{"id":5659758,"date":"2026-04-07T19:41:08","date_gmt":"2026-04-07T22:41:08","guid":{"rendered":"https:\/\/ciendigital.com.br\/?p=5659758"},"modified":"2026-04-08T12:31:29","modified_gmt":"2026-04-08T15:31:29","slug":"uma-experiencia-interdisciplinar-fazer-ex-sistir-o-inconsciente-no-espaco-escolar","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ciendigital.com.br\/index.php\/2026\/04\/07\/uma-experiencia-interdisciplinar-fazer-ex-sistir-o-inconsciente-no-espaco-escolar\/","title":{"rendered":"Uma experi\u00eancia interdisciplinar: fazer ex-sistir o inconsciente no espa\u00e7o escolar"},"content":{"rendered":"<div class=\"pdfprnt-buttons pdfprnt-buttons-post pdfprnt-top-right\"><a href=\"https:\/\/ciendigital.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5659758?print=pdf\" class=\"pdfprnt-button pdfprnt-button-pdf\" target=\"_blank\" ><\/a><a href=\"https:\/\/ciendigital.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5659758?print=print\" class=\"pdfprnt-button pdfprnt-button-print\" target=\"_blank\" ><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/plugins\/pdf-print\/images\/print.png\" alt=\"image_print\" title=\"Conte\u00fado de impress\u00e3o\" \/><\/a><\/div><p>&nbsp;<\/p>\n<h6><em>Mirta Fernandes \u2013 Cien RJ<\/em><\/h6>\n<p>Fazer operar a din\u00e2mica inconsciente num espa\u00e7o multidisciplinar \u00e9 um desafio constante que vem sendo sustentado pela presen\u00e7a e pelo desejo do analista, e vem sendo autorizado pelo desejo e transfer\u00eancia da dire\u00e7\u00e3o da escola com a psican\u00e1lise.<\/p>\n<p>Minha participa\u00e7\u00e3o no CIEN-Rio, me permitiu solidificar a forma que imprimi a essa pr\u00e1tica que passa a ser orientada pelo dispositivo das conversa\u00e7\u00f5es, dos textos te\u00f3ricos e da troca entre os pares psicanalistas, diferenciando a presen\u00e7a do psicanalista no espa\u00e7o escolar de uma pr\u00e1tica psicopedag\u00f3gica.<\/p>\n<p>Identificar a ang\u00fastia que fazia parte do cotidiano dos profissionais envolvidos, localizar os pontos de ang\u00fastia e os impasses de cada situa\u00e7\u00e3o apresentada, trabalhar com as pr\u00f3prias falas e a an\u00e1lise das pessoas envolvidas, quase como um processo de associa\u00e7\u00e3o livre, com interven\u00e7\u00f5es de pontua\u00e7\u00f5es, interroga\u00e7\u00f5es, recolher de cada caso um saber que ali j\u00e1 existia, remetendo \u00e0 fala para aqueles que a endere\u00e7avam, e procurar me deslocar do lugar de mestria \u2013 foram esses passos que orientaram minha pr\u00e1tica.<\/p>\n<p>Apostar nos v\u00ednculos e nas rela\u00e7\u00f5es entre os pares e no saber que cada um traz de sua experiencia, creio que esse tenha sido um aspecto determinante para o estabelecimento de uma transfer\u00eancia de trabalho com o discurso da psican\u00e1lise de orienta\u00e7\u00e3o lacaniana em um espa\u00e7o interdisciplinar.<\/p>\n<p>O dispositivo da conversa\u00e7\u00e3o possibilita esse manejo e permite a constru\u00e7\u00e3o de elabora\u00e7\u00f5es singulares.<\/p>\n<p>Prop\u00f5e-se ent\u00e3o um trabalho de escuta e reflex\u00e3o com toda a equipe profissional, incluindo o pessoal administrativo e de apoio, baseado em reuni\u00f5es regulares, de tem\u00e1tica livre, procurando acompanhar os impasses cotidianos, sem interferir ativamente na rotina das atividades.\u00a0 Uma fun\u00e7\u00e3o peculiar, e \u00eaxtima, dentro e fora, um lugar privilegiado, com acesso ao n\u00facleo diretor da escola, \u00e0s coordenadoras e a comunidade escolar.<\/p>\n<p>Assolados pela febre dos diagn\u00f3sticos que v\u00eam se colocando nos universos familiar e social, reduzindo as crian\u00e7as a um saber pr\u00e9vio sobre cada sujeito, a partir de uma nomea\u00e7\u00e3o, um c\u00f3digo, um r\u00f3tulo.\u00a0 prop\u00f5e-se um deslocamento, uma suspens\u00e3o do lugar de saber. Ler e escutar as atitudes das crian\u00e7as como formas de expressar sentimentos, emo\u00e7\u00f5es, pensamentos e dificuldades.<\/p>\n<p>Possibilitar \u00e0 crian\u00e7a encontrar, no primeiro espa\u00e7o social que habita, uma constru\u00e7\u00e3o de novos la\u00e7os e rela\u00e7\u00f5es que acolham sua singularidade, suas diferen\u00e7as individuais, tendo como horizonte e ideal um conv\u00edvio respeitoso, mesmo com muitas dificuldades, pode parecer estranho, quase imposs\u00edvel. Como incluir nesse projeto uma \u00e9tica do desejo, da pol\u00edtica da psican\u00e1lise e n\u00e3o uma \u00e9tica moral? Um equilibrismo constante e desafiador foi manter uma posi\u00e7\u00e3o sustentada na \u00e9tica da psican\u00e1lise, \u00e9tica do desejo, diferente de um lugar de supervis\u00e3o, aconselhamento que constantemente era solicitado.