{"id":5659709,"date":"2023-03-05T04:05:47","date_gmt":"2023-03-05T07:05:47","guid":{"rendered":"https:\/\/ciendigital.com.br\/?p=5659709"},"modified":"2023-03-15T20:40:30","modified_gmt":"2023-03-15T23:40:30","slug":"sobre-os-excessos-de-uma-situacao-nada-ideal-uma-experiencia-de-conversacao-online","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ciendigital.com.br\/index.php\/2023\/03\/05\/sobre-os-excessos-de-uma-situacao-nada-ideal-uma-experiencia-de-conversacao-online\/","title":{"rendered":"Sobre os excessos de uma situa\u00e7\u00e3o nada ideal: uma experi\u00eancia de conversa\u00e7\u00e3o online"},"content":{"rendered":"<div class=\"pdfprnt-buttons pdfprnt-buttons-post pdfprnt-top-right\"><a href=\"https:\/\/ciendigital.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5659709?print=pdf\" class=\"pdfprnt-button pdfprnt-button-pdf\" target=\"_blank\" ><\/a><a href=\"https:\/\/ciendigital.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5659709?print=print\" class=\"pdfprnt-button pdfprnt-button-print\" target=\"_blank\" ><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/plugins\/pdf-print\/images\/print.png\" alt=\"image_print\" title=\"Conte\u00fado de impress\u00e3o\" \/><\/a><\/div><figure id=\"attachment_5659710\" aria-describedby=\"caption-attachment-5659710\" style=\"width: 300px\" class=\"wp-caption alignright\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-5659710\" src=\"http:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/03\/lab018-300x210.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"210\" srcset=\"https:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/03\/lab018-300x210.jpg 300w, https:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/03\/lab018-274x192.jpg 274w, https:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/03\/lab018.jpg 558w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-5659710\" class=\"wp-caption-text\">\u201cA chegada\u201d. Esteban Vivaldi, 2016<\/figcaption><\/figure>\n<h6><em>Laborat\u00f3rio \u201cDocentes doentes: deixe-os falar!\u201d<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\"><sup><strong>[1]<\/strong><\/sup><\/a> &#8211; Raquel Guimar\u00e3es, Virg\u00ednia Carvalho<\/em><\/h6>\n<p>H\u00e1 conversa\u00e7\u00e3o online? Seria a resposta a essa quest\u00e3o diferente da que fazemos a cada vez que conclu\u00edmos uma conversa\u00e7\u00e3o, questionando-nos se houve de fato uma conversa\u00e7\u00e3o? Colegas indicam que algumas conversa\u00e7\u00f5es <em>online<\/em> n\u00e3o foram poss\u00edveis. Gostar\u00edamos de compartilhar com voc\u00eas uma experi\u00eancia que tivemos no Laborat\u00f3rio e que consideramos ter nos ensinado sobre a atualidade da aposta na surpresa que \u00e9 uma conversa\u00e7\u00e3o, independente do formato que ela venha a ganhar.<\/p>\n<p>A demanda ao nosso Laborat\u00f3rio para um trabalho a ser realizado em modo online surgiu da preocupa\u00e7\u00e3o dos gestores de uma escola com as exig\u00eancias do MEC para o retorno \u00e0s aulas presenciais. O documento de refer\u00eancia elaborado pelo MEC (Brasil, 2021) especifica que \u201cos funcion\u00e1rios da escola, principalmente os professores, devem ser capacitados com estrat\u00e9gias de promo\u00e7\u00e3o e prote\u00e7\u00e3o da sa\u00fade mental e qualidade de vida\u201d, al\u00e9m de terem \u201csuporte e capacita\u00e7\u00e3o para lidar com estudantes em sofrimento ps\u00edquico (comportamentos internalizantes ou externalizantes)\u201d. Ele alerta que \u201cno caso de percep\u00e7\u00e3o de mudan\u00e7as comportamentais ou comportamentos disfuncionais, o aluno ou profissional deve ser encaminhado para servi\u00e7o de sa\u00fade\u201d. Como a escola poderia se preparar para promover esse espa\u00e7o aos docentes? Foi com essa pergunta que o Laborat\u00f3rio foi procurado.