{"id":5659654,"date":"2023-03-05T16:23:21","date_gmt":"2023-03-05T19:23:21","guid":{"rendered":"https:\/\/ciendigital.com.br\/?p=5659654"},"modified":"2023-03-05T16:23:21","modified_gmt":"2023-03-05T19:23:21","slug":"surpresas-da-inter-disciplinaridade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ciendigital.com.br\/index.php\/2023\/03\/05\/surpresas-da-inter-disciplinaridade\/","title":{"rendered":"Surpresas da inter-disciplinaridade"},"content":{"rendered":"<div class=\"pdfprnt-buttons pdfprnt-buttons-post pdfprnt-top-right\"><a href=\"https:\/\/ciendigital.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5659654?print=pdf\" class=\"pdfprnt-button pdfprnt-button-pdf\" target=\"_blank\" ><\/a><a href=\"https:\/\/ciendigital.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5659654?print=print\" class=\"pdfprnt-button pdfprnt-button-print\" target=\"_blank\" ><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/plugins\/pdf-print\/images\/print.png\" alt=\"image_print\" title=\"Conte\u00fado de impress\u00e3o\" \/><\/a><\/div><figure id=\"attachment_5659655\" aria-describedby=\"caption-attachment-5659655\" style=\"width: 292px\" class=\"wp-caption alignright\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-5659655\" src=\"http:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/03\/lab003-292x300.jpg\" alt=\"\" width=\"292\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/03\/lab003-292x300.jpg 292w, https:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/03\/lab003-274x282.jpg 274w, https:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/03\/lab003-50x50.jpg 50w, https:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/03\/lab003.jpg 652w\" sizes=\"auto, (max-width: 292px) 100vw, 292px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-5659655\" class=\"wp-caption-text\">Esteban Vivaldi, Salvador-Bahia, sem t\u00edtulo, 2022<\/figcaption><\/figure>\n<h6><em>Laborat\u00f3rio Diga\u00ed-Escola \u2013 CIEN-Rio &#8211; Anna Luiza Almeida, Franciele Gisi M. de Almeida, Gricel Hor-Meyll, Mirta Fernandes e V\u00e2nia Brito Gomes<\/em><\/h6>\n<p>Realizamos tr\u00eas conversa\u00e7\u00f5es com coordenadores, psic\u00f3logos, assistentes sociais e educadores de um Projeto Educacional que trabalha com internos do DEGASE \u2013 RJ. Pelo laborat\u00f3rio Diga\u00ed Escola participaram as psicanalistas Mirta Fernandes e Gricel Hor-Meyll.<\/p>\n<p>A partir destas experi\u00eancias, que nos pareciam descont\u00ednuas, com longos intervalos entre elas, e da dificuldade em extrair no laborat\u00f3rio o ponto de impasse que se colocava como limite aos profissionais do projeto, retomamos uma quest\u00e3o que nos interessava h\u00e1 algum tempo: como recolher depoimentos dos diferentes participantes de uma conversa\u00e7\u00e3o? Quais os efeitos e consequ\u00eancias de uma experi\u00eancia, do ponto de vista de um profissional de uma outra disciplina?<\/p>\n<p>Instigados por essas perguntas, provocamos, ap\u00f3s as conversa\u00e7\u00f5es, um encontro com as coordenadoras do projeto, o que produziu uma reflex\u00e3o sobre a pr\u00e1tica no laborat\u00f3rio, a presen\u00e7a do psicanalista e os efeitos da experi\u00eancia inter-disciplinar. Esse querer saber sobre os efeitos e consequ\u00eancias dessa experi\u00eancia permitiu que n\u00e3o s\u00f3 pud\u00e9ssemos retornar ao que hav\u00edamos recolhido e fazer uma releitura, mas que pud\u00e9ssemos tamb\u00e9m formular a import\u00e2ncia de algo que sustenta a fun\u00e7\u00e3o Laborat\u00f3rio no CIEN: a inter-disciplinaridade.<\/p>\n<p>Na primeira das tr\u00eas conversa\u00e7\u00f5es realizadas, os professores partem de uma queixa, a frustra\u00e7\u00e3o com os resultados do trabalho, pois a maioria dos meninos que tem passagem pela criminalidade reincide e retorna ao DEGASE.