{"id":5659771,"date":"2026-04-07T20:06:59","date_gmt":"2026-04-07T23:06:59","guid":{"rendered":"https:\/\/ciendigital.com.br\/?p=5659771"},"modified":"2026-04-09T10:29:30","modified_gmt":"2026-04-09T13:29:30","slug":"o-corte-entre-o-silencio-e-a-palavra-o-que-fazer-com-isso","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ciendigital.com.br\/index.php\/2026\/04\/07\/o-corte-entre-o-silencio-e-a-palavra-o-que-fazer-com-isso\/","title":{"rendered":"O corte entre o sil\u00eancio e a palavra: O que fazer com isso?"},"content":{"rendered":"<div class=\"pdfprnt-buttons pdfprnt-buttons-post pdfprnt-top-right\"><a href=\"https:\/\/ciendigital.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5659771?print=pdf\" class=\"pdfprnt-button pdfprnt-button-pdf\" target=\"_blank\" ><\/a><a href=\"https:\/\/ciendigital.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5659771?print=print\" class=\"pdfprnt-button pdfprnt-button-print\" target=\"_blank\" ><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/plugins\/pdf-print\/images\/print.png\" alt=\"image_print\" title=\"Conte\u00fado de impress\u00e3o\" \/><\/a><\/div><h6><em>Laborat\u00f3rio A crian\u00e7a e o jovem na hipermodernidade<sup>1<\/sup><\/em><\/h6>\n<p>O tema da automutila\u00e7\u00e3o foi trazido ao laborat\u00f3rio CIEN-Salvador por uma escola p\u00fablica situada em uma regi\u00e3o de alta vulnerabilidade social, que se viu diante do impasse de numerosos casos de automutila\u00e7\u00e3o entre os estudantes. A comunidade escolar se questionava: o que fazer com isso? A partir dessa demanda, que exasperava os educadores, foi poss\u00edvel instalar pontos de intersec\u00e7\u00e3o entre queixas e discursos, at\u00e9 ent\u00e3o marcados pela opacidade. As conversa\u00e7\u00f5es ocorreram com um grupo de 18 adolescentes, do sexto ao nono ano, em sua maioria meninas.<\/p>\n<p>A primeira conversa\u00e7\u00e3o teve seu pontap\u00e9 inicial com a provoca\u00e7\u00e3o: o que estamos fazendo aqui? Surgiram explica\u00e7\u00f5es: \u201cn\u00e3o sei. Por que tem muita gente se cortando? Porque ficam com o c\u00e3o no corpo\u201d. Aos poucos a palavra come\u00e7ava circular. Ana diz ter procurado a dire\u00e7\u00e3o da escola em busca de ajuda, mas segundo ela, eles n\u00e3o ouviam, n\u00e3o entendiam. Sempre apresentam um discurso pronto: \u201cparece coisa do Google, voc\u00ea tem que procurar Deus, sorria, fique bem. Como se fosse f\u00e1cil assim. Tratam a gente como objeto\u201d. Maria acrescenta: \u201cem casa acontece a mesma coisa. Minha m\u00e3e n\u00e3o me entende, n\u00e3o me ouve. Diz que na \u00e9poca dela n\u00e3o tinha nada disso\u201d.<\/p>\n<p>Ao meu lado, percebo um adolescente inquieto que, diante do convite \u00e0 fala, mostra uma foto com cortes profundos no bra\u00e7o. Relata que tem se cortado e que o padrasto tentou medic\u00e1-lo com um rem\u00e9dio do irm\u00e3o. Sua m\u00e3e diz que \u00e9 bobagem, que est\u00e1 imitando colegas. Sente-se irritado com o tom do padrasto e da m\u00e3e. Conta que, em uma das situa\u00e7\u00f5es, foi levado ao hospital, mas que l\u00e1 n\u00e3o tinham rem\u00e9dio para isso. Neste momento, o sil\u00eancio se coloca no espa\u00e7o. Surgem ent\u00e3o, relatos de sofrimento, viol\u00eancia e abuso sexual. Maria compartilha que sua melhor amiga havia se suicidado e que se interroga sobre o motivo.