u201d.<\/p>\n<p>Nesse dia falam sobre a biografia de Frida Khalo, de seu sofrimento e sua arte. Momento no qual Nahuel pode falar com a professora sobre o Bullying que viveu na outra escola. Conta que no primeiro grau os colegas lhe batiam, enfiavam sua cabe\u00e7a na privada e lhe quebraram o bra\u00e7o. \u201cA professora era uma tonta porque n\u00e3o acreditava em mim\u201d &#8211; exclama. A partir de que lhe quebram o bra\u00e7o ele diz que se torna \u201cmau\u201d.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignright size-medium wp-image-5659549\" src=\"http:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2022\/01\/003-006-300x226.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"226\" srcset=\"https:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2022\/01\/003-006-300x226.jpg 300w, https:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2022\/01\/003-006-274x206.jpg 274w, https:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2022\/01\/003-006.jpg 525w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/>A professora pede que escrevam um cartaz em grupo, ele prop\u00f5e a Lu\u00eds, porque sua letra \u00e9 horr\u00edvel. A professora aceita o pedido, mas acontece um imprevisto: Lu\u00eds, que vinha escrevendo bem, tem um sangramento no nariz por uma hemorragia nasal e precisa ir embora. Ent\u00e3o a professora pede a Nahuel que continue a escrita da atividade. O menino copia a letra do colega e pela primeira vez faz uma letra bonita. A letra bonita \u00e9 produto de uma c\u00f3pia e por mais que seja falsa n\u00e3o deixa de ser dele. Quando Lu\u00eds volta do banheiro, Nahuel prop\u00f5e que escrevam um pouquinho cada um. \u201cUm pouco\u201d que implica uma borda, um lugar. Um pouco que instala uma alteridade, um pouco ele e um pouco o outro. Isso lhe permite um tratamento de seu todo. J\u00e1 n\u00e3o \u00e9 todo feio, todo mau, todo enfrentamento, n\u00e3o \u00e9 todo deboche. Aparecem inclusive palavras am\u00e1veis para seus colegas. Algo desperta, pode pensar-se como um acontecimento, que o faz ceder.<\/p>\n<p>Na sala de aula concluem que Frida tinha um problema na perna de nascen\u00e7a, depois sofre um acidente e ela, a partir da impossibilidade prostrada na cama, extrai a arte. Com a biografia de Frida e a confid\u00eancia de Nahuel \u00e0 professora, perguntamos se o que antigamente era bullying agora fica do lado do sofrimento, uma segunda leitura.<\/p>\n<p>No decorrer deste relato podemos situar tr\u00eas momentos. O primeiro onde Nahuel enuncia que sua letra \u00e9 feia, sob a identidade do \u201ceu sou assim\u201d. No segundo a professora incorpora um \u201cn\u00e3o entendo voc\u00ea\u201d, extra\u00eddo do Laborat\u00f3rio, e a crian\u00e7a responde \u201csim, me entende\u201d, se aborrece e chora. Finalmente um terceiro momento, em que ele diz \u201cvoc\u00ea n\u00e3o vai me entender porque escrevo feio\u201d. Aparecendo o in\u00edcio de uma alteridade de uma forma suport\u00e1vel.<\/p>\n<p>Depois de trabalhar a biografia de Frida Khalo a professora prop\u00f5e que escrevam outra de uma pessoa que seja do interesse deles. A crian\u00e7a responde \u201ceu vou escrever a biografia de Nahuel M.\u201d &#8211; seu nome e sobrenome paterno.<\/p>\n<p><em>Integrantes: Sandra Ponce de Leon (fonoaudi\u00f3loga), Araceli Villalba (professora), Jose Rodriguez (psic\u00f3logo, praticante da psican\u00e1lise), Constanza Padilla (psic\u00f3loga, praticante da psican\u00e1lise).<\/em><\/p>\n<h6><strong><em>Tradu\u00e7\u00e3o: Mariela Pradeiro<\/em><\/strong><\/h6>\n<h6><strong><em>Revis\u00e3o: Flavia Machado Seidinger Leibovitz<\/em><\/strong><\/h6>\n<hr \/>\n<h3><span style=\"color: #0000ff;\">Crian\u00e7as terr\u00edveis<\/span><\/h3>\n<h6><em>Laborat\u00f3rio \u201cA crian\u00e7a entre a mulher e a m\u00e3e\u201d<br \/>\n(CIEN \u2013 RJ\/BR)<\/em><\/h6>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignright size-medium wp-image-5659550\" src=\"http:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2022\/01\/003-007-300x247.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"247\" srcset=\"https:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2022\/01\/003-007-300x247.jpg 300w, https:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2022\/01\/003-007-274x226.jpg 274w, https:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2022\/01\/003-007.jpg 460w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/>A crian\u00e7a que apresenta um comportamento diferente do que \u00e9 esperado incomoda e, quando manifesta repetidamente agressividade, seu comportamento \u00e9 tomado como uma patologia e justificado com um diagn\u00f3stico, na tentativa de controle da inf\u00e2ncia.<\/p>\n<p>Frequentemente, a loucura na inf\u00e2ncia tem hoje o nome de Autismo, Transtorno de D\u00e9ficit de Aten\u00e7\u00e3o com Hiperatividade ou Transtorno Opositivo Desafiador, usados para solucionar impasses que surgem no cotidiano da institui\u00e7\u00e3o escolar.<\/p>\n<p>Terr\u00edvel \u00e9 o significante que marca uma conversa\u00e7\u00e3o realizada em dois tempos pelo laborat\u00f3rio, com a participa\u00e7\u00e3o de professores e da diretoria de uma escola. Terr\u00edvel \u00e9 etiqueta que tamb\u00e9m funciona como um nome, uma vez que a crian\u00e7a responde com viol\u00eancia ao que lhe \u00e9 dirigido.<\/p>\n<p>Tempo 1: Um menino autista fica sempre agitado no hor\u00e1rio da sa\u00edda. \u201cEle \u00e9 terr\u00edvel\u201d, comenta o pai. Certo dia, corre pela sala de aula e belisca a professora que anunciou o t\u00e9rmino da atividade. \u201cEle \u00e9 terr\u00edvel\u201d, diz uma professora durante a conversa\u00e7\u00e3o. Outras concordam, e trazem muitos exemplos de crian\u00e7as terr\u00edveis.<\/p>\n<p>Muito angustiada, outra professora inicia um longo relato: \u201cMas o caso do Lucas \u00e9 muito pior. Fui injustamente acusada de roubo, fiquei com muita vergonha. J\u00e1 havia alertado a escola: este menino tem problema. Registrei no livro de ocorr\u00eancias. Precisamos fazer algo com seu comportamento desafiador. Estou muito mal. Tomo meus rem\u00e9dios, mas n\u00e3o melhoro.\u201d<\/p>\n<p>A diretora diz a ela que precisa pensar por que se sente envergonhada, j\u00e1 que estava entre colegas que compartilham dificuldades parecidas. A participante do laborat\u00f3rio comenta que ela n\u00e3o \u00e9 a \u00fanica respons\u00e1vel pelo aluno e que a conversa\u00e7\u00e3o visa justamente que todos possam encontrar novas solu\u00e7\u00f5es para os impasses do dia-a-dia na escola.<\/p>\n<p>A professora descreve uma primeira cena como uma interven\u00e7\u00e3o ideal. Ela pede \u00e0 turma um trabalho sobre a fam\u00edlia. Lucas come\u00e7a a falar do tio. Ela o interrompe: \u201ctio n\u00e3o vale\u201d e passa a palavra para outro aluno. \u201cN\u00e3o vou deixar esse menino fazer o que quer. Ele me confronta e eu preciso mudar ele\u201d, diz na conversa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Na mesma semana, a cena da vergonha: ele est\u00e1 usando o celular durante uma atividade, a professora toma-lhe o aparelho e explica que o entregar\u00e1 a seu pai. Visivelmente angustiada, ela prossegue na conversa\u00e7\u00e3o: \u201cNa hora da sa\u00edda, estamos diante do pai e ele tem um surto, corre pelo p\u00e1tio, gritando e atirando objetos, me xingando de ladra e mentirosa. Rosna para quem se aproxima dele\u201d. E ela repete: \u201cn\u00e3o vou deixar o menino fazer o que quer\u201d.<\/p>\n<p>Ela conta ainda outra interven\u00e7\u00e3o supostamente ideal: como de costume, ap\u00f3s uma atividade, pergunta aos alunos quem quer apagar o quadro. Ele levanta a m\u00e3o. \u201cAh, n\u00e3o deixei. Chamei outra aluna.\u201d A participante do laborat\u00f3rio pergunta o porqu\u00ea. \u201cPara ele n\u00e3o pensar que pode fazer o que quer. Ele \u00e9 terr\u00edvel\u201d \u2013 responde.<\/p>\n<p>A diretora conta que, no dia seguinte, o menino repete para ela a queixa sobre a professora. E acrescenta: \u201cEla n\u00e3o me deu voz. Meu cora\u00e7\u00e3o acelera, eu sinto muita raiva. Voc\u00ea sabe que eu sou terr\u00edvel? Eu mordia as crian\u00e7as no Jardim de Inf\u00e2ncia, fui expulso da escola e minha m\u00e3e quase foi demitida. Eu tenho um canal no YouTube chamado Fazendo besteirinhas. Eu sou terr\u00edvel\u201d. A diretora diz: \u201cparece que ele repete o que dizem sobre ele e que o coloca neste lugar de terr\u00edvel, \u00e9 o que a escola acaba por refor\u00e7ar\u201d.<\/p>\n<p>A participante do laborat\u00f3rio lan\u00e7a na conversa\u00e7\u00e3o a pergunta do que tornaria poss\u00edvel, para o menino, outra resposta. \u201cMas ele sempre me confronta\u201d, diz a professora irritada. \u201cSe ele repete, o que se repete?\u201d \u2013 continua a participante.