{"id":5659557,"date":"2022-01-23T07:12:20","date_gmt":"2022-01-23T10:12:20","guid":{"rendered":"http:\/\/ciendigital.com.br\/?p=5659557"},"modified":"2022-01-23T07:44:03","modified_gmt":"2022-01-23T10:44:03","slug":"segunda-mesa-de-conversacao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ciendigital.com.br\/index.php\/2022\/01\/23\/segunda-mesa-de-conversacao\/","title":{"rendered":"SEGUNDA MESA DE CONVERSA\u00c7\u00c3O"},"content":{"rendered":"<div class=\"pdfprnt-buttons pdfprnt-buttons-post pdfprnt-top-right\"><a href=\"https:\/\/ciendigital.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5659557?print=pdf\" class=\"pdfprnt-button pdfprnt-button-pdf\" target=\"_blank\" ><\/a><a href=\"https:\/\/ciendigital.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5659557?print=print\" class=\"pdfprnt-button pdfprnt-button-print\" target=\"_blank\" ><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/plugins\/pdf-print\/images\/print.png\" alt=\"image_print\" title=\"Conte\u00fado de impress\u00e3o\" \/><\/a><\/div><h4><em>II Conversa\u00e7\u00e3o CIEN Am\u00e9rica &#8211; A crian\u00e7a<br \/>\nviolenta e a dignidade do sujeito <\/em><\/h4>\n<h6><em>S\u00e3o Paulo, 13 de setembro de 2019.<\/em><\/h6>\n<h6><strong>Coordena:<\/strong> <em>M\u00f3nica Campos Silva<\/em><em> (<\/em><em>Cien-Brasil)<br \/>\n<\/em><strong>Anima: <\/strong><em>Flavia C\u00eara (Cien-Brasil)<\/em><\/h6>\n<p><strong>Hern<\/strong><strong>\u00e1<\/strong><strong>n Villar:<\/strong> Bom dia, quero agradecer o privil\u00e9gio de representar a duas pessoas muito especiais que n\u00e3o puderam viajar nesta ocasi\u00e3o: vou ler o trabalho de um Laborat\u00f3rio do CIEN argentino formado por Victoria Aresca, que \u00e9 assistente social e Vanessa Bernich, que \u00e9 psicanalista.<\/p>\n<p>O CIEN tem uma particularidade na Argentina e \u00e9 que estamos integrados tamb\u00e9m como um departamento do Centro de Investiga\u00e7\u00f5es do ICdeBa e sustentamos um semin\u00e1rio de investiga\u00e7\u00e3o que este ano se chama \u201cAs experi\u00eancias do CIEN\u201d. \u00c9 nesse contexto que mantemos uma viva interlocu\u00e7\u00e3o com este e outros Laborat\u00f3rios, j\u00e1 que os estados de trabalho dos mesmos s\u00e3o apresentados em nosso semin\u00e1rio.<\/p>\n<h3><span style=\"color: #0000ff;\">Do \u201csem dire\u00e7\u00e3o\u201d ao \u201c<em>a todo ritmo<a style=\"color: #0000ff;\" href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\"><sup><strong>[1]<\/strong><\/sup><\/a><\/em>\u201d. Apostas na<\/span><br \/>\n<span style=\"color: #0000ff;\">modula\u00e7\u00e3o do movimento<\/span><\/h3>\n<h6><em>Laboratorio \u201cApuestas a la eficacia en los m\u00e1rgenes\u201d (CIEN\/Bs As\/AR)<br \/>\n<\/em><em>Victoria Aresca (assistente social) e Vanesa Bernich (psicanalista<\/em>)<\/h6>\n<blockquote><p>\u201cProduzir a exce\u00e7\u00e3o n\u00e3o se faz por meio de grandes discursos sobre a excep\u00e7\u00e3o mas se trata de constru\u00ed-la em ato.\u201d<\/p>\n<p><em>\u00c9ric<\/em><em> Laurent<a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\"><sup><strong>[2]<\/strong><\/sup><\/a><\/em><\/p><\/blockquote>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignright size-medium wp-image-5659558\" src=\"http:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2022\/01\/003-011-300x225.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"225\" srcset=\"https:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2022\/01\/003-011-300x225.jpg 300w, https:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2022\/01\/003-011-768x576.jpg 768w, https:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2022\/01\/003-011-274x206.jpg 274w, https:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2022\/01\/003-011.jpg 960w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/>A l\u00f3gica institucional no Hospital para crian\u00e7as nos confronta com um enquadre de normas, proibi\u00e7\u00f5es e prescri\u00e7\u00f5es. Da mesma forma, o dispositivo de Urg\u00eancias adiciona o imperativo de resposta imediata. Nesse cruzamento, como habilitar um tempo de espera para as interven\u00e7\u00f5es singulares que incluam os trope\u00e7os como inst\u00e2ncia necess\u00e1ria? Um jovem nos interpela.<\/p>\n<p>A poucos dias de completar 17 anos, Martin chega sozinho ao hospital, desesperado, com cefaleias e alucina\u00e7\u00f5es auditivas sem conte\u00fado preciso; somado ao consumo de sust\u00e2ncias. Permanece na Urg\u00eancia, em observa\u00e7\u00e3o, onde \u00e9 medicado e os sintomas cedem rapidamente.<\/p>\n<p>Sem uma rede familiar que o acompanhe, seu primeiro tempo \u00e0 espera de um encaminhamento para um abrigo fica marcado por um constante \u201cir e vir\u201d. Exp\u00f5e-se a situa\u00e7\u00f5es de risco, imperando um empuxo cego, uma err\u00e2ncia mais do que um percurso, uma sucess\u00e3o de cenas marcadas pela expuls\u00e3o e o desamparo. Enquanto isso, conhecemos um pouco de sua hist\u00f3ria da inf\u00e2ncia no Brasil, de pais desfalecidos e de percursos institucionais dos quais recorta modos de nomear-se sempre em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 loucura.<\/p>\n<p>Em uma de suas sa\u00eddas precipitadas, confronta-se com a impossibilidade de sua m\u00e3e sustent\u00e1-lo; no retorno ele afirma: \u201cme perdi\u201d, \u201cme achei s\u00f3 por momentos\u201d. Inscreve-se uma diferen\u00e7a, cujo efeito se traduz no cessar das \u201cescapadas\u201d. Comprova\u00e7\u00e3o, em ato, da solid\u00e3o e da perda; ponto de chegada que se faz poss\u00edvel ao ter podido suportar a partir da institui\u00e7\u00e3o \u201cuma passagem ao ato circunscrita a um lugar\u201d<a href=\"#_ftn3\" name=\"_ftnref3\"><sup>[3]<\/sup><\/a>.<\/p>\n<p>Inauguram-se movimentos, enra\u00edza-se. Realiza atividades e arma circuitos pelo hospital. Chega sua carteira de identidade, grita \u201cargentino\u201d e pergunta quando poder\u00e1 ir ao abrigo. Pede para contatar seu pai; tamb\u00e9m quer uma B\u00edblia. Isso ressoa em uma m\u00e9dica e ela lhe apresenta o \u201cpadre Cristian\u201d, sacerdote do hospital, quem lhe oferece ser batizado. Aceita e diz \u201cagora vou ter que fazer as coisas bem\u201d. Sua presen\u00e7a se torna familiar. H\u00e1 quem proteste: \u201cser\u00e1 que ele acha que est\u00e1 num hotel?\u201d e h\u00e1 quem consinta pequenas exce\u00e7\u00f5es, como o uso do computador pelas noites para entrar no Facebook. Por esse meio consegue contatar seu pai.<\/p>\n<p>O la\u00e7o com outros se desdobra ainda no vertiginoso da din\u00e2mica da Emerg\u00eancia. A sua perman\u00eancia l\u00e1 n\u00e3o foi uma estrat\u00e9gia procurada, mas produto de discursos e pr\u00e1ticas que confluem em um efeito de segrega\u00e7\u00e3o. No entanto, orientados por pesquisar os arranjos que cada sujeito encontra, localizamos que nessa conjuntura Martin pode servir-se desse tra\u00e7o flex\u00edvel do dispositivo de emerg\u00eancia para dar alguma forma poss\u00edvel a sua tentativa inicial de ir e vir.<\/p>\n<p>Ou seja, por n\u00e3o ter um lugar onde estar na cidade, este garoto deambulava pelo hospital. O que fazia com que os m\u00e9dicos se queixassem: \u201co que esse garoto faz aqui?\u201d, \u201cele acha que est\u00e1 em um hotel?\u201d, \u201ceste n\u00e3o \u00e9 o lugar para ele\u201d. \u201cOs protocolos sanit\u00e1rios existem para serem cumpridos, ele pode pegar alguma doen\u00e7a!\u201d. Bom, toda uma s\u00e9rie de quest\u00f5es que tornavam o trabalho muito dif\u00edcil.<\/p>\n<p>O pai come\u00e7a a visit\u00e1-lo, mas \u00e9 escorregadio com os profissionais. Quando algumas sa\u00eddas com ele se concretizam, o pai chega tarde, discutem, desencontram-se. Ocasi\u00f5es nas quais \u00e9 preciso que as equipes suportem ser depositarias da sua raiva, que se decanta em desilus\u00e3o. Expressa: \u201cestou cansado de esperar e que n\u00e3o aconte\u00e7a nada\u201d.<\/p>\n<p>Repara que \u201cas vozes\u201d aparecem quando est\u00e1 entediado. Ao conversar sobre aquilo ao que o conte\u00fado remete, se desvanecem; o que tamb\u00e9m acontece ao ler a B\u00edblia ou fazer algo que lhe interessa. V\u00e3o aparecendo outros modos de nomear o padecimento: entediado, cansado, zangado. Deixa de se nomear como \u201clouco\u201d.<\/p>\n<p>Com cada vez mais clareza, sustenta que n\u00e3o quer passar as festas de fim de ano nem fazer 18 anos no hospital; reconhece que com seus pais n\u00e3o pode morar, mas que quer estar bem, \u201cser algu\u00e9m para eles vejam a pessoa que ele \u00e9\u201d.<\/p>\n<p>A possibilidade de narrar-se ganha pot\u00eancia: conta que veio do Brasil h\u00e1 alguns anos e que desde ent\u00e3o certas coordenadas nas quais tinha transcorrido sua vida foram abruptamente quebradas. Nesse momento seu pai, exaltado, decidiu que ele fosse morar com a m\u00e3e: \u201cme mandou para casa dela de t\u00e1xi e sem o endere\u00e7o\u201d.<\/p>\n<p>Imp\u00f5e-se operar com aquilo que insiste como afirma\u00e7\u00e3o desejante: a inten\u00e7\u00e3o de sair, estudar, trabalhar; a posi\u00e7\u00e3o de aposta amea\u00e7ada pela in\u00e9rcia institucional. Compartilhamos essas quest\u00f5es na conversa\u00e7\u00e3o do CIEN, onde se decanta a pergunta de como articular uma sa\u00edda que o inclua e responsabilize.<\/p>\n<p>Coordenou-se ent\u00e3o seu ingresso num Centro Educacional que tem uma tradi\u00e7\u00e3o de trabalho com pessoas em situa\u00e7\u00e3o de vulnerabilidade, que responde rapidamente, convocando-o a tomar a palavra. Ele consente, entusiasmado, mobilizado. Em um fato in\u00e9dito, o Hospital autoriza que ele possa sair todos os dias para ir \u00e0 escola, e a partir do programa de Acompanhamento Terap\u00eautico (AT) \u00e9 poss\u00edvel algu\u00e9m sair da institui\u00e7\u00e3o para acompanh\u00e1-lo.<\/p>\n<p>Um novo obst\u00e1culo burocr\u00e1tico interrompe o curso do trabalho singularizado: \u00e9 imposto o encaminhamento a uma institui\u00e7\u00e3o que n\u00e3o se encaixa no esperado para ele. Depois de um epis\u00f3dio de conflito em cujo contexto ele \u201cescapa\u201d, o seu reingresso \u00e9 negado argumentando que ele \u201cquebrou as regras\u201d.<\/p>\n<p>Desabrigado, ele volta \u00e0 Emerg\u00eancia. Aposta-se em n\u00e3o o internar, sustentando sua aten\u00e7\u00e3o ambulatorial. Mas um dia ele chega sujo, confuso, diz ter dormido na rua e pede \u201cme ajudem a encontrar um lugar para morar\u201d. O marginal se torna mais cru. Tem 17 anos e 10 meses<a href=\"#_ftn4\" name=\"_ftnref4\"><sup>[4]<\/sup><\/a>.<\/p>\n<p>Martin retoma seu modo de estar no hospital, tranquilo e reflexivo. Publica no Facebook fotos na escola, com sua carteira de identidade e no p\u00e1tio do hospital. Costuma adicionar a legenda \u201cATR\u201d (em espanhol: \u201c<em>a todo ritmo<\/em>\u201d) e \u201c<em>digam o que quiserem<\/em>\u201d.<\/p>\n<p>Sua equipe faz eco do desamparo que retorna dos circuitos formais e procura um lugar fora disso. Consegue-se o encaminhamento para um abrigo religioso. Prop\u00f5e-se um \u201cprocesso de adapta\u00e7\u00e3o\u201d, reconhecendo a necessidade de um tempo l\u00f3gico para passar de um lugar a outro. Embora seja um abrigo para maiores de idade, o diretor contempla a situa\u00e7\u00e3o e o recebe.<\/p>\n<p>Martin vai e vem sozinho do hospital ao abrigo v\u00e1rias vezes. Festeja seus 18 anos nos dois lugares. Diz que sente que \u201cter despertado\u201d no hospital, que \u201caprendeu a ter sentimentos\u201d. Um dia decide instalar-se no abrigo. Continua publicando no seu Facebook; uma foto o mostra em uma excurs\u00e3o com seus colegas, a intitula com a inscri\u00e7\u00e3o \u201ct\u00f4 por cima\u201d.