<\/p>\n<p>Essa quest\u00e3o se desdobrou em uma outra para n\u00f3s: seria poss\u00edvel estabelecermos uma conversa\u00e7\u00e3o como medida profil\u00e1tica? Sabemos que \u201ca conversa\u00e7\u00e3o \u00e9 uma pr\u00e1tica da palavra para tratar as manifesta\u00e7\u00f5es indesejadas que produzem insucessos e fracassos\u201d(Santiago, 2011, p.97). Ela visa uma passagem da queixa, que paralisa a a\u00e7\u00e3o dos profissionais, a \u201cum outro uso da palavra em que a queixa toma a forma de uma quest\u00e3o e a quest\u00e3o, a forma de uma resposta: inven\u00e7\u00f5es in\u00e9ditas\u201d(Santiago, 2011, p.97). A aposta na associa\u00e7\u00e3o livre coletivizada que ela promove n\u00e3o ocorre para que todos sintam-se aliviados ao falar, mas sim para que haja um corte que permita desajustar as identifica\u00e7\u00f5es \u00e0s quais os sujeitos se encontram fixados. Considerando a dimens\u00e3o de parasita que a palavra tem, um convite a falar pode servir para refor\u00e7ar o \u201cgozo do bl\u00e1 bl\u00e1 bl\u00e1\u201d, o que Laurent (2017) denuncia como uma \u201cpsicoterapia generalizada\u201d (p.41) e essa n\u00e3o \u00e9 a proposta do CIEN.<\/p>\n<p>Em um esfor\u00e7o de poesia pudemos ler que, para al\u00e9m dessa demanda inicial profil\u00e1tica, havia no grupo de professores um desejo de falar sobre seu sofrimento diante das mudan\u00e7as impostas pela pandemia. Tais mudan\u00e7as ecoaram tamb\u00e9m na aposta do Laborat\u00f3rio de que o online poderia viabilizar um trabalho de conversa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong><em>Uma situa\u00e7\u00e3o nada ideal<\/em><\/strong><\/p>\n<p>Nosso primeiro desafio foi trazer o vivo dos corpos para o virtual. Com c\u00e2meras ligadas, os professores demarcaram a import\u00e2ncia daquele \u201clugar de encontro\u201d. Inicialmente, as queixas ganharam muito espa\u00e7o e se decompunham em quatro eixos: \u201cdoc\u00eancia vigiada\u201d, \u201csaber insuficiente\u201d, \u201cmedo de voltar\u201d e \u201cfalta de prazer no trabalho\u201d.<\/p>\n<p>Quais as diferen\u00e7as pudemos localizar em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s conversa\u00e7\u00f5es on line? Da mesma maneira como no presencial, levaram queixas a partir das quais poder\u00edamos localizar um impasse a ser trabalhado e auxili\u00e1-los a ler ou inventar novas sa\u00eddas para ele. Embora o modo de fazer tenha ganhado alguns novos elementos, os princ\u00edpios orientadores da conversa\u00e7\u00e3o foram os mesmos: localizar o impasse, sustentar a associa\u00e7\u00e3o livre coletivizada, preconizar o corte, realizar uma conversa\u00e7\u00e3o sobre cada conversa\u00e7\u00e3o para conseguir ler o que se passou ali e escutar seus tr\u00eas tempos l\u00f3gicos, verificando se houve ou n\u00e3o uma conversa\u00e7\u00e3o. Assim como numa conversa\u00e7\u00e3o presencial, foi necess\u00e1rio sustentar a urg\u00eancia por falar, como nos indica Lacan (2003) e que Miller (2013) ressalta \u00e0 prop\u00f3sito do que permite a continuidade da busca pelo analista.