<\/p>\n<p>Retorna nas falas hostis das professoras o sentimento de impot\u00eancia. Acreditam que ele n\u00e3o tem jeito. A professora se irrita e convoca as demais professoras a apoiarem seu discurso corretivo. Algumas repetem sua frase \u201cvamos deixar ele fazer o que quer?\u201d. Uma delas diz: \u201cele sabe como te perturbar\u201d, com o que um participante do laborat\u00f3rio concorda, dizendo que o menino j\u00e1 espera ouvir o que escuta da professora, \u201cj\u00e1 vem no pacote.\u201d<\/p>\n<p>A participante diz que ele j\u00e1 conta com o N\u00c3O e lan\u00e7a a pergunta sobre como poderia ser surpreendido: \u201ce se ele escutasse SIM?\u201d As professoras falam ao mesmo tempo, n\u00e3o sabem como fazer diferente com ele. \u201cE se fosse criado um caderno de anota\u00e7\u00f5es das coisas boas realizadas pelos alunos da escola, n\u00e3o s\u00f3 por ele, no lugar do livro de ocorr\u00eancias?\u201d, sugere a participante. Todas olham surpresas e a professora insiste no controle do comportamento do menino. A participante fala que ele n\u00e3o mudar\u00e1 porque ela quer, mas somente quando e se esse lugar de terr\u00edvel ficar ruim para ele, e corta a conversa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Tempo 2: A diretora traz not\u00edcias. Primeiro, conta que na sa\u00edda da primeira conversa\u00e7\u00e3o, durante uma carona, ao inv\u00e9s de falar de Lucas, a professora fez queixas da filha: \u201cela tem me aborrecido muito, pensa que pode fazer o que quer. N\u00e3o conseguimos manter um di\u00e1logo, ela sempre me confronta\u201d. A diretora conta ainda que esta professora tem estado silenciosa e hesitante nas interven\u00e7\u00f5es com ele. Antes, j\u00e1 possu\u00eda um saber pr\u00e9vio.<\/p>\n<p>Observa outra mudan\u00e7a: diante do que aparece como dificuldade no trabalho com as crian\u00e7as, as professoras costumavam colar no discurso da professora de Lucas. No momento, elas a procuram em sua sala, no corredor: t\u00eam se interrogado sobre como fazer de outro modo com as crian\u00e7as terr\u00edveis. Efeitos v\u00e3o surgindo a partir da aposta na conversa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A crian\u00e7a terr\u00edvel \u00e9 um nome que veste, sob medida, aqueles cujo ideal do professor n\u00e3o alcan\u00e7a. Ser terr\u00edvel seria um dos nomes da crian\u00e7a no s\u00e9culo XXI, uma resposta ao decl\u00ednio do pai no tempo em que, muitas vezes, n\u00e3o sabendo o que fazer, os adultos se colocam como autorit\u00e1rios e caprichosos para com as crian\u00e7as?<\/p>\n<h6><em>Integrantes: Ana Claudia Junqueira, Ana Martha Maia (respons\u00e1vel pelo laborat\u00f3rio), Anna Paula Ara\u00fajo, Hugo Magalh\u00e3es, Marina Valle, N\u00e1dia Aslan e Val\u00e9ria Cristina Glioche.<\/em><\/h6>\n<hr \/>\n<h3><span style=\"color: #0000ff;\">A porta fechada<\/span><\/h3>\n<h6><em>Laborat\u00f3rio \u201cCiranda de Conversa\u201d<br \/>\n(CIEN-PR\/BR)<br \/>\nB\u00e1rbara Snizek Ferraz de Campos e Renata Silva de Paula Soares<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\"><sup><strong>[1]<\/strong><\/sup><\/a><\/em><\/h6>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignright size-medium wp-image-5659551\" src=\"http:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2022\/01\/003-008-300x225.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"225\" srcset=\"https:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2022\/01\/003-008-300x225.jpg 300w, https:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2022\/01\/003-008-274x205.jpg 274w, https:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2022\/01\/003-008.jpg 547w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/>O Laborat\u00f3rio Ciranda de Conversa<a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\"><sup>[2]<\/sup><\/a> foi chamado para uma Conversa\u00e7\u00e3o com uma turma de 4\u00ba. ano em uma Escola Municipal de Curitiba a partir da queixa da professora. Ela apontou para um mal-estar entre os alunos, com idades entre 9 e 11 anos, que n\u00e3o \u201cparavam quietos\u201d. A agita\u00e7\u00e3o da turma dificultava n\u00e3o s\u00f3 o aproveitamento escolar, mas o la\u00e7o social. Para a diretora, os \u201cproblemas\u201d eram: \u201cviol\u00eancia e sexo: viol\u00eancia gratuita, para machucar\u201d!<\/p>\n<p>No primeiro contato do Laborat\u00f3rio com a turma, a animadora pontuou que, durante a Conversa\u00e7\u00e3o, a palavra poderia circular sem reservas e uma das crian\u00e7as disse: \u201cquero falar da vida!\u201d. No decorrer dos encontros, a viol\u00eancia foi a primeira a dar as caras, pois as crian\u00e7as, agitadas, trocavam empurr\u00f5es, socos e gritos, os quais foram sustentados sem \u201cnormatiza\u00e7\u00e3o\u201d, mas com algumas palavras que acolhessem e fornecessem algum sentido. As crian\u00e7as conversavam com a animadora, mas n\u00e3o entre si. Diante da constata\u00e7\u00e3o que buscavam resolu\u00e7\u00f5es, sem sucesso, com viol\u00eancia, uma crian\u00e7a p\u00f4de dizer: \u201cn\u00e3o resolve mesmo, s\u00f3 gera mais viol\u00eancia. Seria melhor tentar conversar\u201d.<\/p>\n<p>As palavras chegaram em letras de funk. As crian\u00e7as cantavam e dan\u00e7avam letras e coreografias bastante sexualizadas, sem demonstrarem o menor pudor, tamb\u00e9m sem serem provocativas. Era \u201cnormal\u201d, quase natural. Quando o teor das letras foi apontado, elas contaram que escutavam as m\u00fasicas que estavam \u201ctocando por a\u00ed\u201d, o tempo todo e em todos os lugares. Instigada pela insist\u00eancia do conte\u00fado trazido atrav\u00e9s dos funks, a animadora disse que poderiam, se quisessem, falar sobre a sexualidade. Nesse momento, um dos alunos levantou, em sil\u00eancio, e fechou a porta da sala. Ent\u00e3o, passaram a conversar sobre um menino e uma menina da sala que estavam namorando, sobre o aluno, do sexo masculino, que havia expressado sua vontade de ser mulher.<\/p>\n<p>A animadora e a professora pontuaram que estavam interessados nas mudan\u00e7as que vinham acontecendo com eles e em seus corpos. Eles come\u00e7aram a falar que as mudan\u00e7as eram o bigode, o pinto que crescia, os seios. Passaram a contar de alunos do quinto ano que se beijavam atr\u00e1s da \u00e1rvore e a animadora marcou que isso tudo era sobre sexualidade. Comentaram que assistiam a filmes porn\u00f4s em seus celulares, pr\u00e1tica comum, mas que n\u00e3o entendiam tudo dos filmes ou das letras dos funks. O funk era escutado em todos os cantos e a pornografia era consumida o tempo todo. O sexo aparecia de forma obscena, de portas abertas, dentro de suas casas.<\/p>\n<p>Nesse momento, a animadora percebeu que uma das meninas estava \u201cgr\u00e1vida\u201d, pois havia colocado um casaco embaixo da blusa, e perguntou: \u201cest\u00e1 gr\u00e1vida?\u201d; ela disse que sim e \u201ccomo meu filho vai nascer?\u201d; a professora respondeu: \u201cde parto normal ou ces\u00e1rea\u201d e explicou as vias de nascimento. Ficou claro que as d\u00favidas giravam em torno da sexualidade, e n\u00e3o, necessariamente, sobre a pornografia. Um aluno pediu para fazerem um planejamento sobre esse assunto, no sentido de uma palestra. A professora interveio, dizendo para pensarem nas d\u00favidas e trazerem, para uma conversa, no pr\u00f3ximo encontro, que seria ap\u00f3s as f\u00e9rias de julho.<\/p>\n<p>As crian\u00e7as retornaram, trazendo suas quest\u00f5es e conversando sobre sexualidade e suas situa\u00e7\u00f5es familiares. Foi quando decidiram inventar um \u201cshow de talentos\u201d, onde se apresentariam para toda a escola. Estavam muito entusiasmados. As m\u00fasicas que ensaiavam n\u00e3o traziam mais os pornogr\u00e1ficos, mas eram sucessos com letras que falavam sobre o cotidiano. Algumas crian\u00e7as dan\u00e7avam muito bem, e ensinavam para os colegas, que esperavam sua vez e aplaudiam quem se apresentava. Era poss\u00edvel observar corpos que se moviam com ritmo, prazer e ordena\u00e7\u00e3o. \u201cAs m\u00fasicas s\u00e3o de crian\u00e7a da idade deles\u201d, disse a professora, muito feliz, e a animadora se despediu, dizendo: \u201cvoc\u00eas t\u00eam a professora de voc\u00eas para seguir nesse percurso.\u201d<\/p>\n<p>Houve uma professora que aprendeu com seus alunos e crian\u00e7as que encontraram um lugar para falar do que n\u00e3o sabiam. Houve uma inven\u00e7\u00e3o. As crian\u00e7as, de portas fechadas, encontraram um espa\u00e7o privado para falarem, e serem escutadas, em suas quest\u00f5es sobre a sexualidade.