<\/p>\n<p>Talvez se trate, como coloca \u00c8ric Laurent<a href=\"#_ftn5\" name=\"_ftnref5\"><sup>[5]<\/sup><\/a>, de movimentos de passagem ao \u201cregime da exce\u00e7\u00e3o\u201d, entendida como \u201cuma subvers\u00e3o do regime da proibi\u00e7\u00e3o para todos\u201d. Suspender os automatismos da pressa, suportar as irrup\u00e7\u00f5es e os vaiv\u00e9ns enlouquecidos at\u00e9 que advenha \u201critmo\u201d. Uma aposta ao despertar de um sujeito implicado na sua pr\u00f3pria inven\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<h6><strong><em>Revis\u00e3o da Tradu\u00e7\u00e3o: Flavia Machado Seidinger Leibovitz<\/em><\/strong><\/h6>\n<hr \/>\n<h3><span style=\"color: #0000ff;\">\u201cTrevas\u201d na educa\u00e7\u00e3o?<\/span><\/h3>\n<h6><em>Laborat\u00f3rio \u201cDocentes-doentes: deixe-os falar!\u201d<br \/>\n(CIEN-MG\/BR)<\/em><\/h6>\n<p>Numa conversa\u00e7\u00e3o com educadores, uma professora, Ellen, nomeou alguns alunos de \u201ctreva\u201d. \u201cTem aluno que a gente reza todos os dias para ele morrer ou acontecer alguma coisa para que ele n\u00e3o esteja mais l\u00e1 na sala\u201d \u2013 essa fala foi feita em meio aos professores e n\u00e3o causou o estranhamento que esper\u00e1vamos. Sentiu isso com Nicole, uma adolescente \u201cagressiva\u201d e \u201cdesafiadora\u201d: \u201cn\u00e3o consigo mais ter contato com ela por estar bastante esmorecida com toda a situa\u00e7\u00e3o\u201d. Qual seria a \u201ctreva\u201d insuport\u00e1vel para essa professora, a ponto de ao mesmo tempo se \u201cenfurecer\u201d e se \u201cesmorecer\u201d diante dessa jovem?<\/p>\n<p>Escuta-se muito sobre a c\u00f3lera produzida, especialmente, pelos alunos indisciplinados. N\u00e3o \u00e9 incomum professores relatarem situa\u00e7\u00f5es em que saem do s\u00e9rio, berram, jogam objetos, se indisp\u00f5em com os alunos, por vezes chegando \u00e0 agress\u00e3o. Para Lacan (2005), a c\u00f3lera \u201c\u00e9 o que acontece nos sujeitos quando os pininhos n\u00e3o entram nos buraquinhos\u201d, quando, \u201cno n\u00edvel do Outro, do significante [&#8230;], n\u00e3o se joga o jogo\u201d (p.23, Seminario 10). A c\u00f3lera indica uma ruptura e pode incitar uma resposta de viol\u00eancia, pois, como irrup\u00e7\u00e3o de um real, \u201ca separa\u00e7\u00e3o com o Outro pode levar a um curto-circuito onde a palavra falta ao discurso\u201d (Site do IX Enapol, 2019).<\/p>\n<p><strong>Treva e esmorecimento<\/strong><\/p>\n<p>Se de um lado temos a c\u00f3lera dos educadores, por outro, h\u00e1 o \u201cesmorecimento\u201d e o adoecimento diante dos casos considerados dif\u00edceis \u2013 aqueles que os angustiam, por n\u00e3o saberem o que fazer. O Laborat\u00f3rio realizou uma conversa\u00e7\u00e3o sobre o tema e, nesta, gestores escolares apontam que sua fun\u00e7\u00e3o \u00e9 a de sustentar os docentes para que n\u00e3o adoe\u00e7am. \u201cCom isso, os gestores tamb\u00e9m adoecem\u201d, o que se evidencia, inclusive, na alta rotatividade dessas fun\u00e7\u00f5es, nas escolas de alguns dos participantes da conversa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 raro os professores chegarem \u00e0 sala da coordena\u00e7\u00e3o, em c\u00f3lera, exigindo uma atitude. O pedido \u00e9 o de retirar o aluno daquele contexto, tal como a ideia de Ellen, que embora \u201cabsurda\u201d, n\u00e3o deixa de lhes ocorrer: \u201c\u00e9 a vontade que o problema desapare\u00e7a\u201d. E, em alguns momentos, a exclus\u00e3o \u00e9 a \u00fanica solu\u00e7\u00e3o encontrada, tal como ocorreu com Natan, expulso ap\u00f3s uma orienta\u00e7\u00e3o do Conselho Tutelar, porque a escola j\u00e1 n\u00e3o sabia mais o que fazer.<\/p>\n<p>Natan batia nos colegas, nos profissionais e gritava dizendo \u201ccala boca\u201d, \u201cdeixa eu falar\u201d. N\u00e3o suportava o contato e vivia uma crise que se manifestava atrav\u00e9s de socos, chutes, belisc\u00f5es, arranh\u00f5es, mesas para o alto, furo na cabe\u00e7a dos colegas com o l\u00e1pis, etc. Crian\u00e7as assustadas, professores procurando a gest\u00e3o, indignados pelo que ocorria e a professora regente sem voz evidenciavam a dificuldade que representava esse aluno para a equipe, que adoecia diante da situa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Seria Natan um \u201caluno treva\u201d ou um aluno com uma quest\u00e3o ps\u00edquica a demandar urgentemente um tratamento para isso? \u201cPode ser\u201d, diz Miller (2017), \u201cque a viol\u00eancia da crian\u00e7a anuncie uma psicose em forma\u00e7\u00e3o\u201d. Na conversa\u00e7\u00e3o do Laborat\u00f3rio, pareceu-nos que a crian\u00e7a mandava calar a voz que, por estar abolida do simb\u00f3lico, retornava no real, tal como uma alucina\u00e7\u00e3o. Al\u00e9m de ressaltar a import\u00e2ncia do tratamento \u00e0 crise psic\u00f3tica, inclusive com medica\u00e7\u00e3o adequada, chegamos a um orientador para as interven\u00e7\u00f5es na escola, a partir da proposta de Miller (2017): diante da viol\u00eancia da crian\u00e7a, procede-se com do\u00e7ura. Se o tratamento conseguisse conter essa crise, seria Natan um caso treva?<\/p>\n<p><strong>Caso treva?<\/strong><\/p>\n<p>Outro ponto levantado na conversa\u00e7\u00e3o foi o de que um caso \u00e9 considerado treva numa institui\u00e7\u00e3o e n\u00e3o em outra. Tal como Wallace, que chega na escola mordendo e batendo, mas que por n\u00e3o ter sido considerado treva, pode se colocar de outra maneira. Wallace vem com laudo de Transtorno de Espectro Autista (TEA) e com indica\u00e7\u00f5es de como a escola deveria proceder com ele, at\u00e9 mesmo sobre a express\u00e3o facial correta para se dirigir \u00e0 crian\u00e7a. Diferente disso, a professora permitiu que o aluno a guiasse. H\u00e1 uma ocasi\u00e3o em que ele deita no ch\u00e3o e ela se deita tamb\u00e9m, acompanhando-o. A interven\u00e7\u00e3o da escola produziu efeitos t\u00e3o importantes que, ao final do ano letivo, o neurologista questionou seu diagn\u00f3stico.<\/p>\n<p>Por que um caso \u00e9 treva em uma escola, mas n\u00e3o \u00e9 em outra? Isso vai depender do sintoma de cada escola, que se refere a um modo de funcionamento pr\u00f3prio de lidar com as quest\u00f5es. Esse sintoma favorece algumas crian\u00e7as ou pode se constituir como insuport\u00e1vel para outras. Poder\u00edamos pensar, ent\u00e3o, que o caso treva \u00e9 aquele que questiona o sintoma da escola? Ou do professor? Seria quando a resposta sintom\u00e1tica, constru\u00edda a partir da fantasia, n\u00e3o \u00e9 suficiente para lidar com aquela situa\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p><strong>Treva e ang\u00fastia<\/strong><\/p>\n<p>\u201cTreva \u00e9 quando a gente n\u00e3o sabe o que fazer\u201d, e, nesse sentido, seria interessante pensar que h\u00e1 \u201cmomentos treva e n\u00e3o alunos treva\u201d \u2013 disse-nos uma participante da conversa\u00e7\u00e3o. A pergunta, ent\u00e3o, seria: o que fazer diante desses momentos? Seria a treva um dos nomes da ang\u00fastia?<\/p>\n<p>Lacan (2005) localiza que a ang\u00fastia tem rela\u00e7\u00e3o com o desejo do Outro, ao qual o sujeito tenta sempre responder. Que queres? Que quer ele de mim? E essa quest\u00e3o n\u00e3o se trata apenas de \u201cque quer ele de mim?\u201d, mas \u201cque quer ele a respeito desse lugar do eu?\u201d. Ele situa a ang\u00fastia como um termo intermedi\u00e1rio entre o gozo e o desejo e aponta que \u00e9 \u201cdepois de superada a ang\u00fastia, e fundamentado no tempo da ang\u00fastia, que o desejo se constitui\u201d (p.193). Frente a um \u201cmomento treva\u201d, o que fazer? Lan\u00e7ar luz sobre o que n\u00e3o se sabe fazer ou sobre o modo com o qual se faz sempre e que se desestabilizou?<\/p>\n<p>Se esses momentos trazem inc\u00f4modo \u00e0 escola, a ponto de que se busque eliminar a treva para que tudo volte a funcionar como antes, colocar a treva, esse \u201cn\u00e3o saber o que fazer\u201d, em quest\u00e3o, pode proporcionar uma reconfigura\u00e7\u00e3o na maneira de funcionar. Nesse sentido, o aluno treva pode trazer luz, a partir do momento em que explicita uma certa l\u00f3gica. E Lacan (2005) nos indica que \u201cs\u00f3 h\u00e1 supera\u00e7\u00e3o da ang\u00fastia quando o Outro \u00e9 nomeado\u201d (p.366).<\/p>\n<p>Ao falar sobre a crian\u00e7a violenta, Miller (2017) pontua que h\u00e1 uma revolta da crian\u00e7a que pode ser s\u00e3 e se distinguir de uma viol\u00eancia err\u00e1tica, aquela viol\u00eancia sem por qu\u00ea. E essa revolta pode ser acolhida, afinal, o jovem se rebela contra o antigo para fazer surgir o novo. Com os \u201calunos treva\u201d, poder\u00edamos pensar que essa escurid\u00e3o que se apresenta na ang\u00fastia abriria o caminho para a dimens\u00e3o do desejo, favorecendo uma inven\u00e7\u00e3o? Afinal, pode haver algo de produtivo nessa ang\u00fastia se n\u00e3o a colocamos no arm\u00e1rio (esmorecimento) e nem a deixamos tomar a cena, transbordando-se para a c\u00f3lera.<\/p>\n<h6><em>Integrantes: Virg\u00ednia Carvalho (respons\u00e1vel pelo laborat\u00f3rio); Ana Lydia Santiago; Bruna Albuquerque; Danielle Vasconscelos; Fernanda Paolucci; Let\u00edcia Mello; Mariana Vaz; Paula Cristina Barbosa; Sabrina Rosa; S\u00e9rgio Porf\u00edrio.<\/em><\/h6>\n<h6><em>\u00a0<\/em><strong>Refer\u00eancias Bibliogr\u00e1ficas<\/strong><\/h6>\n<h6><em>Lacan, J. (1962-63\/2005). O Semin\u00e1rio, livro 10. Rio de Janeiro: JZE.<br \/>\nMiller, J.A. (2017). \u201cCrian\u00e7as Violentas\u201d. In: Op\u00e7\u00e3o Lacaniana, 77. Abril de 2017. S\u00e3o Paulo, Edi\u00e7\u00f5es Eolia.<\/em><\/h6>\n<hr \/>\n<h3><span style=\"color: #0000ff;\">Quando portas se fecham, Janelas se abrem:<\/span><\/h3>\n<h3><span style=\"color: #0000ff;\"><em>Um olhar sobre um dispositivo cl\u00ednico de Belo Horizonte<\/em><\/span><\/h3>\n<h6><em>Laborat\u00f3rio \u201cJanela da Escuta\u201d<br \/>\n(CIEN-MG\/BR)<br \/>\nGabriela Antunes Ferreira e Ma\u00edra Carolina Alves Santos<a href=\"#_ftn6\" name=\"_ftnref6\"><sup><strong>[6]<\/strong><\/sup><\/a><\/em><\/h6>\n<p>A met\u00e1fora da \u201cJanela da escuta\u201d coloca para os adolescentes, profissionais, familiares e para os servi\u00e7os de sa\u00fade uma interroga\u00e7\u00e3o: \u00e9 poss\u00edvel um espa\u00e7o de escuta que tenha como premissa a singularidade e a liberdade subjetiva? Um lugar que desconstrua todo o modelo institucional vigente e que transgrida os protocolos impostos, a fim de construir espa\u00e7os de escuta livre para adolescentes e jovens? Esta \u00e9 a proposta do laborat\u00f3rio do CIEN \u201cJanela da Escuta\u201d, marcado pelo trabalho inter-disciplinar e pelas conversa\u00e7\u00f5es de orienta\u00e7\u00e3o psicanal\u00edtica.<\/p>\n<p>A proposta do \u201cJanela da escuta\u201d pretende derrubar metaforicamente os muros e portas institucionais, que impedem a escuta livre de julgamentos e olhares universais sobre a subjetividade, para colocar no lugar dessas portas, janelas que devem estar constantemente abertas para a escuta livre. Ao que chamamos escuta livre, pretendemos nos referir \u00e0 proposta metodol\u00f3gica do \u201cJanela da escuta\u201d que tem como base a concep\u00e7\u00e3o de que o adolescente \u00e9 o especialista de si mesmo, ou seja, a equipe de atendimento aposta no saber do adolescente sobre si. Diante disso, cada participante da equipe ocupa a posi\u00e7\u00e3o de aprendiz ao que se refere ao novo caso que se apresenta.