<\/p>\n<p>Esta foi minha primeira participa\u00e7\u00e3o nas conversa\u00e7\u00f5es do CIEN. Naquela noite, sonhei que procurava pela sa\u00edda de emerg\u00eancia, e entre tantas portas, escolhia aquela com o letreiro do \u201cn\u00e3o saber\u201d. As (im)possibilidades de interven\u00e7\u00e3o em um espa\u00e7o escolar ressoam: que efeitos o encontro com o discurso da psican\u00e1lise poderia produzir ali? Como situar as conting\u00eancias nesta face moebiana da psican\u00e1lise em extens\u00e3o? Teriam elas efeitos de forma\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p>Judith Miller indica que a pr\u00e1tica dos laborat\u00f3rios, ao sustentar um \u201csaber n\u00e3o saber\u201d, subverte discursos universalizantes que segregam e normatizam, pois se fazem surdos \u00e0s particularidades dos sujeitos em quest\u00e3o (Miller, 2007). As conversa\u00e7\u00f5es operam, portanto, um corte que, ao dar lugar ao que n\u00e3o pode ser dito, toma o adolescente em sua condi\u00e7\u00e3o de sujeito. Ao nos orientarmos pelo que Lacan enuncia como um \u201crep\u00fadio radical de um certo ideal do bem\u201d (Lacan, 1959\/60, p.274), abre-se espa\u00e7o para que novas inven\u00e7\u00f5es possam se inscrever a partir da recusa de respostas prontas ofertadas pelo discurso do mestre.<\/p>\n<p>Ao final de uma das conversa\u00e7\u00f5es Jean espera todos sa\u00edrem da sala e nos procura. Conta que briga muito e que havia deixado um adolescente desacordado. Diz que costuma esmurrar a parede e que tem sa\u00eddo de madrugada para correr na estrada. Diante do convite para que levasse suas quest\u00f5es para a conversa\u00e7\u00e3o, formula seu impasse com a quest\u00e3o: o que voc\u00ea faria se toda m\u00e1goa que sentisse se transformasse em \u00f3dio? Isso ressoa entre os adolescentes. Ao se servirem desta pergunta foi poss\u00edvel colocar em palavras aquilo que fazia quest\u00e3o: o que fazer com a raiva?<\/p>\n<p>Uma participante pontua: como deixar que isso se v\u00e1? Que n\u00e3o retorne a voc\u00ea? M\u00e1rcia se mostra espantada, diz nunca ter pensado nisso. \u201cFico no chuveiro, isso me acalma\u201d, diz Aline. \u201cEscrevo, canto, me bato com os outros no futebol, ou\u00e7o m\u00fasica\u201d. Cada um p\u00f4de inscrever ali sua forma singular de romper com aquele circuito doloroso. Os efeitos surgem para cada um, agora n\u00e3o mais pela via da automutila\u00e7\u00e3o, do retorno ao corpo, mas que se faz n\u00e3o sem o corpo. Vamos recolhendo no um a um, inven\u00e7\u00f5es singulares que se fizeram poss\u00edveis a partir da instala\u00e7\u00e3o deste impasse.<\/p>\n<p>Cabe destacar que as conversa\u00e7\u00f5es propostas pelo CIEN n\u00e3o se configuram como uma terap\u00eautica, pois n\u00e3o se trata de interpretar aqueles que delas participam (Arom\u00ed, 2023). Ao se orientar pela \u00e9tica psicanal\u00edtica, essa pr\u00e1tica sustenta uma aposta que n\u00e3o visa tamponar ou recobrir com sentido, mas, ao contr\u00e1rio, mant\u00e9m o mal-entendido, bordeando os limites da palavra. A partir dessa oferta, abre-se a possibilidade para que cada um se confronte com um \u201cquerer dizer\u201d (Ud\u00eanio, 2011) sobre pontos dolorosos que lhes tocam.