{"id":5659775,"date":"2026-04-07T20:14:47","date_gmt":"2026-04-07T23:14:47","guid":{"rendered":"https:\/\/ciendigital.com.br\/?p=5659775"},"modified":"2026-04-08T08:45:08","modified_gmt":"2026-04-08T11:45:08","slug":"por-ter-sido-sonhado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ciendigital.com.br\/index.php\/2026\/04\/07\/por-ter-sido-sonhado\/","title":{"rendered":"Por ter sido sonhado"},"content":{"rendered":"<div class=\"pdfprnt-buttons pdfprnt-buttons-post pdfprnt-top-right\"><a href=\"https:\/\/ciendigital.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5659775?print=pdf\" class=\"pdfprnt-button pdfprnt-button-pdf\" target=\"_blank\" ><\/a><a href=\"https:\/\/ciendigital.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5659775?print=print\" class=\"pdfprnt-button pdfprnt-button-print\" target=\"_blank\" ><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/plugins\/pdf-print\/images\/print.png\" alt=\"image_print\" title=\"Conte\u00fado de impress\u00e3o\" \/><\/a><\/div><p>&nbsp;<\/p>\n<h6><em>Laborat\u00f3rio Encontro dos Saberes<\/em><\/h6>\n<blockquote><p>\u201cToda l\u00edngua \u00e9 um recife de met\u00e1foras abandonadas\u201d<\/p><\/blockquote>\n<p><em>Guy Deutscher<\/em><\/p>\n<p>Uma das integrantes do Laborat\u00f3rio recebe um e-mail com a seguinte demanda: <em>\u201cSou gestora em uma unidade escolar.\u00a0A comunidade escolar \u00e9 em sua maioria carente. Muitas crian\u00e7as t\u00eam problemas familiares. Isso est\u00e1 repercutindo na escola em um processo de muita viol\u00eancia, das mais diversas manifesta\u00e7\u00f5es de viol\u00eancia. Pensei em fazer grupos de conversas principalmente com os adolescentes. Acho que eles precisam muito de algu\u00e9m que escute e possa conversar sobre sentimentos e realidades.\u201d<\/em><\/p>\n<p>Agendada a conversa, o Laborat\u00f3rio Encontro de Saberes- CIEN\/SC escuta a diretora e coordenadora pedag\u00f3gica de uma Escola P\u00fablica cujo impasse se localiza no <em>\u201cn\u00e3o sabemos mais o que fazer\u201d<\/em>. Ponto do \u201cn\u00e3o saber\u201d que provoca a abertura de queixas de professores, coordena\u00e7\u00e3o e dire\u00e7\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o aos alunos &#8211; <em>\u201cest\u00e3o muito agressivos\u201d<\/em>. A sala de espera da diretoria sempre movimentada pela presen\u00e7a de alunos encaminhados pelos professores e que \u201cn\u00e3o sabem o que fazer\u201d com os estudantes que ofendem, batem nos colegas. Conflitos que n\u00e3o recebem uma media\u00e7\u00e3o em sala de aula e desembocam na sala de espera da diretoria para receberem a \u201cdevida repreens\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>Diante desse quadro, a diretora demanda ao Laborat\u00f3rio conversa\u00e7\u00f5es com os alunos do 7\u00ba ano. Duas turmas que, pensando nas agress\u00f5es relatadas, s\u00e3o as que mais solicitam interven\u00e7\u00f5es da equipe de educadores.<\/p>\n<p>Importante salientar que esta escola possui profissionais que at\u00e9 pouco tempo n\u00e3o faziam parte desse cen\u00e1rio, s\u00e3o eles: o seguran\u00e7a que fica nos port\u00f5es das escolas e o policial militar dentro da institui\u00e7\u00e3o. Isso \u00e9 resultado depois da promulga\u00e7\u00e3o de uma Lei implementada depois de um ataque ocorrido em uma creche numa cidade do interior do Estado, no ano 2023, onde algumas crian\u00e7as foram mortas.<\/p>\n<p>De cinco conversa\u00e7\u00f5es propostas pelo CIEN, na primeira foi poss\u00edvel fazer circular a palavra junto aos alunos que se identificavam como \u201ca turma que \u00e9 silenciada\u201d, que n\u00e3o pode falar. Em meio a muitos \u201ccala boca\u201d, gritos, n\u00e3o ouvir os colegas na conversa\u00e7\u00e3o, foi poss\u00edvel perguntar: <em>quem n\u00e3o pode falar aqui?<\/em>\u00a0 No barulho da turma que se nomeia \u201c<em>n\u00e3o somos ouvidos\u201d<\/em>, algo que incomoda emerge na conversa\u00e7\u00e3o e algu\u00e9m pergunta &#8211; \u201c<em>O que a Sra. acha de quem fala mal da gente?<\/em>\u201d, uma integrante do Laborat\u00f3rio interv\u00e9m \u201cO que \u00e9 falar mal?\u201d, com a palavra circulando uma hip\u00f3tese aparece &#8211; \u201c<em>falar mal do outro significa que n\u00e3o conhecem a gente\u201d. <\/em><\/p>\n<p>Falar dos nomes de cada um aparece nessa conversa\u00e7\u00e3o, e num movimento de ser nomeado &#8211; Maria, Jos\u00e9, Jo\u00e3o, etc, assim conhecemos o outro, recebemos um nome e nos identificamos. Como nos apresenta Nohem\u00ed Brown (2024), \u201cOs corpos afetados por significantes que s\u00e3o oferecidos pelos discursos, que podem, por um lado, deles receber uma nomea\u00e7\u00e3o ou uma identifica\u00e7\u00e3o, mas, por outro, estarem a eles submetidos\u201d.