<\/p>\n<p>A partir dessa escuta \u00e9 realizada a constru\u00e7\u00e3o do caso, com os profissionais que atendem o adolescente no ambulat\u00f3rio e, dependendo do caso, com a rede de atendimento do adolescente junto \u00e0s pol\u00edticas p\u00fablicas. Esta metodologia chamada \u201cconversa\u00e7\u00e3o\u201d possibilita que os impasses que atravessam o caso possam ser escutados e que algo novo emerja dessa constru\u00e7\u00e3o. A articula\u00e7\u00e3o com a rede territorial fomenta a abertura de uma janela da escuta do adolescente no seu territ\u00f3rio. Ou seja, atua como um multiplicador que visa o deslocamento de uma l\u00f3gica do protocolo institucional universalizante para uma escuta singular no contexto das pol\u00edticas p\u00fablicas de atendimento ao adolescente.<\/p>\n<p>O car\u00e1ter inter-disciplinar do \u201cJanela da Escuta\u201d \u00e9 uma marca presente em todo o percurso do adolescente no ambulat\u00f3rio. Neste sentido, as conversa\u00e7\u00f5es cl\u00ednicas acontecem sempre ap\u00f3s o acolhimento do adolescente e em momentos em que h\u00e1 algum impasse na constru\u00e7\u00e3o do caso cl\u00ednico. As conversa\u00e7\u00f5es contam com a participa\u00e7\u00e3o de pelo menos um psicanalista que sustenta a aposta de que n\u00e3o h\u00e1 um saber constitu\u00eddo. O \u201cn\u00e3o-saber\u201d d\u00e1 lugar ao vazio onde h\u00e1 a emerg\u00eancia criativa e singular que orienta cada caso. Os profissionais das diferentes \u00e1reas envolvidas na discuss\u00e3o se colocam num lugar de n\u00e3o saber diante do \u201cnovo\u201d que se apresenta, e as solu\u00e7\u00f5es tecidas pelo pr\u00f3prio adolescente, assumem lugar central.<\/p>\n<p>Trago aqui um trecho de uma m\u00fasica chamada \u201cV. L. tamb\u00e9m ama\u201d, do \u201cTrilha Sonora do Gueto\u201d, pois irei retom\u00e1-la a seguir. Diz assim:<\/p>\n<blockquote><p>\u201cCara \u00e9 complicado essa vida<br \/>\nMas aprendendo \u00e9 que se ensina, ainda existe<br \/>\nBoa gente, que vai a luta e segue sempre em frente<br \/>\nTendo que enfrentar toda manh\u00e3<br \/>\nE se preocupar com sua fam\u00edlia<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Amar \u00e9 complicado, pros fracos n\u00e3o tem vez<br \/>\nUm dos vida loka vale deles tipo seis<br \/>\nS\u00f3 tenho que eu mere\u00e7o, humildade vem do ber\u00e7o<br \/>\nAmor \u00e9 s\u00f3 de m\u00e3e, pois de outro eu n\u00e3o conhe\u00e7o\u201d<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>Vida loka tamb\u00e9m ama!<\/strong><\/p>\n<p>A palavra dita somente encontra lugar e sentido quando escutada atentamente. Um exemplo de como transformar portas em Janela se d\u00e1 todos os dias na cena do acolhimento. Em uma manh\u00e3 de sexta-feira, um adolescente chega encaminhado pelo servi\u00e7o socioeducativo, acompanhado de um agente e com um relat\u00f3rio detalhado de sua trajet\u00f3ria na criminalidade. Nesse momento, o adolescente chega e, em suas pr\u00f3prias palavras, diz que \u00e9 visto como \u201ccriminoso\u201d, \u201cladr\u00e3o\u201d, \u201cpecador\u201d. Informa que est\u00e1 vivendo os piores momentos de sua vida, confinado, diz que chora ao se lembrar da m\u00e3e, e a identifica como o <em>amor da sua vida<\/em>. Interrompe a fala para n\u00e3o chorar e afirma: \u201c<em>eu n\u00e3o gosto de chorar porque as pessoas pensam que eu sou fraco<\/em>\u201d. \u00c9 dito ao adolescente que ali ele n\u00e3o precisa ser forte. Ele diz com os olhos marejados: <em>\u201cquem me v\u00ea n\u00e3o sabe o sentimento que carrego no peito. Vida loka tamb\u00e9m ama!\u201d<\/em>.<\/p>\n<p>Lacad\u00e9e (2011) nos adverte, a partir de um exemplo midi\u00e1tico \u2013 por sinal muito atual e presente no contexto brasileiro \u2013, sobre os perigos da manipula\u00e7\u00e3o da l\u00edngua para justificar a trucul\u00eancia do trato com o jovem. Os deslocamentos das express\u00f5es que nomeiam os jovens os convertem em <em>\u201cmanchas a serem limpas\u201d<\/em> (p.13) \u2013 ou corpos mat\u00e1veis \u2013 seja pelo c\u00e1rcere seja pelo exterm\u00ednio. Com isso, ao declarar <em>Vida loka tamb\u00e9m ama<\/em>, este jovem pontua sua indigna\u00e7\u00e3o diante da maneira com que a sociedade descreve os adolescentes autores de ato infracional. Estes adolescentes sentem-se vistos como sem sentimentos, sem cora\u00e7\u00e3o. Como se tamb\u00e9m n\u00e3o amassem, como se fossem cru\u00e9is. A escuta em interlocu\u00e7\u00e3o ao que diz o jovem pode retificar sua posi\u00e7\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o a estas qualifica\u00e7\u00f5es, podendo naquele momento expressar livremente o que sente por sua m\u00e3e. Espa\u00e7o improv\u00e1vel dentro do contexto institucional.<\/p>\n<p>\u00c9 interessante pensar no caso supracitado como a escuta abre janelas que apontam liberdades e possibilidade de avistar algo novo onde antes s\u00f3 se viam paredes. O \u201cJanela da escuta\u201d aposta que ao olhar para fora, al\u00e9m dos discursos que sup\u00f5em algum saber sobre o adolescente, \u00e9 poss\u00edvel manter uma janela aberta para a escuta e inven\u00e7\u00e3o de um novo lugar pelo adolescente. Janelas que se mant\u00eam abertas apesar das portas fechadas dos protocolos institucionais e do pr\u00f3prio ideal de bem-estar de alguns profissionais das pol\u00edticas p\u00fablicas.<\/p>\n<h6><strong>Refer\u00eancias:<\/strong><\/h6>\n<h6><em>CUNHA. C.F. <\/em><strong>A janela e a cidade<\/strong><em> &#8211; <\/em><em>cl\u00ednica contra segrega\u00e7\u00e3o. Belo Horizonte: 2017. Dispon\u00edvel em<\/em><em>: <\/em><em>https:\/\/site.medicina.ufmg.br\/observaped\/wp-content\/uploads\/sites\/37\/2017\/01\/a-janela-e-a-cidade-observaped-30-01-2017.pdf. Acesso em: 07 de Julho de 2019. <\/em><\/h6>\n<h6><em>LACAD\u00c9E, P. <\/em><strong>O despertar e o ex\u00edlio:<\/strong><em> Ensinamentos psicanal\u00edticos da mais delicada das transi\u00e7\u00f5es, a adolesc\u00eancia. Rio de janeiro: Contra Capa, 2011.<\/em><\/h6>\n<h6><em>MILLER J. A. <\/em><strong>Crian\u00e7as Violentas.<\/strong><em> Op\u00e7\u00e3o Lacaniana, 77. abril de 2017. S\u00e3o Paulo, Edi\u00e7\u00f5es Eolia.<\/em><\/h6>\n<hr \/>\n<h3><span style=\"color: #0000ff;\">Reconquistar como sujeito a dignidade de seu sintoma<\/span><\/h3>\n<h6><em>Laborat\u00f3rio \u201cInf\u00e2ncia Errante\u201d<br \/>\n(CIEN-RJ\/BR)<\/em><\/h6>\n<p>Uma frase do Argumento proposto para esta 2a Conversa\u00e7\u00e3o Internacional do CIEN Am\u00e9rica nomeia e nos inspira a escrever sobre uma conversa\u00e7\u00e3o que realizamos a partir da demanda de uma professora. Apesar de j\u00e1 ter seis anos, Caio foi matriculado no Pr\u00e9 II da escola tradicional em que ela trabalha. \u00c9 sobre eles de que se trata neste texto em que nos propomos a abordar a dignidade do sujeito.<\/p>\n<p>J\u00e1 na semana de sondagem, a professora percebe algo de diferente em Caio: uma agita\u00e7\u00e3o f\u00edsica desmedida o impossibilita a se centrar em algumas atividades; grande necessidade de contato f\u00edsico com abra\u00e7os e beijos a todo momento e com todos; desinteresse por atividades normalmente atrativas para a sua faixa et\u00e1ria; oscila\u00e7\u00f5es de humor; superexcita\u00e7\u00e3o diante de alguns est\u00edmulos e raiva e frustra\u00e7\u00e3o diante de outros; respostas explosivas e consider\u00e1vel baixa autoestima. A coordenadora pedag\u00f3gica informa \u00e0 professora que Caio \u00e9 agitado \u201cporque tem TDAH\u201d. Em tratamento medicamentoso, ele tamb\u00e9m \u00e9 acompanhado por uma fonoaudi\u00f3loga. Se esse diagn\u00f3stico traz consigo a \u201cexplica\u00e7\u00e3o\u201d de seu comportamento, traz tamb\u00e9m d\u00favidas sobre a melhor maneira de trabalhar com ele sem encerr\u00e1-lo sob uma etiqueta.<\/p>\n<p>A professora solicita, ent\u00e3o, uma reuni\u00e3o com a fam\u00edlia e somente a av\u00f3 paterna comparece. Caio e o pai moram com ela e \u00e9 ela quem cuida do menino que, muito dependente, n\u00e3o toma banho nem come sozinho. Agitado, corre o tempo todo, de um lado para outro. Quando est\u00e1 em \u201ccrise\u201d, n\u00e3o quer falar, foge de todos e fica repetindo que \u201cn\u00e3o faz nada direito\u201d, que \u201cn\u00e3o presta para nada\u201d. A av\u00f3 teme que, em sua \u201cdepress\u00e3o\u201d, ele fa\u00e7a alguma coisa consigo mesmo.<\/p>\n<p><strong>Conversa\u00e7\u00e3o 1: h\u00e1 pe\u00e7as que se encaixam\u2026<\/strong><\/p>\n<p>A professora conta que, ap\u00f3s esta reuni\u00e3o com a av\u00f3, \u201calgumas pe\u00e7as se encaixaram\u201d e se pergunta como mudar o manejo com Caio e a turma, em seu \u201ctrabalho solit\u00e1rio\u201d. \u201cPor que solit\u00e1rio?\u201d \u2013 pergunta um participante do laborat\u00f3rio. Ela explica: \u201cquando ele grita e lan\u00e7a \u00e0 dist\u00e2ncia qualquer objeto que esteja \u00e0 sua frente, respondem a ele com gritos de igual ou maior volume, seguidos de um castigo, como a perda de alguma atividade prazerosa. N\u00e3o h\u00e1 espa\u00e7o na escola para minhas ang\u00fastias e d\u00favidas\u201d. Uma participante comenta que ang\u00fastia e d\u00favida fazem parte do trabalho em qualquer institui\u00e7\u00e3o e prop\u00f5e que nos encontremos para um segundo tempo da conversa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>Conversa\u00e7\u00e3o 2: \u2026e h\u00e1 as pe\u00e7as que n\u00e3o se encaixam\u2026<\/strong><\/p>\n<p>Logo ao chegar, a professora relata que foi atravessada pela constata\u00e7\u00e3o de seu lugar de super-hero\u00edna, salvadora, como se as crian\u00e7as n\u00e3o tivessem outra possibilidade sen\u00e3o suas aulas: \u201cParte desta minha solid\u00e3o acontece por eu idealizar uma postura que n\u00e3o tenho como sustentar em minha condi\u00e7\u00e3o de humana. Tenho um olhar sens\u00edvel \u00e0 inf\u00e2ncia e \u00e0 aprendizagem que me diferencia dos meus pares, mas n\u00e3o sou melhor do que ningu\u00e9m. N\u00e3o promovo nenhuma grande revolu\u00e7\u00e3o e meus resultados s\u00e3o os esperados e desejados pelo corpo docente.\u201d<\/p>\n<p>Ap\u00f3s a primeira conversa\u00e7\u00e3o, percebeu que seu olhar para a turma est\u00e1 diferente, principalmente para com Caio: \u201cAinda mantenho a postura de lidar com todos e cada um, mas tenho buscado um certo distanciamento emocional para um efeito pedag\u00f3gico mais imediato.\u201d Observa dois novos comportamentos inusitados de Caio:<\/p>\n<p>(1) frequentemente, ele pergunta sobre sua fam\u00edlia: <em>Tia, sua fam\u00edlia \u00e9 grande? Voc\u00ea tem irm\u00e3os? Sua fam\u00edlia mora toda junta? Como \u00e9 o nome da sua mam\u00e3e?<\/em> Um dia, pergunta o nome do seu pai e fica muito consternado ao saber que ele j\u00e1 havia falecido. <em>Onde ele est\u00e1?<\/em> \u201cEle j\u00e1 virou estrelinha.\u201d <em>Ele j\u00e1 morreu? Poxa, vou te dar um abra\u00e7o pra voc\u00ea n\u00e3o ficar triste<\/em>.<\/p>\n<p>(2) por vezes, ele se coloca ao seu lado e, de repente, lambe o cotovelo dela. Na primeira vez que isso aconteceu, pediu que parasse, deu uma \u2018bronca\u2019. Ele justificou: <em>estou dando beijinhos<\/em>. Outras vezes em que \u00e9 pega de surpresa, ela n\u00e3o sabe muito bem o que fazer, tenta ignorar seu comportamento e chama a aten\u00e7\u00e3o para outra atividade em curso.<\/p>\n<p><strong>Momento de concluir: \u2026e possibilitam um lugar no mundo.