<\/p>\n<p>Uma crian\u00e7a precisa de uma comunidade para ser educada. A fam\u00edlia de origem \u00e9 a primeira refer\u00eancia para a crian\u00e7a. E a escola \u00e9 a primeira refer\u00eancia social, comunit\u00e1ria, o primeiro lugar no qual ela vai se encontrar sozinha, sem a presen\u00e7a dos pais, e entrar em contato com outras pessoas diferentes do seu n\u00facleo familiar. O trabalho do pessoal de apoio, \u00e9 um trabalho de base, fundamental na estrutura escolar. O pessoal do apoio tem um trabalho pr\u00f3ximo da maternagem, dos cuidados pessoais b\u00e1sicos das crian\u00e7as e do ambiente escolar.<\/p>\n<p>Um trabalho coletivo \u00e9 ainda mais desafiador e o que se transmite nesse processo escapa a qualquer inten\u00e7\u00e3o ou regra. Transmitimos nosso desejo e nossos medos atravessados por nossas ang\u00fastias diante do que n\u00e3o sabemos. N\u00e3o sabemos por que \u00e9 imposs\u00edvel de saber\u00a0<em>a priori<\/em>. Precisamos acolher nossas singularidades e compor com nossos semelhantes um mosaico que permita a cada um expressar simbolicamente as solu\u00e7\u00f5es poss\u00edveis para os percal\u00e7os cotidianos.<\/p>\n<p>Fazer ex-sistir o inconsciente transita por uma linha t\u00eanue, ao mesmo tempo, muito n\u00edtida: t\u00eanue porque, na solid\u00e3o desta pr\u00e1tica, muitas vezes, as interven\u00e7\u00f5es n\u00e3o encontravam eco. Por outro lado, a cada vez que se sentiam mais seguros e confiantes em seu fazer cotidiano, uma la\u00e7ada se enodava nessa rede e um tecido podia se construir.<\/p>\n<p>Observo como efeito dessa presen\u00e7a falas que recolho aqui e ali sobre \u201caprender a ouvir, n\u00e3o precisar ter respostas prontas, perguntar sempre\u201d. Enfim, as demandas de saber deram lugar a interroga\u00e7\u00f5es, a reflex\u00f5es e a um trabalho entre v\u00e1rios. Solidifica-se uma rede de v\u00ednculos interdisciplinares que podem acolher o desafio dessa pr\u00e1tica imposs\u00edvel, segundo Freud, que \u00e9 educar.<\/p>\n<p>Uma vinheta pr\u00e1tica. Surge na reuni\u00e3o de coordena\u00e7\u00e3o uma quest\u00e3o, um impasse, que vinha ocorrendo no trabalho. Falta de compromisso de v\u00e1rios professores com as tarefas pedag\u00f3gicas. Desde postura em sala de aula com alunos, ao uso de celular por parte do professor, faltas, descompromisso com as atividades coletivas, reuni\u00f5es, e outras atividades de integra\u00e7\u00e3o. Alguns professores j\u00e1 haviam sido contactados particularmente, mas havia por parte da coordena\u00e7\u00e3o uma dificuldade de abordar a quest\u00e3o que n\u00e3o fosse apenas como uma cobran\u00e7a formal, uma reclama\u00e7\u00e3o, mas que houvesse, de fato, uma mudan\u00e7a de atitude por parte dos professores.<\/p>\n<p>Para ilustrar o que se passava, uma das coordenadoras traz uma foto que tirou em um dos p\u00e1tios internos, onde se via dois talheres jogados, sujos, no ch\u00e3o, perto de um ralo. No primeiro momento, o fato \u00e9 atribu\u00eddo a um aluno, uma crian\u00e7a, ao que a coordenadora retruca dizendo que o local n\u00e3o \u00e9 um local onde os alunos comem ou circulam com comida etc. Certamente foi um adulto, um professor? A analista presente na reuni\u00e3o sugere que a foto seja levada para a reuni\u00e3o com os professores, colocada na tela, como mais um participante da reuni\u00e3o. Quando come\u00e7am a se perguntar o que era a foto, onde era, se era uma obra de arte, enfim, as mais diversas interpreta\u00e7\u00f5es, Revela-se a cena da foto, a quest\u00e3o que era um impasse, relativa ao comportamento inadequado de diversos professores, aparece retratada nessa foto e, ent\u00e3o, os participantes passam a falar de suas dificuldades em sala de aula, com os alunos, com a din\u00e2mica pedag\u00f3gica, falam da forma\u00e7\u00e3o pessoal, de receios, inexperi\u00eancias, e passam a propor formas de trabalhar em conjunto. Come\u00e7am a se questionar sobre como poderiam se ajudar mutuamente, fazer parcerias etc.<\/p>\n<p>Provocar as falas pela foto, uma imagem n\u00e3o muito clara ou definida, possibilitou que cada um pudesse trazer suas particularidades e enla\u00e7ar novos v\u00ednculos e solu\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; Mirta Fernandes \u2013 Cien RJ Fazer operar a din\u00e2mica inconsciente num espa\u00e7o multidisciplinar \u00e9 um desafio constante que vem sendo sustentado pela presen\u00e7a e pelo desejo do analista, e vem sendo autorizado pelo desejo e transfer\u00eancia da dire\u00e7\u00e3o da escola com a psican\u00e1lise. 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