{"id":5659615,"date":"2023-03-05T15:59:12","date_gmt":"2023-03-05T18:59:12","guid":{"rendered":"https:\/\/ciendigital.com.br\/?p=5659615"},"modified":"2023-03-05T16:03:13","modified_gmt":"2023-03-05T19:03:13","slug":"o-que-falar-quer-dizer1","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ciendigital.com.br\/index.php\/2023\/03\/05\/o-que-falar-quer-dizer1\/","title":{"rendered":"O que falar quer dizer?[1]"},"content":{"rendered":"<div class=\"pdfprnt-buttons pdfprnt-buttons-post pdfprnt-top-right\"><a href=\"https:\/\/ciendigital.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5659615?print=pdf\" class=\"pdfprnt-button pdfprnt-button-pdf\" target=\"_blank\" ><\/a><a href=\"https:\/\/ciendigital.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5659615?print=print\" class=\"pdfprnt-button pdfprnt-button-print\" target=\"_blank\" ><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/plugins\/pdf-print\/images\/print.png\" alt=\"image_print\" title=\"Conte\u00fado de impress\u00e3o\" \/><\/a><\/div><h6><em>Ana Lydia Santiago<\/em><\/h6>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: right;\"><em>\u201cQue se diga fica esquecido por tr\u00e1s do que se diz em o que se ouve.\u201d<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">Jacques Lacan<\/p>\n<\/blockquote>\n<figure id=\"attachment_5659616\" aria-describedby=\"caption-attachment-5659616\" style=\"width: 300px\" class=\"wp-caption alignright\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-5659616\" src=\"http:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/03\/cont004-300x225.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"225\" srcset=\"https:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/03\/cont004-300x225.jpg 300w, https:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/03\/cont004-768x576.jpg 768w, https:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/03\/cont004-274x206.jpg 274w, https:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/03\/cont004.jpg 961w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-5659616\" class=\"wp-caption-text\">Foto de pixabay (pexels-pixabay-414579)<\/figcaption><\/figure>\n<p><em>O que falar quer dizer? <\/em>Com esse t\u00edtulo, o poeta Jean Tardieu<a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\"><sup>[2]<\/sup><\/a> faz cintilar os recursos da l\u00edngua, o soci\u00f3logo Pierre Bourdieu<a href=\"#_ftn3\" name=\"_ftnref3\"><sup>[3]<\/sup><\/a> situa quest\u00f5es da interlocu\u00e7\u00e3o em fun\u00e7\u00e3o dos lugares simb\u00f3licos de poder, e o educador Joseph Rouzel<a href=\"#_ftn4\" name=\"_ftnref4\"><sup>[4]<\/sup><\/a> estabelece uma pr\u00e1tica de entrevista para o trabalho social. A fil\u00f3sofa Barbara Cassin<a href=\"#_ftn5\" name=\"_ftnref5\"><sup>[5]<\/sup><\/a>, por sua fez, explora o falar como fazer, partindo da linguagem performativa proposta por John L. Austin<a href=\"#_ftn6\" name=\"_ftnref6\"><sup>[6]<\/sup><\/a>, primeiro a teorizar que se pode fazer coisas com as palavras. E para os psicanalistas que atuam no Centro Interdisciplinar de Estudos sobre a Crian\u00e7a (CIEN)? <em>O que falar quer dizer?<\/em> O que fazem, ao propor a circula\u00e7\u00e3o da fala entre pares de uma institui\u00e7\u00e3o, para abordar impasses e dificuldades surgidos no trato com crian\u00e7as e adolescentes?