<\/strong><\/p>\n<p>Na Jornada Internacional do CIEN de 2013, em Buenos Aires, \u00c9ric Laurent estabeleceu uma diferen\u00e7a entre o mundo da proibi\u00e7\u00e3o, centrado em normas e regras, e o mundo da exce\u00e7\u00e3o. Comentando o trabalho que apresentamos sobre o rapaz que queria se tratar, mas n\u00e3o queria deixar a droga, Laurent usou um termo que tem nos orientado no trabalho com as institui\u00e7\u00f5es: a \u201cinterdi\u00e7\u00e3o sob medida\u201d, que pertence ao regime da exce\u00e7\u00e3o, mas n\u00e3o est\u00e1 completamente fora do mundo da proibi\u00e7\u00e3o. Em suas palavras: \u201cH\u00e1 sujeitos que, por raz\u00f5es m\u00faltiplas, n\u00e3o t\u00eam lugar neste mundo. Ent\u00e3o, para se inventar um lugar que possam suportar t\u00eam que passar por suas condutas de risco e calcular como fazer parte desse impasse das regras, a solu\u00e7\u00e3o que possa inclu\u00ed-los\u201d. (p.16)<\/p>\n<p>Sobre Caio, ressaltamos um efeito importante sobre \u201cinventar um lugar\u201d, o que chamamos de sua \u201cautonomea\u00e7\u00e3o\u201d. Certo dia, ele pergunta para a professora qual o nome dela. Ela responde e, em seguida, Caio pergunta se poderia cham\u00e1-la, a partir de ent\u00e3o, por seu nome e n\u00e3o mais de \u201ctia\u201d, como costumava chamar. E assim ele faz. Dias depois, em um evento da escola, p\u00e1tio lotado, ele levanta a m\u00e3o para fazer uma pergunta. Mas antes de coloc\u00e1-la, Caio surpreende: ele se apresenta, de p\u00e9, dizendo seu nome completo.<\/p>\n<h6><em>Participantes: Ana Martha Maia e Jos\u00e9 Alberto Ferreira (psicanalistas, respons\u00e1veis pelo laborat\u00f3rio), Ana L\u00facia East (psicanalista) e Tatiana Pantoja (pedagoga).<\/em><\/h6>\n<h6><strong>Refer\u00eancia bibliogr\u00e1fica:<\/strong><\/h6>\n<h6><em>Laurent, \u00c9. \u201cA cada uno, su ponto de excepci\u00f3n\u201d. Cuaderno 7 \u2013 Centro de investigaciones del ICdeBA: Me incluyo, desde afuera. Buenos Aires: Instituto del Campo Freudiano. 2014.<\/em><\/h6>\n<hr \/>\n<h3><span style=\"color: #0000ff;\">Inven\u00e7\u00f5es \u201cno fio da lei\u201d<\/span><\/h3>\n<h6><em>Laborat\u00f3rio \u201cAl filo de la ley\u201d<br \/>\n(CIEN \u2013 Bs As\/AR)<\/em><\/h6>\n<p>A presente vinheta surge da experi\u00eancia recolhida em um centro s\u00f3cio comunit\u00e1rio localizado na regi\u00e3o sul da grande Buenos Aires. Trata-se de uma equipe interdisciplinar que atua a partir de of\u00edcios judiciais, quando um juiz ordena uma medida (Suspens\u00e3o de julgamento a prova).<a href=\"#_ftn7\" name=\"_ftnref7\"><sup>[7]<\/sup><\/a><\/p>\n<p>O nosso laborat\u00f3rio se origina a partir do encontro entre a psic\u00f3loga da equipe com um psicanalista integrante do CIEN, a quem ela consulta para se orientar em um trabalho de tese. O material que ela apresenta, estruturado no estilo do discurso universit\u00e1rio, alterna-se entre a queixa e o des\u00e2nimo, diz sentir-se culpada e frustrada por n\u00e3o poder fazer praticamente nada pelos meninos, que nada funciona&#8230;<\/p>\n<p>\u00c9 que a interven\u00e7\u00e3o desta equipe interdisciplinar \u00e9 limitada no tempo e no seu alcance, e sup\u00f5e a implementa\u00e7\u00e3o de uma s\u00e9rie de medidas que seguem um ideal de reinser\u00e7\u00e3o social normativizante, por meio de dispositivos muito limitados quanto a recursos que nem chegam perto dos objetivos que imp\u00f5em, afundando ami\u00fade os profissionais intervenientes e tamb\u00e9m aos jovens destinat\u00e1rios dessas medidas em sentimentos de desamparo e frustra\u00e7\u00e3o, que muitas vezes retornam como viol\u00eancia e desconfian\u00e7a: \u201c<em>recebemos sempre uma urg\u00eancia imposs\u00edvel de resolver<\/em>\u201d, \u201c<em>temos que explicar sempre o que n\u00e3o somos<\/em>\u201d, \u201c<em>quando conseguimos que um menino confie em alguma de n\u00f3s, temos que encaminh\u00e1-lo para um lugar que n\u00e3o est\u00e1 dispon\u00edvel, ou tem que suportar meses de lista de espera<\/em>\u201d, etc.<\/p>\n<p>O encontro com as publica\u00e7\u00f5es do CIEN e o convite ao trabalho entre v\u00e1rios precipita a montagem de um laborat\u00f3rio, quando outra integrante da equipe, uma assistente de menores, se junta \u00e0 conversa\u00e7\u00e3o. O laborat\u00f3rio se constitui a partir da necessidade de p\u00f4r a trabalho as dificuldades derivadas das situa\u00e7\u00f5es assinaladas e muitas outras, e de localizar as tens\u00f5es pr\u00f3prias de uma tarefa que se situa nos limites do imposs\u00edvel: como estabelecer as coordenadas que o discurso jur\u00eddico denomina \u201ca responsabilidade subjetiva\u201d dentro de um enquadre institucional que muitas vezes a violenta em nome de regula\u00e7\u00f5es burocr\u00e1ticas?<\/p>\n<p><strong>\u201cFazer-se d\u00f3cil \u00e0 l\u00edngua do outro\u201d n\u00e3o implica \u201cobedi\u00eancia devida\u201d<\/strong><\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignright size-medium wp-image-5659559\" src=\"http:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2022\/01\/003-012-280x300.jpg\" alt=\"\" width=\"280\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2022\/01\/003-012-280x300.jpg 280w, https:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2022\/01\/003-012-274x293.jpg 274w, https:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2022\/01\/003-012.jpg 454w\" sizes=\"auto, (max-width: 280px) 100vw, 280px\" \/>Qualquer enquadre normativo porta em si um imposs\u00edvel.<\/p>\n<p>O paradoxo das regula\u00e7\u00f5es burocr\u00e1ticas \u00e9 que ignoram que qualquer quest\u00e3o relativa ao subjetivo se produz por fora dos protocolos e, se h\u00e1 alguma efic\u00e1cia poss\u00edvel, ela aparece \u201c<em>fora de lugar<\/em>\u201d.<\/p>\n<p>A situa\u00e7\u00e3o que vamos apresentar ilustra muito bem o que poder\u00edamos chamar de \u201ca efic\u00e1cia nas margens\u201d.<\/p>\n<p>Em espanhol tem um dito popular que diz: \u201c<em>hecha la ley, hecha la trampa<\/em>\u201d<a href=\"#_ftn8\" name=\"_ftnref8\"><sup>[8]<\/sup><\/a>. Vamos ver de que maneira uma \u201carmadilhazinha<a href=\"#_ftn9\" name=\"_ftnref9\"><sup>[9]<\/sup><\/a>\u201d permite nesta situa\u00e7\u00e3o evitar cair na armadilha dos protocolos.<\/p>\n<p><strong>\u201cO beb\u00ea da mam\u00e3e\u201d<\/strong><\/p>\n<p>P se apresenta no centro, em companhia de sua m\u00e3e, com atitude prepotente e desp\u00f3tica.<\/p>\n<p>Dirige-se \u00e0 equipe com arrog\u00e2ncia e responde zombeteiramente \u00e0s perguntas que lhe formulam (motivo do roubo), afirmando que o evento que se lhe imputa ocorreu h\u00e1 3 anos.<\/p>\n<p>Ao receb\u00ea-lo, ele se apazigua quando esclarecem que n\u00e3o se tratava de um interrogat\u00f3rio policial.<\/p>\n<p>P oscilava entre duas posi\u00e7\u00f5es: por um lado, atribu\u00eda-se seus delitos com desembara\u00e7o e veem\u00eancia; ao mesmo tempo que negava qualquer responsabilidade subjetiva diante dos fatos da acusa\u00e7\u00e3o: \u201c<em>eles me levaram por engano, por uma troca de roupas<\/em>\u201d.<\/p>\n<p>Enquanto isso, sua m\u00e3e se comporta como se fosse a irm\u00e3 e nem se altera diante do relato das \u201cfa\u00e7anhas\u201d do jovem, naturalizando assim o consumo de drogas e a atua\u00e7\u00e3o delituosa.<\/p>\n<p>O menino e sua m\u00e3e falavam como se fossem portadores de um \u00fanico discurso, id\u00eantico, sem fissuras, completando-se nas frases, um ao outro, e \u00e0s vezes respondendo em coro. Por exemplo:<\/p>\n<p>\u2014 <em>Dados do pai?<\/em><\/p>\n<p><em>\u2014 N\u00e3o existe, n\u00e3o precisamos dele.<\/em><\/p>\n<p>A advogada assinala essa modalidade discursiva, diante do que o menino responde com tom ir\u00f4nico e redobrando a aposta: \u201c<em>Sim, eu sou o beb\u00ea da mam\u00e3e<\/em>\u201d, apelido que se instala para nome\u00e1-lo entre os profissionais do centro.<\/p>\n<p>O curso do que parecia ser um roteiro fatal, que oscilava entre <em>a zombaria<\/em> (ele chegou a exibir orgulhosamente uns t\u00eanis de duvidosa proced\u00eancia) e <em>a desconfian\u00e7a<\/em> diante dos membros da equipe, deu uma virada fundamental em um segundo encontro, quando P comparece sozinho e declara, desconsolado, ter sido abandonado por sua namorada, que o deixou publicamente exposto e ridicularizado nas redes sociais.<\/p>\n<p>Aquele menino valent\u00e3o e prepotente se apresentava agora t\u00e3o fr\u00e1gil e t\u00e3o vulner\u00e1vel quanto qualquer mortal diante das desventuras do amor&#8230; Em face da humilha\u00e7\u00e3o pensa na vingan\u00e7a, uma sa\u00edda violenta: \u00e9 convidado a falar sobre como se sente, cai no choro.<\/p>\n<p>Foi preciso alojar nesse momento a ang\u00fastia de P, que a partir da\u00ed come\u00e7a a comparecer sem hora marcada para ver as integrantes da equipe. Este movimento espont\u00e2neo, acolhido pelos que o recebem para falar, est\u00e1 fora do que o Programa permite. Mas \u00e9 justamente ali onde se abre uma possibilidade para o sujeito. \u00c9 ali quando manifestou recursos que lhe permitiram dar-se um tempo para assumir e respeitar a decis\u00e3o de outro, com a consequente dor da perda, uma nova posi\u00e7\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o ao amor.<\/p>\n<p>Para a equipe isto significou uma aposta: ir al\u00e9m dos protocolos que indicam taxativamente o encaminhamento a um servi\u00e7o de sa\u00fade mental, o qual supunha uma lista de espera. Decide-se contornar a impot\u00eancia \u00e0 que empurra a burocracia, dando espa\u00e7o \u00e0 palavra e ao seu valor.<\/p>\n<p>Em pouco tempo outra conting\u00eancia oferece uma nova oportunidade.<\/p>\n<p>O pai de P lhe oferece um emprego no seu a\u00e7ougue, que o jovem aceita queixosamente e como algo transit\u00f3rio.<\/p>\n<p>A psic\u00f3loga da equipe, com quem o menino tem desenvolvido um la\u00e7o de confian\u00e7a e respeito, lhe pergunta: \u201cVoc\u00ea j\u00e1 aprendeu a <em>despostar<a href=\"#_ftn10\" name=\"_ftnref10\"><sup><strong>[10]<\/strong><\/sup><\/a><\/em>?\u201d Frente a resposta afirmativa e alguma surpresa por parte do menino, ela diz em tom c\u00famplice: \u201cEu aprendi o of\u00edcio com meu pai, eu tamb\u00e9m sei <em>despostar<\/em>\u201d. Ela lhe sugere aproveitar esse saber fazer porque \u00e9 um trabalho muito valorizado e bem remunerado.<\/p>\n<p>O jovem rapidamente se incorpora ao neg\u00f3cio do seu pai em tempo integral (inclusive atendendo no caixa), e abre para si uma porta ao mundo do trabalho, uma sa\u00edda poss\u00edvel do mundo do delito.<\/p>\n<p>Depois de um tempo, j\u00e1 quase no limite de nossa interven\u00e7\u00e3o, ele vem nos visitar e orgulhosamente nos mostra as \u201c<em>altas llantas<\/em>\u201d (t\u00eanis) que p\u00f4de comprar com o dinheiro que ele ganha trabalhando.<\/p>\n<h6><em>Integrantes: Silvina Cantarella (psic\u00f3loga, participante do ICdeBA), Mar\u00eda Soledad Lettieri (assistente de menores, operadora) e Hern\u00e1n Vilar (respons\u00e1vel pelo laborat\u00f3rio).<\/em><\/h6>\n<h6><strong><em>Tradu\u00e7\u00e3o: Milagros Villar.<\/em><\/strong><\/h6>\n<h6><strong><em>Revis\u00e3o: Fl\u00e1via Machado Seidinger Leibovitz.<\/em><\/strong><\/h6>\n<hr \/>\n<h3><span style=\"color: #0000ff;\">A Conversa\u00e7\u00e3o diante da \u201cpol\u00edtica do para todos\u201d<\/span><\/h3>\n<h6><em>Laborat\u00f3rio Pipa-voada<br \/>\n(CIEN-RJ\/BR)<\/em><\/h6>\n<p><strong>Cyntia Mattar<\/strong>: O trabalho do laborat\u00f3rio neste ano come\u00e7ou com uma pergunta: onde est\u00e3o os meninos e meninas que costum\u00e1vamos ver nas ruas do Rio de Janeiro? Essa quest\u00e3o inicial se desdobrou, trazendo uma segunda pergunta: qual \u00e9 o la\u00e7o poss\u00edvel desses adolescentes que experimentam o movimento de err\u00e2ncia com a droga, na rua e nas institui\u00e7\u00f5es e com cada um de n\u00f3s? Al\u00e9m de ser uma das participantes desse laborat\u00f3rio, eu coordeno a equipe de Redu\u00e7\u00e3o de Danos do Munic\u00edpio de Niter\u00f3i do Rio de Janeiro.