<\/p>\n<p>Ulisses, um dos alunos, na conversa\u00e7\u00e3o, relata como foi escolhido seu nome. Ulisses quer falar, mas \u00e9 calado, pois segundo seus colegas &#8211; \u201c<em>ele fala muito<\/em>\u201d. Na conversa\u00e7\u00e3o a boca \u00e9 silenciada pela m\u00e3o de uma colega que se senta ao lado. Mesmo assim, ele fala &#8211; <em>\u201cfoi minha tia que sonhou que minha m\u00e3e estava gr\u00e1vida de um menino que iria se chamar Ulisses, e que ele teria a miss\u00e3o de salvar a fam\u00edlia\u201d. <\/em>Ulisses da Odisseia, para n\u00e3o escutar o canto das sereias, foi amarrado ao mastro do navio para poder escut\u00e1-las e ao mesmo tempo n\u00e3o ser atra\u00eddo por elas e correr o risco de morrer no seu regresso a \u00cdtaca. Nesta passagem da Odisseia escutar o canto era morrer. Quem Ulisses deve salvar? A turma, a escola, a fam\u00edlia, ele mesmo&#8230; Do significante \u201cviol\u00eancia\u201d, o que emerge \u00e9 n\u00e3o poder falar, e sim calar, na figura do Ulisses que vai salvar a todos.<\/p>\n<p>Se as crian\u00e7as s\u00e3o faladas pelos Outros, fam\u00edlia, escola, medicina, religi\u00e3o, podemos dizer que tamb\u00e9m s\u00e3o sonhadas. O discurso de ser sonhado e nomeado sustenta o la\u00e7o social e possibilita o v\u00ednculo com o Outro. O discurso sendo da ordem do significante, pode afetar o corpo, pode ser \u201cviolento\u201d, como a turma desta escola, por\u00e9m algo pode escapar, que n\u00e3o se domina, quando se introduz o lugar do dizer, o discurso anal\u00edtico.<\/p>\n<p>Em uma conversa\u00e7\u00e3o, os sonhos aparecem como forma de desejos, \u201cser\u201d \u201cou vir a ser\u201d postos em palavras como: <em>\u201cquero ser pastor\u201d, \u201cfutebolista\u201d, \u201cn\u00e3o sei\u201d, \u201cm\u00e9dica\u201d<\/em>, medos, desejos se misturam na conversa\u00e7\u00e3o. O uso dos sonhos no discurso enquanto um desejo de realiza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A escola faz parte da pr\u00e1xis no mundo contempor\u00e2neo. Nela, transitam os sonhos e as fantasias de crian\u00e7as, adolescentes, adultos. A singularidade permeia cada um deles nas conversa\u00e7\u00f5es que realizamos. Demandados pelo significante \u201cviol\u00eancia\u201d fomos convocadas na localiza\u00e7\u00e3o do mal-estar. Se, num primeiro momento, o mal-estar vem nomeado pela escola, atrav\u00e9s de uma demanda que n\u00e3o \u00e9 dos alunos, quando s\u00e3o convidados a falar, cada um tem a chance de nomear, \u00e0 sua maneira, o mal-estar.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s uma reuni\u00e3o de Conselho de Classe, na qual participaram estudantes, professores e os pais, os alunos afirmam que est\u00e3o \u201cincomodando menos uns aos outros\u201d.<\/p>\n<p>Realizadas as conversa\u00e7\u00f5es com os alunos, retornamos a diretora e ela diz que as salas est\u00e3o mais tranquilas e demanda conversa\u00e7\u00f5es com os professores. Com os profissionais o que aparece \u00e9 um tensionamento nas rela\u00e7\u00f5es entre eles: <em>\u201cn\u00e3o ser acolhida\u201d, \u201cagress\u00e3o nas palavras dos colegas\u201d, \u201cfalta de empatia\u201d<\/em>. E o corte na conversa\u00e7\u00e3o ocorre depois da fala do professor que aponta que a agress\u00e3o est\u00e1 entre os colegas professores. Podemos pensar aqui no significante \u201cviol\u00eancia\u201d dentro da institui\u00e7\u00e3o escolar. Numa segunda conversa\u00e7\u00e3o o que emerge \u00e9 \u201c<em>ficar ou n\u00e3o ficar\u201d<\/em> nesse lugar de educadores, sustentar uma \u201cescolha\u201d profissional. Submetidos pelo discurso da educa\u00e7\u00e3o, <em>sonham<\/em> educar.<\/p>\n<p>A aposta na palavra como algo que visa ir al\u00e9m, na tentativa de se deparar com aquilo que n\u00e3o faz sentido, abre uma via de acesso ao singular de cada um, fazendo com que os sujeitos possam se escutar e se surpreender com o que falam. Como nos aponta Roy, \u00e9 dar oportunidade as crian\u00e7as e adolescentes de se deslocarem nos discursos de domina\u00e7\u00e3o que buscam assujeit\u00e1-las.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; Laborat\u00f3rio Encontro dos Saberes \u201cToda l\u00edngua \u00e9 um recife de met\u00e1foras abandonadas\u201d Guy Deutscher Uma das integrantes do Laborat\u00f3rio recebe um e-mail com a seguinte demanda: \u201cSou gestora em uma unidade escolar.\u00a0A comunidade escolar \u00e9 em sua maioria carente. Muitas crian\u00e7as t\u00eam problemas familiares. 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