<\/p>\n<p>Essas crian\u00e7as n\u00e3o eram violentas, estavam submetidas \u00e0 obscenidade e, com isso, violentadas. Eram corpos impregnados sem o direito do momento de compreender. Como diz Jacques-Alain Miller, \u201co porn\u00f4 \u00e9 uma fantasia filmada\u201d (&#8230;) \u201cn\u00e3o h\u00e1 nenhuma regula\u00e7\u00e3o\u201d<a href=\"#_ftn3\" name=\"_ftnref3\"><sup>[3]<\/sup><\/a>. A pornografia \u00e9 exibi\u00e7\u00e3o sem v\u00e9u, uma intrus\u00e3o, um for\u00e7amento, aqui, uma viol\u00eancia imposta a essas crian\u00e7as. Foi preciso que uma porta se fechasse, para dar um espa\u00e7o de privacidade \u00e0s crian\u00e7as submetidas a um tudo ver: sexo, sangue, morte, \u00e1lcool, drogas. Assim, abriu-se uma pergunta, um espa\u00e7o de constru\u00e7\u00e3o da inf\u00e2ncia, do corpo e da sexualidade, um momento de reflex\u00e3o, de poss\u00edvel elabora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Miller, em seu texto Crian\u00e7as Violentas, alerta os psicanalistas que n\u00e3o se deve aceitar de olhos fechados \u00e0 imposi\u00e7\u00e3o do significante violento pela fam\u00edlia ou pela escola, pois pode ser apenas um fator secund\u00e1rio. Afinal, h\u00e1 motivos para acolher a revolta quando essa se diferencia da viol\u00eancia err\u00e1tica. \u201cH\u00e1 raz\u00e3o para se revoltar.\u201d<a href=\"#_ftn4\" name=\"_ftnref4\"><sup>[4]<\/sup><\/a><\/p>\n<h6><em>Integrantes: B\u00e1rbara Snizek Ferraz de Campos, Eug\u00eania C. Souza, Niura Kiame, Renata Silva de Paula Soares (respons\u00e1vel pelo laborat\u00f3rio), Suely Poitevin, Stephanie Abr\u00e3o Gorte, Val\u00e9ria Beatriz Araujo, Willie Anne Provin.<\/em><\/h6>\n<hr \/>\n<h3><span style=\"color: #0000ff;\">Vazio e inven\u00e7\u00e3o: Liga contra a briga<\/span><\/h3>\n<h6><em>Laborat\u00f3rio \u201cO saber da crian\u00e7a\u201d<br \/>\n(CIEN-SP\/BR)<\/em><\/h6>\n<blockquote><p>\u201c&#8230; se pensa uma inser\u00e7\u00e3o no la\u00e7o n\u00e3o sem o singular\u201d.<\/p>\n<p><em>Indart, J.C.I. Udenio, B.<\/em><\/p><\/blockquote>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignright size-medium wp-image-5659552\" src=\"http:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2022\/01\/003-009-300x225.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"225\" srcset=\"https:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2022\/01\/003-009-300x225.jpg 300w, https:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2022\/01\/003-009-274x205.jpg 274w, https:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2022\/01\/003-009.jpg 423w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/>A partir das reuni\u00f5es do laborat\u00f3rio \u201cO saber da crian\u00e7a\u201d, em 2019, e do argumento da 2\u00aa conversa\u00e7\u00e3o do CIEN Am\u00e9rica, escreveremos sobre o in\u00e9dito que surge na pr\u00e1tica com crian\u00e7as. O in\u00e9dito se apresenta a partir de um ato. Aqui n\u00e3o \u00e9 o protocolo que orienta e sim algo que retira o discurso vigente de um lugar pr\u00e9-estabelecido e o leva para um furo, que faz algo sair dos trilhos, levando a outras estradas.<\/p>\n<p>A partir de um ato, descrito abaixo, da professora T., qual efeito se pode extrair da conversa\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p>Um dos alunos da sala, S., achou um l\u00e1pis no material coletivo e disse que era seu. Outros disseram que era de M., mas M. n\u00e3o estava em sala e pedi para que as crian\u00e7as n\u00e3o comentassem. Dito e n\u00e3o feito. M. chegou e uma crian\u00e7a contou a ele sobre o l\u00e1pis. Pronto: confus\u00e3o armada. M. segurava S. e dizia, me d\u00e1 o l\u00e1pis, ao que S. respondia n\u00e3o. Pedia que me dessem o l\u00e1pis, mas eles n\u00e3o me escutavam e ali come\u00e7aram os socos.<\/p>\n<p>Quando j\u00e1 estavam a caminho da dire\u00e7\u00e3o, voltaram a se bater, pararam por um momento e consegui colocar um de cada lado da grade que ficava entre as salas de aulas e o p\u00e1tio. Com a grade entre eles, formando uma barreira f\u00edsica, assegurei um m\u00ednimo de espa\u00e7o para a palavra existir. Uma pessoa da equipe gestora me ajudou a acalm\u00e1-los.<\/p>\n<p>Durante nossa conversa, ambos pensavam que estavam certos. Disse ao S. que ele poderia ter dito a M. que n\u00e3o concordava com ele, mas que podia ter dado o l\u00e1pis para ele ou para mim. Falei a M. que ele n\u00e3o precisava pegar o l\u00e1pis dessa forma, deveriam ter me deixado ajudar a resolver o problema. Ambos foram se acalmando, sugeri que M. fosse ao banheiro. Enquanto isso, conversei com S., perguntei se ele daria conta de voltar \u00e0 sala e conviver com M. at\u00e9 o final do dia sem brigar. Combinamos que se ele ficasse nervoso poderia me contar e sair da sala para beber uma \u00e1gua. Depois, enquanto S. foi ao banheiro, conversei o mesmo com M. Expliquei o combinado que havia feito tamb\u00e9m com o S. e o menino aceitou.<\/p>\n<p>Retornamos para sala de aula, o assunto da briga continuou, agora com todas as crian\u00e7as. Ap\u00f3s um tempo, S. parou na frente de todos, respirou fundo e disse: \u201cMenino, eu n\u00e3o concordo com voc\u00ea, mas me desculpa\u201d. Sil\u00eancio e uma emo\u00e7\u00e3o de surpresa afloraram diante dos meus olhos. Continuamos a conversar sobre a viol\u00eancia. V\u00e1rias crian\u00e7as contaram sobre as viol\u00eancias sofridas. Em meio \u00e0s m\u00e3os levantadas e o empenho para que todos se escutassem, a resolu\u00e7\u00e3o come\u00e7ou a ser escrita pela turma. M. precisava falar, interrompia uma e outra crian\u00e7a e contava de seus \u201capanhamentos\u201d. A \u00e2nsia de M. em falar era tanta que as outras crian\u00e7as, sabiamente, compreendiam e o deixavam falar, permanecendo atentos. Eu, ent\u00e3o, olhei para M. e disse: \u201cEu sei que voc\u00ea est\u00e1 contando isso tudo assim num tom faceiro, mas eu imagino o que voc\u00ea sentiu enquanto apanhava e sei que n\u00e3o foi bom. A gente precisa pensar no que sente a pessoa que apanha. N\u00e3o \u00e9 normal as pessoas apanharem tanto assim\u201d. M. responde: \u201cNingu\u00e9m gosta de apanhar\u201d. Ao que completei: \u201cPrecisamos, ent\u00e3o, pensar em outras formas de resolver os problemas, sem ter algu\u00e9m que bata e algu\u00e9m que apanhe\u201d.<\/p>\n<p>No dia seguinte, t\u00ednhamos o jornal de parede, t\u00e9cnica inspirada nas pr\u00e1ticas de Freinet. Nos reunimos em roda para discutir quest\u00f5es trazidas pelas crian\u00e7as. Na roda, a palavra estava em aberto. Neste dia, as crian\u00e7as resolveram criar a \u201cLiga contra a briga\u201d.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s escutar as propostas feitas pelas crian\u00e7as, chamei-as em duplas para criar uma frase e espalharmos pela escola. Come\u00e7amos nossa Liga. Quando chamei M. para escrever sua frase, ele inicialmente se recusou, mas, no outro dia, sentou s\u00f3 em minha mesa e escreveu: \u201cEu queria acabar com a briga. Eu queria melhorar\u201d. Assinou seu nome: \u201cM., 4\u00baB, Liga contra a briga\u201d.<\/p>\n<p>Nessa situa\u00e7\u00e3o, a abertura para a palavra forjou um espa\u00e7o onde foi poss\u00edvel circular um dizer sobre a viol\u00eancia. Um ato da professora \u2013 a conversa com os alunos \u2013 fez nascer uma inven\u00e7\u00e3o e abriu algo novo. Um tratamento simb\u00f3lico \u00e0 viol\u00eancia criou uma solu\u00e7\u00e3o encarnada na \u201cLiga contra a briga\u201d, produziu um tratamento na conversa estabelecida ali. A professora n\u00e3o respondeu protocolarmente a essa situa\u00e7\u00e3o e sim apostou no in\u00e9dito. Essa aposta fez eco entre os dois alunos, nela, na turma e na escola.<\/p>\n<p>Quando o praticante fala no laborat\u00f3rio, suas experi\u00eancias podem ser ressignificadas. Tamb\u00e9m \u00e9 na conversa\u00e7\u00e3o que se produz um saber sobre a a\u00e7\u00e3o e sobre a coragem de um ato. A decis\u00e3o de n\u00e3o recuar diante do saber da crian\u00e7a apresenta seus efeitos a posteriori. E, na inven\u00e7\u00e3o, abre-se um lugar para o elaborar, desde que a solu\u00e7\u00e3o possa surgir no um a um. O que vivifica \u00e9 o saber que, no lugar vazio, onde a conversa\u00e7\u00e3o se faz presente, (inter-disciplinas), cada integrante pode encontrar sua pr\u00f3pria resposta e tecer seu la\u00e7o.<\/p>\n<p>Como construir sa\u00eddas frente \u00e0 viol\u00eancia? Um dos impasses discutidos no laborat\u00f3rio \u2013 que trouxe o relato da vinheta acima \u2013 foi o de como construir respostas frente \u00e0 viol\u00eancia que insiste em se apresentar entre os jovens e as crian\u00e7as. Foi essa a pergunta que a professora fez ao iniciar uma de nossas conversa\u00e7\u00f5es. Ela diz: \u201cPassei por uma situa\u00e7\u00e3o (a do relato) e fiquei pensando sobre o que fazer quando nos vemos em situa\u00e7\u00f5es como essa\u201d. Nesse momento, a constru\u00e7\u00e3o da \u201cLiga contra a briga\u201d ainda n\u00e3o aparecia como sa\u00edda, uma inven\u00e7\u00e3o. Perguntas feitas pelos participantes abriram a conversa. \u201cE como foi para voc\u00ea deixar a sala sem um adulto?