<\/p>\n<p>O \u201cPipa-voada\u201d, ao questionar onde est\u00e3o as crian\u00e7as e os adolescentes usu\u00e1rios de drogas em situa\u00e7\u00e3o de vulnerabilidade, fomentou tr\u00eas conversa\u00e7\u00f5es \u2013 duas delas foram realizadas com participantes de outros laborat\u00f3rios do CIEN-RJ. A presen\u00e7a de profissionais de outras \u00e1reas do saber, dentro e fora do laborat\u00f3rio, evidencia a aposta na conversa\u00e7\u00e3o como um dispositivo capaz de interrogar nossa pr\u00e1tica.<\/p>\n<p>Levamos para a conversa\u00e7\u00e3o o impasse colocado por uma psic\u00f3loga com o tratamento de uma adolescente de 15 anos, em situa\u00e7\u00e3o de rua, usu\u00e1ria de m\u00faltiplas drogas, num contexto de viol\u00eancia cotidiana, e assistida por diferentes institui\u00e7\u00f5es que atuam no territ\u00f3rio. Aos 13 anos fora internada compulsoriamente em hospital psiqui\u00e1trico. \u00c0 \u00e9poca, convivia com outros adolescentes pelas ruas. Nessa ocasi\u00e3o, teve o seu primeiro filho, que foi entregue, aparentemente contra sua vontade, \u00e0 ado\u00e7\u00e3o de parentes. Ap\u00f3s a alta, seus la\u00e7os na rua ficaram fragilizados, passou a circular solit\u00e1ria pela cidade e tamb\u00e9m a se esquivar das institui\u00e7\u00f5es que antes a acompanhavam.<\/p>\n<p>Dois anos depois dessa interna\u00e7\u00e3o, a equipe de \u201cRedu\u00e7\u00e3o de Danos\u201d, na qual a psic\u00f3loga relatora atua, foi convocada ao caso devido \u00e0 proximidade com a cena de uso, uma cracol\u00e2ndia situada dentro de uma favela. No contato, uma das \u201credutoras de danos\u201d, que j\u00e1 a conhecia, aborda temas \u00edntimos: pergunta sobre o primeiro filho e sobre o uso de preservativos nas rela\u00e7\u00f5es sexuais. Abre, assim, caminho para que a adolescente fale de sua menstrua\u00e7\u00e3o atrasada. A equipe prop\u00f5e a ida ao servi\u00e7o de sa\u00fade e ela, mesmo hesitante, aceita. A psic\u00f3loga recolhe a pergunta da adolescente: \u201cVou ser m\u00e3e, n\u00e9?\u201d<\/p>\n<p>Ap\u00f3s essa interven\u00e7\u00e3o, um morador da comunidade, tamb\u00e9m frequentador dessa cracol\u00e2ndia, se responsabiliza por ela. Alega que o tr\u00e1fico pro\u00edbe a presen\u00e7a de gr\u00e1vidas na cracol\u00e2ndia e a acolhe em sua pr\u00f3pria casa, facilitando o in\u00edcio de seu pr\u00e9-natal. A m\u00e3e da adolescente, que mora em outra comunidade, reaparece, mas o cuidado ofertado com esse morador \u00e9 interrompido. Retorna \u00e0s ruas, ficando em diferentes pontos da cidade. As equipes voltam \u00e0s buscas, esperando-a em diversos lugares habituais, como cenas de uso, ponto de \u00f4nibus, ou a casa de sua m\u00e3e. Em poucos encontros marcados com ela, os t\u00e9cnicos ficavam esperando por horas e, na maioria das vezes, ela n\u00e3o aparecia. A adolescente, no entanto, surpreende a equipe do \u201cCAPSi\u201d ao se comunicar por uma rede social. Por mensagem, explica que estava fugindo, pois temia que esse filho tamb\u00e9m lhe fosse retirado.<\/p>\n<p>O campo de atua\u00e7\u00e3o da maioria dos profissionais que comp\u00f5em o laborat\u00f3rio \u00e9 o campo plural da sa\u00fade mental. Ao fazer as conversa\u00e7\u00f5es com profissionais que n\u00e3o atuam neste campo e, ao compartilhar nossas experi\u00eancias e impasses, nossa aposta \u00e9 de que novas aberturas poderiam surgir.<\/p>\n<p>Algumas quest\u00f5es circularam nas conversa\u00e7\u00f5es: como nos orientar quando o adolescente na rua parece n\u00e3o fazer demanda ou foge dos encontros? Como dar dire\u00e7\u00e3o a um tratamento t\u00e3o fragmentado, num espa\u00e7o sem contorno, como \u00e9 a rua?<\/p>\n<p>\u00c9 pontuado que a gravidez amplia a gravidade do caso. \u201cEu vou ser m\u00e3e, n\u00e9?\u201d Como acolher essa fala? Fica evidente que as esquivas revelam o temor da adolescente de ficar sem este segundo beb\u00ea. Algo aponta para a responsabilidade institucional da equipe para com a adolescente e o beb\u00ea. Ser\u00e1 que essa responsabilidade e as condutas institucionais se pautaram no ideal de promo\u00e7\u00e3o de sa\u00fade da gestante e do beb\u00ea? Na \u201cpol\u00edtica do para todos\u201d?<\/p>\n<p>Segundo Borsoi (2011), \u201cA pol\u00edtica do sintoma no sentido anal\u00edtico \u00e9 oposta ao mecanismo da pol\u00edtica, senso comum, por subvert\u00ea-la, retirando o sujeito das identifica\u00e7\u00f5es gen\u00e9ricas, opondo-se ao que o destino condiciona.\u201d Tal pol\u00edtica n\u00e3o est\u00e1 guiada pela promo\u00e7\u00e3o de um ideal de sa\u00fade, bem-estar e felicidade. A pol\u00edtica do sintoma inclui o sujeito e suas particularidades de gozo. Como recolher essas particularidades com tantos desencontros? A impot\u00eancia \u00e9 o que aparece para a psic\u00f3loga diante de um ideal de \u201cconstru\u00e7\u00e3o de caso\u201d, orienta\u00e7\u00e3o de \u201ccuidados\u201d.<\/p>\n<p>As conversa\u00e7\u00f5es destacam aspectos que oscilam entre \u201ca pol\u00edtica do para todos\u201d e \u201ca pol\u00edtica do sintoma\u201d, mostram que as condutas institucionais se pautaram no ideal da equipe de promover a sa\u00fade da gestante e do beb\u00ea, deixando de lado as particularidades daquele sujeito adolescente. Como acolher e tratar novas inven\u00e7\u00f5es dos adolescentes, em especial daqueles em situa\u00e7\u00e3o de vulnerabilidade psicossocial. Como possibilitar que o sujeito construa uma trama que sustente a vida e n\u00e3o o leve ao pior, como a fragiliza\u00e7\u00e3o dr\u00e1stica do la\u00e7o social e, no limite, \u00e0 morte?<\/p>\n<p>Na \u00faltima conversa\u00e7\u00e3o, a psic\u00f3loga relatora pontua que a cl\u00ednica na rua tem uma urg\u00eancia devido \u00e0 fugacidade dos encontros e a fragilidade do la\u00e7o social experienciado. Para ela, a sa\u00edda da impot\u00eancia diante de um caso como este, talvez seja provocar o falante do corpo desses meninos e meninas, n\u00e3o mais apenas \u00e0 espera da formula\u00e7\u00e3o de uma demanda, mas, sim, na oferta do encontro com um profissional disposto a \u201crecolher os cacos\u201d de um sujeito. Recolher discursos espalhados pelas institui\u00e7\u00f5es, pela cidade, promovendo, assim, \u201ctra\u00e7os de um cuidado\u201d que s\u00f3 pode ser validado <em>a posteriori<\/em>.<\/p>\n<p>Sa\u00edmos do impasse de suportar o \u201cn\u00e3o encontrar\u201d e o \u201cn\u00e3o saber o que fazer\u201d, para uma \u201csolu\u00e7\u00e3o sintom\u00e1tica\u201d, uma \u201cdire\u00e7\u00e3o de trabalho\u201d que, orientada pela escuta em conversa\u00e7\u00e3o sobre esse sujeito adolescente, reflete sobre a necessidade de incluir os medos e as possibilidades inventivas da adolescente. Em outras palavras, a orienta\u00e7\u00e3o para um cuidado poss\u00edvel \u00e9 aquela que pratica uma escuta singular que inclui o sujeito. A equipe de sa\u00fade mental que a acompanha p\u00f4de estar outras vezes com ela, em encontros nos quais ela n\u00e3o precisava mais fugir. A adolescente da qual nos ocupamos segue na vida.<\/p>\n<h6><em>Integrantes: Jorge Carvalho, Carmen Gustavo, Camila Macedo, Carla Paes, Cyntia Mattar (relatora), Giselle Fleury (respons\u00e1vel pelo laborat\u00f3rio) e Vilma Dias (respons\u00e1vel pelo laborat\u00f3rio).<\/em><\/h6>\n<h6><strong>Bibliografia:<\/strong><\/h6>\n<h6><em>Indart, J. C. I. Udenio, B. Conversa\u00e7\u00e3o Internacional do CIEN 2017 \u2013 Os la\u00e7os sociais e suas transforma\u00e7\u00f5es. In: Cien Digital, n 22. Revista do CIEN Brasil. Dispon\u00edvel em:www.ciendigital.com.br\/<\/em><\/h6>\n<h6><em>Borsoi. P. \u201cA pol\u00edtica do sintoma na cl\u00ednica da Sa\u00fade Mental: aplica\u00e7\u00f5es para o semblante-analista\u201d. Dispon\u00edvel em: <\/em><\/h6>\n<h6><em>http:\/\/www.opcaolacaniana.com.br\/pdf\/numero_5\/A_polC3%ADtica_do_sintoma.pdf<\/em><\/h6>\n<hr \/>\n<h3><span style=\"color: #0000ff;\">Coment\u00e1rios<\/span><\/h3>\n<p><strong><em>Fl\u00e1via C\u00eara:<\/em><\/strong><\/p>\n<p>Vou falar um pouco a partir do que os trabalhos me ensinaram. Os textos me levaram a pensar que o CIEN \u00e9 uma pr\u00e1tica que atua l\u00e1 onde a segrega\u00e7\u00e3o e a homogeneiza\u00e7\u00e3o se apresentam como sa\u00edda para um impasse. Acho que isso \u00e9 uma marca, tanto nas escolas como nas institui\u00e7\u00f5es de sa\u00fade.<\/p>\n<p>Nesse sentido, estamos sempre perto de certo limite, na pressa de resolver um impasse, no limite justamente do saber, quando o protocolo para, quando a burocracia para, quando \u201cn\u00e3o sei o que fazer\u201d, nesse sentido angustiado, como Cynthia estava apresentando algo que aparece como sem sa\u00edda, limite do saber e no limite do insuport\u00e1vel. Os laborat\u00f3rios se situam a\u00ed, nesse limite. E se colocam \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o, como Marita dizia, convidando \u00e0 conversa\u00e7\u00e3o e \u00e0 inter-disciplinaridade. Nesse limite, \u00e9 a partir de onde se pode relan\u00e7ar as perguntas, reposicionar o mal-estar.<\/p>\n<p>H\u00e1 tamb\u00e9m um desafio, j\u00e1 levantado na mesa anterior, com o qual o CIEN trabalha, que \u00e9 o de fazer furo, desviar os caminhos dos protocolos, das burocracias. Como fazer isso sem levar a psican\u00e1lise como uma verdade? Laurent define a inter-disciplinaridade a partir do que ela n\u00e3o \u00e9: ela n\u00e3o \u00e9 a pr\u00e1tica de levar a verdade psicanal\u00edtica como o saber que falta para deixar os outros saberes \u00e0 altura da \u00e9poca. Ent\u00e3o, como praticar a inter-disciplinaridade sem levar a psican\u00e1lise como verdade?<\/p>\n<p>A quest\u00e3o do n\u00e3o-saber j\u00e1 foi levantada. N\u00e3o levar como verdade, mas levar a psican\u00e1lise como uma l\u00f3gica, e evidentemente como uma \u00e9tica, que opera sustentando um espa\u00e7o vazio, que considera por isso o furo no saber e o inconsciente. Para que as identifica\u00e7\u00f5es possam surgir e serem trabalhadas, esvaziadas. E que, assim, no muro implac\u00e1vel da impot\u00eancia \u2013 muitas vezes \u00e9 com isso que nos deparamos \u2013 possam aparecer algumas brechas.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, fiquei pensando se o \u201csaber n\u00e3o-saber\u201d seria justamente a posi\u00e7\u00e3o que tornaria poss\u00edvel acolher os outros saberes. Porque h\u00e1 um saber a\u00ed que circula na err\u00e2ncia, quando se aposta neste saber, alguma coisa muda. Como se deixar instruir, como dizia Judith Miller, se deixar tocar pelos outros saberes. A fala da Tamires na \u00faltima mesa foi muito interessante nesse sentido. A psican\u00e1lise leva essa l\u00f3gica: como sustentar esse vazio pulsante ou funcionar como pulm\u00e3o artificial, quando o ar est\u00e1 muito irrespir\u00e1vel \u2013 como hoje, nestes tempos.<\/p>\n<p>Vou passar pelos trabalhos, como pude l\u00ea-los. Eu come\u00e7aria pelo <em>Al filo de la ley<\/em>, que me trouxe uma imagem muito forte, kafkiana justamente, <em>diante da lei,<\/em> diante da burocracia, esse lugar t\u00e3o dif\u00edcil, onde h\u00e1 um port\u00e3o. Como pode o CIEN trabalhar justamente no fio da lei? Esse lugar se d\u00e1 ali, lado a lado, com a disciplina do direito e pode incluir o imposs\u00edvel do direito, o imposs\u00edvel da lei, encontrando um outro lugar. Parto da\u00ed porque foi mais ou menos a imagem que me veio como o lugar desse pulm\u00e3o artificial, desse respirador.