{"id":5659773,"date":"2026-04-07T20:09:48","date_gmt":"2026-04-07T23:09:48","guid":{"rendered":"https:\/\/ciendigital.com.br\/?p=5659773"},"modified":"2026-04-08T08:42:31","modified_gmt":"2026-04-08T11:42:31","slug":"a-escola-teria-uma-fantasia-sobre-os-corpos-pretos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ciendigital.com.br\/index.php\/2026\/04\/07\/a-escola-teria-uma-fantasia-sobre-os-corpos-pretos\/","title":{"rendered":"A escola teria uma fantasia sobre os corpos pretos?"},"content":{"rendered":"<div class=\"pdfprnt-buttons pdfprnt-buttons-post pdfprnt-top-right\"><a href=\"https:\/\/ciendigital.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5659773?print=pdf\" class=\"pdfprnt-button pdfprnt-button-pdf\" target=\"_blank\" ><\/a><a href=\"https:\/\/ciendigital.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5659773?print=print\" class=\"pdfprnt-button pdfprnt-button-print\" target=\"_blank\" ><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/plugins\/pdf-print\/images\/print.png\" alt=\"image_print\" title=\"Conte\u00fado de impress\u00e3o\" \/><\/a><\/div><p>&nbsp;<\/p>\n<h6><em>Laborat\u00f3rio A Escola e Suas Cores<\/em><\/h6>\n<p>Nas escolas, quando algo atrapalha os processos educativos, aluno-problema \u00e9 uma das variadas formas de nomear algo da impossibilidade de educar completamente. O professor, nessa trama, fica no lugar daquele que precisa resolver esse problema e, de algum modo, responder \u00e0 institui\u00e7\u00e3o trazendo solu\u00e7\u00f5es. O lugar da escola como forma\u00e7\u00e3o permite, a cada etapa, novas inser\u00e7\u00f5es nos espa\u00e7os sociais, seja no grau do ensino, seja nas pr\u00e1ticas de trabalho. A escola ent\u00e3o tem responsabilidade, responde a algum processo da vida social. Nessa articula\u00e7\u00e3o que passa pela transmiss\u00e3o de algum saber, o racismo atravessa e destaca n\u00e3o s\u00f3 a cor, mas uma l\u00f3gica que tensiona o comum, deixa aparecer a diferen\u00e7a e algo do insuport\u00e1vel se escancara.<\/p>\n<p>Fantasia e sonho \u00e9 por onde passa nossa discuss\u00e3o deste ano no CIEN-MG e, nosso Laborat\u00f3rio, A Escola e Suas Cores, se pergunta acerca da escola e a fantasia sobre os corpos pretos. A fantasia \u00e9 um recurso simb\u00f3lico, uma ferramenta para lidar com a realidade. Ela \u201ctem estrutura de fic\u00e7\u00e3o, ela d\u00e1 forma ao imposs\u00edvel da rela\u00e7\u00e3o sexual\u201d. \u00c9 um modo de lidar com a falta no Outro e ler o mundo.<\/p>\n<p>N\u00e3o enxergar a cor n\u00e3o soluciona o problema das rela\u00e7\u00f5es raciais, elas s\u00e3o como as lentes dos \u00f3culos, n\u00e3o a percebemos o tempo inteiro, mas est\u00e3o operando, como uma pel\u00edcula. Em uma conversa\u00e7\u00e3o do Laborat\u00f3rio numa escola de Belo Horizonte que, a partir de uma demanda. para trabalhar o Novembro Negro em 2021, uma professora disse no primeiro encontro: \u201ceu tive esse problema de racismo em outra escola e n\u00e3o soube o que fazer\u201d, ainda angustiada, \u201cuma crian\u00e7a chega at\u00e9 a mim e diz: \u2018professora, a M. me chamou de preta\u2019 foi muito ruim e fiquei sem saber o que fazer, a\u00ed eu coloquei todas as meninas em roda e fui perguntando o nome de cada<br \/>\numa delas e elas foram falando e fui dizendo que todos t\u00eam um nome\u201d outra professora preta afirma imediatamente: \u201cn\u00f3s temos nome, mas, tamb\u00e9m temos cor\u201d.<\/p>\n<p>O letramento racial, como instrumentaliza\u00e7\u00e3o para pensarmos as rela\u00e7\u00f5es raciais no Brasil, pode nos ajudar a ler a fantasia sobre os corpos pretos, temos uma hist\u00f3rico colonial e isso tem consequ\u00eancias. Freud nos direciona a observar que a cl\u00ednica n\u00e3o est\u00e1 desvinculada do social, isso nos convoca a ter uma leitura sobre o sujeito tamb\u00e9m fora dos consult\u00f3rios ap\u00f3s fecharmos a porta.<\/p>\n<p>Marcus Andr\u00e9 Vieira em seu texto sobre culpa, temor e piedade, escreve: \u201cPodemos sofrer verdadeiro p\u00e2nico ao temer uma apari\u00e7\u00e3o que, descolada de qualquer sentido, coloca, num instante, o mundo em desordem. Falta ao medo a caracter\u00edstica maior da ang\u00fastia, pois o sujeito n\u00e3o \u00e9 nem tomado, nem interessado nesse mais \u00edntimo de si mesmo, mas sim reage a uma encarna\u00e7\u00e3o do objeto no outro.\u201d Se s\u00e3o os sujeitos que possibilitam a institui\u00e7\u00e3o escola acontecer, para al\u00e9m da rela\u00e7\u00e3o professor-aluno, ao corpo escolar tamb\u00e9m ser\u00e1 importante pensar o mundo que construiu e do que se trata essa desordem. As rela\u00e7\u00f5es raciais \u00e9 uma janela que l\u00ea o mundo, que est\u00e1 sobre o corpo preto e tamb\u00e9m o corpo branco.