\u201d. A resposta: \u201cNa hora eu nem pensei, apenas fui. Eu sabia que os outros alunos ficariam bem, eu precisava estar com os dois que estavam brigando.\u201d<\/p>\n<p>Nesse ponto da conversa\u00e7\u00e3o, cada qual com suas perguntas e contribui\u00e7\u00f5es, trazendo tamb\u00e9m situa\u00e7\u00f5es onde o ato produzira efeitos, foi poss\u00edvel localizar que a professora havia permitido um descolamento da norma para o singular e para a inven\u00e7\u00e3o. Ocorreu, no momento da decis\u00e3o, perceber um \u201cn\u00e3o sei no que vai dar, mas eu vou arriscar\u201d. Com isso, foi poss\u00edvel identificar que \u00e9 a partir de um n\u00e3o saber, e de um permitir-se ao risco, que o in\u00e9dito pode aparecer, \u2013 isso tamb\u00e9m acontece na conversa\u00e7\u00e3o, na qual \u00e9 preciso deixar um espa\u00e7o para o vazio, a fim de que uma inven\u00e7\u00e3o surja.<\/p>\n<p>Depois da conversa\u00e7\u00e3o, dois participantes (um deles a pr\u00f3pria professora) escreveram suas reflex\u00f5es, efeito produzido pelo laborat\u00f3rio:<\/p>\n<p><strong>Primeira reflex\u00e3o:<\/strong><\/p>\n<p>\u201cO que podemos fazer quando nos deparamos com uma situa\u00e7\u00e3o complicada com os alunos e que nos deixa de certa forma congelados? Transferir um reflexo do qual sirva de inspira\u00e7\u00e3o no meio do caos. A troca, em pequenos gestos t\u00e3o simples, que para eles se transformam em empatia, tamb\u00e9m nos faz crescer e aprender. Pra qu\u00ea um espelho se n\u00f3s podemos olhar o outro? O CIEN est\u00e1 sendo a prova concreta que estamos recitando, declarando e nos inspirando nos reflexos coletivos. O conhecimento e a disposi\u00e7\u00e3o \u00e9 o que nos traz nesta constru\u00e7\u00e3o.\u201d W.M.F<\/p>\n<p>\u201cSer\u00e1 que me autorizo a inventar mesmo diante de um protocolo, quando me coloco a escutar? E ser\u00e1 que escutar depende do vazio que eu permito descobrir em mim? Assim entendo que quando n\u00e3o h\u00e1 \u00e9 que pode haver. Como poderia eu escutar, se em mim espa\u00e7o vazio n\u00e3o houvesse? O que eu fa\u00e7o \u00e9 inventar com elas, as crian\u00e7as, as poss\u00edveis solu\u00e7\u00f5es daquilo que eu n\u00e3o posso resolver.\u201d T.D.S.P<\/p>\n<h6><em>Integrantes: Ana Am\u00e9lia Tridico (professora), C\u00e1ssia Maria Rosato (psic\u00f3loga do Tribunal de Justi\u00e7a de S\u00e3o Paulo), Cl\u00e1udia Santa Silva (psic\u00f3loga, psicanalista e respons\u00e1vel pelo laborat\u00f3rio), Emelice Prado Bagnola (psicanalista) Lilian Sayuri Matsumoto (enfermeira CAPSij), Nataly Pimentel (psiquiatra), Sibele Campos Martins (psic\u00f3loga e psicanalista), Tamires Dorneles e Silva Pieruccini (professora do Ensino Fundamental I) e Washington Magalh\u00e3es Filho (professor do Ensino M\u00e9dio. Letras &#8211; portugu\u00eas e ingl\u00eas)<\/em><\/h6>\n<hr \/>\n<h3><span style=\"color: #0000ff;\">\u201cEu n\u00e3o te conhe\u00e7o\u201d.<\/span><br \/>\n<span style=\"color: #0000ff;\">Ensaios sobre sa\u00eddas poss\u00edveis<\/span><\/h3>\n<h6><em>Laborat\u00f3rio \u201cInfancias estalladas\u201d<br \/>\n(CIEN \u2013 Bs As\/AR)<\/em><\/h6>\n<blockquote><p>\u201cO pensamento \u00e9 por ess\u00eancia uma pot\u00eancia de domina\u00e7\u00e3o N\u00e3o para at\u00e9 orientar o desconhecido ao conhecido, at\u00e9 fragmentar seu mist\u00e9rio para faz\u00ea-lo seu, esclarec\u00ea-lo. Nome\u00e1-lo.\u201d<\/p>\n<p><em>A hospitalidade, Anne Dufoumantelle, Jacques Derrida<\/em><\/p><\/blockquote>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignright size-medium wp-image-5659553\" src=\"http:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2022\/01\/003-010-225x300.jpg\" alt=\"\" width=\"225\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2022\/01\/003-010-225x300.jpg 225w, https:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2022\/01\/003-010-274x366.jpg 274w, https:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2022\/01\/003-010.jpg 378w\" sizes=\"auto, (max-width: 225px) 100vw, 225px\" \/>Encontramo-nos diante do mal-estar que nos provoca a insist\u00eancia de um \u201csem sa\u00edda\u201d nas tentativas de dar resposta a diversas situa\u00e7\u00f5es que afetam meninas, meninos e adolescentes. Diante da complexidade e escassez de recursos de pol\u00edticas p\u00fablicas que habilitem um lugar poss\u00edvel para eles, refor\u00e7am-se protocolos e pr\u00e1ticas que, em nome de garantir seu bem-estar, invisibilizam essa complexidade, reproduzem respostas alienantes e os responsabilizam pelas car\u00eancias do sistema.<\/p>\n<p>Insistem os enunciados que os nomeiam como violentos, perigosos, estranhos, acompanhados de gestos que redobram a expuls\u00e3o. Diferentes significa\u00e7\u00f5es que recaem sobre as crian\u00e7as e seu padecer, delimitando respostas nos profissionais, que muitas vezes justificam pr\u00e1ticas segregativas.<\/p>\n<p>Como tornar vis\u00edvel o singular de cada caso, a fim de evitar reproduzir respostas autom\u00e1ticas, des-subjetivantes, violentas na dire\u00e7\u00e3o das crian\u00e7as e que, por sua vez, as violentam? Como n\u00e3o ficarmos n\u00f3s mesmos, profissionais chamados a dar resposta, como objeto dessa l\u00f3gica que impera?<\/p>\n<p>Na pr\u00e1tica verificamos os efeitos de sustentar como equipe inter-disciplinar os pr\u00f3prios impasses, esses que furam o muro de \u201ctudo \u00e9 a mesma coisa\u201d e \u201cnada \u00e9 poss\u00edvel\u201d, onde muitas vezes a falta de recursos pareceria nos eximir do compromisso de oferecer alguma resposta.<\/p>\n<p>Mat\u00edas \u00e9 um jovem de 14 anos. Ele \u00e9 levado em duas oportunidades consecutivas para a emerg\u00eancia do hospital, de madrugada, algemado, com uma ordem policial e um operador do Conselho de Direitos de Crian\u00e7as e Adolescentes, que de acordo com um novo protocolo de interven\u00e7\u00e3o recentemente instaurado, sugere que ele seja avaliado em um centro de sa\u00fade. Esse protocolo inclui uma \u201cplataforma inform\u00e1tica\u201d que consiste em um sistema de \u201cdados compartilhados\u201d que promete dispor de \u201ctoda a informa\u00e7\u00e3o a partir do minuto zero\u201d sobre as crian\u00e7as e jovens afetados severamente em sua sa\u00fade, assim como sobre suas trajet\u00f3rias institucionais, a fim de articular intersetorialmente uma resposta que garanta o acesso aos seus direitos. Mas na pr\u00e1tica advertimos que a resposta \u00e9 sempre a mesma: n\u00e3o h\u00e1 lugar para a abordagem das problem\u00e1ticas dos jovens que est\u00e3o ali. O sistema de dados funciona como um saber antecipado e totalizante, que nos conduz ao risco de obturar a emerg\u00eancia do sujeito e seu dizer. Voltemos a Mat\u00edas. Foi recebido. Inicialmente ficamos tomados pela cena, nos prestando \u00e0 repeti\u00e7\u00e3o daquilo que o traz. Foi escutado. Ele est\u00e1 com muito sono e pouco interesse em falar; contudo, a seu modo, sempre \u00e9 am\u00e1vel. Ele j\u00e1 conhece o percurso que o espera, um circuito que se repete uma e outra vez sem fissuras. Est\u00e1 entregue a isso. Realizamos um relat\u00f3rio, o mais humanizado poss\u00edvel. Falamos de um jovem que perdeu seus pais, sob os cuidados de uma irm\u00e3 que, cansada das chamadas cotidianas por seu comportamento disruptivo, parece ter largado m\u00e3o. Um jovem que acabou o ensino fundamental e abandonou o ensino m\u00e9dio. Sem abordagens pr\u00e9vias, apostamos na possibilidade de um tratamento poss\u00edvel ao que poderia ser seu sintoma.<\/p>\n<p>Em sua segunda chegada ao plant\u00e3o, assistimos a uma configura\u00e7\u00e3o id\u00eantica. \u00c9 a partir da Equipe que se introduz uma diferen\u00e7a: convencidos de que n\u00e3o-tudo<a href=\"#_ftn5\" name=\"_ftnref5\"><sup>[5]<\/sup><\/a> pode ser da esfera p\u00fablica, nem de conhecimento p\u00fablico, decide-se sustentar em ato a escuta no privado do dizer de Mat\u00edas. O policial que o acompanha n\u00e3o esconde seu inc\u00f4modo e vai embora (n\u00e3o sem antes assegurar-se que Mat\u00edas n\u00e3o possa sair dali).<\/p>\n<p>Pouco depois, um terceiro encontro se produz. Mais uma vez, algemado e escoltado. Ele desmonta em uma cadeira, abatido, apenas diz \u201cvoltei a cair\u201d. A s\u00f3s, a equipe sustenta um categ\u00f3rico: \u201cEu n\u00e3o te conhe\u00e7o, vamos conversar um pouco\u201d.<\/p>\n<p>Mat\u00edas come\u00e7a a narrar-se. Ganha corpo, e alguma implica\u00e7\u00e3o no seu dizer come\u00e7a a aparecer. Ele situa o consumo como o come\u00e7o de seus problemas, mas logo depois corrige que j\u00e1 antes tinha perdido o interesse pelas coisas. Localiza-se tamb\u00e9m que pouco tempo antes disso sua m\u00e3e tinha morrido&#8230; \u201cr\u00e1pido demais\u201d. Ele esteve em uma comunidade terap\u00eautica, no entanto foi embora, explica, porque tinha \u201cpessoas mais velhas, dopadas, que n\u00e3o queriam deixar de estar ali\u201d. Soube que sua fam\u00edlia saiu de f\u00e9rias, ent\u00e3o \u201co que eu fa\u00e7o aqui?