\u00a0 Surgem v\u00e1rias queixas sobre os agentes socioeducativos que trabalham com os meninos, mas os educadores concluem que os agentes tamb\u00e9m sentem o \u201cpeso do sistema\u201d. Tanto os meninos quanto os agentes ficam \u201cdesumanizados\u201d por estarem encarcerados. Algu\u00e9m lembra que eles, os educadores, est\u00e3o l\u00e1 para tentar desestruturar o sistema \u201cpor dentro do sistema\u201d, mas o resultado \u00e9 t\u00e3o pequeno, diante de tanto investimento, que a sensa\u00e7\u00e3o \u00e9 de impot\u00eancia. At\u00e9 que algu\u00e9m constata, com surpresa, que eles passaram a maior parte do tempo falando dos agentes. Neste momento, decidimos encerrar aquela conversa\u00e7\u00e3o. Marcar a perplexidade e a surpresa \u00e9 o corte que relan\u00e7a algo para o pr\u00f3ximo encontro.<\/p>\n<p>No segundo encontro, h\u00e1 tens\u00e3o entre alguns educadores e a coordena\u00e7\u00e3o do projeto. Perguntam-se por que tantos educadores v\u00eam deixando o projeto. H\u00e1 um inc\u00f4modo com essa sa\u00edda, que, segundo uma das coordenadoras, ocorre sem que nada seja dito previamente, impedindo que se tente resolver as quest\u00f5es. Os educadores come\u00e7am falando das dificuldades no trabalho dentro do DEGASE, mas passam a identificar dificuldades no projeto e surgem queixas sobre os privil\u00e9gios de alguns educadores. A coordena\u00e7\u00e3o do projeto prop\u00f5e uma nova reuni\u00e3o, sem a presen\u00e7a do CIEN, para que possam discutir estas dificuldades. A implica\u00e7\u00e3o da coordena\u00e7\u00e3o seria um efeito da conversa\u00e7\u00e3o? Mais uma vez, irrompe algo surpreendente, que fura a consist\u00eancia da coordena\u00e7\u00e3o, instaura um inc\u00f4modo e a convoca a trabalhar as quest\u00f5es que emergiram.<\/p>\n<p>O terceiro encontro foi on-line, j\u00e1 durante a pandemia, para tratar da ang\u00fastia dos educadores com a situa\u00e7\u00e3o dos internos, diante da impossibilidade de atuar, presencial ou virtualmente. Dizem que sem a presen\u00e7a deles, os jovens teriam ficado \u201csem nada\u201d. Para sustentar algum v\u00ednculo, planejaram enviar cartas aos internos, mas, embora muitos educadores tivessem se comprometido, poucos escreveram. Um dos presentes diz que n\u00e3o considera a a\u00e7\u00e3o efetiva, e que deveriam se mobilizar pelo desencarceramento: \u201cS\u00f3 temos um tiro e n\u00e3o podemos errar\u201d. Colocamos esse ponto em quest\u00e3o, ser\u00e1 que s\u00f3 tinham mesmo um tiro? E por que n\u00e3o podiam errar? Ao final do encontro, decidiram seguir com a ideia das cartas e que todos seriam bem-vindos para ajudar. O rapaz que a princ\u00edpio foi contra, diz que vai participar.<\/p>\n<figure id=\"attachment_5659656\" aria-describedby=\"caption-attachment-5659656\" style=\"width: 300px\" class=\"wp-caption alignright\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-5659656\" src=\"http:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/03\/lab004-300x200.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"200\" srcset=\"https:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/03\/lab004-300x200.jpg 300w, https:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/03\/lab004-274x183.jpg 274w, https:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/03\/lab004.jpg 722w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-5659656\" class=\"wp-caption-text\">Foto de Daniel Frank no Pexels (pexels-daniel-frank-305197)<\/figcaption><\/figure>\n<p>Esse ponto surgido ao final da terceira conversa\u00e7\u00e3o parece condensar uma quest\u00e3o