<\/p>\n<p>Uma resposta para esta quest\u00e3o apenas se extrai da experi\u00eancia de cada laborat\u00f3rio do CIEN, ou, mais precisamente, se apreende da fala daqueles que participam das atividades dos laborat\u00f3rios, quando o encontro com a proposta do CIEN constitui, uma oportunidade de dizer algo que jamais tinha sido poss\u00edvel dizer, antes. Um \u201cponto doloroso\u201d<a href=\"#_ftn7\" name=\"_ftnref7\"><sup>[7]<\/sup><\/a>\u2013 sinaliza Judith Miller \u2013, recrudescido pelos discursos do momento atual, silenciado pelo clamor das ideologias.<\/p>\n<p>Fazer chamejar os fundamentos do CIEN transmitidos por Judith Miller em seus textos \u2013 iniciativa de Paola Salinas, atual coordenadora do CIEN Brasil \u2013, comporta um duplo prop\u00f3sito: homenagear Judith, que esteve \u00e0 frente desse Centro, em uma a\u00e7\u00e3o engajada, desde sua cria\u00e7\u00e3o em 1996, e, ao mesmo tempo, reavivar o CIEN. Em 2017, nas homenagens rendidas a ela, por seu decesso, tive oportunidade de expressar o mais sincero reconhecimento a Judith por tudo que ela fez como Presidente da Funda\u00e7\u00e3o do Campo Freudiano e, de modo especial, por tudo que ela nos ensinou a fazer com vistas a priorizar, em atividades coletivas, a investiga\u00e7\u00e3o cl\u00ednica e o avan\u00e7o da psican\u00e1lise. Nesse momento, em que se trata de fazer uma leitura do CIEN atrav\u00e9s dos textos de Judith, isolei quatro princ\u00edpios, a meu ver, norteadores para o trabalho dos laborat\u00f3rios, lembrando, contudo, que a \u201cb\u00fassola fi\u00e1vel\u201d para qualquer a\u00e7\u00e3o do CIEN, \u201c\u00e9 o ensino de Lacan e o desejo que este testemunha, e que sup\u00f5e que cada um coloque algo a\u00ed de seu\u201d<a href=\"#_ftn8\" name=\"_ftnref8\"><sup>[8]<\/sup><\/a>.<\/p>\n<p><em>Primeiro princ\u00edpio: <\/em><\/p>\n<p><strong><em>O CIEN n\u00e3o existe sem as Escolas da Associa\u00e7\u00e3o Mundial de Psican\u00e1lise (AMP)<a href=\"#_ftn9\" name=\"_ftnref9\"><sup>[9]<\/sup><\/a>.<\/em><\/strong><\/p>\n<p>Escola \u00e9 o termo de Jacques Lacan para designar o organismo de trabalho dos psicanalistas, visando cuidar de sua forma\u00e7\u00e3o e garantir a presen\u00e7a da psican\u00e1lise no mundo. Lacan definiu tr\u00eas fun\u00e7\u00f5es para assegurar tal finalidade, sendo a terceira delas a amplia\u00e7\u00e3o do campo anal\u00edtico por meio da interlocu\u00e7\u00e3o com outros campos de saber. A interdisciplinaridade, assim posta, deve contribuir para os psicanalistas se manterem \u00e0 altura da subjetividade da \u00e9poca em que vivem<a href=\"#_ftn10\" name=\"_ftnref10\"><sup>[10]<\/sup><\/a>, condi\u00e7\u00e3o fundamental da qual depende a pr\u00f3pria sobreviv\u00eancia da psican\u00e1lise.<\/p>\n<p>Judith Miller propagou pelos quatro cantos do mundo, onde existe o movimento das Escolas da AMP, o interesse da interdisciplinaridade para a forma\u00e7\u00e3o do analista. N\u00e3o era novidade o trabalho cl\u00ednico que o psicanalista conseguia realizar no espa\u00e7o institucional, fazendo a oferta da palavra ao sujeito, intervindo com a interpreta\u00e7\u00e3o e colhendo os eventuais e consequentes efeitos de seu ato, sobre os sintomas. O in\u00e9dito da proposta do CIEN consistiu no convite para estes profissionais tentarem apreender o ponto de contato do discurso anal\u00edtico com o discurso do mestre, ou seja, o ponto de real ao qual se est\u00e1 confrontado, na institui\u00e7\u00e3o, diante do esfor\u00e7o de normatiza\u00e7\u00e3o. Trata-se, portanto, para o psicanalista, no CIEN, de conhecer os problemas enfrentados pelos profissionais de outras disciplinas e saber como respondem \u00e0s quest\u00f5es da crian\u00e7a e do adolescente, guardando sempre a rela\u00e7\u00e3o com o inconsciente<a href=\"#_ftn11\" name=\"_ftnref11\"><sup>[11]<\/sup><\/a>.