\u201d, disse a si mesmo.<\/p>\n<p>Retoma-se com ele algo do que aparece no seu relato: a dor, a perda, a solid\u00e3o. Mas insiste: \u201cn\u00e3o quero me internar porque l\u00e1 n\u00e3o ensinam a estar fora, ensinam a estar dentro\u201d. Adverte que tem tempo para pensar, apropriando-se de modo inovador de um saber que o Outro institucional tinha lhe oferecido: tem uma bolsa para fazer tratamento e alguns meses para decidir-se. O encontro conclui-se com o convite para seguir conversando.<\/p>\n<p>A cada vez, frente \u00e0 constata\u00e7\u00e3o da falta de um espa\u00e7o poss\u00edvel para ele, ressoa-nos esse \u201csistema de dados compartilhados\u201d criado para dar uma resposta e que, longe de orientar uma sa\u00edda que o restitua no seu dizer, funciona cristalizando um relato estrangeiro aos jovens l\u00e1 inclu\u00eddos. Antecedentes que perpetuam a designa\u00e7\u00e3o a um lugar inequ\u00edvoco (\u201co violento\u201d, \u201co enfermo\u201d &#8230; o mal-vindo).<\/p>\n<p>Diante do n\u00e3o-saber o que fazer com uma crian\u00e7a, n\u00f3s profissionais corremos o risco de responder de modo autom\u00e1tico, alienados no saber antecipado de um protocolo, um relat\u00f3rio, um preconceito. Mas, por sua vez, sustentando o inc\u00f4modo desse n\u00e3o-saber \u00e9 que podemos dar lugar a versatilidade da inven\u00e7\u00e3o para alojar o sujeito, como ato de recupera\u00e7\u00e3o da sua dignidade e reconhecimento dos seus direitos.<\/p>\n<p>Trata-se de uma constru\u00e7\u00e3o cotidiana. Que a marca seja a de uma aposta; n\u00e3o sabemos onde vai parar essa escuta, esse convite. Mas \u00e9 a tentativa de que essa pequena incid\u00eancia produza algum despertar&#8230; o da crian\u00e7a, e tamb\u00e9m o nosso.<\/p>\n<p>Integrantes: Gabriel Arcidi\u00e1cono (m\u00e9dico pediatra, toxicologista, emergencista), Victoria Aresca (assistente social), Vanesa Bernich (psicanalista), Mariana Castro (psicanalista), Sebastian D\u2019 Agostino (m\u00e9dico psiquiatra), Carolina Dominguez (assistente social), Cynthia Galli (m\u00e9dica psiquiatra, especialista em arte terapia), Eugenia Gutierrez (psicanalista), Daniela Teggi (psicanalista), Milagros Vilar (Lic. em letras com orienta\u00e7\u00e3o em lingu\u00edstica), Virginia Voievdca (psicanalista, professora especializada em defici\u00eancia mental), Melina Caniggia (psicanalista e respons\u00e1vel pelo laborat\u00f3rio)<\/p>\n<h6><strong><em>Revis\u00e3o da Tradu\u00e7\u00e3o: Flavia Machado Seidinger Leibovitz<\/em><\/strong><\/h6>\n<hr \/>\n<h3><span style=\"color: #0000ff;\">Coment\u00e1rios<\/span><\/h3>\n<p><em>Carlos Fernando G\u00f3mez Smith:<\/em><\/p>\n<p>Em primeiro lugar, quero agradecer aos organizadores por este convite. Para mim, \u00e9 uma satisfa\u00e7\u00e3o e uma aprendizagem participar do CIEN, tal como foi h\u00e1 dois anos. Os casos que li foram muito ensinantes e me permitem colocar uma pergunta que espero que motive a conversa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>De alguma maneira, em todos os trabalhos, o que encontro inicialmente \u00e9 uma demanda de algo que n\u00e3o anda; e que, a partir dessa demanda, se estabelece um dispositivo cujo fundamento \u00e9 a Conversa\u00e7\u00e3o. Sua peculiaridade \u00e9 que tal Conversa\u00e7\u00e3o aponta \u00e0 inven\u00e7\u00e3o, a algo novo. Diria que isso que n\u00e3o anda tem rela\u00e7\u00e3o com o que Lacan coloca nestes termos: \u201cAcaso n\u00e3o sabemos que nos confins onde a fala se demite come\u00e7a o dom\u00ednio da viol\u00eancia, e que reina ali, mesmo sem que a provoquemos?\u201d O dom\u00ednio da viol\u00eancia come\u00e7a ali onde se rompe o pacto simb\u00f3lico da palavra, ali onde a puls\u00e3o deixa de ter uma amarra\u00e7\u00e3o com um significante.<\/p>\n<p>A viol\u00eancia infantil, portanto, \u00e9 equipar\u00e1vel \u00e0 rela\u00e7\u00e3o que o sujeito mant\u00e9m com a puls\u00e3o e com aquilo que limita esse gozo pulsional. Creio que cada um desses \u201cque n\u00e3o andam\u201d tem rela\u00e7\u00e3o com isto. Ou seja, seguindo Lacan, a palavra funciona como um ponto de limite, uma sa\u00edda frente a esse impasse que voc\u00eas recebem. O novo, nesse sentido, \u00e9 que o discurso anal\u00edtico \u00e9 mais um entre outros, dando lugar a uma Conversa\u00e7\u00e3o com outros discursos \u2013 qualidade que considero que sempre h\u00e1 que se levar em conta.<\/p>\n<p>Mas tamb\u00e9m \u00e9 uma Conversa\u00e7\u00e3o, como \u00c9ric Laurent colocou em uma ocasi\u00e3o: \u201co grande projeto do CIEN \u00e9 o de reintroduzir a causalidade ps\u00edquica em todos os lugares onde se leia o mal&#8230;\u201d Essa frase guiou, no meu entender, a Conversa\u00e7\u00e3o e considero os trabalhos de hoje introduzem esse ponto da causalidade. Destaco tamb\u00e9m outro ponto, que concerne a algo que Alejandro Daumas trabalhou \u2013 a quem homenageio neste momento \u2013 que concerne \u00e0 dignidade do sujeito. Gostaria que voc\u00eas pudessem destacar de que forma, em cada uma das experi\u00eancias que desenvolveram, a quest\u00e3o da dignidade do sujeito esteve em jogo.<\/p>\n<p>Obrigado.<\/p>\n<p><strong>Vania Gomes: <\/strong>Voc\u00ea poderia repetir a pergunta?<\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><strong>Fernando: <\/strong>Eu lhes dizia que queria prestar uma homenagem a meu amigo Alejandro Daumas, usando suas palavras. Palavras que Juan Carlos Indart retoma na primeira Conversa\u00e7\u00e3o, que toca a dignidade do sujeito. Disso que, de alguma maneira, est\u00e1 posto no trabalho de cada um. Gostaria que pudessem destacar isso em cada trabalho. Essa seria minha pergunta.<\/p>\n<p><strong>Vania: <\/strong>Obrigada Fernando. Vamos escutar outras perguntas para darmos in\u00edcio \u00e0 conversa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>Ana Lydia Santiago:<\/strong> Um prazer escutar os trabalhos da mesa e seguir constatando como cada laborat\u00f3rio trabalha de maneira \u00fanica neste dispositivo do CIEN. Chama muito a aten\u00e7\u00e3o, nas exposi\u00e7\u00f5es, como o ponto da dignidade do sujeito pode aparecer como efeito da conversa\u00e7\u00e3o. Por exemplo, no caso Nahuel, a conversa\u00e7\u00e3o permite \u00e0 professora intervir de maneira in\u00e9dita para ela e em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 escola, o que deu espa\u00e7o para que algo da crian\u00e7a aparecesse.<\/p>\n<p>No texto \u201cCrian\u00e7as terr\u00edveis\u201d, chama aten\u00e7\u00e3o como a conversa\u00e7\u00e3o, em laborat\u00f3rio com os professores, abre um acesso, mesmo que m\u00ednimo, ao efeito de transfer\u00eancia, inconsciente, que a professora apresenta em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 crian\u00e7a em quest\u00e3o. Isso n\u00e3o \u00e9 incomum. Em minha experi\u00eancia em escolas, testemunhei algumas situa\u00e7\u00f5es em que, por exemplo, uma professora entra em sala de aula, no primeiro dia, afirmando que determinado menino n\u00e3o ir\u00e1 passar. Constatamos que algo da transfer\u00eancia interfere nessa rela\u00e7\u00e3o, e \u00e0s vezes \u00e9 a crian\u00e7a quem paga um pre\u00e7o caro por esse tra\u00e7o que carrega, algo de insuport\u00e1vel, mas n\u00e3o nome\u00e1vel a princ\u00edpio. O laborat\u00f3rio permite tratar desses efeitos, desse fen\u00f4meno da transfer\u00eancia inconsciente, que se reproduz na escola das mais diversas maneiras entre o professor e o aluno.<\/p>\n<p>Em rela\u00e7\u00e3o ao trabalho \u201cA porta fechada\u201d, chama aten\u00e7\u00e3o como \u00e9 comum para quem trabalha com crian\u00e7as o encontro com situa\u00e7\u00f5es em que suas perguntas s\u00e3o atuadas, n\u00e3o enunciadas; as crian\u00e7as atuam a puberdade, atuam as quest\u00f5es da sexualidade, atuam a viol\u00eancia, mas para perguntar&#8230;<\/p>\n<p>\u00c9 mais f\u00e1cil nomear TOC, TDH, Autismo etc., ou ainda nomes como \u201cterr\u00edvel\u201d, um nome que surge na escola. O desafio da conversa\u00e7\u00e3o pode ser abrir para os professores a possibilidade de tradu\u00e7\u00e3o da pergunta da crian\u00e7a. \u00c9 um trabalho que o analista faz no consult\u00f3rio, mas tamb\u00e9m um primeiro passo que os educadores, os professores, todos que lidam com a crian\u00e7a, podem dar, fazer a pergunta: \u201co que esse menino est\u00e1 querendo dizer?\u201d. \u201cO que ele est\u00e1 querendo dizer atuando desse jeito, batendo desse jeito, apertando o pesco\u00e7o do pr\u00f3ximo, ou correndo de um lado pro outro, ou apontando o l\u00e1pis at\u00e9 ele acabar?\u201d Com isso, \u00e9 poss\u00edvel permitir que as crian\u00e7as mesmas formulem suas perguntas, a partir da oferta da palavra.