que circulou nos tr\u00eas encontros. Uma rela\u00e7\u00e3o com o ideal de \u201csalvar os meninos\u201d, \u201cmudar o sistema\u201d, que, ao n\u00e3o se efetivar, os deixava frustrados, impossibilitados de reconhecer e valorizar a import\u00e2ncia do empenho de cada um. Ao interrogar a certeza \u201cs\u00f3 temos um tiro e n\u00e3o podemos errar\u201d, abre-se a possibilidade de uma aposta nos efeitos poss\u00edveis do trabalho. A exig\u00eancia idealizada de serem os \u201csalvadores\u201d dos jovens e o imperativo que se coloca com \u201cn\u00e3o poder errar\u201d, afrouxa-se. A interven\u00e7\u00e3o nesse ponto permitiu que essa fala t\u00e3o consistente pudesse ser furada, colocando um intervalo entre tudo e nada, abertura para que o desejo de enviar as cartas pudesse ser relan\u00e7ado. Tomando a palavra, os integrantes fornecem significantes que facilitam a localiza\u00e7\u00e3o dos ideais do grupo e do imposs\u00edvel em jogo, o que possibilitou a aposta em a\u00e7\u00f5es pr\u00f3prias como a escrita das cartas, para manter os v\u00ednculos e sustentar o desejo de um projeto poss\u00edvel.<\/p>\n<p>No segundo tempo do trabalho no Laborat\u00f3rio, agora com as coordenadoras, localizamos pontos diferentes dos inicialmente identificados por n\u00f3s. Uma delas observa que na segunda reuni\u00e3o havia ficado muito mal com a sa\u00edda de educadores, que lhe parecia repentina, mas naquele momento percebia que talvez n\u00e3o houvesse mesmo uma escuta. Nesse encontro, revela-se aos integrantes do laborat\u00f3rio uma posi\u00e7\u00e3o de mestria n\u00e3o identificada anteriormente, o que possivelmente fazia obst\u00e1culo e n\u00e3o nos permitia extrair os pontos de deslocamento das conversa\u00e7\u00f5es. Percebem que algumas pessoas, em geral caladas nas reuni\u00f5es internas, falaram nas conversa\u00e7\u00f5es. Acham que, ao promover as conversa\u00e7\u00f5es, a coordena\u00e7\u00e3o sinalizava interesse e cuidado com os educadores, dando lugar tamb\u00e9m \u00e0s pr\u00f3prias dificuldades, o que produziu uma maior aproxima\u00e7\u00e3o com a equipe.<\/p>\n<p>O testemunho das coordenadoras revela a import\u00e2ncia da inter-disciplinaridade n\u00e3o s\u00f3 nas conversa\u00e7\u00f5es, mas tamb\u00e9m no <em>a posteriori<\/em> das elabora\u00e7\u00f5es no laborat\u00f3rio. O material recolhido p\u00f4de receber leituras e sentidos n\u00e3o s\u00f3 a partir de uma pr\u00e1tica orientada pela psican\u00e1lise, mas tamb\u00e9m de outras pr\u00e1ticas. Isso p\u00f4de produzir uma experi\u00eancia singular, diferente para cada um. O querer saber mais sobre as consequ\u00eancias da conversa\u00e7\u00e3o enla\u00e7ou ao laborat\u00f3rio \u00e0s coordenadoras do projeto, permitindo que se decantassem outros efeitos da experi\u00eancia.<\/p>\n<p>O efeito surpresa, onde emerge o inesperado, diferencia a pr\u00e1tica e a fun\u00e7\u00e3o da inter-disciplinaridade no CIEN, pela troca de experi\u00eancias no encontro com outros profissionais que se ocupam do mesmo objeto de trabalho com referenciais diferentes. Guardar um lugar de desconhecimento, de abertura para o imprevisto tamb\u00e9m no Laborat\u00f3rio, parece fundamental para fazer avan\u00e7ar essa pr\u00e1tica inter-disciplinar.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Laborat\u00f3rio Diga\u00ed-Escola \u2013 CIEN-Rio &#8211; Anna Luiza Almeida, Franciele Gisi M. de Almeida, Gricel Hor-Meyll, Mirta Fernandes e V\u00e2nia Brito Gomes Realizamos tr\u00eas conversa\u00e7\u00f5es com coordenadores, psic\u00f3logos, assistentes sociais e educadores de um Projeto Educacional que trabalha com internos do DEGASE \u2013 RJ. 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