<\/p>\n<p><em>Segundo princ\u00edpio:<\/em><\/p>\n<p><strong><em>A interdisciplinaridade, no CIEN, se escreve com um h\u00edfen, que designa um vazio<a href=\"#_ftn12\" name=\"_ftnref12\"><sup>[12]<\/sup><\/a>.<\/em><\/strong><\/p>\n<p>Esse vazio \u00e9 primeiramente o <em>saber n\u00e3o saber,<\/em> ou seja, o princ\u00edpio socr\u00e1tico que o psicanalista assume diante de um paciente e tamb\u00e9m deve assumir na interlocu\u00e7\u00e3o com especialistas das \u00e1reas do direito, assist\u00eancia social, sa\u00fade e educa\u00e7\u00e3o, entre outras, para aprender sobre as dificuldades que estes profissionais encontram atuando junto a crian\u00e7as e adolescentes. Lacan nos ensina que \u201cA quest\u00e3o do saber do psicanalista n\u00e3o \u00e9, em absoluto de saber se isso se articula ou n\u00e3o, mas de saber em que lugar \u00e9 preciso estar para sustent\u00e1-lo.\u201d<a href=\"#_ftn13\" name=\"_ftnref13\"><sup>[13]<\/sup><\/a> A posi\u00e7\u00e3o de <em>saber n\u00e3o saber, <\/em>no CIEN, fundamenta a dimens\u00e3o da pesquisa interdisciplinar, para o psicanalista aprender com o outro, colher o novo e o resto produzidos pelas outras disciplinas como resposta ao real e \u00e0s mudan\u00e7as do mundo \u2013 a globaliza\u00e7\u00e3o, a homogeneiza\u00e7\u00e3o galopante e os problemas de segrega\u00e7\u00e3o fustigados pelo termo racismo. Esses produtos questionam e desafiam a psican\u00e1lise a se introduzir no espa\u00e7o institucional, renovada. Assim, o h\u00edfen do inter-disciplinar \u00e9 \u201co frescor permanente da pr\u00e1xis anal\u00edtica, da qual o psicanalista \u00e9 operador\u201d<a href=\"#_ftn14\" name=\"_ftnref14\"><sup>[14]<\/sup><\/a>, independentemente de estar em seu consult\u00f3rio ou em uma institui\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><em>Terceiro princ\u00edpio:<\/em><\/p>\n<p><strong><em>O estilo de trabalho do CIEN \u00e9 a pesquisa em laborat\u00f3rios.<a href=\"#_ftn15\" name=\"_ftnref15\"><sup>[15]<\/sup><\/a><\/em><\/strong><\/p>\n<p>Judith Miller nomeou os grupos de trabalho do CIEN de laborat\u00f3rios, uma express\u00e3o, segundo ela, \u201cpouco conhecida no Campo Freudiano, mas muito utilizada por outras disciplinas que, enquanto cient\u00edficas, fazem pesquisa.\u201d<a href=\"#_ftn16\" name=\"_ftnref16\"><sup>[16]<\/sup><\/a> O trabalho em Laborat\u00f3rio<a href=\"#_ftn17\" name=\"_ftnref17\"><sup>[17]<\/sup><\/a>, pareceu-lhe a melhor maneira de se dirigir \u00e0s outras disciplinas e escut\u00e1-las. A constitui\u00e7\u00e3o de um laborat\u00f3rio decide-se a partir de um impasse.<\/p>\n<blockquote><p>Um laborat\u00f3rio se constitui apenas em raz\u00e3o de um encontro, o encontro de um real contra o qual se chocam os profissionais de diferentes disciplinas, confirmando que a <em>chave<\/em> n\u00e3o estaria em um saber j\u00e1 estabelecido, mas na <em>inven\u00e7\u00e3o<\/em>, da qual testemunhar\u00e3o estes profissionais para desenhar o cume do qual essa chave aparece. Eles n\u00e3o a det\u00eam de sa\u00edda; det\u00eam apenas aquilo contra o qual se chocam.<a href=\"#_ftn18\" name=\"_ftnref18\"><sup>[18]<\/sup><\/a><\/p><\/blockquote>\n<p>A chave para o impasse sobressai do pr\u00f3prio impasse, de sua abordagem pela fala, a partir da qual, contingencialmente, uma solu\u00e7\u00e3o pode advir para cada um. Eis a visada da opera\u00e7\u00e3o com a fala praticada pelos laborat\u00f3rios do CIEN, nas institui\u00e7\u00f5es. O CIEN conta, portanto, com as fontes inventivas e po\u00e9ticas da conting\u00eancia, do equ\u00edvoco, do encontro.