{"id":5659752,"date":"2026-04-07T21:12:41","date_gmt":"2026-04-08T00:12:41","guid":{"rendered":"https:\/\/ciendigital.com.br\/?p=5659752"},"modified":"2026-04-08T08:13:23","modified_gmt":"2026-04-08T11:13:23","slug":"comer-a-pulsao-oral-nas-criancas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ciendigital.com.br\/index.php\/2026\/04\/07\/comer-a-pulsao-oral-nas-criancas\/","title":{"rendered":"Comer &#8211; A puls\u00e3o oral nas crian\u00e7as"},"content":{"rendered":"<div class=\"pdfprnt-buttons pdfprnt-buttons-post pdfprnt-top-right\"><a href=\"https:\/\/ciendigital.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5659752?print=pdf\" class=\"pdfprnt-button pdfprnt-button-pdf\" target=\"_blank\" ><\/a><a href=\"https:\/\/ciendigital.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5659752?print=print\" class=\"pdfprnt-button pdfprnt-button-print\" target=\"_blank\" ><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/plugins\/pdf-print\/images\/print.png\" alt=\"image_print\" title=\"Conte\u00fado de impress\u00e3o\" \/><\/a><\/div><p><strong>Argumento para a pr\u00f3xima Jornada de estudos <\/strong><strong>do Instituto Psicanal\u00edtico da Crian\u00e7a do Campo Freudiano<\/strong><\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong>Um tema a ser trabalhado, temperado e saboreado nas Redes da Inf\u00e2ncia do Campo Freudiano<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h6>Ligia Gorini<\/h6>\n<p>\u201cO que \u00e9 uma demanda oral?\u201d<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">[1]<\/a> A demanda de ser alimentado, desde que \u00e9 veiculada pela linguagem e dirigida a um outro, visa a algo al\u00e9m da simples satisfa\u00e7\u00e3o de uma necessidade. Ela constitui o primeiro la\u00e7o entre o beb\u00ea humano e o Outro. \u00c9 na lacuna entre a necessidade e a demanda que o desejo vem se alojar.<\/p>\n<p>A primeira descoberta de Freud a respeito dos objetos da crian\u00e7a relaciona-se \u00e0 oralidade. Assim, o sugador (<em>ludeln<\/em>) \u201cconsiste em um contato de suc\u00e7\u00e3o com a boca [\u2026], que se repete ritmicamente, sendo a ingest\u00e3o de alimento um fim exclu\u00eddo\u201d<a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\">[2]<\/a>. Trata-se de um artif\u00edcio criado pela crian\u00e7a para obter uma satisfa\u00e7\u00e3o j\u00e1 experimentada, derivada dessa \u201cuni\u00e3o a mais radical\u201d<a href=\"#_ftn3\" name=\"_ftnref3\">[3]<\/a> com o Outro materno e a partir de ent\u00e3o rememorada. A l\u00edngua, os l\u00e1bios, o dedo, a chupeta, n\u00e3o s\u00e3o substitutos do seio, mas objetos colocados a servi\u00e7o de uma satisfa\u00e7\u00e3o substitutiva.<\/p>\n<p>Lacan evoca o sonho da pequena Anna Freud, no qual ela alucina as guloseimas que lhe haviam sido proibidas, para mostrar \u201cque n\u00e3o h\u00e1 pura e simplesmente presentifica\u00e7\u00e3o dos objetos de uma necessidade\u201d<a href=\"#_ftn4\" name=\"_ftnref4\">[4]<\/a>, mas sim de objetos desej\u00e1veis. A menininha n\u00e3o estava particularmente com fome, mas sonhava com o que gostaria de comer.<\/p>\n<p>O que dizer de uma crian\u00e7a que n\u00e3o para de comer, como um Garg\u00e2ntua, aquele pequeno glut\u00e3o insaci\u00e1vel, alimentado por milhares de vacas? Como podemos interpretar os prazeres da boca \u2013 amamentar, sugar, mordiscar, saborear \u2013 como uma forma de explorar o mundo, desej\u00e1-lo ou tentar rejeit\u00e1-lo?<\/p>\n<p>&#8220;N\u00e3o h\u00e1 fantasma de devora\u00e7\u00e3o [&#8230;] que n\u00e3o consideremos implicar [&#8230;] uma invers\u00e3o&#8221;<a href=\"#_ftn5\" name=\"_ftnref5\">[5]<\/a>, onde se manifesta o medo de ser devorado. Lacan insiste na reversibilidade da puls\u00e3o: <em>comer, ser comido <\/em><em>e se fazer comer <\/em>constituem as tr\u00eas fases da puls\u00e3o oral.<\/p>\n<p>Assim, Jo\u00e3o e Maria<a href=\"#_ftn6\" name=\"_ftnref6\">[6]<\/a>, atra\u00eddos por uma irresist\u00edvel casa de doces que eles n\u00e3o hesitam em comer, s\u00e3o capturados por uma &#8220;bruxa comedora de crian\u00e7as&#8221;<a href=\"#_ftn7\" name=\"_ftnref7\">[7]<\/a>, mas acabam por inverter a situa\u00e7\u00e3o, empurrando-a para dentro do forno, onde \u00e9 devorada pelas chamas.