<\/p>\n<p>Esse mesmo ponto tamb\u00e9m me chamou a aten\u00e7\u00e3o no trabalho \u201cA liga contra a briga\u201d, a forma como foi feita a oferta da palavra, a professora praticando a oferta da palavra dentro da sala de aula. Algo que n\u00e3o tinha espa\u00e7o na escola, e que ela conseguiu fazer acontecer de um modo fant\u00e1stico, se surpreendendo depois. Acontece, ent\u00e3o, uma conversa\u00e7\u00e3o aut\u00eantica entre os professores, quando perguntam, \u201cmas voc\u00ea saiu?\u201d, isso surpreende por ser impens\u00e1vel dentro das normas da escola. D\u00e1 ideias aos demais participantes da conversa\u00e7\u00e3o, permitindo a circula\u00e7\u00e3o da palavra e que algo novo possa acontecer.<\/p>\n<p><strong>Marcia Crivorot: <\/strong>Gostaria de ouvir a mesa sobre a experi\u00eancia da diferen\u00e7a que o dispositivo de conversa\u00e7\u00e3o \u2013 que conta com a presen\u00e7a da interdisciplinaridade e com um tempo para um trabalho ser feito, um tempo que eu chamaria de fugidio, no sentido de que algo a\u00ed se levanta para que posteriormente possa ser desenvolvido pelas pessoas que est\u00e3o trabalhando na institui\u00e7\u00e3o \u2013, traz para o trabalho. Gostaria de ouvir sobre a experi\u00eancia de voc\u00eas em rela\u00e7\u00e3o a essa diferen\u00e7a, tanto como professora em sala de aula, como psic\u00f3loga e como psicanalista.<\/p>\n<p><strong>Um Membro da NEL:<\/strong> Interessou-me muito a maneira como colocam a Conversa\u00e7\u00e3o, porque ficou muito claro nas apresenta\u00e7\u00f5es, que a Conversa\u00e7\u00e3o n\u00e3o se trata da palavra no sentido da comunica\u00e7\u00e3o. Trata-se do mal-entendido estrutural na rela\u00e7\u00e3o com a linguagem, do qual se extrai que n\u00e3o h\u00e1 um saber-todo, que h\u00e1 um furo e n\u00e3o se tenta preench\u00ea-lo.<\/p>\n<p><strong>Marita Manzotti:<\/strong> Quero retomar o que Fernando G\u00f3mez colocou sobre a quest\u00e3o da dignidade, que est\u00e1 no t\u00edtulo desta conversa\u00e7\u00e3o. Parece-me que a dignidade comparece de v\u00e1rias formas e de ambos os lados. Aparece o respeito \u00e0 dignidade das crian\u00e7as, na confian\u00e7a da professora ao dizer \u201cbom, vou me dedicar a isto que me convoca neste momento porque sei&#8230;\u201d Trata-se de uma aposta sobre um c\u00e1lculo. Sabe que os meninos v\u00e3o se comportar bem, porque ela est\u00e1 se ocupando de outras crian\u00e7as. Ou seja, h\u00e1 algo que frente ao decl\u00ednio das figuras de autoridade permite a aposta na pr\u00f3pria autoriza\u00e7\u00e3o. Ou seja, quando isto aparece no caso de Nahuel, n\u00e3o \u00e9 sem a confian\u00e7a do outro. Disto que ontem convers\u00e1vamos muito, como Beatriz situava, a quest\u00e3o dos adultos, n\u00e3o? Ou seja, adultos que possam acolher o sofrimento da crian\u00e7a ou do adolescente, tal como fez a psiquiatra no caso, que pediu ao policial que fosse embora porque se tratava de uma quest\u00e3o privada. Ou seja, poder colocar um limite \u00e0 ordem p\u00fablica respeitando a dignidade do sujeito.<\/p>\n<p><strong>Tamires Dorneles: <\/strong>Sobre a conversa\u00e7\u00e3o: posso dizer que participo de uma conversa\u00e7\u00e3o do Cien, mas n\u00e3o saberia afirmar se o que eu fa\u00e7o na escola \u00e9 uma conversa\u00e7\u00e3o&#8230;Trabalhamos com a teoria de C\u00e9lestin Freinet, um pedagogo franc\u00eas, da primeira metade do s\u00e9culo XX, que desenvolveu t\u00e9cnicas de trabalho pedag\u00f3gico nas quais considera a participa\u00e7\u00e3o dos alunos. O que fa\u00e7o, o jornal de parede, \u00e9 uma reuni\u00e3o semanal, um momento em que nos sentamos em c\u00edrculo e a palavra realmente fica em aberto. Acredito que, com o tempo, falem cada vez mais e possam, eles mesmos, conduzir as reuni\u00f5es. H\u00e1 um cartaz colado na porta do meu arm\u00e1rio, para que os alunos da tarde n\u00e3o destruam esse material: envelopes colados, \u201ceu quero saber\u201d, \u201ceu critico\u201d, \u201ceu proponho\u201d e \u201ceu ofereci\u201d. Durante a semana, colocam os papeizinhos nesses envelopes. No jornal de parede, as crian\u00e7as leem os pap\u00e9is e a gente discute as quest\u00f5es. Uma regra que coloquei \u2013 voc\u00eas podem me ajudar a pensar se por a\u00ed \u00e9 mais interessante mesmo \u2013 foi que, quando fazem uma cr\u00edtica n\u00e3o podem escrever o nome da crian\u00e7a criticada, criticam-se apenas a\u00e7\u00f5es. A partir das cr\u00edticas \u00e0s a\u00e7\u00f5es que incomodaram, a gente discute. Quest\u00f5es sobre apanhar e bater aparecem bastante. Estou em uma escola p\u00fablica, num bairro com o tr\u00e1fico organizado, preciso falar com fam\u00edlias envolvidas, conversar com eles, dar condi\u00e7\u00f5es, existe muita viol\u00eancia dom\u00e9stica&#8230; o machismo \u00e9 muito forte, ent\u00e3o a viol\u00eancia \u00e9 banalizada como uma forma de resolu\u00e7\u00e3o das quest\u00f5es. E no jornal de parede se colocou: \u201cmas qual \u00e9 o problema de apanhar?\u201d, e eles mesmos contam coisas muito bonitas. \u00c9 o que eu fa\u00e7o em cima da ideia do jornal de parede.<\/p>\n<p>Sobre a dignidade do sujeito, dentro da institui\u00e7\u00e3o escolar temos uma concep\u00e7\u00e3o, somos formados a partir da ideia de que o professor fala e o aluno escuta. O professor \u00e9 quem sabe. Na escola onde eu trabalho, outras salas de aula tamb\u00e9m fazem jornal de parede, partimos da perspectiva de entender que a crian\u00e7a tem direito \u00e0 voz, tem direito a pensar, tem direito a sentir, tem direito a se expressar, mesmo que o que ela diga n\u00e3o esteja em conformidade com o que espero dela. Afinal, n\u00f3s, professores, esperamos, n\u00e3o \u00e9? Tenho me perguntado sobre qual a escuta que me cabe, como professora &#8211; falamos bastante do trabalho do psicanalista, dessa escuta psicanal\u00edtica, mas qual a escuta da professora? Acho que a dignidade das crian\u00e7as e adolescentes est\u00e1 em assegurar esse direito a terem voz, a serem algu\u00e9m que pensa, que sente.<\/p>\n<p>Existe um texto do Paulo Freire que \u00e9 sobre ouvir as crian\u00e7as \u2013 n\u00e3o tem como n\u00e3o pensar tamb\u00e9m sobre a democracia. Segundo Paulo Freire, \u201cquando escutamos as crian\u00e7as, n\u00f3s tamb\u00e9m as ensinamos a escutarem\u201d. Est\u00e1 dentro dessa ideia uma postura de uma professora n\u00e3o autorit\u00e1ria, uma tentativa de uma postura democr\u00e1tica. A democracia se faz com a garantia de direitos. A garantia de direitos \u00e0 dignidade das crian\u00e7as e adolescentes tamb\u00e9m \u00e9 algo necess\u00e1rio, quando pensamos em fortalecimento da democracia, que \u00e9 algo que nos \u00e9 caro.<\/p>\n<p><strong>V\u00e2nia: <\/strong>Os professores tamb\u00e9m t\u00eam algum espa\u00e7o pra eles na escola?<\/p>\n<p><strong>Tamires: <\/strong>Temos um grupo de trabalho onde discutimos a pedagogia de Freinet.<\/p>\n<p><strong>V\u00e2nia: <\/strong>Mas essas quest\u00f5es, por exemplo, que aparecem nas atividades que voc\u00eas fazem, isso \u00e9 discutido tamb\u00e9m?<\/p>\n<p><strong>Tamires: <\/strong>Embora pudessem haver outros espa\u00e7os, o laborat\u00f3rio me ajuda muito, a \u201cLiga contra a Briga\u201d, eu dei muito mais valor a ela depois do laborat\u00f3rio. Agora a liga est\u00e1 espalhada.<\/p>\n<p><strong>Ana Paula Ara\u00fajo: <\/strong>Eu sou psic\u00f3loga de forma\u00e7\u00e3o, tenho uma experi\u00eancia com o inconsciente, fa\u00e7o an\u00e1lise pessoal, participo do laborat\u00f3rio com a Ana Martha, e hoje estou na gest\u00e3o pedag\u00f3gica dessa escola, onde as conversa\u00e7\u00f5es est\u00e3o acontecendo.<\/p>\n<p>Ouvindo a colega falar, penso que com certeza muda completamente o trabalho, a perspectiva muda, inclui o aluno, d\u00e1 valor. Isso \u00e9 dar dignidade ao aluno. A escola onde eu trabalho \u00e9 tradicional, h\u00e1 ali uma especificidade da equipe que acredito ser importante, o fato de trabalhar junta h\u00e1 mais de quinze anos. As professoras todas trabalham na institui\u00e7\u00e3o h\u00e1 vinte, a mais nova tem quinze anos de institui\u00e7\u00e3o. \u00c9 dif\u00edcil fazer um furo ali.<\/p>\n<p><strong>V\u00e2nia: <\/strong>As conversa\u00e7\u00f5es s\u00e3o feitas na escola?<\/p>\n<p><strong>Ana Paula: <\/strong>Sim. Achei lindo o trabalho de voc\u00eas, vou me inteirar dessa pedagogia. Sobre o coment\u00e1rio de Ana Lydia, essa professora pode se autorizar a fazer algo diferente. \u00c9 muito dif\u00edcil quando os outros perguntam: \u201cComo assim, voc\u00ea saiu de sala?\u201d, \u201cPodemos fazer a mesma coisa?\u201d Essa autoriza\u00e7\u00e3o s\u00f3 nasce se h\u00e1 ali um n\u00e3o-saber. Na escola, os professores ainda est\u00e3o muito referidos a uma norma que vai vir de cima. Perguntam: \u201cO que a escola vai fazer? O que a institui\u00e7\u00e3o vai fazer diante desse menino?\u201d Aguardam a a\u00e7\u00e3o da escola.