<\/p>\n<p>Para algu\u00e9m participar de um laborat\u00f3rio, n\u00e3o \u00e9 necess\u00e1ria a condi\u00e7\u00e3o de analisante; o trabalho do laborat\u00f3rio n\u00e3o visa provocar a entrada em an\u00e1lise das pessoas envolvidas; mas \u00e9 preciso ao menos \u201cum n\u00e3o saber ao redor do saber anal\u00edtico, o que singulariza o desejo do analista.\u201d<a href=\"#_ftn19\" name=\"_ftnref19\"><sup>[19]<\/sup><\/a><\/p>\n<figure id=\"attachment_5659618\" aria-describedby=\"caption-attachment-5659618\" style=\"width: 220px\" class=\"wp-caption alignright\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-5659618\" src=\"http:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/03\/cont005-220x300.jpg\" alt=\"\" width=\"220\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/03\/cont005-220x300.jpg 220w, https:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/03\/cont005-274x373.jpg 274w, https:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/03\/cont005.jpg 346w\" sizes=\"auto, (max-width: 220px) 100vw, 220px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-5659618\" class=\"wp-caption-text\">Barriguda e caba\u00e7as, Silvio Jess\u00e9<\/figcaption><\/figure>\n<p>Segundo Judith Miller, o registro do trabalho dos laborat\u00f3rios cumpre uma fun\u00e7\u00e3o essencial. O CIEN valida \u201co bem fundado da cultura do escrito\u201d, incentiva os laborat\u00f3rios a prestar contas de sua trajet\u00f3ria, percal\u00e7os, avan\u00e7os e consequ\u00eancias, em um relat\u00f3rio anual, que, divulgado pelo CIEN nacional, permite aos outros laborat\u00f3rios e \u00e0 comunidade anal\u00edtica:<\/p>\n<p>Ler e interpretar a import\u00e2ncia de um momento, \u00e0s vezes percebido s\u00f3-depois, pela maioria das pessoas.\u00a0 Que o testemunho de uma experi\u00eancia \u2013 redigido por um ou por v\u00e1rios de seus participantes \u2013 se constitua em material de leitura e interpreta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Colher o efeito de transmiss\u00e3o que comportam os testemunhos das experi\u00eancias.<\/p>\n<p>Orientar o CIEN na medida em que, por meio dos testemunhos, se pode apreender as condi\u00e7\u00f5es em que foi poss\u00edvel \u201ctraduzir os impasses em palavras\u201d e, com isso, operar uma muta\u00e7\u00e3o, fazer surgir \u201cuma perspectiva de subjetiva\u00e7\u00e3o\u201d.<a href=\"#_ftn20\" name=\"_ftnref20\"><sup>[20]<\/sup><\/a><\/p>\n<p><em>Quarto princ\u00edpio: <\/em><\/p>\n<p><strong><em>A Conversa\u00e7\u00e3o \u00e9 a pr\u00e1tica da palavra, do CIEN, para a tradu\u00e7\u00e3o dos impasses.<\/em><\/strong><\/p>\n<p>A pr\u00e1tica da conversa\u00e7\u00e3o foi inventada por Jacques-Alain Miller como um dispositivo ativo para a realiza\u00e7\u00e3o de encontros do Campo Freudiano, um modo de tratar aspectos controversos ou insucessos que provocam questionamentos e, quando se formulam perguntas, h\u00e1 um chamado \u00e0 conversa, \u00e0 troca com os outros. Em sua proposta, a conversa\u00e7\u00e3o \u00e9 uma fic\u00e7\u00e3o operativa a servi\u00e7o da produ\u00e7\u00e3o de um passo a mais, de algo novo no saber j\u00e1 estabelecido.