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, o que foi diferente nessa conversa\u00e7\u00e3o em que os corpos estiveram presentes atrav\u00e9s da tela? Como novos elementos destacamos: a fala um a um, ou seja, um por vez, o que provavelmente n\u00e3o ocorreria numa conversa\u00e7\u00e3o presencial e tamb\u00e9m a escrita no chat. Esta \u00faltima \u00e0 medida em que ia aparecendo, era lida e re-endere\u00e7ada ao autor para que falasse sobre o escrito. Aos poucos, foram deixando de usar o chat para falar. No final de uma das conversa\u00e7\u00f5es, uma professora se serviu dele para escrever algo que localizava pra ela o que havia sido aquela conversa\u00e7\u00e3o. Iniciamos a conversa\u00e7\u00e3o seguinte com aquele dizer, pois consideramos que o texto do chat pode ter fun\u00e7\u00e3o de escrito se conseguimos dar-lhe voz, vivificando-o, a partir da indica\u00e7\u00e3o de Lacan no Semin\u00e1rio 20 de que um escrito n\u00e3o \u00e9 para ser compreendido.<\/p>\n<p>Nessa experi\u00eancia que fizemos, atrav\u00e9s do <em>online<\/em>, os professores puderam expressar seu inc\u00f4modo com o aumento da cobran\u00e7a que a tela do computador imp\u00f4s a seus afazeres: \u201cpassei a colocar o meu trabalho em xeque\u201d, \u201cme sinto exposta o tempo inteiro. \u201cUm palco que n\u00e3o gosto\u201d, \u201cO que eu sei \u00e9 suficiente?\u201d. As aulas remotas traziam \u00e0 cena o olhar dos pais e a exig\u00eancia de funcionamento. Frente ao real da pandemia, o fracasso da educa\u00e7\u00e3o se materializou nas in\u00fameras queixas de que a situa\u00e7\u00e3o n\u00e3o era ideal para a aprendizagem. Se a educa\u00e7\u00e3o \u00e9 um ideal, as situa\u00e7\u00f5es nunca ser\u00e3o e cada um precisa inventar com o que tem. \u201cSe virar com o que pode dar\u201d, conforme afirmou uma participante ap\u00f3s tal interven\u00e7\u00e3o na conversa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong><em>\u201cOs alunos est\u00e3o aprendendo?\u201d<\/em><\/strong><\/p>\n<p>No movimento das conversa\u00e7\u00f5es, as queixas deram lugar a uma quest\u00e3o, n\u00e3o mais ligada \u00e0 pandemia, mas sim \u00e0 educa\u00e7\u00e3o: \u201cos alunos est\u00e3o aprendendo?\u201d. Houve uma redu\u00e7\u00e3o do esc\u00f3pico presente nas aulas online, trazendo para o primeiro plano a fun\u00e7\u00e3o da educa\u00e7\u00e3o e da escola. Ou seja, se o impasse inicial era com o <em>online<\/em>, no decorrer das conversa\u00e7\u00f5es, o que surgem s\u00e3o quest\u00f5es antigas e cotidianas: \u201cN\u00e3o \u00e9 de hoje que os meninos n\u00e3o entregam as atividades, isso n\u00e3o \u00e9 exclusivo do remoto\u201d, \u201c\u00e9 ilus\u00e3o achar que o corpo presente \u00e9 garantia, \u00e9 comum alguns assistirem aula, mesmo quando era presencial, sem prestar aten\u00e7\u00e3o em nada\u201d. Evidenciaram um denominador comum da aprendizagem que perpassa tanto o ensino presencial quanto o remoto, o que nomearam como \u201co aspecto relacional\u201d, afirmando que \u00e9 nas rela\u00e7\u00f5es que a educa\u00e7\u00e3o acontece. Surge a quest\u00e3o sobre o que far\u00e3o sem poder tocar os corpos quando houver o retorno ao modo presencial.<\/p>\n<p>A dificuldade no retorno \u00e0s aulas presenciais, ap\u00f3s o longo per\u00edodo fora das salas, come\u00e7a a ganhar contorno: \u201cN\u00e3o sei como trabalhar com eles no retorno\u201d, \u201cvejo uma aula totalmente diferente, me assusta\u201d. \u201cSempre tive medo dos meus alunos se machucarem nas minhas aulas. Hoje meu maior medo \u00e9 que minha aula seja lugar de cont\u00e1gio\u201d. A indica\u00e7\u00e3o dos professores de que \u201ca educa\u00e7\u00e3o \u00e9 um contrato de risco\u201d e que \u201ca doc\u00eancia \u00e9 uma inven\u00e7\u00e3o a partir do que os alunos trazem\u201d possibilitou suspender o medo, para que sa\u00edssem da paralisia. \u201cA escola \u00e9 lugar de educa\u00e7\u00e3o, n\u00e3o de cont\u00e1gio\u201d &#8211; pontuaram as animadoras da conversa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong><em>\u201cAmputar o excessos\u201d<\/em><\/strong><\/p>\n<p>Um momento de concluir se