<\/p>\n<p>A diferen\u00e7a do laborat\u00f3rio tem sido produzir uma divis\u00e3o l\u00e1 onde o discurso do mestre ainda \u00e9 muito forte. A professora presente na conversa\u00e7\u00e3o \u00e9 algu\u00e9m forte na escola, ent\u00e3o outras a seguem. Lembrei-me da frase de Lacan: \u00c9 preciso que os analistas tenham no horizonte a subjetividade da sua \u00e9poca, seria muito bom que os professores tamb\u00e9m a tivessem.<\/p>\n<p>O significante \u201cterr\u00edvel\u201d tem aparecido muito na escola, ele fala da subjetividade da nossa \u00e9poca, de como as coisas est\u00e3o. Em momento algum essa crian\u00e7a foi interrogada, at\u00e9 que eclodisse em uma cena violenta. Conforme comentou Ana Lydia, mal ele chegou \u00e0 escola, se anunciou como terr\u00edvel, e a professora tomou isso para si: \u201cEu estava esperando que algo desse tipo fosse acontecer\u201d, disse. Quando ele tem um encontro comigo depois dessa cena, eu pergunto, \u201co que \u00e9 isso, ser terr\u00edvel?\u201d \u201cVoc\u00ea n\u00e3o sabe? Eu sou terr\u00edvel. Eu mordia meus colegas no jardim de inf\u00e2ncia\u201d. Ao que comento: \u201cu\u00e9, mas os meninos aqui no jardim de inf\u00e2ncia costumam fazer isso, eles mordem os colegas\u201d. Ele se surpreende: \u2013 \u201c\u00c9?!\u201d.<\/p>\n<p>Talvez a pergunta seja essa: \u201co que ele estava fazendo ali? O que \u00e9 ser terr\u00edvel?\u201d Acho que ele escutou.<\/p>\n<p>V\u00e2nia: Voc\u00ea falou sobre o n\u00e3o-saber. Voc\u00eas localizam algo que o saber n\u00e3o d\u00e1 conta. Como isso se produziu na conversa\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p><strong>Ana Paula:<\/strong> Foi preciso um corte. Como eu estou ali no lugar de diretora da escola, as professoras esperam de mim uma solu\u00e7\u00e3o. \u00c9 legal a conversa\u00e7\u00e3o por isso, a todo tempo \u00e9 lan\u00e7ada a pergunta: \u201cE a\u00ed, o que fazer numa hora dessas?\u201d Eram ditas coisas como: \u201cEle queria te provocar\u201d. Penso que quando falamos da dignidade do sujeito, tamb\u00e9m se faz preciso pensar na dignidade do professor. \u00c9 um trabalho muito complexo, cada vez mais, agora que essa autoridade n\u00e3o est\u00e1 a\u00ed. O recurso \u00e0 norma torna-se um ref\u00fagio mesmo, uma seguran\u00e7a.<\/p>\n<p>Depois do corte, inserido na conversa\u00e7\u00e3o no momento em que a professora estava muito queixosa em rela\u00e7\u00e3o ao menino, repetindo que achava que ele a confrontava o tempo todo, e a queixa a respeito da vergonha que passara devido \u00e0 fala do aluno sobre ela ter roubado seu celular, n\u00e3o toca mais nisso. No carro, quando voltamos juntas, come\u00e7ou a falar da filha: \u201cest\u00e1 muito dif\u00edcil o di\u00e1logo com ela porque ela me confronta o tempo todo\u201d. A\u00ed eu digo \u201cnossa confronta de novo, n\u00e9?\u201d<\/p>\n<p>H\u00e1 duas semanas, vivi uma experi\u00eancia com outra professora. Ela reproduziu com a turma a Iara, uma personagem do folclore brasileiro, uma \u00edndia da Amaz\u00f4nia. Depois de ter lido a lenda, assistido a um filme produzido pela prefeitura do Rio, foi para sala com as crian\u00e7as para fazer uma pintura. As crian\u00e7as fizeram uma pintura da Iara loira \u2013 a professora \u00e9 loira. N\u00e3o tem nenhuma menina branca na turma. Quando eu vi a Iara loira, fiz uma provoca\u00e7\u00e3o: \u201cMas a Iara n\u00e3o \u00e9 uma \u00edndia da Amaz\u00f4nia?\u201d As crian\u00e7as disseram ent\u00e3o que ela precisava ser morena, com a pele mais escura. A professora me disse: \u201cVoc\u00ea e sua implic\u00e2ncia\u201d. Fiquei com essa palavra implic\u00e2ncia \u2013 o que a gente se implica, o que te interroga. \u00c9 bom&#8230; quando voc\u00ea tem uma experi\u00eancia com o inconsciente.<\/p>\n<p><strong>Beatriz Udenio:<\/strong> Somente para dizer que Fernando conseguiu a resposta de como reintroduzir a causalidade ps\u00edquica: se reintroduz a partir de si mesma, pelas vias do inconsciente.<\/p>\n<p><strong>Renata Soares: <\/strong>Essa conversa\u00e7\u00e3o teve uma particularidade, normalmente temos um tempo pr\u00e9vio, umas cinco ou seis conversa\u00e7\u00f5es. Essa em particular teve algumas conting\u00eancias, coincidiu com as f\u00e9rias, Copa, etc, intervalos. Foram feitas dez conversa\u00e7\u00f5es na escola. \u00c9 interessante pensar o tempo na conversa\u00e7\u00e3o, pois \u00e9 necess\u00e1rio ter um tempo de concluir a fim de se evitar a fala do bl\u00e1bl\u00e1bl\u00e1. Mesmo com as crian\u00e7as, n\u00e3o s\u00f3 com os adultos, isso tamb\u00e9m acontece.<\/p>\n<p>\u00c9 importante situar que essa escola fica localizada dentro da maior favela da cidade de Curitiba, na qual a quest\u00e3o do tr\u00e1fico \u00e9 muito presente, bem como da viol\u00eancia. Um ponto que me chamou a aten\u00e7\u00e3o, tocando na dignidade do sujeito, foi a possibilidade de situar algo em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 privacidade. As casas nessa favela, muitas vezes, s\u00e3o pequenas, o que faz com que os moradores precisem dormir todos num \u00fanico c\u00f4modo. Por vezes, isso possibilita que as crian\u00e7as estejam mais expostas ao sexo. A morte tamb\u00e9m \u00e0s vezes se apresenta nas esquinas das casas, com manchas de sangue. Ent\u00e3o, no momento em que o menino levanta para fechar a porta, isso se torna um ato que marca algo fundamental do trabalho ali, onde eles poderiam falar e n\u00e3o mais atuar, como Ana Lydia pontuou. Atuavam na agita\u00e7\u00e3o dos corpos, na sala em que era imposs\u00edvel trabalhar, e podem ent\u00e3o ir cedendo um pouco do gozo. Colocando em palavras, aos poucos, algo da sexualidade, muito mais do que da viol\u00eancia em si. N\u00f3s j\u00e1 fizemos outras conversa\u00e7\u00f5es nessa mesma escola e o tema viol\u00eancia foi o cerne. Acontece muito de a demanda vinda da dire\u00e7\u00e3o ser diferente da que os adolescentes trazem.<\/p>\n<p>Nessa, a demanda foi a quest\u00e3o da viol\u00eancia e o que foi poss\u00edvel trabalhar, foi \u201cfalar da vida\u201d \u2013 como as crian\u00e7as dizem \u2013, das mudan\u00e7as dos corpos, das sexualidades, a partir das letras de funks, que \u00e9 o que os jovens cantam. Ali, eram letras que traziam, de uma maneira muito forte, marcada no corpo. Aos poucos, elaboram perguntas: \u201cah, como \u00e9 que nascem os beb\u00eas?\u201d N\u00e3o \u00e9 nem tanto a pornografia que se v\u00ea no celular, n\u00e3o \u00e9 a letra do funk&#8230;<\/p>\n<p>Essa conversa\u00e7\u00e3o foi primorosa nesse sentido. Queria deixar aberta uma quest\u00e3o para continuarmos conversando, a quest\u00e3o da transfer\u00eancia, da viol\u00eancia sob transfer\u00eancia. Como pens\u00e1-la no CIEN? \u00c9 algo da ordem da confian\u00e7a, podemos falar de transfer\u00eancia? Como isso se passa nos laborat\u00f3rios?<\/p>\n<p><strong>Marita Manzoti: <\/strong>Quando comentei sobre o lugar onde estava funcionando este Laborat\u00f3rio, queria destacar que essa cidade est\u00e1 no \u201cfim do mundo\u201d: Ushuaia, uma cidade que se caracteriza por um alto n\u00edvel de migra\u00e7\u00e3o. Est\u00e1 quase que inteiramente constitu\u00edda por gente de toda a Rep\u00fablica Argentina que foi trabalhar l\u00e1. E o que caracteriza o trabalho do Laborat\u00f3rio \u00e9 ir circunscrevendo as dificuldades da fam\u00edlia em se instalar com algum la\u00e7o que n\u00e3o seja familiar. Porque s\u00e3o desenraizados. Com isso, o n\u00edvel de isolamento e de desenraizamento \u00e9 muito intenso e aparece permanentemente nas dificuldades que as crian\u00e7as t\u00eam para se integrar no la\u00e7o social.<\/p>\n<p>Este caso \u00e9 o de uma professora, porque o Laborat\u00f3rio est\u00e1 constitu\u00eddo por professores de distintas escolas. E d\u00e1 um panorama bastante claro de quais s\u00e3o os sintomas sociais da cidade, onde se reiteram o desenraizamento e a viol\u00eancia em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s crian\u00e7as.<\/p>\n<p>H\u00e1 muitas situa\u00e7\u00f5es em que os professores n\u00e3o sabem muito bem o que fazer com a rebeldia das crian\u00e7as. Rapidamente, poderia cair do lado destes nomes que adquiriram na escola: o bullying, a crian\u00e7a violenta, a crian\u00e7a inadaptada, e que n\u00e3o alojam o mais subjetivo e as dificuldades que cada crian\u00e7a tem para se enfrentar com a solid\u00e3o dos v\u00ednculos que se desfazem em \u00e2mbitos t\u00e3o dif\u00edceis.<\/p>\n<p>Creio que o interessante que se produziu no trabalho deste laborat\u00f3rio \u00e9 como permanentemente h\u00e1 uma tentativa, um convite a que cada crian\u00e7a se responsabilize pelo valor que tem sua escolha. E que \u00e9 a partir da\u00ed que se dignifica a possibilidade de interven\u00e7\u00e3o que os Laborat\u00f3rios do CIEN t\u00eam, porque convidam a que cada um seja respons\u00e1vel e veja se pode fazer algo com isso, na medida em que isso faz sofrer.