<a href=\"#_ftn21\" name=\"_ftnref21\"><sup>[21]<\/sup><\/a><\/p>\n<p>O CIEN apostou nesse dispositivo como uma pr\u00e1tica in\u00e9dita da palavra para tratar os impasses que os discursos universalistas e as pol\u00edticas, surdos \u00e0 particularidade do ser falante, agravam ao reduzir o cidad\u00e3o a consumidor-produto, o corpo ao organismo ou um sintoma ao d\u00e9ficit<a href=\"#_ftn22\" name=\"_ftnref22\"><sup>[22]<\/sup><\/a>. No CIEN, a pr\u00e1tica da conversa\u00e7\u00e3o leva em conta a maneira como o discurso anal\u00edtico e a orienta\u00e7\u00e3o lacaniana subverte o la\u00e7o social, sens\u00edvel \u00e0 subvers\u00e3o do sujeito, ou seja, aos efeitos do sem sentido da linguagem. Assim, o CIEN visa atingir o singular de cada sujeito por meio da circula\u00e7\u00e3o da palavra entre muitos, estando engajado em preservar o que \u00e9 novo e revolucion\u00e1rio na crian\u00e7a e no adolescente, segundo a cl\u00ednica do detalhe<a href=\"#_ftn23\" name=\"_ftnref23\"><sup>[23]<\/sup><\/a>.<\/p>\n<p>O desafio da conversa\u00e7\u00e3o pr\u00f3pria ao CIEN, nos diz Judith Miller, \u00e9 operar um deslocamento que resulta em tocar a dimens\u00e3o da puls\u00e3o e seus destinos. Desfazer as identifica\u00e7\u00f5es e permitir um jogo de vida advindo de uma outra rela\u00e7\u00e3o com o Outro.<\/p>\n<p>Portanto, para o CIEN, <em>falar quer dizer<\/em> acionar as engrenagens do Grafo do desejo, para que as rela\u00e7\u00f5es ao Outro se articulem e o sujeito possa apresentar suas respostas, emanantes do furo, do vazio, que tamb\u00e9m \u00e9 causa e se mostra aus\u00eancia vibrante, onde, antes, o sil\u00eancio, de m\u00e3os dadas com a puls\u00e3o de morte, impelia \u201ca passagem ao ato cega ou o caminho da repeti\u00e7\u00e3o sintom\u00e1tica.\u201d<a href=\"#_ftn24\" name=\"_ftnref24\"><sup>[24]<\/sup><\/a><\/p>\n<hr \/>\n<h6><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\"><sup>[1]<\/sup><\/a> Texto apresentado na VI Manh\u00e3 de trabalhos CIEN-Brasil, O que falar quer dizer? Singularidade e diferen\u00e7a, hoje. Rio Janeiro, 23 de novembro de 2018.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\"><sup>[2]<\/sup><\/a> TARDIEU, J. [1903-1995]. <em>Ce que parler veut dire ou le patois des familles<\/em>. Paris: Folio Junior, 2013.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref3\" name=\"_ftn3\"><sup>[3]<\/sup><\/a> BOURDIEU, P. [1930-2003] <em>Ce que parler veut dire: L&#8217;\u00e9conomie des \u00e9changes linguistiques.<\/em> Paris Fayard, 1982. Neste ensaio sobre a fun\u00e7\u00e3o social da linguagem, Bourdieu considera que o discurso n\u00e3o \u00e9 apenas uma mensagem a ser decifrada, mas tamb\u00e9m um produto que entregamos \u00e0 aprecia\u00e7\u00e3o dos outros e cujo valor se define na sua rela\u00e7\u00e3o com outros mais raros ou mais comuns. Instrumento de comunica\u00e7\u00e3o, a l\u00edngua \u00e9 tamb\u00e9m um sinal exterior de riqueza e um instrumento de poder. \u201cQuando falamos, dizemos o que dizemos, mas dizemos tamb\u00e9m, pelo modo de dizer, o valor do que dizemos. Para dizer alguma coisa, podemos escolher usar g\u00edrias, a l\u00edngua cl\u00e1ssica, a linguagem popular, entre outras maneiras, mas desde o momento em que escolhemos um modo de express\u00e3o, nos classificamos, e, logo, ficamos expostos a ser avaliados, a receber um pr\u00eamio, no mercado escolar\u201d in: \u201cPierre BOURDIEU pr\u00e9sente son livre Ce que parler veut dire\u201d, \u00c9mission <em>Apostrophes, <\/em>Antenne 2, Pr\u00e9sentateur Bernard Pivot, r\u00e9alisateur Jean Luc Leridon. V\u00eddeo de 29\/10\/1982, dispon\u00edvel em INA.fr<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref4\" name=\"_ftn4\"><sup>[4]<\/sup><\/a> ROUZEL, J. Cause toujours&#8230; de la parole dans le travail social. <em>Le sociographe<\/em>, Champ social, 2012\/1, n\u00ba 37. p. 53-62.