<\/p>\n<p>Ao mesmo tempo, poder suportar o movimento para encontrar um ritmo, como \u00e9 o caso do trabalho \u201c<em>a todo ritmo<\/em>\u201d, suportar a err\u00e2ncia para armar um circuito. Ou como no trabalho do <em>Pipa Avoada<\/em>, que vai justamente furar a pol\u00edtica para todos, quando sai do \u201cdar dire\u00e7\u00e3o\u201d para \u201cpassar a acompanhar\u201d. Acompanhar \u00e9 diferente de dar dire\u00e7\u00e3o, isso faz com que a garota n\u00e3o precise mais fugir. Nesse sentido, eu diria que o saber n\u00e3o est\u00e1 do lado da equipe de cuidado, est\u00e1 tamb\u00e9m na garota, que est\u00e1 numa situa\u00e7\u00e3o realmente muito delicada, gr\u00e1vida, na rua, mas quando se aposta um pouco por a\u00ed, recolhemos algo muito interessante.<\/p>\n<p>O trabalho apresentado por Virg\u00ednia desloca e esvazia \u2013 num sentido diferente do trazido pelo \u201cPipa Avoada\u201d \u2013 a impot\u00eancia do \u201cnada a fazer\u201d, que me parece ter sido isso o que inicialmente se encontrou. Descola e esvazia o \u201cnada a fazer\u201d, da impot\u00eancia, para relan\u00e7ar um \u201cn\u00e3o sei o que fazer\u201d. Permite, com isso, a localiza\u00e7\u00e3o desse imposs\u00edvel do saber sempre pr\u00e9vio, que as escolas, as institui\u00e7\u00f5es costumam apresentar em protocolos, em leis, que ajudam a n\u00e3o ter que se inventar toda vez \u2013 o CIEN est\u00e1 neste lugar.<\/p>\n<p>Esse me parece ser o lugar espec\u00edfico do CIEN, esse que se pode abrir quando justamente acontece um impasse que angustia, como essa professora apresentou. Permite localizar um imposs\u00edvel de saber previamente, como os protocolos, e com isso abre-se um lugar para um inventar a cada vez \u2013 o que n\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil, mas ao mesmo tempo desangustia. Gostaria que Virg\u00ednia pudesse falar sobre o que se produziu ap\u00f3s esse momento de localiza\u00e7\u00e3o. E, ainda, como tomar a palavra, no \u201cJanela da escuta\u201d, e situar algo da indigna\u00e7\u00e3o que voc\u00eas levantam no trabalho.<\/p>\n<p>O trabalho do \u201cInf\u00e2ncia Errante\u201d, em que o garoto toma a palavra, me fez pensar que a dignidade n\u00e3o \u00e9 coisa que se d\u00ea. Inventar um lugar foi fundamental para que alguma coisa da dignidade pudesse aparecer, \u00e9 preciso inventar um lugar, sen\u00e3o ca\u00edmos na dignidade universal, na dignidade da pessoa humana. \u00c9 uma diferen\u00e7a que eu consegui recortar a partir do trabalho de voc\u00eas. Gostaria de saber se voc\u00eas pensaram sobre isso com a auto-nomea\u00e7\u00e3o que surge ali. N\u00e3o \u00e9 algo que se d\u00ea.<\/p>\n<p><strong>Tatiana Pantoja:<\/strong> Fl\u00e1via, voc\u00ea poderia repetir a quest\u00e3o sobre a dignidade?<\/p>\n<p><strong>Fl\u00e1via C\u00eara<\/strong>: Dignidade etimologicamente \u00e9 um t\u00edtulo, um valor universal, que se d\u00e1 para algu\u00e9m. A subvers\u00e3o psicanal\u00edtica \u00e9 justamente retirar a dignidade desse lugar. N\u00e3o \u00e9 que se d\u00e1 um lugar na escola para essa crian\u00e7a falar. Ele inventa um lugar para que possa falar e fazer um outro la\u00e7o com o Outro e a partir da\u00ed se pode pensar a dignidade. Tatiana pode me ajudar, eles chamam de auto nomea\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>M\u00f4nica Campos: <\/strong>O trabalho do<em> Al filo de la ley <\/em>me remeteu ao filme \u201cDe cabe\u00e7a erguida\u201d, em que a Catherine Deneuve \u00e9 uma ju\u00edza. H\u00e1 uma cola entre um menino com a m\u00e3e, o beb\u00ea da mam\u00e3e, e \u00e9 partir de uma certa escuta dessa ju\u00edza, em que ela vai suportando essa cola, flexibilizando, ele vai se organizando, algo se d\u00e1, ao fio da lei mesmo.<\/p>\n<p><strong>Gisele Fleury<\/strong>: Estava pensando sobre essa quest\u00e3o da dignidade que n\u00e3o se d\u00e1&#8230; O trabalho na rua nos convoca o tempo todo para o limite do que se pode fazer, do que se deve fazer, como a encruzilhada que Cyntia traz no texto com um caso muito dif\u00edcil, muito angustiante, que a convocou a repensar sua pr\u00e1tica. Queria convidar Cyntia para que pudesse falar um pouco de como a menina segue na vida, suas solu\u00e7\u00f5es, e um pouco o que \u00e9 o trabalho do redutor de danos.<\/p>\n<p><strong>Ana L\u00facia East<\/strong>: O dispositivo de conversa\u00e7\u00e3o com os professores, no laborat\u00f3rio Inf\u00e2ncia Errante, permitiu, me parece, a retifica\u00e7\u00e3o da posi\u00e7\u00e3o da professora Tatiana no trabalho com o aluno em quest\u00e3o. Penso que foi a partir de sua retifica\u00e7\u00e3o que, ent\u00e3o, abriu-se para o garoto esse processo de nomea\u00e7\u00e3o e constru\u00e7\u00e3o de sua dignidade. Gostaria que voc\u00ea comentasse, Tatiana, se entende assim tamb\u00e9m, que a sua retifica\u00e7\u00e3o permitiu, ao garoto, um espa\u00e7o de enuncia\u00e7\u00e3o. Isso me ensina sobre como o trabalho de conversa\u00e7\u00e3o do lado do professor pode promover tamb\u00e9m movimentos do lado dos alunos.<\/p>\n<p><strong>Hern\u00e1n Villar:<\/strong> Retomando o que Fl\u00e1via trouxe, creio que viemos escutando desde ontem um significante que se repete e insiste: <em>o insuport\u00e1vel<\/em>. O limite do insuport\u00e1vel. E voc\u00ea pergunta: como fazer com que a psican\u00e1lise n\u00e3o se transforme em uma verdade? Creio justamente que podemos responder com uma l\u00f3gica e uma \u00e9tica, a partir dos imposs\u00edveis, de situar os imposs\u00edveis, como sa\u00edda frente \u00e0 impot\u00eancia. Alguns significantes ficaram reverberando: muro imposs\u00edvel de franquear, beco sem sa\u00edda, impot\u00eancia. E justamente trata-se de suportar n\u00e3o saber. Outro dia escutei uma frase interessante, n\u00e3o sei de quem \u00e9: \u201co beco \u00e9 sem sa\u00edda, e a sa\u00edda \u00e9 o beco\u201d. Ou seja, neste ponto em que algo se torna quase um chiste, em que topamos com os impasses dos saberes todos, \u00e9 que surge uma fagulha, algo que surpreende.<\/p>\n<p>E a dignidade n\u00e3o \u00e9 algo que se d\u00ea, \u00e9 certo, n\u00e3o \u00e9 um t\u00edtulo de nobreza, n\u00e3o \u00e9 uma medalha com a inscri\u00e7\u00e3o: \u201cEu te considero digno\u201d. \u00c9 de outra ordem. Mas este equ\u00edvoco me parece que est\u00e1 presente cada vez que se fazem estes programas com \u201cas melhores inten\u00e7\u00f5es\u201d. \u00c9 ofertada uma bateria de respostas <em>pr\u00eat-\u00e0-porter<\/em> para todos os sujeitos insuport\u00e1veis, e, pretendemos que eles suportem todas as solu\u00e7\u00f5es pr\u00e9-desenhadas. \u00c9 o caso do programa no qual Silvina Cantarella, que nas palavras das mesmas profissionais, \u201c\u00e9 perfeito\u201d. E o problema \u00e9 esse: que \u00e9 perfeito.<\/p>\n<p>N\u00e3o se suporta a imperfei\u00e7\u00e3o, ou seja, o insuport\u00e1vel de sermos falhos, de n\u00e3o estar \u00e0 altura, de n\u00e3o entrar na caixinha de cada um desses programas pr\u00e9-desenhados: a gr\u00e1vida, que deve obedecer tal o qual indica\u00e7\u00e3o em nome da sa\u00fade do beb\u00ea, ou pela redu\u00e7\u00e3o de danos no adicto. S\u00e3o exemplos. O pior disto, que \u00e9 muito importante sinalizar \u00e9 que a ang\u00fastia \u2013 que \u00e9 um nome da responsabilidade &#8211; \u00e9 o que perdeu a dignidade em nossa \u00e9poca. Ou seja, me parece que uma das formas de lidar com isto \u00e9 justamente devolver a dignidade a essa ang\u00fastia, a esse ponto de ang\u00fastia que \u00e9 o que nos permite, de alguma maneira, dar um salto, fazer uma inven\u00e7\u00e3o, encontrar a possibilidade de uma resposta que n\u00e3o seja autom\u00e1tica, que n\u00e3o seja pr\u00e9-desenhada, porque o que \u00e9 pr\u00e9-desenhado j\u00e1 sabemos para onde conduz. Ent\u00e3o, uma l\u00f3gica e uma \u00e9tica, de saber suportar que h\u00e1 o imposs\u00edvel, h\u00e1 o ingovern\u00e1vel, h\u00e1 o ineduc\u00e1vel. \u00c9 por esse lado que podemos encaminhar nossa interven\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p><strong>Silvina Cantarella:<\/strong> Quero lhes contar algo. Quando o menino chega ao centro, vem com uma lista de coisas que tem que fazer. Como, por exemplo: tarefas comunit\u00e1rias, tratamento para o consumo de drogas, escolarizar-se, fazer cursos de forma\u00e7\u00e3o profissional. Se eu fosse por essa via, teria perdido todo o resto, ou seja, o que realmente era importante trabalhar. Quando este menino chegou ao centro, justamente o fato de eu me esquivar do protocolo teve efeito.<\/p>\n<p><strong>Virg\u00ednia Carvalho<\/strong>: Fl\u00e1via, fiquei realmente animada com o seu coment\u00e1rio, agrade\u00e7o. Voc\u00ea extrai uma l\u00f3gica da conversa\u00e7\u00e3o, do \u201cnada a fazer\u201d ao \u201cn\u00e3o saber o que fazer\u201d, ao \u201cinventar a cada vez\u201d. Talvez a conversa\u00e7\u00e3o d\u00ea dignidade \u00e0 pergunta, mas n\u00e3o para parar na pergunta. Em todos os textos que foram apresentados hoje, percebemos que uma pergunta aparece e, ent\u00e3o, uma virada. Isso me fez pensar se a conversa\u00e7\u00e3o n\u00e3o traria dignidade \u00e0 pr\u00f3pria quest\u00e3o, o que produziria um giro diferente da viol\u00eancia, pois a dignidade \u00e0 quest\u00e3o restituiria a dimens\u00e3o da palavra.<\/p>\n<p>Ontem, lendo o Semin\u00e1rio 8, me deparei com um trecho que me surpreendeu, n\u00e3o me lembrava de ter lido isso antes, que \u00e9 o Lacan falando sobre a pergunta das crian\u00e7as.<\/p>\n<p>\u201cO que \u00e9 correr? O que \u00e9 bater com o p\u00e9? O que \u00e9 um imbecil? O que nos torna t\u00e3o inadequados para responder a essas perguntas? Algo nos for\u00e7a a respond\u00ea-las de uma maneira t\u00e3o especialmente in\u00e1bil, como se n\u00e3o soub\u00e9ssemos dizer que correr \u00e9 andar muito depressa, \u00e9 realmente estragar um trabalho, que dizer bater com o p\u00e9 e ficar com raiva \u00e9 realmente proferir um absurdo, e n\u00e3o insisto na defini\u00e7\u00e3o que podemos dar de imbecil. De que se trata no momento da pergunta sen\u00e3o do recuo do sujeito em rela\u00e7\u00e3o ao uso do pr\u00f3prio significante e de sua incapacidade de captar o que quer dizer que haja palavras.\u201d<a href=\"#_ftn11\" name=\"_ftnref11\"><sup>[11]<\/sup><\/a><\/p>\n<p>Lacan, em seguida caminha mais um pouquinho e afirma: \u201c(&#8230;) a incapacidade sentida no momento que a crian\u00e7a faz a pergunta \u00e9 formulada na pergunta que ataca o significante como tal\u201d<a href=\"#_ftn12\" name=\"_ftnref12\"><sup>[12]<\/sup><\/a>.<\/p>\n<p>Acho que a pergunta traz essa dimens\u00e3o de uma certa vacila\u00e7\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o ao significante, e permite, ent\u00e3o, uma inven\u00e7\u00e3o. No Laborat\u00f3rio Docentes Doentes, nessa conversa\u00e7\u00e3o espec\u00edfica, conseguimos localizar a pergunta: \u201cPor que tem treva numa institui\u00e7\u00e3o e n\u00e3o tem em outra?\u201d A inven\u00e7\u00e3o veio, em um outro encontro que a escola traz, um caso de uma crian\u00e7a em crise que est\u00e1 na institui\u00e7\u00e3o, pois a crian\u00e7a trazida para a conversa\u00e7\u00e3o j\u00e1 tinha ido embora da institui\u00e7\u00e3o. \u00c9 o caso de uma crian\u00e7a que chega como muito violenta, uma crian\u00e7a que bate em todo mundo, bate na professora, uma crian\u00e7a que causa um rebuli\u00e7o. Na conversa\u00e7\u00e3o algu\u00e9m coloca: \u201cMas como \u00e9 o momento que acontece isso? O que desencadeia isso?