<\/p>\n<p>E por outro lado, me parece que o efeito que Judith sempre insistia \u00e9 na cren\u00e7a no inconsciente. Era como um leitmotiv. O lugar da psican\u00e1lise nos Laborat\u00f3rios: \u201cconfiar no inconsciente \u00e9 talvez um exerc\u00edcio permanente dos Laborat\u00f3rios. Porque implica dar conta da responsabilidade do gozo e dar conta de que h\u00e1 algo que cada sujeito tem que inventar para resolver seu modo de sofrer\u201d. Ent\u00e3o, nesse sentido, me parece que, nesse caso, a possibilidade desta crian\u00e7a se inventar at\u00e9 chegar a Frida e encontrar que com o sofrimento se pode fazer outra coisa que n\u00e3o o enraivecimento.<\/p>\n<p>A apari\u00e7\u00e3o de um dado de sua hist\u00f3ria, que foi a fratura de um bra\u00e7o que o tornou mau. Ou seja, n\u00e3o contou com outro recurso mais que a rebeli\u00e3o, a viol\u00eancia e o enraivecimento.<\/p>\n<p>E, como ao ser acolhido com a confian\u00e7a que uma professora pode conseguir quando escuta, introduziu a possibilidade de que esta crian\u00e7a fizesse uma transforma\u00e7\u00e3o. A professora se transforma e a crian\u00e7a tamb\u00e9m. E nesse ponto caem todas as etiquetas, caem todos os protocolos para trabalhar com crian\u00e7as violentas. H\u00e1 a\u00ed um ponto onde acolher a palavra n\u00e3o \u00e9 suficiente, \u00e9 preciso promov\u00ea-la porque n\u00e3o estamos acostumados a ser escutados. E me parece que em todas as experi\u00eancias que vamos contando, h\u00e1 um convite \u00e0 palavra, mas porque tamb\u00e9m h\u00e1 quem possa escut\u00e1-la.<\/p>\n<p>O \u00faltimo ponto que queria comentar \u00e9 o estatuto da psican\u00e1lise em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s outras disciplinas. Uma das quest\u00f5es que Beatriz trabalhou no in\u00edcio do CIEN era em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 inter-disciplina e ao vazio de saber. Lacan teve diferentes posi\u00e7\u00f5es em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 psican\u00e1lise com os outros saberes. At\u00e9 que finalmente situa a psican\u00e1lise como um saber entre outros que tentam abordar o real. Quando conseguimos situar no centro da quest\u00e3o o n\u00e3o-saber, estamos todos na mesma condi\u00e7\u00e3o. O que nos faz diferentes \u00e9 que a psican\u00e1lise \u00e9 a que convida as outras disciplinas, somos os anfitri\u00f5es. A psican\u00e1lise convida a conversar porque estamos todos com problemas e porque sabemos que h\u00e1 uma causalidade que n\u00e3o vem somente das etiquetas, que cada um escolhe uma forma que \u00e0s vezes \u00e9 a mais sofrida.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, me parece importante situar como a psican\u00e1lise acompanha e se deixa acompanhar. Daniela j\u00e1 dizia \u201cacompanhar estando ao lado\u201d. Este lugar onde alguns t\u00eam que ser bons anfitri\u00f5es para as outras disciplinas. E me parece que, em todos os exemplos, cada um foi um bom anfitri\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>Daniela Teggi: <\/strong>Eu vou dizer algo a respeito do Laborat\u00f3rio apoiando-me no t\u00edtulo que \u00e9 \u201ceu n\u00e3o te conhe\u00e7o\u201d. Isso \u00e9 algo que se extrai nas Conversa\u00e7\u00f5es a partir da insist\u00eancia deste garotinho de entrada no plant\u00e3o. Muitos dos profissionais que est\u00e3o no Laborat\u00f3rio participam de um plant\u00e3o de um Hospital P\u00fablico de crian\u00e7as e adolescentes, em Buenos Aires. E era um caso que nos interpelava muito por esta quest\u00e3o de escrever relat\u00f3rios, fazer o esfor\u00e7o de transmitir que era desej\u00e1vel que se escutasse o que esta crian\u00e7a necessitava, quais eram as sugest\u00f5es que se poderiam fazer para que ele pudesse ter um lugar. Percebem-se no relato as dificuldades para um sujeito em criar um lugar de escuta no outro. E isso retornava sobre os profissionais e os dividia. Surgiu nas conversa\u00e7\u00f5es qual podia ser a maneira de dizer, de colocar em jogo a impot\u00eancia. Quer dizer, como se lidou com este caso e o que se extraiu da Conversa\u00e7\u00e3o, para que pudessem voltar ao trabalho.<\/p>\n<p>Para que isso que se transforma em uma letra morta, em um relat\u00f3rio, um protocolo que se publica, permita que esse sujeito tenha um lugar. E \u00e9 a partir desse \u201ceu n\u00e3o te conhe\u00e7o\u201d que a crian\u00e7a come\u00e7a a narrar algo de sua hist\u00f3ria. Ent\u00e3o aparece sua palavra, sua enuncia\u00e7\u00e3o, que permite aqueles que trabalham com ele, colocar um limite \u00e0 pol\u00edcia para que n\u00e3o entre nas entrevistas. E tamb\u00e9m por um limite ao uso da medica\u00e7\u00e3o, que arrasa com este sujeito.<\/p>\n<p>O desafio permanente \u00e9 como n\u00e3o ficar capturado na maquinaria institucional e colocar algum ponto de parada que permita que o sujeito tenha uma oportunidade para inventar \u2013 como dizia Marita.<\/p>\n<p><strong>Beatriz Udenio:<\/strong> \u2026 tamb\u00e9m fecharam uma porta\u2026<\/p>\n<p><strong>Daniela Teggi: <\/strong>Tamb\u00e9m fecharam a porta, \u00e9 verdade, para que isso fique do outro lado. Al\u00e9m disso, \u00e9 interessante o que esse jovem diz a respeito de como se configurou para ele o estar dentro e fora, e nos adverte, a n\u00f3s que acreditamos que estamos fora, mas tamb\u00e9m estamos dentro.<\/p>\n<hr \/>\n<h6><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\"><sup>[1]<\/sup><\/a>\u2003 Psicanalista Praticante, Correspondente da Delega\u00e7\u00e3o Paran\u00e1 \u2013 EBP, Coordenadora do CIEN-PR. renataspsoares@gmail.com.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\"><sup>[2]<\/sup><\/a>\u2003O Laborat\u00f3rio Ciranda de Conversa realiza conversa\u00e7\u00f5es com os profissionais que atuam em institui\u00e7\u00f5es escolares, assim como com as crian\u00e7as e adolescentes, possibilitando que coloquem em palavras as situa\u00e7\u00f5es de impasses e mal-estar.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref3\" name=\"_ftn3\"><sup>[3]<\/sup><\/a>\u2003 MILLER, J.A. \u201cO inconsciente e o corpo falante\u201d. In: SCILICET: o corpo falante. Belo Horizonte: EPB, 2015. p. 21.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref4\" name=\"_ftn4\"><sup>[4]<\/sup><\/a>\u2003 MILLER. J. A. \u201cCrian\u00e7as Violentas\u201d. In: <em>Op\u00e7\u00e3o Lacaniana<\/em>, 77. Abril de 2017. S\u00e3o Paulo, Edi\u00e7\u00f5es Eolia.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref5\" name=\"_ftn5\"><sup>[5]<\/sup><\/a>\u2003 N.T.: Em espanhol no-todo, refer\u00eancia ao regime do n\u00e3o-todo em portugu\u00eas. Optamos pela forma n\u00e3o-tudo, com o h\u00edfen para indicar a refer\u00eancia.<\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>II Conversa\u00e7\u00e3o CIEN Am\u00e9rica &#8211; A crian\u00e7a violenta e a dignidade do sujeito S\u00e3o Paulo, 13 de setembro de 2019. Coordena: V\u00e2nia Brito Gomes (CIEN-Brasil) Anima: Fernando G\u00f3mez Smith (NEL) Quando uma hist\u00f3ria vinda de uma crian\u00e7a toca profundamente. (Nahuel) Laborat\u00f3rio \u201cNi\u00f1os y Adolescentes Violentos\u201d: Nacidos para molestar? (CIEN &#8211; Ushuaia, Terra do Fogo, Argentina)&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":5659582,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[142],"tags":[],"post_series":[],"class_list":["post-5659546","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-cien-digital-24","entry","has-media"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/ciendigital.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5659546","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/ciendigital.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/ciendigital.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ciendigital.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ciendigital.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=5659546"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/ciendigital.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5659546\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ciendigital.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/5659582"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/ciendigital.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=5659546"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/ciendigital.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=5659546"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/ciendigital.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=5659546"},{"taxonomy":"post_series","embeddable":true,"href":"https:\/\/ciendigital.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/post_series?post=5659546"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}