<\/p>\n<p>No outro extremo est\u00e1 a crian\u00e7a que n\u00e3o come, que para de se alimentar. Por vezes, a recusa alimentar surge como um limite para um excesso vindo do Outro, como a \u00fanica solu\u00e7\u00e3o para preservar seu pr\u00f3prio desejo. A anorexia em jovens adolescentes testemunha isso. O objeto, neste caso, n\u00e3o \u00e9 a comida, mas o <em>nada<\/em>. N\u00e3o se trata de dizer que o anor\u00e9xico n\u00e3o coma nada. Lacan enfatiza: &#8220;Na anorexia mental, o que a crian\u00e7a come \u00e9 o nada&#8221;<a href=\"#_ftn8\" name=\"_ftnref8\">[8]<\/a>.<\/p>\n<p>Em &#8220;A teoria do parceiro&#8221;<a href=\"#_ftn9\" name=\"_ftnref9\">[9]<\/a>, Jacques-Alain Miller prop\u00f5e que a anorexia deriva da separa\u00e7\u00e3o, com a rejei\u00e7\u00e3o do Outro em primeiro plano, enquanto a bulimia est\u00e1 do lado da aliena\u00e7\u00e3o, com a liga\u00e7\u00e3o com o Outro enfatizada.<\/p>\n<p>E o que se pode dizer de uma boca &#8220;cosida&#8221;, sen\u00e3o que o sil\u00eancio muitas vezes incarna &#8220;a inst\u00e2ncia pura da puls\u00e3o oral, fechando-se sobre sua satisfa\u00e7\u00e3o&#8221;<a href=\"#_ftn10\" name=\"_ftnref10\">[10]<\/a>? Qual a rela\u00e7\u00e3o entre a fala, a linguagem e a puls\u00e3o oral?<\/p>\n<p>A puls\u00e3o oral tamb\u00e9m se manifesta na gulodice do supereu: voraz, insaci\u00e1vel. Para Lacan, essa gulodice &#8220;\u00e9 estrutural \u2013 n\u00e3o \u00e9 um efeito da civiliza\u00e7\u00e3o, mas um \u2018mal-estar (sintoma) na civiliza\u00e7\u00e3o\u2019\u201d<a href=\"#_ftn11\" name=\"_ftnref11\">[11]<\/a>. O supereu n\u00e3o surge simplesmente do comportamento do ambiente da crian\u00e7a ou de seus pais. \u00c9 importante lembrar disso em uma \u00e9poca em que falamos com frequ\u00eancia de disciplina ou de educa\u00e7\u00e3o <em>positiva<\/em>. Considerar o supereu como estrutural nos permite abordar a quest\u00e3o da culpa de forma diferente e mensurar seus efeitos, \u00e0s vezes devastadores, sobre a crian\u00e7a.<\/p>\n<p>Em um outro registro, como abordar hoje a depend\u00eancia \u00e0s drogas, a toxicomania? Ou ainda, com esse consumo voraz de telas e redes sociais?<\/p>\n<p>O que podemos dizer sobre as poss\u00edveis formas de sublima\u00e7\u00e3o da puls\u00e3o oral por meio da incorpora\u00e7\u00e3o do significante, como sugere Lacan ao usar a express\u00e3o \u201ccomer o livro&#8221;<a href=\"#_ftn12\" name=\"_ftnref12\">[12]<\/a>, tomada emprestada do Livro do <em>Apocalipse<\/em> de S\u00e3o Jo\u00e3o? Como surge para a crian\u00e7a o desejo de saber, essa &#8220;avidez curiosa&#8221;<a href=\"#_ftn13\" name=\"_ftnref13\">[13]<\/a> t\u00e3o crucial ao seu desenvolvimento individual?<\/p>\n<p>Todas essas s\u00e3o quest\u00f5es presentes na cl\u00ednica com crian\u00e7as e adolescentes, as quais devem ser exploradas sem modera\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Como nos lembra o monstro Chapalu: <em>&#8220;Aquele que come j\u00e1 n\u00e3o est\u00e1 sozinho&#8221;<\/em><a href=\"#_ftn14\" name=\"_ftnref14\">[14]<\/a>.<\/p>\n<p>N\u00f3s nos vemos no pr\u00f3ximo encontro do Instituto Psicanal\u00edtico da Crian\u00e7a do Campo freudiano, no dia 20 de mar\u00e7o de 2027!<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h6>Tradu\u00e7\u00e3o: Alessandra Thomaz Rocha<br \/>\nRevis\u00e3o: T\u00e2nia Abreu<\/h6>\n<hr \/>\n<h6><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> LACAN, J. <em>O semin\u00e1rio<\/em>, livro 8: <em>A transfer\u00eancia<\/em>. (1960-1961) Texto estabelecido por Jacques-Alain Miller. Tradu\u00e7\u00e3o: Dulce Duque Estrada. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1992. p. 201.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\">[2]<\/a> FREUD, S. Tr\u00eas ensaios sobre a teoria da sexualidade. In: FREUD, S. <em>Edi\u00e7\u00e3o standard brasileira das obras psicol\u00f3gicas completas de Sigmund Freud<\/em>. v. VII. Rio de Janeiro: Imago Editora, 1972. p. 184.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref3\" name=\"_ftn3\">[3]<\/a> LACAN, 1960-1961\/1992, <em>op. cit.<\/em>, p. 202.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref4\" name=\"_ftn4\">[4]<\/a> LACAN, J. <em>O semin\u00e1rio<\/em>, livro 11: <em>Os quatro conceitos fundamentais da psican\u00e1lise<\/em>. (1964) Texto estabelecido por Jacques-Alain Miller. Tradu\u00e7\u00e3o: M. D. Magno. 2. ed. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1985. p. 147.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref5\" name=\"_ftn5\">[5]<\/a> LACAN, J. <em>Le s\u00e9minaire<\/em>, livre XII: <em>Probl\u00e8mes cruciaux pour la psychanalyse<\/em>. Texte \u00e9tabli par J.