<\/p>\n<p>Qual a fantasia das escolas brasileiras, elas reproduzem a l\u00f3gica colonial? Numa experi\u00eancia com uma outra escola que recebe alunos bolsistas, uma coordenadora pergunta como fazer com o aluno para que ele aprenda alem\u00e3o sendo que n\u00e3o aprendeu nem o ingl\u00eas. Do que se trata esse pr\u00e9-requisito, por onde passa que o ingl\u00eas \u00e9 necess\u00e1rio para aprender outra l\u00edngua?<\/p>\n<p>Se \u00e9 do campo da impossibilidade a rela\u00e7\u00e3o sexual, seria essa tentativa da escola de fazer do aprendizado do ingl\u00eas antecessor necess\u00e1rio ao aprendizado do alem\u00e3o uma tentativa ideal de significante totalizador? Seria ent\u00e3o esse significante totalizador, \u201csignificantes plenos de todos os sentidos do mundo\u201d o que poderia operar na constitui\u00e7\u00e3o de uma escola? Esse sonho de fus\u00e3o para fazer existir o amor a partir de significantes-mestres, tamb\u00e9m n\u00e3o seria um sonho colonizador?<\/p>\n<p>Teria o aluno negro na din\u00e2mica do mundo da escola uma dimens\u00e3o de erro, como aquele que veicula uma impropriedade? O caso recente do jovem, gay e negro, que se suicidou ap\u00f3s sofrer bullying numa escola de S\u00e3o Paulo parece evidenciar algo que a escola n\u00e3o quer se implicar. Quando uma resposta do ex-diretor foi dizer que<br \/>\na Escola n\u00e3o \u00e9 cl\u00ednica de psicologia, que os alunos bolsistas s\u00e3o agressivos e a posi\u00e7\u00e3o da escola foi rever a parceria com a ONG por onde recebia os bolsistas, podemos ler aqui alguma dimens\u00e3o de verdade veiculada a partir de um erro? \u201cO erro diz respeito, portanto, a um significante que \u00e9 o \u201cn\u00e3o poder ser\u201d. Pode provocar o desprezo, a deprecia\u00e7\u00e3o, a necessidade apaixonada de exclu\u00ed-lo da s\u00e9rie, de elimin\u00e1-lo. Este \u00e9 o fundamento do \u00f3dio\u201d.<\/p>\n<p>Qual a ideia de uma escola? Daniel Roy tem uma orienta\u00e7\u00e3o importante: Seja nos tratamentos que conduzimos ou nas institui\u00e7\u00f5es em que acolhemos e acompanhamos crian\u00e7as, \u00e9 nossa e das crian\u00e7as a oportunidade de se deslocar nos discursos de domina\u00e7\u00e3o que buscam assujeitar as crian\u00e7as. E por que n\u00e3o assujeitar os trabalhadores da escola? Os discursos de domina\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m n\u00e3o passariam pelos porteiros das escolas, pelas pessoas que fazem a escola funcionar fora das salas de aula e dos professores? L\u00e9lia Gonzalez usa do significante naturalmente que estaria no imagin\u00e1rio sobre um corpo negro, malandro quando n\u00e3o trabalha, naturalmente ladr\u00e3o, mulher negra naturalmente cozinheira, faxineira.<\/p>\n<p>O trabalho com uma escola parece poss\u00edvel quando deslocamos do mundo de domina\u00e7\u00e3o para fazer permear o objeto a, dar lugar para a falta. H\u00e1 uma falta tamb\u00e9m do lado da escola, isso pode ser um operador importante, quando no momento de receber um aluno n\u00e3o se trata apenas de receber suas perguntas gabaritadas mas aquelas que surgem a partir do singular que cada um carrega consigo e com seu corpo.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; Laborat\u00f3rio A Escola e Suas Cores Nas escolas, quando algo atrapalha os processos educativos, aluno-problema \u00e9 uma das variadas formas de nomear algo da impossibilidade de educar completamente. O professor, nessa trama, fica no lugar daquele que precisa resolver esse problema e, de algum modo, responder \u00e0 institui\u00e7\u00e3o trazendo solu\u00e7\u00f5es. O lugar da escola&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[144],"tags":[],"post_series":[],"class_list":["post-5659773","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-cien-digital-26","entry","no-media"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/ciendigital.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5659773","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/ciendigital.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/ciendigital.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ciendigital.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ciendigital.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=5659773"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/ciendigital.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5659773\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":5659859,"href":"https:\/\/ciendigital.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5659773\/revisions\/5659859"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/ciendigital.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=5659773"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/ciendigital.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=5659773"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/ciendigital.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=5659773"},{"taxonomy":"post_series","embeddable":true,"href":"https:\/\/ciendigital.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/post_series?post=5659773"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}