<\/p>\n<p>No ano letivo seguinte, retornamos. Lara nos fala sobre seu desejo de se mudar de escola. Relatam sobre o que lhes t\u00eam feito quest\u00e3o por aqueles dias \u2013 naquela semana haviam anunciado poss\u00edveis ataques em escolas. Diante disso, L\u00e9ia observa temerosa: \u201ca porta de sa\u00edda \u00e9 a mesma da entrada\u201d. Jean mostra imagens de carros que se interessa.<\/p>\n<p>A exaspera\u00e7\u00e3o que organizava a escola cedeu lugar a um arrefecimento. Diante do desejo de falar, demandado pelos jovens, tornou-se poss\u00edvel sustentar uma aposta nos efeitos da fala. As urg\u00eancias por eles trazidas puderam se desdobrar, possibilitando uma tors\u00e3o que fez emergir, a posteriori, um novo impasse. Podemos, ent\u00e3o, nos questionar: quais os efeitos do discurso anal\u00edtico para estes jovens? Observamos que a partir da exaspera\u00e7\u00e3o, tornou-se poss\u00edvel que o adolescente pudesse advir. O encontro com a palavra propiciou um afrouxamento das identifica\u00e7\u00f5es mortificantes, permitindo a inven\u00e7\u00e3o de um saber-fazer com isso e, assim, possibilitando sair pela mesma porta de entrada.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h6><sup>1<\/sup> Participantes: Daniela Nunes Ara\u00fajo, Fernanda Dumet, Gislaine Andrade e M\u00e1rcia Ledo.<\/h6>\n<hr \/>\n<p><strong>REFER\u00caNCIAS<\/strong><\/p>\n<p><strong>AROM\u00cd, Anna. Um moebius lacaniano. <em>Cien Digital 25<\/em>, H\u00edfen. 2023. Dispon\u00edvel em &lt; https:\/\/ciendigital.com.br\/index.php\/2023\/03\/05\/um-moebius-lacaniano1\/&gt;<\/strong><\/p>\n<p><strong>BARROS, R. A. <em>Aqu\u00e9m do sintoma: dor cr\u00f4nica e inibi\u00e7\u00e3o<\/em>. 2018. Tese (Doutorado em Psicologia) \u2013 Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2018.<\/strong><\/p>\n<p><strong>Lacan, J. (1997). <em>O Semin\u00e1rio, livro 7: a \u00e9tica da psican\u00e1lise<\/em>. Rio de Janeiro: Jorge Zahar.<\/strong><\/p>\n<p><strong>Laurent, E. <em>Sociedade do sintoma<\/em>. RJ Contra Capa Livraria, 2007<\/strong><\/p>\n<p><strong>Miller, Judith. Por que um Boletim Eletr\u00f4nico do CIEN no Brasil? 2007. Dispon\u00edvel em &lt;https:\/\/ciendigital.com.br\/index.php\/textos-de-referencia\/&gt;<\/strong><\/p>\n<p><strong>MILLER, Judith. \u201cEditorial &#8211; Judith Miller nos diz o que \u00e9 o CIEN\u201d. <em>CIEN Digital<\/em>, n\u00ba 2, novembro de 2018. Dispon\u00edvel em: &lt;https:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/CIEN-Digital02.pdf&gt;<\/strong><\/p>\n<p><strong>SELDES, R. <em>La urgencia dicha<\/em>. Buenos Aires: Col\u00e9ccion Diva Ed., 2019.<\/strong><\/p>\n<p><strong>UDENIO, Beatriz. <em>O encontro com a palavra<\/em>. 2011.<\/strong><\/p>\n<p><strong>MILLER, Judith. \u201cEditorial &#8211; Judith Miller nos diz o que \u00e9 o CIEN\u201d.<em> CIEN Digital<\/em>, n\u00ba 2, novembro de 2018. Dispon\u00edvel em: https:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/CIEN-Digital02.pdf<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Laborat\u00f3rio A crian\u00e7a e o jovem na hipermodernidade1 O tema da automutila\u00e7\u00e3o foi trazido ao laborat\u00f3rio CIEN-Salvador por uma escola p\u00fablica situada em uma regi\u00e3o de alta vulnerabilidade social, que se viu diante do impasse de numerosos casos de automutila\u00e7\u00e3o entre os estudantes. 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