-A. Miller. Paris: Seuil\/Le Champ freudien, 2025. p. 134.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref6\" name=\"_ftn6\">[6]<\/a> Cf. <strong>GRIMM, J.; GRIMM, W.<\/strong> <em>\u201cJo\u00e3o e Maria\u201d. <\/em><em>Contos maravilhosos infantis e dom\u00e9sticos<\/em><em>. <\/em><em>S\u00e3o Paulo: Editora 34, 2018, pp. 57-62.<\/em><\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref7\" name=\"_ftn7\">[7]<\/a> BETTELHEIM, B. <em>Psychanalyse des contes de f\u00e9es<\/em>. Paris: Robert Lafont, 1976. p. 253.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref8\" name=\"_ftn8\">[8]<\/a> LACAN, 1964\/1985,<em> op. cit.<\/em>, p. 101.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref9\" name=\"_ftn9\">[9]<\/a> MILLER, J.-A. A teoria do parceiro. In: MILLER, J.-A. <em>Os circuitos do desejo na vida e na an\u00e1lise<\/em>. Rio de Janeiro: Contra Capa Livraria Ltda, 2000. p. 177. Reeditado em <em>Pharmakon<\/em>, n. 4, maio 2023. Dispon\u00edvel em: <a href=\"https:\/\/pharmakondigital.com\/la-theorie-du-partenaire\/?lang=fr\">pharmakondigital.com<\/a>.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref10\" name=\"_ftn10\">[10]<\/a> LACAN, 1964\/1985,<em> op. cit.<\/em>, p. 170.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref11\" name=\"_ftn11\">[11]<\/a> LACAN, J. Televis\u00e3o. (1973) In: LACAN, J. <em>Outros escritos<\/em>. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2003. p. 528.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref12\" name=\"_ftn12\">[12]<\/a> LACAN, J. <em>O semin\u00e1rio<\/em>, livro 7: <em>A \u00e9tica da psican\u00e1lise<\/em>. (1959-1960) Texto estabelecido por Jacques-Alain Miller. Tradu\u00e7\u00e3o: Ant\u00f4nio Quinet. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1988. p. 385-386.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref13\" name=\"_ftn13\">[13]<\/a> LACAN, J. <em>O triunfo da religi\u00e3o precedido de Discurso aos cat\u00f3licos<\/em>. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2005. p. 45.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref14\" name=\"_ftn14\">[14]<\/a> APOLLINAIRE, G. <em>O encantador apodrecendo<\/em>. Paris: Gallimard, 1992. p. 49. Citado por LACAN, J. <em>O semin\u00e1rio<\/em>, livro 3: <em>As psicoses<\/em>. (1955-1956) Texto estabelecido por Jacques-Alain Miller. Tradu\u00e7\u00e3o: Aluisio Menezes. 2. ed. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1985. p. 362.<\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Argumento para a pr\u00f3xima Jornada de estudos do Instituto Psicanal\u00edtico da Crian\u00e7a do Campo Freudiano \u00a0Um tema a ser trabalhado, temperado e saboreado nas Redes da Inf\u00e2ncia do Campo Freudiano &nbsp; Ligia Gorini \u201cO que \u00e9 uma demanda oral?\u201d[1] A demanda de ser alimentado, desde que \u00e9 veiculada pela linguagem e dirigida a um outro,&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"post_series":[],"class_list":["post-5659752","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-sem-categoria","entry","no-media"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/ciendigital.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5659752","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/ciendigital.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/ciendigital.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ciendigital.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ciendigital.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=5659752"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/ciendigital.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5659752\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":5659753,"href":"https:\/\/ciendigital.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5659752\/revisions\/5659753"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/ciendigital.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=5659752"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/ciendigital.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=5659752"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/ciendigital.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=5659752"},{"taxonomy":"post_series","embeddable":true,"href":"https:\/\/ciendigital.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/post_series?post=5659752"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}