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref5\" name=\"_ftn5\"><sup>[5]<\/sup><\/a> CASSIN, B. <em>Quand dire, c&#8217;est vraiment faire<\/em>. Paris: Fayard, 2018. O locutor se transforma ao falar, ele transforma aquele que o escuta, e transforma um pouco o mundo. \u00c9 esta dimens\u00e3o que, segundo a fil\u00f3sofa, o performativo p\u00f5e em destaque.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref6\" name=\"_ftn6\"><sup>[6]<\/sup><\/a> AUSTIN, J. L. [1911-1960]. <em>Quand dire, c\u2019est faire<\/em>. Paris: Seuil, 1970. Austin, fil\u00f3sofo de linguagem brit\u00e2nico, desenvolveu uma grande parte da atual teoria dos atos de discurso. Seu livro tornou-se um dos cl\u00e1ssicos da filosofia anal\u00edtica anglo-sax\u00f4nica. Apresenta a ideia de que alguns enunciados s\u00e3o em si mesmos o ato que designam. Assim, quando o p\u00e1roco pronuncia a f\u00f3rmula ritual \u201cEu vos declaro marido e mulher\u201d, o casamento \u00e9 consumado apenas pela enuncia\u00e7\u00e3o dessa frase. O mesmo acontece quando uma crian\u00e7a ou um navio \u00e9 batizado, quando se faz uma promessa, etc. S\u00e3o estes enunciados particulares que aos serem proferidos constituem o que designam, que Austin nomeou <em>performativos.<\/em><\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref7\" name=\"_ftn7\"><sup>[7]<\/sup><\/a> MILLER, J. Por que um boletim eletr\u00f4nico do CIEN Brasil? In CIEN Digital, n\u00ba 1, out. 2007, p. 4-5. Dispon\u00edvel em: www.ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/CIEN-Digital01.pdf<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref8\" name=\"_ftn8\"><sup>[8]<\/sup><\/a> <em>Cf. <\/em>MILLER, J. A reconquista do Campo Freudiano. In: BROWN, N.; MACEDO, L.; LYRA, R. (org.). <em>Trauma, solid\u00e3o e la\u00e7o na inf\u00e2ncia e na adolesc\u00eancia: experi\u00eancias do CIEN no Brasil<\/em>. 2017. p. 35.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref9\" name=\"_ftn9\"><sup>[9]<\/sup><\/a> MILLER, J. O que \u00e9 o CIEN? In BRISSET, F.; SANTIAGO, A.L.; MILLER, J. (org.). <em>Crian\u00e7as falam! E t\u00eam o que dizer: experi\u00eancias do CIEN no Brasil<\/em>. Belo Horizonte: Scriptum, 2013. p.24.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref10\" name=\"_ftn10\"><sup>[10]<\/sup><\/a> LACAN, J., Ato de funda\u00e7\u00e3o (21 de junho de 1994). In Outros escritos, Rio de Janeiro: Zahar, p. 235-239.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref11\" name=\"_ftn11\"><sup>[11]<\/sup><\/a> <em>C.f. <\/em>MILLER, J. Entrevista concedida ao Jornal O Tempo, caderno Magazine, por Wir Caetano, em 24\/04\/1999, p. 10.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref12\" name=\"_ftn12\"><sup>[12]<\/sup><\/a> MILLER, J. O que \u00e9 o CIEN? In <em>Op. Cit.<\/em> p. 24. O h\u00edfen, na escrita do interdisciplinar, foi uma proposi\u00e7\u00e3o de Philipe Lacad\u00e9e, comentada em diversas ocasi\u00f5es por Judith Miller.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref13\" name=\"_ftn13\"><sup>[13]<\/sup><\/a> LACAN, J. Estou falando com as paredes. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2011. p. 36.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref14\" name=\"_ftn14\"><sup>[14]<\/sup><\/a> MILLER, J. Por que um boletim eletr\u00f4nico do CIEN Brasil? In CIEN Digital, n\u00ba 1, p. 4-5. Dispon\u00edvel em: <a href=\"http:\/\/www.ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/CIEN-Digital01.pdf\">www.ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/CIEN-Digital01.pdf<\/a><\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref15\" name=\"_ftn15\"><sup>[15]<\/sup><\/a> MILLER, J. Apresenta\u00e7\u00e3o do CIEN no Brasil [19\/04\/1998]. In: Centro Interdisciplinar de Estudos sobre a Crian\u00e7a: brochura da 1\u00aa Jornada do CIEN. Instituto do Campo Freudiano, Belo Horizonte, abril de 1999. p. 2-5. (impresso)<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref16\" name=\"_ftn16\"><sup>[16]<\/sup><\/a> Idem. p. 4.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref17\" name=\"_ftn17\"><sup>[17]<\/sup><\/a> Em <em>Cuadenos del CIEN<\/em> 2, p. 4, encontra-se uma defini\u00e7\u00e3o do Laborat\u00f3rio de investiga\u00e7\u00e3o do CIEN, nos seguintes termos: \u201cUm laborat\u00f3rio de investiga\u00e7\u00e3o \u00e9 um pequeno grupo estruturado em torno de uma disciplina ou de um tema preciso que concerne \u00e0 crian\u00e7a. Sua condi\u00e7\u00e3o \u00e9 a de ser interdisciplinar, o que imp\u00f5e a necessidade de que haja ao menos profissionais de duas disciplinas e que a modalidade de trabalho seja a de sustentar um intercambio regular com eles. O Laborat\u00f3rio tem um respons\u00e1vel que zela pelo prosseguimento do trabalho.\u201d<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref18\" name=\"_ftn18\"><sup>[18]<\/sup><\/a> MILLER, J. \u00c9ditorial. In <em>Terre du CIEN<\/em>, Journal du Centre Interdisciplinaire sur l\u2019ENfant, n\u00ba5, d\u00e9c, 2000. p. 1.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref19\" name=\"_ftn19\"><sup>[19]<\/sup><\/a> MILLER, J. Principios de orient\u00e1cion. In <em>Cuadernos del CIEN 3<\/em>. Instituto del Campo Freudiano. p. 57-58.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref20\" name=\"_ftn20\"><sup>[20]<\/sup><\/a> MILLER, J. Por que um boletim eletr\u00f4nico do CIEN Brasil? In CIEN Digital, n\u00ba 1, out. 2007, p. 4. Dispon\u00edvel em: <a href=\"http:\/\/www.ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/CIEN-Digital01.pdf\">www.ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/CIEN-Digital01.pdf<\/a><\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref21\" name=\"_ftn21\"><sup>[21]<\/sup><\/a> SANTIAGO, A. L. Conversa\u00e7\u00e3o de orienta\u00e7\u00e3o psicanal\u00edtica: metodologia de pesquisa\/interven\u00e7\u00e3o sobre impasses na educa\u00e7\u00e3o. In: Santiago, Ana Lydia; Assis, Raquel Martins. O que esse menino tem? Sobre alunos que n\u00e3o aprendem e a interven\u00e7\u00e3o da psican\u00e1lise na escola. Belo Horizonte: Relic\u00e1rio, 2a edi\u00e7\u00e3o, 2018. p. 9-22.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref22\" name=\"_ftn22\"><sup>[22]<\/sup><\/a> MILLER, J. Por que um boletim eletr\u00f4nico do CIEN Brasil? <em>Op. Cit. <\/em>p. 4.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref23\" name=\"_ftn23\"><sup>[23]<\/sup><\/a> LACAD\u00c9E. P. <em>Le pari de la conversation<\/em>. Brochura do CIEN, 1999\/2000.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref24\" name=\"_ftn24\"><sup>[24]<\/sup><\/a> MILLER, J. Por que um boletim eletr\u00f4nico do CIEN Brasil? <em>Op. Cit. <\/em>p. 5.<\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ana Lydia Santiago \u201cQue se diga fica esquecido por tr\u00e1s do que se diz em o que se ouve.\u201d Jacques Lacan O que falar quer dizer? 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