anuncia quando uma professora aponta que o \u201caspecto relacional\u201d considerado fundamental e manifestado atrav\u00e9s de carinho, afeto e acolhimento \u00e9 tamb\u00e9m o que transborda inviabilizando o trabalho educativo. Outro docente traz o termo \u201cexcesso\u201d para descrever as rela\u00e7\u00f5es na escola: \u201cEstamos entregando mais acolhimento do que a gente consegue. Estamos l\u00e1 <em>online<\/em>, o tempo inteiro\u201d, \u201ctem uma desmedida nisso, t\u00e1 tudo confuso, sem borda\u201d. Localizaram que esse excesso cansa e apaga o prazer que cada um encontra na doc\u00eancia, retomando a quest\u00e3o central da educa\u00e7\u00e3o: para que serve uma escola? Indicam como sa\u00edda \u201cnegociar melhor os excessos, inclusive de afeto e de carinho, pois isso mata o que \u00e9 vivo da educa\u00e7\u00e3o\u201d. As animadoras apostam no corte, servindo-se do significante \u201camputa\u00e7\u00e3o\u201d, que havia surgido na conversa\u00e7\u00e3o, para apontar que frente ao excesso n\u00e3o h\u00e1 negocia\u00e7\u00e3o. Isso os mobiliza a pensar em algumas estrat\u00e9gias para barrar a enxurrada de demandas que recebem diariamente, tal como n\u00e3o ter que atender \u00e0s mensagens encaminhadas pelos pais durante o final de semana.<\/p>\n<p>A fala de uma das professoras ao final indica que a conversa\u00e7\u00e3o permitiu decantar a fun\u00e7\u00e3o da escola, produzindo um esvaziamento: \u201c\u00c9 preciso cautela para n\u00e3o abrir portas que n\u00e3o vamos conseguir acolher. Dar lugar a esse desejo de acolher, entendendo nosso lugar de escola\u201d.\u00a0 \u201cNa educa\u00e7\u00e3o tem luta, mas tamb\u00e9m tem prazer\u201d, concluem.<\/p>\n<h6>Refer\u00eancias Bibliogr\u00e1ficas<br \/>\nBRASIL, MEC. (2021). <em>Guia de implementa\u00e7\u00e3o de protocolos de retorno das atividades presenciais nas escolas de educa\u00e7\u00e3o b\u00e1sica.<\/em> Retirado em 10\/02\/2021 de: https:\/\/www.gov.br\/mec\/ptbr\/assuntos\/GuiaderetornodasAtividadesPresenciaisnaEducaoBsica.pdf<br \/>\nLACAN, J. (1985). <em>O Semin\u00e1rio, livro 20<\/em>. Rio de Janeiro: JZE.<br \/>\nLACAN, J. (2003). Pref\u00e1cio \u00e0 Edi\u00e7\u00e3o Inglesa do Semin\u00e1rio 11. In: J.Lacan. <em>Outros Escritos.<\/em> Rio de Janeiro:JZE.<br \/>\nLAURENT, \u00c9ric. (2017). Retomar a defini\u00e7\u00e3o do projeto do CIEN e examinar sua situa\u00e7\u00e3o atual. In: BROWN, N; MAC\u00caDO, L; LYRA, R. <em>Trauma, Solid\u00e3o e La\u00e7o na Inf\u00e2ncia e na Adolesc\u00eancia: experi\u00eancias do CIEN no Brasil.<\/em> BH: EBP Ed..<br \/>\nMILLER, J.A. (2013). El ultim\u00edssimo Lacan. Buenos Aires: Paid\u00f3s.<br \/>\nSANTIAGO, Ana Lydia. (2011). Pesquisa-interven\u00e7\u00e3o de orienta\u00e7\u00e3o psicanal\u00edtica. In: Ana Lydia Santiago; Regina Helena de Freitas Campos (orgs). Educa\u00e7\u00e3o de crian\u00e7as e jovens na contemporaneidade. Belo Horizonte: Ed. PUC Minas, 2011, p.93-100.<\/h6>\n<hr \/>\n<h6><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\"><sup>[1]<\/sup><\/a>\u2003 Nesse Laborat\u00f3rio, que acontece na inter-face com a educa\u00e7\u00e3o, participavam<\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Laborat\u00f3rio \u201cDocentes doentes: deixe-os falar!\u201d[1] &#8211; Raquel Guimar\u00e3es, Virg\u00ednia Carvalho H\u00e1 conversa\u00e7\u00e3o online? Seria a resposta a essa quest\u00e3o diferente da que fazemos a cada vez que conclu\u00edmos uma conversa\u00e7\u00e3o, questionando-nos se houve de fato uma conversa\u00e7\u00e3o? Colegas indicam que algumas conversa\u00e7\u00f5es online n\u00e3o foram poss\u00edveis. 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