\u201d Podem ent\u00e3o se deparar com esse n\u00e3o-saber de um jeito diferente do que o da impot\u00eancia. Colocam-se uma quest\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o a isso, o que traz modifica\u00e7\u00f5es na maneira como se colocam em rela\u00e7\u00e3o a essa crian\u00e7a na escola.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m achei muito interessante o que a Marita falou sobre ser um bom anfitri\u00e3o para as outras disciplinas e penso que \u201cinventar a cada vez\u201d tem a ver com isso tamb\u00e9m. Eles chegam, principalmente os gestores das escolas, muito angustiados, pois n\u00e3o sabem o que fazer com esses casos. Sentem-se muito sozinhos e cobrados de todos os lados. Ent\u00e3o est\u00e3o muito angustiados, muito tomados, sem saber para onde ir, muito cobrados, as fam\u00edlias cobram, os professores cobram, os alunos cobram. Acho que encontram um espa\u00e7o ali para falar do n\u00e3o-saber de um outro jeito. Lembrei-me tamb\u00e9m daquele verbete que Freud escreve sobre psican\u00e1lise, no qual se pergunta: \u201ccomo ensinar algu\u00e9m sobre psican\u00e1lise\u201d N\u00e3o tem outro jeito, s\u00f3 experimentando. Por a\u00ed que a psican\u00e1lise n\u00e3o se torna a verdade entre as outras.<\/p>\n<p><strong>Cyntia Mattar:<\/strong> A Redu\u00e7\u00e3o de Danos \u00e9 uma pol\u00edtica p\u00fablica de cuidados a pessoas que fazem uso de \u00e1lcool e outras drogas de forma prejudicial. Em Niter\u00f3i, temos uma equipe composta, em sua maioria, por redutores de danos de n\u00edvel m\u00e9dio de escolaridade, moradores das comunidades, que s\u00e3o usu\u00e1rios ou que j\u00e1 tiveram um percurso com um uso prejudicial na vida. S\u00e3o pessoas que ajudam o restante da equipe a se aproximar de cenas de uso, como, por exemplo, nas cracol\u00e2ndias. Nossa atua\u00e7\u00e3o \u00e9 basicamente nas comunidades, nas favelas de Niter\u00f3i.<\/p>\n<p>Achei muito importante o coment\u00e1rio sobre a diferen\u00e7a que existe entre dar dire\u00e7\u00e3o e acompanhar. Meu lugar como coordenadora dessa equipe me faz atuar, no campo diretamente. Participar da conversa\u00e7\u00e3o foi muito importante e um dos efeitos foi poder acompanhar a Maria Eduarda.<\/p>\n<p>Sobre a quest\u00e3o de como ela est\u00e1 hoje: o segundo filho nasceu e foi retirado dela, novamente. Descobriu que havia um acerto entre o Conselho Tutelar e sua m\u00e3e, no qual seu filho seria dado para outra mulher, residente em outra cidade. Ela n\u00e3o participou muito nessa decis\u00e3o, ficou muito pouco tempo no hospital, pois o hospital n\u00e3o conseguia estar com ela. E o que \u00e9 estar com essa adolescente?<\/p>\n<p>Ela fica um tempo longe da nossa equipe, longe da m\u00e3e, longe de onde conseguir\u00edamos encontr\u00e1-la, fica mais errante na cidade. Depois de alguns meses, retorna \u00e0 cena de uso, onde a encontramos. Uma das redutoras de danos mora nesse lugar, est\u00e1 l\u00e1 todos os dias. Voltamos, ent\u00e3o, a encontr\u00e1-la, o que possibilita que ela fa\u00e7a algumas demandas \u00e0 equipe, como comida. \u00c9 uma cena de uso com cerca de trinta pessoas, onde o atendimento acontece no meio de todo mundo.<\/p>\n<p>Em um dia em que pediu comida, desceu com a equipe para poder comer. Logo em seguida, na despedida, perguntou se poderia ir com a gente. Como eu ia para o centro e ela tamb\u00e9m, seguimos juntas no \u00f4nibus. Foi uma cena muito bonita. Nesse dia, escolheu um banco pr\u00f3ximo a uma janela, eu fiquei ao lado dela e me contou como foi esse momento da maternidade. Ela tem mais quatro irm\u00e3os, sendo que todos foram para abrigos, assim como ela. Fugia dos abrigos para ir \u00e0 casa de sua m\u00e3e, mas, chegando l\u00e1, n\u00e3o conseguia ficar e nem a m\u00e3e conseguia receb\u00ea-la. Contou que os irm\u00e3os n\u00e3o conseguiram fazer isso, pois foram adotados por outras fam\u00edlias e perderam contato.<\/p>\n<p>Ela percebia essa repeti\u00e7\u00e3o, mesmo n\u00e3o verbalizando dessa forma, com os filhos dela. Queria ter uma menina, teve dois meninos. Fala o nome da menina que poder\u00e1 vir. Ela se encolhe, se recolhe, dorme e antes disso me pede para acord\u00e1-la no lugar onde teria que descer. Fez-se um la\u00e7o de confian\u00e7a, de endere\u00e7amento.<\/p>\n<p>Seguimos no acompanhamento, \u00e9 um caso grave, n\u00e3o \u00e9 um caso de sucesso, acho que o ponto \u00e9 esse; continuamos discutindo muito esse caso, com todos os impasses que ele traz para a equipe.<\/p>\n<p><strong>Gabriela Antunes<\/strong>: Gostaria de retomar um pouco sobre o trabalho com as quest\u00f5es da institui\u00e7\u00e3o, pois de maneira alguma se quer demonizar os trabalhadores das institui\u00e7\u00f5es. Eu, enquanto trabalhadora de uma pol\u00edtica p\u00fablica de assist\u00eancia social, vejo que, na \u201cfaze\u00e7\u00e3o\u201d do dia a dia, acabamos por perder um pouco o sujeito de vista. Com um furor de tudo resolver, pela garantia de direitos, o sujeito vai ficando de lado, come\u00e7amos a esquecer que s\u00f3 h\u00e1 direito se houver sujeito. Se o sujeito n\u00e3o estiver ali, o meu trabalho deixa de fazer sentido.<\/p>\n<p>Quando o profissional de pol\u00edticas p\u00fablicas chega ao \u201cJanela\u201d, quando algo insuport\u00e1vel se apresenta, aparece um impasse. O adolescente chega, tem uma acolhida. Acho que esse \u00e9 o papel do \u201cJanela\u201d na articula\u00e7\u00e3o com as pol\u00edticas p\u00fablicas. \u00c9 um espa\u00e7o para reconhecermos que na \u201cfaze\u00e7\u00e3o\u201d do dia a dia o sujeito, muitas vezes, fica de lado \u2013 o adolescente, quando chega, vem com essa marca. \u00c9 muito importante que ele seja escutado sobre o territ\u00f3rio, assim como \u00e9 importante que o profissional que ali esteve para discutir um impasse, tamb\u00e9m o seja.<\/p>\n<p>Como se enla\u00e7a com a dignidade? Isso acontece quando a dimens\u00e3o de sujeito \u00e9 resgatada. Como foi dito pelas colegas, a dignidade n\u00e3o \u00e9 um t\u00edtulo dado, mas um reconhecer-se como sujeito nesse espa\u00e7o.<\/p>\n<p><strong>Flavia C\u00eara<\/strong>: D\u00e1 dignidade \u00e0 palavra dele. Dar dignidade \u00e0 palavra dele \u00e9 diferente da quest\u00e3o do t\u00edtulo.<\/p>\n<p><strong>Ma\u00edra Santos:<\/strong> Gostaria de seguir com proposta que Fl\u00e1via lan\u00e7ou, a de conversarmos um pouco sobre a indigna\u00e7\u00e3o. Acho importante destacar como o adolescente que atendi chegou at\u00e9 n\u00f3s, falando que os adolescentes autores de atos infracionais s\u00e3o vistos como criminosos, pecadores. Existe uma indigna\u00e7\u00e3o de sua parte frente a isso. Quando pergunto: \u201co que te traz aqui?\u201d Ele me responde: \u201cAcho que eu vim falar sobre os meus sentimentos, sobre o que eu penso.\u201d Conseguiu se apropriar desse espa\u00e7o de escuta, chegou para ser escutado sobre o seu afeto, sobre como via a vida e pensava. Quando diz \u201cvida loka tamb\u00e9m ama\u201d, fala, de certo modo, que a dimens\u00e3o do afeto n\u00e3o \u00e9 permitida na institui\u00e7\u00e3o. A sua indigna\u00e7\u00e3o surge quando quer falar o quanto ama sua m\u00e3e, mas n\u00e3o encontra lugar para isso, pois o pr\u00f3prio grupo de adolescentes o recriminava. \u201cSe eu falar com os meus colegas que eu amo a minha m\u00e3e, vou ser exclu\u00eddo desse grupo\u201d.<\/p>\n<p>A passagem da indigna\u00e7\u00e3o para a dignidade se d\u00e1 no momento em que ele reconhece que poderia ser escutado naquilo que o afetava. Esse espa\u00e7o de escuta, ao ser garantido, pode permitir a inven\u00e7\u00e3o, atrav\u00e9s da palavra, de uma sa\u00edda poss\u00edvel e a ressignifica\u00e7\u00e3o de experi\u00eancias.<\/p>\n<p><strong>Tatiana Pantoja:<\/strong> Gostaria de contar o que me moveu at\u00e9 o Laborat\u00f3rio Inf\u00e2ncia Errante. Meu modo de trabalho costuma quebrar alguns protocolos institucionais e isso, na maior parte das vezes, n\u00e3o \u00e9 bem-visto pelos pares. Entendo essas quebras como necess\u00e1rias diante de algumas situa\u00e7\u00f5es, como um respeito \u00e0 inf\u00e2ncia. Mas escuto questionamentos dif\u00edceis: \u201cComo voc\u00ea p\u00f4de fazer isso, sair da sala? Se ajoelhar para falar com a crian\u00e7a?\u201d Esses questionamentos me angustiavam, percebia que minha vis\u00e3o, que eu entendo como de respeito \u00e0 inf\u00e2ncia, nem sempre era partilhada. \u201cO que estou fazendo de errado?\u201d, me perguntava frequentemente. Percebo as crian\u00e7as na turma aprendendo, mesmo sendo levadas, brincalhonas. \u201cMas por que os outros adultos na escola me criticam?\u201d<\/p>\n<p>Atrav\u00e9s das conversa\u00e7\u00f5es, pude encontrar dignidade para mim tamb\u00e9m, encontrar um espa\u00e7o para entender que eu n\u00e3o sou uma super-hero\u00edna, que tenho o meu furo no saber, mas que o meu fazer \u00e9 um fazer diferente, n\u00e3o precisa ser igual ao do outro. Quando eu consegui entender isso, elaborar isso, ap\u00f3s a primeira conversa\u00e7\u00e3o, tive um afastamento emocional das crian\u00e7as, especificamente dessa crian\u00e7a que trouxemos para a conversa\u00e7\u00e3o. Quando me foram passados os diagn\u00f3sticos de TDH e TDC, tamb\u00e9m me foi passada uma receita sobre como fazer com ele. Diferente dos outros, os terr\u00edveis, as crian\u00e7as trevas, que n\u00e3o t\u00eam receita, esse tinha receita e inclusive rem\u00e9dios, ele \u00e9 medicamentoso, medicamentado, medicalizado. Foi assustador para mim, mas, para mim, ele n\u00e3o tinha essa receita. Minha inten\u00e7\u00e3o era trat\u00e1-lo como qualquer outra crian\u00e7a. Ent\u00e3o, quando pude ter esse afastamento emocional, da pr\u00f3pria imagem dele, pude tamb\u00e9m assumir o papel da professora diferente, e ele assumir o papel de uma crian\u00e7a, como qualquer outra.<\/p>\n<p>Vou contar duas passagens muito bonitas. A primeira: num dado dia, em que ele estava muito agitado e n\u00e3o conseguia fazer a tarefa de alfabetiza\u00e7\u00e3o, disse a ele que eu poderia esperar, que ele n\u00e3o precisava fazer naquele momento. Expliquei que eu iria ajudar os outros colegas e que, ent\u00e3o, retornaria para ajud\u00e1-lo. Ele esperou, fiz a atividade com todos os outros, e depois pude dar aten\u00e7\u00e3o para ele. Ele me acarinhou \u2013 tem esse h\u00e1bito f\u00edsico muito forte, sempre beijinho, sempre carinho, ou o inverso, automutila\u00e7\u00e3o, explos\u00f5es de raiva \u2013 e come\u00e7ou a fazer perguntas: \u201cComo \u00e9 o seu nome?\u201d Me pergunto: \u201cComo assim ele n\u00e3o sabe meu nome? Ele me chama de tia o tempo todo.\u201d \u201cMeu nome \u00e9 Tatiana\u201d. \u201cComo voc\u00ea gosta de ser chamada?\u201d \u201cAs pessoas me chamam de Tati\u201d, digo. \u201cPosso te chamar de Tati?\u201d, pergunta por fim. Consinto. Nesse momento ele se levanta, se vira para a turma, que est\u00e1 jogando um outro jogo, e diz: \u201cGente, que tal a gente chamar ela de Tati e n\u00e3o mais de tia?\u201d Metade da turma obviamente n\u00e3o dava a menor aten\u00e7\u00e3o para ele, a outra metade concorda. Nesse dia, at\u00e9 o final, ele me chamou de Tati.<\/p>\n<p>Segunda passagem: em outro dia, ele me pergunta sobre minha fam\u00edlia, com quem eu moro, o nome da minha m\u00e3e, o nome da minha filha, cad\u00ea o meu pai. Quando soube que o meu pai tinha falecido, que \u201cvirou estrelinha\u201d, ele ficou meio assim e falou: \u201cAh, vou te dar um abra\u00e7o para voc\u00ea n\u00e3o ficar triste.\u201d Percebi que, nesse momento, ele se colocou no lugar de algu\u00e9m que pode ajudar outra pessoa.<\/p>\n<p>Uma passagem tamb\u00e9m importante, antes desse momento: ele era um \u201cmenino sem sonhos\u201d, que sabia que \u201ca gente n\u00e3o pode ter sorte sempre na vida\u201d. Naturalmente, era algo que j\u00e1 ouvido e que devolvia. Ele n\u00e3o tinha nome, n\u00e3o se nomeava. Depois dessas duas passagens, tanto de perguntar o meu nome, quanto de perguntar sobre a minha fam\u00edlia, houve outras conversa\u00e7\u00f5es. Fechamos com uma passagem muito bonita, um evento na escola, onde est\u00e1vamos todos juntos. Todos o conhecem, porque \u00e9 o \u201cterr\u00edvel da escola\u201d. Na ocasi\u00e3o, ele levantou a m\u00e3o e disse que queria fazer uma pergunta. A pessoa que estava ministrando o evento lhe deu a palavra e ele diz: \u201cQueria botar meu nome\u201d, dizendo o nome dele completo, com o sobrenome. Sai desse evento muito feliz. Passa a dizer \u201cEu sou fulano\u201d, \u201cMeu nome \u00e9 esse\u201d.<\/p>\n<p>Penso que aconteceram dois movimentos nas conversa\u00e7\u00f5es. Por um lado, eu percebi o meu lugar de professora, o de uma professora que tenta romper com esses protocolos, essa burocracia, posta pela escola, uma professora que entende que n\u00e3o existe o ideal, e que \u00e9 mais importante corresponder ao real, ao meu real, \u00e0 minha realidade. Por outro, uma crian\u00e7a que se encontrou dentro de seu sintoma. Por isso a dignidade de seu sintoma. N\u00e3o melhorou, nem piorou, ele simplesmente se reconhece como \u00e9, n\u00e3o mais o \u201cterr\u00edvel\u201d, a \u201ccrian\u00e7a treva\u201d, \u201caquele que n\u00e3o presta\u201d, \u201cque n\u00e3o serve para nada\u201d, como se nomeava antigamente.<\/p>\n<p><strong>V\u00e2nia Gomes<\/strong>: Uma quest\u00e3o para o \u201cJanela da escuta\u201d: Voc\u00eas funcionam dentro de uma institui\u00e7\u00e3o? Como o trabalho de voc\u00eas retorna para a institui\u00e7\u00e3o em que est\u00e3o? Para os profissionais, como o dispositivo do \u201cJanela\u201d se articula com a institui\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p><strong>Claudia Castillo: <\/strong>Queria referir-me ao trabalho que Silvina Cantarella apresentou. Disse em algum momento algo, que me parece estar presente em todos os trabalhos: falar, ou deixar falar al\u00e9m de onde o programado permite, surgindo ali, voc\u00ea dizia, uma oportunidade para o sujeito. Parece-me que por a\u00ed \u00e9 poss\u00edvel driblar o obst\u00e1culo, creio que isto est\u00e1 presente em v\u00e1rios dos trabalhos e me lembra algumas das primeiras quest\u00f5es que o CIEN se encarregou, em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 regra, ao uso da regra, para al\u00e9m inclusive, digamos, o detalhe da regra, podendo contornar os protocolos. Obrigada.<\/p>\n<p><strong>Hern\u00e1n Vilar: <\/strong>Sim Claudia: \u201cpor tr\u00e1s das normas, o detalhe\u201d.<\/p>\n<p><strong>Silvina Cantarella: <\/strong>Bom, o garoto quando chega, vem com uma lista de coisas para fazer que o juiz manda. No Centro, n\u00f3s o recebemos em equipe. Era \u00f3bvio que ele vinha porque era obrigado e n\u00e3o porque quisesse vir. Al\u00e9m de pensar que se defrontaria com um interrogat\u00f3rio policial.<\/p>\n<p>A primeira coisa que fazemos \u00e9 lhe explicar que n\u00e3o se trata disso. As entrevistas seguintes j\u00e1 foram somente comigo. N\u00e3o sabia o que encontraria, pois fora muito agressivo na primeira e surpreendeu-me que ele desmontasse dessa forma e me contasse isso; foi algo n\u00e3o calculado, surgiu. Eu me esquivei do lugar das tarefas comunit\u00e1rias e coisas do estilo. Preocupava-me sua sa\u00edda violenta \u2013 com muito consumo de drogas &#8211; contra si mesmo ou contra sua namorada. Pois isso o levaria a outra a\u00e7\u00e3o judicial. Dispus-me a escutar o que do\u00eda, o que acabara de acontecer. O haviam deixado de maneira que para ele era dram\u00e1tica e ainda fora exposto nas redes sociais, sabendo o que elas representam para os jovens. Creio que o que facilitou que come\u00e7asse a falar \u00e9 que p\u00f4de ficar com raiva, gritar, dizer tudo o que havia guardado. E foi necess\u00e1rio sinalizar-lhe que ela estava em seu direito de deix\u00e1-lo, ainda que ele n\u00e3o concordasse. E em seguida trabalhar com ele que talvez fosse bom pensar por que ele queria ficar com uma menina que n\u00e3o o escolheu. E isto mudou algo, mudou sua posi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>Hern\u00e1n Villar: <\/strong>Esclare\u00e7o que o protocolo tem expressamente proibido o que Silvina decidiu fazer. A indica\u00e7\u00e3o seria encaminh\u00e1-lo a um tratamento psicol\u00f3gico. Esse\u2026 \u201cn\u00e3o fale disso aqui\u201d, vinha para cumprir com o que \u201cse tem que cumprir\u201d. Parece-me que este \u00e9 o ponto. Trata-se de se fazer um bom anfitri\u00e3o, e insisto: devolver a dignidade \u00e0 ang\u00fastia, porque a ang\u00fastia tem \u201cn\u00e3o d\u00e1 ibope\u201d<a href=\"#_ftn13\" name=\"_ftnref13\"><sup>[13]<\/sup><\/a> nos dias de hoje. Se a ordem judicial aponta \u00e0 responsabilidade subjetiva, trata-se de uma ordem paradoxal, porque: se n\u00e3o nos permite alojar a ang\u00fastia, de que responsabilidade estamos falando?<\/p>\n<p><strong>Gabriela Antunes<\/strong>: O \u201cJanela da escuta\u201d funciona no \u201cAmbulat\u00f3rio de sa\u00fade do adolescente\u201d, no Hospital das Cl\u00ednicas, onde v\u00e1rios profissionais atendem esse adolescente. Por\u00e9m, como funciona sob demanda espont\u00e2nea, porta aberta, o adolescente pode n\u00e3o chegar necessariamente por uma medida socioeducativa. Pode estar no bairro, conhecer o ambulat\u00f3rio e ir. Vemos qual a regional dele, para saber se alguma outra pol\u00edtica p\u00fablica j\u00e1 atende esse adolescente. Se j\u00e1 for acompanhado, chamamos os profissionais envolvidos para constru\u00e7\u00e3o do caso conjuntamente, mas atentos para que o atendimento continue sendo feito na Rede. N\u00e3o \u00e9 um atendimento obrigat\u00f3rio para o adolescente.<\/p>\n<p><strong>M\u00f4nica Campos<\/strong>: Bom, queria agradecer muito essa mesa muito rica. Vamos passar para a pr\u00f3xima mesa.<\/p>\n<hr \/>\n<h6><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\"><sup>[1]<\/sup><\/a>\u2003 N. T.: Em portugu\u00eas a express\u00e3o \u201ca todo vapor\u201d pode ser pensada como sin\u00f4nimo.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\"><sup>[2]<\/sup><\/a>\u2003 Notas extra\u00eddas da Confer\u00eancia do autor na VI Jornada Internacional do CIEN \u201cMe incluyo desde afuera. La br\u00fajula que cada uno inventa\u201d. 20 de novembro de 2013. Buenos Aires.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref3\" name=\"_ftn3\"><sup>[3]<\/sup><\/a>\u2003 \u00c9ric Laurent. \u201cA cada uno su punto de excepci\u00f3n\u201d. <em>Cuadernos del CIEN<\/em> No. 7.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref4\" name=\"_ftn4\"><sup>[4]<\/sup><\/a>\u2003 A imin\u00eancia de seus 18 anos amea\u00e7a deix\u00e1-lo fora do Sistema de Prote\u00e7\u00e3o Integral de Direitos de Crian\u00e7as e Adolescentes e de sua aten\u00e7\u00e3o no hospital.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref5\" name=\"_ftn5\"><sup>[5]<\/sup><\/a>\u2003 \u00c8ric Laurent. Op. Cit.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref6\" name=\"_ftn6\"><sup>[6]<\/sup><\/a>\u2003 Integrantes da equipe do Laborat\u00f3rio do Cien \u201cJanela da escuta\u201d. Respons\u00e1vel pelo laborat\u00f3rio: Cristiane de Freitas Cunha Grilo.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref7\" name=\"_ftn7\"><sup>[7]<\/sup><\/a>\u2003 Atrav\u00e9s do Conv\u00eanio Internacional sobre os Direitos da Meninos, Meninas e Adolescentes e a Coordena\u00e7\u00e3o de Pol\u00edticas de Responsabilidade Penal Juvenil, juntamente com o Organismo Estadual da Inf\u00e2ncia e Adolesc\u00eancia se interv\u00e9m por meio de um programa estadual alternativo \u00e0 priva\u00e7\u00e3o da liberdade, orientado a instrumentar medidas socioeducativas.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref8\" name=\"_ftn8\"><sup>[8]<\/sup><\/a>\u2003 N. T.: Literalmente: \u201cFeita a lei, feita a armadilha\u201d. Em portugu\u00eas \u00e9 conhecido como \u201cFeita a lei, cuidada a mal\u00edcia\u201d, mas que tem sentido diferente de armadilha ou engano, que a palavra <em>trampa <\/em>tem.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref9\" name=\"_ftn9\"><sup>[9]<\/sup><\/a>\u2003 N. T.: No original <em>trampita, <\/em>que tem o sentido de uma pequena trapa\u00e7a.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref10\" name=\"_ftn10\"><sup>[10]<\/sup><\/a>\u2003 Termo espanhol de uso espec\u00edfico para referir-se \u00e0 atividade que consiste em esquartejar uma carne de vaca ou boi. Dividir em postas de carne.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref11\" name=\"_ftn11\"><sup>[11]<\/sup><\/a>\u2003 LACAN, J. Semin\u00e1rio 8. A transfer\u00eancia. Rio de Janeiro, Jorge Zahar Ed., 1992, pg. 237.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref12\" name=\"_ftn12\"><sup>[12]<\/sup><\/a>\u2003 LACAN, J. ID.IBID. pg. 237.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref13\" name=\"_ftn13\"><sup>[13]<\/sup><\/a>\u2003 N. T.: Express\u00e3o aproximada a \u201cmala prensa\u201d do espanhol.<\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>II Conversa\u00e7\u00e3o CIEN Am\u00e9rica &#8211; A crian\u00e7a violenta e a dignidade do sujeito S\u00e3o Paulo, 13 de setembro de 2019. Coordena: M\u00f3nica Campos Silva (Cien-Brasil) Anima: Flavia C\u00eara (Cien-Brasil) Hern\u00e1n Villar: Bom dia, quero agradecer o privil\u00e9gio de representar a duas pessoas muito especiais que n\u00e3o puderam viajar nesta ocasi\u00e3o: vou ler o trabalho de&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":5659583,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[142],"tags":[],"post_series":[],"class_list":["post-5659557","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-cien-digital-24","entry","has-media"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/ciendigital.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5659557","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/ciendigital.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/ciendigital.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ciendigital.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ciendigital.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=5659557"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/ciendigital.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5659557\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ciendigital.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/5659583"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/ciendigital.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=5659557"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/ciendigital.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=5659557"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/ciendigital.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=5659557"},{"taxonomy":"post_series","embeddable":true,"href":"https:\/\/ciendigital.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/post_series?post=5659557"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}